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A Carta de Pero Vaz de Caminha
Senhor: Posto que o Capitão-mor desta
vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do
achamento desta vossa terra nova, que ora nesta navegação se achou, não
deixarei também de dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor
puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer. Tome Vossa Alteza, porém,
minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para aformosear
nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu. Da marinhagem e singraduras do caminho não darei aqui conta
a Vossa Alteza, porque o não saberei fazer, e os pilotos devem ter esse
cuidado. Portanto, Senhor, do que hei de falar começo e digo: A partida de Belém, como
Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de março. Sábado, 14 do dito mês, entre
as oito e nove horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grã- Canária, e
ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a
quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas
de Cabo Verde, ou melhor, da ilha de S. Nicolau, segundo o dito de Pero
Escolar, piloto. Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da
frota Vasco de Ataíde com sua nau, sem
haver tempo forte nem contrário para
que tal acontecesse. Fez o capitão suas diligências para o achar, a uma e outra
parte, mas não apareceu mais! E assim seguimos nosso
caminho, por este mar, de longo, até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa,
que foram 21 dias de abril, estando da
dita Ilha obra de 660 ou 670 léguas, segundo os pilotos diziam, topamos alguns sinais de terra, os quais
eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam
botelho, assim como outras a que dão o
nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que
chamam fura-buxos. Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de
terra! Primeiramente dum grande monte,
mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã,
com grandes arvoredos: ao monte alto o
capitão pôs nome – o Monte Pascoal e à terra – a Terra da Vera
Cruz. Mandou lançar o prumo.
Acharam vinte e cinco braças; e ao sol
posto, obra de seis léguas da terra,
surgimos âncoras, em dezenove braças -- ancoragem limpa. Ali permanecemos toda
aquela noite. E à quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitos à terra, indo os
navios pequenos diante, por dezessete,
dezesseis, quinze, catorze, treze, doze, dez e nove braças, até meia légua da terra, onde todos lançamos
âncoras em frente à boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas pouco mais ou menos. Dali avistamos homens que
andavam pela praia, obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos,
por chegarem primeiro. Então lançamos fora os batéis
e esquifes, e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau
do Capitão-mor, onde falaram entre si. E o Capitão-mor mandou em
terra no batel a Nicolau Coelho para
ver aquele rio. E tanto que ele começou de ir
para lá, acudiram pela praia
homens, quando aos dois, quando aos
três, de maneira que, ao chegar o batel à boca do rio, já ali havia dezoito ou
vinte homens. Eram pardos, todos nus, sem
coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o
batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os
pousaram. Ali não pôde deles haver
fala, nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Somente
deu-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de
linho que levava na cabeça e um sombreiro preto. Um deles deu-lhe um sombreiro
de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas como
de papagaio; e outro deu-lhe um ramal grande de continhas brancas,
miúdas, que querem parecer de aljaveira, as quais peças creio que o Capitão manda
a Vossa Alteza, e com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver
deles mais fala, por causa do mar. Na noite seguinte, ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar
as naus, e especialmente a capitânia. E sexta pela manhã, às oito horas, pouco
mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar âncoras e
fazer vela; e fomos ao longo da costa,
com os batéis e esquifes amarrados à popa na direção do norte, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde
nos demorássemos, para tomar água e lenha. Não que nos minguasse, mas por aqui nos acertarmos. Quando fizemos vela, estariam
já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se
haviam juntado ali poucos e poucos.
Fomos de longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que seguissem mais
chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem. E, velejando nós pela costa,
obra de dez léguas do sítio donde
tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um
porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se
dentro e amainaram. As naus arribaram sobre eles; e um pouco antes do sol posto
amainaram também, obra de uma légua do recife, e ancoraram em onze braças. E estando Afonso Lopes, nosso
piloto, em um daqueles navios pequenos,
por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se
logo no esquife a sondar o porto dentro; e tomou dois daqueles homens da terra,
mancebos e de bons corpos, que estavam numa almadia. Um deles trazia um arco e
seis ou sete setas; e na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas de nada lhes serviram. Trouxe-os logo, já
de noite, ao Capitão, em cuja nau foram recebidos com muito prazer e festa. A feição deles é serem
pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem-feitos.
Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como
em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos neles
seus ossos brancos e verdadeiros, de
comprimento duma mão travessa, da grossura dum fuso de algodão, agudos na
ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que
lhes fica entre o beiço e os dentes é feita como roque de xadrez, ali encaixado
de tal sorte que não os molesta, nem os estorva no falar, no comer ou no beber.
