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Império
Bizantino
Continuação do Império Romano
no Oriente
“Rica em prestígio, mais rica
ainda em dinheiro”
Introdução
Muito se disse que a fé cristã foi o problema mais discutido
na sociedade bizantina, levando mesmo ao surgimento de várias heresias.
Nas sociedades da Europa Ocidental isso também ocorreu?
Não, não ocorreu, pelo menos na Alta Idade Média, e não é
difícil entender os motivos. Quando a Europa Ocidental viveu o processo de
ruralização e a sociedade foi se restringindo aos limites do feudo, isso se
manifestou no espírito dos homens da época.
Como? Por quê?
Poderíamos dizer que o espírito dos homens também se enfeudou,
se fechou em limites bastantes estreitos: não havia espaço para discussão, e
apenas a doutrina cristã pregada pela Igreja Católica Apostólica Romana povoava
o pensamento e o sentimento humanos... As idéias cristãs eram colocadas como
dogmas, inquestionáveis.
Enquanto isso, o que acontecia na sociedade bizantina?
Lá havia uma civilização urbana, e você sabe o quanto as
condições de vida de uma cidade favorecem o desenvolvimento do pensamento.
E você não pode esquecer também o quanto a herança da
Filosofia grega, de enorme influência na sociedade bizantina, contribuiu para um
clima de polêmicas mais freqüentes, para um hábito de questionamento, típicos do
pensamento filosófico.
Assim, não obstante o centro dos debates fossem temas
religiosos, várias foram as interpretações surgidas sobre a origem e a natureza
de Cristo. Mais ainda, muito embora as heresias fossem fruto das discussões
entre os elementos eclesiásticos, elas acabavam por representar interesses
políticos e econômicos de grupos sociais diversos.
Você poderá perceber bem isso no caso do Monofisismo. Por
quê? Essa heresia difundiu-se nas províncias do Império Bizantino e acabou por
ser identificada com aspirações de independência de parte da população síria e
egípcia.
Novamente você poderá perceber a relação
religião-política-economia se prestar atenção no caso da Questão Iconoclasta...
Enfim, como sempre, ao estudarmos a História das sociedades
humanas, precisamos estar atentos à. relação de todos os aspectos da vida humana
- o político, o econômico, o social e o ideológico. Apesar de ora um, ora outro,
assumir um caráter dominante, você sabe que todos são igualmente importantes,
embora o aspecto determinante do modo de vida de uma sociedade seja a forma pela
qual os homens se organizara entre si, a fim de, agindo sobre a Natureza,
produzirem os alimentos e os utensílios de que necessitam para sobreviverem.
E você já sabe qual era a estrutura econômica da sociedade
bizantina, não é mesmo?
Vamos, então, conhecer melhor a vida dessa sociedade que
tinha por capital uma cidade "rica em prestígio, mais rica ainda em dinheiro"...
Sua Formação
O Império Bizantino, também conhecido algum tempo pela
denominação de Império Romano do Oriente, ofereceu grande contraste com as
sociedades da Europa Ocidental:
_ O Império Romano do
Ocidente foi incapaz de resistir às migrações dos germanos e hunos,
fragmentando-se em reinos independentes, enquanto o Império Bizantino sobreviveu
onze séculos, recorrendo à guerra e à diplomacia para repelir, desviar ou
enquadrar os inúmeros povos invasores que se abateram sobre seus domínios;
_ As sociedades
ocidentais européias até o século XII tenderam à ruralização e à
descentralização do poder político, enquanto a sociedade bizantina manteve-se,
essencialmente urbana e politicamente subordinada a uma Monarquia Despótica e
Teocrática exercida pelo Basileus ou Imperador.
O Império Bizantino, contudo, teve origem romana, e os
Imperadores do Oriente sempre afirmaram ser os herdeiros de Roma A crescente
decadência e ruralização do Ocidente evidenciaram o contraste com o Oriente,
mais rico cultural e economicamente, levando o Imperador Constantino a
construir, no Oriente, a cidade de Constantinopla, destinada a ser a nova
capital do Império Romano (330).
A cidade foi erguida no litoral da Tracia, entre o Mar Negro
e o Mar de Mármara, em local onde outrora existira a colônia grega de Bizâncio.
