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Década Perdida – Dez Anos de PT no Poder – Marco Antonio Villa (Uma Resenha)

Lançamento: 2013

Páginas: 278

Editora Record

A Década Perdida - Dez Anos de PT no Poder - Marco Antonio Villa

Mensalão - O Julgamento do maior caso de corrupção da História Política do Brasil - Marco Antonio Villa

 

 

 

 

Sobre o Autor: Marco Antonio Villa é Bacharel e Licenciado em História, Mestre em Sociologia e Doutor em História. Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (1994-2013)

 

 

 

Indispensável à biblioteca de todo o pesquisador sério

          Após “Mensalão - O Julgamento do maior caso de corrupção da História Política do Brasil”, publicado pela LeYa, Villa nos brinda com mais um trabalho de peso e de fundo sobre os últimos dez anos do que aconteceu no cenário político nacional desde a posse de Lula da Silva até o final do julgamento do Mensalão em 2012.

          Dotado de uma prosa cativante sem perder jamais o rigor científico, Villa paginou seu trabalho no formato de um capítulo para cada ano. Um livro que se lê com avidez e espanto, trazendo algumas novidades e muito do que se acompanhou na imprensa momento a momento nos últimos dez anos. Pessoalmente, me vi incapacitado de deixar o livro já após ler as primeiras linhas e a contracapa, onde está registrado: “Vivemos um tempo sombrio, uma época do vale-tudo. Desapareceram os homens públicos. Foram substituídos pelos políticos profissionais. Todos querem enriquecer a qualquer preço. E rapidamente. Não importam os meios. Garantidos pela impunidade, sabem que, se forem apanhados, têm sempre uma banca de advogado, regiamente paga, para livrá-los de alguma condenação. São anos marcados pela hipocrisia. Não há mais ideologia. Longe disso. A disputa política é pelo poder, que tudo pode e no qual nada é proibido. O Brasil de hoje é uma sociedade invertebrada. Amorfa, passiva, sem capacidade de reação. É uma república bufa. Uma República petista.”

          Embora concorde com a maioria das conclusões a que o Autor chega em vários pontos, não é um livro voltado a este tipo de consideração. Principalmente descritivo, com embasamento em farta documentação citada nas notas de rodapé ou na bibliografia constante ao final, trata-se de um registro histórico do que aconteceu e ainda está fresco na memória de quem prestou atenção ao noticiário nesta década, de fato desperdiçada.

          Ao ler o trabalho de Villa, senti algo similar ao que havia sentido ao ler “1968, o que fizemos de nós”, do Zuenir Ventura: um conhecimento necessário mas, francamente, extremamente doloroso. Escrevo com o coração neste momento (na falta de um cipó, usualmente escrevo com um azorrague, aqui coube uma exceção) para desabafar meu desconforto. Ler o que a cambutadefedapada que tomou o poder nos vem fazendo momento a momento é como recordar um processo de tortura: “em 2003 nos enfiaram agulhas nos olhos; em 2004 nos arrancaram as unhas; em 2005 nos penduraram no pau-de-arara...” Confesso que senti algo assim. Mas não pude abandonar a leitura enquanto não a concluí que o livro é realmente MUITO BOM. Além de bem escrito – a prosa do Villa sempre me seduziu, confesso – e rigorosamente embasado em dados e fatos facilmente conferíveis, o Autor critica também severamente a oposição mais dócil da história do Brasil (adjetivação minha, o Autor critica a oposição em termos bem mais sóbrios e consentâneos com o rigor acadêmico, naturalmente) que perdeu uma oportunidade única de interromper a escalada do descalabro quando, em 2005, optou por não levar adiante o que a legislação brasileira manda que se faça, ou seja, iniciar um processo de impeachment de Lula da Silva – e não faltaram motivos! – a oposição fez uma avaliação equivocada do quadro e apostou que a opinião pública executaria – através da votação obrigatória em urnas eletrônicas – o que lhes faltou coragem de fazer: remover um mandatário incompetente e corrupto. A oposição perdeu a aposta e o Brasil perdeu – e segue perdendo – muitíssimo com isso.

 

Um parêntese contrariado antes de mergulhar na resenha: como assim “sem ideologia”?

          Tornou-se comum nos meios acadêmicos falar-se que o mundo vive, “após a queda do muro de Berlim”, um tempo “sem ideologia”. O argumento é que há uma concordância entre todas as facções político-partidárias quanto ao encaminhamento político e econômico das nações do Globo Terrestre em torno dos ditames da Bolsa de Valores de Wall Street no que se tornou conhecido como “Consenso de Washington”. Mas... Isso não é... IDEOLOGIA?

          Sufoca-se o movimento sindical – não apenas no Brasil, o fenômeno é internacional –, supervaloriza-se a moeda do Império e, muito pior, em acintosa afronta aos fatos prega-se (na imprensa como nas academias) que os serviços públicos são de má qualidade e deve-se proceder privatizações e desregulamentações de um tipo de capitalismo que causaria náuseas até a Adam Smith! E isso não é ideologia?

