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O Renascimento

         Engels, em sua vasta obra, informa que em momentos de grave crise histórica a humanidade produz gênios. O Renascimento pode ser compreendido a partir deste principio, uma vez tratar-se de momento gravíssimo de crise terminal do Modo de Produção Feudal.

         A nova ética, a nova moral da burguesia, enfim, exigia o fim do cavalheirismo medieval. Exigia personagens capazes de simular serem o que não são, de dissimular serem o que são, capazes, enfim, de erigir o blefe, a fraude e a pecúnia como seus tópicos principais de comportamento e adoração.

         O Homem do Renascimento, segundo Agnes Heller, era aquele que se comportava de acordo com as frases de Shakespeare ou Leonardo da Vinci, como:

 

“Posso sorrir, e matar enquanto sorrio,
E proclamar-me feliz com o que me aflige o coração,
Molhar as minhas faces com lágrimas fingidas
E acomodar a minha cara a todas as ocasiões...
Posso acrescentar cores ao camaleão,
Mudar de forma mais depressa que Proteu
E mandar para a escola o sanguinário Maquiavel!”

Ricardo II, Ato 3, Cena 5

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“Vede aqueles que podem ser chamados
Simples condutores de comida,
Produtores de estrume, enchedores de latrinas,
Pois deles nada mais se vê no mundo
Nem qualquer virtude se observa no seu trabalho,
Nada deles restando além de latrinas cheias”
 
Anotações, Leonardo da Vinci

 

         Percebe-se que, além de ser capaz de simular, dissimular, mentir e atraiçoar o homem dos novos tempos burgueses – que seguem até nossos dias de profunda decadência da própria burguesia até por esgotamento – deveria ser capaz de obter fama e fortuna em vida, o que seria impensável durante o feudalismo. A seguir o pensamento do genial Leonardo da Vinci, era preciso deixar a sua marca na história, fosse em que campo da existência fosse. Somente era criticado aquele que nada mais fazia do que trabalhar, comer, dormir e, no máximo, reproduzir-se, coisa que outros animais são capazes de fazer – o que enfatiza o humanismo renascentista.

 

Origens

 

 

         Giorgio Vasari (1511 – 1574), italiano nascido na cidade de Arezzo, publicou em 1550 um importante livro sobre os artistas plásticos de sua época, com o longo título Vida dos mais excelentes pintores, escultores e arquitetos italianos, desde Cimabue até a nossa época. Em sua opinião, a partir da queda de Roma (476), a cultura e a arte entraram em decadência, “renascendo” somente por volta de 1250. Vasari identificou três fases no que concebia como Renascimento artístico. Na primeira fase situava Giotto, pintor nascido em 1267 e morto em 1337. Na segunda fase, considerou como figura mais emblemática o pintor Masaccio (1401 – 1428) e na terceira fase, a mais importante das três, deu merecido destaque a Leonardo da Vinci (1452 – 1519), Rafael d’Anunzio (1483 – 1520) e Michelangelo Buonarotti ( 1475 – 1564). Essas três fases são denominadas pelos italianos Trecento, Quatrocento e Cinquecento, respectivamente.

 

         Vasari foi talvez o primeiro estudioso a empregar o termo Renascimento para descrever o florescimento artístico-cultural da Itália dos séculos XV e XVI. Usado para identificar não apenas as criações artísticas na pintura, como todo o movimento então ocorrido, como a literatura e a ciência, que tomava como modelo e inspiração a cultura da Antiguidade Clássica.

         Enquanto o pintor italiano Giotto renovava as artes plásticas com suas obras, o poeta e escritor italiano Francisco Petrarca (1303 – 1374) destacava-se como iniciador do humanismo. Não por coincidência, ambos anunciavam uma importante mudança no campo da cultura, denominada pelos historiadores, seguindo a tradição iniciada por Vasari, Renascimento Cultural.

 

 

O Humanismo

 

         “Que obra de arte é o homem: tão nobre no raciocínio; tão vário na capacidade; em forma e movimento, tão preciso e admirável, na ação é como um anjo; no entendimento é como um Deus; a beleza do mundo, o exemplo dos animais.”

Hamlet, William Shakespeare

 

         Revolucionária observação, que conclama a um antropocentrismo em contrapartida ao teocentrismo que grassou por cerca de um milênio na Europa Ocidental. O Homem é a peça-chave, o Homem é inclusive comparado ao Todo-Poderoso já no sentido de colocar a nova mundividência em vigor.

         Quando propôs uma nova periodização da História européia, Petrarca também tinha em mente a idéia de renascimento. Ele chamava de Antiguidade ao período que termina com a conversão do imperador Constantino ao Cristianismo (337). O período seguinte constituía uma nova era, que Petrarca chamou de Moderna, e estendia-se até a época em que ele vivia (século XIV). O termo Moderno, contraposto a Antiguidade, tinha então uma conotação negativa... Com o tempo, contudo, Moderno foi se associando ao renascimento da cultura antiga e acabou ganhando um significado “positivo”. Sendo a época Moderna aquela em que os valores antigos estavam renascendo, firmou-se a idéia de que o período compreendido entre aqueles dois extremos constituía a época Média, a que estava no meio de duas épocas brilhantes: a Antiga e a Moderna. Idade Moderna, assim, veio a transformar-se praticamente em sinônimo de Renascença.

