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Canto da Solidão - Bernardo Guimarães

 

 

 


Prefácio da 2ª edição de Cantos da Solidão

Prefácio dos editores da 1ª edição de Cantos da Solidão

Prelúdio

Amor ideal

Hino à aurora

Invocação

Primeiro sonho de amor

À uma estrela

O Ermo

O Devanear de um cético

Desalento

No meu aniversário

Visita à sepultura de meu irmão

À sepultura de um escravo

O destino do vate

Esperança
 
 
 
 
 
 

Prefácio da 2ª edição de Cantos da Solidão

                                  Advertência da segunda edição

Grande número das poesias que agora ofereço ao público já foram publicadas em S. Paulo em 1852 sob o título de Cantos
da Solidão: essa edição porém, além de muito escassa quanto ao número de exemplares, foi por demais incorreta; e como o
público parece-me ter dado algum apreço a essas produções de minha primeira mocidade, isso me anima a dar-lhe esta
segunda edição muito mais correta, e seguida de grande número de poesias diversas.

Cumpre-me aqui dizer algumas palavras a respeito de algumas alterações e adições que fiz nos Cantos da solidão.

Quando, ao terminar meus estudos acadêmicos, me dispunha a retirar-me de S. Paulo, grande número de amigos e colegas
mostraram desejos de possuir impressas aquelas poesias; existiam elas pela maior parte em seu primeiro esboço tais quais me
tinham saído da pena no primeiro jacto, e os manuscritos se achavam em deplorável desordem; o tempo de que dispunha era
muito limitado para eu poder coligi-las, e limá-las convenientemente; com a tal ou qual ordem e correção que a pressa me
permitiu dar-lhes, deixei-as em S. Paulo em poder daqueles amigos, a fim de dá-las ao prelo; deixei-as mais como um fraco
penhor de amizade e gratidão, como um eco de meu coração, que eu queria deixar ressoando entre aqueles bons amigos, de
muitos dos quais eu me ia separar talvez para sempre, do que como um título com que me apresentasse ao público para
conquistar o glorioso nome de poeta.

A vista disso deve-se relevar o muito que há de desleixo e e incorreção nessas composições; desleixo e incorreção que
procurei eliminar o mais que me foi possível na presente edição; muitas alterações e adições fiz em algumas poesias; e mesmo
uma ou outra refundi completamente; outras porém ficaram assim mesmo mal acabadas, com o pensamento incompleto, a
frase mal polida, porque não foi mais possível evocar de novo inspirações há tanto tempo adormecidas. Alterei também um
tanto a ordem em que vinham na primeira edição, a fim de engrupar debaixo do título de - Inspirações da tarde - certo número
de poesias em que o quadro nelas debuxado se emoldura nos encantadores relevos dessa hora de remanso que serve de
transição da luz e bulício do dia para o silencio e trevas da noite.

Vão portanto estes versos nesta segunda edição corretos de muitos descuidos de metrificação e de estilo, e limpos de
inúmeros e graves erros tipográficos que desfiguravam a primeira.

Quanto ao valor literário que porventura possam ter estes versos, o público e a critica o decidirão; lembrem-se somente
aqueles que lançarem os olhos sobre estas páginas, que são elas produto de uma musa que tem constantemente sofrido o
embate de todo o gênero de contrariedades, e que conhece por experiência quanto é verdadeiro o que diz Chateaubriand: -
C'est un sophisme digne de la dureté de notre siècle, d'avoir avancé que les bons ouvrages se font dans le malheyr: il
n'est pas vrai qu'on puisse bien écrire quand on souffre. Les hommes qui se consacrent au culte des muses se laissent
plus vite submerger à la douleur que les esprits vulgaires.

Rio de Janeiro, 14 de abril de 1858

O AUTOR
 
 
 
 

Prefácio dos editores da 1ª edição de Cantos da Solidão

                                           AO LEITOR

Temos o prazer de oferecer ao público, e particularmente à mocidade acadêmica, as produções poéticas de um de nossos
irmãos de letras, que ao separar-se de nós legou-nos esses cantos melodiosos, como se fosse um adeus de despedida, e uma
última lembrança de seu viver de outrora; - é o testamento do coração ao terminar-se a vida descuidosa de mancebo; - é o
derradeiro olhar do viajante ao deixar as praias deleitosas de um país encantado, para expor-se aos azares de uma longa
peregrinação por mares tempestuosos; - é a baliza que servirá de assinalar-lhe essa quadra risonha da existência, que, ainda
depois de volvida, inspira~nos recordações tão deliciosas, como os aromas da pátria que auras propícias levassem aos ermos
do exilado.

Para nós os - Cantos da solidão - significam alguma cousa mais: - a naturalidade com que são escritos e esse perfume de
tristeza e sentimentalismo que eles exalam bem provam não serem essas poesias uma criação puramente artística; - elas são a
linguagem harmoniosa de uma alma poética e inspirada, que se expande
 

     


Prelúdio

                    Neste alaúde, que a saudade afina,
                    Apraz-me às vêzes descantar lembranças
                    De um tempo mais ditoso;

                    De um tempo em que entre sonhos de ventura
                    Minha alma repousava adormecida
                    Nos braços da esperança.

                    Eu amo essas lembranças, como o cisne
                    Ama seu lago azul, ou como a pomba
                    Do bosque as sombras ama.

                    Eu amo essas lembranças; deixam n'alma
                    Um quê de vago e triste, que mitiga
                    Da vida os amargores.

                    Assim de um belo dia, que esvaiu-se,
                    Longo tempo nas margens do ocidente
                    Repousa a luz saudosa.

                    Eu amo essas lembranças; são grinaldas
                    Que o prazer desfolhou, murchas relíquias
                    De esplêndido festim;

                    Tristes flores sem viço! - mas um resto
                    Inda conservam do suave aroma
                    Que outrora enfeitiçou-nos.

                    Quando o presente corre árido e triste,
                    E no céu do porvir pairam sinistras
                    As nuvens da incerteza,

                    Só no passado doce abrigo achamos
                    E nos apraz fitar saudosos olhos
                    Na senda decorrida;

                    Assim de novo um pouco se respira
                    Uma aura das venturas já fruídas,
                    Assim revive ainda

                    O coração que angústias já murcharam,
                    Bem como a flor ceifada em vasos d'água
                    Revive alguns instantes.
 
 

Amor ideal

Há uma estrela no céu
Que ninguém vê, senão eu

                                             (Garrett)
 

                  Quem és? - d'onde vens tu?
                  Sonho do céu, visão misteriosa,
                  Tu, que assim me rodeias de perfumes
                  De amor e d'harmonia?

                  Não és raio d'esp'rança
                  Enviado por Deus, ditamno puro
                  Por mãos ocultas de benigno gênio
                  No peito meu vertido?

                  Não és anjo celeste,
                  Que junto a mim, no adejo harmonioso
                  Passa, deixando-me a alma adormecida
                  Num êxtase de amor?

                  Ó tu, quem quer que sejas, anjo ou fada,
                  Mulher, sonho ou visão,
                  Inefável beleza, sê bem-vinda
                  Em minha solidão!

                  Vem, qual raio de luz dourando as trevas
                  De um cárcere sombrio,
                  Verter doce esperança neste peito
                  Em minha solidão!

                  Nosso amor é tão puro! - antes parece
                  A nota aérea e vaga
                  De ignota melodia, êxtase doce,
                  Perfume que embriaga!...

                  Amo-te como se ama o albor da aurora,
                  O claro azul do céu,
                  O perfume da flor, a luz da estrela,
                  Da noite o escuro véu.

                  Com desvelo alimento a minha chama
                  Do peito no sacrário,
                  Como sagrada lâmpada, que brilha
                  Dentro de um santuário.

                  Sim; a tua existencia é um mistério
                  A mim só revelado;
                  Um segredo de amor, que trarei sempre
                  Em meu seio guardado!

                  Ninguém te vê; - dos homens te separa
                  Um véu misterioso,
                  Em que modesta e tímida te escondes
                  Do mundo curioso.

                  Mas eu, no meu cismar, eu vejo sempre
                  A tua bela imagem;
                  Ouço-te a voz trazida entre perfumes
                  Por suspirosa aragem.

                  Sinto a fronte incendida bafejar-me
                  Teu hálito amoroso,
                  E do cândido seio que me abrasa
                  O arfar voluptuoso.

                  Vejo-te as formas do donoso corpo
                  Em vestes vaporosas,
                  E o belo riso, e a luz lânguida e meiga
                  Das pálpebras formosas!

                  Vejo-te sempre, mas ante mim passas
                  Qual sombra fugitiva,
                  Que me sorriu num sonho, e ante meus olhos
                  Desliza sempre esquiva!

                  Vejo-te sempre, ó tu, por quem minh'alma
                  De amores se consome;
                  Mas quem tu sejas, qual a pátria tua,
                  Não sei, não sei teu nome!

                  Ninguém te viu sobre a terra,
                  És filha dos sonhos meus:
                  Mas talvez, talvez que um dia
                  Te eu vá encontrar nos céus.

                  Tu não és filha dos homens,
                  Ó minha celeste fada,
                  D'argila, d'onde nascemos,
                  Não és decerto gerada.

                  Tu és da divina essência
                  Uma pura emanação,
                  Ou um eflúvio do elísio
                  Vertido em meu coração.

                  Tu és dos cantos do empíreo
                  Uma nota sonorosa,
                  Que nas fibras de minh'alma
                  Ecoa melodiosa;

                  Ou luz de benigna estrela
                  Que doura-me a triste vida,
                  Ou sombra de anjo celeste
                  Em minha alma refletida.

                  Enquanto vago na terra
                  Gomo mísero proscrito,
                  E o espírito não voa
                  Para as margens do infinito,

                  Tu apenas me apareces
                  Como um sonho vaporoso,
                  Ou qual perfume que inspira
                  Um cismar vago e saudoso;

                  Mas quando minh'alma solta
                  Desta prisão odiosa
                  Vaguear isenta e livre
                  Pela esfera luminosa,

                  Irei voando ansioso
                  Por esse espaço sem fim,
                  Até pousar em teus braços,
                  Meu formoso Querubim.
 
