Cultura Brasileira - 15 anos no ar! 1998 - 2013

 

Castro Alves - 1847 - 1871

Manuel Bandeira

 

 

 

Aos quatorze dias do mês de março, no ano de 1847, nasceu Antônio de Castro Alves, na fazenda Cabaceiras, a sete léguas da vila de Curralinho, hoje cidade de Castro Alves. Era filho do Dr. Antônio José Alves e D. Clélia Brasília da Silva Castro.

Passou a infância no sertão natal, e em 54 iniciou os estudos na capital baiana. Aos dezesseis anos foi mandado para o Recife. Ia completar os preparatórios para se habilitar à matrícula na Academia de Direito. A liberdade aos 16 anos é coisa perigosa. O poeta achou a cidade insípida. Como ocupava os seus dias? Disse-o em carta a um amigo da Bahia: "Minha vida passo-a aqui numa rede olhando o telhado, lendo pouco fumando muito. O meu ‘cinismo’ passa a misantropia. Acho-me bastante afetado do peito, tenho sofrido muito. Esta apatia mata-me. De vez em quando vou à Soledade." Que era a Soledade? Um bairro do Recife, onde o poeta tinha uma namorada. O resultado dessa vadiagem foi a reprovação no exame de geometria. Mas em 64 consegue o adolescente matricular-se no Curso Jurídico.

 

Se era tido por mau estudante, já começava a ser notado como poeta. Em 62 escrevera o poema "A Destruição de Jerusalém", em 63 "Pesadelo", "Meu Segredo", já inspirado pela atriz Eugênia Câmara, "Cansaço", "Noite de Amor", "A Canção do Africano" e outros. Tudo isso era, verdade seja, poesia muito ruim ainda. O menino atirava alto. "A poesia", dizia, "é um sacerdócio — seu Deus, o belo — seu tributário, o Poeta." O Poeta derramando sempre uma lágrima sobre as dores do mundo. "É que", acrescentava, "para chorar as dores pequenas, Deus criou a afeição, para chorar a humanidade — a poesia."

 

Mas, no dia 9 de novembro de 1864, ao toque da meia-noite, na sotéia em que morava, o poeta, que sem dúvida se balançava na rede, fumando muito, sentiu doer-lhe o peito, e um pressentimento sinistro passou-lhe na alma. Pela primeira vez ia beber inspiração nas fontes da grande poesia: essa a importância do poema "Mocidade e Morte" na obra de Castro Alves. Uma dor individual, dessas para as quais "Deus criou a afeição", despertou no poeta os acentos supremos, que ele depois saberá estender às dores da humanidade, aos sofrimentos dos negros escravos (O Navio Negreiro), ao martírio de todo um continente (Vozes d'África). Não era mais o menino que brincava de poesia, era já o poeta-condor, que iniciava os seus vôos nos céus da verdadeira poesia. Naquela mesma noite escreve o poema, tema pessoal, logo alargado na antítese mocidade-morte, a mocidade borbulhante de gênio, sedenta de justiça, de amor e de glória, dolorosamente frustrada pela morte sete anos depois.

 

A versão primitiva do Poema foi conservada em autógrafo, documento precioso porque revela duas coisas: o poeta não se contentava com a forma em que lhe saíam os versos no primeiro momento da inspiração; na tarefa de os corrigir e completar procedia com segura intuição e fino gosto. Cotejada a primeira versão com a que foi publicada pelo poeta em São Paulo, por volta de 68-69, verifica-se que todas as emendas foram para melhor. Baste um exemplo: o sexto verso da segunda oitava era na primeira versão "Adornada" com os prantos do arrebol, substituído na definitiva por "Que" banharam de prantos as alvoradas, verso que forma com o anterior um dístico de raro sortilégio verbal.

 

"vem! formosa mulher — camélia pálida,

Que banharam de pranto as alvoradas".

 

Quase a meio do curso, em 67, o poeta, apaixonado pela portuguesa Eugênia Câmara, parte com ela para a Bahia, onde faz representar um mau drama em prosa — "Gonzaga" ou a "Revolução de Minas". Era sua intenção concluir o bacharelato em São Paulo, aonde chegou no ano seguinte. A sua passagem pelo Rio assinalou-se pelos mesmos triunfos já alcançados em Pernambuco. Em São Paulo, nos fins de 68, feriu-se num pé com um tiro acidental por ocasião de uma caçada, do que resultou longa enfermidade, em que teve o poeta que se submeter a várias intervenções cirúrgicas e finalmente à amputação do pé. O depauperamento das forças conduziu-o à tuberculose pulmonar, a que sucumbiu em 71 no sertão de sua província natal. Antes de regressar a ela, publicara, em 70, o livro "Espumas Flutuantes", cantos por ele definidos como rebentando por vezes, ao estalar fatídico do látego da desgraça", refletindo por vezes "o prisma fantástico da ventura ou do entusiasmo".

