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Os Monges Cistercienses no
Brasil
Cister no Brasil Colônia
Antes de mais nada,
caberia aqui dizer, que os cistercienses em Portugal se desenvolveram
admiravelmente desde os tempos de São Bernardo, cujas cartas entre o Santo
e o Rei de Portugal, D. Afonso Henriques, constitui ainda hoje fortes
testemunhos de sua época e do esplendor do progresso, principalmente da
Abadia de Alcobaça "onde mil religiosos, cantavam dia e noite os louvores
de Deus, sucediam-se, por turmas no coro, de modo que era perpétuo o culto
divino."
Entre os religiosos
vindos com os primeiros colonizadores para evangelizar a Terra de Santa
Cruz, não registram os compêndios de História do Brasil o nome dos
Cistercienses. Todavia, na pessoas de dois ilustres prelados, o burel
branco dos Filhos de S. Bernardo honrou sedes episcopais no Brasil
Colonial.
A esse respeito
escreve Sua Excia. Revma. D. Hugo Bressane de Araújo, ex-bispo de Guaxupé:
"Cândido e melífluo Brasílico Sólio Episcopal":
"As Ordens de S.
Bernardo e São Domingos foram das únicas grandes famílias religiosas, que
não enviaram seus filhos ao Brasil colonial, como evangelizadores
missionários. Em retorno mandou o Espírito Santo, Cistercienses e
Dominicanos para regerem a Igreja do Brasil Antigo."
Sobre esses
antístites, filhos de nosso glorioso Pai São Bernardo, transcrevemos as
seguintes notícias que sua Excia. Revma. D. Hugo Comunicou a D. Aloísio
Wiesinger, autor do livro São Bernardo de Claraval, no qual tem um
Capítulo inédito e original (Cister em terras brasileiras) no qual fala
desse assunto.
"7º Arcebispo da
Bahia: D. Frei José Fialho:
Fazia parte da comunidade dos Padres de São Bernardo, quando foi D. José
Fialho eleito Bispo de Pernambuco a 25 de novembro de 1722. Confirmada a
sua eleição aos 21 de fevereiro de 1725, por Bento XIII, tomou posse
daquele bispado a 20 de Julho. Elevado a Metropolita do Brasil, aos 26 de
julho de 1738, recebeu as bulas de confirmação aos 04 de dezembro do mesmo
ano, partiu para o Brasil e a 02 de fevereiro de 1739 chegou à Bahia.
Regeu a Arquidiocese até 30 de outubro do mesmo ano, porque foi
transferido para o Bispado da Guarda. Morreu em Lisboa, aos 18 de março de
1741. Foi durante seu governo diocesano que Malagrida, apoiado por ele e
pelo conde de Atouguia, deu princípio à fundação da Soledade, em 28 de
outubro de 1729.(Cfr. C. Müller, Ligeiros Traços biográficos, Baia,
1915)."
"1º Bispo de
Mariana e de Minas Gerais: D. Frei Manuel da Cruz:
Mariana chamava-se "Vila do Ribeirão do Campo" até que mudou este nome em
honra de Dª Mariana d'Áustria, esposa de D. João V. Foi criada vila em 08
de abril de 1711, Freguesia por alvará régio de 16 de fevereiro de 1714,
Paróquia a 16 de março de 1720. A 23 de 1745 foi elevada a cidade por
carta régia de D. João V de Portugal; é portanto a primeira cidade em
Minas. A diocese de Mariana sendo criada pela Bula Pontifícia "Candor
lucis ae ternae," do Papa Bento XIV, dia 06 de dezembro de 1745, foi
nomeado 1º Bispo da diocese D. Frei8 Manuel da Cruz, da Ordem de São
Bernardo, Mestre Jubilado e Doutor em Teologia por Coimbra. Eleito 4º
Bispo do Maranhão, nomeado 1º bispo de Mariana, foi confirmado no dia 15
de dezembro de 1745 por Bento XIV. O Padre Lourenço José de Queirós
Coimbra, Vigário colado de Sarabá, governou o Bispado depois de ter tomado
posse em seu nome a 27 de fevereiro d 1748. O bispo veio por terra
gastando mais de 14 meses em razão do tempo e Moléstias, chegou a Mariana
a 15 de outubro de 1748, e a 24 de novembro fez sua entrada solene. Foi
ele quem acabou a Sé, criou a 02 de maio de 1747 (?) o Cabido que começou
a funcionar na festa da Conceição de 1748, fundou o Seminário. Visitou seu
Bispado, e seu exemplo tem sido seguido por todos os seus sucessores.
Estabeleceu uma tabela de emolumentos paroquiais. Faleceu em Mariana aos
03 de janeiro de 1764 com quase 74 anos de idade. Jaz dentro do coro da Sé
do carneiro do meio. (cf. também apontamentos a História Eclesiástica do
Maranhão, de D. Francisco de Paula e Silva, p. 115-e Co. Raimundo
Trindade, Arquidiocese de Mariana, 3 vols.)."
É também digno de
menção um terceiro prelado Cisterciense, chamado por Deus à eterna
recompensa, antes de aportar às terras brasileiras.:
"10º Bispo da Bahia: D. Frei Constantino de Sampaio, para substituir D.
Estevão dos Santos falecido aos 06 de junho de 1672, foi nomeado Fr.
Constantino de Sampaio, Religioso de São Bernardo. Este também não chegou
a pisar em terras brasileiras, pois morreu em Lisboa, à espera das bulas
de confirmação." (D. Hugo)
Como vemos são
alguns documentos que fazem menção mais ao Bispado, à cidade e às
realizações do bispo que à sua pessoa mesmo. Mas fica o registro. Mas há
pouco afirmava-nos, com D. Hugo, que os Filhos de S. Bernardo não
trabalham na colonização e sim somente no governo, vamos, segundo nos
informa D. Aloísio Wiesinger, dar um outro prognóstico e que passamos a
transcrever:
"Contrariamente ao
que até agora se pensava, curioso documento, que nos foi gentilmente
fornecido por D. Clemente e Maria da Silva Nigra, OSB, parece indicar que
entre os obreiros da primeira hora trabalham, ao menos por breve tempo, na
conversão do gentio brasílico, os filhos de São Bernardo."
Os
primeiros Beneditinos, ou antes, Cirstencienses no Rio de Janeiro
Diz Rocha Pombo
"História do Brasil," la.ed., vol. III, pgs. 419 e seguinte: "Parece, no
entanto, que desde de alguns anos já viviam no Rio de Janeiro uns quantos
Beneditinos, associados a uns monges franceses que em 1561 (ver nota mais
abaixo) tinham vindo para o Brasil seduzidos por informações de
Villegaignon. No litoral de Guanabara trabalham com bons proveitos esses
poucos frades entre os Tamoios, e eram sem dúvida mal olhados pelos
calvinistas da feitoria. Já era isso uma razão para que a fama desses
missionário corresse e com muito favor entre os portugueses. Chegou essa
fama até a Bahia..."