Os cabelos seus são
corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta, mais que de sobrepente, de
boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da
solapa, de fonte a fonte para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de ave
amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe
cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada
aos cabelos, pena e pena, com uma confeição branda como cera (mas
não o era), de maneira que a cabeleira
ficava mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem
para a levantar. O Capitão, quando eles
vieram, estava sentado em uma cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui
grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires
Correia, e nós outros que aqui na nau com ele vamos, sentados no chão, pela
alcatifa. Acenderam-se tochas. Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao Capitão nem a ninguém. Porém
um deles pôs olho no colar do Capitão, e começou de acenar com a mão para a
terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para um castiçal de prata e assim
mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal como se lá também
houvesse prata. Mostraram-lhes um papagaio
pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a
terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhes um carneiro: não fizeram
caso. Mostraram-lhes uma galinha, quase tiveram medo dela: não lhe queriam pôr a mão; e depois a tomaram como que espantados. Deram-lhes ali de comer: pão
e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não quiseram
comer quase nada daquilo; e, se alguma coisa provaram, logo a lançaram
fora. Trouxeram-lhes vinho numa
taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram
nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes a água em uma albarrada. Não
beberam. Mal a tomaram na boca, que lavaram, e logo a lançaram fora. Viu um deles umas contas de
rosário, brancas; acenou que lhas dessem,
folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e
enrolou-as no braço e acenava para a terra e
de novo para as contas e para o colar do Capitão, como dizendo que
dariam ouro por aquilo. Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos. Mas se ele queria
dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não o queríamos nós entender,
porque não lho havíamos de dar. E depois tornou as contas a quem lhas dera. Então estiraram-se de costas
na alcatifa, a dormir, sem buscarem maneira de cobrirem suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e
as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas. O Capitão lhes mandou pôr por baixo das cabeças seus
coxins; e o da cabeleira esforçava-se por não a quebrar. E lançaram-lhes um
manto por cima; e eles consentiram, quedaram-se e dormiram. Ao sábado pela manhã mandou o
Capitão fazer vela, e fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e alta de seis a sete braças. Entraram todas
as naus dentro; e ancoraram em cinco ou seis braças – ancoragem dentro tão grande,
tão formosa e tão segura, que
podem abrigar-se nela mais de duzentos navios e naus. E tanto que as naus quedaram
ancoradas, todos os capitães vieram a
esta nau do Capitão-mor. E daqui mandou o Capitão a Nicolau Coelho e Bartolomeu
Dias que fossem em terra e levassem
aqueles dois homens e os deixassem ir com seu arco e setas, e isto depois que
fez dar a cada um sua camisa nova, sua carapuça vermelha e um rosário de contas
brancas de osso, que eles levaram nos braços, seus cascavéis e suas campainhas.
E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de D. João Telo,
a que chamam Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e
maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho. Fomos assim de frecha
direitos à praia. Ali acudiram logo obra de duzentos homens, todos nus, e com
arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levávamos acenaram-lhes que se
afastassem e pousassem os arcos; e eles os pousaram, mas não se afastaram
muito. E mal pousaram os arcos, logo saíram os que nós levávamos, e o mancebo
degredado com eles. E saídos não pararam mais; nem esperavam um pelo outro, mas
antes corriam a quem mais corria. E passaram um rio que por ali corre, de água
doce, de muita água que lhes dava pela braga; e outros muitos com eles. E
foram assim correndo, além do rio, entre umas moitas de palmas onde estavam
outros. Ali pararam. Entretanto foi-se o degredado com um homem que, logo ao
sair do batel, o agasalhou e o levou
até lá. Mas logo tornaram a nós; e com ele vieram os outros que nós leváramos,
os quais vinham já nus e sem carapuças. Então se começaram de chegar
muitos. Entravam pela beira do mar para os batéis, até que mais não
podiam; traziam cabaços de água, e
tomavam alguns barris que nós levávamos: enchiam-nos de água e traziam-nos aos
batéis. Não que eles de todos chegassem à borda do batel. Mas junto a ele,
lançavam os barris que nós tomávamos; e pediam que lhes dessem alguma coisa.
Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas. E a uns dava um cascavel, a outros
uma manilha, de maneira que com aquele engodo quase nos queriam dar a mão. Davam-nos daqueles arcos e setas por
sombreiros e carapuças de linho ou por qualquer coisa que homem
lhes queria dar. Dali se partiram os outros
dois mancebos, que os não vimos mais. Muitos deles ou quase a maior
parte dos que andavam ali traziam aqueles bicos de osso nos beiços. E alguns,
que andavam sem eles, tinham os beiços furados e nos buracos uns espelhos de
pau, que pareciam espelhos de borracha; outros traziam três daqueles bicos, a
saber, um no meio e os dois nos cabos. Aí andavam outros, quartejados de cores, a saber, metade deles da sua
própria cor, e metade de tintura preta, a modos de azulada; e outros quartejados
de escaques. Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem
gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão
cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha. Ali por então não houve mais
fala ou entendimento com eles, por a barbaria deles ser tamanha, que se não
entendia nem ouvia ninguém. Acenamos-lhes que se
fossem; assim o fizeram e
passaram-se além do rio. Saíram três ou
quatro homens nossos dos batéis, e encheram não sei quantos barris de água que
nós levávamos e tornamo-nos às naus.
