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Auguste Comte
Auguste Comte nasceu em Montpellier, França, a 19 de janeiro de 1798, filho de
um fiscal de impostos. Suas relações com a família foram sempre tempestuosas
e contêm elementos explicativos do desenvolvimento de sua vida e talvez até
mesmo de certas orientações dadas às suas obras, sobretudo em seus últimos
anos. Freqüentemente, Comte acusava os familiares (à exceção de um irmão)
de avareza, culpando-os por sua precária situação econômica. O pai e a irmã,
ambos de saúde muito frágil, viviam reclamando maior participação de Auguste
em seus problemas. A mãe apegou-se a ele de forma extremada, solicitando sua
atenção “da mesma maneira que um mendigo implora um pedaço de pão” para
sobreviver, como diz ela em carta ao filho já adulto. Tão complexos laços
familiares foram afinal rompidos por Comte, mas deixaram-lhe marcas profundas.
Com
a idade de dezesseis anos, em 1814, Comte ingressou na Escola Politécnica de
Paris, fato que teria significativa influência na orientação posterior de seu
pensamento. Em carta de 1842 a John Stuart Mill (1806-1873), Comte fala da Politécnica
como a primeira comunidade verdadeiramente científica, que deveria servir como
modelo de toda educação superior. A Escola Politécnica tinha sido fundada em
1794, como fruto da Revolução Francesa e do desenvolvimento da ciência e da
técnica, resultante da Revolução Industrial. Embora permanecesse por apenas
dois anos nessa escola, Comte ali recebeu a influência do trabalho intelectual
de cientistas como o físico Sadi Carnot, (1796-1832), o matemático Lagrange
(1736 -1813) e o astrônomo Pierre Simon de Laplace (1749-1827). Especialmente
importante foi a influência exercida pela Mecânica Analítica de Lagrange:
nela Comte teria se inspirado para vir a abordar os princípios de cada ciência
segundo uma perspectiva histórica.
Em
1816, a onda reacionária que se apoderou de toda a Europa, depois da derrota de
Napoleão e da Santa Aliança, repercutiu na Escola Politécnica. Os adeptos da
restauração da Casa Real dos Bourbon conseguiram o fechamento temporário da
Escola, acusando-a de jacobinismo Comte deixou a Politécnica e, apesar dos
apelos insistentes da família, resolveu continuar em Paris. Nesse período
sofreu as influências dos chamados “ideólogos”:
Destutt
de
Tracy (1754 – 1836),
Cabanis
(1757 - 1808) e Volney (1757 -
1820). Leu também os teóricos da economia política, como Adam Smith (1723 -
1790) e Jean-Baptiste Say (1767 - 1832), filósofos e historiadores como David
Hume (1711 - 177 6) e
W William
Robertson (1721 - 1793). O fator mais decisivo para sua formação foi,
porém, o estudo do Esboço o de um
Quadro Histórico dos Progressos do Espírito Humano, de Condorcet
(1743 - 1794), ao qual se referiria, mais tarde, como "meu imediato
predecessor". A obra de Condorcet traça um quadro do desenvolvimento da
humanidade, no qual os descobrimentos e invenções da ciência e da tecnologia
desempenham papel preponderante, fazendo o homem caminhar para uma era em que a
organização social e política seria produto das luzes da razão: Essa idéia
tornar-se-ia um dos pontos fundamentais da filosofia de Comte. O filósofo e sua musa
Um
ano depois de sair da Escola Politécnica, em 1817, Comte tornou-se secretário
de Saint-Simon (1760 - 1825), do qual receberia profunda influência. Em carta
de 1818, Comte declara, sobre suas relações com Saint-Simon: "Pela
cooperação e amizade com um desses homens que vêem longe nos domínios da
filosofia política, aprendi uma multidão de coisas, que em vão procuraria nos
livros; e no meio ano durante o qual estive associado a ele meu espírito fez
maiores progressos do que faria em três anos, se eu estivesse sozinho; o
trabalho desses seis meses desenvolveu minha concepção das ciências políticas
e, indiretamente, tornou mais sólidas minhas idéias sobre as demais ciências...”.