NOTA de Rocha
Pombo:
Lê-se na "Informação" (que geralmente se atribui a Anchieta e que é de
1584 - Rocha Pombo pg. 413, História do Brasil): "No ano de 60 ou 61,
segundo parece, vieram 7 ou 8 padres de hábitos brancos, franceses ao Rio
de Janeiro, depois da Fortaleza (de Villegaignon) destruída, porque como
Nicolau de Villegaignon era católico, tornando à França, trabalhou por
mandar religiosos ao Rio de Janeiro, assim como para redução dos hereges,
como para conversão do gentio. Com esse desejo se foi a um Colégio da
Companhia em França, onde, depois de confessado e comungado, pediu padres
para essa empresa, dizendo que tinha, na Índia, América ou Brasil,
duzentas léguas terras povoadas de gentio sujeito e pacífico: os padres
muito alvoroçados com esta nova, responderam que mandariam recado ao Padre
Geral a pedir-lhe licença para isso; e como isso não se efetuou pela
Companhia, trabalhou de mandar esses outros religiosos, como já disse.
Este como se soube dos mesmos Tamoios, fizeram seu recolhimento entre eles
mesmos apartados dos franceses, e ensinaram alguns meninos do gentio, e os
traziam vestidos com seu hábito. Mas como Villegaignon, sabida a
destruição de sua torre, não quis retornar ao Brasil, ficaram os
religiosos sem amparo, e não somente desfavorecidos, mas perseguidos dos
hereges. E um dia, queimando sua roça que fazia junto de sua casa, para
alguma horta, pegou-se-lhes fogo a casa e queimou-lhes tudo: o que depois
contava um francês herege, não com pouco gosto seu. Assim que neste mesmo
ano ou no seguinte se tornaram os franceses a levar à França com mais
gente que ali ficou com a fortaleza acolhia entre os Tamoios, e querem
dizer que a nau fez naufrágio no caminho, ou que os hereges lançaram os
frades no mar."
NOTA de D. Clemente
M. da Silva Nigra: "Os fatos de andarem estes Padres de hábito branco; de
vestirem assim também os seus meninos; e de trabalharem logo no campo,
induz a considera-los como monges cistercienses!"
Mas em todos esses
dados vemos ainda a imprecisão e incerteza e além do mais, simples
prognóstico. Na realidade não temos documentos explícitos e claros que nos
digam realmente se os primeiros cistercienses chegados ao Brasil, podem
ser os que vieram como missionários franceses, ou ainda os Bispos que
vieram governar a diocese no novo país.
Mas os primeiros
cistercienses chegados ao Brasil, do qual temos mais fontes históricas e
temos mais certeza, não foram os da Comum Observância e sim os da Estrita
Observância; os Trapistas. É sobre a fundação dos Trapistas que passamos a
falar.
Os
Cirstercienses da Estrita Observância no Brasil
..."Deus nunca
desamparou aqueles que são maus. Devido a várias circunstâncias, viram-se
os Trapistas, um dia, obrigados a abandonar a velha e querida França. Era
nessa ocasião abade de Trapa de Sept-Fons, o Revmo.
Pe. D. João
Chauttard, que, como procurador geral dos cistercienses, ao perceber o que
deveria vir a acontecer à sua Ordem, já havia preparado um abrigo para a
mesma. Isso se deu por uma coincidência extraordinária.
Encontrou-se D.
Chauttard, um dia, casualmente, com o revmo. abade Moreau, sacerdote de
origem belga, o qual, possuidor que era de uma pequena propriedade no
Brasil (em Cananéia, Estado de São Paulo), espontaneamente ofereceu-a a D.
Chauttard, para que ali instalasse a comunidade. O abade Moreau reservava
para si apenas um pequeno canto do mosteiro, onde pudesse acabar os seus
dias. D. Chauttard de começo hesitou, em virtude da grande distância que
separa o Brasil da França; da dificuldade de fazer as visitas da Ordem; da
diferença de clima e das grandes despesas de transporte para toda uma
comunidade. Todavia, o abade Moreau não cessava de demonstrar as vantagens
enormes que ele haveria de encontrar nesta nova terra, e como que guiado
pela Divina Prudência resolveu vir em pessoa para estudar "in loco" a
situação, para se possível fosse de instalar alio núcleo da comunidade. D.Chauttard,
o abade Moreau e o padre Alexis Ducrey (este, tendo sido oficial militar
antes de sua entrada na Trapa, talhado estava para os preparativos da
instalação dos que deveriam chegar) partiram da França em 1903. Depois da
inspeção da propriedade primitiva, D. Chauttard e o padre Alexis
concluíram que o lugar não era adequado para uma fundação de tal modo
afastada da casa Matriz de França.
Reconhecendo,
entretanto, que as terras do Brasil apresentavam numerosas e apreciáveis
vantagens, resolveu D. Chauttard que o padre Alexis procurasse um lugar
apropriado para a instalação de um mosteiro.
Durante um ano
inteiro (1903-1904) o padre Alexis percorreu o Estado de São Paulo em
todos os sentidos, buscando comprar uma propriedade. Deu preferência a
este Estado porque aqui a policultura era feita em larga escala e a
religião cristã era a mais desenvolvida, além de possuir um clima mais
salubre e temperado e caracterizar-se por costumes de vida mais
adaptáveis.
Nesse ínterim,
viajava D. Chauttard para o Oriente, em visita as casas de sua ordem
travando em viagem conhecimento com um membro da família "da Silva." O Dr.
Ismael Dias da Silva informou-lhe que em Tremembé havia uma propriedade
esplendida e que estava a venda por um preço convidativo.
Parecia-lhe terreno
muito apropriado para a instalação de um mosteiro cisterciense, situado em
lugar calmo, afastado da vila Tremembé, tendo de superfície 2.500 hectares
aproximadamente, formados por terras que serviam para a cultura de café,
de arroz e criação de gado, irrigadas pelo ribeirão do Chaveco, afluente
do Paraíba, que constituía uma das suas divisas. Padre Alexis, depois de
minuciosa visita a essa propriedade, hesitou antes de entrar em
negociação. Requisitou, entretanto, da comunidade de Sept-Fons, a vinda do
Irmão Leigo F. Theodule, entendido em terras, visto de fora diretor de
trabalho agrícola em diferentes mosteiros. Chegado a Tremembé, em 1904,
poucos dias depois eram adquiridas as terras em questão. D. Chauttard,
recebida a notícia da aquisição, enviou imediatamente ao primeiro grupo,
composto de treze religiosos. ( os revdos. pe. Nivard, como superior,
Antoine Giguelay, como vice-prior; Leopold, Dominique, Géraud e Ambroise
religiosos coristas, e ff. Pierre, Etienne, Sebastien, Bernard, Michel,
Marcel e Agustin.
