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Para quem achava que a situação brasileira não poderia
piorar...
FHC elege-se presidente da república
FHC assumiu a presidência da República apoiado por
uma confortável maioria no Congresso. Praticamente todos os grandes partidos o
apoiavam, principalmente o PSDB, claro, e o PFL. Na presidência do Congresso,
nada mais nada menos do que o senador José Sarney (PMDB). Isso mesmo, o
ex-presidente continuava com força total. As exceções críticas a FHC eram o PT e
PDT. Claro que isso não significava que era fácil governar. Na verdade, toda vez
que o governo queria que um projeto fosse apoiado pelo Congresso, tinha de
oferecer alguma coisa em troca para seus aliados (geralmente cargos públicos bem
remunerados).
No fundo, as ligações de FHC com notórias figuras
conservadoras revelavam que o presidente estava distante das raras e tímidas
idéias sociais ligeiramente progressistas, mas sempre miseravelmente weberianas,
defendidas no tempo em que era professor ou mesmo durante seu mandato de senador
do PMDB. O presidente argumentava que o mundo tinha mudado e que era necessário
ventilar as idéias.
FHC levou adiante e aprofundou a política
neoliberal, globalizante e entreguista iniciada por seu antecessor Collor de
Mello: privatizou empresas estatais, liberou as importações, fez cortes nos
gastos sociais, aumentou tarifas públicas e congelou o salário do funcionalismo
público. O monopólio da Petrobrás foi anulado, ou seja, ela tinha deixado de ser
a única empresa no Brasil autorizada a explorar o petróleo. Agora, teria de
enfrentar a concorrência estrangeira. O mesmo aconteceu no setor de
telecomunicações.
O Plano Real parecia ser bem-sucedido no combate à
inflação. O problema é que muitas vezes a economia se assemelha a um cobertor
curto: quando você cobre esse lado, deixa o outro no frio. Para começar, a taxa
de câmbio supervalorizando a moeda brasileira (o real) facilitava as importações
e, por efeito inverso, encarecia as exportações. A balança comercial externa se
tornou negativa. O México passou pelo mesmo problema, até que as reservas
cambiais (moeda forte que o país dispunha para gastar) foram torradas e o país
se viu na beira da falência: era o efeito tequilla. Na Argentina, acontecia algo
parecido. Mas os economistas do real alegavam, com boa dose de razão, que a
economia do Brasil tinha uma indústria muito mais sólida do que a dos outros
dois países. Realmente, a balança, no início e com forte apelo da propaganda –
paga com dinheiro público, por sinal – acabou demonstrando-se menos negativa do
que na realidade o era...
Acontece que o governo tinha de conter gastos
públicos e parar de emitir papel-moeda. Também queria conter o consumo, para que
a demanda (procura) baixa mantivesse os preços em baixo. Para isso, botou as
taxas de juros lá em cima (recolhendo para o Banco Central parte do dinheiro dos
bancos tornava mais escassa a moeda).
O resultado é que ficava difícil um empresário pegar
dinheiro emprestado num banco. Começou a recessão. Produção menor, falências,
desemprego crescendo assustadoramente. Os juros altos também aumentavam
estupidamente a dívida interna do governo, uma espécie de bomba relógio marcando
hora para explodir.
Há muitos anos que a ciranda inflacionária enchia os
bolsos dos banqueiros. Mas a diminuição brusca da inflação pegou alguns bancos
de surpresa. Ameaçados de falência, receberam ajudas do governo federal que
chegavam a bilhões de dólares. A população então se perguntava: que governo é
esse que gasta fortunas para salvar quem já tem fortunas? A liquidação do Banco
Econômico, por exemplo, envolveu muita gente poderosa, inclusive o senador
baiano Antônio Carlos Magalhães (PFLBA), uma das figuras mais poderosas do
governo.
As reformas econômicas neoliberais interessavam aos
empresários, que sonhavam com uma economia mais ágil e que dobrasse o movimento
operário. Mas essas reformas foram retardadas pelos políticos tradicionais, que
temiam o fim das estatais, cujos cargos de direção sempre foram cobrados. A
esquerda também não concordava com grande parte dessas reformas por
considerá-las prejudiciais aos trabalhadores.
