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De mal a pior

 

CPMF acaba dia 31 de dezembro de 2007

 

         E daí? A peculiaridade de todos os “Excelentíssimos Senhores Senadores” contrários à cobrança do imposto quando na oposição, uma vez no governo transformaram-se em ferrenhos defensores e vice-versa demonstra somente que todos os partidos políticos valem o mesmo, ou seja, nada: os eleitos representam-se a si mesmos e àqueles que mais contribuíram financeiramente para suas campanhas.

         Não por acaso, a primeira declaração de Lula da Silva tenha sido “aos mercados”, garantindo que não haverá alteração na política de rapinagem do dinheiro público oriundo dos impostos para o enriquecimento da jogatina no mercado financeiro, “tranqüilizando-o”, dizem eufemisticamente os economistas venais (maioria, senão totalidade daquela categoria outrora profissional e hoje miseravelmente sacerdotal).

         Antes de saber se o Senado Federal aprovaria a continuidade da extorsão ou não, Lula da Silva prometeu R$ 12 bilhões para as escolas de samba do Rio de Janeiro. Há aí duas questões: a primeira, que salta aos olhos, é que Lula da Silva tornou-se incapaz de sustentar de pé o que promete sentado. A outra é mais cruel: quem tem R$ 12 bilhões sobrando para gastar desta maneira excêntrica sinaliza claramente não precisar extorquir o correntista.

         Senadores não votaram de acordo com suas consciências, mas de acordo com seus interesses pessoais momentâneos e derrubaram aquela medida.

         Em outras circunstâncias celebraríamos alegremente o fim de mais uma extorsão cruel sobre o povo trabalhador do Brasil. Ao ouvirmos os marechais da economia, que prometem o final dos tempos, uma série de cataclismos, ficamos emparedados. Com CPMF, muito ruim. Sem CPMF, muito ruim também.

         Os encarregados da extorsão debruçam-se em estudos para controlar toda e qualquer movimentação financeira, formal ou informal, desde que seja efetivada por pessoas de baixa renda que os jogadores e banqueiros estão, desde o ditadura militar, isentos. Aqueles que foram duplamente abandonados pelo governo – que não estimula a criação de empregos, arremessando a maioria de nossa gente na “economia informal” – serão os maiores penalizados.

         Sem ter poderes sobre o mercado especulativo, que elegeu o presidente da república e praticamente todos os senadores e deputados, os penalizados serão os trabalhadores – “congelamento geral de salários” foi a primeira expressão que saiu do caldeirão dos magos da economia e aqueles que, desempregados, conseguem exercer atividades informais e, para tanto, utilizam-se do sistema bancário brasileiro. Causa espécie, realmente: para mandar rios de dinheiro para o exterior há toda uma gama de facilidades e simplificações. Receber recursos – internos ou do exterior – passa a exigir uma burocracia infernal: como foi que o miserável, apesar de todo o complô na direção contrária, conseguiu o dinheiro? Estes pagam os impostos que engordam os ricos de outrora ou os novos, como D. Mariza Letícia, dona da maior coleção de sapatos de luxo do Brasil, pagos com dinheiro público e detentora, desde o dia 7 próximo passado, da “Medalha Santos Dumont” por “excelentes serviços prestados à aviação brasileira”. Uma curiosidade: fora usar o Aerolula em viagens para comprar sapatos caros pelo mundo afora, de que outra maneira D. Mariza “prestou relevantes serviços” à aviação brasileira? Fosse eu detentor de uma medalha que se tornou assim infamante a devolveria imediatamente ao presidente da república num urinol!

Relevantes Serviços Prestados à Aviação Brasileira

 

Rede Lulo-Petista de Televisão é uma MERDA!

 

         Confesso-me surpreendido. A montanha pariu um camundongo! Em meio a discursos vazios proferidos por gente idem – todos criminosos dotados de cargos públicos eletivos ou nomeados – uma programação absurdamente ridícula. Seria engraçado se não fosse trágico. E caro! De vez em quando uma “autoridade” revelava algo de interessante mas era brutalmente interrompida por uma locutora que, num cenário paupérrimo, conversava com dois sujeitos ao computador elogiando-lhes o trabalho com palavras como “olha, gente, que máximo” – sem que mostrassem ao respeitável público o que diabos estavam os meninos batucando no computador. E seguia a menina vociferando enquanto um moleque fazia de conta que filmava numa maquininha e também aparecia na programação. A seguir, voltavam à “cerimônia de lançamento da TV Digital” para ouvirmos a tal autoridade concluir: “era o que eu tinha a dizer, Senhoras e Senhores”.

         Pessimamente acabada, cortes ilógicos e absurdos, programação paupérrima... Um cabidão de emprego para a companheirada – inclusive o Conselho Remunerado de Bajuladores escolhidos a dedo pelo analfa que preside a nação para elogiar o que não presta.