 

Hino à aurora

                      E já no campo azul do firmamento
                      A noite extingue os círios palejantes,
                      E em silêncio arrastando a fímbria escura
                      Do tenebroso manto
                      Transpõe do ocaso os montes derradeiros.
                      A terra, de entre as sombras ressurgindo
                      Do mole sono lânguida desperta,
                      E qual noiva gentil, que o esposo aguarda,
                      De galas se adereça.

                      Rósea filha do sol, eu te saúdo!
                      Formosa virgem de cabelos d'ouro,
                      Que prazenteira os passos antecedes
                      Do rei do firmamento,
                      Em seus caminhos flores despargindo!
                      Salve, aurora! - quão donosa surges
                      Nos azulados topes do oriente
                      Desfraldando o teu manto aurirrosado!
                      Qual cândida princesa
                      Que em desalinho lânguida se erguera
                      Do brando leito, em que sonhou venturas,
                      Tu lá no etéreo trono vaporoso
                      Entre cantos e aromas festejada,
                      Sorrindo escutas os melífluos quebros
                      Das mil canções com que saúda a terra
                      O teu raiar sereno.

                      Também tu choras, pois em minha fronte
                      Sinto teu pranto, e o vejo em gotas límpidas
                      A cintilar na tremula folhagem:
                      Assim no rosto da formosa virgem
                      - Efeito às vezes de amoroso enleio -
                      Brilha através das lágrimas o riso.

                      Bendiz o viajor extraviado
                      Tua luz benigna que a vereda aclara,
                      E mostra ao longe fumegando os tectos
                      De alvergue hospitaleiro.
                      Pobre colono alegre te saúda,
                      Por ver em torno do singelo colmo
                      Sorrir-se vicejante a natureza,
                      Manso rebanho retouçar contente,
                      Crescer a messe, as flores desbrocharem;
                      E unindo a voz aos cânticos da terra,
                      Aos céus envia sua humilde prece.
                      E o desditoso, que entre angústias vela
                      No inquieto leito sôfrego volvendo-se,
                      Espia ansioso o teu fulgor primeiro,
                      Que lhe derrama nas feridas d'alma
                      Celeste refrigério.

                      A ave canora para ti reserva
                      De seu cantar as mais suaves notas;
                      E a flor, que expande o cálix orvalhado
                      As estremes primícias te consagra
                      De seu brando perfume...
                      Vem, casta virgem, vem com teu sorriso,
                      Teus perfumes, teu hálito amoroso,
                      Esta cuidosa fronte bafejar-me;
                      Orvalho e fresquidão piedosa verte
                      Nos ardentes delírios de minh'alma,
                      E desvanece estas visões sombrias,
                      Funestos sonhos da penada noite!
                      Vem, ó formosa... Mas que é feito dela?..
                      O sol já mostra na brilhante esfera
                      O disco ardente - e a linda moça etérea
                      Que inda há pouco entre flores reclinada
                      Sorria-se amorosa no horizonte,
                      Enquanto a saíldava com meus hinos,
                      - Imagem do prazer, que breve dura, -
                      Se esvaeceu nos ares......
                      Adeus, esquiva ninfa,
                      Fugitiva ilusão, aérea fada!
                      Adeus também, canções enamoradas,
                      Adeus, rosas de amor, adeus, sorrisos.....
 
 

Invocação

                    Ó tu, que ora nos tergos da montanha
                    Nas asas do Aquilão passas rugindo,
                    E pelos céus entre bulcõe sombrios
                    Da tempestade o plúmbeo carro guias,
                    Ora suspiras na mudez das sombras
                    Manso agitando as invisíveis plumas,
                    E ora reclinado em nuvem rósea,
                    Que a brisa embala no ouro do horizonte,
                    Expandes no éter vagas harmonias,
                    Voz do deserto, espírito melódico
                    Que as cordas vibras dessa lira imensa,
                    Onde ressoam místicos hosanas,
                    Que inteira a criação a Deus exalça;
                    Salve, ó anjo! – minha alma te saúda,
                    Minha alma que, a teu sopro despertada,
                    Murmura, qual vergel harmonioso
                    Pelas brisas celestes embalado.....

                    Salve, ó gênio dos desertos,
                    Grande voz da solidão,
                    Salve, ó tu, que aos céus exalças
                    O hino da criação!

                    Sobre nuvem de perfumes
                    Te deslizas sonoroso,
                    E o rumor de tuas asas
                    É hino melodioso.

                    Que celeste querubim
                    Te deu essa harpa sublime,
                    Que em variados acentos
                    As dúlias dos céus exprime?

                    Harpa imensa de mil cordas
                    Donde em caudal, pura enchente,
                    Estão suaves harmonias
                    Transbordando eternamente?!

                    De uma corda a prece humilde
                    Como um perfume se exala
                    Entoando o sacro hosana,
                    Que do Eterno ao trono se ala;

                    Outra como que pranteia
                    Com voz fúnebre e dorida
                    O fatal poder da morte
                    E as amarguras da vida;

                    Nesta brando amor suspira,
                    E lamenta-se a saudade;
                    Nest’outra ruidosa e férrea
                    Troa a voz da tempestade.

                    Carpe as mágoas do infortúnio
                    De uma a voz triste e chorosa,
                    E só geme sob o manto
                    Da noite silenciosa.

                    Outra o hino dos prazeres
                    Entoa lêda e sonora,
                    E com cânticos festivos
                    Saúda nos céus a aurora.

                    Salve, ó gênio dos desertos,
                    Grande voz da solidão,
                    Salve, ó tu, que aos céus exalças
                    O hino da criação!

                    Sem ti o mundo jazera
                    Inda em lúgubre tristeza,
                    E o horror do caos reinara
                    Sobre toda a natureza;

                    Pela face do universo
                    Funérea paz se estendera,
                    E o mundo em mudez perene
                    Como um túmulo jazera;

                    Sobre ele então pousaria
                    Silêncio torvo e sombrio,
                    Como um sudário cobrindo
                    Um cadáver quedo e frio.

                    De que servira essa luz
                    Que abrilhanta o azul dos céus,
                    E essas cores tão mimosas
                    Que tingem da aurora os véus?

                    Essa risonha verdura,
                    esses bosques, rios, montes,
                    Campinas, flores, perfumes,
                    Sombrias grutas e fontes?

                    De que servira essa gala,
                    Que te enfeita, ó natureza,
                    Se adormecida jazeras
                    Em estúpida tristeza?

                    Se não houvesse uma voz,
                    Que erguesse um hino de amor,
                    Uma voz que a Deus dissesse
                    – Eu vos bendigo, ó Senhor!

                    Do firmamento nos cerúleos páramos
                    Sobre o dorso das nuvens balouçado,
                    Os olhos arroubados espraiando
                    Nos longes vaporosos
                    Dos bosques, das remotas serranias,
                    E dos mares na túrbida planície,
                    Cheio de amor contemplas
                    De Deus a obra tão formosa e grande,
                    E em melódico adejo então pairando
                    À face dos desertos,
                    De caudal harmonia as fontes abres;
                    Como na lira que pendente oscila
                    No ramo do arvoredo,
                    Roçadas pelas auras do deserto,
                    As cordas todas sussurrando ecoam,
                    Assim ao sopro teu, gênio canoro,
                    De júbilo palpita a natureza,
                    E as vozes mil desprende
                    De seus eternos, místicos cantares:
                    E dos horrendos brados do oceano,
                    Do rouco ribombar das cachoeiras,
                    Do rugir das florestas seculares,
                    Do quérulo murmúrio dos ribeiros,
                    Do frêmito amoroso da folhagem,
                    Do canto da ave, do gemer da fonte,
                    Dos sons, rumores, maviosas queixas,
                    Que povoam as sombras namoradas,
                    Um hino teces majestoso, imenso,
                    Que na amplidão do espaço murmurando
                    Vai unir-se aos concertos inefáveis
                    Que na límpida esfera vão guiando
                    O giro infindo, e místicas coréias
                    Dos rutilantes orbes;
                    Flor, que se enlaça na eternal grinalda
                    Be celeste harmonia, que incessante
                    Se expande aos pés do Eterno!...

                    Tu és do mundo
                    Alma canora,
                    E a voz sonora,
                    Da solidão;

                    Tu harmonizas
                    O vasto hino
                    Almo e divino
                    Da criação;

                    És o rugido
                    D'alva cascata
                    Que se desata
                    Da serrania;

                    Que nas quebradas
                    Espuma e tomba,
                    E alto ribomba
                    Na penedia;

                    És dos tufões
                    Rouco zunido,
                    E o bramido
                    Da tempestade;

                    Voz da torrente
                    Que o monte atroa;
                    Trovão,que ecoa
                    Na imensidade.

                    Suspira a noite
                    Com teus acentos,
                    Na voz dos ventos
                    És tu quem gemes;

                    À luz da lua
                    Silenciosa,
                    Na selva umbrosa
                    Co'a brisa fremes;

                    E no oriente
                    Tua voz sonora
                    Desperta a aurora
                    No róseo leito;

                    E toda a terra
                    Amor respira:
                    – De tua lira
                    Mágico efeito!

                    E quando a tarde
                    Meiga e amorosa
                    Com mão saudosa
                    Desdobra os véus,

                    Tua harpa aérea
                    Doce gemendo
                    Lhe vai dizendo
                    Um terno adeus!