Este fato explica o emprego das denominações de Bizâncio ou Constantinopla para
designar a cidade escolhida pelo Imperador Teodósio para ser a capital do
Império Romano do Oriente (395). Na divisão então feita, o Oriente compreendia
os Bálcãs, ilhas do Mar Egeu, a Ásia Menor, a Síria, a Palestina, o Egito e a
Cirenaica:
Drama: “Romanização” ou “Orientalização”?
Em seus primeiros tempos, o Império Romano do Oriente
conservou nítidas influências romanas, tendo as dinastias Teodosiana (395 -
457), Leonina (457 - 518) e Justiniana (518 - 610) mantido o latim como língua
oficial do Estado, conservado a estrutura e as denominações das instituições
político-administrativas romanas etc. A predominância étnica e cultural grega e
asiática, entretanto, acabaria prevalecendo a partir do século VII.
Nos séculos IV e V, as invasões de visigodos, hunos e
ostrogodos foram desviadas para o Ocidente mediante o emprego da força das
armas, da diplomacia ou pelo pagamento de tributos, meios usados pelos
bizantinos durante séculos para sobreviver.
Essas ameaças externas puseram em perigo a estabilidade do
Império Bizantino, internamente convulsionado por questões religiosas que também
envolviam divergências políticas. É o caso do Monofisismo, doutrina religiosa
elaborada por Eutiques (superior de um convento de Constantinopla), centralizada
na concepção de que só havia a natureza divina em Cristo. Embora considerada
heresia pelo Concílio de Calcedônia (451), que reafirmou a natureza divina e a
natureza humana de Cristo, a doutrina monofisista propagou-se pelas províncias
asiáticas (Ásia Menor, Síria) e africanas (Egito), onde se identificou com
aspirações de independência.
No século VI, Bizâncio teve no reinado de Justiniano (527
565) um dos períodos marcantes: a “primeira idade de ouro” segundo expressão de
Paul Lemerle. Empenhado em reagir contra a orientalização do Império e o domínio
do Ocidente pelos bárbaros, imprimiu a seu governo duas diretrizes básicas: a
consolidação da autoridade imperial e a reconstituição do antigo Império Romano,
mantendo o Mar Mediterrâneo como eixo da economia imperial.
Justiniano conservou ou restabeleceu os quadros
administrativos romanos em todo o Império. O Direito Romano foi revisado e
atualizado, para fortalecer juridicamente as bases do poder imperial e dotar o
Estado de um sistema jurídico eficiente. O resultado desse trabalho é conhecido
pela denominação de Corpus Juris Civilis, compreendendo quatro partes:
_ O Código de Justiniano
(Novus Justinianus Codex), que continha toda a legislação romana revisada desde
o Imperador Adriano
_ ODigesto ou Pandectas,
que incluía um sumário da jurisprudência romana;
_ As Institutos, que
constituíam um resumo para ser utilizado pelos estudiosos de Direito;
_ As Novelas ou
Autênticas, que reuniam as novas leis de Justiniano.
A importância do Corpus Juris Civilis pode ser assim
avaliada: “Foi neste Corpus Juris Civilis, obra-prima do Direito Romano, que os
legistas da Idade Média e dos Tempos Modernos estudaram esta ciência, e foi
também ele que serviu de base aos nossos códigos atuais.” – Segundo GENICOT, L.
e HOUSSIAU, P., in “Le Moyen Age”, Coleção Histoire et Humanités)
Uma política de numerosas construções públicas, atendendo a
objetivos militares – centenas de fortificações (fortalezas e castelos) foram
erguidos para melhor guarnecer as fronteiras - e políticos - evidenciar o poder
imperial mediante obras monumentais como a Basílica de Santa Sofia - constituiu
aspecto marcante do período.
A Corte imperial tornou-se mais requintada, subordinando-se à
rígida etiqueta perante o Imperador ou Basileus: considerado o representante de
Deus na Terra, seus poderes eram concebidos como de origem divina e todos
deviam-lhe irrestrita obediência.
