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O Império
entra em crise (1870-1889)
A Questão Escravista
A crise final da
escravidão. A partir de 1870, com o fim da Guerra
do Paraguai, antigos problemas e contradições que não haviam sido resolvidos
voltaram à tona com toda a intensidade. Ao mesmo tempo, a incapacidade do
Império em resolvê-los tornava se cada dia mais patente.
A questão central era naturalmente o escravismo. Em 1870, fazia vinte anos que o
tráfico havia sido extinto, mas a escravidão resistia. Desde o início do século
XIX, a GrãBretanha vinha pressionando o Brasil, e a opinião pública contra a
escravidão havia crescido no mundo inteiro. Os escravistas brasileiros e o
governo, que afinal os representava, haviam adotado a tática do silêncio para
proteger os seus interesses. O problema da escravidão, em suma, não era
discutido publicamente em parte alguma do Brasil. Muito menos no Parlamento. E
isso era coerente, pois os próprios senhores de escravos sabiam que sua posição
era insustentável. Porém, não moviam uma palha Pará encaminhar a solução.
Fizeram de conta que o problema simplesmente inexistia.
Havia uma explicação para isso. O governo imperial, em seu
profundo conservadorismo, inquietava-se com a possibilidade de agitação
incontrolável caso a questão escravista fosse abertamente colocada.
Com certeza, essa política do avestruz adotada pelo governo era confortável para
os escravistas, mas o inconveniente da situação estava no fato de que o Brasil
como um todo não ficou parado. Na verdade, desde a extinção do tráfico em 1850,
muitas coisas foram mudando no Brasil. Em seu imobilismo, o governo preferiu
ignorar as transformações.
Por volta de 1860 a questão escravista já havia sido colocada
publicamente, o que fora uma grande novidade. A eclosão da Guerra do Paraguai
interrompeu os debates que estavam começando a ganhar espaço no próprio
Parlamento. Eles retornaram com intensidade imediatamente depois da vitória
brasileira em 1870.
O panorama em 1870, em síntese, era o seguinte: 62% dos
escravos do Brasil estavam concentrados em São Paulo, Minas, Rio de Janeiro e
Rio Grande do Sul. Dos 1 540 000 escravos, 955 109 encontravam-se nessas
províncias. No norte e nordeste, em razão de sua decadência econômica, o peso
da escravidão havia diminuído. Portanto, os escravistas estavam concentrados no
sudeste e no sul do país, onde, por sua vez, situava-se o pólo dinâmico da nossa
economia. Contudo, uma economia forte, mas desmoralizada pela escravidão não
podia se apresentar como esperança e promessa para um país.
No plano internacional as coisas eram ainda mais complicadas.
A Guerra de Secessão (1861-1865) nos Estados Unidos havia mostrado que o
escravismo não tinha futuro. Desde a eclosão da Revolução Industrial na
Inglaterra, no século XVIII, o trabalho livre foi ganhando espaço e, no final do
século XIX, apenas o Brasil, em companhia de países como Cuba e Costa Rica,
insistia em manter um sistema social condenado e vergonhoso.
A lei do Ventre Livre
(1871). Foi nesse ambiente que o ministério
chefiado pelo visconde do Rio Branco apresentou o projeto da lei do Ventre Livre
em maio de 1871 para a Câmara dos Deputados. Depois de modificada e adaptada aos
interesses escravistas, a lei que declarava livres os filhos de escravos foi
finalmente aprovada em 1871, por 65 votos a favor e 45 contra. A maioria dos
deputados de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro votou contra, acompanhados pelos
deputados do Espírito Santo e do Rio Grande do Sul. Os representantes das
províncias do norte e nordeste votaram maciçamente a favor.
Essa lei que apenas jogava para o futuro a solução do
problema foi, entretanto, considerada pelo governo e pelos escravistas como
solução definitiva. Não era essa a opinião dos abolicionistas brasileiros. Em
1880, o debate retornou com maior vigor.
As agitações
abolicionistas. No Rio de Janeiro, no ano de 1880,
os abolicionistas fundaram duas sociedades a fim de organizar a sua luta: a
Sociedade Brasileira contra a Escravidão e a Associação Central
Emancipacionista. Publicações diversas começaram a circular, pregando a
abolição. Outras sociedades, no mesmo molde que as da capital, foram organizadas
em várias províncias.