                    Sentado às vezes no alcantil dos montes,
                    Másculos sons das cordas arrancando
                    A tempestade invocas,
                    E à tua voz os aquilões revoltos
                    A desfilada ruem,
                    E em seu furor uivando encarniçados
                    Lutam, forcejam, como se tentassem
                    Arrancar pelas bases a montanha!
                    Alarido infernal atroa as selvas,
                    No monte ronca a turva catadupa,
                    Que por sombrios antros despenhada
                    Ruge tremendo no profundo abismo;
                    Ígneo surco em súbitos lampejos
                    Fende a lúgubre sombra, – estala o raio,
                    E os ecos pavorosos ribombando
                    As celestes abóbadas atroam;
                    E a tempestade as asas rugidoras
                    De monte a monte estende,

                    E do trovão, do raio
                    A voz ameaçadora,
                    A fúria atroadora
                    Dos euros turbulentos,

                    Das selvas o rugido,
                    Da catarata o ronco,
                    O baque de alto tronco,
                    A luta de mil ventos,

                    Dos vendavais revoltos
                    Os pávidos bramidos,
                    Dos combros aluídos
                    O hórrido fracasso,

                    E do bulcão, que abre
                    A rúbida cratera,
                    A voz, que estruge fera
                    Nas solidões do espaço,

                    Do rábico granizo
                    O estrondo, que sussurra
                    Nas broncas serranias,
                    E o ribombar das vagas
                    Nas ocas penedias,
                    E todo esse tumulto,
                    Que em música horrorosa
                    Troa, abalando os eixos do universo,
                    São ecos de tua harpa majestosa!!

                    Porém silêncio, ó gênio, – não mais vibres
                    As bronzeas cordas, em que bramam raios,
                    pregoeiros da cólera celeste:
                    Mostra-me o céu brilhando azul e calmo
                    Como a alma do justo, e sobre a terra
                    Estende o manto amigo do sossego.
                    Deixa errar tua mão nos áureos fios,
                    Onde sóis desferir moles cantigas
                    A cujos sons se embala a natureza
                    Em êxtase suave adormecida.
                    E solta a sussurrar por entre as flores
                    Inquieto bando de lascivos zéfiros:
                    Que por seu meigo hálito afagada
                    A selva balanceie harmoniosa
                    Sua virente cúpula, exalando
                    Entre perfumes namorados quebros,
                    E de sinistras névoas destoucando-se
                    No diáfano azul dos horizontes
                    Banhados de luz meiga, os montes surdam.
                    Quando sem nuvens, plácida, festiva,
                    Tão bela assim, resplende a natureza,
                    Me parece que Deus do excelso trono
                    Um sorriso de amor à terra envia,
                    E corno nesses dias primitivos,
                    Lá quando ao sopro seu onipotente
                    Formosa a criação do caos surgia,
                    Nas obras suas se compraz ainda.

                    Vem pois, Anjo canoro do deserto,
                    Desta harpa a Deus fiel roça em teu vôo
                    As fibras sonorosas,

                    E delas fuja um hino harmonioso
                    Digno de unir-se aos místicos concertos,
                    Que ecoam nas esferas,

                    Hino banhado nas ardentes ondas
                    De santo amor, – que com sonoras asas
                    Em torno a Deus sussurre.

                    Erga-se a minha voz, inda que débil,
                    Qual ciciar da cana, que palpita
                    Ao sopro de uma aragem!...

                    Queime-se todo o incenso de minh'alma,
                    E em ondas aromáticas se expanda
                    Aos pés do Onipotente!...

 

 

 

Primeiro sonho de amor

                 Que tens, donzela, que tão triste pousas
                 Na branca mão a fronte pensativa,
                 E sobre os olhos dos compridos cílios
                 O negro véu desdobras?

                 Que sonho merencório hoje flutua
                 Sobre essa alma serena, que espelhava
                 A imagem da inocência?

                 Ainda há pouco eu via-te na vida,
                 Qual entre flores douda borboleta,
                 Brincar, sorrir, cantar...

                 E nos travessos olhos de azeviche,
                 De vivos raios sempre iluminados,
                 Sorrir doce alegria!

                 Branco lírio de amor aberto apenas,
                 Em cujo puro seio brilha ainda
                 A lágrima da aurora,

                 Acaso sentes já nos tenros pétalos
                 O nímio ardor do sol crestar-te o viço,
                 Vergar-te o frágil colo?
                 .............................................................
                 .............................................................

                 Agora acordas do encantado sono
                 Da descuidada prazenteira infância,
                 E o anjo dos amores
                 Em torno meneando as plumas d'ouro,
                 Teu seio virginal com as asas roça;
                 E qual macia brisa, que esvoaça
                 Roubando à flor o delicado aroma,
                 Vem roubar-te o perfume da inocência!..

                 Com sonhos dourados, que os anjos te inspiram,
                 Embala, ó donzela, teu vago pensar,
                 Com sonhos que envolvem-te em doce tristeza
                 De vago cismar:

                 São nuvens ligeiras, tingidas de rosa,
                 Que pairam nos ares, a aurora enfeitando
                 De gala formosa.

                 É bela essa nuvem de melancolia
                 Que em teus lindos olhos desmaia o fulgor,
                 E as rosas das faces em lírios transforma
                 De meigo palor.

                 Oh! que essa tristeza tem doce magia,
                 Qual luz que esmorece lutando co'as sombras
                 as vascas do dia.

                 É belo esse encanto do afeto primeiro,
                 Que assoma envolvido nos véus do pudor,
                 E ondeja ansioso no seio da virgem
                 Que cisma de amor.

                 Estranho prelúdio de mística lira,
                 A cujos acentos o peito afanoso
                 Se agita e suspira.

                 Com sonhos dourados, que os anjos te inspiram
                 Embala, ó donzela, teu vago pensar,
                 São castos mistérios de amor, que no seio
                 Te vêm murmurar:

                 Sim, deixa pairarem na mente esses sonhos,
                 São róseos vapores, que os teus horizontes
                 Enfeitam risonhos:

                 São vagos anelos... mas ah! quem te dera
                 Que nesses teus sonhos de ingênuo cismar
                 A voz nunca ouvisses, que vem revelar-te
                 Que é tempo de amar.

                 Pois sabe, ó donzela, que as nuvens de rosa,
                 Que pairam nos ares, às vezes encerram
                 Tormenta horrorosa.
 

À uma estrela
 

Poesia oferecida a meu amigo

                                          o Sr. A. G. G. V. C.

                                      Salve, estrela solitária,
                                   Que brilhas sobre esse monte,
                                       Tímida luz maviosa
                                    Derramando no horizonte.

                                     Eu amo teu manso brilho
                                    Quando lânguido se esbate,
                                     Pelos campos cintilando,
                                    De relva em úmido esmalte;

                                    Quando trêmula argenteias
                                    Um lago límpido e quedo,
                                   Quando infiltras meigos raios
                                     Pelas ramas do arvoredo.

                                       Pálida filha da noite,
                                    Sempre és pura e maviosa;
                                     Fulge-te o rosto formoso
                                    Qual branca orvalhada rosa.

                                     Eu amo teu manso brilho,
                                    Que como olhar amoroso,
                                     Vigilante à noite se abre
                                    Sobre o mundo silencioso,

                                    Ou como um beijo de paz,
                                   Que o céu sobre a terra envia,
                                     Na face dela espargindo
                                      Silêncio e melancolia.

                                   Salve, ó flor do etéreo campo,
                                      Astro de meigo palor!
                                    Tu serás, formosa estrela,
                                      O fanal do meu amor.

                                    Neste mundo, que alumias
                                      Com teu pálido clarão,
                                     Existe um anjo adorável
                                     Digno de melhor mansão.

                                       Muitas vezes a verás
                                     Sõzinha e triste a pensar,
                                     E seus lânguidos olhares
                                     Com teus raios se cruzar.

                                       Nas faces a natureza
                                     Lhe esparziu leve rubor,
                                     Mas a fronte lisa e calma
                                      Tem dos lírios o palor.

                                    Mais que o ébano brunido
                                   Lhe fulge a madeixa esparsa,
                                     E cos anéis lhe sombreia
                                      O níveo colo de garça.

                                    Nos lábios de carmim vivo,
                                    Rara vez paira um sorriso;
                                     Não pode sorrir na terra,
                                    Quem pertence ao paraíso.

                                   Seus olhos negros, tão puros
                                     Como o teu puro fulgor,
                                    São fontes, onde minh'alma
                                     Vai abrevar-se de amor.

                                     Se a este mundo odioso,
                                   Onde me langue a existência,
                                      Me fosse dado roubar
                                     Aquele anjo de inocência;

                                     E nesses orbes que giram
                                      Pelo espaço luminoso,
                                     Pra nosso amor escolher
                                      Um asilo mais ditoso...

                                     Se eu pudesse a ti voar,
                                      Astro de meigo palor,
                                       E com ela em ti viver
                                      Eterna vida de amor...

                                 Se eu pudesse... Oh! vão desejo,
                                  Que me embebe em mil delírios,
                                   Quando assim de noite cismo
                                     À luz dos celestes círios!

                                    Porém ao menos um voto
                                    Vou fazer-te, ó bela estrela,
                                     À minha súplica atende,
                                     Não é por mim, é por ela;

                                   Tu, que és o astro mais belo
                                     Que gira no azul do céu,
                                     Sê seu horóscopo amigo,
                                      Preside ao destino seu.

                                    Leva-a sobre o mar da vida
                                   Embalada em sonho ameno,
                                    Como um cisne, que desliza
                                     À flor de um lago sereno.

                                       Se diante dos altares
                                      Curvar os joelhos seus,
                                     Dirige-lhe a prece ardente
                                     Direito ao trono de Deus.

                                        Se solitária cismar,
                                     No mais brando raio teu
                                   Manda-lhe um beijo de amor;
                                      E puros sonhos do céu.

                                     Veja sempre no horizonte
                                     Tua luz serena e mansa,
                                     Como um sorriso do céu,
                                   Como um fanal de esperança.

                                     Porém se o anjo celeste
                                      Sua origem deslembrar,
                                      E no lodo vil do mundo
                                     As níveas asas manchar;

                                     Ai! se louca profanando
                                  De um puro amor a lembrança,
                                    Em suas mãos sem piedade
                                    Esmagar minha esperança,

                                      Então, estrela formosa,
                                    Cubra-te o rosto um bulcão
                                     E sepulta-te para empre
                                     Em perpétua escuridão!
 

O Ermo

Quæ sint, quæ fuerint, quæ sunt ventura, trahentur.

                                             (Virgílio.)
 
