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As Cruzadas
Peregrinações a Lugares Santos
A região da
cidade de Jerusalém, na Palestina, onde atualmente fica o Estado de Israel é
sagrada para os fiéis das três mais importantes religiões monoteístas do mundo:
o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Desde épocas muito remotas, judeus,
cristãos e muçulmanos faziam peregrinações a Jerusalém para venerar os Lugares
Santos.
Na Idade Média
– mesmo hoje, em certa medida – os cristãos em geral acreditavam que os lugares
onde os santos viveram, os objetos por eles usados e o que restava de seus
corpos (as chamadas “Relíquias”) possuíam poderes milagrosos, como a cura de
enfermos e a salvação para os pecadores. Havia vários lugares de veneração
espalhadas por todo o mundo cristão, mas a Terra Santa, onde Jesus viveu, pregou
e foi supliciado, era considerado o mais sagrado de todos.
Para os judeus,
Jerusalém é a principal cidade de sua antiga pátria e ali se encontram vários
locais sagrados, principalmente o “Muro das Lamentações”, ruínas do Templo de
Salomão destruído pelos romanos no primeiro século de nossa era. Para os
cristãos, é reverenciada por ter sido o local no qual Jesus de Nazaré viveu
durante os três últimos anos de sua vida, pregou, fez discípulos e foi
crucificado. Para os muçulmanos, Jerusalém é uma Cidade Santa porque crêem que
Maomé subiu ao céu da Cúpula do Rochedo, situada no coração da cidade.
Curioso refletir
como as três religiões monoteístas acreditam no mesmo Deus mas, como se prendem
a metáforas e as lêem e compreendem literalmente, os desentendimentos entre os
três grupos seguem até os dias de hoje...
Apesar da
grande distância da Europa Ocidental, muitos peregrinos faziam uma longa e
arriscada jornada para chegar a Jerusalém. Alguns iam primeiro a Roma e, em
seguida, partiam de algum porto italiano para a Palestina. As pessoas mais
pobres percorriam todo o trajeto a pé.
Motivos
Em 638 d.C. os
árabes, de fé islâmica, tomaram a Palestina, inclusive, naturalmente, Jerusalém.
Durante séculos aquela ocupação não chegou a criar problemas para os cristãos,
pois os árabes respeitam a religião cristã e, portanto, as peregrinações seguiam
permitidas. Em 1071, porém, a Terra Santa foi capturada pelos turcos otomanos,
também muçulmanos mas, intolerantes para com os cristãos, passaram a criar todo
o tipo de dificuldades para os peregrinos.
Economicamente,
o feudalismo ingressava em seu período de crise – como o capitalismo está em
crise nos dias atuais – havendo forte contradição entre as forças produtivas e o
modo de produção, ou seja, o aumento da população ou crescimento demográfico
exigia maior empenho na produção de gêneros alimentícios mas, segundo as normas
do MPF todo o excedente ficava com o Senhor Feudal e não com os produtores (mais
ou menos como ocorre com a mais-valia em nossos dias...).
Para atender
aos fiéis desejosos de retomar as peregrinações e escoar o excesso de
mão-de-obra ociosa na Europa, o papa Urbano II declarou guerra aos “infiéis”
muçulmanos conclamando as multidões sob o brado de “Deus o quer! Deus o quer!” O
fervor religioso espalhou-se por toda a Europa. As pessoas acreditavam
firmemente que o cristianismo estava em perigo e que defendê-lo, portanto, era
cumprir a vontade de Deus. O papa Urbano II prometeu a todos os que partissem
para a guerra contra os “infiéis” teriam seus pecados perdoados e iriam para o
céu após a morte.
Os cavaleiros
que, a partir de 1095, atenderam ao chamado do papa para fazerem parte de uma
expedição à Terra Santa escolheram como símbolo uma cruz pintada na armadura ou
bordada nas vestes. Por isso foram chamados “cruzados”. Eles seriam os
guerreiros da cruz, os defensores do cristianismo. Séculos de guerra começaram
então...