A luta abolicionista se ampliou e criou condições para a
organização da Confederação Abolicionista (1883), que unificou o movimento no
plano nacional.
Naturalmente, a abolição da escravatura não foi obra
exclusiva dos abolicionistas que, em sua maioria, eram moradores das cidades.
Como demonstram as fugas e rebeliões ao longo de toda a história do Brasil, os
escravos não permaneceram passivos. A possibilidade de um levante escravo de
grandes proporções foi considerada e atemorizou os escravistas, enfraquecendo a
sua resistência ao movimento.
Os cafeicultores paulistas foram particularmente atingidos
pelo movimento de fuga dos escravos promovido e apoiado pelos caifases,
organizados por Antônio Bento, que foi juiz de paz e juiz municipal e nos cargos
que ocupou defendeu sempre os escravos contra a opressão senhorial.
Na década de 1880, o poder escravista foi seriamente abalado
e o Império, atingido em seus alicerces.
A lei
Saraiva-Cotegipe ou lei dos Sexagenários (1885). A
camada dominante escravista viu-se, então, forçada a novas concessões, que
tinham por objetivo frear o movimento abolicionista. A lei Saraiva-Cotegipe de
1885, ao estabelecer a liberdade aos escravos com mais de 60 anos, teve
exatamente esse propósito.Tratava-se de uma lei de alcance insignificante diante
das exigências cada vez mais radicais de abolição imediata da escravatura.
Assim, fora do Parlamento o desespero tomou conta dos
escravistas, pois os escravos abandonavam as fazendas sob estímulo e proteção de
organizações abolicionistas. Para impedir as fugas, os escravistas chegaram a
convocar o próprio exército, que, entretanto, se recusou, sob a alegação de que
"o exército não é capitão-do-mato" e por julgar a missão indigna dos altos
propósitos para que fora instituído.
A lei Áurea (1888).
Finalmente, a 13 de maio de 1888, a princesa Isabel, que na ausência de D. Pedro
II assumira a regência, promulgou a lei Áurea, declarando extinta a escravidão
no Brasil.

A Abolição, EMILIA VIOTTI DA COSTA
A Transição da Escravidão ao
Trabalho Livre na Cafeicultura
O problema da mão-de-obra na economia
cafeeira. O desenvolvimento da economia cafeeira,
fator essencial para a estabilidade do Império, desde o inicio estava
comprometido com a escravidão. À medida que o café foi se tornando o centro da
economia imperial e sua cultura se expandiu, o tráfico negreiro se intensificou.
Porém, essa
intensificação ocorreu num clima internacional desfavorável à escravidão: o
desenvolvimento do capitalismo industrial e a conseqüente generalização do
trabalho assalariado tornaram a escravidão repulsiva à nova consciência.
Desde a
abolição do tráfico em 1850, a questão da substituição do escravo pelo
trabalhador livre passou a ser seriamente considerada por alguns cafeicultores.
Ocorre que a
cafeicultura estava, naquele momento, expandindo-se no Oeste paulista. E foi
essa circunstância histórica que possibilitou aos fazendeiros paulistas lançarem
mão da imigração européia, transformando a cafeicultura numa economia
capitalista.
A cafeicultura
do vale do Paraíba, mais antiga e totalmente modelada pela escravidão,
apresentava maiores dificuldades em substituir seus escravos por trabalhadores
livres. A do Oeste paulista, ao contrário, encontrava.-se em plena formação. Por
esse motivo, foi em São Paulo e não em outra região que a substituição do
escravo pelo trabalhador livre se deu mais rapidamente, imprimindo ao setor o
caráter de empreendimento capitalista.
As colônias de parceria.
Na realidade, desde 1840 buscava-se no Brasil uma solução alternativa à
mão-de-obra escrava. O pioneiro nesse sentido foi Nicolau Pereira de Campos
Vergueiro, que, em sua fazenda de Ibicaba, no município paulista de Limeira,
adotou uma solução que se denominou colônia de parceria.
Essa solução
baseou-se na imigração de europeus - cerca de 177 famílias de 1847 a 1857 - que
se comprometeram a cultivar certo número de cafeeiros, colher e beneficiar o
produto, repartindo o dinheiro da venda com o fazendeiro.