          Não há espaço – mesmo nas Universidades Federais, pasme o eventual leitor – para a discordância ou dissidência. Há que se concordar com o Pensamento Único (que não é considerado “ideológico”, quem discordar da Ideologia Dominante é, ele sim, portador de uma “ideologia” e, segundo os cânones dogmáticos das academias contemporâneas, “ideologia ultrapassada”). E isso apesar – ou talvez por causa – de se estar procedendo a um sucateamento proposital do Ensino Público há mais de 20 anos, pelo menos no caso brasileiro, ainda em 2013 as Universidades Públicas são inquestionavelmente superiores – em resultados e excelência pedagógica – a suas similares privadas. E isto num quadro de salários aviltadíssimos de todo o funcionalismo público e falta crônica de investimentos no setor. Portanto, apesar da evidente superioridade do serviço público de educação superior é preciso (“sem ideologias”) repetir o mantra sectário tradicional: a máquina pública é perdulária e há que se privatizar todos os setores da economia. Que se gasta mal o dinheiro público é evidente! A corrupção descarnada, descarada, desavergonhada do caso brasileiro é emblemática. Mas se, como na Escandinávia, no Canadá, na França, na Inglaterra ou em qualquer país que ainda consegue prover algum bem-estar social a seus cidadãos se mantiver a Saúde e a Educação, pelo menos estas, dentro da dimensão pública com eficiência e FORA da corrida de lobos dos mercados, já se terá uma conquista significativa!

          O fracasso da experiência socialista na União Soviética (e é disso que se está falando quando se papagueia “a queda do muro de Berlim”) deve-se a uma série de fatores EXTERNOS ao ideário comunista, particularmente a partir da ascensão do criminoso Stálin em 1924. A repetição do mantra burguês “o muro de Berlim caiu” visa desarmar qualquer tentativa de se pensar o comunismo de maneira séria. Quando um burguês diz: “o muro de Berlim caiu” está, implicitamente, dizendo, “ficam os povos do mundo proibidos de sequer sonhar com algo melhor que o encaminhamento rapinante dos mercados que vivemos no mundo contemporâneo”. Mas, repitem ad nauseam, “isso não é ideologia”. Seria cômico se não fosse trágico!

          Minha única discordância com meu Amigo Villa, portanto, reside neste ponto – e ele, como professor de uma das melhores Universidades Públicas do Brasil conhece de perto a realidade sórdida dos salários e condições de trabalho da categoria – vivemos um tempo com ideologia, sim, meu Amigo. O que Herbert Marcuse chamava de Pensamento Único e hoje se chama de Globalização.

          Depois que li “Our Inner Ape” e “Bonobo – The Forgotten Ape”, ambos de Frans de Waal, vejo como são semelhantes as três espécies do gênero “homo” (troglodita = chimpanzé; paniscus = bonobo; sapiens = humano) em seus comportamentos político e sexual. E me espanto de haver conseguido me formar em antropologia sem jamais haver sequer sido estimulado a pensar em nossos primos comuns. Muito do comportamento primata de tucanos e petistas já aparece em chimpanzés e bonobos. Corrupção, chantagens, golpes; assim como altruísmo e empatia são características primatas anteriores às formações religiosas e, evidentemente, políticas. Mas divago...

          Quando “o PIB cresce”; “o desemprego diminui”, “as importações aumentam”, “o risco país cai”, “a bolsa está em alta e o dólar em baixa” – ou o contrário – se está enrodilhado na Jaula de Ferro a que Max Weber se referia e preso irremediavelmente a um tipo de análise ideologicamente clara e datada. Ressalva feita, vamos à Obra.

 

 

Ano a ano

          O livro é muito bom, a resenha difícil. Ressalto apenas alguns dos muitos itens que o Autor compilou na composição da Obra.

2003

          Lula assume a presidência e afirma reiteradas vezes que “jamais foi de esquerda” – de fato, é bom lembrar isso, que até ele deve ter se esquecido pois atualmente todo o mundo – em particular os neo-conversos ao petismo – fala que Lula é e sempre foi de esquerda. Frei Betto e Emir Sader à frente. Estou preocupado com a saúde do Emir Sader. O que ele escreve no BLOG é tão diferente de tudo o que escrevia antes de 2003 que se torna difícil crer tratar-se da mesma pessoa. Dada sua idade avançada, talvez caiba a sua família verificar o que está acontecendo com a saúde de um homem que escreveu, traduziu e apresentou obras importantíssimas para a esquerda brasileira e hoje se tornou um reles propagandista do lulopetismo.

          Neste capítulo revemos os personagens da época vivamente apresentados com o brilhantismo da pena segura de Villa. José Dirceu como “homem forte”, verdadeiro “Primeiro Ministro Informal” do presidencialismo brasileiro; Frei Betto e o Programa Fome Zero (que não deu em nada exceto o que os religiosos poderiam considerar uma blasfêmia: para Frei Betto Lula seria maior que Jesus Cristo por realizar um milagre ainda maior que a mera multiplicação de pães e peixes – como tudo o que envolve religião, ficou-se somente nas palavras mesmo); o cabidão de emprego aos rejeitados pelo eleitorado em seus estados natais; até o defeito no Rolls Royce que precisou ser empurrado e a chuva de lágrimas de crocodilo na posse.

          Começa o racha dentro do PT com os autênticos recebendo a alcunha de “radicais” e acabando expulsos do partido por não acatar o alinhamento do PT com a continuidade da política econômica ideologicamente orientada pelos tucanos na gestão anterior.

          Revemos as “emoções” em clima feérico, meio carnavalesco, meio futebolístico, do ufanismo vazio em torno de um “operário” que chegou à presidência de seu país. A lua de mel com a imprensa e a promessa de moralização da coisa pública – entre tantas promessas que jamais se cumpriram.

2004

          O caso Waldomiro Diniz e o fim da lua de mel de Lula com a imprensa: paladinos da ética recebendo propina de bicheiros e propondo a legalização de bingos. Propõe-se uma CPI que o governo consegue contornar. Larry Rhotter escreve para o New York Times que Lula da Silva “tem um problema com a bebida” e que isso preocupava seus aliados. Ameaça de expulsão do jornalista estadunidense. Com a corrupção de Waldomiro/Dirceu, Antonio Palocci se torna o novo “homem forte” do governo Lula, elogiadíssimo por todos os banqueiros e apostadores da bolsa, consequentemente por toda a imprensa e intelectualidade venal brasileira. Almir Pizolatto usa o Banco do Brasil para contratar cantores e pagar por um evento voltado a arrecadar fundos para um partido político que começa a se confundir com o Estado – não se sabia na época, mas era apenas a ponta do iceberg...