Chegados ao Brasil
em setembro de 1904 chegaram à cidade de Taubaté sete irmãos e seis frades
da Ordem de Trapa no bairro do Poço Grande, no município de Tremembé, na
velha fazenda das Palmeiras.
Maristela - O Convento Trapista do Brasil
No dia 13 de
setembro de 1904, de Taubaté, os monges seguiram em companhia do Vigário,
cônego Antonio Nascimento Castro, para a fazenda Palmeiras onde foi
instalada a nova e primeira trapa brasileira com a denominação de Bem
Aventurada Maria, Maris Stella, Maristela, a estrela do mar, nome
simbólico, designando a Santíssima Virgem Maria, a estrela que serve de
guia para todos os cristãos, no meio do mar das paixões, em caminho da
salvação.
A Fazenda de
Maristela, outrora das Palmeiras, de propriedade do Barão de Lessa, fora
muito próspera, mas, em conseqüência da lei de 88, que acarretou a falta
de braços para a lavoura, ficou como que abandonada até o momento da
chegada dos trapistas. Em tudo reinava o abandono, a desordem, as
construções necessitando de reparos, seus quatrocentos mil pés de café sem
qualquer assistência, os pastos desaparecidos, enfim, tanto na parte alta
como na parte baixa, tudo por fazer. Surgia logo à primeira vista, a
dificuldade do braço trabalhador, constituído por uma população
ribeirinha, inculta e indolente. Indiciados de pronto os trabalhos,
imediatamente reparados os edifícios da velha fazenda, permitindo boas
acomodações para trinta ou quarenta religiosos, onde, bem abrigados
pudessem desempenhar também todos os deveres da vida religiosa, observando
à risca a regra monástica de São Bento.
Iniciaram e
desenvolveram o trabalho de evangelização das populações vizinhas, coube a
alguns padres paroquiarem as vizinhanças, e se esforçaram os padres
trapistas, criando numerosas escolas e igrejas em toda a sua extensa
propriedade, para onde ocorria toda a população operária das fazendas,
próprias e vizinhas, a fim de assistir aos ofícios religiosos e ouvir a
palavra do padre na explicação do catecismo aos meninos e aos adultos.
Em 1910 formaram os
trapistas uma escola junto ao Mosteiro, para meninos de doze a quinze
anos, visando desse modo despertar vocações e adaptar facilmente os moços
ao gênero de vida religiosa. Todavia muitos, os quais, uma vez chegados
aos dezoito e vinte anos, abandonavam a Trapa. Foram mandados dois moços
religiosos brasileiros para a Abadia de Sept-Fons, para fazerem seus
estudos e aperfeiçoamento, mas não perseveraram.
O Capítulo Geral da
Ordem, composto de sessenta membros, decidiu que, em princípio, toda casa
que não pudesse recrutar seus membros na região onde estivesse
estabelecida, seria suprimida.
Decidiu também eu
se a fundação fosse além dos mares, seriam necessárias várias casas, não
muito afastadas umas das outras, com o fim especial de facilitar a visita
dos seus superiores. Infelizmente a Trapa de Maristela de
Tremembé não reunia estas duas condições e foi tomada a decisão de que
deveria ser suprimida.
A Partida dos Trapistas
Dizem que o erro
capital da fundação monástica de trapa, no Brasil, foi não ter conquistado
sua independência. Foi vendida a granja Brasil. Partiu o primeiro grupo de
religiosos de Maristela para Sept-Fons, a 1º de setembro de 1927.
A 03 de setembro de
19028, viajou o terceiro grupo. Pouco numeroso é só atualmente o grupo que
rege o mosteiro, ou melhor, que ficou regando o mosteiro, trabalhando para
a venda da fazenda de Trapa e liquidação do que ainda possui a ordem no
Brasil.
O Presidente da
República, Rodrigues Alves, não foi concretizado, o qual, em 1903, disse a
D. Chauttard: "Não só uma, mas antes vinte Trapas quisera eu ver
estabelecidas no Brasil." Mas veremos que reservou Deus, o Brasil,
preparados pelos missionários, pelos Bispos e pelos trapistas, para se
fixarem definitivamente os Cistercienses da Comum Observância, que
continuam até hoje.
Adquirida a
propriedade em março de 1931, somente em novembro partiu para a Europa o
último grupo de trapistas que regiam o convento, e nesse espaço de tempo
permaneceram no mosteiro orientando os trabalhos da fazenda.
No dia da
despedida, deixando transparecer em suas faces da dor de quem parte para
todo sempre, inscreveram na clausura as seguintes palavras: "Toujours je
me souviendrai de vous, chere N. D. de Maristella."
"Adieu
Maristella, j'espere de vous revoir un jour..." ...
e seus olhos marejaram-se de lágrimas. "O trole, aquele mesmo da vinda,
levou-os estrada afora, deixando em seus lugar saudade e grata recordação
àquela gente simples que, de chapéu na mão, se agrupava a margem no
caminho, acenando tristemente aos amigos que iam para sempre ... A extensa
caravana de carros de boi que haviam organizado para levar os seu bens,
sumiu-se ao longe. Entretanto... dezessete deles ficaram... Suas cruzes
passaram a ser cobertas de flores, que não o eram, quebrando o monótono
verde dos ciprestes, no pequenino e silenciosos cemitério do convento.
Durante muitos anos vimos ali colonos em visita aos amigos e queridos,
longas horas rezando ao pé das sepulturas. Ainda hoje se conservava as
placas de identificação, com as instruções que lhes adornavam as rústicas
cruzes de madeira, à cabeceira dos túmulos."
A Influência dos Trapistas
É necessário dizer
ainda que em Nova Friburgo, nessa época, existia uma fundação trapista
feminina, mas que quase nada sabemos sobre essa fundação.
Os trapistas,
deixaram a fazenda Maristella, e exerceram grande importância na cultura,
pecuária, na vida espiritual da região. O único trapista que ficou no
Brasil, após a partida de seus confrades foi o irmão Leonard Van Lier, que
passou a residir no Mosteiro de São Bento, no Largo de São Bento ou n
chácara do mosteiro, na bairro de Santana. Ainda assistiu as guerras que
se seguiram e acabou falecendo em 07 de janeiro de 1948.
Os trapistas muito
contribuíram para o sucesso de toda organização e cooperação recebida de
agrônomos e veterinários.
Atualmente, em
Maristella, o homem ficou-se à Terra, e tem-lhe grande amor filial. Por
nada deste mundo abandona seu pedaço de chão, de que cuida com carinho,
como a que lhe retribuir o muito que recebe para si e suas família.