Os resultados
práticos não foram animadores e a experiência fracassou. As frustrações dos
colonos foram enormes, pois a dívida contraída pelo preço da passagem, paga pelo
fazendeiro, mais o juro de 6% ao ano, além das despesas de alimentação
financiadas pelo fazendeiro, nunca podia ser saldada. Analisando
melhor, verifica-se que, na verdade, Vergueiro havia implantado o
antiqüíssimo sistema da escravidão por dívidas. Diante de problemas insuperáveis
e sentindo-se enganados, os colonos se revoltaram em Ibicaba, em 1857. Essa
revolta repercutiu na Europa e levou alguns governos a proibir a imigração para
o Brasil.
O comércio interno de escravos.
Todavia, a solução mais comum depois da extinção do tráfico negreiro foi a
compra de escravos do norte pelos fazendeiros do sul. A decadência econômica do
norte, aliada ao alto preço que o escravo atingiu, facilitou esse comércio,
apesar dos protestos e tentativas dos deputados nortistas no sentido de
proibi-lo.
A
transferência dos escravos de uma região para outra trouxe dupla conseqüência:
agravou a situação econômica do norte e não resolveu as necessidades de
mão-de-obra do sul.
Assim, o fim
do tráfico negreiro condenou a escravidão, que tinha contra ela a militância de
dois fatores, tornando sua abolição irreversível: no norte, o amadurecimento da
consciência abolicionista; no sul, o desenvolvimento da corrente imigratória
européia, com o objetivo de engajá-la no trabalho livre.
Abolicionismo e imigração.
A cultura cafeeira ocupou, sucessivamente, o vale do Paraíba, o Oeste paulista
velho, com centro em Campinas, e o Oeste paulista novo, com centro em Ribeirão
Preto. Até recentemente, os historiadores consideravam os cafeicultores do Oeste
paulista mais modernos e adeptos do trabalho livre, em contraste com os do vale
do Paraíba, retrógrados e escravistas. Pesquisas atualizadas, entretanto,
mostraram que os cafeicultores de ambas as regiões eram igualmente escravistas
e defensores da escravidão.
Pressionados
pela opinião pública brasileira e internacional, os cafeicultores formaram um
único bloco de resistência contra a abolição. Contudo, os do Oeste paulista,
cujos cafezais eram mais produtivos e recentes, encontravam-se em melhores
condições para arcar com os custos da abolição. E foi sob a pressão
abolicionista e a ameaça de desorganização das suas fazendas motivada pelas
fugas dos escravos que os cafeicultores paulistas finalmente lançaram mão da
imigração.
A
originalidade da solução paulista foi a de ter buscado a mão-de-obra necessária
na Europa e não na China ou na Índia. Porém, como já vimos anteriormente, as
primeiras tentativas - colônias de parceria - fracassaram.
A imigração européia, como solução
definitiva, só se tornou realidade quando o próprio governo da província de São
Paulo assumiu o encargo de subvencioná-la, desonerando os fazendeiros. A
primeira lei nesse sentido apareceu em 1871. Pouco mais de dez anos depois, a
imigração tornou-se maciça!
Barões e Escravos do Café SONIA
SANTANNA

Estado e Capital Cafeeiro em São Paulo: 1889-1930 - RENATO M. PERISSINOTO
A lei de Terras
(1850) e o colonato. Em 1850, no mesmo ano em que
era abolido o tráfico negreiro, foi estabelecida a lei de Terras, que regulava a
forma de aquisição fundiária. Durante o período colonial, essa aquisição se
fazia mediante a concessão de sesmarias, que foi suspensa com a independência. A
nova lei estipulava que a terra pública só poderia ser adquirida mediante a
compra.
Com essa lei, os grandes proprietários procuraram dificultar
o acesso a terra para as pessoas de poucos recursos. O objetivo dessa lei,
portanto, era clara: se a terra fosse facilmente adquirida por qualquer pessoa,
mesmo as de poucos recursos, os fazendeiros ficariam sem mão-de-obra, pois, em
seus cálculos, com a extinção do tráfico, o fim da escravidão era uma questão de
tempo. Com a lei de Terras, os fazendeiros garantiriam os seus privilégios de
proprietários.
Os imigrantes, geralmente pobres, chegaram ao Brasil na
vigência dessa lei e foram trabalhar nos cafezais. O regime de trabalho era o
colonato.