A maldição tucana (ficar em cima do muro) parecia
atingir em cheio o governo FHC. Tragicamente simbólico foi o massacre dos
camponeses do Movimento dos Sem-Terra, em abril de 1996: a PM chegou de surpresa
no acampamento e fuzilou inúmeras pessoas.
Questões em aberto
O processo histórico de formação do Brasil leva-nos
à inevitável conclusão de que não passa de um tolo preconceito acreditar que “o
povo brasileiro é o culpado pela situação do país”. Afinal, o povo trabalhador
tem sido antes de tudo uma vítima da estrutura social injusta.
Não adianta ficarmos nas lamentações. E preciso
pensar criticamente para encontrar novos caminhos para o nosso país.
O Brasil do final do século XX e entrada do XXI
apresenta muitos problemas cujas raízes históricas nós estamos estudando. Vamos
dar uma olhada nesses problemas?
A questão da
terra. Desde a colonização, quase todas as terras estão nas mãos de uma
minoria de latifundiários. Latifúndio-monocultor e escravista, foi assim que
nascemos, lembra? A República Velha também era república dos latifundiários.
Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros jamais fizeram algo pela
reforma agrária. Assim, a história do Brasil também é a história da luta dos que
trabalham na terra: Cabanagem, Balaiada, quilombos, Canudos, Contestado, as
Ligas Camponesas, a guerrilha do Araguaia. Também é a história da reação: um dos
principais motivos para o golpe de 64 foi impedir a tentativa do presidente
Jango de realizar a reforma agrária.
Hoje, existem milhões de famílias de sem-terra, isto
é, gente que mora no campo e que vive na miséria porque não possui nenhum
pedacinho de chão para cultivar. Sobrevivem como bóias-frias, ou seja,
empregados temporariamente (na época da semeadura e, meses depois, na época da
colheita). O que eles querem? A reforma agrária, isto é, que o governo tome as
terras improdutivas (as partes que nunca são utilizadas) dos latifundiários e as
distribuam gratuitamente para os sem-terra. Desde Sarney até FHC que os
presidentes têm prometido reforma agrária mas pouco fizeram.
O Movimento dos Sem-Terra, organizado no Brasil
inteiro (com apoio dos partidos de esquerda), começou a utilizar uma tática de
luta: invasão de terras. De modo bem planejado, de repente centenas de famílias
pulam a cerca e ocupam um pedaço de uma fazenda, exigindo a reforma agrária
imediata, ali mesmo. Algumas vezes, o governo até desapropria terras e cede para
os camponeses. Mas o grande objetivo das invasões é chamar a atenção do país
para o problema.
Os latifundiários reagem com brutalidade às
invasões. Contratam capangas que em várias ocasiões já perderam o controle e
mandaram bala nos sem-terra, chegando a provocar mortes. Os fazendeiros convocam
a polícia militar e, infelizmente, já ocorreram episódios sangrentos com os
soldados atirando e matando famílias de camponeses.
Uma reforma agrária traria grandes benefícios para a
população. O número de miseráveis diminuiria. A oferta de ali mentos seria maior
(os pequenos e médios proprietários são os principais produtores de comida. O
latifúndio está mais ligado à exportação - soja, café, cacau, tabaco - ou aos
cultivos industriais - laranja, algodão). Com mais alimentos no mercado, haveria
uma tendência à queda dos preços. As pessoas comeriam mais e barato. Sobraria
dinheiro para gastar com outras coisas. Ou seja, o mercado interno seria maior.
Deste modo, a reforma agrária acabaria dinamizando a indústria, que teria mais
compradores.
O problema todo é: como fazer a reforma agrária? O
Congresso Nacional, cheio de deputados e senadores ligados a latifundiários,
mudaria as regras atuais? Será que o Poder Executivo (o presidente) realmente
está empenhado nas mudanças? Será que o Movimento dos Sem-Terra terá força
suficiente para conquistar seus direitos?
