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O crepúsculo de Cuba

 

            Durante as décadas de 40 e 50 do século passado, o ditador Fulgêncio Batista, aliado dos estadunidenses, transformou Cuba num misto de colônia de férias e terra sem lei daquele país. Os registros históricos pré-revolucionários dão conta de que os índices de prostituição eram calamitosos, com “um prostíbulo em cada quarteirão”, o mesmo ocorrendo com cassinos. As drogas eram transacionadas pelos estadunidenses na Ilha com uma desfaçatez cruel. As taxas de analfabetismo ultrapassavam 40% e a mortalidade infantil estava entre as mais altas do mundo. Médico era uma raridade, somente acessível aos mais abastados. A massa da população cubana vivia abaixo da linha de pobreza enquanto toda a renda da Ilha era concentrada nas mãos de uns poucos.

            Levantando-se contra esta situação calamitosa um grupo de idealistas deu início à Resistência, lutando para remover o inimigo ianque encastelado no poder cubano através de um títere. Após anos de guerrilha e guerra civil, os revolucionários liderados por Fidel Castro, Che Guevara, Camilo Cienfuegos e outros entraram vitoriosos em Havana no dia 1º de janeiro de 1959.

            Por uma série de circunstâncias o regime cubano se viu na contingência de aderir ao socialismo de modelo soviético. O Estado Operário ameaçado pelo inimigo ianque sobreviveu dia a dia se defendendo de ataques diretos e indiretos, como o desembarque de marinheiros ianques na Praia dos Porcos em 1962 – foram rechaçados! Durante anos os Estados Unidos mantiveram várias emissoras de rádio de grande potência difamando o regime para o povo da ilha. Externamente, como sempre faz o capitalismo quando prega a supressão das liberdades individuais em nome da lucratividade, conclamava por “democracia”. Prêmios vultuosos eram pagos a quem desertasse da Ilha para os EUA. O líder Fidel Castro sofreu diversas tentativas de assassinato.

            Um acordo favorável com a União Soviética durante a Guerra Fria trouxe tranqüilidade na esfera econômica para os cubanos: o açúcar (principal produto de sua pauta de exportações) era vendido a preços privilegiados aos russos que, além de pagar mais pelo açúcar subvencionavam o petróleo para Cuba que viveu dias de grande bonança e fartura.

            As décadas de 80 e 90 encontram Cuba sob o regime de economia planificada, com pleno emprego, analfabetismo erradicado, um médico para cada 100 habitantes, a melhor medicina tropical do mundo, criminalidade próxima a zero e, trauma do passado ou não: único país do mundo em que jogos de azar são apenados rigorosamente, como o tráfico de entorpecentes. Nunca mais se encontrou um único cassino na Ilha e o país foi o único do mundo a jamais ter qualquer tipo de loteria estatal.

            Como em qualquer lugar do mundo, não há em Cuba liberdade de imprensa. Esta sempre está do lado daqueles que comandam o processo político e econômico. Em Cuba, o processo político e econômico era comandado por soldados, camponeses, artesãos, trabalhadores em geral. A informação, no Brasil, passa pelo controle bancário (você já percebeu como são onipresentes as propagandas de instituições bancárias nos noticiários televisivos? Considera que um banco patrocinaria um programa que falasse a verdade sobre a rapina dos bancos sobre as pessoas?).

           

            Em Cuba sempre se falou que o país era governado ditatorialmente. Economia planificada só é compatível com ditadura. A ditadura anterior, de Fulgêncio Batista, era exercida pelos estadunidenses em aliança com os produtores locais de cana-de-açúcar, contra o povo cubano. A ditadura do PC cubano era exercida pela classe trabalhadora, no interesse do povo cubano.

            Se, mesmo com a derrocada do socialismo no Leste Europeu isto se mantivesse, ficaríamos muito preocupados com as recentes declarações do chefe de estado ianque no sentido de desejar e estar disposto a fazer o possível para que haja “uma transição à democracia em Cuba.” Por democracia os estadunidenses sempre entenderam “liberdade para o capital especular, sem grande contemplação para com a situação dos seres humanos.”

 

A “via Chinesa” em Cuba

 

            Infelizmente, outro é o quadro. Muitos estão chocados com o que acontece naquele primeiro pedaço de terra livre do imperialismo em nosso mundo. Segundo nos informa o Correio Internacional, periódico da IV Internacional, Cuba deixou de ser uma Nação socialista desde meados da década de 90 quando se tomaram medidas capitalistas claras. Os estadunidenses, que transformaram a Ilha num bordel com as mais variadas formas de jogatina, ficaram fora deste processo e agora buscam também o seu espaço. O retorno ao capitalismo em Cuba se deu sob os auspícios do governo canadense e do governo espanhol.

            Alexandro Iturbide, correspondente do Correio Internacional ressalta que a restauração capitalista em Cuba ficou marcada pelos seguintes fatos:

1) A Lei de Inversões Estrangeiras de 1995, que criou “empresas mistas”, administradas pelo capital estrangeiro. Os investimentos dirigiram-se especialmente ao turismo e a ramos relacionados, mas se ampliaram a outros setores, como produtos farmacêuticos e, recentemente, ao petróleo;

2) Fim do monopólio do comércio exterior por parte do Estado, exercido pelo Ministério de Comércio Exterior. Hoje, tanto empresas estatais como mistas podem negociar livremente suas exportações e importações.

3) O dólar se transformou, de fato, na moeda efetiva de Cuba, coexistindo com duas moedas nacionais: uma “conversível” em dólares e outra “não conversível”;

4) A produção e a comercialização de açúcar foi privatizada através de “unidades básicas de produção cooperativa” (80% da área cultivada). Seus membros não têm a propriedade jurídica da terra, mas repartem entre si os lucros obtidos. Em 1994, começaram a funcionar os “mercados agropecuários livres”, cujos preços são determinados pelo mercado.

 

 

Quem diria...

 

            É mesmo muito estranho. As pessoas que estiveram à frente da derrubada do antigo regime são as mesmas que protagonizam seu retorno. Mikhail Gorbatchov, com a Perestroika, fez assim. Os dirigentes do PC Chinês também o fizeram e vemos, com profunda tristeza, que Cuba segue o mesmo caminho. Era um hausto de Esperança. Era uma Ilha de ar fresco em tanta aridez. Cuba era a promessa viva de que há um caminho fora e contra o capitalismo. Livre, capaz de resgatar a dignidade do ser humano.

            Como outros líderes políticos de nosso hemisfério, joga-se fora o programa socialista sem a preocupação de dividir com as massas esta responsabilidade ou mesmo sem sequer debater a respeito: haveria outra forma? Haveria outro caminho? Voltamos aos braços do capitalismo?

            Como nada foi discutido e o que foi revelado foi mistificado – “fazemos isso em nome da Revolução e os contrários serão considerados contra-revolucionários” – temos um padrão comum para todos estes ex-comunistas de nosso hemisfério. Chegam ao poder, despedem-se de seu ideário mas não de sua retórica, aliam-se a empresários e vivem avessos ao contradito.

            Agora, só agora, entendo o que tentavam dizer com expressões como “Fidel Castro, Hugo Chávez e Lula representam o mesmo”. Cada um a seu turno tem uma trajetória histórica digna de grande aplauso, mas em algum momento no poder acabam trocando suas convicções sem abandonar seus discursos.

            Esta aberta a questão para toda a América Latina: como nos libertaremos destas novas e sutis formas de opressão?

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 06/09/2006

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