         Petrarca considerava sua época como o final de um “tempo obscuro”, de uma “Idade das Trevas”, iniciado com a decadência do Império Romano. Em comparação com a época dos antigos gregos e romanos, plena de realizações culturais, a Idade Média lhe parecia bastante pobre... Tal preconceito, contudo, tem sido revisto por autores contemporâneos uma vez ser inegável a enorme produção cultural patrocinada e orientada pela Igreja Católica Romana; havia tabus e heresias, mas o pensamento cristão progrediu bastante no período considerado “Mil Anos de Trevas”...

         De todo o modo o Humanismo Renascentista deve ser considerado um movimento intelectual de valorização da Antiguidade Clássica. Não se tratava, contudo, de meramente copiar as realizações do Classicismo greco-romano; tal aspecto retiraria ao movimento sua maior amplitude. O Humanismo, embora não sendo a rigor uma filosofia, representou um movimento de glorificação do Homem, tornado centro de todas as indagações e preocupações. Constituía, em sentido amplo, uma tomada de posição antropocêntrica em reação ao teocentrismo medieval, vale enfatizar.

         Os Humanistas não mais aceitavam os valores e maneiras de ser e viver da Idade Média. Por conseguinte, o interesse pela Antiguidade era um meio para atingir um fim: os humanistas viam na Antiguidade aquilo que correspondia aos desejos que sentiam. Pretendiam encontrar nos antigos Homens, considerado como um ser geral, impessoal, universal, que existe equalitariamente por toda a parte.

         Em função disso, os humanistas tenderam a valorizar a produção cultural da Antiguidade Greco-Romana, sem que com isso queiramos dizer que pregavam um retorno ao passado, tomado apenas como fonte de inspiração.

         Para a eclosão e ampla difusão do Renascimento como um todo há que se considerar ainda:

1) O aperfeiçoamento da imprensa, que possibilitou a difusão dos clássicos greco-romanos, da Bíblia e de outras obras, até então manuseadas apenas pelos “monges copistas” dentro de Mosteiros e Abadias;

2) A decadência e derrocada de Constantinopla, que provocou um verdadeiro êxodo de intelectuais bizantinos para a Europa Ocidental;

3) As Grandes Navegações ou Mecanismos de Conquista Colonial, que alargou os horizontes geográficos e culturais e propiciaram o contato europeu com culturas completamente distintas, contribuindo para derrubar muitas idéias até então tidas como verdades absolutas;

4) O Mecenato praticado por burgueses ricos, Príncipes e até Papas, interessados em projetar suas cortes, daí financiarem as atividades do Renascimento Cultural.

         O Humanismo teve suma importância, pois conduziu a modificações inclusive nos métodos de ensino, uma vez que começaram a surgir Academias e Liceus laicos, onde se estudava as línguas clássicas (o latim e o grego) e com a maior preocupação em analisar acurada e cientificamente os fenômenos da natureza. Deixa de valer o magister dixit aristotélico medieval e passa a valer a busca empírica da Verdade.

 

Aspectos ou características

 

         O Renascimento foi, de certa forma, a expressão de um movimento humanista nas Artes, Letras, Filosofia e Ciência, constituindo-se, segundo R. Mousnier, em um “prodigioso desabrochar da vida sob todas as suas formas, que teve de um modo geral suas maiores manifestações de 1490 a 1560, mas que não está preso dentro destes limites. Então, um afluxo de vitalidade fez vibrar toda a humanidade européia. Toda a civilização da Europa transformou-se em conseqüência. Em sentido estreito, o Renascimento é esse elã vital nos trabalhos do espírito. É menos uma doutrina, um sistema, que um conjunto de aspirações, uma impulsão interior que transformou a vida da inteligência e a dos sentidos, o saber e a arte”.

         Vejamos agora as condições vigentes na Europa que facilitaram ou fomentaram o surgimento do Humanismo e do Renascimento.

         A burguesia, enriquecida com o comércio, estava ainda presa a um Modo de Produção contraditório em tudo e por tudo a seus interesses. Estava presa a valores da Igreja e da Nobreza medievais; para contestá-los e difundir seus valores, mercadores e banqueiros, burgueses em geral, promoveram um estilo de Artes, Letras, Religião e Ciências mais de acordo com suas concepções racionalistas, antropocêntricas e valorizadoras do acúmulo de riquezas a qualquer custo.

         Como contraponto, a nobreza decadente – tal como o faz hoje a burguesia decadente – buscava cooptar os intelectuais e artistas do renascimento patrocinando suas pesquisas e seus trabalhos com vistas a manter o statu quo ante, ou seja, o Absolutismo Monárquico. Esta tensão durará até o período do Iluminismo que finalmente depõe a Nobreza e o Clero, entronizando a burguesia endinheirada – se já detinham o poder econômico e contestavam os dogmas religiosos, o que lhes podia impedir de deter o poder político?

