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Balanço das Eleições 2014

 

            O estrago que o PT e o PC do B causaram à reputação da esquerda no Brasil dificilmente será revertido. Tomaram as bandeiras vermelhas da luta por justiça social e as converteram em símbolos de infâmia. Adotar práticas criminosas e apelidá-las de “práticas de esquerda” conduziu a algo que os mais reacionários da Ditadura Militar (1964 – 1990) sequer sonhavam possível: desmoralizaram a esquerda.

            Do PT e do PC do B a coisa se espalha; a situação chega a tal descalabro que muitos neopetistas sequer ouviram falar em Karl Marx ou têm a mais remota idéia do que seja socialismo. Ouvi de um deputado federal pelo PSOL, recém-egresso do neopetismo e em visita à cidade em que moro que “Marx está ultrapassado”. Para “provar” sua assertiva, sacou um Fukuyama e fez-me uma longa citação. Olhei para ele comiserado pouco antes de me retirar, pensando: “Que devastação... E esse aí é um dois mais importantes “ideólogos” da esquerda brasileira hoje, um dos poucos que não se sujaram com o crime...”

            Por coisas assim demorei tanto a compreender os motivos de, em certos meios, se fazer uma associação imediata entre “comunismo” e “criminalidade incompetente e burra”. Hoje mesmo, em circunstâncias pedagógicas, encontro ainda dificuldades em demonstrar que “criminalidade incompetente e burra” é ANTÔNIMO, não sinônimo de comunismo. Há algum tempo consegui explicar a um amigo no Facebook a diferença entre criminosos e comunistas através de um exemplo jocoso, no ar em "Esquerda que governa para banqueiros e apostadores na bolsa de valores não é esquerda, não. É gambá!"

            Depois que saí de meu último emprego fui pouco a pouco me desinteressando de acompanhar o noticiário político. A temática policial invadiu o noticiário político e eu não gosto de ler sobre crimes, assassinatos, subornos, julgamentos, aprisionamentos, fugas, chantagens e coisas assim: isso não é política.

            Como usualmente faço em circunstâncias assim, encontrei refúgio em quem nunca me faltou: meus livros, os Sábios que, de outros tempos e terras falam comigo como irmãos distanciados por forças alheias às nossas vontades.

            Numa vivenda de pouco mais de trinta metros quadrados, quatro cômodos, cuido de minha mãe, idosa, e conversamos muito. Ela se interessa pelo noticiário policial – se interessava seria mais acurado dizer, parece que minha repugnância pelo tema a influencia mesmo que eu não o quisesse – e passou a acompanhar a Campanha Eleitoral de 2014 desde o seu início. Eu estava com a opinião formada: “candidatos – todos – que representam o grande capital financeiro, urnas eletrônicas, voto compulsório e juiz eleitoral petista? Não vejo mudança à vista por aí nem quero tomar conhecimento!”

            Eu estava enganado e tenho de agradecer muito a minha mãe por haver me chamado a atenção. Ternamente, suavemente, como uma mãe sabe fazer mesmo: começou me perguntando sobre algumas expressões que os candidatos usavam. A seguir sobre “esquerda”, “direita” e coisas assim. A cada propaganda me perguntava algo que ia crescendo em dificuldade e eu resistindo firme a sequer assistir. Um dia elogiou minha “dignidade” e o “respeito” que lhe tenho; nenhuma novidade no fato em si, mas não são palavras que ela fica falando toda a hora, algo mudou no que ela assiste e eu preciso assistir também pois esse tipo de coisa me interessa. Muito.

            Primeira coisa que assisti foi ao primeiro debate do segundo turno na Bandeirantes. Aquela coisa esquisita e amarrada com “um-minuto-para-pergunta-dois-minutos-pra-resposta-um-minuto-para-treplica-seu-tempo-acabou-candidato-e-segue-o-senhor-com-a-palavra-para-mais-um-minuto-para-perguntar”. Se os candidatos se sentassem lado a lado ou frente a frente e conversassem livremente fazendo de conta que são pessoas educadas seria mais interessante, pensei eu, mas “a lei eleitoral não permite”. E me lembrei da “Sabedoria” Jurídica Brasileira: após ir pessoal e diariamente ao Fórum entre quatro e cinco vezes ao dia para obter resposta sobre uma consulta que fiz quanto a um banco que me lesava tive de ler que eu “não tive interesse jurídico”, portanto o banco ganhava licença para seguir me lesando. Coisas do Brasil e vamos em frente.