O homem
acostumou-se ao trabalho metódico e organizado. Uma nov geração surgiu,
que enobrece o brasileiro.
E na lembrança de
que ali houve um mosteiro cisterciense, um mosteiro trapista, ... hoje,
quarenta anos após a extinção da ordem da Trapa no Brasil, ainda no
próprio mosteiro, se conservara tudo como se fosse a
sessenta anos, inclusive os princípio seguidos pelos trapistas, com a
prática de um trabalho fecundo e do bem ao próximo, com a mesma legenda:
Bem vindos sejam à Maristella.
Cisterciences da Comum Observância
Depois deste
parênteses, em que falamos da fundação trapista, voltemos ao nosso assunto
mais central. Os cistercienses da Comum Observância no Brasil.
Já vimos que desde
o início estiveram os cistercienses presentes no Brasil, principalmente
como Bispos. Assim é que desde 1575, já havia um cisterciense no
Episcopado Brasileiro, ao qual não nos referimos quando tratamos do
assunto. O historiador, Bispo D. Dominicus Willi, S. O. Cist., mencionado
no noticiário da Abadia de Itatinga, além de confirmar os nomes dos Bispos
(3) a que nos referimos, nos cita um mais anterior:
D. Antonio Barreiros, eleito bispo da Bahia com 26 anos, em 20 de julho
de 1575. Faleceu em 1596. Mas, já não havia mais cistercienses no Brasil
desde a partida dos trapistas em 1931, mas desde logo os cistercienses da
comum observância já examinavam as terras de Santa Cruz para nela ficarem.
Animados por Pio XI, o Papa das Missões, iniciaram os monges já desde
1925 a se prepararem para as fundações no exterior, mantendo escolas
missionárias, etc.
O Capítulo da
ordem, reunido em Roma, no ano de 1925, resolveu o seguinte:
1- Obedecendo ao exemplo de nosso antepassados, esse capitulo geral
determina que se fundem mosteiros em terras de missões.
2- nesses mosteiros
(Abadias), no entanto, deve-se conservar a vida de comunidade, isto é, os
monges não devem tanto andar pelas estações missionárias ou residir em
paróquias, mas antes dedicar-se, no próprio mosteiro, à vida
contemplativa, à liturgia, às ciências e artes, e à agricultura,
procurando elevar o nível da cultura nas respectivas regiões e
contemplando assim o trabalho dos outros missionários.
3- O Capítulo Geral
não considera lícito aos monges cistercienses outro modo de atividade
missionária. Foi uma primeira abertura de horizontes. Nos capítulos que se
seguiram, novas perspectivas foram abertas, até no último capítulo geral
da ordem, em 1968, que reconheceu a educação da juventude e a vida
paroquial como uma das tradições dos cistercienses. Atendendo ao apelo da
Santa Sé e obedecendo as determinações do Capítulo Geral da ordem, logo os
mosteiros cistercienses movimentaram-se para seguir novos rumos. E
entrementes chegavam às grandes abadias vários pedidos de Bispos de
diversos países que solicitavam monges para suas dioceses. E, na Europa,
algo pairava no ar: era o aspecto do nazismo que iria ser também um dos
motivos que muitos mosteiros seriam transferidos para o Brasil. O regime
hostil à igreja, na Alemanha, fez com que a Abadia de Himmerod, na Renânia,
enviasse ao Brasil a 08 de dezembro de 1934 D. Athanasio Markle para se
ocupar de uma possível fundação no Brasil. Nós nos ocuparemos deste
aspecto sob o título de "Itaporanga."
Por sua vez, a
Abadia de Schiierbach, da Áustria Superior, aceitaram um convite ao Bispo
brasileiro D. Hugo Bressane de Araújo, o qual, chegando os cistercienses,
lhes entregou "in perpetuum" a paróquia de Jacobina, na diocese de Bonfim,
na Bahia, donde partiram para em 1942 lançarem a pedra fundamental do
Mosteiro de "Jequitibá," mas que já estava reconhecido desde 1939.
Em 1938, o Mosteiro
de Hardehausen, da Alemanha foi transferido para o Brasil. Em 1943, em
1943 foi fundado o Mosteiro de São José do Rio Pardo, mais tarde
incorporado à Congregação Cisterciense da Itália, quando o Mosteiro de
Hardehausen transferiu-se ainda mais uma vez, de início, como experiência
em Mairinque, Estado de São Paulo, para se fixar definitivamente em
Itatinga em 1951.
Por outro lado, a
Congregação de Casamari, da Itália, que se expandia, resolveu fundar uma
casa no Brasil, que se localiza atualmente em Claraval, estado de Minas
Gerais, desde 1950. E também, as monjas cistercienses que se fizeram
presente, de início na Bahia, depois em Itaporanga, mais tarde em Ribeirão
Vermelho do Sul, Estado de São Paulo, para se fixarem no município de
Itararé, em 1964. São esses os títulos dos quais vamos tratar mais
detalhadamente.
A Fundação do Mosteiro de Itaporanga - SP
Nesta fundação
temos um personagem todo singular: D. Athanásio Merkle e a Abadia de
Himmerod. Anteriormente trapista, passando mais tarde para os
Cistercienses da Comum Observância por exigência do Bispo. Himmerod passou
então para a responsabilidade dos monges Cistercienses de Marienstatt com
a devida autorização da Santa Sé. Resolvido tudo floresceu o Mosteiro de
Himmerod, chegando depois de alguns anos ao número de 93 religiosos.
Nesta novel Abadia
ocupou D. Athanásio o cargo de Mestre de Noviços até o dia 8 de dezembro
de 1934 data em que a vontade Deus o mandou deixar pela segunda vez a
pátria para ir dirigir ao estrangeiro. O regime político daquela época
tornou-se cada vez mais hostil à Igreja em geral e às instituições
religiosas em particular. Na expectativa de que a Abadia de Himmerod
viesse a ser evacuada um dia, foi D. Athanásio enviado por seu Abade (D.
Carlos Munz, que veio falecer no Brasil, bem mais tarde) para o Brasil
afim de procurar um lugar para onde pudesse ser transferido o Mosteiro de
Himmerod.
Chegado ao Brasil
no dia 1º de Fevereiro de 1935, tornou-se D. Athanásio verdadeiro
peregrino de Deus. De início encontrou no Rio de Janeiro por parte dos RR
Padres do Verbo Divino carinhosa recepção, cheia de larga compreensão.