Segundo esse regime, cada família de imigrantes - agora
colonos - recebia um pagamento proporcional aos pés de café entregues para serem
cuidados por ela. Com a colheita, os colonos recebiam uma espécie de
gratificação de acordo com a quantidade de café colhida.
O aspecto mais importante do regime de colonato era a
permissão dada aos colonos de cultivarem produtos de subsistência nos intervalos
dos cafezais, dos quais tinham o direito de dispor livremente, inclusive para
vender o excedente. Essa prática, contudo, só era permitida nos cafezais novos,
de terras férteis. Nos velhos, era geralmente proibida ou era destinado um lote
separado para a cultura de subsistência, o que não atraía o colono, já que isso
duplicava o seu trabalho ao ter que ir de um local para outro.
Portanto, o regime de colonato caracterizava-se pelo
pagamento fixo no trato do cafezal, um pagamento variável, conforme a colheita e
a produção direta de alimentos. Por essa razão, não se deve confundir o colonato
com o trabalho assalariado, tipicamente capitalista.

Reforma Agrária: o Impossível Diálogo JOSE DE
SOUZA MARTINS
A expansão cafeeira.
Se o regime de colonato despertava o interesse e a preferência do imigrante,
ele era também muito vantajoso para os fazendeiros.
De fato, os fazendeiros encontraram um meio excepcional para
expandir a cafeicultura, com o mínimo de dispêndio. Devido à existência de
terras devolutas, ainda virgens, em boa quantidade, o seu preço era
relativamente baixo para as posses dos grandes fazendeiros, que as adquiriam com
facilidade. Para o seu desmatamento, contratavam trabalhadores brasileiros - os
"camaradas" -, aos quais pagavam por empreita. Em seguida, os colonos eram aí
introduzidos para formar o cafezal, que, ao fim de quatro anos, já dava as
primeiras colheitas. Como os colonos produziam os seus próprios meios de
subsistência, a despesa, para o fazendeiro, era ínfima.
Com o tempo, surgiram os "empreiteiros do café", que passaram
a empresariar a formação do cafezal nessa mesma base.
Desse modo, os cafeicultores paulistas tornaram-se tanto
produtores de café quanto produtores de fazendas de café. E, à medida que se
multiplicavam as fazendas de café, as terras iam se valorizando, tornando-se
cada vez mais inacessíveis às pessoas de baixa renda. Ao mesmo tempo, quanto
mais fazendas eram criadas, mais trabalhadores eram necessários, o que, enfim,
estimulava ainda mais a imigração. Como resultado importante do pra cesso, a
entrada maciça de imigrantes favoreceu a constituição do mercado de trabalho,
sem o qual não há capitalismo.
Em conseqüência, no regime de colonato “não era o fazendeiro
quem pagava ao trabalha dor pela formação do cafezal. Era o trabalhador quem
pagava com cafezal ao fazendeiro o direito de usar as mesmas terras na produção
de alimentos durante a fase da formação”. Foi assim que os fazendeiros
multiplicaram a sua riqueza e, como pretendiam, mantiveram um exército de homens
despossuídos, aptos para trabalharem sob suas ordens.
Para terminar, uma observação: a solução imigrantista, cujo
êxito foi testemunhado pelos cafeicultores, esteve restrita à província de São
Paulo. Em outras regiões, incluindo a cafeicultura de Minas e Rio de Janeiro, a
transição para o trabalho assalariado teve por base trabalhadores locais,
brasileiros. Deve ficar claro, portanto, que o modelo paulista de transição para
o trabalho livre não pode ser generalizado para todo o Brasil.

Mauá: Empresário do Império JORGE CALDEIRA
A Industrialização no
Brasil
Os primeiros passos
da industrialização. Com a extinção do tráfico
negreiro em 1850, o capital até então empregado no comércio de escravos foi
reinvestido em outras atividades econômicas, entre elas a indústria. Os
empreendimentos do visconde de Mauá, aos quais já nos referimos, ocorreram
exatamente nesse contexto.
O início da industrialização do Brasil ocorreu por volta de
1870, em estreita relação com a imigração em massa e a expansão do café em São
Paulo.
A expansão cafeeira, com a incorporação dos imigrantes,
transformava esse setor agrícola num empreendimento capitalista e altamente
rentável. Com isso, os cafeicultores acumulavam capital e diversificavam suas
atividades, investindo, inclusive, na área industrial. Por outro lado, a crise e
a abolição da escravatura e os imigrantes - sobretudo italianos -, trabalhando
em regime de colonato, converteram-se em base tanto para a formação do mercado
de trabalho quanto para a formarão do mercado interno.