A
Cruzada dos Pobres
Enquanto os
nobres europeus se preparavam para a cruzada, pregadores itinerantes levavam a
mensagem do papa às pessoas comuns. Um desses pregadores, Pedro, o Eremita,
inspirava seus ouvintes com tanto entusiasmo que milhares passaram a seguí-lo.
Em abril de
1096, os seguidores de Pedro se reuniram na cidade alemã de Colônia. Não eram
soldados disciplinados. Na Idade Média, somente os nobres eram treinados nas
artes da guerra... Os seguidores fiéis de Pedro, o Eremita, eram mendigos e
camponeses pobres e ignorantes que, por vezes, levavam suas famílias consigo.
Partiram no
início do verão, cheios de fé e nenhuma provisão. Quando conseguiam alimentos
era através do saque ou da mendicância... Atacaram, por exemplo, cidades na
Hungria e na Iugoslávia. Além disso, ao passar por Constantinopla, sede do
Império (Cristão) Romano do Oriente ou Império Bizantino, saquearam os subúrbios
da cidade levando a todos grande terror. Mas o pior estava por vir: o
enfrentamento do feroz e bem treinado exército turco.
Resultado? Um
verdadeiro MASSACRE! Os cruzados maltrapilhos se instalavam desordenadamente
numa fortaleza abandonada. Um pequeno grupo saiu para saquear os arredores mas
foi surpreendido e totalmente aniquilado. Quando o exército turco se aproximou
da fortaleza, os cruzados, como era de se esperar, sofreram fragorosa derrota,
com milhares de baixas. Alguns foram capturados e vendidos como escravos; outros
escaparam e conseguiram ser resgatados para narrar o ocorrido...
A
Primeira Cruzada – Cruzada dos Nobres

Os nobres
europeus prepararam-se com maior acuidade durante todo o ano de 1096. Partiram
no outono daquele ano e já em abril de 1097 estavam em Constantinopla prestando
sua solidariedade e solicitando o apoio do cesaropapa bizantino Aleixo Comneno.
Partiram
inicialmente ruma a Antioquia. No caminho sitiaram e tomaram a cidade de Nicéia,
até então ocupada pelos turcos.
O
Cerco de Antioquia
Os cruzados
continuaram seu caminho, atravessando a Síria. A jornada foi muito difícil,
cheia de conflitos e desentendimentos entre os chefes cristãos e perpassada por
duros combates com o exército turco.
No outono de
1097 finalmente chegaram a Antioquia, cuja conquista foi longa e penosa. Durante
sete meses os cruzados sitiaram a cidade sem conseguir vencer a resistência de
seus defensores. Somente em julho de 1098 os exércitos cristãos conseguiram
ultrapassar as muralhas da cidade, graças a alguns moradores cristãos que ainda
ali viviam e que facilitaram a sua entrada.
Poucos dias
depois uma nova leva do exército turco chegou e cercou Antioquia com os cruzados
dentro. Depois de muitas batalhas os cruzados lograram romper o cerco, derrotar
os turcos e seguir em sua jornada rumo a Jerusalém.
Em Jerusalém
Os cruzados
chegaram às portas de Jerusalém em julho de 1099. Seus primeiros ataques foram
facilmente repelidos pelos turcos. A 14 de julho, após jejum e oração, o
exército cristão partiu para seu mais importante ataque. Por volta do meio-dia
de 15 de julho de 1099, os cruzados escalaram as muralhas e abriram um de seus
portões. Os que estavam fora das muralhas correram para dentro da cidade e
massacraram impiedosamente e sem discriminação judeus e muçulmanos, habitantes
da cidade.
Quando
finalmente entraram na Igreja do Santo Sepulcro, os cruzados caíram de joelhos
dando graças a Deus pela vitória. Do lado de fora da Igreja os cadáveres de suas
vítimas, recobertos de sangue, enxameavam as ruas...