O caráter teocrático da Monarquia evidenciava-se nas
representações da figura do Imperador em pinturas, vitrais e outras obras de
arte : a cabeça imperial era rodeada de um halo, semelhante às imagens de
santos. Ainda que continuasse a tradição do Dominato, o Dominus Noster
inspirava-se nas Monarquias Despóticas e Teocráticas do Oriente.
Utilizando-se de poderosa frota de guerra e de numerosos
exércitos, o imperador Justiniano empreendeu diversas campanhas militares no
Mediterrâneo Ocidental, onde conquistou o Reino Vândalo (África do Norte), o
Reino Ostrogodo (Península Italiana) e a região sudeste do Reino Visigodo
(Península Ibérica).
No dizer de Paul
Lamerle, “(...) para ressuscitar a parte morta do Império, desenvolveu um
esforço gigantesco que esgotou a parte viva”. (Histoire de Byzance, Coleção "Que
Sais-je?" PUF., pág. 46.). Com efeito, as conquistas foram precárias, pois as
forças de ocupação demonstraram-se insuficientes e as regiões reconquistadas
estavam economicamente arruinadas. Além do mais, as campanhas desviaram recursos
humanos e financeiros que deveriam ter sido utilizados contra crescentes ameaças
nas fronteiras orientais (a pressão da Pérsia Sassânida foi contida por meio do
pagamento de pesados tributo) e balcânicas (ávaros e eslavos realizavam
constantes invasões, sendo que os últimos começaram a ser instalados como
colonos nos Bálcãs).
A fim de cobrir os gastos com guerras e pagamento de
tributos, o governo adotou rigorosa política fiscal, fator de inquietação
social, como se evidenciou na Sedição Nika.
Iniciada no Hipódromo de Constantinopla, resultou de
múltiplas causas, como a reação contra a tirania fiscal, o descontentamento de
monofisistas contra a opressão imperial etc.
O movimento alastrou-se pela cidade e, para sufocá-lo, as
tropas imperiais massacraram milhares de pessoas.
Em síntese, “(...) o balanço deste reinado foi decepcionante.
A. ameaça persa continuava na fronteira síria; a reconquista do Ocidente foi
apenas parcial; os esforços de romanização pouco sucesso tiveram e o latim,
língua oficial do Império, só era compreendido por uma minoria”. (ARONDEL, M. e
outros, op. cit., pág. 152)
"Os Bárbaros contemplavam com assombro os vestíbulos, as salas
imensas e os gigantes da guarda. Viam escudos de ouro, lanças
rutilantes de ouro, capacetes de ouro, penachos escarlates (...)
Contemplavam as outras maravilhas desta pompa ilustre. Acreditavam
que o palácio dos Romanos era um outro céu (...) Quando a cortina
foi aberta (...) o ávaro levantou os olhos para o César, cuja fronte
era cingida por faiscante diadema sagrado. Três vezes ajoelhou-se,
prosternou-se, adorou o Imperador e permaneceu como rosto junto ao
chão."
(Flávio Corippus
[530-585], De Laudibus Justini. Citado por GENICOT, L. e HOUSSIAU,
P., op. cit., págs. 42 e 44.)
O Império se Orientaliza...
O final do século VI foi marcado pela regressão das
fronteiras imperiais. Na Península Italiana, os domínios bizantinos sofreram
ataques dos lombardos. Nos Bálcãs, povos eslavos, juntamente com os ávaros,
começaram a se sedentarizar, continuando novas ondas migratórias a chegar até o
século VIII. No Oriente Próximo, a Pérsia Sassânida, empenhada em controlar
rotas comerciais. de acesso ao Mediterrâneo, reiniciou guerras ofensivas e se
apoderou da Síria, Palestina e Egito.
A grave crise que ameaçou a continuidade do Império exigiu
modificações nas instituições imperiais, o que foi realizado pela dinastia
Heráclida ou Heracliana (610 - 717).
O costume de conceder terras a particulares em troca da
prestação do serviço militar foi então iniciado e mantido até o século XI. A
concessão era hereditária e obrigava um dos membros da família ao serviço
militar. Com isso o Estado resolveu vários problemas:
_ A redução das rendas
estatais diminuíra a possibilidade de pagar um soldo aos indivíduos recrutados
para os exércitos;
_ Atacou as grandes
propriedades, cujos proprietários constituíam uma força contrária ao poder
central;
_ Multiplicou as
pequenas propriedades, cujos novos proprietários eram cultivadores e soldados;
_ Assimilou populações
eslavas que, inclusive, tiveram muitos de seus componentes instalados na Ásia
Menor.