 

2005

          Aqui cabe, entre parênteses, uma citação direta.

          “Em fevereiro de 2013, o PT aproveitaria a comemoração de mais um aniversário para fazer uma exposição na Câmara dos Deputados, onde amplo painel apresentava uma linha do tempo com a história do partido. Sintomaticamente, o ano de 2005 fora suprimido: a 2004, sem qualquer explicação, seguia-se um salto para 2006. Não era para menos...”

          Em todo o noticiário apareceu a imagem de Maurício Marinho, um funcionário dos Correios, que cobrava uma propina de R$ 3 mil, segundo ele, com o respaldo do deputado Roberto Jefferson. Como um novelo de lã enrolado aparecia o primeiro fio que desembocaria no Escândalo do Mensalão.

          Para ampliar a base de sustentação do governo, o PT comprou o PTB. Comprou e não pagou o combinado no momento azado. Parlamentares petebistas acusavam Jefferson de ficar com a grana (ninguém questionou a venda do partido) que partiu para o ataque e, através da Folha de S. Paulo, começou a detalhar o esquema do Mensalão. Na Câmara, sem acordo, elegia-se o inexpressivo Severino Cavalcanti para a presidência e a economia, segundo o Autor, “ia bem”. Talvez. Também sou funcionário público. Aposentado. O último reajuste que tive foi no segundo mandado de FHC e girou em cerca de 1% após mais de 8 anos sem reajuste algum. Talvez o desemprego tenha caído, mas, diante do quadro negro vivido no cotidiano real dos brasileiros, custo a crer que os salários fossem miseramente significativos.

          Em junho o depoimento de Roberto Jefferson no Conselho de Ética da Câmara, assistido no Brasil como se em clima de final de copa do mundo. Pessoalmente não me recordo de haver testemunhado tanto interesse por parte da população na atividade parlamentar quanto naquela ocasião. Jefferson brilhou e terminou seu depoimento com um ultimatum a José Dirceu (que cumpre pena de 10 anos e 10 meses no presídio da Papuda por corrupção e formação de quadrilha) “Zé Dirceu, se você não sair daí rápido, você vai fazer réu um homem inocente, que é o presidente Lula” e reiterava apocalíptico: “Rápido, sai daí rápido, Zé!”. A propalada “inocência” de Lula da Silva talvez tenha enganado a alguns por algum tempo. Mas a tese jurídica (que determinou a condenação de Dirceu) do “Domínio do Fato” não se aplicaria também a Lula da Silva?

          Quando Jefferson disse que, “ao falar ao presidente que estava acontecendo isso e isso, ele chorou” eu me lembrei de William Shakespeare em Otelo (Ato 4, Cena 1): “Oh, demônio, demônio! Se as lágrimas de uma mulher pudessem fecundar a terra, cada gota que caísse daria luz a um crocodilo!” Tudo teatro...

          Instaura-se a CPI Mista (da Câmara e do Senado) dos Correios, o governo se mobiliza primeiro para evitar sua instalação, depois para ficar com a presidência e a relatoria (vejo nisso uma grave falha em nossas leis: se um partido político não quer a instalação de uma CPMI deveria ficar impedido pelo menos de presidi-la ou relatá-la, mas o Brasil...). O petista Delcídio Amaral fica com a presidência e o peemedebista Osmar Serraglio com a relatoria. Noam Chomsky ressalta a importância da opinião pública em todos os processos políticos, alçando-a mesmo ao nível de um 4º Poder. Mais por força da Opinião Pública – que, fato raro em nosso país, acompanhou atentamente os desdobramentos daquela CPMI – do que pelas qualidades éticas de seus membros, o relatório final foi satisfatório e encaminhado ao Ministério Público. Levaria 8 anos para que toda a tramitação chegasse a seu fim – punindo alguns, livrando outros – sempre sob o crivo da Opinião Pública, grande agente em todo o processo.

          Naquele instante a oposição perde todas as oportunidades de trazer Lula da Silva às falas e instaurar um processo de impeachment. Na avaliação de tucanos e pefelistas (o DEM ainda não havia recebido este nome) “Lula deveria ser mantido nas cordas, sangrando” e o povo, em sua sabedoria, o repudiaria nas urnas. Erro grave de avaliação. No Mahabharata, a rainha Kunti, pouco antes da batalha de Kurukshetra manda, através de Krishina, um recado a seu filho Yudishtira (filho dela com o deus Dharma): “um mau rei é uma doença contagiosa que corrompe o reino inteiro”. No Brasil dizemos que “o peixe começa a apodrecer pela cabeça”. Bem, o povo brasileiro, aparentemente, aprovou todos os desmandos de Lula da Silva e o reelegeu... Pior para todo mundo. Ele passa a se julgar acima de todas as instituições e considera haver recebido do povo um cheque em branco para fazer o que bem entendesse – e, aparentemente, não estava equivocado...

 

 
 
 

2006

          O ano começa com um escândalo envolvendo o então todo-poderoso Führer da Economia Antonio Palocci. Estaria envolvido em negociatas não republicanas com pessoas que atendiam pelo nome de Buratti e Poletto (Naquele momento muita gente pensava: quando se votou em Lula se elegia também Valério, Delúbio, Poletto e Buratti? Sim.).

          Recebido mais do que com afabilidade pelos senadores, Palocci vai explicar reuniões secretas numa mansão que alegava desconhecer, assim como os citados cidadãos mencionados acima. Sai praticamente sob aclamação deste primeiro encontro.