Até 1870, a produção industrial era feita por pequenas
oficinas artesanais espalhadas por várias regiões. As primeiras indústrias
tiveram o papel de substituir e concentrar as produções artesanais. Mais tarde,
já na República, um novo surto industrial terá o papel de substituir os produtos
importados.
As primeiras indústrias, entretanto, tinham por objetivo
substituir as produções artesanais dispersas e não substituir os produtos
importados. Outro impulso decisivo seria dado, como veremos, no início da
República.
O Movimento Republicano
As transformações da
sociedade. A partir de 1850, com a abolição do
tráfico, iniciava-se no Brasil um processo de profunda transformação econômica e
social. Podemos enumerar alguns dados que a comprovam:
• a população
brasileira, que era de aproximadamente 3 milhões em 1822, passou a 14 milhões
por volta de 1880;
• as indústrias,
principalmente têxteis, se desenvolvem: de 175 estabelecimentos, em 1874, o
número salta para mais de 600 em 1880;
• o transporte melhorou
com a construção de 9 mil km de ferrovias e a introdução do barco a vapor, no
final do Império;
• incremento da
urbanização;
• melhorias técnicas
foram introduzidas na produção do açúcar e do café, ao mesmo tempo em que os
escravos eram substituídos pelos trabalhadores livres (imigrantes);
• multiplicaram-se os
estabelecimentos de crédito (bancos), etc.
Pois bem, o que esse conjunto de transformações tem a ver com
a proclamação da República?
Ressaltemos dois pontos essenciais para se compreender esse
processo: primeiro, a substituição do trabalho escravo pelo livre acarretou uma
cisão na camada dominante dos grandes proprietários; segundo, o Estado imperial
não se modernizou na mesma proporção e não acompanhou as mudanças.
Cabe fazer ainda outra observação: a queda da monarquia e
implantação da República não foi propriamente uma revolução. É verdade que, com
a República, a participação direta dos fazendeiros do café no poder tornou-se
realmente efetiva e avassaladora, como jamais acontecera durante o Império.
A origem da República.
A proclamação da República em 15 de novembro de 1889 foi fruto de inúmeros
fatores conjugados.
A aspiração
republicana era muito antiga no Brasil e, como já vimos, ela se mostrou em
vários movimentos anticoloniais, a exemplo da Inconfidência Mineira,
Confederação do Equador, etc. Mas devemos lembrar que o ideal republicano desses
movimentos era mais um instrumento para contestar o regime colonial ou a
autocracia do primeiro imperador do que propriamente um propósito central e
consciente, como se tornou no final do século XIX. E mais ainda: o ideal
republicano era uma expressão local, das províncias periféricas. No final do
século XIX, ele renasceu na própria capital do Império.
O movimento
republicano. O ponto de partida do movimento
republicano situou-se no lançamento do Manifesto Republicano em 1870.
Tratava-se, entretanto, de um documento conservador e nitidamente
contra-revolucionário. Num de seus trechos, estava escrito: "Como homens livres,
e essencialmente subordinados aos interesses de nossa pátria, não é nossa
intenção convulsionar a sociedade em que vivemos”.
Na realidade, em 1870 a influência dos liberais sobre os
republicanos era muito grande e, na prática, era muito difícil distinguir uns
dos outros. E, de fato, os republicanos de então defendiam a velha tese dos
liberais de que era necessário fazer reformas para evitar a revolução. O
jornalista Quintino Bocaiúva, um dos lideres republicanos, declarava-se um
convicto "evolucionista" e acreditava que a evolução histórica levaria
fatalmente a humanidade à república.
Publicado no Rio de janeiro, o Manifesto não foi recebido da
mesma forma em todo o Brasil. A sua repercussão foi imediata em São Paulo e
Minas Gerais, onde se constituíram rapidamente núcleos republicanos. O Rio
Grande do Sul reagiu mais lentamente, mas de forma positiva.
Nas províncias do norte, a recepção foi praticamente nula,
inclusive na Bahia, que, depois de Minas Gerais, era a província mais populosa.