Apenas ligeiramente enfronhado na nova língua pátria pôs-se a caminho para
procurar um lugar em que se pudesse fundar um Mosteiro-refúgio para seus
irmãos da Alemanha. Com este fim percorreu diversos Estados do Brasil: Rio
de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina e Paraná. Nenhuma das tentativas
deu certo por falta de recursos financeiros. Ao leis estão vigentes para
os imigrantes proibiram terminantemente a exportação de valores monetários
acima de 30 DM. O que fazer? Mas a Providência de Deus não abandona os que
O amam. O já falecido abade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, D.
Domingos Silos Schelhom, chamou a atenção de D. Athanásio era o Exmo.
Bispo Diocesano de Sorocaba. Este ofereceu-lhe satisfeito as paróquias
abandonadas por falta de Padres, de Ribeiro Vermelho do Sul e de
Itaporanga junto com o Patrimônio anexo de São João Batista, tende uma
extensão de 500 alqueires. Era a solução: As terras embora de qualidade
bem deficiente cobertas de barba de bode, sustentam hoje, em virtude da
operosidade incansável dos monges, seguindo antigas tradições de cultura
de terras, bom número de habitantes do Mosteiros e outros que diariamente
recorrem em suas necessidades à beneficência dos religiosos.
No dia 5 de agosto
de 1936 realizou-se a solene posse e logo mais vieram dois outros Padres,
o Irmão Lucas Mertens, bem como o abade resignatário de Himmerod (D.
Carlos). Este porém retirou-se depois para o Colégio das Madres
Beneditinas de Itapetininga onde veio a falecer aos 25 de Janeiro de 1941,
sendo enterrado no cemitério do Mosteiro de Itaporanga.
Mas, vamos
rememorar os acontecimentos da fundação de Itaporanga, graças ao diário do
Irmão Lucas Mertens que passamos a transcrever:
"A procura intensiva de um lugar para a fundação de um Mosteiro
Cisterciense estava para terminar. Depois de D. Athanásio Merkle, S. O.
Cist., hoje Abade do Mosteiro Cisterciense de Santa Cruz, Itaporanga,
Estado de São Paulo, ter examinado durante o ano de 1935 muitos projetos,
apresentou-se uma oferta por parte do Exmo. Sr. Bispo Diocesano de
Sorocaba, D. José Carlos de Aguirre.
O prelado diocesano
ofereceu a paróquia de Itaporanga (pedra bonita), estando-lhe anexa a
Ribeirão Vermelho do Sul, com uma parte do patrimônio de São João Batista
numa extensão de 500 alqueires. A oferta se realizou no dia 06 de janeiro
de 1936 e D. Athanásio dirigiu-se imediatamente à Itaporanga para
verificar o local. Aconteceu o que diz o ditado: "Olhou, gostou, aceitou."
Mas até lá vejamos: A viagem não podia deixar de ser pitoresca, embaraçosa
de um lado, complicada, até, por outro. Chuvas de verão em pleno mês de
janeiro. O carro encalhou. Uma junta de bois teve que vir em auxilio e
afinal chegou bem à Itaporanga. Olhou e viu o que? Terras pouco
prestáveis, cobertas de barba de bode, pouco adaptas para a cultura. A
paróquia era promissora, pois suas rendas serviriam para o sustento da
pequena comunidade. Mesmo assim D. Athanásio não se decidiu logo. Foi
ainda a Curitiba, a fim de estudo de outro projeto, mas voltou poucos dias
depois e sem mais se dirigiu Sorocaba. Após conversação detalhada com D.
José Carlos de Aguirre declarou D. Athanásio que aceitava a oferta de
Itaporanga. Em requerimento dirigido ao Santo Oficio solicitou-se a
passagem do Patrimônio da Igreja de São João Batista, em Itaporanga aos
cistercienses. À resposta afirmava (in perpetuum) chegou no dia 1º de
junho de 1936. Logo em seguida foi D. Athanásio nomeado Vigário das
paróquias de Itaporanga e Ribeirão Vermelho do Sul, por provisão de 29 de
julho de 1936. A escritura publica da doação foi lavrada em Sorocaba no
dia 29 de julho de 1936 e registrada no Cartório de Itaporanga, aos 15 de
agosto de 1936."
A posse na paróquia
se deu aos 05 de agosto de 1936, cuja viagem e cuja solenidade Irmão Lucas
Mertens descreve com detalhes e humoristicamente e também logicamente no
seu diário pessoal.
Durante 07 anos
viveu a pequena comunidade numa casa alugada na cidade de Itaporanga em
condições bem precárias e apertadas. A comida, por exemplo, era preparada
em maior quantidade para vários dias para o sustento dos irmãos intrépidos
ocupados no trabalho do campo, enquanto os padres visitavam os fiéis
distantes, trazendo-lhe o conforto religioso. Era uma vida cheia de
aventura apostólicas e de sacrifícios enormes. Nada entretanto, podia
desanimar os heróis fundadores, pois sacrifícios e contrariedades fazem
parte da vida verdadeiramente cristã e religiosa.
Aos 03 de maio de
1937 reconheceu a Santa Sé esta nova fundação como Priorado simples,
dependendo ainda do Mosteiro-fundador: Himmerod. Foi começado nesta época
a construção do Mosteiro, sendo inaugurada a primeira ala a 20 de agosto
de 1943 e aberto o noviciado canônico. Foi também iniciada a construção da
Igreja Paroquial Abacial São João Batista, inaugurada em 1967 com a
presença do núncio apostólico.
No ano de 1948 foi
elevado ao Revmo. Sr. Abade Geral, o Mosteiro de Itaporanga, à categoria
de Priorado "sui-juris," autônomo, juridicamente.
No ano de 1950, em
que se reuniu o Capítulo Geral da Ordem, foi constituído pelo mesmo em
Abadia, sob o Título de Mosteiro de Nossa Senhora de Santa Cruz, em
Itaporanga.
Seu primeiro Abade
é D. Athanásio Merle, que continua no cargo até hoje, contando já com 82
anos de idade.
Consolidou-se assim
uma fundação cisterciense. Atualmente, o Mosteiro de Itaporanga, constitui
uma das colunas dos Cistercienses no Brasil.
Os Monges Cirsterciences no Norte do
Brasil
Quase ao mesmo
tempo que os monges cistercienses, vindos da Renânia lançavam a pedra
fundamental para o futuro mosteiro de Itaporanga, outros, vindos da velha
Áustria, começavam sua atividade no norte do Brasil, em Jequitibá, Estado
da Bahia, lugar situado numa região aprazível, no município de Mundo Novo.
Os monges que se
ofereceram para a nova fundação de Jequitibá, são oriundos da Abadia de
Schlierbach, na Áustria Superior, aceitando o convite feito pelo bispo
brasileiro D. Hugo Bressane de Araújo, o qual chegando os cistercienses,
lhes entregou "in perpetuum" a paróquia de Jacobina, na diocese de Bonfim,
onde trabalham três padres, cuidando também das necessidades espirituais
de Miguel Calmon, Riachão e, por algum tempo, de Baixa Grande. Fundaram
escolas paroquiais, restaram o zelo apostólico, restauraram igrejas e
edificaram novas capelas.