            Optei por uma análise psicológica dos seres humanos se confrontando no debate amarrado. Pensava que suas propostas pouco diferiam no que tange ao encaminhamento da economia e que nada se podia esperar de qualquer dos dois. Estava enganado de novo! Levei uns três dias para perceber a magnitude do que ocorria: de um lado uma pessoa fraca, intelectualmente limitada e moralmente reduzida; do outro um gigante ético e pensador de peso. Minha primeira reação ao conhecer o Aécio (até esta campanha não o conhecia, exceto por raros e distantes reportes de Minas Gerais) foi: “eis aí um adversário digno de respeito; um liberal, mas sobretudo um homem honrado”.

            Como disse alhures, Aécio se destaca por tal Elevação Intelectual e Moral que eclipsa totalmente o nanismo intelectual e ético que o confronta. Sem agredir nem tergiversar. O homem tem postura, algo raro e respeitável no cenário político nacional. Observo cautelosamente os sinais: é Unívoco. Seus sentimentos, seus pensamentos e suas palavras estão perfeitamente alinhadas. Em alguns pontos não concordo mas é primeira vez em muito tempo, vejo um Homem Público que fala a verdade. Diferente do que se via antes, já chega à campanha com seu Primeiro Escalão montado, dando ao eleitor a possibilidade de saber exatamente com quem governará. Do outro lado, tudo nebuloso entre mentiras, injúrias e calúnias ao adversário. Não há termos de comparação. Só embaraço: como é que pode... De todo o modo, à medida em que ia compreendendo a proposta, ia me transformando e registrando passo a passo o processo que me possibilitou a compreensão, no ar em Eleições - 2014 (Notas, Destaques, Desdobramentos)

 

            Durante os dias subsequentes, os criminosos que tomaram o poder chantagearam todas as camadas sociais sobre as que tinham alguma ascendência. Para não me delongar, fico somente nos mais gritantes: os miseráveis foram ameaçados de ficar sem as migalhas que lhes são lançadas caso votassem no adversário. Lula da Silva apequenou ainda mais sua biografia ao fazer discursos furibundos contra um “filhinho de papai que quer tirar o Bôça Familha e governar para os bancos” – dois dias depois ele (o Lula) soltou um vídeo “repudiando o ódio” e afirmando que, no seu governo os bancos lucraram tanto como nuncaantesnessepaiz...

            Professores universitários foram mantidos reféns: “nossos adversários irão demolir a universidade que construímos” – até o Reitor, presente à Cerimônia de Inauguração de uma Faculdade Construída em 1960 acreditou nisso!

            Políticas Sociais, além de mitigar emergencialmente o sofrimento de gente desesperada, constituem prática comum de governos conservadores a fim de evitar o que chamam de “explosões revolucionárias” e seria impensável que se eliminasse algo que está salvando ou mantendo vida de brasileiros, fosse quem fosse que se elegesse. Enfim, fiz minha cabeça: são duas vertentes opostas, uma tem um núcleo composto por ex-militantes em prol de justiça social que hoje praticam crimes e se cercam de gente conservadora dos tempos da ditadura; do outro lado um núcleo composto pelos intelectuais que implantaram no Brasil o “Consenso de Washington” e também se cercam de gente conservadora dos tempos da ditadura. Qual o diferencial? A Ética.

            Sim, a Ética. Desta vez apresentada de maneira diferente. Ao invés de “pregar a ética na política” se a pratica abundantemente já na campanha! Aécio Neves capitaneou uma Campanha Ética a todo o tempo, mesmo quando em face aos maiores desafios até mesmo à sua dignidade humana.