 

                                                I

                                Ao ermo, ó musa: – além daqueles montes,
                                  Que, em vaporoso manta rebuçados,
                                  Avultam Já na extrema do horizonte...
                                    Eia, vamos; – lá onde a natureza
                               Bela e virgem se mostra aos olhos do homem,
                                Qual moça indiana, que as ingênuas graças
                                  Em formosa nudez sem arte ostenta!...
                                    Lá onde a solidão ante nós surge,
                                  Majestosa e solene como um templo,
                                   Em que sob as abóbadas sagradas,
                                    Inundadas de luz e de harmonia,
                                   Êxtase santo paira entre perfumes,
                              E se ouve a voz de Deus. – Ó musa, ao ermo!...

                                 Como é formoso o céu da pátria minha!
                                   Que sol brilhante e vívido resplende
                                     Suspenso nessa cúpula serena!
                                      Terra feliz, tu és da natureza
                                   A filha mais mimosa; – ela sorrindo
                                Num enlevo de amor te encheu d'encantos,
                                   Das mais donosas galas enfeitou-te;
                                    Beleza e vida te espargiu na face,
                                  E em teu seio entornou fecunda seiva!
                                 Oh! paire sempre sobre os teus desertos
                                   Celeste bênção; bem-fadada sejas
                                 Em teu destino, ó pátria; – em ti recobre
                                  A prole de Eva o Éden que perdera!

                                               II

                                   Olha : – qual vasto manto que flutua
                                Sobre os ombros da terra, ondeia a selva,
                                  E ora surdo murmúrio ao céu levanta,
                                 Qual prece humilde, que no ar se perde,
                                   Ora açoutada dos tufões revoltos,
                                    Ruge, sibila, sacudindo a grenha
                                 Qual hórrida bacante : – ali despenha-se
                                   Pelo dorso do monte alva cascata,
                                  Que, de alcantis enormes debruçada,
                                  Em argentea espadana ao longe brilha,
                                  Qual longo véu de neve, que esvoaça,
                                Pendente aos ombros de formosa virgem,
                                   E já, descendo a colear nos vales,
                                  As plagas fertiliza, e as sombras peja
                                 D'almo frescor, e plácidos murmúrios...
                                    Ali campinas, róseos horizontes,
                                   Límpidas veias, onde o sol tremula,
                                  Como em dourada escama refletindo
                                    Flóreas balsas, colinas vicejantes,
                                   Toucadas de palmeiras graciosas,
                                 Que em céu límpido e claro balanceiam
                                A coma verde-escura. – Além montanhas,
                                    Eternos cofres d'ouro e pedraria,
                                    Coroados de píncaros rugosos,
                                 Que se embebem no azul do firmamento!
                                  Ou se te apraz, desçamos nesse vale,
                                   Manso asilo de sombras e mistério,
                                   Cuja mudez talvez jamais quebrara
                                  Humano passo revolvendo as folhas,
                                E que nunca escutou mais que os arrulhos
                                 Da casta pomba, e o soluçar da fonte...
                                  Onde se cuida ouvir, entre os suspiros
                                 Da folha que estremece, os ais carpidos
                                  Dos manes do Indiano, que inda chora
                               O doce Éden que os brancos lhe roubaram!...

                                 Que é feito pois dessas guerreiras tribos,
                                  Que outrora estes desertos animavam?
                                   Onde foi esse povo inquieto e rude,
                                   De bronzea cor, de torva catadura,
                                  Com seus cantos selváticos de guerra
                                   Restrugindo no fundo dos desertos,
                                   A cujos sons medonhos a pantera
                                   Em seu covil de susto estremecia?
                                 Oh! floresta – que é feito de teus filhos?

                                 Dorme em silêncio o eco das montanhas,
                                  Sem que o acorde mais o rude acento
                                Das guerreiras inúbias : – nem nas sombras
                                   Seminua, do bosque a ingênua filha
                                   Na preguiçosa rede se embalança.
                                  Calaram-se para sempre nessas grutas
                                     Os proféticos cantos do piaga;
                                  Nem mais o vale vê esses caudilhos,
                                    Seus cocar na fronte balançando,
                                 Por entre o fumo espesso das fogueiras,
                                  Com sombrio lentor tecer, cantando,
                                    Essas solenes e sinistras danças,
                                 Que o festim da vingança precediam.....

                                  Por esses ermos não vereis pirâmides
                               Nem mármores, nem bronzes, que assinalem
                                   Nas eras do porvir feitos de glória;
                                    Da natureza os filhos não sabiam
                                 Aos céus erguer soberbos monumentos,
                                  E nem perpetuar do bardo os cantos,
                                  Que celebram façanhas do guerreiro,
                                – Esses fanais, que acende a mão do gênio,
                                    E vão no mar infindo das idades
                                    Alumiando as trevas do passado.

                                    Seus insepultos ossos alvejando
                                   Aqui e além nos solitários campos,
                                   Rotos tacapes, ressequidos crânios,
                                 Que estalam sob os pés de errante gado,
                                   As tabas em ruína, e os mal extintos
                                  Vestígios das ocaras, onde o sangue
                                    Do vencido corria em largo jorro
                                  Entre as pocemas de feroz vingança,
                                   Eis as relíquias que recordam feitos
                                     Do forte lidador da rude selva.

                                  De virgem mata a sussurrante cúpula,
                                   Ou gruta escura, disputada às feras,
                                  Ou frágil taba, num momento erguida,
                                  Desfeita no outro dia, eram bastantes
                                    Para abrigar o filho do deserto;
                                  No carcás bem provido repousavam
                                   De todo o seu porvir as esperanças,
                                   Que suas eram da floresta as aves,
                                   E nem lhes nega o córrego do vale,
                                 Límpido jorro que lhe estanque a sede.
                                    No sol, fonte de luz e de beleza,
                                 Viam seu Deus, prostrados o adoravam,
                               Na terra a mãe, que os nutre com seus frutos,
                                      Sua única lei – na liberdade.

                                  Oh! floresta, que é feito de teus filhos?
                                   Esta mudez profunda dos desertos
                                 Um crime – bem atroz! – nos denuncia.
                                   O extermínio, o cativeiro, a morte
                                   Para sempre varreu de sobre a terra
                                   Essa mísera raça, – nem ficou-lhes
                               Um canto ao menos, onde em paz morressem!
                                  Como cinza, que os euros arrebatam,
                                  Se esvaeceram, – e do tempo a destra
                                 Seus nomes mergulho no esquecimento.

                                  Mas tu, ó musa, que piedosa choras,
                                   Curvada sobre a urna do passado,
                                   Tu, que jamais negaste ao infortúnio
                                    Um canto expiatório, eia, consola
                                  Do pobre Indiano os erradios manes,
                                  E sobre a inglória cinza dos proscritos
                                 Com teus cantos ao menos uma lágrima
                                    Faze correr de compaixão tardia.

                                               III

                                 Ei-lo, que vem, de ferro e fogo armado,
                                   Da destruição o gênio formidável,
                                    Em sua fatal marcha devastando
                                  O que de mais esplêndido e formoso
                                     Alardeia no ermo a natureza;
                                  Que nem somente o íncola das selvas
                                   De seu furor foi vítima; – após ele
                                     Rui também a cúpula virente,
                                    Único abrigo seu, – sua riqueza.
                                    Esta trêmula abóbada, que ruge
                                    Por seculares troncos sustentada,
                                   Este silêncio místico, estas sombras,
                                 Que agora me derramam sobre a fronte
                                   Suave inspiração, cismar saudoso,
                                Vão em breve morrer ; – lá vem o escravo,
                                Brandindo o ferro, que dá morte às selvas,
                                 E – afanoso – põe peito à ímpia obra: –
                                   Já o tronco, que os séculos criaram,
                                  Ao som dos cantos do africano adusto
                                 Geme aos sonoros, compassados golpes,
                                Que vão nas brenhas ressoando ao longe;
                                  Soa o último golpe, – range o tronco,
                                     O tope excelso trêmulo vacila,
                                   E desabando com gemido horrendo
                                 Restruge qual trovão de monte em monte
                                   Nas solidões profundas reboando.
                                  Assim vão baqueando uma após outra
                                   Da floresta as colunas venerandas;
                                     E todas essas cúpulas imensas,
                                 Que inça há pouco no céu balanceando,
                                    A sanha dos tufões desafiavam,
                                  Aí jazem, como ossadas de gigantes,
                                    Que num dia de cólera prostrara
                                         O raio do Senhor.

                                          Oh! mais terrível
                                Que o raio, que o dilúvio, o rubro incêndio
                                 Vem consumar essa obra deplorável.....
                                   Qual hidra formidável, no ar exalça
                                     A crista sanguinosa, sacudindo
                                  Com medonho rugido as ígneas asas,
                                   E negros turbilhões de fumo ardente
                                    Das abrasadas fauces vomitando,
                                 Em hórrido negrume os céus sepulta.....
                                     Estala, ruge, silva, devorando
                                   Da floresta os cadáveres gigantes;
                                   Voam sem tino as aves assustadas
                                    No ar soltando pios lamentosos,
                                  E as feras, em tropel tímidas correm,
                                 A se embrenhar no fundo dos desertos,
                                  Onde vão demandar nova guarida.....
                                 Tudo é cinza e ruína: – adeus, ó sombra,
                               Adeus, murmúrio, que embalou meus sonhos,
                                    Adeus, sonoro frêmito das auras,
                                  Sussurros, queixas, suspirosos ecos,
                                     Da solidão misterioso encanto!
                                 Adeus! – Em vão a pomba esvoaçando
                                Procura um ramo em que fabrique o ninho;
                                    Em vão suspira o viajor cansado
                               Por uma sombra, onde repouse os membros
                                   Repassados do ardor do sol a pino!
                                  Tudo é cinza e ruína, – tudo é morto!!

                                    E tu, ó musa, que amas o deserto
                                   E das caladas sombras o mistério,
                                Que folgas de embalar-te aos sons aéreos
                                D’almas canções, que a solidão murmura,
                                Que amas a criação, qual Deus formou-a,
                                – Sublime e bela – vem sentar-te, ó musa,
                                Sobre estas ruínas, vem chorar sobre elas.
                                 Chora com a avezinha, a quem roubaram
                                 O ninho seu querido, e com teus cantos
                                   Procura adormecer o férreo braço
                                   Do impróvido colono, que semeia
                                  Somente estragos neste chão fecundo!