Criação de Feudos Europeus na Palestina
A maioria dos
nobres e seus seguidores voltou para a Europa, mas alguns permaneceram. Os
líderes dos que ficaram estabeleceram quatro Estados cristãos nas regiões
conquistadas: o Condado de Edis, o Principado de Antioquia, o Condado de Trípoli
e o Reino de Jerusalém que, por ser o mais importante, ficou com Godofredo de
Bouillon, um dos líderes da cruzada.
Os soldados
receberam terras nesses novos Estados. Estabelecendo-se entre árabes, turcos,
gregos e judeus que ali viviam, começaram gradualmente a adotar os hábitos e o
linguajar do local.
Vale ressaltar
que aqueles Estados cristãos jamais conheceram a paz. Estavam constantemente em
guerra com seus vizinhos muçulmanos e jamais foram capazes de controlar as áreas
rurais. Os muçulmanos, via de regra, rondavam as estradas e atacavam peregrinos
cristãos com destino a Jerusalém.
Cavaleiros Templários e Hospitalários
Para defender
os Estados cristãos, alguns nobres formaram associações chamadas de ordens
militares. As duas mais poderosas foram as dos Cavaleiros do Templo (Templários)
e a dos Hospitalários de São João de Jerusalém – em 1305, contudo, com vistas a
apoiar o rei francês Filipe “o belo” sob o qual vivia em cativeiro, o papa
Clemente V (Bertrand de Got) decidiu-se a exterminar com a Ordem dos Cavaleiros
do Templo através de torturas e confissões forjadas. Mas os Cavaleiros
Templários seguem fortes até os dias de hoje na Maçonaria, como se sabe...
Seus membros
viviam como monges e lutavam como cavaleiros. Faziam votos religiosos e juravam
empreender guerra incessante contra os infiéis. Dedicavam-se a auxiliar os
peregrinos, os pobres e os doentes. E, de seus enormes castelos, vigiavam toda a
região. Eram os cristãos mais temidos pelos muçulmanos por seu destemor e
desapego até mesmo da própria vida em defesa do cristianismo.
Apesar de todos
os esforços daqueles valorosos Cavaleiros, todavia, anos de guerra enfraqueceram
enormemente os Estados dos cruzados. Em 1144 um desastre: o exército muçulmano
capturou o Condado de Edessa! Quando Edessa caiu, os turcos conseguiram
reagrupar seu exército e atacar sem trégua a longa fronteira dos outros três
Estados.

A
Segunda Cruzada – Cruzada dos Reis
Depois da queda
de Edessa, os Estados cristãos ficaram em perigo. Temerosos, seus governadores
enviaram embaixadores a Roma, pedindo ao papa que lhes enviasse ajuda para lutar
contra os turcos e proteger a Terra Santa.
O papa Eugênio
III resolveu atendê-los e convocar uma nova cruzada. Para divulgá-la na Europa,
encarregou Bernard de Clairvaux (mais tarde canonizado), o mais erudito e
respeitado clérigo da sua época.
Bem sucedido,
Bernard persuadiu o rei francês Luís VII (mais tarde canonizado também) e o
Imperador do Sacro Império Romano Germânico Conrado III que, com seus relutantes
nobres, decidiram-se a participar da expedição.
Os dois reis,
inimigos um do outro, não se reuniram para a cruzada. Cada um enfrentou o
adversário turco por sua conta, em batalhas separadas, sem qualquer acordo entre
eles.
Em 1147, os
esplêndidos exércitos reunidos pelos dois reis marcharam através da Europa em
direção a Constantinopla.
Conrado chegou
primeiro e, por volta de outubro daquele ano atravessava o Bósforo e estava a
caminho da Terra Santa. Em Dorileu, o exército turco lançou-se contra ele e lhe
impôs fragorosa derrota. Conrado e outros sobreviventes do massacre
arrastaram-se de volta a pé para Constantinopla, onde os franceses acabavam de
chegar.