A péssima
distribuição de renda. O Brasil há décadas é perpassado por cruéis
diferenças sociais do Brasil. O nosso Brasil é simplesmente o país mais injusto
do mundo! Isso mesmo que você leu. Nós temos a pior distribuição de renda do
planeta, isto é, em nenhum lugar os ricos têm tantos bens e renda e os pobres
ganham tão pouco. Alguns dos milionários brasileiros estão entre os mais ricos
da Terra e muitos dos milhões de pobres vivem numa situação bem parecida com a
dos famintos dos países mais pobres e desgraçados.
A origem disso está no tipo de colonização que
tivemos (colônia de exploração...), que impôs o latifúndio (uns com quase tudo,
o grande resto com quase nada) e a escravidão (a maioria sendo explorada pela
minoria). Depois da abolição, os ex-escravos não receberam nenhuma compensação,
nenhum pedacinho de terra para plantar. O Brasil se tornou um país capitalista,
com a maioria dos trabalhadores recebendo salários. Mas o capitalismo brasileiro
foi construído de forma selvagem, com muito sacrifício e pouco salário. As
tentativas de mudar a situação foram cortadas com violência. Foi o caso, por
exemplo, das reformas de base interrompidas pelo golpe militar de 1964. Foi o
caso de tantas greves operárias reprimidas pelo governo e pelos patrões, das
revoltas anarquistas da Velha República às greves de metalúrgicos lideradas por
Lula no ABC paulista do fim dos anos 70.
Pois bem, e como diminuir essas escandalosas
diferenças sociais? Como ficar menos distante da igualdade social? Existem
várias propostas. Os políticos de direita alegam que só depois que a economia se
modernizar e crescer é que poderá haver uma divisão dos frutos. A esquerda
acredita que a economia só poderá se modernizar se os frutos atuais começarem a
ser divididos agora mesmo. De qualquer modo, distribuir renda significa tirar de
quem tem e transferir para quem não tem, ou seja, tornar o rico menos rico para
que o pobre fique menos pobre. Mas será que os ricos aceitariam? Será que os
pobres estariam dispostos a lutar por isso?
A fome.
Nas grandes cidades brasileiras, milhares de pessoas dormem embaixo dos
viadutos, nas calçadas sujas e frias, perto das valas de esgoto. Como é possível
que se passe fome no Brasil? Como é possível aceitar que umas pessoas
desperdicem tantos recursos enquanto que crianças tenham de procurar seu jantar
nos restos das latas de lixo da rua?
Vimos que a fome no Brasil tem razões históricas.
Desde a colonização que a agricultura estava dominada pelos latifundiários. O
interesse deles era exportar o mais que pudessem (açúcar, algodão, cacau, café
etc.), sem dar atenção ao cultivo de alimentos. Portugal, por exemplo, fez
várias leis obrigando os senhores de engenho a plantar mandioca porque volta e
meia havia uma crise de abastecimento na colônia. Uma das causas da Conjuração
Baiana (1798) foi a melhora dos preços mundiais do açúcar, que fez com que os
latifundiários plantassem cana onde antes havia produção de mandioca, feijão,
milho e legumes. Na República Velha, os operários viviam reclamando da carestia.
Os problemas são interligados: falta de reforma
agrária, má distribuição de renda, existência de governos que privilegiam os
ricos. 0 que pode ser feito? Não adianta ficarmos esperando a boa vontade do
governo. Temos de nos mobilizar. Uma das formas foi a famosa Campanha da Fome
liderada pelo sociólogo Herbert de Souza (o Betinho), que nos anos 90 mobilizou
a solidariedade de milhões de brasileiros. Desta maneira, foi a articulação da
sociedade civil que contribuiu para melhorar a vida dos pobres. Mas é claro que
não basta. É preciso que a população pressione o governo para que as
providências sejam tomadas pelo Estado. Estamos apenas no começo. Desde Getúlio,
passando pela ditadura militar de 1964, que a sociedade civil brasileira estava
sufocada pelo Estado. Só agora estamos aprendendo a nos mobilizar.