Em Pernambuco a recepção foi um pouco melhor, dada a sua tradição de luta
democrática, fraca em comparação às províncias do centro e do sul.
Em toda parte, a ascensão dos republicanos foi prejudicada,
até 1878, pela falta de identidade própria, devido ao seu estreito convívio com
os liberais, que, apesar de alguns pontos em comum com os republicanos, eram, no
final das contas, monarquistas. Somente depois de 1878 é que os republicanos
começaram a atuar de modo independente, ganhando assim uma identidade própria
como movimento.
O federalismo.
Outro fator da queda da monarquia foi o federalismo. Devemos ter em mente que a
defesa do federalismo não é, por si só, necessariamente anti-monarquista ou
republicana.
Porém, em
geral, o federalismo foi a expressão de uma insatisfação real. Os presidentes de
províncias, nomeados pelo poder central, atuavam normalmente como representantes
dos interesses do governo do Rio de Janeiro ou do partido no poder e pouco se
interessavam pelos problemas internos da província que deveriam administrar.
O mais grave era que a administração central estava emperrada
e não acompanhou o processo de modernização que ganhara impulso no Brasil depois
de 1850. Pior ainda: ameaçava paralisar o desenvolvimento de centros dinâmicos,
como São Paulo.
Isso se devia à prática política adotada pelo imperador, que
utilizava como critério para preencher os altos cargos administrativos um
costume ditado pela tradição. Com isso, para os cargos diretivos, nomeava
rotineiramente os indivíduos pertencentes às famílias de passado ilustre,
perpetuando no poder os agrupamentos tradicionais.
Assim, os setores mais dinâmicos da elite econômica do país
encontravam-se afastados dos centros de decisão. Comparativamente à sua
importância econômica, os cafeicultores ocupavam no governo um espaço muito
modesto e reduzido. Os grandes fazendeiros, entretanto, eram agraciados com
títulos nobiliárquicos, em sinal de reconhecimento pelo Império. Essa iniciativa
tinha apenas um caráter honorífico e pouco prático.
Da perspectiva, por exemplo, do empresariado cafeeiro de São
Paulo - o mais dinâmico do Brasil -, o governo imperial era sentido
inevitavelmente como inadequado para seus interesses. Segundo o economista
Sérgio Silva, “durante a década de 1880 a produção [cafeeira] de São Paulo
ultrapassa a produção do Rio de Janeiro, os planaltos de São Paulo praticamente
substituem o vale do Paraíba”. No entanto, a representação de São Paulo tanto no
Senado quanto na Câmara dos Deputados não condizia com a sua importância
econômica: São Paulo tinha 3 senadores, como o Pará, enquanto a Bahia tinha 6,
Minas 10, Pernambuco 6 e o Rio de Janeiro 5. Na Câmara dos Deputados acontecia o
mesmo: São Paulo tinha 9 deputados, enquanto o Ceará tinha 8, Pernambuco 13,
Bahia 14, Rio de Janeiro 12 e Minas 20.
Foi essa uma das fortes razões por que ganharam prestígio em
São Paulo as idéias federalistas, que se associaram intimamente aos princípios
do republicanismo.
Revolução ou
evolução? – Os republicanos eram, em sua
esmagadora maioria, contrários à revolução, entendendo-se por essa palavra a
derrubada da monarquia por meios violentos. Vários líderes, como Quintino
Bocaiúva, declaravam-se "evolucionistas”. A esse grupo vieram pertencer também
os seguidores do filósofo francês Augusto Comte, fundador do positivismo, cuja
importância é ressaltada graças ao seu lema inscrito em nossa bandeira
republicana: "Ordem e Progresso”.
A partir de 1850, começaram a circular entre professores e
estudantes de engenharia as idéias de Augusto Comte. Por essa época, Benjamin
Constant, professor de matemática da Escola militar, também iniciava a sua
formação positivista, tornando-se posteriormente o seu mais conhecido
divulgador. Por volta de 1874, sob sua influência, converteu-se à filosofia
positivista um jovem estudante republicano, Miguel Lemos, e, já em 1876,
criava-se a Sociedade Positivista do Rio de Janeiro. Sob iniciativa de Miguel
Lemos, que se transformara num adepto fanático de Comte, a Sociedade
converteu-se em Igreja Positivista do Brasil, em 1881.