Mas quando assim vínhamos, acenaram-nos que tornássemos. Tornamos e eles
mandaram o degredado e não quiseram que ficasse lá com eles. Este levava uma
bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor, se o
lá houvesse. Não cuidaram de lhe tomar nada,
antes o mandaram com tudo. Mas então Bartolomeu Dias o fez outra vez
tornar, ordenando que lhes desse aquilo. E ele tornou e o deu , à vista de nós,
àquele que da primeira vez agasalhara. Logo voltou e nós
trouxemo-lo. Esse que o agasalhou era já
de idade, e andava por louçainha todo cheio de penas, pegadas pelo corpo, que
parecia asseteado como S. Sebastião. Outros traziam carapuças de penas
amarelas; outros, de vermelhas; e
outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida, de baixo a cima
daquela tintura; e certo era tão
bem-feita e tão redonda, e sua vergonha
(que ela não tinha) tão graciosa, que a muitas mulheres da nossa terra,
vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela. Nenhum
deles era fanado, mas, todos assim como nós. E com isto nos tornamos e eles
foram-se. À tarde saiu o Capitão-mor em
seu batel com todos nós outros e com os outros capitães das naus em seus batéis
a folgar pela baía, em frente da praia.
Mas ninguém saiu em terra, porque o
Capitão o não quis, sem embargo de
ninguém nela estar. Somente saiu -- ele com todos nós -- em um ilhéu grande,
que na baía está e que na baixa-mar fica mui vazio. Porém é por toda a parte
cercado de água, de sorte que ninguém lá pode ir, a não ser de barco ou a nado.
Ali folgou ele e todos nós outros, bem uma hora e meia. E alguns marinheiros, que ali andavam com um
chinchorro, pescaram peixe miúdo, não muito. Então volvemo-nos às naus, já bem
de noite. Ao domingo de Pascoela pela
manhã, determinou o Capitão de ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu. Mandou
a todos os capitães que se aprestassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi
feito. Mandou naquele ilhéu armar um esperavel, e dentro dele um altar mui bem
corregido. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual foi dita pelo
padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada
com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes, que todos eram ali. A
qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e
devoção. Ali era com o Capitão a
bandeira de Cristo, com que saiu de Belém, a qual esteve sempre levantada, da
parte do Evangelho. Acabada a missa, desvestiu-se
o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E
pregou uma solene e proveitosa pregação da história do Evangelho, ao fim da
qual tratou da nossa vinda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da Cruz, sob cuja obediência
viemos, o que foi muito a propósito e fez muita devoção. Enquanto estivemos à missa e
à pregação, seria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos como a de
ontem, com seus arcos e setas, a qual andava folgando. E olhando-nos,
sentaram-se. E, depois de acabada a missa, assentados nós à pregação,
levantaram-se muitos deles, tangeram corno ou buzina, e começaram a saltar e
dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em
almadias -- duas ou três que aí tinham -- as quais não são feitas como as que
eu já vi; somente são três traves, atadas entre si. E ali se metiam quatro ou
cinco, ou esses que queriam não se afastando quase nada da terra, senão
enquanto podiam tomar pé. Acabada a pregação, voltou o
Capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcamos e
fomos todos em direção à terra para
passarmos ao longo por onde eles estavam, indo, na dianteira, por ordem do Capitão,
Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar
levara, para lho dar; e nós todos, obra de tiro de pedra, atrás dele. Como viram o esquife de
Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais
podiam. Acenaram-lhes que pousassem os arcos; e muitos deles os iam logo pôr em terra; e outros não. Andava aí um que falava muito
aos outros que se afastassem, mas não
que a mim me parecesse que lhe tinham acatamento ou medo. Este que os
assim andava afastando trazia seu arco e setas, e andava tinto de tintura
vermelha pelos peitos, espáduas, quadris, coxas e pernas até baixo, mas os
vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era assim
vermelha que a água a não comia nem desfazia, antes, quando saía da água,
parecia mais vermelha. Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava entre eles,
sem implicarem nada com ele para fazer-lhe mal. Antes lhe davam cabaças de
água, e acenavam aos do esquife que saíssem em terra. Com isto se volveu Bartolomeu
Dias ao Capitão; e viemo-nos às naus, a comer, tangendo gaitas e trombetas, sem
lhes dar mais opressão. E eles tornaram-se a assentar na praia e assim por
então ficaram. Neste ilhéu, onde fomos ouvir
missa e pregação, a água espraia muito, deixando muita areia e muito cascalho a descoberto. Enquanto aí
estávamos, foram alguns buscar marisco e apenas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um tão grande e tão
grosso, como em nenhum tempo vi tamanho.