Essa
íntima ligação intelectual foi extremamente proveitosa para Comte, pois
acelerou seu processo de desenvolvimento. Terminou, contudo, de maneira
tempestuosa, como acontecia com quase todas as relações pessoais de Comte. Ele
e Saint-Simon eram de temperamentos muito diversos para que pudessem trabalhar
juntos durante muito tempo: o rompimento ocorreu quando o discípulo começou. a
sentir-se independente do mestre, discordando de suas idéias sobre as relações
entre a ciência e a reorganização da sociedade. Comte não aceitava o fato de
Saint-Simon, nesse período, deixar de lado seus planos de reforma teórica do
conhecimento e dedicar-se a tarefas práticas no sentido de formar uma nova
elite industrial e científica, que teria como alvo a reforma da ordem social. O
conflito culminou com a publicação do Plano de Trabalhos Científicos Necessários
à Reorganização da Sociedade, escrito por Comte e do qual Saint-Simon
discordou ou. A separação entre o s dois ocorreu em 1824. No mesmo ano, Comte
casou-se com Caroline Massin e, não tendo mais os proventos de secretário de
Saint-Simon, passou a ganhar a vida dando aulas particulares de matemática.
Dois anos depois, exatamente no dia 2 de abril de 1826, iniciou em sua própria
casa um curso, do qual resultou uma de suas principais obras, o Curso de
Filosofia Positiva, em seis volumes, publicados a partir de 1830. Alguns dos
maiores nomes da época freqüentavam suas aulas, como o fisiólogo HenriMarie
de B Blainville (1777 - 1850) e o psicólogo Jean-Étienne Esquirol (1772 -
1840).
O
curso, no entanto, foi interrompido logo na terceira aula, devido à crise
mental sofrida por Comte, à qual se seguiu profunda depressão melancólica.
Depois disso, Comte tornou-se repetidor de análise matemática e de mecânica,
não tendo conseguido elevar-se a funções superiores, apesar de várias
tentativas em concursos para obtenção de cátedra. Em 1838, as relações com
a esposa pioraram sensivelmente até a completa separação em 1842.
Dois
anos após separar-se de Caroline, Comte publicou o Discurso sobre o Espírito
Positivo, ao mesmo tempo em que perdeu o posto de examinador de admissão na
Escola Politécnica. A exclusão definitiva da Escola Politécnica resultou
sobretudo das críticas aos matemáticos, feitas no prefácio do último volume
do Curso de Filosofia Positiva, editado em 1842. Atacar o os
especialistas em matemática, Comte afirmava ter chegado o tempo de os biólogos
e sociólogos ocuparem o primeiro posto no mundo intelectual. A perda do meio de sobrevivência fez com que Comte passasse a ser sustentado por amigos e admiradores, como o filósofo John Stuart Mill (1806-1873) e o dicionarista Littré (1801-1881), seu entusiasmado discípulo.
Em
1844, Comte conheceu a mulher que iria transformar sua vida e dar nova orientação
ao seu pensamento. Chamava-se
Clotilde de Vaux e era esposa de um homem que se
encontrava preso por crime infamante.