          Outros cidadãos brasileiros são chamados a depor no Senado e um se destaca: o caseiro Francenildo, que cuidava da mansão e afirma ter visto, sim Palocci, os outros citados e muito mais gente – inclusive “garotas de programa” frequentemente na tal mansão. O coitado do Francenildo recebeu pouco mais de R$ 20 mil de seu pai através de transferência bancária e isso foi divulgado na imprensa como se houvesse se tratado de propina tucana para que ele mentisse ao senado a fim de minar Antonio Palocci.

          Quando a verdade veio à tona, não restou a Palocci senão renunciar, com o governo e a oposição a aplaudi-lo muito pelo “excelente” encaminhamento da economia brasileira, todos com um terror pânico de assustar “os mercados”. Manteiga assume a pasta da Fazenda e dá continuidade à esbórnia iniciada por FHC e sua farândola e continuada por Antônio Palocci, para alegria geral “dos mercados” e infelicidade geral da nação. O Autor insiste que, apesar de tudo a economia “ia bem”. Estou com 54 anos de idade. Os últimos 15 anos foram os piores de toda a minha existência, para mim, toda a minha família e todas as pessoas com quem tenho algum tipo de relacionamento: todos hoje têm de trabalhar muito mais em troca de um rendimento muito menor do que no passado. Se isso é indicativo de alguma coisa... Enfim, eu não entendo deste tipo de economia que “deixa o país bem” mas os trabalhadores seguem ladeira abaixo em todos os indicadores imagináveis – ressalvadas as maquiagens de estatísticas, outra marca relevante desta década perdida. E fico contrariado ao ver gente que vive hoje pior do que vivia há 15 anos afirmando que “tudo está bem” ou mesmo “as coisas estão hoje muito melhor”.

2007

          Lula perde o – pouquíssimo – pudor. Assume a presidência da república em seu segundo mandado com o paroxismo da propaganda e marquetagem. Pior, dada a inépcia da oposição, com a chancela popular para corromper, roubar, censurar, pressionar, “fazer, enfim tudo o que precisa ser feito” para preservar e ampliar seu projeto de permanecer no poder. O vale-tudo ganha definitivamente o status de única política oficial de governo.

          Uma estratégia de marketing que se demonstra até hoje bem sucedida é a criação da sigla PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Tratou-se de juntar numa só sigla as pouquíssimas atividades a que o governo se reduziu (em geral em “parcerias” com prefeituras, estados e iniciativa privada, como já o fazia FHC) Na prática, o Brasil diminui e a maioria das obras ficou só no projeto – muitas, nem isso.

          A Reforma Ministerial se arrastou por cerca de 6 longos meses – sem proposta programática alguma, mero loteamento do ministério segundo um critério de “cotas” a partidos que deram apoio à reeleição de Lula da Silva.

          A transferência portentosa de recursos do governo para as centrais sindicais e o MST os mantêm sob o controle do governo como não acontecia desde o Estado Novo de Vargas.

          Novamente – e deve ser verdade para alguma parcela da população; o Autor é muito criterioso para falar sem fundamento – “na economia o clima segue favorável”. Evidentemente não favorável a todos, digo eu, não conheço pessoalmente ninguém que tenha se beneficiado com a rapinagem do grande capital especulativo (que os economistas chapa branca insistem em chamar de capital financeiro). Mas deve ter beneficiado alguns, a julgar pelas pesquisas, mesmo sabendo que são desproporcionalmente maquiadas...

          O escândalo e o livramento de Renan Calheiros (o Senado Federal da República também perdeu o decoro como instituição); as benesses do BNDES aos “bolivarianos” em detrimento do Brasil ou dos legítimos interesses nacionais. Nada. Só interessa a Lula seu projeto de permanecer no poder.

          Caos no tráfego aéreo, na Força Aérea e em todas as Forças Armadas a bem da verdade: sem reajustes salariais efetivos há cerca de duas décadas, amarga o Brasil ainda o sucateamento de seu armamento e a quase inexistência de munição.

          Foi naquele ano que Lula afirmou pela primeira vez ser capaz de “provar” que o Mensalão não existiu. Pessoalmente interessado no combate a crenças ilógico-religiosas, aprendi ser impossível (sempre uso esta palavra com cuidado) provar que não existe algo que seja efetivamente inexistente, como deuses, demônios, fadas, gnomos, Saci-Pererê... Fiquei curioso para ver como Lula provaria a inexistência de algo que ficara amplamente provado quando não menos para verificar que argumentos se pode utilizar para provar que algo que supostamente não existiu efetivamente não tinha existência. Era bazófia e isso não serve de argumento para o que eu precisava. Já o argumento de “61% do povo deu a resposta na eleição, no ano passado” é forte. Mas prova apenas que, sob  Lula, a sociedade civil apodreceu, que “o Brasil se apequenou (uma expressão feliz de Villa)”; não que o propinoduto da compra de votos não tenha existido.

          A propaganda exalta tanto “o passado histórico de lutas” de Lula, mensaleiros e operadores do mensalão que a maioria embarca na lenga-lenga. Quando se mergulha no que de fato essa gente fez chega-se a uma equação de soma zero. Qual foi mesmo a contribuição de Genoíno, por exemplo, para o engrandecimento do Brasil ou mesmo a preservação da ética? E de Dirceu? E da inexpressiva Dilma Roussef, por falar nisso? Tudo propaganda. E, de tão repetida, vira verdade no imaginário popular, como já o sabia Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista.

          Villa faz as contas. Lula se formou torneiro mecânico pelo SENAI em 1963. Aposentou-se da Villares em 1972 após cortar o dedo mindinho. Nove anos, portanto. O que se diz em suas biografias autorizadas de autoria de Frei Betto e Emir Sader (e que Lula repete sempre que pode), que “ficou 27 anos no chão de fábrica” é pura mentira. Foi, no máximo, um terço deste tempo. Desde 1972 exerce as funções de sindicalista profissional e só.