A reorganização do Estado também atingiu a administração, que
foi estruturada em bases militares: criaram-se os Temas (subdivisões
administrativas que dispunham de tropas para a defesa) submetidos aos Estrátegas
(governantes dispondo de poderes militares e civis).
De grande importância foi o emprego do fogo grego ou greguês,
arremessado de tubos munidos de propulsores. Ao explodir, o projétil espalhava
um líquido inflamado, pois era feito à base de derivado do petróleo (nafta).
Graças ao seu emprego, vários combates foram vencidos pelos exércitos e frotas
bizantinos.
Essas e outras medidas detiveram a desintegração do Império,
territorialmente diminuído e com uma população predominantemente grega e
asiática.
O embasamento grego e asiático tinha suas raízes nos
primórdios de Bizâncio e, apesar da influência romana e ocidental, acabou
impondo-se e caracterizando a Civilização Bizantina. Foi grega e asiática a
religião cristã que se desenvolveu em Bizâncio, com características bem
distintas do Cristianismo romano e ocidental: este voltou-se mais para a
organização da Igreja e para a conversão dos pagãos, enquanto aquele teve no
monaquismo e nas controvérsias teológicas aspectos marcantes. Foi grega e
asiática a estrutura econômica que se manteve por longo tempo no Império
Bizantino, cuja prosperidade contrastou, por séculos, com as regiões ocidentais
do antigo Império Romano.
Ainda que a agricultura
até o século XI apresentasse uma gradual transformação para o modo de produção
feudal, como ocorria na Europa Ocidental, a transição do escravismo ao
feudalismo foi mais lenta. Além do mais, o Império Bizantino incluía em seus
limites, embora em regiões da periferia, áreas com uma infra-estrutura
fundamentada no modo de produção asiático, como foi o caso da Síria, da
Palestina e do Egito, incorporados ao Império Árabe, no século VII.
Grega e asiática era a tradição urbana do Império Bizantino,
que tinha no artesanato (refinado e submetido á rígido controle do Estado) e no
comércio (monopólio do Estado durante séculos) duas importantes fontes de
riqueza.
Desde Heráclio (610 - 641), fundador da dinastia dos
Heráclida, o Império tornou-se grego e oriental, sendo o latim abandonado como
língua oficial e substituído pelo grego, utilizado na legislação, na
administração e na denominação dos cargos: Estrátegas, Basileus etc.
Com os Heráclida nova ameaça abateu-se sobre o Estado
bizantino: os árabes. A expansão árabe resultou na perda de diversas regiões do
Império Bizantino.: ilhas do Mediterrâneo Oriental, o Egito, a Síria e a
Palestina, as três últimas recém-reconquistadas à Pérsia Sassânida e de grande
importância econômica.
A Questão Iconoclasta
Já no século VIII, quando os árabes avançando pela Ásia Menor
preparavam o assalto final a Constantinopla, ascendeu ao poder nova dinastia, de
origem asiática: a Isáurica ou Isáuria (717 - 802). Seu fundador foi Leão III
(717 - 741)., cujo reinado, juntamente com o de seu filho e sucessor Constantino
V (741 - 775), caracterizou-se pela contra-ofensiva contra os Omíada, frustrados
no ataque terrestre e naval contra Constantinopla (717) e rechaçados da Ásia
Menor pelos bizantinos.
O período, no entanto, teve como aspecto marcante a Questão
Iconoclasta, de profundas implicações, inclusive externas.
No Império Bizantino as influências helenísticas e orientais
resultaram na estreita ligação entre Igreja e Estado, concretizada no
Cesaropapismo: ao Basileus cabia a chefia da Igreja e do Estado. Tal situação
funcionava como arma de dois gumes: na condição de protetor da Igreja poderia
gerir seus bens e preencher os cargos eclesiásticos, o que reforçava o poder
imperial; em contrapartida, as reações à ortodoxia religiosa refletiam
resistências de oposições ao poder central, que transformavam controvérsias
religiosas em problemas políticos decorrentes de contradições sócio-econômicas,
como se deu com a Questão Iconoclasta.