Clotilde de Vaux, contudo, considerava
indissolúvel seu casamento não permitindo que suas relações com o filósofo
ultrapassassem os limites de uma íntima amizade. Comte apaixonou-se
perdidamente por Clotilde e pretendeu transformá-la em nova Beatriz, a musa de
Dante. Nela, encontrou alguém que lhe permitiu expressar todos os seus
sentimentos e necessidades emocionais. A afeição tornou-se ainda mais profunda
com a morte de Clotilde, um ano depois. Comte transformou-a então no gênio
inspirador de uma nova religião, cujas idéias se encontram numa extensa obra
em quatro volumes, publicados entre 1851 e 1854: Política Positiva ou Tratado
de Sociologia Instituindo a Religião da Humanidade. Além dessa obra, Comte
publicou, em 1852, o Catecismo Positivista ou Exposição Sumária da
Religião Universal. Para esse trabalho, preparou-se, fazendo “higiene
cerebral”, por ele entendida como abstenção de quaisquer leituras e
aprofundamento na meditação solitária. Pretendia, assim, afastar-se de todos
os elementos perturbadores e assegurar unidade ao projeto de constituição das
doutrinas da nova religião: Nesse mesmo período, dedicou-se ao estudo da música,
à poesia italiana e espanhola e à leitura da Imitação de Cristo, obra
que considerava um grande poema sobre a natureza humana. A palavra
"Deus" do texto da Imitação deveria, segundo Comte, ser entendida
como significando a humanidade em geral. Leia um ensaio crítico sobre o relacionamento entre Auguste Comte e Clotilde de Vaux. Clique aqui. Os últimos anos da vida de Comte transcorreram em grande solidão e desencanto, sobretudo por ter sido abandonado por Littré; seu mais famoso discípulo não concordava com a idéia de uma nova religião. Auguste Comte faleceu no dia 5 de setembro de 1857. Os três temas básicos O núcleo da filosofia de Comte radica na idéia
de que a sociedade só pode ser convenientemente reorganizada através de uma
completa reforma intelectual do homem. Com isso, distintingue-se de outros filósofos
de sua época como Saint-Simon e Fourier, preocupados também com a reforma das
instituições, mas que prescreviam modos mais diretos para efetivá-la.
Enquanto esses pensadores pregavam a ação prática imediata, Comte achava que
antes disso seria necessário fornecer aos homens novos hábitos de pensar de
acordo com o estado das ciências de seu tempo. Por essa razão, o sistema
comteano estruturou-se em torno de três temas básicos. Em primeiro lugar, uma
filosofia da história com o objetivo de mostrar as razões pelas quais uma
certa maneira de pensar (chamada por ele filosofia positiva ou pensamento
positivo) deve imperar entre os homens. Em segundo lugar, uma fundamentação e
classificação das ciências baseadas na filosofia positiva. Finalmente, uma
sociologia que, determinando a estrutura e os processos de modificação da
sociedade permitisse a reforma prática das instituições. A esse deve-se
acrescentar a forma religiosa assumida pelo plano de renovação social,
proposto por Comte nos seus últimos anos de vida. O progresso do espírito
A
filosofia da historia – primeiro tema da filosofia de Comte – pode ser
sintetizada na sua célebre lei dos três estados: todas as ciências e o espírito
humano como um todo desenvolvem-se através de três fases distintas: a teológica,
a metafísica e a positiva.
No
estado teológico, pensa Comte, o número de observações dos fenômenos
reduz-se a poucos casos e, por isso, a imaginação desempenha papel de primeiro
plano. Diante da diversidade da natureza, o homem só consegue explicá-la
mediante a crença na intervenção de seres pessoais e sobrenaturais. O mundo
torna-se compreensível somente através das idéias de deuses e espíritos.
Segundo Comte, a mentalidade teológica visa a um tipo de compreensão absoluta;
o homem, nesse estágio de desenvolvimento, acredita ter posse absoluta do
conhecimento. Para além dos limites dos seres sobrenaturais, o homem não
coloca qualquer problema, sentindo-se satisfeito na medida em que a
possibilidade de recorrer à intervenção das divindades fornece um quadro para
compreensão dos fenômenos que ocorrem ao seu redor.
Paralelamente
às funções de explicação da natureza, a mentalidade teológica
desempenharia também relevante papel de coesão social, fundamentando a vida
social. Confiando em poderes imutáveis, fundados na autoridade, essa
mentalidade teria como forma política correspondente a monarquia aliada ao
militarismo.
O
estado teológico, para Comte, apresenta-se dividido em três períodos
sucessivos: o fetichismo, o politeísmo e o monoteísmo. No fetichismo, uma vida
espiritual, semelhante à do homem, é atribuída aos seres naturais. O politeísmo
esvazia os seres naturais de suas vidas anímicas - tal como concebidos no estágio
anterior - e atribui a animação desses seres não a si mesmos, mas a outros
seres, invisíveis e habitantes de um mundo superior. No monoteísmo, a distância
entre os seres e seus princípios explicativos aumenta ainda mais; o homem,
nesse estágio, reúne todas as divindades em uma só.