         O foco inicial do Renascimento foi a Itália, que já dispunha de prósperas cidades mercantis e para onde chegou a principal leva de intelectuais bizantinos, entre outros fatores – maior contato com outras culturas e civilizações por “projetar-se” no Mar Mediterrâneo e ser na prática o berço da civilização greco-romana.

         Não se deve, contudo, separar ou valorizar apenas alguns destes fatores. Devem ser considerados como um todo! O aspecto econômico, em última instância, é fator determinante – aqui se enfatizam os interesses mercantis da burguesia em ascenção.

 

Os novos valores e os gênios produzidos por aquele período de crise

 

         O Renascimento, com acentuado espírito crítico em todas as suas manifestações (artística, religiosa, literária, política, etc.) teve como principais representantes, no aspecto eminentemente literário: Dante Alighieri – “A Divina Comedia” – Nicolau Maquiavel – “O Príncipe”, “A Mandrágora” – Giovanni Boccacio – “O Decameron” – Ariosto – “Orlando Furioso” – Miguel de Cervantes – “D. Quixote de La Mancha” – Luís de Camões – “Os Lusíadas – William Shakespeare – “Romeu e Julieta”, “Júlio César”, “Hamlet”, “Otelo” e milhares de outras obras poéticas e peças teatrais; tantas que há até hoje uma polêmica se foi um único ser humano a escrever obra tão vasta e de tão grande valor! O Renascimento, sem dúvida precisava de gênios. E os produziu! – Erasmo de Roterdã – “O Elogio da Loucura” – Etienne de La Boetie – “Discurso da Servidão Voluntária” – Thomas Morus – “Utopia”, entre várias outras obras e Autores...

 

 

         Em sua vertente principalmente Artística, o gênio universal de Leonardo da Vinci é, sem sombra de dúvida a maior estrela desta constelação. Além de pinturas e esculturas de valor inigualável, foi o precursor da balística e o inventor do submarino e até do helicóptero (que só não se viabilizaram em seu tempo por motivos banais!). Michelangelo Buonarotti, o escultor que não gostava de pintura, autor da decoração deslumbrante, sufocante mesmo, da Capela Sixtina, além das esculturas de “Moisés”, “Davi” e “Pietá” entre centenas de outras! Rafael Sânzio, famoso pelas suas pinturas “magníficas de Madonas”, Murilo e El Greco, entre outros tantos.

 

 

         Em sua vertente Científica há que destacar-se principalmente o fato de surgir um poderoso espírito crítico – comum a todos os renascentistas, sejamos justos! – que rejeitava o “princípio da autoridade”, o magister dixit aristotélico medieval. Agora buscava-se empiricamente os fatos detalhada e acuradamente, com comprovações factíveis de reprodução em laboratório. Não bastava mais estar escrito numa obra genial de Aristóteles para “ser verdade”. Era necessário comprovar essa “verdade”, o que muitas vezes não ocorria, levando a crises com a Igreja, ainda poderosa, e sua “Santa” Inquisição, que supliciou muitos dos pioneiros da ciência em nome da defesa da fé... Destacam-se, nesta vertente, o polonês Nicolau Copérnico, cuja teoria heliocêntrica foi completada no século XVII pelo italiano Galileu Galilei (perseguido pela Inquisição, teve de retratar-se mas deixou uma obra imorredoura. Só foi perdoado pela Igreja Católica no “ano do Jubileu”, ou seja, em 2000 d.C. quando, finalmente, a Igreja Católica aceitou o fato de que a Terra é redonda, gira em torno do seu próprio eixo e em torno do sol... Giordano Bruno, por sua vez, não se retratou. Sua tese de que “somente um universo infinito seria compatível com a idéia de um Deus infinito” estava em dessintonia com as teses aristotélicas. Por esta “heresia” ele foi amarrado a uma estaca em praça pública onde teve a língua perfurada por uma faca e foi enfim queimado vivo. Como sofriam os cientistas da área das ciências naturais em tempos remotos. Tanto quanto hoje sofrem os verdadeiros e radicais cientistas da área de humanas... Além destes, Johannes Kepler também na Astronomia; na Medicina Nostradamus (poderoso vidente e ocultista também!), William Harvey, Miguel Servet, Ambroise Paré e André Vesálio (considerado o pai da moderna Anatomia). Imagine-se o que passaram estes desbravadores quando “profanar o corpo de um morto” para fazer dissecção era um crime, uma heresia!

         Na Religião, a Reforma Protestante com sua pregação contrária àquela da Igreja Católica Romana, muito mais favorável à burguesia, tem em Martinho Lutero e João Calvino seus principais expoentes.

 

Lázaro Curvêlo Chaves

Bibliografia:

O Renascimento - Nicolau Sevcenko

O Homem do Renascimento – Agnes Heller

História Geral das Civilizações, volume 2 – R. Mousnier

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