Um fazendeiro dos
sertões da Bahia, homem bom e caritativo, chamado Plínio Tude, legou em
seu testamento umas fazendas, entre as quais Jequitibá (Novo Mundo), com
uma área de 3.200 hectares, para um fim eminentemente social: a fundação
de uma escola primária e rural, ao encargo de uma Ordem Religiosa.
Faleceu o bondoso
coronel em 1937, sem deixar filhos. A piedosa viúva, D.Isabel Tude
Fernandes de Souza, desejosa de executar as suas últimas vontades do
finado esposo, convidou com instancia os Beneditinos da Bahia para
realizarem o projeto. Não podendo eles, por falta de padres, aceitar a
proposta, a virtuosa senhora recorreu aos cistercienses recém-chegados à
paróquia de Jacobina. Consentiram esses monges em empreender a fundação,
por acha-la de acordo com as finalidades de sua ordem. O próprio Abade de
Schiierbach chegou em 1939 para examinar tão importante obra e, no intuito
de facilitar-lhe a execução, mandou vir padres e irmãos leigos: entre
estes havia um padre arquiteto, incumbido de traçar as plantas das futuras
construções, e alguns jovens sacerdotes destinados a lecionar nas escolas
a serem fundadas. Estes estudaram em São Paulo na Faculdade de Filosofia
dos Beneditinos, enquanto que em Jequitibá as obras de construção iam se
tornando realidade e hoje exercem os cargos de direção daquele mosteiro.
A pedra fundamental
para a construção foi lançada em julho de 1942. Jequitibá não poderia ser
mais favorável; situado a igual distancia de Mundo Novo e Rui Barbosa, em
região muito fértil, com águas salubre, fácil comunicação com a cidade,
devido ao ramal da estrada de ferro, que passa do pé do morro onde se acha
o mosteiro. Não se descuidaram os monges de providenciar seu
estabelecimento jurídico, tanto por parte das autoridades eclesiásticas
como do poder civil. Tendo recebido a licença do Exmo. Sr.Arcebispo da
Bahia, a novel fundação foi igualmente reconhecida pelas congregações de
Roma, que lhe concederam todos os direitos de uma casa religiosa. Pelo
estado foi também outorgada a autorização, como se vê na publicação dos
Estatutos do Mosteiro que apareceu no Diário Oficial da Bahia, nº 278, em
1943.
Da formação
científica cuidam os Cistercienses, facultando a alguns dos seus padres o
estudo para professores no ensino secundário. No tocante à parte
econômica, aplicam-se a lavoura em grande escala, fazendo plantações de
mandioca, milho, feijão, arroz, cebola, trigos, tomates, pepinos,
repolhos, aipim, inhame, café, banana e mais umas trintas espécies de
árvores frutíferas, devendo tudo servir de plantação modelo para escola
rural.
O início da
Construção do Mosteiro se deu a doação de D. Isabel Tude e das rendas da
fazenda.
Em 1949, o mosteiro
foi elevado a Priorado sui-juris e em 1950 foi erigida a Abadia cf.
"Statuta Capituli Generalis p. 12, nº 26, et notam 14,quam erectionem S.
C. Relig. d. 10 Ect. 1950, sub nº 9217/50, ratam habuit et approbavit,"
sendo D. Antonio Moser, nomeado 1º Abade do Mosteiro Divina Pastora de
Jequitibá, e que continua até hoje.
A Abadia de
Jequitibá, a maior ou uma das maiores do Brasil, soube progredir com o
tempo, sendo hoje uma das mais atualizadas do Brasil.
O Mosteiro de São José do Rio Pardo
A célebre Abadia de
Marienstatt, na Alemanha, fundadora de Himmerod que deu origem ao Mosteiro
de Itaporanga, é também fundadora do Mosteiro de Hardehausen, que devido
aos mesmos motivos políticos teve que ser transferida para o Brasil.
D. Alfonso Heun, de
início estabeleceu-se em São José do Rio Pardo, pelos idos de 1940, onde
ficou como ajudante do Pároco e dirigiu a construção da Igreja de São
Roque, que seria mais tarde Paróquia dos Cistercienses.
Mas D. Alfonso
Heun, não consentiu em idealizar nem realizar a construção de um mosteiro
para os seus monges e também devido a impasses surgidos com o Pároco não
foi dado início a construção. Mas esta fundação foi aprovada pelo
Definitório da Ordem "cum Rescripto S.Congr. de Relig. die 22 Febr. 1943,"
em que D. Afonso Heun era feito Abade do Mosteiro de Hardehausen no
Brasil.
Mas como a
construção não foi iniciada e sendo já impossível permanecer, D.Alfonso
Heun procurou outro lugar para o estabelecimento de sua Abadia.
Foi aí que ele já
nomeado desde 10.03.1940, Vigário da Paróquia de Mairinque, Estado de São
Paulo passa por um período de novas procuras. Ainda pároco de Mairinque e
com a aprovação da Casa Religiosa de São José do Rio Pardo, numa de suas
viagens a Europa, em 1947, ele esteve no Capítulo Geral, para "doar" o
Mosteiro de São José do Rio Pardo, a outra casa religiosa. A Congregação
de São Bernardo de Itália, tomou sobre si o encargo de prosseguir com o
Mosteiro de São José do Rio Pardo, sendo logo distribuídas circulares para
os voluntários que quisessem vir para o Brasil. E desde 1949, a
Congregação de São Bernardo de Itália tem o Mosteiro sob sua proteção,
tendo cuidado da construção do edifício do Mosteiro, da ereção do
Seminário Menor e da Paróquia, sendo atualmente priorado simples. È o
mesmo mosteiro de São José do Rio Pardo, também preocupado com um lugar
mais adequado e maior para o Mosteiro, que desde julho de 1955, é
responsável, na pessoa de um dos seus monges, pela Paróquia Nossa Senhora
das Graças, em Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo, lugar que para o
futuro poderá ser construído em casa comum dos estudos dos cistercienses
em São Paulo.
A Abadia que cuido
do início do Mosteiro de São José do Rio Pardo, foi a Santa Cruz de
Jerusalém, em Roma, sede da Congregação, mas atualmente, a sede foi
transferida, com a eleição de outro Abade, para a Abadia de Claraval de
Milão.
A Abadia de Hardehausen - Itatinga
Desde 1938, a
Abadia de Hardehausen estava sendo transferida, seus monges, seu Abade,
para o Brasil. De início, como já dissemos, tentaram a fundação em São
José do Rio Pardo, posteriormente em Mairinque, Estado de São Paulo.