Foi assim que, agrupados na Igreja Positivista do Brasil, os
fiéis discípulos de Comte constituíram uma pequena seita, cuja finalidade
suprema consistia em preservar a pureza da doutrina do mestre. Porém, a sua
influência política só será efetiva depois da proclamação da República.
O positivismo caracterizava-se pela crença no poder absoluto
da ciência - que, afinal, não é uma atitude científica, mas cientificista, isto
é, uma deturpação da ciência, pois nada é mais estranho a esta do que a crença
no "absoluto”. No plano político, o positivismo brasileiro não foi menos
decepcionante: seus partidários defendiam posições anti-revolucionárias,
elitistas e ditatoriais. Acreditavam os positivistas na existência de uma lei na
história que fatalmente faria o Brasil desembocar na república. Essa crença na
inevitabilidade da república era considerada uma previsão rigorosamente
científica, de modo que, coerentemente, os positivistas limitaram-se a adotar
uma postura de total passividade.
Enfim, quando a República foi proclamada, os principais
líderes positivistas deixaram claro que estavam em desacordo com a forma como
ela fora proclamada e também não a aprovaram tal como se encontrava organizada.
Contrastando com esse perfil, Antônio Silva Jardim, jovem
advogado, apesar de pertencer ao grupo positivista, foi, ao contrário da
maioria, um adepto declarado da revolução e um ativo propagandista da república.
Entretanto, foi no Exército que a influência do positivismo mostrou-se
duradoura, mas numa versão menos inflexível, graças à influência do general
Benjamin Constant Botelho de Magalhães - que, por sinal, desentendeu-se com
Miguel Lemos, desligando-se já em 1881 do núcleo fanático e ortodoxo do
positivismo.
A Proclamação da República
O isolamento da
monarquia. A tradição historiográfica relaciona
três questões responsáveis pela queda da monarquia:
• a questão servil
(escravidão); • a questão religiosa;
• a questão militar.
O Estado imperial
apoiava-se na escravidão e era apoiado pelos escravistas. O processo
abolicionista, portanto, corroeu sua base social. O conflito do Estado com a
Igreja Católica e com o Exército isolou a monarquia de duas outras fontes de seu
apoio.
Além do processo de
abolição da escravatura é preciso examinar ainda as crises religiosa e militar,
fatores decisivos também para a derrocada do Império e implantação da República.
A questão religiosa.
O catolicismo era a religião oficial do Brasil e, como em Portugal, a Igreja
estava subordinada ao Estado, através do regime do padroado. Segundo essa
tradição, cabia ao imperador a escolha dos clérigos para os cargos importantes
da Igreja, da mesma forma que as bulas (ou decretos) papais só eram aplicadas
com o consentimento explicito do monarca.
Pois bem,
através de uma bula, o papa condenou a maçonaria e interditou padres e fiéis de
pertencerem a seus quadros. Essas determinações, entretanto, não foram aplicadas
no Brasil, visto que era grande o número de católicos filiados à maçonaria.
Em 1872, os bispos de Olinda e Belém, obedientes às ordens
papais, suspenderam irmandades religiosas que se recusavam a afastar os membros
maçons. Por solicitação das irmandades atingidas, D. Pedro II anulou as
suspensões. Como, no entanto, os bispos mantiveram firme o propósito de
sustentar a decisão, eles foram julgados e condenados por ordem imperial.
Embora tenham sido anistiados mais tarde, em 1875, a prisão
dos bispos foi uma afronta à Igreja, ao mesmo tempo em que feriu a religiosidade
popular. Como conseqüência, a Igreja afastou-se do governo imperial.
A questão militar.
O Exército como "unidade espiritual e orgânica" só começou a existir no Brasil a
partir da Guerra do Paraguai. Até então, fora mantido em posição secundária, num
regime de absoluta supremacia dos civis.
Depois da
Guerra do Paraguai, o Exército tomou consciência de sua importância e gradativa
mente começou a manifestar insatisfação pelo tratamento recebido do governo
imperial. Aos poucos, os militares foram tornando públicas as suas queixas, ao
mesmo tempo em que um grupo minoritário de oficiais, mas extremamente ativo,
difundia o ideal republicano e positivista, sob a liderança de Benjamin
Constant.
Foi nesse clima de crescente descontentamento que se deu a
chamada questão militar. Para compreendê-la, é preciso saber que os militares
estavam proibidos, por regulamento, de se pronunciarem através da imprensa sobre
questões internas do Exército.