 

Vulgarmente melodramático na desgraça, simples e gracioso na ventura, o que constituía o genuíno clima poético de Castro Alves era o entusiasmo da mocidade apaixonada pelas grandes causas da liberdade e da justiça — as lutas da Independência na Bahia, a insurreição dos negros de Palmares, o papel civilizador da imprensa, e acima de todas a campanha contra a escravidão. Mas este último tema não figurava nas "Espumas Flutuantes". As composições em que o tratava deveriam formar o poema "Os Escravos", o qual teria como remate "A Cachoeira de Paulo Afonso", publicada postumamente. Deixava ainda o poeta outras poesias avulsas, que era seu propósito reunir em outro livro intitulado "Hinos do Equador".

 

Ao livro "Os Escravos" pertenceriam "Vozes d'África" e "O Navio Negreiro", os dois poemas em que o poeta atingiu a maior altura de seu estro. O primeiro é uma soberba apóstrofe do continente escravizado, a implorar justiça de Deus. O que indignava o poeta era ver que o Novo Mundo, "talhado para as grandezas, pra crescer, criar, subir", a América, que conquistara a liberdade com formidável heroísmo, se manchava no mesmo crime da Europa.

 

No "O Navio Negreiro" evocava o poeta os sofrimentos dos negros na travessia da África para o Brasil. Sabe-se que os infelizes vinham amontoados no porão e só subiam ao convés uma vez ao dia para o exercício higiênico, a dança forçada sob o chicote dos capatazes.

 

Em Castro Alves cumpre distinguir o lírico amoroso, que se exprimia quase sempre sem ênfase e às vezes com exemplar simplicidade, como no formoso quadro do poema "Adormecida", o poeta descritivo, pintando com admirável verdade e poesia a nossa paisagem, tal em "O Crepúsculo Sertanejo", cumpre distingui-lo do épico social desmedindo-se em violentas antíteses, em retumbantes onomatopéias. A este último aspecto há que levar em conta a intenção pragmática dos seus cantos, escritos para serem declamados na praça pública, em teatros ou grandes salas —, verdadeiros discursos de poeta-tribuno. E há que reconhecer nele, mau grado os excessos e o mau-gosto ocasional, a maior força verbal e a inspiração mais generosa de toda a poesia brasileira.

 Manuel Bandeira

 
 

 

Castro Alves

Afrânio Peixoto

 (Optou-se por manter a grafia da época)

 

  Castro Alves, o maior dos poetas brasileiros, não só recebeu as consagrações de applauso do seu tempo, como, decorrido mais de meio século de sua morte, não deixou de recebel-as das gerações que se vêm succedendo, e levarão seu nome, com os seus versos, muito ainda além de nós... É que, poeta do Amor e da Natureza, será o de todas as idades, e pela bravura, e espontaneidade, pela ternura e sinceridade, - brasileiro pelo coração, que sentia com o de sua terra, - universal pela intelligencia que vibrava a todas as grandes ideas generosas da humanidade, não só foi a nossa grande voz de épico e de lyrico, no concerto do mundo, como vidente e propheta, annunciou a redempção e a liberdade, a emancipação civil dos negros, a emancipação política dos brancos, e agora, realizadas as suas utopias, continúa a nos encantar com os accentos incomparaveis do lyrismo mais ardente e mais intimo que já se sentiu e cantou no Brasil... A glorificação do Decennario (1881), ampliada no Cincoentenário (1921) continuou apenas uma justiça que nunca lhe faltou e continuará, de maior dos nossos poetas...

Nasceu Antonio de Castro Alves do Dr. Antonio José Alves, cirurgião e professor da Faculdade de Medicina da Bahia, e de sua mulher D. Clelia Brasilia da Silva Castro, a 14 de março de 1847, na Fazenda Cabaceiras, a sete leguas de Curralinho, hoje Cidade Castro Alves, terras então comarca de Cachoeira, hoje de Muritiba, na província da Bahia.