Modernização
e globalização da economia. O mundo de hoje é dinâmico, as descobertas
espetaculares da ciência e da tecnologia são imediatamente aplicadas na
economia. No Brasil, muitos setores ainda estão atrasados em relação ao Primeiro
Mundo. Usamos poucos computadores, existe uma porção de fábricas com máquinas
obsoletas e produtos ultrapassados, os institutos de pesquisa científica e
tecnológica e universidades têm poucas verbas (dinheiro do governo). O problema
se agrava com a globalização da economia: a economia do mundo está cada vez mais
interligada, um país influencia diretamente outro país. Como o Brasil pode
sobreviver com uma economia atrasada, que produz velharias com técnicas
ancestrais? Qual será nosso futuro se quase não criamos tecnologia própria,
quase não temos cientistas?
A globalização da economia significa que o comércio
entre os países se torna cada vez mais importante do que o comércio entre as
cidades e regiões do mesmo país. Significa que as empresas multinacionais fazem
investimentos colossais e geram uma riqueza muito maior do que as empresas que
atuam exclusivamente num único país. Pois como o Brasil encara tudo isso? Nosso
país é capaz de viver a globalização econômica sem perder a autonomia, sem se
subordinar aos países capitalistas mais ricos?
Nosso contato com a economia internacional sempre
foi marcado pelas contradições. Fomos “descobertos” e colonizados exatamente por
causa da expansão econômica européia pelo mundo. De certa forma, nós já nascemos
globalizados. Grande parte da economia brasileira, da Colônia à República,
estava voltada para o mercado internacional (era agroexportadora). Nossa
economia sempre sofreu influências externas: de Portugal, depois da Inglaterra
e, no século XX, dos EUA. Poderíamos recordar inúmeros episódios; o monopólio
colonial lusitano, o Tratado de Methuen, o contrabando inglês, a abertura dos
portos, os tratados de 1810 (renovados em 1826), as pressões inglesas contra o
tráfico escravista, o Bill Aberdeen, as dificuldades de Mauá por causa da
concorrência externa, a influência das guerras sobre a nossa indústria
(substituição de importações), o nacionalismo de Vargas e de João Goulart
ferindo os interesses norte-americanos, a abertura da economia aos investimentos
estrangeiros com JK, o regime militar e Collor, a dívida externa que a ditadura
contraiu com os banqueiros internacionais e por aí vai. Enfim, nosso passado é
triste e há muito ainda a fazer no futuro a partir do momento em que haja
vontade política para tanto, claro.
A Questão da
Educação – Como o Brasil poderá ingressar no século XXI sendo ainda um país
com milhões de analfabetos? Desta forma, os operários são pouco instruídos, boa
parte não consegue aprender como manejar as máquinas sofisticadas de última
geração. Na verdade, faltam pessoas qualificadas em quase todas as profissões. A
modernização econômica é travada pelo atraso educacional.
No Brasil colonial a educação não era muito
considerada. Afinal, escravos e pobres livres não precisavam saber escrever para
trabalhar para um latifundiário. Esta situação durou mais ou menos até o século
XX! No tempo do Império, os funcionários públicos de alto nível eram formados em
Direito. Tínhamos poucos engenheiros, químicos, geólogos, agrônomos, cientistas.
Os latifundiários que dominavam o país não precisavam desses especialistas. A
situação começou a mudar no século XX. Os sindicatos operários começaram a
exigir que o governo fizesse escolas públicas para as crianças pobres. Os
anarquistas e comunistas diziam que a instrução era uma arma de luta dos
trabalhadores e estimulavam a leitura e os debates. Com Getúlio, o governo passa
a se preocupar em fornecer instrução elementar para os operários; queria
qualificar e disciplinar a mão-de-obra. Mas parece que as elites brasileiras têm
medo do povo educado. Gente que estuda e reflete criticamente começa a pensar e
a fazer coisas diferentes...