Só podemos entender a Questão Iconoclasta enquandrando-a no
contexto da transição do escravismo ao feudalismo. Com efeito, os ícones eram as
imagens, pequenas ou grandes, representando pessoas santificadas ou o próprio
Cristo; feitos nos mais diversos materiais, incorporaram-se às cerimônias de
culto da sociedade bizantina. Entre os principais produtores de ícones
encontravam-se os monges que obtinham grandes lucros com a venda de imagens.
Essas riquezas reforçavam ainda mais o poderio dos monges, cujas ordens possuíam
grandes propriedades isentas de tributos, exerciam grande influência na
sociedade e constituíam uma ameaça ao poder central porque representavam o
avanço da feudalização.
É certo ainda que o culto das imagens era visto por muitos,
sobretudo asiáticos, como idolatria, os quais defendiam concepções mais
espiritualizadas da religião, onde não haveria práticas supersticiosas como
queimar incenso, iluminar círios, crença em relíquias ou culto de imagens.
Foi Leão III, de origem asiática, quem determinou a proibição
do culto de imagens (ícones) e sua destruição - ou iconoclastia -, medida que
atingiu ainda outras práticas consideradas pagãs (726). O objetivo visado era
enfraquecer o poder dos monges que reagiram provocando revoltas contra o
Basileus. A cisão interna aprofundou-se quando os monges obtiveram o apoio das
populações balcânicas, da maioria do clero e dos marinheiros (geralmente
gregos), que consideravam a destruição de imagens um sacrilégio e uma heresia.
Sustentado pelo exército, cujos soldados eram na maioria de
origem asiática, Leão III determinou o confisco dos bens dos mosteiros e a
redistribuição das terras entre os soldados, prosseguindo a política de reação
do poder central contra os setores feudais. Embora fossem reprimidas as
sublevações provocadas pelos monges e mantidas as expropriações de seus bens, a
Questão complicou-se porque o Papado considerou herética a destruição dos ícones
e condenou as demais medidas contra os monges.
Apesar disso, Leão III e seus sucessores mantiveram-se firmes
na política adotada contra o culto de ícones. A Questão Iconoclasta serviu, no
entanto, para aprofundar divergências com o Papado, que acabou se aproximando
dos francos e coroando Imperador a Carlos Magno, o que politicamente representou
um desprestígio para os Imperadores bizantinos, face à criação do Novo Império
Romano do Ocidente (800). Além do mais, a crise interna do Império Bizantino
impossibilitou o envio de ajuda militar à Península Italiana, onde o Exarcado de
Ravena e demais províncias bizantinas foram conquistadas pelos lombardos.
No século IX, a Basilisca Teodora revogou as leis
iconoclastas, e restabeleceu o culto das imagens (842). Novamente o poder dos
monges voltou a crescer, como se evidencia no depoimento do Basileus Nicéforo
Focas (963 - 969): “Os monges não possuem nenhuma das virtudes evangélicas; não
pensam senão na aquisição de terra, na ereção de enormes edifícios e na compra
de grande número de cavalos, bois, camelos e de todos os tipos de criação.
Dedicam todas as energias ao próprio enriquecimento, de sorte que a vida deles
em nada difere das pessoas que vivem no mundo.” (SHERRARD, P., Bizâncio,
Biblioteca de História Universal Life, Livraria José Olympio Editora, pág.
100.)
Apogeu e Decadência de um Império
Os séculos IX e X constituíram um dos períodos de apogeu da
sociedade bizantina, a segunda idade de ouro, segundo Paul Lemerle, e que
correspondeu ao governo da dinastia Macedônica (867 - 1056).
Desenvolvendo uma política externa expansionista, os
imperadores Macedônicos reconquistaram ilhas do Mediterrâneo Oriental (Chipre,
Creta) e regiões da Itália Meridional, como a Sicília, que era importante
celeiro de trigo. Nos Bálcãs, os búlgaros foram submetidos definitivamente,
tendo a conversão dos húngaros e russos ao Cristianismo ampliado a influência
cultural e a área de ação comercial bizantina.