 

Os primeiros annos da vida passou no sertão da terra natal do qual havia de guardar indelevel impressão. Em 54, porém, já estava com a familia na capital e cursava com o irmão mais velho, José Antonio, as aulas do Gymnasio Bahiano, dirigido pelo afamado educador Dr. Abilio Cesar Borges, depois Barão de Macaúbas. Os paes possuiam abastança, viviam em meio cultivado, havendo o Dr. Alves viajado pela Europa e adquirido, alem do aperfeiçoamento profissional, conhecimentos de pintura e critica de arte, com o que lograra possuir a mais bella galeria de quadros da cidade, e a esposa, tambem prendada, apreciaveis dotes musicaes. No collegio o jovem Castro já assim estimulado no seu lar, iria encontrar uma atmosfera literaria, produzida pelos "oiteiros", ou saraus, então em moda, festas de arte, musica, poesia, declamação de versos e discursos, que o havia de todo seduzir. Com effeito, o nosso poeta se revelou, talvez antes dos treze annos, nessa idade com certeza, de que datam as primeiras composições conservadas.

 

Destinado ao estudo do direito, teria de fazer os seus exames no curso annexo da Faculdade do Recife, para onde foi mandado, em 62. Ahi a vida agitada e solta da academia, onde os moços de talento porfiavam por apparecer, a indole generosa de Castro Alves, que desde cedo aspirou a gloria que dão as grandes causas sociaes, fizeram delle um tribuno e um poeta que se não esquivava as sessões publicas na Faculdade, nas sociedades de estudantes, na platéa dos theatros, incitado desde logo pelos applausos e ovações, que começara a receber, e iam num crescendo de apotheóse.

 

Era então um bello rapaz, de porte esbelto, tez pallida, grandes olhos vivos, negra e basta cabelleira, voz possante e harmoniosa, irreprehensivelmente vestido de preto, dons e maneiras que impressionavam á multidão, impondo-se á admiraçâo dos homem e ás mulheres inspirando os mais ternos sentimentos. Occorrem então os primeiros romances de amor, vividos e por isso sentidos nos seus versos, os mais bellos poemas lyricos escriptos no Brasil. Influencia decisiva na vida do poeta teria exercido a actríz portuguesa Eugenia Camara, que aqui viera com Furtado Coelho travessa e graciosa, mulher feita e bem feita, para atear e entreter paixão, que pelo bello vate adolescente abandonou seus contractos e empresario, e com quem veiu á Bahia, depois ao Rio e a S. Paulo, exhibindo-se no palco e na sua arte, quando o amor lho permittia, emquanto Castro Alves, com os seus poemas revolucionarios, recolhia na praça publica, na mocidade das escolas, na platéa dos theatros, as sagrações de poeta social, o de nosso maior poeta épico.

 

Foi esta a phase intensa de produção literaria e a do seu apostolado por duas grandes causas que o preoccuparam sempre: - uma, instante, social e moral, a da abolição da escravatura, que infamava o Brasil; - outra, a república, aspiração politica, suposta um ideal de governo democratico, a que devia tender um povo livre. Alem de poemas inspirados, data deste tempo o seu drama Gonzaga ou a Revolução de Minas, representado na Bahia e depois em S. Paulo, no qual conseguiu congraçar as duas grandes causas de sua vocação.

 

Estava quasi em meio do curso, quando, vindo á Bahia, em 67, na companhia de Eugenia Camara, até ahi constante, resolveu terminar os estudos em S. Paulo, passando pelo Rio no começo de 68, recebendo não só a consagração publica de José de Alencar e de Machado de Assis, como do povo da metropole, ia quem recitara versos do balcão de um dos jornaes cariocas, em dia de exaltação patriotica, pelas victorias da guerra contra o Paraguay.

 

Continuou em S. Paulo os estudos, e continuou principalmente a produção intensa dos seus poemas lyricos e heroicos, publicados nos jornaes ou recitados nas festas literarias, e que produziram a maior e mais ruidosa impressão; tinha então 2l annos, e possuia uma nomeada incomparavel na sua geração, que deu entretanto os mais formosos talentos e capacidades literarias e politicas ao Brasil; basta lembrar alguns nomes, de seus companheiros de academia: Fagundes Varella, Joaquim Nabuco, Ruy Barbosa, Affonso Penna, Rodrigues Alves, Bias Fortes, Martim Cabral, Salvador de Mendonça, Ferreira de Menezes, Barros Pimentel, Didymo da Veiga, Brasilio Machado, Julio Cesar de Moraes Carneiro, o depois Padre Julio Maria... e tantos outros, que lhe assistiram aos triumphos e não lhe disputaram a primazia. É que elle, na linguagem divina que é a poesia, lhes dizia "a magnificencia de versos que até então ninguem dissera, numa voz que nunca se ouvira" (1), voz dessas que "fazem pensar no glorioso arauto de Agamemnon, immortalizado por Homero, Thaltybios, semelhante aos deuses pela vos..." (2) como pregava o advento da "era nova" (3), da justiça e da liberdade, que antevia, como vate ou propheta, tambem dom prodigioso, como tantos, de seu genio feliz.