         Presume-se que haja alguma melhoria. Uma TV assim ridícula não sobrevive! Mataram a TV Educativa do Rio de Janeiro para substituí-la por algo total e completamente sem valor. ISTO é notícia. Algo completamente surpreendente e inesperado. Naturalmente, as indefectíveis propagandas governamentais pululavam na programação o tempo inteiro, cansativa, imbecil: a exemplo, aliás, do que já acontece na TV aberta, Rede Globo de Telealienação à frente. E o Hélio Bosta a dizer: “pela bagatela de R$ 1.000,00 a R$ 1.500,00 (uns 7 ou 8 salários mínimos...) qualquer brasileiro poderá pagar por um conversor provisório, com durabilidade aí de um ano, no máximo, e assim ter acesso à programação da TV Digital.” Resta saber quem dispõe deste valor e se, quem dispõe, estaria disposto a jogar no lixo tão solenemente a ponto de assistir à pior merda que os “intelectuais” lulo-petistas inventaram.

 

Quando foi mesmo que Lula mudou?

 

         Segundo as normas impostas pelos grandes controladores dos recursos financeiros de todo o planeta, nenhum dirigente pode eleger-se a menos que tenha “aprendido” como deve governar. Em 1989 Lula da Silva estava cercado pelos mais importantes intelectuais da verdadeira esquerda brasileira e, portanto, estava desqualificado para governar segundo os padrões dos “mercados” que depositaram todas as suas fichas em Collor de Mello. Em 1992, com Leonel de Moura Brizola como vice em sua chapa, tampouco contava com aquelas bênçãos e o Brasil elegeu “o príncipe maldito”, FHC, que abandonou todo o pudor e pendores pela esquerda exercendo dois mandatos sucessivos do mais puro fisiologismo e neoliberalismo.

         Naturalmente, é mais da dimensão da psiquiatria que da política mas aparentemente Lula da Silva “se cansou de perder” e cedeu completamente “aos mercados” e assim conseguiu eleger-se presidente em 2002 e, pior ainda, crivado de suspeição de malversação de dinheiro público, se reelegeu em 2006. Agora que “aprendeu a governar” para os mercados, contra o povo trabalhador do Brasil, com a autoridade de quem sempre discursou em sua defesa, tem uma sobrevida política imponderável. Não se descarta in limine um terceiro mandato, particularmente porque ele se diz contra – e tudo o que diz é precisamente o contrário do que faz.

         Domesticados o IBGE (Instituto Brasileiro de Maquiagem de Estatísticas) e a FGV, que enviam dados extravagantes e sem o menor contato com a realidade à ONU, conseguimos uma posição elevada na avaliação comparativa com outros países evidentemente muito mais prósperos e justos. Sequer Eric Blair sonhava com algo tão brutal: agridem-se os fatos a cada momento, o governo passa a acreditar nas mentiras que conta diuturnamente e desinforma: “o PIB crescerá enormemente”.

         E assim, discursando furibundo para os miseráveis, sob o riso de mofa de toda a platéia representante do capital financeiro, ciente de que é só discurso vazio mesmo, governando com e para o grande capital especulativo, as realizações Lulo-Petistas são surpreendentes!

_ A corrupção em todas as esferas governamentais atinge níveis inéditos em toda a história desta pátria tão sofrida.

_ Estradas, portos e aeroportos estão abandonados causando o caos aéreo, recordes em acidentes de trânsito e entupimento no escoamento das exportações. Cabe aqui um parêntese: seria muito interessante saber ao certo a quantas andam as importações e exportações brasileiras, expurgando as peças que vêm do exterior para montagem local e exportação ao exterior do produto acabado, elaborado pela mão-de-obra semi-servil brasileira. Contar, por exemplo, quanto a Ford, a Chevrolet, a Nestlé e outros “importam” para o fabrico em condições semi-servis por aqui e “exportam”, sempre com isenção de impostos, pois, segundo o discurso oficial, “geram empregos”, falseia a realidade. Vivêssemos em condições de abertura democrática verdadeira e contássemos com economistas sérios, saberíamos quanto ingressou e saiu da economia 100% brasileira, sem estas montagens feitas para falsear a realidade e melhorar nossos números...

_ Médicos recebem o equivalente ao preço de meio-quilo de batatas por consulta. Professores recebem o equivalente a uma banana nanica por hora-aula. Militares e funcionários públicos estão com os salários em decadência há duas décadas. Os preços nos supermercados sobem mensalmente – e tão inexoravelmente que a propaganda massacrante em contrário faz com que muitos compradores – penso que sua maioria... – paguem mais caro por menos produtos e ainda saiam dizendo coisas como “viu como os preços baixaram?”