O rei Luís
ousou atravessar território inimigo em pleno inverno. Os turcos estavam à espera
e mataram muitos franceses durante esta insana travessia. Muitos outros morreram
ainda de fome e de frio...
Os
remanescentes dos dois exércitos encontraram-se em Jerusalém no verão seguinte,
quando outros cruzados, recém-chegados da Europa, se juntaram a eles.
Desta vez os
dois reis resolveram unir-se. Com inacreditável insensatez, decidiram sitiar
Damasco, uma cidade cujo governante sempre se mostrou muito amigável com os
cristãos. O fracasso foi total. Depois de cinco dias de ataques infrutíferos e
com muitas baixas, os exércitos cruzados desistiram da luta e regressaram à
Europa.
Saladino
Anos de
confusão seguiram-se à desastrosa Segunda Cruzada. Havia desavenças entre os
cristãos, mas também os muçulmanos guerreavam entre si por hegemonia. Durante
algum tempo os Estados cristãos puderam sobreviver graças às divisões entre seus
inimigos.
Foi então que
começou a surgir um reflorescimento muçulmano. Nur ad-Din, governador de Alepo
(Síria), derrotou todos os outros governantes muçulmanos. Em 1164 ele enviou um
exército para invadir o Egito, que era o país muçulmano mais rico da época.
O comandante
daquele exército levou consigo seu sobrinho Saladino, um notável guerreiro. Em
1169, com a idade de 31 anos, Saladino foi feito governador do Egito. Depois da
morte de Nur ad-Din e de seu filho, tornou-se Sultão de um Império que se
estendia do Egito até a região central da atual Turquia.
Em 1187, à
frente de poderoso exército, Saladino invadiu a Terra Santa.
Uma a uma as
fortalezas caíam diante das tropas lideradas por Saladino. Por volta de
setembro, seus exércitos já haviam cercado Jerusalém. Os defensores da cidade,
muito menos numerosos que os soldados muçulmanos acabaram por se render.
Em 2 de outubro
de 1187, os muçulmanos entraram em Jerusalém e começaram a destruir todos os
altares e cruzes dos Lugares Santos...
Algumas palavras sobre o Sultão Saladino
Numa época em
que era comum os governantes mostrarem-se traiçoeiros e cruéis, Saladino ficou
famoso por sua humanidade e honestidade. Tendo dado sua palavra, fosse a um
amigo ou a um inimigo, ele sempre a mantinha. Tinha grande amor pelas crianças e
as histórias de seu carinho para com elas e sua gentileza para com os
desprotegidos fizeram dele uma lenda.
Saladino era
implacável na luta, mas generoso na vitória. Ao contrário do que acontecia com
os exércitos cristãos, seus homens nunca macularam seus trunfos com o massacre
de prisioneiros indefesos...
A
Terceira Cruzada – Nova cruzada de reis
A perda de
Jerusalém revoltou todos os cristãos. Incitados pelo papa, os principais
monarcas da Europa decidiram-se a participar de uma nova cruzada. Em maio de
1189 iniciou-se a partida para o Oriente. Foi o maior exército jamais reunido
para uma expedição à Terra Santa, e a notícia de sua chegada alarmou os
muçulmanos da Palestina.
Mas o desastre
mudou completamente o rumo dos acontecimentos: ao atravessar um rio, o Imperador
Frederico I (o “Barba Ruiva”), então com 70 anos de idade, morreu afogado. Sem a
sua liderança, o gigantesco exército alemão rapidamente se desintegrou. A maior
parte dos soldados voltou para a Alemanha; apenas uns poucos se decidiram a
seguir para a Terra Santa.
No ano
seguinte, Filipe Augusto, da França, e Ricardo I (o “Ricardo Coração de Leão”),
da Grã Bretanha partiram numa cruzada conjunta. Seus exércitos se encontraram na
Sicília, onde passaram o inverno. Na primavera de 1191, zarparam em direção ao
porto de São João D’Arce, no Reino de Jerusalém, para socorrer um exército
cristão atacado pelas tropas de Saladino. Ricardo desviou-se da rota para
capturar a ilha de Chipre e só chegou a Arce em junho.