A
fase teológica monoteísta representaria, no desenvolvimento do espírito
humano, uma etapa de transição para o estado metafísico. Este, inicialmente,
concebe “forças” para explicar ficar os diferentes grupos de fenômenos, em
substituição às divindades da fase teológica. Fala-se então de uma “força
física”, uma “força química”, uma “força vital”. Num segundo período,
a mentalidade metafísica reuniria todas essas forças numa só, a chamada
“natureza”, unidade que equivaleria ao deus único do monoteísmo.
O
estado metafísico tem, segundo Comte, outros pontos de contato com o teológico.
Ambos tendem à procura de soluções absolutas para os problemas do homem; a
metafísica, tanto quanto a teologia, procura explicar a “natureza íntima”
das coisas, sua origem e destino últimos, bem como a maneira pela qual são
produzidas. A diferença reside no fato de a metafísica colocar o abstrato no
lugar do concreto e a argumentação no lugar da imaginação. Nessa perspectiva
comteana, o estado metafísico se caracterizaria fundamentalmente pela dissolução
do teológico. A argumentação, penetrando nos domínios das idéias teológicas,
traria à luz suas contradições inerentes e substituiria a vontade divina por
"idéias" ou "forças". Com isso, a metafísica destruiria a
idéia teológica de subordinação da natureza e do homem ao sobrenatural. Na
esfera política, o espírito metafísico corresponderia a uma substituição
dos reis pelos juristas; supondo-se a sociedade como originária de um contrato,
tende-se a basear o Estado na soberania do povo. O pensamento positivo
O
estado positivo caracteriza-se, segundo Comte, pela subordinação da imaginação
e da amamentação à observação. Cada proposição enunciada de maneira
positiva deve corresponder a um fato, seja particular, seja universal. Isso não
significa, porém, que Comte defenda um empirismo puro, ou seja, a redução de
todo conhecimento à apreensão exclusiva de fatos isolados. A visão positiva
dos fatos abandona a consideracão das causas dos fenômenos (procedimento
teológico ou metafísico) e torna-se pesquisa de suas leis, entendidos como
relações constantes entre fenômenos observáveis. Quando procura conhecer fenômenos
psicológicos, o espírito positivo deve visar às relações imutáveis
presentes neles - como quando trata de fenômenos físicos, como o movimento ou
a massa; só assim conseguiria realmente explicá-los. Segundo Comte, a procura
de leis imutáveis ocorreu pela primeira vez na história quando os antros
gregos criaram a astronomia matemática. Na época moderna, o mesmo procedimento
invento reaparece em Bacon (1561 - 1626), Galileu (1564 - 1642) e René
Descartes (1596 - 1650), os fundadores da filosofia positiva, para Comte.
A
filosofia positiva, ao contrário dos estados teológico e metafísico,
considera impossível a redução dos fenômenos naturais a um só princípio
(Deus, natureza ou outro experiência equivalente). Segundo Comte, a experiência
nunca mostra mais do que uma limitada interconexão entre determinados fenômenos.
Cada ciência ocupa-se apenas com certo grupo de fenômenos, irredutíveis uns
aos outros. A unidade que o conhecimento pode alcançar seria, assim,
inteiramente subjetiva, radicando no fato de empregar-se um mesmo método, seja
qual for o campo em questão: uma idêntica metodologia produz convergência e
homogeneidade de teorias.
Essa
unidade do conhecimento não é apenas individual, mas também coletiva; isso
faz da filosofia positiva o fundamento intelectual da fraternidade entre os
homens, possibilitando a vida prática em comum. A união entre a teoria e a prática
seria muito mais íntima no estado positivo do que nos anteriores, pois o
conhecimento das relações constantes entre os fenômenos torna possível determinar
seu futuro desenvolvimento. O conhecimento positivo caracteriza-se pela
previsibilidade: “ver para prever” é o lema da ciência positiva. A
previsibilidade científica permite o desenvolvimento da técnica e, assim, o
estado positivo corresponde à indústria, no sentido de exploração da
natureza pelo homem.