A questão militar teve início com um incidente ocorrido em
1884. Nesse ano, foram libertados no Ceará os últimos escravos, tornando-o a
primeira província brasileira a extinguir completamente a escravidão. O
jangadeiro Francisco do Nascimento, conhecido como Dragão do Mar, por ter
liderado os jangadeiros a não transportar escravos para o tráfico, foi
considerado o símbolo da luta abolicionista cearense. Glorificado pelos
abolicionistas, recebeu o convite de entidades abolicionistas na Corte que
pretendiam homenageá-lo. Foi recebido como herói no Rio, onde visitou também a
Escola de Tiro, em Campo Grande, sendo bem recebido pelo seu comandante,
tenentecoronel Sena Madureis, um veterano da Guerra do Paraguai. Essa visita
foi noticiada pela imprensa.
Chegando o fato ao conhecimento do ministro da Guerra, este
tratou imediatamente de interpelar Sena Madureira, que, entretanto, alegando
estar diretamente subordinado à Sua Alteza o Conde d'Eu, só a ele devia
explicações.
Com esse episódio e outros incidentes que se seguiram, uma
forte tensão instalou-se no Exército, desencadeando a questão militar, que
culminou num conflito protagonizado pelo coronel Ernesto Augusto da Cunha Matos.
Este, em inspeção à tropa no Piauí, denunciou irregularidades praticadas pelo
capitão Pedro José de Lima, oficial pertencente aos quadros do Partido
Conservador. Um deputado do Piauí, pertencente ao mesmo partido, saiu em defesa
do seu correligionário, fazendo um violento ataque ao coronel Cunha Matos na
tribuna da Câmara. O coronel respondeu ao ataque pela imprensa e acabou punido
pelo ministro da Guerra, com base no regulamento. Esse incidente provocou uma
intensa discussão na Câmara, e o próprio ministro da Guerra compareceu ao
Senado para discutir o assunto. Tendo sido citado nos debates, Sena Madureis,
que agora servia no Rio Grande do Sul, publicou no jornal A Federação um artigo
em defesa do coronel Cunha Matos e foi punido pelo ministro da Guerra.
A partir disso, os debates ganharam os quartéis e envolveram
chefes militares de expressão, como o visconde de Pelotas - um dos militares
enobrecidos pela sua atuação na Guerra do Paraguai - e o marechal Deodoro da
Fonseca. O clima criado pela questão militar favoreceu a difusão do ideal
republicano no Exército, afastando-o de D. Pedro II.
A queda da monarquia.
A insatisfação militar, ao aproximar o Exército dos republicanos, deu origem à
aliança que resultaria no golpe de 15 de novembro de 1889.
A situação
crítica da monarquia fez com que o governo imperial tentasse uma solução para
superar os problemas. A tentativa foi feita pelo visconde de Ouro Preto, que
assumiu a chefia do ministério em julho de 1889. O seu programa de governo era
amplamente reformista e tinha como objetivo neutralizar as críticas e atender a
aspirações insatisfeitas.
Na sessão de 11 de junho, apresentou à Câmara o seu programa,
que, de fato, era ousado. Depois de uma intensa discussão o programa foi
rejeitado pela Câmara, dominada pelos deputados conservadores. Como reação, o
governo decretou a dissolução da Câmara no dia 17 de julho e a convocação de uma
nova, que deveria se reunir extraordinariamente em 20 de novembro de 1889.
O impasse criado gerou um clima de intensa agitação. Os
Partidos Republicanos do Rio de janeiro e de São Paulo pediram a intervenção
militar, e o Exército se mostrou sensível ao apelo. No dia 11 de novembro,
líderes republicanos reuniram-se com o marechal Deodoro da Fonseca, pedindo-lhe
que liderasse o movimento para depor a monarquia. Estavam presentes Rui Barbosa,
Benjamin Constant, Aristides Lobo, Bocaiúva, Glicério e o coronel Solon. Deodoro
aceitou a proposta. No dia 15 de novembro de 1889, a República foi finalmente
proclamada.

Bibliografia:
História do Brasil - Luiz Koshiba - Editora Atual
História do Brasil - Bóris Fausto - EDUSP
Arquivo de Artigos Semanais, Sociologia, Filosofia, Psicologia, Ensaios Críticos
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