Também acharam cascas de berbigões e
amêijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira. E tanto que comemos, vieram logo todos os capitães a esta nau, por
ordem do Capitão-mor, com os quais ele se apartou, e eu na companhia. E
perguntou a todos se nos parecia bem mandar a nova do achamento desta terra a
Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor a mandar descobrir e
saber dela mais do que nós agora podíamos saber, por irmos de nossa viagem. E entre muitas falas que no
caso se fizeram, foi por todos ou a
maior parte dito que seria muito bem. E nisto concluíram. E tanto que a conclusão foi tomada,
perguntou mais se lhes parecia bem
tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza,
deixando aqui por eles outros dois destes degredados. Sobre isto acordaram que não era necessário tomar por força
homens, porque era geral costume dos
que assim levavam por força para alguma parte dizerem que há ali de tudo
quanto lhes perguntam; e que melhor e muito melhor informação da terra dariam
dois homens destes degredados que
aqui deixassem, do que eles dariam se os levassem, por ser gente que ninguém
entende. Nem eles tão cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que
muito melhor estoutros o não digam, quando Vossa Alteza cá mandar. E que, portanto, não
cuidassem de aqui tomar ninguém por força nem de fazer escândalo, para de todo mais os amansar e apacificar, senão
somente deixar aqui os dois degredados,
quando daqui partíssemos. E assim, por melhor a todos
parecer, ficou determinado. Acabado isto, disse o Capitão
que fôssemos nos batéis em terra e ver-se-ia bem como era o rio, e também para
folgarmos. Fomos todos nos batéis em
terra, armados e a bandeira conosco. Eles andavam ali na praia, à boca do rio,
para onde nós íamos; e, antes que chegássemos, pelo ensino que dantes tinham,
puseram todos os arcos, e acenavam que saíssemos. Mas, tanto que os batéis
puseram as proas em terra, passaram-se logo todos além do rio, o qual não é
mais largo que um jogo de mancal. E mal desembarcamos, alguns dos nossos
passaram logo o rio, e meteram-se entre eles. Alguns aguardavam; outros
afastavam-se. Era, porém, a coisa
de maneira que todos andavam misturados. Eles ofereciam desses arcos com
suas setas por sombreiros e
carapuças de linho ou por qualquer coisa que lhes davam. Passaram além tantos dos nossos, e andavam assim misturados com
eles, que eles se esquivavam e afastavam-se. E deles alguns iam-se para cima
onde outros estavam. Então o Capitão fez que dois
homens o tomassem ao colo, passou o rio, e fez tornar a todos. A gente que ali estava não seria mais que a costumada. E tanto que o Capitão fez tornar a todos,
vieram a ele alguns daqueles, não porque o conhecessem por Senhor, pois me parece que não entendem, nem tomavam disso
conhecimento, mas porque a gente nossa passava já para aquém do rio. Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas daquelas já ditas,
e resgatavam-nas por qualquer coisa, em tal maneira que os nossos
trouxeram dali para as naus muitos
arcos e setas e contas. Então tornou-se o
Capitão aquém do rio, e logo acudiram muitos à beira dele. Ali veríeis galantes,
pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim nos corpos, como nas pernas,
que, certo, pareciam bem assim. Também andavam, entre eles,
quatro ou cinco mulheres moças, nuas como eles, que não pareciam mal. Entre elas andava uma com uma coxa, do joelho
até o quadril, e a nádega, toda tinta daquela tintura preta; e o resto, tudo da sua própria cor. Outra trazia ambos os joelhos, com as curvas
assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas e com tanta
inocência descobertas, que nisso não
havia nenhuma vergonha. Também andava aí outra mulher
moça com um menino ou menina ao colo, atado com um pano (não sei de quê) aos
peitos, de modo que apenas as perninhas lhe apareciam. Mas as pernas da mãe e o
resto não traziam pano algum. Depois andou o Capitão para
cima ao longo do rio, que corre sempre chegado à praia. Ali esperou um velho, que trazia na mão uma
pá de almadia. Falava, enquanto o Capitão esteve com ele, perante nós todos,
sem nunca ninguém o entender, nem ele a
nós quantas coisas que
lhe demandávamos acerca de ouro, que
nós desejávamos saber se na terra havia. Trazia este velho o beiço tão
furado, que lhe caberia pelo furo um grande dedo polegar, e metida nele uma pedra verde, ruim, que
cerrava por fora esse buraco. O Capitão lha fez tirar. E ele não sei que diabo
falava e ia com ela direito ao Capitão, para lha meter na boca. Estivemos sobre isso rindo um pouco; e então
enfadou-se o Capitão e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um
sombreiro velho, não por ela valer alguma coisa, mas por amostra. Depois
houve-a o Capitão, segundo creio,
para, com as outras coisas, a mandar a
Vossa Alteza. Andamos por aí vendo a
ribeira, a qual é de muita água e muito boa. Ao longo dela há muitas palmas,
não muito altas, em que há muito bons palmitos. Colhemos e comemos deles
muitos. Então tornou-se o Capitão
para baixo para a boca do rio, onde havíamos desembarcado. Além do rio, andavam muitos
deles dançando e folgando, uns diante dos outros, sem se tomarem pelas mãos. E
faziam-no bem. Passou-se então além do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de
Sacavém, que é homem gracioso e de prazer;
e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dançar,
tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam
com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas
ligeiras, e salto real, de que eles se
espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo muito os segurou e
afagou, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para
cima. E então o Capitão passou o rio com todos nós outros, e fomos pela praia de longo,
indo os batéis, assim, rente da terra.
Fomos até uma lagoa grande de água doce,
que está junto com a praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada por
cima e sai a água por muitos
lugares. E depois de passarmos o rio,
foram uns sete ou oito deles andar entre os marinheiros que se recolhiam aos
batéis. E levaram dali um tubarão, que Bartolomeu Dias matou, lhes levou e
lançou na praia. Bastará dizer-vos que até aqui, como quer que eles
um pouco se amansassem, logo duma mão para outra se esquivavam, como pardais,
do cevadoiro. Homem não lhes ousa falar
de rijo para não se esquivarem mais; e tudo se passa como eles querem, para os
bem amansar. O Capitão ao velho, com quem
falou, deu uma carapuça vermelha. E com toda a fala que entre ambos se passou e
com a carapuça que lhe deu, tanto que se apartou e começou de passar o rio,
foi-se logo recatando e não quis mais tornar de lá para aquém. Os outros dois, que o Capitão
teve nas naus, a que deu o que já disse, nunca mais aqui apareceram – do que
tiro ser gente bestial, de pouco saber
e por isso tão esquiva. Porém e com tudo isso andam muito bem curados e muito limpos. E naquilo me parece ainda mais
que são como aves ou alimárias monteses, às quais faz o ar melhor pena e melhor cabelo que às mansas, porque os
corpos seus são tão limpos, tão gordos
e tão formosos, que não pode mais ser. Isto me faz presumir que não
têm casas nem moradas a que se acolham, e o ar, a que se criam, os faz tais.