Os extenuados
cristãos que sitiavam São João D’Arce estavam sendo dizimados pelo exército de
Saladino, mas a chegada dos ingleses e franceses trouxe-lhes novo ânimo. Os
recém-chegados construíram poderosas catapultas e altas torres de assalto para,
com a ajuda destas armas de guerra, empreenderem uma série de ataques contra as
bem protegidas muralhas de Arce. Os homens de Saladino não conseguiram
repeli-los e o ânimo dos que defendiam a cidade se abateu.
Em 8 de julho,
os muçulmanos acabaram por se render, e os cristãos penetraram na cidade.
Saladino bateu em retirada e Filipe Augusto voltou para a França, deixando o
comando dos exércitos cristãos ao Rei Ricardo Coração de Leão. O rei inglês
perseguiu Saladino em sua retirada para o sul, em direção a Jerusalém.
A
Batalha de Arsuf e o Tratado de Paz
Muitos cristãos
morreram de calor durante a marcha, e muitos outros foram mortos nas batalhas
que diariamente eram travadas. Em Arsuf, os muçulmanos interceptaram a marcha do
exército de Ricardo. Os soldados da infantaria de Saladino atacaram em ondas,
mas suas flechas e lanças leves não conseguiam perfurar a espessa armadura dos
cruzados. Os muçulmanos foram varridos dos campos de batalha e perseguidos em
sua marcha em direção a Jerusalém.
Em Arsuf, os
muçulmanos foram vencidos, mas não destruídos. Saladino conduziu-os
ordenadamente a Jerusalém, enquanto Ricardo estabelecia seu quartel-general no
porto vizinho de Jafa.
A essa altura,
Saladino e Ricardo nutriam grande respeito um pelo outro e começaram a perceber
ser improvável uma vitória definitiva de um dos lados. Saladino adoeceu e
Ricardo estava ansioso por voltar à Inglaterra, onde seu irmão, João Sem Terra
conspirava contra ele (são dessa época as narrativas de Robin Hood, por
exemplo...).
Em outubro de
1191, representantes dos dois monarcas começaram a discutir a paz. Mas a luta
prosseguia e Saladino se aproveitou da ausência de Ricardo para capturar Jafa. O
monarca inglês apressou-se em voltar para reconquistar a cidade, no que foi bem
sucedido. Ambos os lados já estavam fatigados da luta e as conversações de paz
foram retomadas. Em setembro de 1192, os dois soberanos assinaram um Tratado de
Paz e Ricardo pode final e definitivamente regressar à sua pátria.
A
Quarta Cruzada – Saque de Constantinopla
Em 1198, o papa
Inocêncio III, convocou uma outra cruzada para conquistar Jerusalém. Os nobres
que planejaram a campanha estabeleceram como primeiro objetivo o Egito, o mais
rico e paradoxalmente o menos protegido dos Estados muçulmanos.
Para atacar o
Egito era necessário o acesso marítimo e apenas a cidade de Veneza podia
fornecer uma esquadra capaz de transportar o exército de cruzados e seus
suprimentos. Os venezianos concordaram em alugar seus navios, mas exigiram uma
importante mudança de rumos. Já não seria o Egito o primeiro objetivo, mas
Constantinopla. Isso aconteceu porque o príncipe Aleixo, herdeiro do trono
bizantino, propôs um vantajoso negócio ao governante de Veneza: os cruzados o
ajudariam a recuperar o trono que havia perdido nas disputas da família real e
os mercadores de Veneza receberiam em troca o monopólio do comércio de
Constantinopla, que era o mais importante centro comercial da época. Além disso,
os cruzados teriam pagas as despesas de transporte até o Egito.
De
empreendimento de cunho religioso, esta cruzada revestiu-se de um aspecto de
negócio ou “negociata”. Já o comércio começa a imperar sobre a Fé; caem as
máscaras que motivaram, no fundo, a realização das cruzadas.