_ O desemprego bate todos os recordes históricos ultrapassando a barreira dos 30%. Recentemente um movimento grevista na França revelou que 40% dos jovens entre 18 e 24 anos estão desempregados. No Brasil presume-se que este número seja ainda mais astronômico, mas como todos os órgãos que avaliam estes dados estão vendidos ao governo, somente podemos especular. E não muito longe. Com telefone, cartas e Internet, sabemos que em todas as famílias há muitos desempregados e desesperados que, “naturalmente”, não aparecem nos números maquiados da FGV ou do IBGE.

_ Os impostos ultrapassam os níveis do feudalismo europeu: a talha, a corvéia, as banalidades e o dízimo da Igreja não chegavam, em seu total, aos 40% que pagamos a Lula da Silva para que sua esposa compre sapatos elegantes ou o mercado de capitais siga “tranqüilo”. Alguém já comparou o tal mercado com uma senhora nervosa que, por qualquer me-dá-cá-essa-palha precisa de seus sais e não pode ser contrariada! Foi mais um jornalista que sucumbiu à avalanche persecutória Lulo-petista. Aos poucos vamos ficando sem vozes dissidentes. Compreensível. Inaceitável e antidemocrático, mas compreensível. Sua Majestade não admite oposição. Apresenta-se “aberto ao diálogo”, com a condição precípua de que possa dialogar sozinho, ou seja: monologar... Com Lula da Silva a população brasileira embarcou no trem da esperança de desembarcou na estação do medo.

         Toda esta sanha arrecadatória para que diabos, afinal? Na Escandinávia se pagam impostos elevados em troca de excelentes serviços públicos. E no Brasil? Impostos superiores aos escandinavos desviados para a ciranda financeira enquanto toda a nossa infra-estrutura, escolas, hospitais, delegacias e mesmo praças estão largadas ao léu!

 

Orçamento Geral da União – uma peça de ficção

 

         Todos os anos a Presidência da República tem de enviar ao Congresso Nacional sua previsão de gastos e arrecadações para o ano seguinte. Com a queda da CPMF aquela peça somente seguirá ao Congresso no próximo ano. A pergunta incômoda persiste: para quê? Em alguns pontos o Orçamento Geral da União é até interessante como peça literária e, presumivelmente, declaração de propósitos: Tantos milhões para a Saúde, tantos zilhões para a Educação, tanto para construções e obras de reparos em infra-estrutura, tanto para a Segurança Pública... Tudo fictício! O Congresso normalmente aprova – após debates acalorados que só mesmo os iniciados conseguiriam entender, pois defendem interesses estritamente pessoais, jamais públicos – e o governo simplesmente não cumpre... “Contingenciamento” é a palavra usada. Deveria empregar na Educação mas terá de desviar do ensino aos jovens para o Superávit Primário, ou seja, para que os bancos lucrem ainda mais. Deveria reparar estradas e construir portos e aeroportos mas desvia o dinheiro para a ciranda financeira. Sempre com o aval do Congresso Nacional que, sabe-se lá por que motivo, participa aparentemente com entusiasmo de um teatrinho ridículo e aterrorizante!

 

Transposição das Águas do Rio São Francisco

 

         A reivindicação dos defensores do meio-ambiente e das águas dos rios é evangelicamente simples: que haja um debate sobre o tema entre pessoas que efetivamente entendam do assunto. Heroicamente, D. Luiz Cappio, Bispo de Barra, faz greve de fome e a CNBB vai até Lula da Silva pedindo-lhe que abra um canal de diálogo com o povo que tenta defender o rio (o resultado, provavelmente, seria o mesmo, a transposição das águas para abastecer os criadouros de camarões dos latifundiários mais ao Norte se imporia, talvez mesmo, com a cumplicidade da Igreja Romana, sob a alegação de “levar um pouco de água ao povo sedento”...)

         Na reunião entre a CNBB e Lula da Silva, a que estiveram presentes Geddel Vieira Lima e Luiz Dulci, o presidente da república foi irredutível: “este assunto é interno à Igreja e a nós temos um cronograma a cumprir” – gastos exorbitantes que se escoam não se sabem para onde pois as obras são levadas a cabo pelo Exército Brasileiro, sucateado e com seu pessoal pessimamente remunerado...

         Ao final, pasmem, Luiz Dulci tem o desplante Orweliano de declarar: “ficou mais uma vez provado que o presidente da república está aberto ao diálogo...” Que diálogo? Ele fala e os outros obedecem? Isso é diálogo em que dicionário?

 

Cinqüenta e um

 

         Com toda a roubalheira, malversação de dinheiro público, inchaço e aparelhamento da máquina administrativa, impostos escorchantes, juros na estratosfera, desemprego recorde, infra-estrutura sucateada, saúde e educação às traças “o povo”, “a maioria”, dá a Lula da Silva emblemáticos 51% de aprovação! Seguramente ele celebrará isso como de costume...

 

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"E daí? Não estou dirigindo nada mesmo!"

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 17/12/2007

 

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