Nem nós ainda até agora vimos nenhuma
casa ou maneira delas. Mandou o Capitão aquele
degredado Afonso Ribeiro, que se fosse outra vez com eles. Ele foi e andou lá
um bom pedaço, mas à tarde tornou-se, que o fizeram eles vir e não o quiseram
lá consentir. E deram-lhe arcos e setas; e não lhe tomaram nenhuma coisa do seu. Antes – disse ele – que um lhe
tomara umas continhas amarelas, que
levava, e fugia com elas, e ele se queixou e os outros foram logo após, e lhas
tomaram e tornaram-lhas a dar; e então mandaram-no vir. Disse que não vira lá
entre eles senão umas choupaninhas de rama verde e de fetos muito grandes,
como de Entre Douro e Minho. E assim nos tornamos às naus, já quase noite, a dormir. À segunda-feira, depois de
comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos, mas não
tantos como as outras vezes. Já muito poucos traziam arcos. Estiveram assim um
pouco afastados de nós; e depois pouco a pouco misturaram-se conosco.
Abraçavam-nos e folgavam. E alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns
arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha ou por qualquer coisa.
Em tal maneira isto se passou, que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se
foram com eles, onde outros muitos estavam com moças e mulheres. E trouxeram de
lá muitos arcos e barretes de penas de aves, deles verdes e deles amarelos, dos
quais, creio, o Capitão há de mandar amostra a Vossa Alteza. E, segundo diziam esses que
lá foram, folgavam com eles. Neste dia os vimos mais de perto e mais à nossa
vontade, por andarmos quase todos misturados. Ali, alguns andavam daquelas tinturas quartejados;
outros de metades; outros de tanta feição, como em panos de armar, e todos com
os beiços furados, e muitos com os ossos neles, e outros sem ossos. Alguns traziam uns ouriços
verdes, de árvores, que, na cor, queriam parecer de castanheiros, embora mais
pequenos. E eram cheios duns grãos vermelhos pequenos, que, esmagando-os entre
os dedos, faziam tintura muito
vermelha, de que eles andavam tintos. E quanto mais
se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam. Todos andam rapados até cima das orelhas; e assim as sobrancelhas e
pestanas. Trazem todos as testas, de
fonte a fonte, tintas da tintura preta, que parece uma fita preta, da largura
de dois dedos. E o Capitão mandou aquele
degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados, que fossem lá andar entre
eles; e assim a Diogo Dias, por ser homem ledo, com que eles folgavam. Aos
degredados mandou que ficassem lá esta noite. Foram-se lá todos, e andaram
entre eles. E, segundo eles diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação,
em que haveria nove ou dez casas, as quais eram tão compridas, cada uma, como
esta nau capitânia. Eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de
palha, de razoada altura; todas duma só
peça, sem nenhum repartimento, tinham dentro muitos esteios; e, de esteio a
esteio, uma rede atada pelos cabos, alta, em que dormiam. Debaixo, para se
aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma num
cabo, e outra no outro. Diziam que em cada casa se
recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os achavam; e que lhes davam
de comer daquela vianda, que eles tinham, a saber, muito inhame e outras
sementes, que na terra há e eles comem. Mas, quando se fez tarde fizeram-nos logo tornar a
todos e não quiseram que lá ficasse nenhum. Ainda, segundo diziam,
queriam vir com eles. Resgataram lá por cascavéis e
por outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito
grandes e formosos, e dois verdes pequeninos e carapuças de penas verdes, e um
pano de penas de muitas cores, maneira de tecido assaz formoso, segundo Vossa
Alteza todas estas coisas verá, porque o Capitão vo-las há de mandar, segundo
ele disse. E com isto vieram; e nós
tornámo-nos às naus. À terça-feira, depois de
comer, fomos em terra dar guarda de lenha e
lavar roupa. Estavam na praia, quando
chegamos, obra de sessenta ou setenta sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos,
vieram logo para nós, sem se esquivarem. Depois acudiram muitos, que seriam bem
duzentos, todos sem arcos; e misturaram-se todos tanto conosco que alguns nos
ajudavam a acarretar lenha e a meter nos batéis. E lutavam com os nossos e
tomavam muito prazer. Enquanto cortávamos a lenha,
faziam dois carpinteiros uma grande Cruz, dum pau, que ontem para isso se cortou. Muitos deles vinham ali estar
com os carpinteiros. E creio que o faziam mais por verem a ferramenta de ferro
com que a faziam, do que por verem a Cruz, porque eles não tem coisa que de
ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas
em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam fortes,
segundo diziam os homens, que ontem a suas casas foram, porque lhas viram lá. Era já a conversação deles
conosco tanta, que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer. O Capitão mandou a dois
degredados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia (e aoutras, se houvessem novas
delas) e que, em toda a maneira, não viessem dormir às naus, ainda que eles os mandassem. E assim se foram. Enquanto andávamos nessa mata
a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios
por essas árvores, deles
verdes e outros pardos, grandes e pequenos, de maneira que me parece que
haverá muitos nesta terra. Porém eu não veria mais que até nove ou dez. Outras aves então não vimos, somente algumas
pombas-seixas, e pareceram-me bastante maiores que as de Portugal. Alguns
diziam que viram rolas; eu não as vi.