A frota
veneziana chegou a Constantinopla em julho de 1203 e os cruzados reconduziram
Aleixo ao trono. Mas a população reagiu obrigando os cruzados a acamparem fora
das muralhas da cidade, enquanto a frota ficava ancorada no porto.
O príncipe –
agora Imperador – Aleixo não pode pagar as despesas da expedição conforme sua
promessa e os cruzados decidiram-se a atacar e saquear a rica cidade,
massacrando boa parte de sua população. Foi o maior ato de pilhagem de toda a
Idade Média: roubaram-se relíquias, objetos de arte, tesouros de imenso valor,
etc.
Os cruzados
formaram então o Império Latino de Constantinopla, sob a tutela de Veneza e os
venezianos finalmente obtiveram o cobiçado monopólio do comércio da cidade. Com
isso, os objetivos da Quarta Cruzada desapareceram, já que seus integrantes nem
chegaram a enfrentar os infiéis...
A
Cruzada das Crianças
O pequeno
pastor francês Estevão estava persuadido de que somente os puros de coração e
mente poderiam reconquistar a Terra Santa. Conseguiu fazer centenas de
prosélitos em toda a Europa Ocidental.
No verão de
1212, milhares de crianças, principalmente francesas e alemãs, deixaram suas
casas para se juntar a uma cruzada. Nenhuma delas conseguiu chegar à Terra
Santa.
O grupo francês
dirigiu-se a Marselha, onde mercadores inescrupulosos lhe ofereceram transporte
gratuito até a Palestina. Algumas das crianças afogaram-se numa tempestade; as
restantes foram vendidas como escravas...
As crianças
alemãs foram para a Itália, mas não conseguiram seguir adiante. Sem dinheiro e
sem comida, tiveram de mendigar para sobreviver. Pouquíssimas conseguiram voltar
para casa.
A
Quinta Cruzada – outro fracasso
Por volta do
outono de 1217, cristãos de muitos países europeus reuniram-se em São João D’Arce,
para outra tentativa de reconquista da Terra Santa; dentre eles Francisco de
Assis. Eles planejavam atacar primeiro o Egito. Com aquele país em mãos, todo o
sul da Palestina, inclusive Jerusalém, cairia sem nenhuma resistência.
O porto de
entrada para o Egito era Damieta, situado na foz do Nilo. Os cruzados levaram um
ano para capturar o porto e ainda mais tempo brigando uns com os outros antes de
subirem o rio para penetrar no Egito. Sem perceber o risco que corriam,
acamparam às margens do rio, onde o inimigo só precisou abrir as comportas para
afogá-los. Os cruzados não tiveram outra escolha senão aceitar uma paz
humilhante, abandonando o Egito sem conseguir absolutamente nada!
A
Sexta e a Sétima Cruzadas – vitórias diplomáticas e tragédias militares
A Sexta Cruzada
foi comandada por Frederico II, da Alemanha. O monarca chegou ao Oriente em
1228, mas muitos cristãos locais não quiseram juntar-se a ele. Para sua sorte os
muçulmanos mostravam-se igualmente divididos. Ambos os lados preferiam
parlamentar ao invés de lutar.
As negociações
se estenderam por todo o inverno e, em 29 de fevereiro de 1229, chegou-se a um
acordo de paz, assinado para durar 10 anos. Os cristãos foram muito mais
favorecidos pelo tratado, pois obtiveram Jerusalém, Belém e Nazaré. A cruzada
representou o triunfo de Frederico. Através de negociações inteligentes ele
alcançou o que anos de guerra não tinham conseguido.
O que Frederico
conquistou perdeu-se em 1244, quando os muçulmanos expulsaram os cristãos de
Jerusalém. Para reconquistar a cidade foi organizada uma cruzada em 1248, sob o
comando de Luís IX, da França.