A conversão dos povos eslavos e a prosperidade do Império.
Bizantino realçaram o prestígio e a importância do Patriarca de Constantinopla,
que se considerava o supremo dirigente da cristandade, não aceitando a teoria da
supremacia do poder pontifical. Desde a extinção do Império Romano do Ocidente,
assim como os Imperadores bizantinos afirmavam sua condição de herdeiros de
Roma, os Patriarcas apregoavam sua primazia na direção da Igreja. Essa
divergência levara a freqüentes atritos entre o Papado e os Patriarcas,
ocasionando rompimentos efltre a Igreja Cristã Ocidental e a Igreja Cristã
Oriental, como se verificou com a Questão Iconoclasta.
O Cristianismo, em sua evolução, assumiu características
diferentes na Europa Ocidental e em áreas do Império Bizantino, seja no ritual
oriental (celebrado em grego), seja na disciplina (a subordinação da Igreja ao
Estado bizantino) e nas crenças (rejeição do Purgatório pelos orientais).
A cisão seria inevitável e se deu quando o Papa Leão IX e o
Patriarca Miguel Cemlário entraram em conflito a respeito da jurisdição sobre
dioceses da Itália Meridional, excomungando-se mutuamente. Não se acreditava que
a ruptura fosse definitiva, mas a intransigência do Patriarca e do Papa ;
explicável porque a questão envolvia interesses econômicos relativos à
arrecadação das rendas daquelas dioceses e interesses políticos antagônicos
sobre a direção suprema da cristandade - consumou o Cisma do Oriente, em virtude
do qual criaram-se. duas Igrejas: a Igreja Cristã Ortodoxa Grega, subordinada ao
Patriarcado de Constantinopla, e a Igreja Católica Apostólica Romana, dirigida
pelo Papado (1054).
A prosperidade alcançada deveu-se sobretudo às riquezas
acumuladas com os rendimentos da terra, da indústria artesanal - intensamente
desenvolvida era a produção de artigos de luxo realizada nas oficinas estatais -
e do comércio. A atividade mercantil estava submetida ao controle do Estado e,
apesar dos ataques árabes, manteve-se florescente, funcionando Constantinopla
como intermediária entre o Extremo Oriente e o Ocidente: através da "rota da
seda", que atravessava toda a Ásia Central, fluíam especiarias, perfumes, seda,
pedras preciosas etc, que, chegados ao Mar Negro, eram transportados pelas
embarcações bizantinas aos portos do Mediterrâneo.. As cidades italianas, em
especial Veneza, redistribuíam aquelas mercadorias pela Europa Ocidental.
Constantinopla foi também importante centro financeiro, onde os cambistas
permutavam moedas das mais diversas procedências trazidas pelos mercadores
estrangeiros.
Apesar disso, a feudalização progrediu com o crescente
predomínio dos grandes senhorios em detrimento das pequenas propriedades de
cultivadores independentes e de camponeses-soldados, e até mesmo das terras da
Coroa. As estruturas feudais foram reforçadas sob a dinastia dos Comneno (1081 -
1185), cuja ascensão marcou a vitória dos setores feudais sobre a aristocracia
urbana que dirigia o Império. Adotando o costume de conceder terras em troca da
prestação de serviços, sendo a concessão acompanhada do direito de receber
impostos dos camponeses e de ministrar justiça, os Comneno fortaleceram os
mosteiros e a nobreza feudal, convertidos em forças desintegradoras do poder
central.
Externamente novas ameaças surgiram no século XI: nos Bálcãs,
sérvios e petchenegues invadiram províncias bizantinas; na Itália do Sul, os
normandos apoderaram-se da Sicília e demais regiões bizantinas; no Oriente
Próximo, os turcos seldjúcidas ocuparam a Síria e. a maior parte da Ásia Menor,
privando o Império Bizantino de territórios onde se encontravam importantes
rotas de comércio e eram recrutados elementos para o exército.
A gravidade da situação levou os Comneno a recorrer ao
Papado, pedindo ajuda contra os turcos seldjúcidas, precipitando com isso as
Cruzadas que acabaram arruinando o Império Bizantino. Recorreram também, a.