          Naquele ano Lula ergue a defesa do Etanol e do que ele chama de combustível verde (é preciso conferir isso, mas consta que os custos de produção do Álcool combustível sejam muito mais elevados que o produto final, o que fere todas as regras do capitalismo e os países desenvolvidos há muito perceberam isso). Com a descoberta de jazidas de petróleo em pontos longínquos da Costa Brasileira e em águas incrivelmente profundas o discurso muda; Lula delira e, de “auto-suficiente em petróleo” – o que, aliás, não somos até hoje – já fala em pleitear um assento entre os membros da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). Muita, muita propaganda. E a maioria, como se sabe, acredita e aceita muito mais a propaganda que sua vida real, bem desagradável e em queda livre.

          Anunciado o início das Obras de Transposição do rio São Francisco – proposta de 1818 e totalmente anacrônica, o problema no Nordeste não é exatamente “falta de água”, mas falta de infraestrutura para o seu armazenamento; além disso, estudos da UNEB demonstram cabalmente que poços artesianos seriam uma alternativa mais barata, rápida e eficaz que a transposição de um rio que agoniza. Um padre faz greve de fome. À toa. Tudo não passou de boutade, em parte eleitoreira, em parte para que os encarregados tomem das empreiteiras a propina usual nestes casos. Em pouco tempo a obra estaria abandonada e o único trecho ainda “vivo” foi construído pelo Exército Brasileiro numa área pedregosa e pouco interessante às empreiteiras. Sem gastar um centavo dos cofres públicos os Servidores Públicos do EB demonstram mais uma vez a falácia neoliberal de que “os serviços públicos são ineficientes e tudo deve ser privatizado”. Tudo que foi feito pela iniciativa privada fracassou. O que coube ao Exército, apesar de todo o desmantelamento de que vem sendo vítima desde que Collor de Mello se tornou presidente (desmoralizado, desarmado, sem fardamentos adequados ou mesmo rancho para os militares) demonstra o quanto prestação de Serviço Público pode ser mais eficiente que a privada.

2008

          O ano da crise da “bolha de crescimento” estadunidense fundamentada nas derivativas e apostas de altíssimo risco que permitiam a até meia centena de cidadãos fazer o seguro de uma única casa. Charles Ferguson denunciaria o esquema de pirâmide e a irresponsabilidade dos banqueiros e apostadores de Wall Street que, em última análise, levaram o mundo àquela crise superável (talvez) somente pela de 1929. Capitalismo sem controle ou regulamentação resulta nisso mesmo mas nada se aprendeu. “Com a queda do muro de Berlim” os apostadores e banqueiros internacionais se sentiam tão livres quanto o Lula para fazer o que bem entendessem com o patrimônio alheio. E, lá como cá, ficariam impunes. Conferir o documentário premiado “Inside Job” e o livro recém lançado “O Sequestro da América” (http://www.culturabrasil.org/sequestrodaamericaferguson.htm), ambos de Charles Ferguson.

          A coisa vinha de longe. Estourou em 2008 e o governo estadunidense providenciou o que eles chamam de “bail out”, no Brasil apelidado de “ajuda para evitar o risco sistêmico”, repassando o dinheiro do contribuinte para salvar os apostadores e banqueiros que fracassaram em suas apostas numa demonstração clara do quão “VISÍVEL” a mão do mercado pode ser no capitalismo desregulado e sem controle.

          No Brasil, o ufanismo de Lula seguia sem limites: “se a crise por lá for um tsunami, por aqui não passará de uma marolinha”, pregava ele. Os anos seguintes (até os dias de hoje) trariam uma verdade diferente, com altíssimas taxas de juros “para tornar o mercado de capitais brasileiros mais atraente aos apostadores da bolsa”; pífias taxas de crescimento; alguns instantes em que – de novo, pesquisas e estatísticas maquiadas e sob rígido controle – cai o desemprego mas também a renda do trabalhador. Incentivam-se os empréstimos predatórios, como se fez nos EUA resultando num contingente enorme de famílias inadimplentes, pois não há aumento efetivo na renda das famílias, ao contrário, esta segue em queda livre há pelo menos duas décadas.

          À página 176 da 1ª Edição de “Década Perdida” lemos “O governo aprofunda os laços com o grande capital e tinha no BNDES o principal instrumento para viabilizar esta aliança. Diferentemente do período do regime militar, que incentivava a então chamada “tríplice aliança” (tripé formado pelas empresas estatais, nacionais e estrangeiras), o lulismo colocou os recursos financeiros do Estado a serviço do grande capital.”

          A escandalosa compra da Brasil Telecom pela OI demandou uma modificação na Constituição Brasileira (não creio que haja no Brasil quem saiba que conjunto de leis regem nosso pacto social, a Constituição promulgada pelo congresso constituinte em 1988 já tem mais emendas que artigos – e são muitos – a única certeza possível, dadas as tramitações de várias propostas de emendas constitucionais no congresso é que as leis de hoje já não valerão amanhã; o pacto social brasileiro está totalmente esgarçado, mais uma realização lulopetista... :(

          Tarso Genro foi alçado à pasta da Justiça principalmente para impedir que a Polícia Federal investigasse as falcatruas do lulopetismo e Franklin Martins se tornou o Goebbels de Lula profissionalizando ainda mais a máquina de marketing governamental com o requinte da proposta de censura à Imprensa e Internet travestidos de “Conselho Federal de Jornalismo” que, felizmente, não aconteceu. Tampouco saiu dos planos do governo pairando como uma ameaça sobre nós como uma permanente Espada de Dâmocles.