Luís atacou
primeiro o Egito, e Damieta caiu sem oferecer grande resistência. O exército do
rei subiu o Nilo cautelosamente, mas os egípcios bloquearam o rio na retaguarda
do inimigo, cortando-lhe o fluxo de suprimentos. Os alimentos acabaram e,
enfraquecidos pela fome e por doenças diversas, Luís e todo o seu exército foram
cercados e feitos prisioneiros.
O rei e os
nobres que tinham dinheiro suficiente para tanto foram libertados mediante o
pagamento de um enorme resgate. Os demais cruzados foram mortos ou vendidos como
escravos.
O
Fim da Cruzadas
A Sétima
Cruzada terminou em tragédia, mas o pior ainda estava por vir. Em 1260, dez anos
depois da derrota do rei Luís, chegou ao poder no Egito o sultão Baybars. A ele
caberia unir os muçulmanos e expulsar os cristãos do Oriente.
Baybars
pertencera à milícia dos mamelucos, guerreiros de elite encarregados da defesa
pessoal dos sultões egípcios. Era um muçulmano fanático e tão bom general quanto
Saladino havia sido. Uma a uma, as cidades e fortalezas cristãs da região caíram
diante dele, até que apenas Trípoli e São João D’Arce continuaram em poder dos
cristãos. Baybars morreu em 1277.
Uma trégua
entre os dois lados aplacou a luta por um certo tempo, mas em 1289 os muçulmanos
recomeçaram os ataques às fortalezas cristãs remanescentes. Rapidamente tomaram
o porto de Trípoli e se aproximaram de Arce.
Os muçulmanos
que sitiaram São João D’Arce eram cinco vezes mais numerosos que os defensores
da cidade. Os projéteis lançados por suas máquinas de assalto abalaram as
muralhas.
Em 18 de maio
de 1291, antes do amanhecer, teve início o ataque final. Ao por-do-sol, os
atacantes já estavam dentro da cidade e quando a noite caiu eram senhores de
Arce e de todo o Oriente cristão. Uns poucos defensores conseguiram escapar por
mar. Os que sobreviveram foram massacrados ou escravizados.
A idéia das
cruzadas, contudo, não morreu depois da catástrofe de São João D’Arce. Os
cristãos do Ocidente encontraram outros inimigos contra quem lutar, como os
eslavos e os muçulmanos da Espanha. Novas cruzadas se dirigiram à Palestina, mas
nenhuma delas conseguiu chegar lá. O sonho de uma Terra Santa segura para os
peregrinos e governada por cristãos acabara para sempre.
Um balanço das Cruzadas
Os cruzados
voltavam para suas terras de origem com um gosto pelos novos luxos e confortos
descobertos durante a viagem. As cidades italianas, principalmente Veneza e
Gênova, ficaram imensamente ricas com o comércio desses produtos na Europa.
O grande
desenvolvimento do comércio que as cruzadas propiciaram foi um dos fatores das
profundas transformações que levaram do Modo de Produção Feudal ao Modo de
Produção Capitalista na Europa durante os séculos seguintes; em outras palavras,
aquelas grandes expedições de caráter primordialmente ou alegadamente religioso
prepararam o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna.
Em muitos
outros aspectos as cruzadas foram um desastre! Os cruzados não conseguiram
expulsar definitivamente os muçulmanos E isso durou por séculos, chegando até os
nossos dias.
Templários, a
Maçonaria e as Cruzadas
Muitos dos que me honram com uma visita pedem que fale um pouquinho mais sobre
os Templários. Bem, há um novo livro na praça e acabo de levar ao ar uma resenha
que vem responder a este interesse. Está em
Nascidos do Sangue.
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"Os Templários",
resenha da epopéia dos "Pobres Cavaleiros de Cristo
e do Templo de Salomão", organização Religiosa e militar traída pela monarca
francês e o papa marionete Clemente V...
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e saiba mais!
A Obra:
Cronologia
1071 – Os
turcos destroem o exército bizantino em Manzikert, tomam Jerusalém e proíbem as
peregrinações cristãs.