Em
suma, o espírito positivo, segundo Comte, instaura as ciências como investigação
do real, do certo e indubitável, do precisamente determinado e do útil. Nos
domínios do social e do político, o estágio positivo do espírito humano
marcaria a passagem do poder espiritual para as mãos dos sábios e cientistas e
do poder material para o controle dos industriais.
Do simples ao complexo
A
classificação das ciências – segundo tema básico da filosofia comteana –
vincula-se à filosofia da história. Ao traçar o mapa do desenvolvimento histórico
do espírito, em sua caminhada para a apreensão da realidade, Comte mostra que
a evolução de cada ciência obedece à periodização dos três estados, mas
que essa periodização não se faz ao mesmo tempo em todos os domínios: o
estado metafísico de uma ciência como a física, por exemplo, não é
contemporâneo do estado metafísico da biologia. Por outro lado, o
desenvolvimento das ciências é assintótico, isto é, elas jamais atingem a
compreensão absoluta dos seus objetos respectivos.
Segundo
Comte, as ciências classificam-se de acordo com a maior ou menor simplicidade
de seus objetos respectivos. A complexidade crescente permite estabelecer a seqüência:
matemáticas, astronomia, física, química, biologia e sociologia. As matemáticas
possuem o maior grau de generalidade e estudam a realidade mais simples e
indeterminada. A astronomia acrescenta a força ao puramente quantitativo,
estudando as massas dotadas de forças de atração. A física soma a qualidade
ao quantitativo e às forças, ocupando-se do calor, da luz, etc., que seriam
forças qualitativamente diferentes. A química trata de matérias
qualitativamente distintas. A biologia ocupa-se dos fenômenos vitais, nos quais
a matéria bruta é enriquecida pela organização. Finalmente, a sociologia
estuda a sociedade, onde os seres vivos se unem por laços independentes de seus
organismos. A sociologia é vista por Comte como “o fim essencial de toda a
filosofia positiva”. Matemática, astronomia, física, química e biologia
atingem o estado positivo antes da sociologia mas, permanecendo adstritas a
parcelas do real, não conseguem instaurar a filosofia positiva em sua
plenitude. A totalização do saber somente poderia ser alcançada através da
sociologia, na qual culminaria a formulação de “um sistema verdadeiramente
indivisível, onde toda decomposição é radicalmente artificial ( . . .), tudo
relacionando-se com a Humanidade, única concepção completamente universal”.
A
sociologia é entendida por Comte no mais amplo sentido da palavra, incluindo
uma parte essencial da psicologia, toda a economia política, a ética e a
filosofia da história. Da mesma forma como protesta contra a abordagem dos fenômenos
psicológicos individuais independentemente do desenvolvimento mental da raça,
Comte opõe-se também ao isolamento da política e da ética em relação à
teoria geral da sociedade. Comte ressaltou ainda que os objetos das ciências
sociais não devem ser tratados independentemente do curso de desenvolvimento
revelado pela história.
Aspecto
fundamental da sociologia comteana é a distinção entre a estática e a dinâmica
sociais. A primeira estudaria as condições constantes da sociedade; a segunda
investigaria as leis de seu progressivo desenvolvimento. A idéia fundamental da
estática é a ordem; a da dinâmica, o progresso. Para Comte, a dinâmica
social subordina-se à estática, pois o progresso provém da ordem e aperfeiçoa
os elementos permanentes de qualquer sociedade : religião, família, propriedade, linguagem, acordo entre
poder espiritual e temporal, etc.
Uma nova religião
A
reforma das instituições – terceiro tema básico da filosofia de Comte –
tem seus fundamentos teóricos na sociologia que ele concebeu. A sociologia
conduziria à política, cumprindo-se, assim, o desígnio que Comte sempre se
propôs de fazer da filosofia positivista um instrumento para a reforma
intelectual do homem e, através desta, a reorganização de toda a sociedade.