É raro que uma
fundação seja de tal modo guiada pela Providência Divina, como a obra em
Itatinga. Foi nos designos do Altíssimo que o Exmo. e Revmo. Sr. Bispo de
Botucatu D. Henrique Galland Trindade, chegou a conhecer e estimar os
cistercienses. Em sua viagem à Europa no ano de 1950, ele estava pensando
seriamente no plano de uma fundação desta Ordem. O que na Europa só era
desejo e projeto, tornou-se realidade, quase de modo inexplicável, ainda
antes de sua Excia. Revma. ter chegado a sua cidade Episcopal.
Viajando num carro
especial da Sorocaba, o Exmo. Sr. Bispo D. Henrique, em companhia de D.
Athanasio Merkle, Abade do Mosteiro de Santa Cruz de Itaporanga,
conversaram sobre os muito cuidados e inúmeras dificuldades que o Abade D.
Afonso encontrava para achar um terreno, afim de fazer um convento para os
seus monges, que estavam sem casa nem pátria. Foi nesta ocasião que Deus
começou a cuidar desta obra quase que visivelmente.
D. Henrique
compreendeu a situação, e logo entrou no centro de seus planos "Itatinga."
Esta cidade oferecia ótimas condições para a fundação de um Mosteiro
Cisterciense. Mas apesar dos esforços pessoais deste bom Pastor, apesar da
boa vontade do Prefeito de Itatinga, e apesar de um grande entusiasmo de
um valioso amigo, o plano da fundação parecia irrealizável, até que em
janeiro de 1951 morreu o Sr. Manuel Linheiro, homem piedoso, profundamente
religioso, que antes de sua morte pôs à venda sua chácara "São João," sem
saber que esta sua propriedade, com boa água e abundante, se prestava
excelentemente para um Mosteiro Cisterciense. Logo o benfeitor: Sr. Dr.
Antonio Assunção ajudou a comprar a chácara. A Prefeitura ainda cedeu
terreno como doação, e no dia 15 de agosto uma Comissão, com o Sr. Pedro
Di Piero na frente, ofereceu mais alqueires. No dia 16 de agosto de 1951,
na presença do Exmo. e Revmo. Sr. Bispo D. Henrique e do Exmo. Sr.
Governador do Estado de São Paulo, Dr. Lucas Nogueira Garcez, de muitos
hóspedes e bons amigos, foi benta e lançada a pedra fundamental.
Sem dinheiro, sem
material, o Abade começou a construção do Mosteiro. Mas, como ele próprio
diz, "a Providência divina e o celeste mordomo São José sempre trouxeram o
necessário, sempre ajudaram, às vezes milagrosamente, na última hora. Por
isto, com todo direito e em toda verdade pode esta Abadia ter o nome e o
Título da Obra Divina Providência.
A nova fundação
recebeu o título de "Abadia de Nossa Senhora da Assunção." Em primeiro
lugar, em honra de nossa grande Rainha, cuja assunção corporal ao céu foi
solenemente proclamada, e porque todas as Igrejas Cistercienses são
consagradas a este mistério; mas também em agradecimento à família
Assumpção, muito espalhada em Itatinga, a qual em particular e em grupos
muito contribuiu para a fundação.
São os seguintes os
principais acontecimentos da fundação:
No dia 20 de Abril de 1951, foi recebido, por escrito, o consentimento,
exigido pelo direito canônico, do Bispo Diocesano D. Henrique Galland
Trindade, que desde o princípio era muito favorável, junto com a clausula:
à nova Abadia será ligada a paróquia de São João Batista.
Aos 28 de maio de
1951 a Sagrada Consagração dos Religiosos transmitiu a seguinte decisão da
Santa Sé de Roma: Em Itatinga pode, com o consentimento do Bispo
Diocesano, efetuar-se a fundação Cisterciense, inclusive o noviciado.
Ainda foi expressamente confirmada a aceitação da paróquia de Itatinga
pela Ordem cisterciense.
No dia 1º de junho
de 1951 o Revmo. D. Abade Geral, D. Mateus Quatemberg, transmitiu as
decisões da Santa Sé, mediante a autorização recebida da Sagrada
Congregação dos religiosos, pelas quais aquelas decisões entraram em vigor
para Itatinga.
No dia 03 de Abril
de 1952, pela autoridade da Santa Sé, foi suprimida a Abadia de
Hardehausen, na diocese de Paderdon, Alemanha, existente desde 28 de maio
de 1140, e transferida para o Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção de
Itatinga, na diocese de Botucatu, Brasil, de maneira que, esta Abadia de
Itatinga recebeu "todos os direitos e privilégios que até então
canonicamente, possuía a Abadia de Hardehausen e de que, em geral, gozam
as Abadias Cistercienses."
Este
importantíssimo documento foi promulgado no dia da inauguração, pelo
Revmo. D. Abade Geral, D. Sigardo Kleiner e assim, uma das mais recentes
Abadias do Brasil, possuirá, pelo Direito Canônico, os direito e
privilégios mais antigos.
Além da Abadia, e
da Paróquia de Itatinga, os monges cuidaram ainda por uns tempos da
Paróquia de Mairinque, Estado de São Paulo.
O Abade de Itatinga
ficou sendo D. Alfonso Kiliani Heun até 1957 (era Abade desde 1933) quando
foi transferido para a Alemanha por Ordem do Abade Geral D. Sigardo
Kleiner, onde está até hoje, como capelão de um Convento de Irmãs
Cistercienses.
Foi nomeado, ou
melhor, eleito, em seu lugar, D. Roberto Fluck, antigo prior de
Itaporanga, que recebeu a bênção a Abacial a 30 de maio de 1957, e em
julho deste no foi eleito Abade Presidente da Congregação Cisterciense
Brasileira.
A Fundação de Claraval
O antigo local de
Garimpo de Canoas, diocese de Guaxupé, no Estado de Minas Gerais, que
devido a influência dos cistercienses passou a chamar-se Claraval, situado
a poucos quilômetros de Franca, do Estado de São Paulo, foi sede de mais
uma fundação cisterciense.
A 12 de março de
1950, o Mosteiro de Casamari, abadia presidente da Congregação
Casamariense, da Itália, 04 monges professos foram enviados pelo D. Abade
Presidente, D. Nivardo Buttarazzi, ainda hoje no cargo, para o novo
mosteiro em terras brasileiras.
A fundação,
autorizada foi pelo ordinário do lugar. A ocupação se deu no dia 29 de
abril de 1950. O Mosteiro, já construído ergue-se imponente na cidade.