Mas, segundo os arvoredos são mui muitos e grandes, e de infindas maneiras, não
duvido que por esse sertão haja muitas aves! Cerca da noite nos volvemos
para as naus com nossa lenha. Eu creio, Senhor, que ainda
não dei conta aqui a Vossa Alteza da feição de seus arcos e setas. Os arcos são
pretos e compridos, as setas também compridas e os ferros delas de canas
aparadas, segundo Vossa Alteza verá por alguns que – eu creio -- o Capitão a Ela há de enviar. À quarta-feira não fomos em
terra, porque o Capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo
e fazer levar às naus isso que cada uma podia levar. Eles acudiram à praia;
muitos, segundo das naus vimos. No dizer de Sancho de Tovar, que lá foi, seriam obra de trezentos. Diogo Dias e Afonso Ribeiro,
o degredado, aos quais o Capitão ontem mandou que em toda maneira lá dormissem,
volveram-se, já de noite, por eles não quererem que lá ficassem. Trouxeram
papagaios verdes e outras aves pretas, quase como pegas, a não ser que tinham o
bico branco e os rabos curtos. Quando Sancho de Tovar se recolheu à nau, queriam vir com ele
alguns, mas ele não quis senão dois mancebos
dispostos e homens de prol. Mandou-os essa noite mui bem pensar e curar.
Comeram toda a vianda que lhes deram; e mandou fazer-lhes cama de lençóis,
segundo ele disse. Dormiram e folgaram aquela noite. E assim não houve mais este dia que para escrever seja. À quinta-feira, derradeiro de
abril, comemos logo, quase pela manhã, e fomos em terra por mais lenha e água.
E, em querendo o Capitão sair desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dois
hóspedes. E por ele ainda não ter comido, puseram-lhe toalhas. Trouxeram-lhe
vianda e comeu. Aos hóspedes, sentaram cada um em sua cadeira. E de tudo o que
lhes deram comeram mui bem, especialmente lacão cozido, frio, e arroz. Não lhes deram vinho, por
Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem. Acabado o comer, metemo-nos
todos no batel e eles conosco. Deu um grumete a um deles uma armadura grande de
porco montês, bem revolta. Tanto que a tomou, meteu-a logo no beiço, e, porque
se lhe não queria segurar, deram-lhe uma pequena de cera vermelha. E ele
ajeitou-lhe seu adereço detrás para ficar segura, e meteu-a no beiço, assim
revolta para cima. E vinha tão contente com ela, como se tivesse uma
grande jóia. E tanto que saímos em terra, foi-se logo com ela, e não apareceu
mais aí. Andariam na praia, quando
saímos, oito ou dez deles; e de aí a pouco começaram a vir mais. E parece-me
que viriam, este dia, à praia quatrocentos ou quatrocentos e cinqüenta. Traziam alguns deles arcos e
setas, que todos trocaram por carapuças
ou por qualquer coisa que lhes davam. Comiam conosco do que lhes dávamos.
Bebiam alguns deles vinho; outros o não podiam beber. Mas parece-me, que se lho
avezarem, o beberão de boa vontade. Andavam todos tão
dispostos, tão bem-feitos e galantes
com suas tinturas, que pareciam bem. Acarretavam dessa lenha, quanta podiam,
com mui boa vontade, e levavam-na aos batéis. Andavam já mais mansos e
seguros entre nós, do que nós andávamos entre eles. Foi o Capitão com alguns de
nós um pedaço por este arvoredo até uma ribeira grande e de muita água que, a
nosso parecer, era esta mesma, que vem ter à praia, e em que nós tomamos água. Ali ficamos um pedaço,
bebendo e folgando, ao longo dela, entre esse arvoredo, que é tanto,
tamanho, tão basto e de tantas
prumagens, que homens as não podem contar. Há entre ele
muitas palmas, de que colhemos muitos e bons palmitos. Quando saímos do batel, disse
o Capitão que seria bom irmos direitos à Cruz, que estava encostada a uma
árvore, junto com o rio, para se erguer
amanhã, que é sexta-feira, e que nos puséssemos todos de joelhos e a beijássemos
para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim fizemos. A esses dez ou doze que aí estavam,
acenaram-lhe que fizessem assim, e
foram logo todos beijá-la. Parece-me gente de tal
inocência que, se homem os entendesse e
eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece, não têm, nem
entendem em nenhuma crença. E portanto, se os degredados, que aqui hão de ficar aprenderem bem
a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa intenção de
Vossa Alteza, se hão de fazer cristãos e crer em nossa santa fé, à qual praza a
Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gente é boa e de boa
simplicidade. E imprimir-se-á ligeiramente neles qualquer cunho, que lhes
quiserem dar. E pois Nosso Senhor, que lhes deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens,
por aqui nos trouxe, creio que não foi
sem causa. Portanto Vossa Alteza, que
tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da sua salvação. E
prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim. Eles não lavram, nem criam.