No seu modo de ver, a Revolução Francesa destruiu as instituições sociais do
homem europeu impunha-se, conseqüentemente, estabelecer uma nova ordem. A
Revolução fora necessária, pensava Comte, porque as antigas instituições
sociais e políticas eram ainda teológicas, não correspondendo, portanto, ao
estado de desenvolvimento das ciências da época. A Revolução não ofereceu,
porém, fundamentos para a reorganização da sociedade, por ter sido negativa e
metafísica em seus pressupostos. A tarefa a ser cumprida deveria portanto, ser
a instauração do espírito positivo - na organização das estruturas sociais
e políticas. Para isso, sacia necessária uma nova elite científico-industrial,
capar de formular os fundamentos positivos da sociedade é desenvolver as
atividades técnicas correspondentes a cada uma das ciências, tornando-as bem
comum.
Com
relação ao principal problema social de sua época – o crescimento do
proletariado industrial –, a posição de Comte não foi uma posição
revolucionária como
a de Marx
(1818 – 1883). Comte considerava que todas as medidas sociais deveriam
ser julgadas em termos de seus efeitos sobre a classe mais numerosa e mais
pobre. Acreditava também que os proletários (e as mulheres) pudessem abrandar
o egoísmo dos capitalistas e que uma ordem moral humanitária poderia abolir
todos os conflitos de classe. Os capitalistas deveriam ser moralizados e não
eliminados: a propriedade privada deveria ser mantida. Comte foi, na verdade, um
conservador e característicos dessa atitude são os seus elogios à ordem católica
e feudal da Idade Média. Dentro de uma linha de revalorização do catolicismo,
típica de sua época, atacou o protestantismo, considerando-o uma religião
negativa e anárquica intelectualmente.
Os
anseios de reforma intelectual e social de Comte, contudo, não se limitaram a
uma política e se desenvolveram no sentido da formulação de uma religião da
humanidade. Isso aconteceu nos últimos quinze anos de sua vida, quando
estabeleceu os princípios fundamentais dessa nova religião. Formulou então um
novo calendário, cujos meses receberam nomes de grandes figuras da história do
pensamento, como Descartes; o calendário tinha também seus dias santos, nos
quais se deveriam comemorar as abras de Dante, Shakespeare, Adam Smith, Xavier
de Maistre e outros. Comte redigiu ainda um novo catecismo, cuja idéia central
reside na substituição do Deus cristão pela Humanidade. Imperdível! Discurso sobre o Espírito Positivo AUGUSTE COMTE
O positivismo no Brasil
O
positivismo de Auguste Comte exerceu larga influência nos mais variados círculos.
Enquanto doutrina sobre o conhecimento e sobre a natureza do pensamento científico,
incorporou-se a outras correntes análogas, que procuraram valorizar as ciências
naturais e suas aplicações práticas. Junto a essas outras correntes, o
positivismo constitui um dos traços característicos do pensamento que se
desenvolveu na Europa durante o século XIX.
Entre
os mais fiéis seguidores de Comte destaca-se o lexicógrafo Émile Littré que,
no entanto, renegou a religião da humanidade. O mesmo não aconteceu com Pierre
Laffite (1823 - 1903), que aderiu principalmente à última fase do pensamento
do mestre. Na Inglaterra, o positivismo de Comte, excluída a religião da
humanidade, teve grande difusão, contando-se entre seus propagadores o filósofo
John Stuart M Mill,
além
de outras figuras menos conhecidas, como G. H. Lewes (1817 – 1878),
Harriet Martineau (1802 – 1876) e Richard Congreve (1818 – 1899), fundador
da Sociedade Positivista de Londres.
Solo
mais fértil foi encontrado pelo positivismo comteano, incluindo-se a religião
positivista, em países de menor tradição cultural e carentes de ideologia
para seus anseios de desenvolvimento. Esse fenômeno ocorreu na. América do
Sul, sobretudo no Brasil.
As primeiras manifestações do positivismo no Brasil datam de 1850,
quando Manuel Joaquim Pereira de Sá apresentou tese de doutoramento em ciências
físicas e naturais, na Escola Militar do Rio de Janeiro. A esse trabalho viriam
juntar-se a tese de Joaquim Pedro Manso Sayão sobre corpos flutuantes e a de
Manuel Pinto Peixoto sobre os princípios do cálculo diferencial. Em todos
encontram-se inspirações da filosofia comteana.
