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Crucificados aos crediários
Uma das
coisas que trazem maior ufanismo aos gurus da economia brasileira é o tal do
empréstimo consignado, para desconto em folha de pagamento. País católico, já
vivemos um tempo em que a prática da usura era considerada pecaminosa. Quando os
laços sociais eram mais estreitos, a usura e a jogatina eram crimes previstos no
Código Penal Brasileiro.
O avanço do
capitalismo no Brasil mudou tudo. Para nos adequarmos às normas internacionais
foi preciso ampliar a capacidade de endividamento dos cidadãos, tornando maior o
lucro dos bancos e, além disso, foi necessário modificar a legislação brasileira
para tornar normal por aqui o que é usual nos países centrais do capitalismo.
Recentemente, alguns congressos de economistas – essa seita esquisita que vê
números maravilhosos e não se preocupa com gente – descobriram que a capacidade
de endividamento do brasileiro ainda é grande em comparação com outros países.
Como somos governados pelos usurários e jogadores, estes determinaram que as
autoridades políticas ampliassem o endividamento de nosso povo.
Já houve um
tempo em que nossos impostos, sempre considerados elevados – por volta de 15% de
tudo quanto produzíamos ia para o governo – pagavam por um serviço público
bastante eficiente. Hoje temos de trabalhar quase 5 meses em cada 12 para pagar
impostos. Quando a saúde pública era bem tratada, quando havia segurança nas
ruas, quando as escolas ensinavam, as estradas estavam boas e o saneamento
básico eficiente trabalhávamos uma média de 1 mês e meio para pagar impostos.
Hoje, como o fruto dos impostos que todos pagamos é destinado a já enorme
lucratividade dos bancos, expendemos com esta atividade mais de 40% de tudo o
que produzimos.
Já houve
tempo em que os juros para aquisição de móveis, eletrodomésticos e imóveis era
elevado – um tio meu alertava: “a prestação você compra um pra você e outro pro
dono da loja. Evite!” Hoje tudo mudou: quem compra a prazo, paga por 3 vezes o
valor do bem: um para si, um para o dono da loja e um para o banco.
No
fundamentalismo de mercado em que vivemos, há uma série de dogmas a deixar o
racionalismo fora das considerações – não por acaso o estudo da Filosofia e da
Sociologia nas escolas é tão mal visto. Um dogma diz respeito aos juros, que
“têm de ser altos para controlar a inflação”. Juros altos inibem o crescimento
da economia, mas os fundamentalistas de mercado apresentam sua solução: tem de
parar de torcer contra! Não há acordo possível: enquanto vivermos sob ditadura
dos bancos, o ser humano não poderá ser livre nem feliz. Dentre os candidatos
que concorrem em outubro próximo, somente Heloísa Helena apresenta este ideal em
sua plataforma.
Antecipação do 13º garantirá
eleição de Lula da Silva
Uma vez que
a legislação brasileira foi mudada para beneficiar ainda mais os bancos,
qualquer pessoa que tenha rendimentos regulares e disponha de um documento para
comprová-lo (contracheque, holerite...) pode tomar empréstimo bancário, a juros
naturalmente, e tem o desconto das parcelas efetuado diretamente na fonte.
Desde o
começo, este governo tem se demonstrado de uma crueldade pavorosa para com
nossos velhos. Obrigam pessoas com mais de 90 anos a comparecer a postos da
previdência explicar o que diabos ainda estavam fazendo vivas, sob pena de
perder seus minguados proventos. Constatada a vida destas pessoas, elas agora
são as maiores vítimas do maquiavelismo chamado de micro crédito. Apresentado
como uma grande vantagem que “ativa a economia”, esta crueldade inominável já
provocou divisões entre famílias quando os mais velhos se recusam a abrir
crédito em nome de seus falidos filhos e muitos morrem ao descobrirem que estão
recebendo menos do que contavam para comprar seus medicamentos.
Com tudo
isso, uma parcela dos endividados conseguiu se equilibrar no fio da navalha mas,
como as taxas de juros seguem elevadas, avizinha-se uma tragédia de grande
porte: uma quebradeira generalizada. Para que não exploda neste mês, o governo
antecipará o pagamento do 13º salário a aposentados e pensionistas que, de
dezembro (próximo do Natal e Ano Novo) ocorre excepcionalmente em setembro neste
ano, dando ao eleitorado a ilusão necessária à reeleição dos mesmo no sufrágio
próximo.
Quando
chegar o final do ano e a tragédia anunciada for magnificada pela inexistência
de recursos para as festas será tarde demais para reclamar e o brasileiro,
claro, só se preocupa com essas coisas quando elas acontecem.
Mais e mais
me convenço da sabedoria do adágio milenar: cada povo tem o governo que merece.
Lázaro
Curvêlo Chaves – 06/08/2006
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