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A
verdade está na cara, mas não se impõe – Arnaldo Jabor
O Globo – 25/04/2006
O que foi que nos aconteceu? No Brasil, estamos
diante de acontecimentos inexplicáveis, ou melhor, “explicáveis” demais. Toda a
verdade já foi descoberta, todos os crimes provados, todas as mentiras
percebidas. Tudo já aconteceu e nada acontece. Os culpados estão catalogados,
fichados, e nada rola. A verdade está na cara, mas a verdade não se impõe. Isto
é uma situação inédita na História brasileira.
Claro que a mentira sempre foi a base do
sistema político, infiltrada no labirinto das oligarquias, claro que não
esquecemos a supressão, a proibição da verdade durante a ditadura, mas nunca a
verdade foi tão límpida à nossa frente e, no entanto, tão inútil, impotente,
desfigurada, broxa.
Os fatos reais: com a eleição de Lula, uma
quadrilha se enfiou no governo e desviou bilhões de dinheiro público para tomar
o Estado e ficar no poder 20 anos. Os culpados são todos conhecidos, tudo está
decifrado, os cheques assinados, as contas no estrangeiro, os tapes , as provas
irrefutáveis, mas o governo psicopata de Lula nega e ignora tudo. Questionado ou
flagrado, o psicopata não se responsabiliza por suas ações. Sempre se acha
inocente ou vítima do mundo, do qual tem de se vingar. O outro não existe para
ele e não sente nem remorso nem vergonha do que faz. Mente compulsivamente,
acreditando na própria mentira, para conseguir poder. Este governo é psicopata.
Seus membros riem da verdade, viram-lhe as
costas, passam-lhe a mão na bunda. A verdade se encolhe, humilhada, num canto.
E o pior é que o Lula, amparado em sua imagem
de “povo”, consegue transformar a Razão em vilã, as provas contra ele em
acusações “falsas”, sua condição de cúmplice e comandante em “vítima”. E a
população ignorante engole tudo.
Como é possível isso? Simples: o Judiciário
paralítico entoca todos os crimes na fortaleza da lentidão e da impunidade. Só
daqui a dois anos serão julgados os indiciados — nos comunica o STF. Os delitos
são esquecidos, empacotados, prescrevem. A Lei protege os crimes e regulamenta a
própria desmoralização. Jornalistas e formadores de opinião sentem-se inúteis,
pois a indignação ficou supérflua. O que dizemos não se escreve, o que
escrevemos não se finca, tudo quebra diante do poder da mentira desse governo.
Sei que este é um artigo óbvio, repetitivo, inútil, mas tem de ser escrito...
Está havendo uma desmoralização do pensamento.
Deprimo-me: “Denunciar para quê, se indignar com quê? Fazer o quê?”. A
existência dessa estirpe de mentirosos está dissolvendo a nossa língua. Este
neocinismo está a desmoralizar as palavras, os raciocínios. A língua portuguesa,
os textos nos jornais, nos blogs, na TV, rádio, tudo fica ridículo diante da
ditadura do lulo-petismo . A cada cassado perdoado, a cada negação do óbvio, a
cada testemunha, muda, aumenta a sensação de que as idéias não correspondem mais
aos fatos! Pior: que os fatos não são nada — só valem as versões, as
manipulações.
No último ano, tivemos um único momento de
verdade, louca, operística, grotesca mas maravilhosa, quando o Roberto Jefferson
abriu a cortina do país e deixou-nos ver os intestinos de nossa política.
Depois surgiram dois grandes documentos
históricos: o relatório da CPI dos Correios e o parecer do procurador-geral da
República. São verdades cristalinas, com sol a pino. E, no entanto, chegam a ter
um sabor quase de “gafe”. Lulo-petistas clamam: “Como é que a Procuradoria
Geral, nomeada pelo Lula, tem o desplante de ser tão clara! Como que o Osmar
Serraglio pode ser tão explícito, e como o Delcídio Amaral não mentiu em nome do
PT? Como ousaram ser honestos?”
Sempre que a verdade eclode, reagem. Quando um
juiz condena rápido, é chamado de “exibicionista”. Quando apareceu aquela grana
toda no Maranhão (lembram, filhinhos?), a família Sarney reagiu ofendida com a
falta de “finesse” do governo de FH, que não teve a delicadeza de avisar que a
polícia estava chegando...
Mas agora é diferente. As palavras estão sendo
esvaziadas de sentido. Assim como o stalinismo apagava fotos, reescrevia textos
para coonestar seus crimes, o governo do Lula está criando uma língua nova, uma
novi-língua empobrecedora da ciência política, uma língua esquemática, dualista,
maniqueísta, nos preparando para o futuro político simplista que está se
consolidando no horizonte. Toda a complexidade rica do país será transformada em
uma massa de palavras de ordem, de preconceitos ideológicos movidos a dualismos
e oposições, como tendem a fazer o populismo e o simplismo. Lula será eleito por
uma oposição mecânica entre ricos e pobres, dividindo o país em “a favor” do
povo e “contra”, recauchutando significados que não dão mais conta da
circularidade do mundo atual. Teremos o “sim” e o “não”, teremos a depressão da
razão de um lado e a psicopatia política de outro, teremos a volta da oposição
mundo x Brasil, nacional x internacional. A esquematização dos conceitos, o
empobrecimento da linguagem visa à formação de um novo ethos político no país,
que favoreça o voluntarismo e legitime o governo de um Lula 2 e um Garotinho
depois.
Assim como vivemos (por sorte...) há três anos
sem governo algum, apenas vogando ao vento da bonança financeira mundial, só
espero que a consolidação da economia brasileira resista ao cerco
político-ideológico de dogmas boçais e impeça a desconstrução antidemocrática.
As coisas são mais democráticas que os homens.
Alguns otimistas dizem: “Não... este maremoto
de mentiras nos dará uma fome de verdades!”. Não creio. Vamos ficar viciados na
mentira corrente, vamos falar por antônimos. Ficaremos mais cínicos, mais
egoístas, mais burros.
O Lula reeleito será a prova de que os delitos
compensaram. A mentira será verdade, e a novi-língua estará consagrada.
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