          Com a crise nos EUA um pouco de verdade acaba se refletindo nas estatísticas brasileiras: crescimento pífio, desemprego crescente e salários em queda livre.

2009

          Ainda refletindo a crise do capitalismo desregulamentado e sem controle nos EUA, “a comparação com outros países demonstraria que o Brasil estava entre os mais atingidos pelo desarranjo global, uma situação muito distinta daquela que o governo vinha insistentemente propagandeando”, lemos à página 167.

          Queda do PIB, fuga de dólares (apesar dos juros mais altos do planeta), reservas em baixa, balança comercial desfavorável. Curioso que, quando a economia (do ponto de vista do grande capital, claro está) anda mal, a política apresenta (ainda do ponto de vista das elites com as quais e para as quais Lula governa) pontos positivos.

          O destoamento vem do caso Cesare Battisti que, diz o Autor citando o jurista Armando Sparato “[Batistti] não era um extremista perseguido na Itália por seus ideais políticos, e sim um criminoso comum, que praticava roubos com o fim de lucro pessoal e que se politizou na prisão”. Assassino de pelo menos quatro italianos pede – e recebe – “asilo político” do Brasil. Corporativismo, talvez? Seu modus operandi em nada difere daquele dos aloprados...

          Lula lança vários balões de ensaio na esperança de conquistar um terceiro mandato com o apoio popular através de plebiscito mas desiste da ideia fabricando uma sucessora literalmente do nada. E a campanha para a eleição presidencial de 2010 começa já no primeiro semestre de 2009 com Lula levando Dilma Roussef – que se destaca por sua absoluta inatividade, despreparo e insignificância – a todos os comícios de que participa, apresentando-a como “mãe do PAC”. Roussef é repaginada pelos marqueteiros e passa por uma série de cirurgias plásticas e um banho de cosmética.

          Em 2009 o repasse de recursos do governo ao MST (não para assentamento de famílias, infelizmente) bate todos os recordes e chega a R$ 152 milhões. Não mais lutam pela reforma agrária, mas são um esteio de sustentação importante do projeto de poder de Lula.

          Mais uma vez o Senado, já desmoralizadíssimo, surge feio no noticiário: nepotismo, ascensoristas de elevadores automáticos melhor remunerados que Pilotos de Caça da FAB, excesso de diretorias, atos secretos, o escambau!

          No Paraguai elege-se Lugo (que usa a semelhança com o nome de Lula e o mesmo marqueteiro para seu projeto pessoal de poder) e Lula concede aos hermanos um aumento de 300% no valor da energia gerada por Itaipu além de estender uma linha de financiamento, via IBGE, de R$ 450 milhões para a construção de linhas de transmissão até Assunção.

          O Senado instala uma comissão de ética cujos membros todos tinham muito que explicar e nada a contribuir para o aprimoramento dos costumes. Analisam a situação dos “atos secretos” e outros desmandos divulgados na imprensa e, rapidinho, engavetam tudo num relatório de menos de duas páginas completas.

          Foi também o ano da chicana da ocupação da Embaixada Brasileira em Honduras pelo candidato derrotado Manuel Zelaya,       que recebeu o apoio de Lula, permaneceu na Embaixada – transformada em sede de um grupo golpista apoiado por uma nação estrangeira contra os interesses do povo hondurenho, fenômeno inédito na diplomacia brasileira – por quatro longos meses. O Itamaraty sai chamuscado do episódio. Lula segue com a popularidade em alta. E Dilma cresce nas pesquisas antes mesmo da sucessão começar.

          O Tribunal de Contas da União encontra irregularidades em várias obras tocadas pelo governo debaixo da nova grife “PAC”. O governo ensaia desautorizar o TCU e criar um órgão acima do TCU “pois precisa realizar as coisas e não pode ficar todo instante paralisando obras para se explicar”. Logo se percebe que o problema do PAC (que jamais deslanchou) não estava no TCU – que questionou pouquíssimas coisas – mas num problema de gestão: os “contingenciamentos”, dinheiro cortado do orçamento para alimentar a ciranda financeira, impedem que mais de 4 ou 5% das obras governamentais recebam os prometidos recursos...

 

2010

          O ano da eleição presidencial.

          Como de costume, os tucanos demoram DEMAIS para definir candidato e Lula já leva a Dilma a tiracolo há mais de um ano. Condenado pelo TSE a pagar umas pequeninas multas simbólicas por “antecipação de campanha eleitoral”, ri-se da justiça e propõe que seus correligionários façam uma vaquinha para ir pagando as multas que ele não vai deixar a “Dilminha” na mão só por causa de firulas jurídicas...

          Sem que o PAC houvesse realizado sequer 5% do inicialmente programado, como estratégia de marketing, Lula e Dilma lançam o PAC 2 que só vigorou na propaganda (e só como propaganda) naquele ano.

          Consta que Dilma tenha recebido tratamento para um câncer, o que estimulou Lula a tentar em vão ressuscitar a ideia do plebiscito em busca de um terceiro mandato. O resultado prévio apontava na direção de uma divisão de 50% que Lula preferiu não arriscar e torcer pelo pronto restabelecimento de sua criatura, o que de fato ocorreu, seja lá como for.

          A administração pública foi toda desviada para a eleição de Dilma Roussef, com exceção da área econômica que seguia com suas benesses ao grande capital, como há anos.

          O Edital de um trem-bala ligando São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro ensejou um festival de ufanismo vazio. Não se assentou um parafuso para fazer sequer uma maquete do tal trem-bala, mas foi usado e abusado como “suprema realização da mãe do PAC”. Haja!

 

2011

          É embaraçoso! O que de mais consistente o PT produz desde que chegou ao poder é escândalo! Corrupção e incompetência são sua marca característica.