                                               IV

                                Mas, não te queixes, musa; – são decretos
                                   Da eterna providência irrevogáveis!
                                    Deixa passar destruição e morte
                                   Nessas risonhas e fecundas plagas,
                                   Como charrua, que revolve a terra,
                                   Onde terminam do porvir os frutos.
                                O homem fraco ainda, e que hoje a custo,
                                     Da criação a obra mutilando,
                                   Sem nada produzir destrui apenas,
                                    Amanhã criará; sua mão potente,
                                   Que doma e sobrepuja a natureza,
                                   Há de imprimir um dia forma nova
                                   Na face deste solo imenso e belo:
                                    Tempo virá em que nessa valada
                                    Onde flutua a coma da floresta,
                                    Linda cidade surja, branquejando
                                 Como um bando de garças na planície;
                                   E em lugar desse brando rumorejo
                                    Aí murmurará a voz de um povo;
                                   Essas encostas broncas e sombrias
                                   Serão risonhos parques suntuosos;
                                 E esses rios, que vão por entre sombras
                                   Ondas caudais serenos resvalando,
                                  Em vez do tope escuro das florestas,
                                      Refletirão no límpido regaço
                                  Torres, palácios, coruchéus brilhantes,
                                    Zimbórios majestosos, e castelos
                                    De bastiões sombrios coroados,
                                  Esses bulcões da guerra, que do seio
                                  Com horrendo fragor raios despejam.
                                   Rasgar-se-ão os serros altaneiros,
                                   Encher-se-ão dos vales os abismos:
                                    Mil estradas, qual vasto labirinto,
                                  Cruzar-se-ão por montes e planuras;
                                   Curvar-se-ão os rios sob arcadas
                                  De pontes colossais; – canais imensos
                                   Virão surcar a face das campinas,
                                   E estes montes verão talvez um dia,
                                 Cheios de assombro, junto às abas suas
                                    Velejarem os lenhos do oceano!

                                  Sim, ó virgem dos trópicos formosa,
                                     Nua e singela filha da floresta,
                                   Um dia, em vez da simples arazóia,
                                  Que mal te encobre o gracioso talhe,
                                   Te envolverás em flutuantes sedas,
                                  E abandonando o canitar de plumas,
                                 Que te sombreia o rosto cor de jambo,
                                   Apanharás em tranças perfumadas
                                 A coma escura, e dos donosos ombros
                                  Finos véus penderão. Em vez da rede,
                                Em que te embalas da palmeira à sombra,
                                  Repousarás sobre coxins de púrpura,
                                  Sob dosséis esplêndidos. – Ó virgem,
                                  Serás então princesa, – forte e grande,
                                    Temida pelos príncipes da terra;
                                     E de brilhante auréola cingida
                                  Sobre o mundo alçarás a fronte altiva!
                                  Mas, quando em tua mente revolveres
                                   As memórias das eras que já foram,
                                  Lá quando dentro d’alma despertares
                                 Do passado lembranças quase extintas,
                                  Dos bosques teus, de tua rude infância
                                        Talvez terás saudade.
 

O Devanear de um cético
 

Tout corps som ombre et tout
esprit son doute. (V. Hugo)


                    Ai da avezinha, que a tormenta um dia
                    Desgarrara da sombra de seus bosques,
                    Arrojando-a em desertos desabridos
                    De brônzeo céu, de férvidas areias;
                    Adeja, voa, paira.... nem um ramo
                    Nem uma sombra encontra onde repouse,
                    E voa, e voa ainda, ate que o alento
                    De todo lhe falece - colhe as asas,
                    Cai na areia de fogo, arqueja, e morre....
                    Tal é, minh'alma, o fado teu na terra;
                    O tufão da descrença desvairou-te
                    Por desertos sem fim, onde em vão buscas
                    Um abrigo onde pouses, uma fonte
                    Onde apagues a sede que te abrasa!
                    ................................................................
                    Ó mortal, por que assim teus olhos cravas
                    Na abóbada do céu? - Queres ver nela
                    Decifrado o mistério inescrutável
                    Do teu ser, e dos seres que te cercam?
                    Em vão seu pensamento audaz procura
                    Arrancar-se das trevas que o circundam,
                    E no ardido vôo abalançar-se
                    Às regiões da luz e da verdade;
                    Baldado afã! - no espaço ei-lo perdido,
                    Como astro desgarrado de sua órbita,
                    Errando às tontas na amplidão dos vácuo!
                    Jamais pretendas estender teus vôos
                    Além do escasso e pálido horizonte
                    Que mão fatal em torno te há traçado....
                    Com barreira de ferro o espaço e o tempo
                    Em acanhado círculo fecharam
                    Tua pobre razão: - em vão forcejas
                    Por transpor essa meta inexorável;
                    Os teus domínios entre a terra e os astros,
                    Entre o túmulo e o berço estão prescritos:
                    Além, que enxergas tu? - o vácuo e o nada!...

                    Oh! feliz quadra aquela, em que eu dormia
                    Embalado em meu sono descuidoso
                    No tranqüilo regaço da ignorância;
                    Em que minh'alma, como fonte límpida
                    Dos ventos resguardada em quieto abrigo,
                    Da fé os raios puros refletia!
                    Mas num dia fatal encosto à boca
                    A taça da ciência - senti sede
                    Inextinguível a crestar-me os lábios;
                    Traguei-a toda inteira -, mas encontro
                    Por fim travor de fel - era veneno,
                    Que no fundo continha -, era incerteza!
                    Oh! desde então o espírito da dúvida,
                    Como abutre sinistro, de contínuo
                    Me paira sobre o espírito, e lhe entorna
                    Das turvas asas a funérea sombra!
                    De eterna maldição era bem digno
                    Quem primeiro tocou com mão sacrílega
                    Da ciência na árvore vedada
                    E nos legou seus venenosos frutos...

                    Se o verbo criador pairando um dia
                    Sobre a face do abismo, a um só aceno
                    Evocava do nada a natureza,
                    E do seio do caos surgir fazia
                    A harmonia, a beleza, a luz, a ordem,
                    Por que deixou o espírito do homem
                    Sepulto ainda em tão profundas trevas,
                    A debater-se neste caos sombrio,
                    Onde embriões informes tumultuam,
                    Inda aguardando a voz que à luz os chame?

                    Quando, espancando as sombras sonolentas,
                    Surge a aurora no coche radiante,
                    Inundado de luz o firmamento,
                    Entre o rumor dos vivos que despertam,
                    Levanto a minha voz, e ao sol, que surge,
                    Pergunto: - Onde está Deus? - ante meus olhos
                    A noite os véus diáfonos desdobra,
                    Vertendo sobre a terra almo silêncio,
                    Propício ao cismador - então minha alma
                    Desprende o vôo nos etéreos páramos,
                    Além dos sóis, dos mundos, dos cometas,
                    Varando afouta a profundez do espaço,
                    Anelando entrever na imensidade
                    A eterna fonte, donde a luz emana...
                    Ó pálidos fanais, trêmulos círios,
                    Que nas esferas guiais da noite o carro,
                    Planetas, que em cadências harmoniosa
                    No éter cristalino ides boiando,
                    Dizei-me - onde está Deus? - sabeis se existe
                    Um ente, cuja mão eterna e sábia
                    Vos esparziu pela extensão do vácuo,
                    Ou do seio do caos desbrochastes
                    Por insondável lei do cego acaso?
                    Conheceis esse rei, que rege e guia
                    No espaço infindo vosso errante curso?
                    Eia, dizei-me, em que regiões ignotas
                    Se eleva o trono seu inacessível?

                    Mas em vão enterrogo os céus e os astros,
                    Em vão do espaço a imensidão percorro
                    Do pensamento as asas fatigando!
                    Em vão - todo o universo imóvel, mudo,
                    Sorrir parece de meu vão desejo!
                    Dúvida - eis a palavra que eu encontro
                    Escrita em toda a parte - ela na terra,
                    E no livro dos céus vejo gravada,
                    É ela que a harmonia das esferas
                    Entoa sem cessar a meus ouvidos!

                    Vinde, ó sábios, alâmpadas brilhantes,
                    Que ardestes sobre as aras da ciência,
                    Agora desdobrai ante meus olhos
                    Essas páginas, onde meditando
                    Em profundo cismar cair deixastes
                    De vosso gênio as vívidas centelhas:
                    Dai-me o fio subtil, que me conduza
                    Pelo vosso intricado labirinto:
                    Rasgai-me a venda, que me enubla os olhos,
                    Guiai meus passos, que embrenhar-me quero
                    Do raciocínio das regiões sombrias,
                    E surpreender no seio de atrás nuvens
                    O escondido segredo...

                    Oh! louco intento!...
                    Em mil vigílias palejou-me a fronte,
                    E amorteceu-se o lume de seus olhos
                    A sondar esse abismo tenebroso,
                    Vasto e profundo, em que as mil hipóteses,
                    Os erros mil, os engenhosos sonhos,
                    Os confusos sistemas se debatem,
                    Se confundem, se roçam, se abalroam,
                    Em um caos sem fim turbilhonando:
                    Atento a lhe escrutar o seio lôbrego
                    Em vão cansei-me; nesse afã penoso
                    Uma negra vertigem pouco e pouco
                    Me enubla a mente, e a deixa desvairada
                    No escuro abismo flutuando incerta!
                    ................................................................
                    Filosofia, dom mesquinho e frágil,
                    Farol enganador de escasso lume,
                    Tu só geras um pálido crepúsculo,
                    Onde giram fantasmas nebulosos,
                    Dúbias visões, que o espírito desvairam
                    Num caos de intermináveis conjeturas.
                    Despedaça essas páginas inúteis,
                    Triste apanágio da fraqueza humana,
                    Em vez de luz, amontoando sombras
                    No santuário augusto da verdade.
                    Um palavra só talvez bastara
                    Pra saciar de luz meu pensamento;
                    Essa ninguém a sabe sobre a terra!...