 

Para distrahir máguas de coração que lhe dava a inconstante Eugenia, sempre amada, causa e culpa de tantos versos apaixonados, entragava-se ao divertimento das caçadas, nos arredores de S. Paulo, quando um dia, em fins de 68, num acidente, feriu o pé com um tiro desastrado. Dahi resultou longa enfermidade, intervenções cirurgicas, chegando ao Rio em com eço de 69, para salvar a vida, mas com o martyrio de unas amputação. Mutilado, obrigado a procurar o consolo da familia na terra natal em fins desse anno, e os bons ares do sertão, em 70, para atalhar a ameaça de consumpção, infelizmente pouco durou, vindo a fallecer na cidade da Bahia, a 6 de Julho de 1871. Vivera 24 annos, alcançando desde os dezeseis de sua idade, durante os oito que ainda iria viver, a fama justificada de primeiro poeta brasileiro. Publicara apenas, em 70, as "Espumas Fluctuantes", o mais lido e o mais lindo dos livros nacionaes publicados nestes cincoenta annos.

 

Tal juizo, dos contemporaneos e dos pósteros, enunciado pelos doutos e capazes, é ratificado nesse mais de meio século, que se espaça de sua morte até hoje, pela infinidade de edições de seus livros, os mais lidos de nossa literatura, pois que têm sido os mais vezes impressos, portanto consagrados pelo povo, que é o arbitro definitivo dá glória literaria.

 

Foi a poesia brasileira "colonial" até depois do meiado, do seculo XIX. Classica e arcadica, a principio, imitando os modelos lusitanos, quando veiu o romantismo continuou a inspirar-se, senão nos motivos, na fórma portuguesa: em Gonçalves Magalhães dominam os themas europeus, e Gonçalves Dias, apesar dos seus selvagens, que são fidalgos e cavalheiros, é genuinamente lusitano, na idéa e na forma. Alvares de Azevedo imitaria Byron, suprindo com o genio a inexperiencia de adolescente; Junqueira Freire, levado pela paixão ao claustro, precederia a Anthero de Quental, no mysticismo philosophico: só Casimiro de Abreu, pela sensibiIidade magoada, Fagundes Varella, pela inspiração da natureza começariama ser verdadeiramente brasileiros.

 

Castro Alves o foi, completamente, na sensibilidade, na forma, na idéa, sentindo a natureza do Brasil, apaixonando-se se pelos ideaes brasileiros, manifestando-se com uma pujança, um colorido, uma espontaneidade, um arroubo, uma originalidade, desconhecidos, até então, e até agora não igualados nos fastos das letras nacionais. Pôde a justiça falar pela penna de José Oiticica (4) que escreveu: criou Castro Alves essas tres coisas que não existiam na poetica nacional antes delle: a paisagem brasileira, o estylo brasileiro, o thema social brasileiro. E a verdade, pelo de Coelho Netto (5), que lhe chamaria - "o titan!": "o que faz de Castro Alves o poeta brasileiro por excellencia é justamente a sua irregularidade grandiosa, a sua indisciplina exúbere... Esse é o poeta titanico, filho da terra, e a sua vez, a sua grande voz é ouvida pelo povo que a repete, porque nella sente o rythmo grandioso do coração da Patria". Não fez aliás senão concordar com José de Alencar (6), e essa verdade se repete a mais de meio seculo de intervallo: "Palpita em sua obra o poderoso sentimento da nacionalidade, essa alma da Patria que faz os grandes poetas como os grandes cidadãos". "Poeta nacional, senão mais, nacionalista, poeta social, humano e humanitario... diria José Verissimo (7).