Hoje, quando a criança pobre consegue entrar na
escola pública (não há vagas para todas), sofre com a falta de material, a
ausência de professores e de estímulos. Na maioria das vezes, ela é obrigada a
largar logo os estudos porque precisa trabalhar na rua para sobreviver.
Com
baixíssimos salários, os professores não vão às aulas, ou então empurram a
matéria sem preocupação de ensinar. Que tragédia!
Como garantir o acesso de todas as crianças à
escola? Como termos boas escolas e universidades públicas? Como pagar bem os
professores e equipar os laboratórios e bibliotecas? Problemas cabeludos para a
sociedade resolver, não é mesmo?
Especialistas mostram que o conhecimento será a
grande força econômica do século XXl. Quem não quiser (ou não puder) estudar e
aprender vai ficar para trás. Como nós ficaremos?
Cidadania.
Esta palavra pode significar muitas coisas. Em princípio, todos os brasileiros
deveriam ter o direito de exercer a plena cidadania. Como você sabe, a idéia dos
direitos do homem e do cidadão surgiu durante a Revolução Francesa de 1789,
baseada nos ideais democráticos iluministas. No Brasil, nós nunca tivemos nossa
revolução francesa completa. Por muito tempo, escravos, homens livres pobres e
mulheres eram não-cidadãos. No governo de Getúlio Vargas, cidadania era o
direito de ser reconhecido pelo Estado, ou seja, ter emprego fixo, carteira de
trabalho assinada, sindicato aprovado pelo governo.
A Constituição de 1988 estabeleceu vários direitos
de cidadania. Infelizmente, a maioria ainda não existe na prática. O direito de
ser livre, não passar fome, de ter emprego, habitação decente, médico e
segurança, de não ser violentado pela polícia, de não ser discriminado
racialmente ou sexualmente tudo isso tem a ver com a cidadania.
Cidadão é o que participa ativamente da cidade, ou
seja, aquele que influencia nas decisões da comunidade. Portanto, os direitos do
cidadão só podem ser garantidos se as pessoas procurarem se interessar
ativamente pela política, se elas se associarem para defender seus direitos.
Reforma do
Estado – No Brasil, o governo tem feito muito pouco pelo bem público. A
impressão é que o Estado sempre foi privatizado, ou seja, só existiu para
atender aos interesses particulares de alguns grupos privilegiados e não de toda
a população.
Historicamente, o governo brasileiro nasceu
opressor. Ele foi instalado pela metrópole portuguesa com algumas finalidades
básicas: submeter os índios, garantir a disciplina dos escravos, apoiar os
grandes proprietários, assegurar a obediência a Portugal. Quando nos tornamos
independentes, o Estado nacional foi construído pelas elites, e ele pouco tinha
de democrático. D. Pedro I era um tirano, as revoltas regenciais foram esmagadas
a ferro e fogo, o parlamentarismo monárquico de D. Pedro II era baseado no voto
censitário e indireto. Na República Velha, a política era dominada pelos
coronéis e pelas oligarquias estaduais. Tempo do voto em aberto, do cabresto
eleitoral, da questão social encarada como um caso de polícia. Com Vargas, o
Estado procurou incorporar a sociedade civil. Por exemplo, a imprensa estava sob
censura, os sindicatos eram subordinados ao governo e até escola de samba
precisava autorização para desfilar. A mesma truculência foi repetida durante a
ditadura militar (1964-1985): o Estado reprimindo greves, invadindo sindicatos,
proibindo que se criticasse o governo, fechando jornais, prendendo opositores.
O primeiro passo para "desprivatizar" o Estado é
garantir que ele seja democrático. Felizmente, hoje possuímos mais liberdade do
que em qualquer outra época de nossa história: o presidente é eleito com voto
direto e secreto, a imprensa é livre, todos os partidos podem funcionar, os
sindicatos têm autonomia, as pessoas podem ir para rua protestar. Esses direitos
não caíram do céu, é claro. Resultaram de anos e anos de luta do povo contra as
ditaduras. Mas isso não basta. Porque um grave problema ainda não foi
solucionado: como evitar que as pessoas elejam políticos que não têm nenhum
compromisso com a população? Como, através do jogo democrático, derrotar os
políticos mentirosos, oportunistas, enganadores do povo?
