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2008 começa
com novo escândalo
Como era de
se esperar num governo pródigo em escândalos, 2008 não poderia começar de
maneira diferente. De novo a utilização indevida de dinheiro público e, de
novo, os protestos de que se trata de uma “conspiração da mídia conservadora
e golpista”, de que “no Brasil sempre se fez assim”, de que “este é o
governo mais ético do mundo e da história” ou, no limite, às portas da
metade do segundo mandato, de que “a oposição está tentando fazer um novo
terceiro turno da eleição presidencial”. Mais uma vez, perdem a noção de
ridículo e insultam a inteligência do brasileiro médio, talvez não sem
razão, pois sabem o tipo de educação e cultura que vêm plantando por aqui.
O caso
dos cartões
Há tempos
circulam pela Internet, através de e-mails e páginas diversas, avisos, por
vezes vagos, por vezes fantasiosos, mas sempre preocupantes acerca do mau
uso dos cartões de crédito concedidos a alguns milhares de funcionários,
pagos com recursos públicos para gastos diversos sem regras claras e
praticamente sem fiscalização.
O vagalhão
cresce com a queda de uma ministra (Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial
de Política da Promoção da Igualdade), campeã em gastos pessoais pagos
através daquela modalidade. “Foi mal assessorada, mal orientada” e demitiu
dois de seus assessores antes de pedir demissão. Os ministros da pesca,
Altemir Gregolin segundo no ranking de gastos e Orlando Silva de Jesus, dos
esportes, terceiro em gastos na modalidade, com alguns aspectos folclóricos
e tragicamente humorísticos, prestaram explicações incríveis, mas
verossímeis: foram “orientados a usar assim” o cartão além de se empenhar em
justificar despesas que tiveram com itens banais do cotidiano, seja porque
“confundiram seu cartão pessoal com o cartão do governo”, seja tentando
justificar a despesa e, no limite, devolvendo uns trocados aos cofres
públicos. O que provocaria a demissão sumária ou o suicídio de autoridades
em outras paragens, por aqui é retificado com uma mísera “entrevista
coletiva” amarrada, restrita e na qual se enfatiza a distância da autoridade
do comum dos mortais ou com a devolução do produto da malversação aos cofres
públicos.
Começam as discussões e debates bizantinos, enlouquecidos
e empobrecidos que, de meados da década de 90 para cá, reduziram o Brasil a
duas facções rivais e idênticas em muitos pontos; seu cerne: quem gastou
mais? Lula ou FHC?
FHC já não preside o Brasil desde o ano 2002 e, se também
foi culpado de erros nos gastos públicos (o que não é de se duvidar, por
sinal) mal fez a oposição a ele, que levou 6 anos para pensar em vislumbrar
a hipótese de investigá-lo somente porque foi surpreendida, agora na
situação, cometendo os delitos de que acusa o governo passado. É monótono,
eu sei, e talvez faça parte da estratégia lulo-petista: “o governo Lula
comete erros e crimes? Mas FHC fazia a mesma coisa...” repetem a cada
escândalo. Presumindo-se que seja verdade, o que não é de se duvidar, o erro
do passado justifica os erros presentes?
Presidência da República gasta muito – governo responde: “tu quoque!”
Enquanto o
escândalo se limitou ao primeiro escalão, o silêncio característico de Lula
da Silva se impunha. Ao se revelarem alguns dos gastos da Presidência da
República, seja através dos assessores, seja através do aparato de segurança
dedicado até à prole de Sua Excelência, constituiu-se uma tróica de
dirigentes para responder à imprensa: ministra Dilma Roussef, da Casa Civil,
ministro Franklin Martins, da Secretaria de Comunicação Social e o ministro
chefe do Gabinete de Segurança Institucional, General Jorge Félix.
A primeira
sensação foi de desconforto: aquelas personalidades representavam pólos
opostos na política brasileira, ao tempo em que o risco de vida nos embates
políticos era bem maior do que o atual (a vítima política mais notável de
Lula da Silva foi o prefeito de Santo André, cuja família buscou – e obteve
– asilo político na França). Quando os brasileiros lutavam contra a ditadura
militar, Dilma e Franklin estavam de um lado e o General Félix,
presumivelmente, de outro.
O general
estava desconfortável, fora de seu meio, e proferia frases infelizes. Como o
que está em questão não é a competência ou a capacidade de comunicação do
chefe de todos os seguranças da Presidência da República e familiares de Sua
Excelência, mas o mau uso dos cartões, de que o general parecia ouvir falar
pela primeira vez, a ministra Dilma Roussef, outrora guerrilheira, hoje
chefe do general, hegemonizou a entrevista com aquele tom raivoso e
burocrático que todo o funcionário público pego em malfeitorias se fecha e
tenta se proteger. Tampouco conseguiu ultrapassar o lugar-comum: gastar
dinheiro público em benefício próprio “fere o princípio da impessoalidade”.
O cartão “permite mais transparência” e “quem errou tem de pagar”. Numa
entrevista amarrada, intimidatória e bruscamente encerrada, a maioria dos
jornalistas quedou-se amedrontada e silente, como se a cada pergunta
correspondesse uma ameaça velada do governo ao questionador e, ao final, a
revelação da estratégia governamental: está aberta a temporada de caça aos
malversadores do dinheiro público em suas esferas municipal, estadual,
autárquica e federal. O governo Lula da Silva determina a abertura de uma
CPI que investigue tudo acerca de todo o mundo em todas aquelas dimensões,
de 1998 até 2008, ou seja, numa CPI projetada para se perder na montanha de
complicações e não apresentar resultado algum, particularmente porque
hegemonizada pelo governo que investiga a si mesmo, mas quer investigar
todos os outros.
Não se
revelou, neste episódio específico, um funcionário de alguma prefeitura do
interior de algum estado rasurando notas fiscais; o problema é bem outro,
limitado e a ele deve-se ater a atenção de quem deve investigar: o mau uso
dos cartões de crédito corporativo do governo federal.
CPMF e
Orçamento Geral da União
Com as
negociações e negociatas acontecidas ao final do ano legislativo de 2007,
com vistas à manutenção do imposto sobre o cheque, chamado de “CPMF” o ano
pode ser dado findo sem a votação do Orçamento Geral da União para o ano
seguinte, fato se não inédito, muito raro no Brasil.
Que o
debate entre os congressistas em torno da votação do Orçamento aconteça num
momento em que se investiga de que maneira o governo Lula da Silva emprega
os impostos e o encontra sob suspeição seguramente dificultará muito o
andamento dos trabalhos.
Lula dá o
exemplo: carne argentina é melhor que a brasileira
Um dado que
chama a atenção são os gastos em carne para a cozinha do Palácio do
Planalto: carne só importada da Argentina; nada do produto similar nacional.
E isto precisamente no momento em que os exportadores de carne brasileira se
juntam para persuadir a União Européia acerca da excelência do nosso
produto. Se conseguirão ou não é ainda uma incógnita. O consumidor europeu é
livre e tem consciência disso, inclusive para colocar sob suspeição um
produto que sequer o Presidente da República do Brasil consome...
Lázaro Curvêlo
Chaves – 11/02/2008
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