Veneza, solicitando o apoio de sua esquadra contra os normandos que atacavam os
Bálcãs; em troca, os venezianos receberam amplas concessões comerciais. Ora, tal
situação privou o Estado de uma das principais fontes de receita e retirou ao
Império Bizantino a condição de intermediário do comércio entre o Extremo
Oriente e o Ocidente.
Reagindo contra isso, a dinastia dos Ângelo (1185 - 1204)
anulou os privilégios concedidos a Veneza que, em represália, desviou a Quarta
Cruzada contra Constantinopla (1204), cuja conquista resultou no Império Latino
do Oriente.
“O altar sagrado da
grande igreja de Santa Sofia, feito de todas as espécies de matérias
preciosas e admirado em todo o mundo, foi despedaçado e repartido
pelos soldados, tal como as outras riquezas sagradas dum esplendor
infinito. Quando os vasos sacros e os objetos duma arte e duma graça
inexcedíveis (...) e as guarnições de ouro e prata cinzelada (...) e
as portas e outros ornamentos foram levados como despojo, as mulas e
os cavalos arreados foram introduzidos no santuário do templo.
Alguns de entre eles, que não conseguiam equilibrar-se no lajedo
escorregadio, eram apunhalados até cair, de tal modo que o admirável
chão sagrado ficou [todo] poluído de sangue e esterco. Além disso,
uma prostituta (...) insultando Cristo, sentou-se na cadeira
patriarcal, para cantar uma canção obscena, e dançou
freneticamente.”
(Nicetas Acominato,
Crônicas. Citado por FREITAS, G, de, op. cit., pág. 152.)
“Constantinopla,
glória dos Gregos, rica em prestígio, mais rica ainda em dinheiro
(...)”
(Depoimento do Monge
Eudes, secretário de Luís VII, Rei de França. Citado por GOTHIER, L,
e TROUX, A; op..cit., pág. 236.)
A Derrocada do Império Bizantino
Embora fosse efêmero o Império Latino do Oriente (1204 -
1261) , Veneza e os senhores feudais ocidentais só foram expulsos pelos
bizantinos com a ajuda de Gênova.
Em conseqüência, o Império Bizantino restaurado pela dinastia
dos Paleólogo (1261-1453) reduziu-se a algumas ilhas do Mar Egeu, a pequena
parte da Ásia Menor e da Península Balcânica. Além do mais, seus recursos
econômicos eram limitados, porque os genoveses desfrutavam de isenções fiscais e
liberdade de ação comercial no Império Bizantino.
A agonia do Império prolongou-se por mais dois séculos, cada
vez mais debilitado pelas lutas internas e pelos ataques dós sérvios, que haviam
formado poderoso Estado nos Bálcãs, e dos turcos otomanos, convertidos em novos
senhores do antigo Califado de Bagdá.
Ao longo do século XIV, os turcos otomanos ocuparam a Ásia
Menor, os Bálcãs e reduziram o Império Bizantino unicamente à cidade de
Constantinopla.
Quando reinava Constantino XI (1448 - 1453) , o Sultão Maomé
II cercou a cidade, por terra e por mar. Utilizando-se de poderosa artilharia
abriu brechas nas muralhas defensivas de Constantinopla e conquistou a cidade,
que foi transformada em capital do Império Otomano, com o nome de Istambul
(1453).
“Direitos que se pagam
em Constantinopla, na alfândega do Imperador pelos gêneros que os
mercadores trazem e levam: Os genoveses e os venezianos têm entrada
e saída francas, não pagam nada. (...) Os florentinos, provençais,
catalães, anconianos, sicilianos e todos os outros estrangeiros
pagam 2% ao entrar e 2% (...) ao partir; e são obrigados a pagar ao
mesmo tempo a entrada e a saída (...)”
(Francisco Balduci
Pegolotti, La Pratica della Mercatura. Citado por FREITAS, G, de,
op. cit., págs. 117 e 118.)
“Em virtude da
escassez de dinheiro, o esplendor da corte bizantina desapareceu. As
jóias das coroas eram vidro, os mantos não eram verdadeiro pano de
ouro mas brocadilho, os pratos eram- de cobre, e tudo quanto parecia
rico brocado era apenas couro pintado.”
(Depoimento de um
observador da época. Citado por SHERRARD, P., op. cit., pág. 166.)