1095 –
Concílio de Clermont. O papa Urbano II prega a primeira Cruzada
1096 –
Reúne-se a “Cruzada dos Pobres”, massacrada pelos muçulmanos. Partida da
Primeira Cruzada, a “Cruzada dos Nobres”.
1097 – Os
turcos são derrotados em Dorileu. Os cruzados tomam Jerusalém e fundam quatro
feudos na Palestina.
1119 –
Fundação da Ordem dos Templários.
1144 – Os
turcos capturam Edessa.
1146 –
Bernard de Clairvaux prega a Segunda Cruzada.
1147 –
Partida da Segunda Cruzada. Os turcos derrotam os cruzados em Dorileu.
1148 – Os
cruzados não conseguem vitória significativa. Fim melancólico da Segunda
Cruzada.
1181 –
Saladino se torna sultão do Egito.
1187 –
Saladino, liderando seus exércitos, invade a Terra Santa e conquista Jerusalém.
1189 –
Frederico I, o “Barba Ruiva”, comandante da Terceira Cruzada, morre afogado.
1190 –
Filipe Augusto, da França e Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra partem em
cruzada.
1191 – Os
cristãos capturam São João D’Arce e Ricardo derrota saladino na Batalha de
Arsuf.
1192 –
Ricardo e Saladino assinam um tratado de paz. Ricardo deixa o Oriente.
1198 – O
papa Inocêncio III prega a Quarta Cruzada.
1204 – Os
cruzados capturam e saqueiam Constantinopla.
1212 –
Cruzada das Crianças.
1217 – Os
cruzados se reúnem mais uma vez em São João D’Arce.
1221 – Os
cruzados são emboscados no rio Nilo e forçados a bater em retirada. É o fim da
Quinta Cruzada.
1228 –
Frederico II chega ao Oriente liderando a Sexta Cruzada.
1229 –
Frederico assina um tratado de paz reconquistando Jerusalém e os Lugares
Sagrados.
1244 – Os
muçulmanos tomam Jerusalém.
1248 – Luís
IX, da França, conduz a Sétima Cruzada.
1250 – Luís
e seus exércitos são derrotados e aprisionados.
1291 – Queda
de São João D’Arce. Fim do domínio cristão na Terra Santa.
A
Paz que ainda não veio
Mais de
novecentos anos após a Primeira Cruzada, a região do Oriente Médio em geral,
Palestina em particular, é uma das áreas mais conflituosas do globo terrestre.
Desde 1948 a Organização das Nações Unidas estabeleceu um território para o
Estado Nacional de Israel e um outro – Cisjordânia e Faixa de Gaza – para o
Estado Nacional Palestino. Israel, além de descumprir todas as determinações da
ONU, ocupa espaço em cinco Estados muçulmanos: Líbano, Síria, Cisjordânia, Gaza
e Jordânia, acirrando os ânimos de fundamentalistas muçulmanos que se defendem
como podem, com atos ditos de “terrorismo” e fundamentalistas judeus que oprimem
o povo palestino negando-lhes autonomia e auto-determinação.
Têm havido
várias guerras entre Israel e os países de Fé muçulmana. Israel conta com o
apoio dos EUA, a única superpotência do mundo nos dias de hoje e, sob a suspeita
de que outras nações financiavam “grupos terroristas” os EUA também descumprem
determinações da ONU em guerras intermináveis no Oriente Médio. Não há
perspectiva de paz à vista
Uma reflexão
Se amarrar explosivos no próprio
corpo e explodir-se numa loja de conveniência, supermercado, parada de ônibus ou
lanchonete é considerado “ato de terrorismo”, como considerar os bombardeios
constantes e freqüentes de Israel e EUA à população civil – e muitas vezes
mantida iletrada – das Nações Muçulmanas?
Para Saber Mais - Leitura indicada

Confronto de Fundamentalismos:
Cruzadas, Jihads e Modernidade Tariq Ali
Sociologia,
Filosofia, Psicologia e Ensaios Críticos
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