                    Só tu, meu Deus, só tu dissipar podes
                    A, que os olhos me cerca, escura treva!
                    Ó tu, que és pai de amor e de piedade,
                    Que não negas o orvalho à flor do campo,
                    Nem o tênue sustento ao vil inseto,
                    Que de infinda bondade almos tesouros
                    Com profusão derramas pela terra,
                    Ó meu Deus, por que negas à minha alma
                    A luz que é seu alento, e seuu conforto?
                    Por que exilaste a tua criatura
                    Longe do sólio teu, cá neste vale
                    De eterna escuridão? - Acaso o homem,
                    Que é pura emanação da essência tua,
                    É que se diz criado à tua imagem,
                    De adorar-te em ti mesmo não é digno,
                    De contemplar, gozar tua presença,
                    De tua glória no esplendor perene?
                    Oh! meu Deus, por que cinges o teu trono
                    Da impenetrável sombra do mistério?
                    Quando da esfera os eixos abalando
                    Passa no céu entre abrasadas nuvens
                    Da tempestade o carro fragoroso,
                    Senhor, é tua cólera tremenda
                    Que brada no trovão, e chove em raios?
                    E o íris, essa faixa cambiante,
                    Que cinge o manto azul do firmamento,
                    Como um laço que prende aos céus a terra,
                    É de tua clemência anúncio meigo?
                    É tua imensa glória que resplende
                    No disco flamejante, que derrama
                    Luz e calor por toda a natureza?
                    Dize, ó Senhor, por que a mão ocultas,
                    Que a flux esparge tantas maravilhas?
                    Dize, ó Senhor, que para mim não mudas
                    As páginas do livro do universo!...
                    Mas, ai! que o invoco em vão! ele se esconde
                    Nos abismos de sua eternidade.
                    ...............................................................
                    Um eco só da profundez do vácuo
                    Pavoroso retumba, e diz - dúvida!....

                    Virá a morte com as mãos geladas
                    Quebrar um dia esse terrível selo,
                    Que a meus olhos esconde tanto arcanos?
                    ...............................................................
                    Ó campa! - atra barreira inexorável
                    Entre a vida e a morte levantada!
                    Ó campa, que mistérios insondáveis
                    Em teu escuro seio muda encerras?
                    És tu acaso o pórtico do Elísio,
                    Que nos franqueias as regiões sublimes
                    Que a luz da verdade eterna brilha?
                    Ou és do nada a fauce tenebrosa,
                    Onde a morte pra sempre nos arroja
                    Em um sono sem fim adormecidos!
                    Oh! quem pudera levantar afouto
                    Um canto ao menos desse véu tremendo
                    Que encobre a enternidade...

                    Mas debalde
                    Interrogo o sepulcro - e o debruçado
                    Sobre a voragem tétrica e profunda,
                    Onde as extintas gerações baqueiam,
                    Inclino o ouvido, a ver se um eco ao menos
                    Das margens do infinito me responde!
                    Mas o silêncio que nas campas reina,
                    É como o nada - fúnebre e profundo...
                    ...............................................................
                    Se ao menos eu soubesse que co'a vida
                    Terminariam tantas incertezas,
                    Embora os olhos meus além da campa,
                    Em vez de abrir-se para a luz perene,
                    Fossem na eterna escuridão do nada
                    Para sempre apagar-se... - mas quem sabe?
                    Quem sabe se depois desta existência
                    Renascerei - pra duvidar ainda?!...

 
 

 

Desalento

                             Nestes mares sem bonança,
                             Boiando sem esperança,
                             Meu baixel em vão se cansa
                             Por ganhar o amigo porto;
                             Em sinistro negro véu
                             Minha estrela se escondeu;
                             Não vejo luzir no céu
                             Nenhum lume de conforto.

                             A tormenta desvairou-me,
                             Mastro e vela escalavrou-me,
                             E sem alento deixou-me
                             Sobre o elemento infiel;
                             Ouço já o bramir tredo
                             Das vagas contra o penedo
                             Onde irá - talvez bem cedo -
                             Soçobrar o meu batel.

                             No horizonte não lobrigo
                             Nem praia, nem lenho amigo,
                             Que me salve do perigo,
                             Nem fanal que me esclareça;
                             Só vejo as vagas rolando,
                             Pelas rochas soluçando,
                             E mil coriscos sulcando
                             A medonha treva espessa.

                             Voga, baixel sem ventura,
                             Pela túrbida planura,
                             Através da sombra escura,
                             Voga sem leme e sem norte;
                             Sem velas, fendido o mastro,
                             Nas vagas lançado o lastro,
                             E sem ver nos céus um astro,
                             Ai! que só te resta a morte!

                             Nada mais ambiciono,
                             Às vagas eu te abandono,
                             Como cavalo sem dono
                             Pelos campos a vagar;
                             Voga nesse pego insano,
                             Que nos roncos do oceano
                             Ouço a voz do desengano
                             Pavorosa a ribombar!

                             Voga, baixel foragido,
                             Voga sem rumo - perdido,
                             Pelas tormentas batido,
                             Sobre o elemento infiel;
                             Para ti não há bonança;
                             À toa, sem leme avança
                             Neste mar sem esperança,
                             Voga, voga, meu baixel!
 

No meu aniversário
 

Ao meu amigo o Sr. F.J. de Cerqueira

 


                                        Hélas! hélas! mes années
                                       Sur ma tête tombent fanées,
                                        Et ne refleuriront jamais.
                                            (Lamartine)

                      Não vês, amigo? - Lá desponta a aurora
                      Seus róseos véus nos montes desdobrando;
                      Traz ao mundo beleza, luz e vida,
                      Traz sorrisos e amor;
                      Foi esta qu'outro tempo
                      Meu berço bafejou, e as tenras pálpebras
                      Me abriu à luz da vida,
                      E vem hoje no circulo dos tempos
                      Marcar sorrindo o giro de meus anos.
                      Já vai bem longe a quadra da inocência,
                      Dos brincos e dos risos descuidos os;
                      Lá s'embrenham nas sombras do passado
                      Os da infância dourados horizontes.
                      Oh! feliz quadra! - então eu não sentia
                      Roçar-me pela fronte
                      A asa do tempo estragadora e rápida;
                      E este dia de envolta com os outros
                      Lá s'escoava desapercebido;
                      Ia-me a vida em sonhos prazenteiros,
                      Como ligeira brisa
                      Entre perfumes leda esvoaçando.
                      Mas hoje que caiu-me a venda amável!
                      Que as misérias da vida me ocultava,
                      Eu vejo com tristeza
                      O tempo sem piedade ir desfolhando
                      A flor dos anos meus;
                      Vai-se esgotando a urna do futuro
                      Sem do seio sair-lhe os dons sonhados
                      Na quadra em que a esperança nos embala
                      Com seu falaz sorriso.
                      Qual sombra vá, que passa
                      Sem vestígios deixar em seus caminhos,
                      Eu vou transpondo a arena da existência,
                      Vendo irem-se escoando uns após outros
                      Os meus estéreis dias,
                      Qual náufrago em rochedo solitário,
                      Vendo a seus pés quebrar-se uma por uma
                      As ondas com monótono bramido,
                      Ah! sem jamais no dorso lhe trazerem
                      O lenho salvador!
                      Amigo, o fatal sopro da descrença
                      Me roça às vezes n'alma, e a deixa nua,
                      E fria como a laj em do sepulcro;
                      Sim, tudo vai-se; sonhos de esperança,
                      Férvidas emoções, anelos puros,
                      Saudades, ilusões, amor e crenças,
                      Tudo, tudo me foge, tudo voa
                      Como nuvem de flores sobre as asas
                      De rábido tufão.
                      Onde vou? Para onde me arrebatam
                      Do tempo as ondas rápidas?
                      Por que ansioso corro a esse futuro,
                      Onde reinam as trevas da incerteza?
                      E se através de escuridão perene
                      Só temos de sulcar ignotos mares
                      De escolhos semeados,
                      Não é melhor abandonar o leme,
                      Cruzar no peito os braços,
                      E deixar nosso lenho errar às tontas,
                      Entregue às ondas da fatalidade?
                      .............................................................
                      .............................................................

                      Ah! tudo é incerteza, tudo sombras,
                      Tudo um sonhar confuso e nebuloso,
                      Em que se agita o espírito inquieto,
                      Até que um dia a plúmbea mão da morte
                      Nos venha despertar,
                      E os sombrios mistérios revelar-nos,
                      Que em seu escuro seio
                      Com férreo selo guarda a campa avara.
 

Visita à sepultura de meu irmão
 

A noite sempiterna

 

                                         Que tu tão cedo vists,
                                         Cruel, acerba e triste
                                     Sequer da tua idade não te dera
                                    Que lograsses a fresca primavera?
                                             (Camões)

                    Não vês nessa colina solitária
                    Aquela ermida, que sozinha alveja
                    O esguio campanário aos céus erguendo,
                    Como garça, que em meio das campinas
                    Alça o colo de neve?
                    E junto a ela um tésco muro cinge
                    A pousada dos mortos nua e triste,
                    Onde, plantada em meio, a cruz se eleva,
                    A cruz, bússola santa e venerável
                    Que nas tormentas e vaivéns da vida
                    O porto indica da celeste pátria....
                    Nem moimento, nem piedosa letra
                    Vem aqui iludir a lei do olvido;
                    Nem árvore funérea aí sussurra,
                    Prestando pia sombra ao chão dos mortos;
                    Nada quebra no lúgubre recinto
                    A paz sinistra que rodeia os túmulos:
                    Ali reina sozinha
                    Na hedionda nudez calcando as campas
                    A implacável rainha dos sepulcros;
                    E só de quando em quando
                    Vento da soidão passa gemendo,
                    E levanta a poeira dos jazigos.

                    Aqui tristes lembranças dentro d'alma
                    Eu sinto que se acordam, como cinza,
                    Que o vento de entre os túmulos revolve;
                    Meu infeliz irmão, aqui me surges,
                    Como a imagem de um sonho esvaecido,
                    E no meu coração sinto ecoando,
                    Qual débil som de suspirosa aragem,
                    Tua voz querida a murmurar meu nome.
                    Pobre amigo! - no albor dos anos tenros,
                    Quando a esperança com donoso riso
                    Nos braços te afagava,
                    E desdobrava com brilhantes cores
                    O painel do futuro ante os teus olhos,
                    Eis que sob teus passos se abre súbito
                    O abismo do sepulcro....