Juridicamente é um priorado simples e o continua até hoje, com a diferença
que desde julho de 1968, o seu Prior conventual é o Abade Nulius de
Claraval, incorporando 03 cidades, 03 paróquias da diocese de Guaxupé no
Estado de Minas Gerais, Abadia Nulius de caráter secular, mas incorporado
ao Mosteiro. O primeiro Abade foi eleito em 1969: D. Pedro Agostini.
O mosteiro de
Claraval possuí um seminário menor e os monges além das paróquias da sua
"pequena diocese," cuidam também da agricultura, numa propriedade do
Mosteiro.
As Monjas Cirsterciences
Já antes das
cistercienses, estiveram aqui no Brasil, na diocese de Nova Friburgo as
monjas trapistas que não conseguiram se desenvolver. O início da fundação
das monjas cistercienses foi bem incerto, mas hoje já se consolida pouco a
pouco.
Em 1948 chegaram em
Itaporanga três monjas cistercienses, mas não conseguiram fundar um
mosteiro, e voltaram logo de volta a Alemanha.
Em 1951 vieram
outras para a Bahia, mas mesmo lá, numa vida muito difícil para as
mulheres, elas se transferiram a cidade Ribeirão Vermelho do Sul. Lá
entregaram-se a vida contemplativa e ao trabalho manual.
"Fundatio
fact est die 21 octobris 1951 ab Abbatia de Loco Speciose Superiore
(Oberschonenfeld). Peter immediatus est D. Abbas S. Crucis in Itaporanga.
Moniales
doctrinam religiosam instruunt inschola elementari, adest asylum infntium;
confectio paamentorum, agricultura."
A prioresa foi no
início V. M. Emanuela Antonia Zimmermann. Em 1964, todo o Mosteiro de
Nossa Senhora de Fátima, transferiu-se para Itararé, ficando a casa de
Ribeirão Vermelho do Sul, no início para uma nova ordem fundada pelo
vigário, mais tarde, incorporadas às freiras dominicanas.
Em Itararé as
monjas cistercienses se desenvolveram, vivendo de aulas, de internato, de
agricultura. Já com a construção do Mosteiro quase terminado, estando
agora em vias de conclusão a nova Igreja, a Abadia Nossa Senhora de Fátima
já se consolida.
A prioresa passou a
ser V. M. Esfânia Koeble, sendo que em 1968, com a presença do Sr. Abade
Geral da Ordem, D. Sigardo Kleiner, de priorado foi elevado a Abadia,
sendo sua prioresa, eleita primeira Abadessa do Mosteiro Nossa Senhora de
Fátima de Itararé.
O mosteiro de
origem desta fundação, como já foi mencionado, é a Abadia B.M. V. de Campo
Specioso Superior, vulgo Oberschonenfeld.
A Constituição
da Congregação Brasileira
Como já Abadias, os
Mosteiro do Brasil, ou pelo menos as três Abadias já consolidadas pensaram
em constituir a Congregação Brasileira dos Cistercienses.
Aos 06 dias de maio
de 1961, reuniram-se os três abades cistercienses, ou seja, de Itaporanga,
Itatinga e de Jequitibá no Mosteiro de Jequitibá na Bahia, sob a presença
do Sr. Abade Geral, D. Sigardo Kleiner, para constituir a congregação
cisterciense brasileira, sob o título de Santa Cruz. Na mesma ocasião foi
D. Athanásio Merkle, eleito Presidente da nova Congregação sendo esta
reconhecida pela Santa Sé pelo Breve Apostólico n.27/62 de 12 de dezembro
de 1961.
Em julho de 1970,
novamente reuniu-se a Congregação Brasileira dos Cistercienses, desta vez
tendo como observador o Prior do Mosteiro de São José do Rio Pardo e a
Abadessa do Mosteiro Nossa Senhora de Fátima de Itararé, sendo esta, pela
primeira vez na história da Ordem, que uma Abadessa participava ativamente
de um capítulo de Abades.
Nessa reunião foi
vetada a nova Constituição, que foi enviada para ser aprovada e também foi
eleito o novo Abade Presidente, D. Roberto Fluck, abade de Itatinga, com a
renúncia de D. Athanásio Merkle, que tinha prolongado seu mandato até essa
data.
Com isso os
cistercienses no Brasil começam a se consolidar para poder ser num futuro
bem próximo verdadeiros marcos de espiritualidade que o século XXI
necessita e que a providência de Deus irá ajudar a conquistar.
"O Deus, vossa
misericórdia é sem limites e vossa bondade é um tesouro inesgotável;
prestados antes a vossa majestade, vos rendemos graças pelos benefícios
que nos haveis feito, suplicando sempre a vossa clemência, para que não
desampareis nunca aqueles aos quais concedeis os que vos pedem,
dispondo-os para receberem os prêmios eternos. Por Nosso Senhor Jesus
Cristo. Assim Seja."
Só a mão de Deus e
sua providência poderá explicar o que em história aqui escrevemos...
Outubro de 1970.
BIBLIOGRAFIA
D. Aloísio
Wiesinger, Abade Cisterciense, "São Bernardo, Abade de Claraval e doutor
da Igreja," Ed. Vozes, Petrópolis-RJ, 1944.
Arthur Audrá,
"Maristela, o Convento de Trapa," Livraria José Olympio Editora, Rio de
Janeiro, 1951
Catalegus Generalis
Abbatiarum Prioratuum Monasteriorum et personarum religiosarum utriusque
sexus S. Ordinis Cisterciensis occurrente centenário octavo a glorioso
transito S. P. N. Bernardi editus, Typis Pent. Universitatis Gregorianae,
MCMLIV.
Catalegus
Monasterierum et personarum S. Ordinis Cisterciensis A. D. 1963, (preut
die 1 julii 1963 exstabat), Romae, Editiones Cistercienses, Piazza Tempio
di Diana, 14, 1964.
Suplemento
ilustrado da Biografia São Bernardo de Claraval de D. Aloísio Wiesinger,
Abade Cisterciense, 1945, Aparecida-SP. - "Breve histórico da Ordem
Cisterciense, sua origem e desenvolvimento, sua importância na Idade
Média, sua ação providencial em nossos dias, na terra de Santa Cruz, a
fundação de Jequitibá, Bahia. Cistercienses em Terras de Santa Cruz,
Edição comemorativa pelas Bodas de Ouro do Sacerdócio de D. Athanásio
Merkle, S. O.
Cist., Itaporanga,
1963, impresso na Tip.Guarani, Itararé Voz de São Bernardo - Boletim
informativo da Abadia Cisterciense e da Paróquia São João Batista de
Itatinga, nº 1, ano II, agosto de 1953.
Edição Informativa
especial da inauguração da Abadia Cisterciense de Nossa Senhora de
Assunção, em Itatinga, Estado de São Paulo, inaugurada no dia 25 de Maio
de 1955.
Informações
pessoais |