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Carta a uma Nação Cristã - Sam Harris (Uma Resenha)

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      Um livro sensacional, que se lê com prazer em um fôlego, coloca uma série de questões culminando em parte na esperança de que o fenômeno religioso com todos os males que vem trazendo à humanidade ao longo dos milênios seja erradicado em prol do racionalismo científico; em parte com um tom ligeiramente pessimista acerca das dificuldades que vimos encontrando para erradicar este mal.

      Intimista, o Autor se dirige ao leitor informalmente apontando, logo ao início alguns pontos que todos concordam: “se, como você acredita, o deus do antigo testamento criou o Universo em 6 dias há cerca de 6.000 anos, que, para expiar um pecado metafórico enviou seu filho – nascido de uma virgem e que era, ao fim e ao cabo, ele mesmo, o próprio deus – para expiação tanto do pecado metafórico de Adão e Eva quanto dos pecados presentes e futuros da humanidade ele, Sam Harris, que não acredita em nada sem a devida comprovação empírica plausível, está errado e sofrerá a eternidade em sofrimentos num inferno de fogo. Coloca os que chama de “liberais” ou “moderados” numa situação ainda mais embaraçosa pois tendente a contemporizar o incontemporizável. Fatos e dados históricos e científicos são ou não são, não há espaço para meio-termo. Em síntese, com o fim do fenômeno religioso, viria o fim da mentira intelectual que é a “Tolerância Religiosa”, muito discutida, falada e difundida em discursos mas sem efeito prático algum.

 

 

     A religião doutrina os potenciais fiéis desde a infância a rejeitar as provas científicas e aceitar sem crítica os discursos teológicos de um livro escrito ao final do Neolítico, impregnado de contradições e imprecisões, sempre de acordo com o que a presumivelmente letrada autoridade teológica de seu credo determina como dogma. No caso do cristianismo, coisas como o nascimento virginal de Jesus, a “expiação” na cruz, a ressurreição dos mortos e, em muitos casos, absurdidades ainda maiores como “parar o sol no céu para que os hebreus vençam uma batalha”, “derrubar muralhas de pedra com sopros em chifres de carneiros”, etc.

      Obra praticamente desnecessária, não fosse o fato de a maioria dos fiéis religiosos (mais de 50% somente nos EUA) não apenas acreditarem literalmente no que está escrito na Bíblia como em impedir avanços científicos como as pesquisas com células-tronco (tema que deve ser debatido racional e eticamente por geneticistas, médicos e outras autoridades no assunto) fora do escopo religioso mas que é maciçamente decidido em função da fé professada pelos eleitores.

Uma das mais relevantes conquistas da civilização ocidental, fruto do racionalismo iluminista, é a igualdade jurídica entre homens e mulheres. Seguir a Bíblia literalmente – obra escrita num tempo em que a mulher era “propriedade” do marido, pai ou irmão – vai na direção oposta a este avanço. Nas religiões judaica e muçulmana o quadro não é diferente, ficando a equação bem simplificada: ou a mulher assume o seu papel de juridicamente eqüipotente ao homem, ou segue sua fé religiosa. Não há meio-termo possível e a quantidade de sofrimento que a abordagem religiosa traz particularmente às mulheres no mundo é imensa!

 

 

     Sobre a Teodicéia (“se Deus existisse, como se explicaria a existência do Mal no mundo?”) alguns parágrafos citando como os sobreviventes de grandes tragédias, os crentes de hoje não se saem melhor que os da Idade Média: “deus esteve testando a nossa fé”. Impressionante...

      Sobre o Ateísmo: Sam Harris, acertadamente, tem repugnância por este termo. Afinal, não há uma expressão para qualificar um cidadão que duvida da astrologia, da homeopatia, da cura com cristais, de elfos, duendes e outros frutos da imaginação ou do delírio humano. Por que precisamos de um termo específico para nos referirmos a quem não aceita os dogmas pugnados por livros arcaicos e gente fanatizada?

      Confesso haver sentido falta de referências políticas mais claras – o que se repete em Dawkins, Denett e Hitchens (os 4 mais famosos e significativos intelectuais em luta pela ciência, contra a superstição no mundo). O muçulmano palestino fanático que se explode num Shopping Center em Israel seguramente crê numa recompensa celestial pelo seu ato, mas estes Autores omitem que o fiel muçulmano é levado a tal gesto de absoluto desespero pela maneira política cruel que o Estado de Israel com amplo apoio e suporte financeiro dos EUA tratam os palestinos. Os atos políticos travestidos em gestos religiosos – e os há aos montes! – estão aparentemente além do que Georg Lukács chamava de “Limite de Consciência Possível” de um dado Autor ou analista.

      Apesar disso, trata-se de um livro que enriquecerá em muito o pensador científico e que trará desafios aos religiosos – a quem o livro supostamente se dirige – que ousarem encará-lo. Excepcional em toda a sua extensão e de um rigor, de uma honestidade intelectual a toda a prova! Termino portanto com estas palavras em honra ao Autor: é fundamental o uso do Rigor Científico e da Honestidade Intelectual em todas as formas de diálogo entre os povos do mundo!

 

Lázaro Curvêlo Chaves - 25 de dezembro de 2011

Revisado a 09/12/2014

 

 

Por Que Não Sou Cristão - Bertrand Russell

 

Deus, um Delírio - Richard Dawkins

Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, Karl Marx

 
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