                    E aquela fronte juvenil e pura,
                    Tão prenhe de futuro e d'esperança,
                    Aquela fronte que talvez sonhava
                    Ir no outro dia, - ó irrisão amarga!
                    Repousar docemente em niveo seio,
                    Entre os risos de amor adormecida,
                    Vergada pela férrea mão da morte,
                    Caiu lívida e fria
                    No duro chão, em que repousa agora.
                    E hoje que venho no aposento lúgubre
                    Verter piedoso orvalho de saudade
                    Na planta emurchecida,
                    Ah! nem ao menos nesse chão funéreo
                    Os vestígios da morte encontrar posso!
                    Tudo aqui é silêncio, tudo olvido,
                    Tudo apagou-se sob os pés do tempo...

                    Oh! que é consolo ver ondear a coma
                    Duma árvore funérea sobre a lousa,
                    Que escondeu para sempre a nossos olhos
                    D'um ente amado inanimados restos.
                    Cremos que a anima o espírito do morto;
                    Nos místicos rumores da folhagem
                    Cuidamos escutar-lhe a voz dorida
                    Alta noite gemendo, e em sons confusos
                    Mistérios murmurando d'além-mundo.
                    Desgrenhado chorão, cipreste esguio,
                    Funéreas plantas dos jardins da morte,
                    Monumentos de dor, em que a saudade
                    Em nênia perenal vive gemendo,
                    Parece que com lúgubre sussurro
                    Ao nosso dó piedosos se associam,
                    E erguendo ao ar os verde-negros ramos
                    Apontam para o céu, sagrado asilo,
                    Refúgio extremo a corações viúvos,
                    Que colados à pedra funerária,
                    Tão fria, tão estéril de consolos,
                    O seu dorido luto em vãos lamentos
                    Arrastam pelo pó das sepulturas.

                    Mas - nem um goivo, nem funérea letra,
                    Amiga mão plantou neste jazigo;
                    Ah! ninguém disse à árvore dos túmulos
                    - Aqui sobre esta campa
                    Cresce, ó cipreste, e geme sobre ela,
                    Qual minha dor, em murmurio eterno! -
                    Sob essa grama pálida e enfezada
                    Entre os outros aqui perdido jazes
                    Dormindo o teu eterno e fundo sono...
                    Sim, pobre flor, sem vida aqui ficaste,
                    Envolta em pó, dos homens esquecida.

                    "Dá-me tua mão, amigo,
                    "Marchemos juntos nesta vida estéril,
                    "Vereda escura que conduz ao túmulo;
                    "O anjo da amizade desde o berço
                    "Nossos dias urdiu na mesma teia;
                    "Ele é quem doura os nossos horizontes,
                    "E a nossos pés alguma flor esparge....
                    "Quais dous regatos, que ao cair das urnas
                    "Se encontram na valada, e num só leito
                    "Se abraçam, se confundem,
                    "E quer volvam serenos, refletindo
                    "O azul do céu e as florejantes ribas,
                    "Quer furiosos ronquem
                    "Em boqueirões sombrios despenhados,
                    "Sempre unidos num só vão serpeando
                    "Té se perderem na amplidão dos mares,
                    "Tais volvam nossos dias;
                    "A mesma taça no festim da vida
                    "Para ambos sirva, seja fel ou néctar:
                    "E quando enfim, completo o nosso estádio,
                    "Formos pedir um leito de repouso
                    "No asilo dos finados,
                    "A mesma pedra nossos ossos cubra!"
                    É assim que tu falavas
                    Ao amigo, que aos cândidos acentos
                    De teu falar suave atento ouvido
                    Inclinava sorrindo:
                    E hoje o que é feito desse sonho ameno,
                    Que nos dourava a ardente fantasia?
                    Dessas palavras de magia cheias,
                    Que em melíflua torrente deslizavam
                    De teus lábios sublimes?
                    São vagos sons, que me murmuram n'alma,
                    Qual reboa gemendo no alaúde
                    A corda que estalara.

                    Ledo arroio que vinhas da montanha
                    Descendo alvo e sonoro,
                    O sol abraseado do deserto
                    Num dia te secou as ondas límpidas,
                    E eu fiquei só, trilhando a escura senda,
                    Sem tuas puras águas
                    Para orvalhar-me os ressequidos lábios,
                    Sem mais ouvir o trépido murmúrio,
                    Que em tão plácidos sonhos m'embalava....

                    Mas - cessem nossas queixas, e curvemo-nos
                    Aos pés daquela cruz, que ali se exalça,
                    Símbolo sacrossanto do martírio,
                    Fanal de redenção,
                    Que na hora do extremo passamento
                    Por entre a escura sombra do sepulcro
                    Mostra ao cristão as portas radiantes
                    Da celeste Solima, - ei-la que fulge
                    Como luz de esperança ao caminhante,
                    Que transviou-se em noite de tormenta;
                    E alçada sobre as campas
                    Parece estar dizendo à humanidade:
                    Não choreis sobre aqueles que aqui dormem;
                    Não mais turbeis com vossos vãos lamentos
                    O sono dos finados.
                    Eles foram gozar bens inefáveis
                    Na pura esfera, onde d'aurora os raios
                    Seu brilho perenal jamais extinguem,
                    Deixando sobre a margem do jazigo
                    A cruz dos sofrimentos.

                    Adeus, portanto, fúnebre recinto!
                    E tu, amigo, que tão cedo vieste
                    Pedir pousada na mansão dos mortos,
                    Adeus! - foste feliz, - que a senda é rude,
                    O céu é tormentoso, e o pouso incerto.
 

À sepultura de um escravo

                     Também do escravo a humilde sepultura
                     Um gemido merece de saudade:
                     Uma lágrima só corra sobre ela
                     De compaixão ao menos....
                     Filho da África, enfim livre dos ferros
                     Tu dormes sossegado o eterno sono
                     Debaixo dessa terra que regaste
                     De prantos e suores.

                     Certo, mais doce te seria agora
                     Jazer no meio lá dos teus desertos
                     À sombra da palmeira, não faltara
                     Piedoso orvalho de saudosos olhos
                     Que te regasse a campa;
                     Lá muita vez, em noites d'alva lua,
                     Canção chorosa, que ao tanger monótono
                     De rude lira teus irmãos entoam,
                     Teus manes acordara:
                     Mas aqui - tu aí jazes como a folha
                     Que caiu na poeira do caminho,
                     Calcada sob os pés indiferentes
                     Do viajor que passa.

                     Porém que importa - se repouso achaste,
                     Que em vão buscavas neste vale escuro,
                     Fértil de pranto e dores;
                     Que importa - se não há sobre esta terra
                     Para o infeliz asilo sossegado?
                     A terra é só do rico e poderoso,
                     E desses idolos que a fortuna incensa,
                     E que, ébrios de orgulho,
                     Passam, sem ver que co 'as velozes rodas
                     Seu carro d'ouro esmaga um mendigante
                     No lodo do caminho !...
                     Mas o céu é daquele que na vida
                     Sob o peso da cruz passa gemendo;
                     É de quem sobre as chagas do inditoso
                     Derrama o doce bálsamo das lágrimas;
                     E do órfão infeliz, do ancião pesado,
                     Que da indigência no bordão se arrima;
                     do pobre cativo, que em trabalhos
                     No rude afã exala o alento extremo;
                     - O céu é da inocência e da virtude,
                     O céu é do infortúnio.

                     Repousa agora em paz, fiel escravo,
                     Que na campa quebraste os ferros teus,
                     No seio dessa terra que regaste
                     De prantos e suores.
                     E vós, que vindes visitar da morte
                     O lúgubre aposento,
                     Deixai cair ao menos uma lágrima
                     De compaixão sobre essa humilde cova;
                     Aí repousa a cinza do Africano,
                     - O símbolo do infortúnio.
 

O destino do vate
 

À memória de F'. Dutra e Meio

 


                            Entretanto não me alveja a fronte, nem minha cabeça pende
                            ainda para a terra, e contudo sinto que hei pouco de vida.
                                           (Dutra e Melo)

                 Em manso adejo o cisne peregrino
                 Passou roçando as asas pela terra,
                 E sonorosos quebros gorjeando
                 Despareceu nas nuvens.
                 Não quis mesclar do mundo aos vãos rumores
                 A celeste harmonia de seus carmes;
                 Passou - foi demandar em outros climas
                 Pra suas asas mais tranqüilo pouso,
                 Ares mais puros, onde espalhe o canto;
                 Onde foi ele - em meio assim deixando
                 Quebrado o acento da canção sublime,
                 Que apenas encetara?
                 Onde foi ele? em que felizes margens
                 Desprende agora a voz harmoniosa?
                 Estranho ao mundo, nele definhava
                 Qual flor, qu'entre fraguedos
                 Em solo ingrato langue esmorecida:
                 Uma nuvem perene de tristeza
                 O rosto lhe ensombrava - parecia
                 Serafim exilado sobre a terra,
                 Da harpa divina tenteando as cordas
                 Pra mitigar do exílio os dissabores.

                 Triste poeta, que sinistra idéia
                 Pende-te assim a fronte empalecida?
                 Que dor fatal ao túmulo te arrasta
                 Inda no viço de teus belos anos?
                 Que acento tão magoado,
                 Que lacera, que dói no seio d'alma,
                 Exala a tua lira,
                 Funéreo como um eco dos sepulcros?
                 Tua viagem começaste apenas,
                 E eis que já de fadiga extenuado
                 Co desânimo n'alma te reclinas
                 À margem do caminho?!