          Logo após a posse de Dilma Roussef, com direito à chorumela  protocolar, aplausos idem e ufanismo agora discreto na imprensa (as crises sucessivas do capitalismo fazem estrago até em quem o defende com tanto empenho quanto o PT no poder e se começa a pensar em alternativas já no início do que, para muitos, não passa do Terceiro Mandato Lula, por procuração) começam os escândalos.

          Dilma bate de frente com um general (José Elito Siqueira) por haver falado um truísmo: “ocorreram desaparecimentos políticos no Brasil, é um fato, não há que se vangloriar ou se envergonhar. Aconteceu.” Dilma Roussef considerou um acinte, abriu sindicância mas, quando ia levar adiante seu projeto de provocar mais uma cena de marketing político estourou o escândalo dos Passaportes Diplomáticos distribuídos a filhos, netos, sobrinhos e animais domésticos de partidários do governo a torto e a direito. Segundo o Itamaraty o número chegava a 328 (suspeita-se que este seja um terço do número real, mas...). O Ministério Público imediatamente entrou com ação exigindo a suspensão do benefício antidemocrático, antirrepublicano concedido a poucos apaniguados. Prevaleceu a tese do “direito adquirido” e um número não insignificante de desocupados filhotes do poder segue com o benefício ilícito...

          O inferno de Dilma mal começava. Vários de seus ministros, sete num total, caem sucessivamente de junho de 2011 a fevereiro de 2012. Todos escrupulosamente arrolados na Obra de Villa, mas aqui ouso remeter o eventual leitor ao levantamento que eu mesmo fiz no período, dia a dia, e que em pouco ou nada se diferencia do que meu Amigo publica em seu livro. Os Ministros que caíram por corrupção logo ao início do governo Dilma estão arrolados, por data, sem o brilhantismo ou a beleza da prosa de Villa, voltarão ao ar assim que eu revisar o texto (fique ligado:)

http://culturabrasil.org/quedadosmausadireita.htm

2012

          Dilma se elegeu, em parte, com um discurso estatizante imputando ao adversário a pecha de “desejar privatizar a PETROBRÁS”.

          Ao assumir o poder realiza vários leilões de privatização de áreas de prospecção e beneficiamento do petróleo brasileiro (o que já se vinha fazendo desde a época dos tucanos, sem novidades aí, a questão é que ela falou uma coisa e fez outra – o que, desgraçadamente, tampouco é novidade na política brasileira...)

          Além de vastos setores da PETROBRÁS são vítimas de privatizações sucessivas Aeroportos e Estradas. A oposição, sem rumo, até concorda. A Ideologia do Pensamento Único não encontra, nos políticos com representação eleitoral, divergência alguma.

          Chegamos a um momento em que a oposição não tem um projeto alternativo e o governo não tem como se sustentar dada a escalada da crise do capitalismo internacional em geral e brasileiro em particular. O ano de 2012 será marcado ainda por várias manifestações públicas contra o governo que seguem acontecendo em todo o país até o momento em que concluo estas linhas.

          Um fato que surpreendeu a muitos – eu mesmo fiquei surpreso, confesso – foi a revelação de que Demóstenes Torres, Senador pelo DEM e uma das mais tonitruantes vozes contra o PT e seu desencaminhamento ético, na prática “dormia com o inimigo”! Demóstenes Torres era um quinta coluna, quem diria! Dia 11 de julho de 2012 Demóstenes Torres foi caçado por quebra de decoro parlamentar ficando inelegível até 2027. 

  

 

 

 

Considerações finais (páginas 269  a 275)

          “A eleição de Lula da Silva em 2002 foi recebida como um conto de fadas”. E foi mesmo, eu me lembro!

          Villa tece considerações altamente pertinentes (ou impertinentes, dependendo de quem o leia) acerca da aversão da esquerda tupiniquim ao mundo das letras. Se Vladimir Lênin em várias oportunidades (“Que Fazer?”; “O Estado e a Revolução”) enfatizaria que “sem teoria revolucionária não há ação revolucionária – e sua (de Lênin) Obra enciclopédica sublinha o quão necessário é à Vanguarda do Proletariado conhecer de tudo, particularmente o Materialismo Dialético que, a despeito da propaganda em contrário, segue sendo o que de mais avançado a filosofia ocidental produziu até os dias de hoje. Se Lênin, enfim, escrevia muito e agia mais ainda, os pseudo revolucionários tupiniquins optaram por não se dedicar aos estudos – vou um pouco mais longe: a repudiar e perseguir mesmo quem busca estudar a sério os problemas nacionais com vistas a soluções concretas – e se ater apenas a uma prática pragmática que a joga nos braços do velho coronelismo e transforma um projeto político alternativo em mísero projeto de poder.

          Com o aval de boa parte da intelectualidade nacional se faz tabula rasa de toda a luta dos trabalhadores desde o Anarco-Sindicalismo da virada do século XIX para o XX até as lutas sindicais do ABC sob a liderança de um cidadão que trabalhou apenas 9 anos e já aos 27 assumia a profissão de sindicalista de tempo integral – repudiando todo o embasamento teórico que uma tal proposta pudesse trazer.

          Villa enfatiza que, dada a fragilidade intelectual de Lula da Silva, a coisa fica “personalizada”. O culto à personalidade de Lula da Silva atinge o paroxismo. Sem obra escrita alguma, mas propaladas “realizações práticas” (Quais? Conquista de uns reajustes salariais insignificantes aqui e ali?), atacar as fragilidades éticas de Lula da Silva – desculpa, Villa, o cara é um anão físico, intelectual e moral, eu tenho de usar esse azorrague de alguma forma... – seria “atacar todo o projeto político da esquerda no Brasil” que, ainda segundo os intelectuais em parte venais, em parte complexados, se vertebraria em Lula da Silva que, como bem o diz Villa já no início do livro, NEGA haver sido jamais de esquerda em sua vida.