Não há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer
outra alimária, que costumada seja ao viver dos homens. Nem comem senão desse
inhame, que aqui há muito, e dessa
semente e frutos, que a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tais
e tão rijos e tão nédios, que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes
comemos. Neste dia, enquanto ali
andaram, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som dum tamboril dos nossos, em maneira que são
muito mais nossos amigos que nós
seus. Se lhes homem acenava se queriam vir às naus, faziam-se logo prestes para isso, em tal maneira que, se a
gente todos quisera convidar, todos vieram. Porém não trouxemos esta noite às
naus, senão quatro ou cinco, a saber: o Capitão-mor, dois; e Simão de Miranda,
um, que trazia já por pajem; e Aires
Gomes, outro, também por pajem. Um dos que o Capitão trouxe
era um dos hóspedes, que lhe trouxeram da primeira vez, quando aqui chegamos,
o qual veio hoje aqui, vestido na sua
camisa, e com ele um seu irmão; e foram esta noite mui bem agasalhados, assim
de vianda, como de cama, de colchões e lençóis, para os mais amansar. E hoje, que é sexta-feira,
primeiro dia de maio, pela manhã, saímos em terra, com nossa bandeira; e fomos
desembarcar acima do rio contra o sul, onde nos pareceu que seria melhor
chantar a Cruz, para melhor ser vista. Ali assinalou o Capitão o lugar, onde
fizessem a cova para a chantar. Enquanto a ficaram fazendo,
ele com todos nós outros fomos pela Cruz
abaixo do rio, onde ela estava. Dali
a trouxemos com esses religiosos e sacerdotes diante cantando, em maneira de
procissão. Eram já aí alguns deles, obra
de setenta ou oitenta; e, quando nos viram assim vir, alguns se foram meter debaixo dela, para nos ajudar.
Passamos o rio, ao longo da praia e fomo-la pôr onde havia de ficar, que será
do rio obra de dois tiros de besta. Andando-se ali nisto, vieram bem cento e
cinqüenta ou mais. Chantada a Cruz, com as armas
e a divisa de Vossa Alteza, que primeiramente lhe pregaram, armaram altar ao pé
dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por
esses já ditos. Ali estiveram conosco a ela obra de cinqüenta ou sessenta
deles, assentados todos de joelhos, assim como nós. E quando veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em
pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco e alçaram as mãos,
ficando assim, até ser acabado; e então tornaram-se a assentar como nós. E
quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim
todos, como nós estávamos com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados,
que, certifico a Vossa Alteza, nos fez muita devoção. Estiveram assim conosco até
acabada a comunhão, depois da qual
comungaram esses religiosos e sacerdotes e o Capitão com alguns de nós outros. Alguns deles, por o sol ser
grande, quando estávamos comungando, levantaram-se, e outros estiveram e
ficaram. Um deles, homem de cinqüenta ou cinqüenta e cinco anos, continuou ali
com aqueles que ficaram. Esse, estando nós assim, ajuntava estes, que ali ficaram, e ainda chamava outros. E
andando assim entre eles falando, lhes acenou com o dedo para o altar e depois
apontou o dedo para o Céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós
assim o tomamos. Acabada a missa, tirou o
padre a vestimenta de cima e ficou em alva; e assim se subiu junto com altar,
em uma cadeira. Ali nos pregou do Evangelho e dos Apóstolos, cujo dia hoje é,
tratando, ao fim da pregação, deste vosso prosseguimento tão santo e virtuoso,
o que nos aumentou a devoção. Esses, que à pregação sempre estiveram, quedaram-se
como nós olhando para ele. E aquele, que digo, chamava alguns que viessem para
ali. Alguns vinham e outros iam-se. E, acabada a pregação, como Nicolau Coelho
trouxesse muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram
ainda da outra vinda, houveram por bem
que se lançasse a cada um a sua ao pescoço. Pelo que o padre frei Henrique se
assentou ao pé da Cruz e ali, a um por um, lançava a sua atada em um fio ao pescoço, fazendo-lha
primeiro beijar e alevantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançaram-nas
todas, que seriam obra de quarenta ou cinqüenta. Isto acabado – era já
bem uma hora depois do meio-dia – viemos às naus a comer, trazendo o Capitão
consigo aquele mesmo que fez aos outros aquela mostrança para o altar e para o
Céu e um seu irmão com ele. Fez-lhe muita honra e deu-lhe uma camisa mourisca e
ao outro uma camisa destoutras. E, segundo que a mim e a
todos pareceu, esta gente não lhes falece outra coisa para ser toda cristã,
senão entender-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer, como nós
mesmos, por onde nos pareceu a todos que nenhuma idolatria, nem adoração têm. E
bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande,
que todos serão tornados ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se
alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar, porque já então
terão mais conhecimento de nossa fé, pelos dois degredados, que aqui entre eles
ficam, os quais, ambos, hoje também comungaram. Entre todos estes que hoje
vieram, não veio mais que uma mulher moça, a qual esteve sempre à missa e a
quem deram um pano com que se cobrisse. Puseram-lho a redor de si. Porém, ao