 

Por isso, surprehendeu a Machado de Assis (8), - e tinha apenas vinte e um annos -, cujo severo juizo não se não arreceiava de exclamar publicamente: "Achei um poeta original", "a musa do sr. Castro Alves tem feição propria"! E essa originalidade era principalmente que sua alma, a sua lyra tinha, como a de Hugo, "mil vozes", e se era titanica e exhuberante, a ponto de Alberto de Oliveira depor que, "exceptas algumas estancias camoneanas não conheço em nossa lingua versos tão vibrantes (9), sabia tambem faze-los com perfeição de forma" (10) a não se poder "exigir mais do gosto da mestria de um artista" (11) ... E para não deixar sem prova esse asserto, antes de Gonçalves Crespo, é Castro Alves quem inaugura a perfeição parnasiana no Brasil (l2)...

 

Taes accentos grandiloquos deixavam entretanto pausa e espaço para o lyrismo, de uma sensibilidade meiga e dolorida outras alacre e communicativa, sem par em nossa poesia. "Ninguem desferiu ainda mais maviosamente as cordas mais santas do amor humano e é só por isso que "a natureza sorri, irradia e magoa-se nos seus versos", disse delle, ha muitas decadas, Ruy Barbosa (13) e, ainda agora, fala embevecido de sua exaltação religiosa, da arte e da natureza, Ronald de Carvalho (l4).

 

Que lhe faltou, pois? Apenas tempo, mais idade para pulir e aperfeiçoar o que não saiu perfeito de seu genio, apenas mal transposta a adolescência, nessa mocidade tonta em que a infinita maioria nem tem consciência da vida, quanto mais de uma obra a realizar.

 

Qualquer dos seus contemporaneos, depois gloriosos, Ruy Barbosa ou Joaquim Nabuco, Rodrigues Alves ou Affonso Penna, consagrados pelo pensamento ou pela acção, se tivessem passado como elle, aos vinte e quatro annos, nem a memoría dos nomes lhes teria ficado e durante esse pouco tempo o outro grangeou a fama duradoira, de maior poeta do Brasil... Em menos de oito annos, annos tontos, que são os dentre a adolescência e a mocidade, "Castro Alves deixara uma obra sem igual em nossa literaturas hymnos de guerra, canticos de amor, predicções onde pela primeira vez no verso a natureza brasileira ostentava a sua majestade"... (15). Se vivesse mais, seria tudo o que o genio desabrochado, fecundado, de vez, sazonado, pode dar de maturidade perfeita e feliz. O que foi, porem, esses poucos annos bastaram paramostrá-lo, como se a sua compleição extraordinaria não carecesse de mais. Guilherme de Castro Alves, seu outro irmão, tambem poeta, teria inteira razão de o definir: "Elle era grande e bom: massa para deuses"! (l6).

 

Não sem proposito, deixei que dissessem delle - não preciso de palavras minhas para o louvor - outros, e os maiores, os mais doutos e mais justos, e não me tenho cansado de repetir, a poder que possa, com a pertinacia da convicção, e ao serviço da justiça e da verdade. Poeta humano e humanitario faz-se arauto de uma grande causa e torna-se poeta nacional, sendo nacionalista. A natureza da Brasil retrata-se em suas paizagens e as nossas aspirações delineam-se e cantam em seus versos incomparaveis. Nunca uma furia sonorosa foi tão sublime aqui, ou teve mais ternos accentos a lyra commovida do amor. Como vate é vidente e propheta e annuncia a liberdade dos ingenuos em 71, a Abolição e a Republica mais tarde. Iria adiante, num apello aos "filhos da Novo Mundo", que viriam a salvar a Civilização, nos campos de França, assolados pelos Barbaros em 1914, para se não repetir o crime de 1870. Romantico exaltado tem o culto da idéa e da forma e avança literariamente, como idealmente, sobre o seu tempo, no apuro de escrever, como no de pensar...

 

Isto é o que vemos daqui. De alem-mar, conta-se que ouvindo Eça de Queirós ler, a Eduardo Prado, as "Aves de arribação", aqui detivera o outro:

 

"As vezes quando o sol nas matas virgens

A fogueira das tardes accendia.. ."

 

para exclamar: - "Ahi está, em dois versos, toda a poesia dos trópicos". (17) Nos outros, em muitos outros de Castro Alves, é que os nacionaes e estrangeiros podem comprehender toda a poesia do Brasil. Um grande poeta, á altura de julgar, Antonio Nobre, viria a dizer, como todos nós: "O maior poeta brasileiro" (18).