            Estou decidido – pensei – eis aqui algo com que me identifico. Não mais uma forma de “ética por decreto” como o PT pratica: “diz-que-sou-ético-senhão-fuço-teus-podres-e-te-processo”. Agora uma ética prática, viva, que fala e pratica a Generosidade, a Decência, a Honra, o Cavalheirismo, o Respeito. Eu me identifico com isso. São duas propostas distintas. Uma honrada e outra criminosa. Ambas com a mesma proposta de encaminhamento econômico (na prática, vimos que até nisso há distinção!). A dificuldade em compreender o que os petistas dizem chegou a tal ponto que precisei montar, no espírito de 1984, de George Orwell, um Novíssimo Dicionário de Novilíngua Petista...

            Depois de doze anos de confusão, de se pensar que política é “falar uma coisa e fazer outra” eis aqui a transparência por que tanto anelávamos. Se é possível conversar linearmente, sem autoritarismo, é possível que haja persuasões de parte a parte. Quem se porta com dignidade se dobra à Razão ou, pela Razão nos persuade. Quem se porta com indignidade, por favor, vai andando...

 

 

 

            Na véspera da votação, enquanto Aécio reiterava o Respeito, a Honra, a Decência, a Retidão, o encaminhamento Republicano da política brasileira, o PT levou sua representante ao ar vestida de branco vermelha de raiva contra uma revista “e seus parceiros ocultos” avisando a eleitores que, em sua maioria, sequer teriam acesso aquela revista que sairia uma reportagem dizendo que ela é corrupta, mas que ela não é corrupta não... Estranhíssimo! Cheguei a imaginar se haveria alguma estratégia por trás daquela loucura. Nada. Foi parvoíce mesmo!

            No dia das eleições, poucos minutos após o término, graças ao milagre das urnas eletrônicas, o resultado foi divulgado e Aécio imediatamente telefonou para a vencedora felicitando-a, desejando sucesso e que encaminhe com respeito e dignidade o cargo honroso que os brasileiros lhe demos. Saiu com a família e foi para casa repousar.

            Na Internet, em particular no Facebook, pulularam os boatos – boato em Facebook é mais regra que exceção, aliás... – em torno de “golpe” e outras sandices. A tal ponto que o próprio Aécio precisou interromper seu repouso e, através de um vídeo caseiro, deu o tom: nada de idéias golpistas; vamos exercer uma oposição institucional, regular, firme, intransigente e inflexível. Como o preço da liberdade é a eterna vigilância, recomenda: “não vamos nos dispersar”. Somente.

            Mesmo depois do pronunciamento houve manifestações públicas (previstas no Artigo 5 da Constituição Federal, claro, fiquei um tanto apreensivo que alguém se machucasse porque os ânimos estavam realmente exaltados) e a Imprensa Áulica – Folha, Estadão, UOL e Globo principalmente – conseguiu localizar UM cidadão portando um cartaz com porralouquices escritas. Se procurassem, creio eu, encontrariam cartazes de pessoas pedindo a volta da Monarquia ou mesmo de Elvis Presley. O que isso prova? Que a imprensa áulica não merece credibilidade, mais nada. Não há espaço para golpismos nem loucuras do gênero. Seja dos criminosos que sequestraram o governo, seja do lado dos que anseiam resgatar o Brasil para os Brasileiros. O encaminhamento será democrático e institucional.

            Não me iludo a ponto de imaginar que, sob um eventual governo Aécio (em 2018?) se chegará ao reino da igualdade e da fraternidade para os brasileiros. Sei que, com ele há diálogo. Diálogo na acepção clássica do termo: sentar para conversar. Não o “diálogo” petista em que “o dialogando determina e o dialogado obedece”. Sem mudanças na economia? Ao ver o abismo em que começamos a entrar começo a repensar isso também!

            Em todo o processo, a maior conquista é a separação da Política de temas policiais com uma tremenda vantagem suplementar: o Brasil reconquistou a Esperança, percebeu que a Ética pode vencer o Ódio e perdeu o medo do PT.

Lázaro Curvêlo Chaves – 7 de outubro de 2014 

 

 
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