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A alma do
caso – Janio de Freitas
Há quatro meses, pode-se dizer, Renan Calheiros é assunto
predominante na vida nacional. O caos nos aeroportos em julho e a tragédia
de Congonhas pareceram destituí-lo, mas rivalizaram sem a mesma força para
resistir à voracidade do tempo. Renan Calheiros permanece, sobranceiro, como
assunto central, apesar de todos os dias posto pelo noticiário na iminência
de licenciar-se, já que não se submeteu às notícias anteriores de sua
renúncia iminente, sempre "segundo interlocutores". Algum sentido há de
existir nisso tudo, muito mais forte do que a mecânica de interesses que
junta 46 votos.
Renan Calheiros não é um político importante. Não tem
liderança, não tem a expressão própria dos que detêm influência real no
conjunto da política. Para pô-lo no seu tamanho não é preciso compará-lo com
a expressão de Ulysses Guimarães ou Tancredo Neves, é suficiente notar que
não lidera sequer uma corrente no partido.
Renan Calheiros não tem importância própria como
presidente do Senado. Nessa condição, nada o favorece se comparado a seus
recentes antecessores José Sarney e Antonio Carlos Magalhães. Desempenha, no
cargo, os papéis que lhe encomendam na Presidência da República, o que não
requer, na acomodação preguiçosa do Senado, mais do que alguma esperteza
manipuladora. No dia-a-dia interno, nem uma palavra de inovação, nem um
gesto parlamentar inteligente e superior, a distingui-lo do simples cuidado
em não incomodar os privilégios e, na moita, aprimorá-los.
E, no entanto, é esse político assim minúsculo que se
mantém há quatro meses como assunto predominante da vida nacional. Mas
claro, não poderia ser de outro modo: a soma dos ingredientes que criaram e
mantêm o caso Renan Calheiros é uma porção, no seu estado mais puro,
extraída da mediocridade em que o país mergulha, como se preso em areia
movediça. É a mediocridade da mediocridade.
Rota
De Madri, Lula volta a perturbar a geografia, com a
repetição, agora enriquecida, do aviso de que vai "dizer ao amigo Bush [...]
não vamos admitir que a crise [dos Estados Unidos] atravesse o Atlântico e
venha nos perturbar". É melhor não dizer. Se ela atravessar o Atlântico, não
nos perturba. Vai bater na Europa.
Ponto
final
O recurso judicial dos clubes Militar, Naval e da
Aeronáutica, contra a promoção pós-morte de Carlos Lamarca e a indenização à
sua família, é uma iniciativa que não merece restrições, exceto as de que
possam ocorrer no Judiciário.
O apreço pela Justiça não figura entre as tradições
militares brasileiras mais nítidas, como atesta o destino de sucessivas
Constituições democráticas. Sem que chegue a ser propriamente novidade, o
recurso atual é a aceitação das regras vigentes acima de ímpetos que, mesmo
sem as transgredirem de todo, poderiam querer desgastá-las. Foi o que se viu
em vários pronunciamentos, inclusive do Comando do Exército a propósito do
aniversário do golpe de 64. A Justiça dirá o que deve ser ouvido sobre a
promoção e, espera-se, ponto final.
* Originalmente
publicado na Folha de S. Paulo dia 18/09/2007
Arquivo de Artigos Semanais, Sociologia, Filosofia, Psicologia, Ensaios Críticos
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