 

Já o era no seu tempo, como o é ainda agora, não só pela eleição de sabios e doutos, que, entretanto por engrandecerem qualidades raras e de apreço difficil nem sempre são, por isso, comprehensiveis, mas tambem pela admiração anonyma e espontanea, dos leitores, que essa é a fama e a posteridade dos grandes escriptores.

 

Separados e solitarios, esses juizos, ha caução e reserva na gloria; concordes e simultaneos, não ha restricção para o merito devidamente denunciado por uns e justamente consagrado pelos outros. Castro Alves teve em vida as duas benemerencias; não desmereceu de uma dellas nesses cincoenta annos que decorrem de sua morte - e a prova foi a glorificação já extensa do decennario em 1881, foi a apotheóse, já nacional, do cincoentenario em 1921. E da outra?

 

Tambem da outra. Dizia José Verissimo dos delle que "poucos livros brasileiros e menos de versos têm sido tão lidos" (l9). "E isso porque lhe avaliava as dos Espumas Fluctuantes em oito ou dez edições". Pude reunir uma colleção de "cincoenta" (e terei achado todas?) e, só daquelle livro "vinte e seis"... Nenhum poeta, nenhum escriptor brasileiro, nesse tempo, alcançou sequer, de longe, approximar-se delle. Castro Alves o grande vate nacional, que Alencar, Machado de Assis, Ruy Barbosa, Nabuco, Euelydes da Cunha, José Verissimo, tantos e tantos mais, o escól da intelligencia brasileira exaltou á nossa admiração, foi tambem o eleito do Povo Brasileiro, da innumerauel multídão de leitores, que o prefere a todos os mais.

 

Os sabios distinguem e julgam, só o Povo ratifica a justiça dessas sentenças. O veredicto da Posteridade está apurado e confirmado: Castro Alves é o primeiro, o maior poeta brasileiro.

 

Afranio Peixoto

(1) Constancio Alves - Castro Alves - "Revista da Semana", Rio, 9 julho 1921.

(2) Ruy Barbosa - Elogio de Castro Alves, Bahia, 1881. p. 6.

(3) Euclydes da Cunha - Castro Alves e seu tempo, Rio, 1907. P. 9-10.

(4) José Oiticica - "Jornal do Commercio", Rio, 25 de dezembro de 1913, p.23

(5) CoeIho Netto - O titan - "A Noite", Rio, 7 julho 1921.

(6) José de Alencar - Um poeta, "Correio Mercantil", Rio, 22 fevereiro 1868.

(7) José Verissimo - Historia da Literatura Basileira, Rio, 1916, p. 337.

(8) Machado de Assis - Resposta ao Cons. José de Alencar, "Correio, Correio Mercantil", Rio, 1º de março 1868.

(9) Alberto de Oliveira - Prefacio ás Espumas Fluctuantes, ed. Garnier, 1923, p. 6-7.

(10) José Verissimo - "Jornal do Commercio", Rio, 14 agosto 1899.

(11) Luis Murat - "jornal do Commercio", Rio, 3 outubro, 1920.

(I2) Alberto de Oliveira - O soneto brasileiro, "Revista de Ligua Portugueza",Rio, 1920, nº 8.

(l3) Ruy Barbosa - Op. cit., p. 12.

(l4) Ronald de Carvalho - Pequena Historia da Literatura Brasileira, Rio, 1919, p 242.

(15) Constancio Alves, Op. Cit. id. id.

(16) Guilherme de Castro Alves (D'Alva Xavier) - Raios sem luz, Bahia, 1875, poesia "Marmores e prantos", est. 1. v. 1º.

(l7) Afranio Peixoto - Paixão e gloria de Casto Alves, em Poeira da Estrada, Rio, 1918, p. 22.

(18) Antonio Nobre - Correspondencia - "A Rajada", Rio, Abril, 1920, p. 51

(l9) José Verissimo - Historia da Literatura Brasileira, Rio, l916, p. 338.

 
 

 
 

Navio Negreiro

Castro Alves

Esta, que é a parte mais comovente e intensa do poema "Navio Negreiro" vai aqui declamada com brilhantismo por Paulo Autran para o seu deleite

VI

        
Existe um povo que a bandeira empresta 
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!... 
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia? 
Silêncio.  Musa... chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 

Auriverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!... 

Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu nas vagas, 
Como um íris no pélago profundo! 
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! 
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

 

Leia o Poema "Navio Negreiro" na íntegra, aqui: http://www.culturabrasil.pro.br/negreiro.htm

 

 

 

 

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