          Ainda assim, segue o Autor, em moldes Stalinistas apaga-se o passado histórico de lutas dos comunistas e anarquistas brasileiros e se faz passar a imagem de que a Esquerda no Brasil começa (e, pelo jeito acaba...) com o sindicalismo lulo-petista do ABC.

          Lemos à página 272

          “Os bancos e empresas estatais foram usados como instrumentos de política partidária para o que o ministro Celso de Mello, do STF, chamaria de “projeto criminoso de poder”, quando do julgamento do mensalão. Os cargos de direção foram loteados entre as diferentes tendências do Partido dos Trabalhadores e o restante foi entregue à saciedade dos partidos da base aliada no Congresso Nacional. O PT transformou o patrimônio nacional, construído durante décadas, em moeda para obter recursos partidários e pessoais, como ficaria demonstrado em vários escândalos durante a década.”

(...)

“...o Bolsa Família caiu como uma luva, soldando o novo tipo de coronelismo petista. Se as 14 milhões de famílias do programa identificam em Lula a razão para o recebimento do benefício (SIC, chamar aquela miséria de “benefício”...) sabem que, para serem cadastradas e mantidas no Bolsa Família, dependem do chefe local. E os governichos criminosos, recordando antiga expressão da República Velha, permanecem dominando milhões de pré-cidadãos”

          ((Que não foram “retirados da miséria” como quer fazer acreditar a propaganda governamental, mas nela mantida agora debaixo do coronelismo petista está mais que provado! Causa espécie ainda a mim a conivência da imprensa. Não faz um mês li na Folha algo como “com o pleno emprego a que chegamos os beneficiários (SIC) do Bolsa Família ficam sem programas que lhes permitam sair desta dependência”. Assim, sem vergonha nem copydesk: acaso os “beneficiários” do Bolsa Família estão empregados? Acaso se pode confiar nas pesquisas que utilizam uma metodologia peculiaríssima para considerar alguém “desempregado”? Como é que se fala em “pleno emprego” e num contingente de milhões de seres humanos a receber ajuda governamental precisamente por... não ter emprego? E na mesma linha! Aparentemente não é só no PT ou no governo. A rainha mitológica do Mahabharata estava pra lá de certa: “um governo corrupto corrompeu o país inteiro!”))

          Conclui o Autor com um parágrafo muito bom:

“A década petista terminou. E nada melhor para ilustrar o fracasso que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), de 0,9% em 2012. Foi uma década perdida – para o país. (...) O PT não tinha um projeto para o país. Nunca se interessou em planejar o médio e o longo prazo. O que possuía era um mero projeto de poder, de tomar o Estado e transformá-lo numa correia de transmissão para seus interesses partidários. E conseguiu.”

 

 

(Minha) Conclusão

          Há que se ler este livro, importantíssimo para o conhecimento de um dos momentos mais dramáticos da vida brasileira. O que acima descrevo é meramente uma pequena coleta de alguns aspectos do livro que me chamaram a atenção, mas dada a riqueza de detalhes, a precisão – e a beleza da prosa – da escrita, com farto embasamento em dados concretos, é preciso lê-lo e relê-lo. Já nasce uma Obra de Referência principalmente ao Historiador do Futuro. Se o Brasil tiver futuro, o que não é tão certo...

 

Do fundamentalismo lulopetista

          Ainda de Frans de Waal, uma de minhas mais recentes leituras foi “The Bonobo and The Atheist”, no qual de Waal questiona a posição do “ateísmo militante” de gente do quilate de Richard Dawkins e do saudoso Christopher Hitchens. Daquele livro ressalto uma frase que é decisiva para entendermos a cegueira de muitos petistas (particularmente dos neoconversos ao petismo): “não se pode convencer racionalmente uma pessoa a abandonar uma convicção a que não aderiu usando de faculdades racionais; é um desperdício de esforço.” Os fundamentalistas religiosos não o são por haverem concluído racionalmente serem suas crenças superiores às descobertas científicas ou o que o valha, mas por haverem sido doutrinadas desde tenra infância a acreditar naquelas sandices, das quais não se libertarão pela via racional como pela via racional nelas não entraram. O mesmo cabe aos lulopetistas: nada na realidade dos fatos corrobora o que a propaganda insistente, persistente e hipnótica através dos meios de comunicação para a massa trombeteia diuturnamente a peso de ouro. Mas não são pessoas que tenham se tornado petistas por motivos racionais (os que o foram saíram do PT, no máximo, em 2004); são fundamentalistas petistas amestrados para repetir ad nauseam velhos e batidos chavões do que de pior produziu certa esquerda estalinista tupiniquim, mesmo que seu Führer insista, também ad nauseam que “jamais foi de esquerda”...

          Como na religião e no futebol, os petistas e neopetistas deixarão de sê-lo, se o deixarem, por motivos outros que não considerações de cunho racional. E repetirão, como Hans Frank nos julgamentos de Nuremberg em 1946: “mil anos se passarão e nossa culpa ainda não terá sido lavada...”

Lázaro Curvêlo Chaves - 15 de dezembro de 2013

Atualizado a 04/11/2014

Para aprofundamento em torno das questõe aqui suscitadas recomendo:

http://www.marcovilla.com.br/ 

"O Sequestro da América" - Título Original: “Predator Nation: Corporate Criminals, Political Corruption, and the Hijacking of America” – Charles Ferguson (uma resenha) - 30 de outubro de 2013 (Também nos EUA a Nação se encontra sequestrada por criminosos)

 

 

 

 
   
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