Herança da Civilização Bizantina
A Civilização Bizantina exerceu profunda influência sobre as
sociedades medievais, particularmente sobre as sociedades eslavas, às quais
transmitiu muitas de suas instituições político-jurídicas e realizações
culturais.
Em sua prolongada existência, a sociedade bizantina fundiu
elementos culturais latinos, gregos e asiáticos, condicionados pelo
Cristianismo, criando uma civilização marcada pela originalidade.
A Arte expressou-se particularmente na edificação de igrejas,
mosteiros e palácios, refletindo a sua subordinação à religião e ao Estado. Das
construções civis. (palácios, aquedutos etc.) quase nada restou, mas não ocorreu
o mesmo com os templos, muitos dos quais sobreviveram até hoje. As igrejas
bizantinas apresentavam construções de abóbadas múltiplas e formas variadas
(planos quadrados, octogonais, em cruz grega etc), mas sua originalidade estava
no emprego de cúpulas e na singeleza do exterior, contrastando com a
suntuosidade da decoração interior, onde sobressaíam os mosaicos dos vitrais,
paredes e tetos. O templo mais famoso é a Basílica de Santa Sofia, em
Constantinopla, com monumental cúpula sobreposta a uma construção quadrada.
A Pintura, essencialmente decorativa, manifestou-se em
afrescos representando santos e anjos, os dirigentes etc., cujas figuras
geralmente são estáticas com fisionomias que apresentam linhas de sofrimento,
benevolência e misticismo.
A Escultura foi igualmente decorativa. Baixos-relevos de
construções, trabalhos em marfim (capas de livros, por exemplo) e ícones
constituíram as formas mais desenvolvidas.
A atividade literária, realizada inicialmente em latim e
depois em grego, teve uma produção rica em variedade, qualidade e quantidade.
Escritos em prosa ou verso, os manuscritos freqüentemente eram ilustrados com
iluminuras, em que os artistas davam asas à imaginação para a concretização da
ilustração, ou subordinavam-se à rígida e severa orientação da Igreja.
Predominaram as composições de conteúdo religioso: hinos sacros, assuntos de
Teologia, vida de santos etc. Embora tendendo a imitar os clássicos
greco-romanos, a Literatura profana exprimiu-se nos mais variados gêneros, como
a poesia epigramática e a poesia lírica, tratados sobre diplomacia e técnicas de
guerra, enciclopédias, narrativas de viagens, romances épicos (o mais popular
foi Digenes Akrites, comparável em qualidade à Canção de Rolando) e narrativas
históricas, entre as quais a História Arcana, de Procópio de Cesaréia (500 -
565), e a Alexíada de Ana Conieno (1083 - 1148).
Assumiu particular importância a compilação de escritos da
Antiguidade Clássica, possibilitando a preservação de trabalhos de autores
gregos e até latinos. Essas compilações, realizadas por copistas anônimos, eram
mantidas em bibliotecas imperiais, dos mosteiros ou de particulares, sendo mais
tarde, transmitidas aos ocidentais e a outras sociedades.
“Abd Allah al-Ma’mún (...) entrou
em entendimentos com os Imperadores de Bizâncio, deu-lhes ricos
presentes e lhes solicitou a doação dos livros de Filosofia que
possuíam. Os Imperadores enviaram-lhe obras de Platão, de
Aristóteles, de Hipócrates, de Galeno, de Euclides, de Ptolomeu etc.
Al-Ma’mún então escolheu eméritos tradutores e os encarregou de
traduzir o melhor possível aquelas obras. A tradução sendo feita com
toda a perfeição possível, o Califa estimulou seus súditos a lê-las
e os encorajou a estudá-las. Em conseqüência, o movimento científico
desenvolveu-se no reinado deste príncipe.”
(Said AI Andalusi [1029-1070], in
As Categorias das Nações. Citado por GOTHIER, L. e TROUX, A., op.
cit., pág. 45.)
Bibliografia:
História do Império Bizantino MARIO
CURTIS GIORDANI
e ainda:

100 Textos de História Antiga - Jaime Pinsky
História da Riqueza do Homem - Leo Huberman - História da Formação do
Capitalismo
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