Passo
mais importante, contudo, foi dado por Luís Pereira Barreto (1840 - 1923), com
a obra As Três Filosofias, na qual a filosofia positivista era apontada
como capaz de substituir vantajosamente a tutela intelectual exercida no país
pela Igreja Católica. Pereira Barreto não foi um positivista ortodoxo, como
Miguel Lemos (1854 - 1917) e Raimundo Teixeira Mendes (1855 - 1927), que se
iniciaram no positivismo através da, matemática e das ciências exatas, quando
estudantes na Escola Politécnica. Os dois entreviram na ciência fundada por
Auguste Comte as bases de uma política racional e pressentiram, na sua coordenação
filosófica, o congraçamento definitivo da ordem e do progresso, como dirá
mais tarde o próprio Miguel Lemos.
Em
1876 fundou-se a primeira sociedade positivista do Brasil, tendo a frente
Teixeira Mendes, Miguel Lemos e Benjamin
Constant (1836 - 1891). No ano seguinte, os dois primeiros viajaram para
Paris, onde conheceram Émile Littré e Pierre Laffite. Miguel Lemos
decepcionou-se com “o vazio do littreísmo” e tornou-se adepto fervoroso da
religião da humanidade, dirigida ida por Laffite. De volta ao Brasil Fundou a
Sociedade Positivista do Rio de Janeiro, que constitui a origem do Apostolado
Positivista do Brasil e da Igreja Positivista do Brasil, cuja finalidade era
“formar crentes e modificar a opinião por meio de intervenções oportunas
nos negócios públicos”.
Entre
essas intervenções, sem dúvida, foi importante a participação dos
positivistas no movimento republicano, embora seja um exagero dizer-se que foram
eles que proclamaram a República, em 1889. Influíram, é verdade, na Constituição
de 1891 e a bandeira brasileira passou a ostentar o lema comteano “Ordem e
Progresso”. No século XX, o entusiasmo pelo positivismo religioso decresceu
consideravelmente, mas continuou a existir a
Igreja
Positivista do Brasil, no Rio de Janeiro, que permanece atuante ate os dias
de hoje. Conheça mais sobre o positivismo: Leia ainda: Augusto Comte e o Positivismo JOAO RIBEIRO JR. CRONOLOGIA 1798 - Nasce Auguste Comte, em
Montpellier, a 19 de janeiro. 1804
- Napoleão é sagrado imperador pelo papa, em Paris. 1807
- Hegel publica a Fenomenologia do Espírito. 1815
- Napoleão é derrotado em Waterloo. Reúne-se o Congresso de Viena. 1817
- Comte torna-se secretário de Saint-Simon. 1821
- O México e o Peru tornam-se independentes. 1830
- Comte inicia a publicação do Curso de Filosofia Positiva.
1832
- Comte é nomeado repetidor de análise matemática e de mecânica da Escola
Politécnica. 1842 - Caroline Massin separa-se de Comte, após dezoito anos de matrimônio.
No mesmo ano, encerra-se a publicação do Curso de Filosofia Positiva de
Comte. 1844
- Comte conhece Clotilde de Vaux. Editam-se Os Princípios do Comunismo,
de Engels. 1846
- Morte de Clotilde de Vaux. Proudhon publica Contradições Econômicas ou A
Filosofia da Miséria.
1847
- E editada A Miséria da Filosofia, a, de Karl Marx. Descobre-se a
nitroglicerina. 1851
- Comte inicia a publicação do Sistema de Política Positiva ou Tratado de
Sociologia Instituindo a Religião da Humanidade. 1852
- Publica o Catecismo Positivista ou Exposição Sumária da Religião
Universal.
1854
- Encerra a publicação do Sistema de Política Positiva.
1857
- Morre a 5 de setembro, em Paris.
Bibliografia: "Os Pensadores", Volume COMTE Consultoria de José Arthur Giannotti
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