O Estado brasileiro precisa de reformas urgentes
para que se torne mais ágil, mais dinâmico, mais moderno, capaz de atender
melhor as pessoas. Não tem cabimento que hospitais públicos caiam aos pedaços,
que escolas não tenham aulas, que os aposentados recebam tão pouco, que um
simples documento leve semanas para ser expedido.
Um dos problemas mais graves (e isso acontece em
quase todo o mundo) é o déficit público, ou seja, o governo está gastando muito
mais do que arrecada com impostos. Como resolver esse problema? A sociedade
precisa aprender a controlar os atos do governo, estar sempre atenta ao que o
presidente e o Congresso andam fazendo. É desta maneira que combatemos a
corrupção e o mal uso que o governo faz com o dinheiro público.
Fiscalizar para evitar a corrupção, ficar de olho
para que o governo faça gastos realmente importantes para a população não é
suficiente. Porque falta dinheiro mesmo. E como conseguir? Os partidos de
esquerda propõem o aumento de cobrança dos impostos sobre os mais ricos. Os
partidos neoliberais acham que há impostos demais e gente pagando de menos, ou
seja, as empresas estariam sufocadas e muito espertalhão estaria sonegando. É
possível que cada lado tenha um pouco de razão.
Muitas pessoas argumentam que o governo não tem
dinheiro para investir em energia elétrica, telefones, estradas, hidrelétricas,
fabricação de aço. Por isso, o ideal é privatizar as empresas estatais que se
dedicam a tais atividades. Desde Collor até FHC o governo vem seguindo a linha
de privatizações. Fernando Henrique Cardoso chegou a privatizar a maior empresa
mineradora do mundo, a Cia. Vale do Rio Doce. Os neoliberais acreditam que as
novas empresas privatizadas vão pagar impostos bem maiores ao mesmo tempo em que
o governo já não precisa mais investir nelas. Portanto, sobraria mais dinheiro
para investir no bem estar social.
No Brasil,
sempre foi corriqueiro o político arrumar empregos públicos para seus eleitores.
Uma povão de gente foi nomeada para se tornar aspone (assessor de porcaria
nenhuma) numa repartição qualquer. Recebem uma grana e nem comparecem. Enquanto
isso, os outros funcionários têm de se virar para atender as pessoas. O pior é
que esses cabides de empregos (onde ficam pendurados os aspones) não podem ser
mexidos por causa da estabilidade no emprego. Ou seja, depois de alguns anos, o
funcionário público jamais poderá ser demitido. Direito garantido por lei. Uma
das mudanças propostas seria criar leis que permitam o governo demitir os
funcionários públicos em excesso. Os neoliberais são favoráveis às demissões em
massa para aliviar as contas do governo. A esquerda é contra porque quer
garantir o emprego. Mas como é possível falar em empreguismo e ao mesmo tempo
não aceitar nenhuma demissão? Até mesmo os aspones devem continuar empregados?
Até mesmo os funcionários de nível de segundo grau que recebem 60 ou 100
salários mínimos por mês ou mais? Por outro lado, como lembra um estudo do
historiador, sociólogo, jornalista e professor da UFF, Maurício da Silva Duarte,
o fim da estabilidade no emprego público pode fazer do funcionarismo um joguete
nas mãos de chefes políticos, especialmente nas cidades pequenas do interior.
Mais uma vez vem à tona a grande questão: como garantir o controle democrático
da sociedade sobre o Estado? Como estimular as pessoas a se interessar pelo que
fazem os governantes e passar a cobrar deles?
Bibliografia:
História do Brasil - Luiz Koshiba - Editora Atual
História Crítica do Brasil - Mário Schmidt - Ed.
Atual
História do Brasil - Bóris Fausto - EDUSP
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