assentar, não fazia grande memória de o estender bem, para se cobrir. Assim,
Senhor, a inocência desta gente é tal, que a de Adão não seria maior, quanto a
vergonha. Ora veja Vossa Alteza se quem em tal inocência vive se converterá ou não, ensinando-lhes o que
pertence à sua salvação. Acabado isto, fomos assim
perante eles beijar a Cruz,
despedimo-nos e viemos comer. Creio, Senhor, que com estes
dois degredados ficam mais dois grumetes, que esta noite se saíram
desta nau no esquife, fugidos para terra. Não vieram mais. E cremos que ficarão
aqui, porque de manhã, prazendo a Deus, fazemos daqui nossa partida. Esta terra, Senhor, me parece
que da ponta que mais contra o sul vimos até à outra ponta que contra o norte
vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem
vinte ou vinte e cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, nalgumas partes,
grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda chã
e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, é toda praia parma, muito
chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu,
vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão
terra com arvoredos, que nos parecia muito longa. Nela, até agora, não pudemos
saber que haja ouro, nem prata, nem
coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de
muito bons ares, assim frios e
temperados como os de Entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infindas. E
em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por
bem das águas que tem. Porém o melhor fruto, que
nela se pode fazer, me parece que será
salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela
deve lançar. E que aí não houvesse
mais que ter aqui esta pousada para
esta navegação de Calecute, bastaria. Quando mais disposição para se nela
cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da
nossa santa fé. E nesta maneira, Senhor, dou
aqui a Vossa Alteza do que nesta vossa
terra vi. E, se algum pouco me
alonguei, Ela me perdoe, que o desejo que tinha, de Vos tudo dizer, mo fez assim pôr pelo miúdo. E pois que, Senhor, é certo
que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de vosso
serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que,
por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório,
meu genro – o que d'Ela receberei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa
Alteza. Deste Porto Seguro, da Vossa
Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.
Pero Vaz de Caminha Nota INFORMATIVA
A carta que o escrivão Pero
Vaz de Caminha escreveu ao rei d. Manuel é considerada o primeiro documento da
nossa história, e também como o primeiro texto literário do Brasil. Esta crônica do nascimento do
Brasil, redigida em forma de diário, vem motivando um volumoso número de
estudos e edições, desde quando o padre Manuel Aires de Casal a publicou pela
primeira vez na Corografia brazílica. O original desse precioso
documento, em sete folhas de papel manuscritas, cada uma em quatro páginas, num
total de 27 páginas de texto e mais uma de endereço, encontra-se guardado no
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, (gaveta 8, maço 2, n.2). A carta de Caminha
caracteriza-se pela descrição da tipicidade humana do indígena. Observou Carlos Malheiro Dias
que “Caminha não era um cosmógrafo. O que ele redigiu para recreio e
esclarecimento do rei foi uma narrativa impressionista em que revela aquela
cultura literária tão própria dos portugueses da sua grande época, e aquela
capacidade de observação, e aquela capacidade de compreender e descrever
judiciosamente, que constituem o mais esplêndido encanto dos cronistas”. A
preocupação em traduzir gestos, a caracterização corporal, a sua alimentação e
abrigo, enfim, o seu modo de existir, demonstra o valor dessa carta narrativa
como documento e obra literária. Referências: . Corografia brazílica, ou
relação histórico-geográfica do reino do Brazil. Composta e dedicada a sua
Magestade Fidelíssima pelo presbítero Manuel Aires de Casal. Rio de Janeiro:
Impressão Régia, 1817, volume 1, pág. 12-34. . Cortesão, Jaime. A Carta
de Pero Vaz de Caminha. 3 ed., Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda,
1994, p. 191. . Seguro, Visconde de Porto
(Francisco Adolfo de Varnhagen). Nota acerca de como não foi na Coroa Vermelha,
na enseada de Santa Cruz, que Cabral primeiro desembarcou e em que fez dizer a
primeira missa. In: Revista Trimensal do Instituto Histórico, Geográfico e
Etnográfico do Brasil. Rio de Janeiro: Garnier, 1877. Vol. XL, Parte 2,
p.12. . Abreu, João Capistrano de. O
descobrimento do Brasil. Nota liminar de José Honório Rodrigues. 2 ed, Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1976, p.167. . Dias, Carlos Malheiro. A
semana de Vera Cruz. In: História da colonização portuguesa do Brasil. Porto:
Litografia Nacional, 1923. Vol. 2, p. 77. . Pereira, Paulo Roberto. Os
três únicos testemunhos do descobrimento do Brasil. Rio de Janeiro: Lacerda
Editores, 1999. O texto da carta, assim como a
nota informativa e as referências, basearam-se no livro – Os três únicos
testemunhos do descobrimento do Brasil, de Paulo Roberto Pereira. Rio
de Janeiro: Lacerda Editores, 1999. ( MCG)
MINISTÉRIO DA CULTURA Fundação Biblioteca NacionalDepartamento Nacional do Livro
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