                 Olha, ó poeta, como a natureza
                 Em torno te desdobra
                 Sorrindo o seu painel cheio de encantos:
                 Eis um vasto horizonte, um céu sereno,
                 Serras, cascatas, ondeantes selvas,
                 Rios, colinas, campos de esmeralda,
                 Aqui vales de amor, vergéis floridos,
                 De frescas sombras perfumado asilo,
                 Além erguendo a voz ameaçadora
                 O mar, como um leão rugindo ao longe,
                 Ali dos montes as gigantes formas
                 Com as nuvens do céu a confundir-se,
                 Desenhando-se em longes vaporosos.
                 Donoso quadro, que me arrouba os olhos,
                 N'alma acordando inspirações saudosas!
                 Tudo é beleza, amor, tudo harmonia,
                 Tudo a viver convida,
                 Vive, ó poeta, e canta a natureza.

                 Nas sendas da existência
                 As flores do prazer ledas vicejam;
                 À mesa do festim vem pois sentar-te,
                 Sob uma coroa de virentes rosas
                 Vem esconder os prematuros sulcos,
                 Vestígios tristes de vigílias longas,
                 De austero meditar, que te ficaram
                 Na larga fronte impressos.
                 Dissipe-se aos sorrisos da beleza
                 Essa tristeza, que te abafa a mente.
                 Ama, ó poeta, e o mundo que a teus olhos
                 Um deserto parece árido e feio,
                 Sorrir-se-á, qual horto de delícias:
                 Vive e canta os amores.

                 Mas se a dor é partilha de tua alma,
                 Se concebeste tédio de teus dias
                 Volvidos no infortúnio:
                 Que importa, ó vate; vê pura e donosa
                 Sorrir-se a tua estrela
                 No encantado horizonte do futuro.
                 Vive e sofre, que a dor co'a vida passa,
                 Enquanto a glória em seu fulgor perene
                 No limiar do porvir teu nome aguarda
                 Para enviá-lo às gerações vindouras.
                 E então mais belos brilharão teus louros
                 Entrançados co'a palma do martírio;
                 Vive, ó poeta, e canta para a glória.

                 Porém - respeito a essa dor sublime -
                 Selo gravado pela mão divina
                 Sobre a fronte do gênio,
                 Não foram para os risos destinados
                 Esses lábios severos, donde emana
                 A linguagem dos céus em igneos versos;
                 Longe dele a vá turba dos prazeres,
                 Longe os do mundo passageiros gozos,
                 Breves flores de um dia, que fenecem
                 Da sorte ao menor sopro.
                 Não, - não foi das paixões o bafo ardente
                 Que os ledos risos lhe crestou nos lábio;
                 A tormenta da vida ao longe passa,
                 E não ousa turbar com seus rugidos
                 A paz dessa alma angélica e serena,
                 Cujos tão castos ideais afetos
                 Só pelos céus adejam.
                 Alentado somente da esperança
                 Contempla resignado
                 As sombras melancólicas, qu'enlutam
                 O horizonte da vida; - mas vê nelas
                 Um crepúsculo breve, que antecede
                 O formoso clarão da aurora eterna.
                 Quando vem pois sua hora derradeira,
                 Saúda sem pavor a muda campa,
                 E sobre o leito do eternal repouso
                 Tranqüilo se reclina.
                 Oh! não turbeis os seus celestes sonhos;
                 Deixai correr nas sombras do mistério
                 Seus tristes dias: - triste é seu destino,
                 Como o luzir de mombunda estrela
                 Em céu caliginoso.
                 Tal é seu fado; - o anjo d'harmonia
                 C'uma das mãos lhe entrega a lira d'ouro,
                 Noutra lhe estende o cálix da amargura.

                 Bem como o incenso, que só verte aromas
                 Quando se queima, e ardendo se evapora,
                 Assim do vate a mente
                 Aquecida nas fráguas do infoitúnio,
                 Na dor bebendo audácia e força nova
                 Mais pura ao céu se arrouba, e acentos vibra
                 De insólita harmonia.
                 Sim - não turbeis os seus celestes sonhos,
                 Deixai, deixai sua alma isenta alar-se
                 Sobre as asas do êxtase divino,
                 Deixai-a, que adejando pelo empíreo
                 Vá aquecer-se ao seio do infinito,
                 E ao céu roubar segredos de harmonia,
                 Que sonorosos troem
                 D'harpa sublime nas melífluas cordas.

                 Mas ei-la já quebrada, -
                 Ei-la sem voz suspensa sobre um túmulo,
                 Essa harpa misteriosa, qu'inda há pouco
                 Nos embalava ao som de endeixas tristes
                 Repassadas de amor e de saudade.
                 Ninguém lhe ouvirá mais um só arpejo,
                 Que a férrea mão da morte
                 Pousou sobre ela, e lhe abafou pra sempre
                 A voz das áureas cordas.
                 Porém, ó Dutra, enquanto lá no elísio
                 Saciando tua alma nas enchentes
                 Do amor e da beleza, entre os eflúvios
                 De perenais delícias,
                 E unido ao coro dos celestes bardos,
                 O fogo teu derramas
                 Aos pés de Jeová em gratos hinos,
                 A glória tua, teus eternos cantos,
                 Quebrando a mudez fúnebre das campas
                 E as leis do frio olvido, com teu nome
                 Através do porvir irão traçando
                 Um sulco luminoso.

 
 

 

Esperança
 

Espère, enfant! - demain! - et puis demain encore;
                                    Et puis, toujours demain! (V. Hugo)


                    Singrando vai por mares não sulcados
                    Aventureiro nauta, que demanda
                    Ignotas regiões, sonhados mundos;
                    Ei-lo que audaz se entranha
                    Na solidão dos mares - a esperança
                    Em lisonjeiros sonhos já lhe pinta
                    Rica e formosa a terra suspirada,
                    E corre, corre o nauta
                    Avante pelo páramo das ondas;
                    Além um ponto surde no horizonte
                    Confuso - é terra! - e o coração lhe pula
                    De insólito prazer.
                    Terra! - terra! - bradou - e era uma nuvem!
                    E corre, corre o nauta
                    Avante pelo páramo das ondas;
                    No profundo horizonte os olhos ávidos
                    Ansioso embebe; - ai! que só divisa
                    Ermos céus, ermas ondas.
                    O desalento já lhe coa n'alma;
                    Oh! não; eis nos confins lá do oceano
                    Um monte se desenha;
                    Não é mais ilusão - já mais distinto
                    Surge acima das ondas - oh! é terra!
                    Terra! - terra! - bradou; era um rochedo,
                    Onde as ondas batendo eternamente
                    Rugindo se espedaçam.
                    Eis do nosso passar por sobre a terra
                    Em breve quadro uma fiel pintura;
                    É a vida oceano de desejos
                    Intérmino, sem praias,
                    Onde a esmo e sem bússola boiamos
                    Sempre, sempre com os olhos enlevados
                    Na luz desse fanal misterioso,
                    Que alma esperança mostra-nos sorrindo
                    Nas sombras do porvir.

                    E corre, e corre a existência,
                    E cada dia que cai
                    Nos abismos do passado
                    É um sonho que se esvai,

                    Um almejo de noss'alma,
                    Anelo de felicidade
                    Que em suas mãos espedaça
                    A cruel realidade;

                    Mais um riso que nos lábios
                    Para sempre vai murchar,
                    Mais uma lágrima ardente
                    Que as faces nos vem sulcar;

                    Um reflexo de esperança
                    No seio d'alma apagado,
                    Uma fibra que se rompe
                    No coração ulcerado.

                    Pouco e pouco as ilusões
                    Do seio nos vão fugindo,
                    Como folhas ressequidas,
                    Que vão d'árvore caindo;

                    E nua fica nossa alma
                    Onde a esp'rança se extinguiu,
                    Como tronco sem folhagem
                    Que o frio inverno despiu.

                    Mas como o tronco remoça
                    E torna ao que d'antes era,
                    Vestindo folhagem nova
                    Co volver da primavera,

                    Assim na mente nos pousa
                    Novo enxame de ilusões,
                    De novo o porvir se arreia
                    De mil douradas visões.

                    A cismar com o futuro
                    A alma de sonhar não cansa,
                    E de sonhos se alimenta,
                    Bafejada da esperança.

                    Esperança, que és tu? Ah! que minha harpa
                    Já não tem para ti sons lisonjeiros;
                    Sim - nestas cordas já por ti malditas
                    Acaso tu não ouves
                    As queixas abafadas que sussurram,
                    E em voz funérea soluçando vibram
                    Um cântico de anátema?
                    Chamem-te embora bálsamo do aflito,
                    Anjo do céu que nos alenta os passos
                    Nas sendas da existência;
                    Nunca mais poderás, fada enganosa,
                    Com teu canto embalar-me, eu já não creio
                    Nas tuas vãs promessas;
                    Não creio mais nessas visões donosas
                    Fantásticos painéis, com que sorrindo
                    Matizas o futuro!
                    Estéreis flores, que um momento brilham
                    E caem murchas sem deixarem fruto
                    No tronco desornado.
                    - Vem após mim - ao desditoso dizes;
                    Não esmoreças, vem; - é vasto e belo
                    O campo do futuro; - lá florescem
                    As mil delicias que sonhou tua alma,
                    Lá te reserva o céu o doce asilo
                    A cuja sombra abrigarás teus dias.
                    Porém - é cedo - espera.
                    E ei-lo que vai com os olhos enlevados
                    Nas cores tão formosas
                    Com que bordas ao longe os horizontes...
                    E fascinado o mísero não sente
                    Que mais e mais se embrenha
                    Pela sombria noite do infortúnio.
                    E se dos lábios seus queixas exala,
                    Se o fel do coração enfim transborda
                    Em maldições, em gritos de agonia,
                    Em teu regaço, pérfida sereia,
                    Co'a voz embaidora, inda o acalentas;
                    - Não esmoreças, não; - é cedo; espera;
                    Lhe dizes tu sorrindo.
                    E quando enfim no coração quebrado
                    De tanta decepção, sofrer tão longo,
                    Nos vem roçar do desalento o sopro,
                    Quando enfim no horizonte tenebroso
                    A estrela derradeira em sombras morre,
                    Esperança, teu último lampejo,
                    Qual relâmpago em noite tormentosa,
                    Abre clarão sinistro, e mostra a campa
                    Nas trevas alvejando.
 

 

 
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