A Derrota da Política - A Era da
Traição
Dez anos de Plano Real
Sem contemplação ou raciocínio em torno do que se deve ou não
fazer para melhorar a situação existencial de nossa gente, era necessário deter
a escalada inflacionária sem modificar os grandes lucros capitalistas do tempo
contemporâneo. Um plano feito para manter sólidos os lucros do grande capital
especulativo, para o fim a que se destinou teve sucesso absoluto.
Abstraindo detalhes não considerados quando da elaboração do
plano, detalhes como trazer bem-estar ao povo, melhorar a distribuição de renda
ou mesmo a produção foi, desde sempre um projeto técnico voltado única e
exclusivamente a trazer mais segurança e firmeza ao capitalismo brasileiro.
Em 1994 a inflação chegava aos 40% ao mês e naquele ritmo,
terminaria o ano em 5.500%. O país não pagava integralmente sua dívida externa e
estava fora do mapa dos investimentos estrangeiros. Diante daquele quadro era
necessário convencer trabalhadores, empresários e investidores – todos
eleitores, uma vez que era um ano, 1994, de eleições presidenciais – de que,
após os fracassados Cruzado, Cruzado 2, Bresser, Verão, Collor e Collor 2, um
novo plano contra a inflação funcionaria.
Foi por acaso que o professor FHC, reputado até então como
esquerdista e à ocasião na chefia do Itamaraty, estudava uma candidatura a
deputado no ano seguinte, foi nomeado Ministro da Fazenda. Pouco versado nos
temas da pasta, começou sua gestão com a cantilena até hoje repetida por seus
sucessores: não se afastaria do que os economistas chamam de políticas
ortodoxas, ou seja, combateria a inflação com as recomendações da cartilha
tradicional – juros altos e controle dos gastos públicos. O mesmo que se
implantou, à mesma época, na Argentina, no México e numa série de outros países
que já se afastaram deste encaminhamento externo danoso à vida nacional.
No caso brasileiro, o desempenho da ortodoxia nos dois anos
anteriores tampouco era animador. Afinal, “os manuais econômicos não foram
feitos para um país em que preços, salários e contratos eram quase todos
atrelados a índices de correção monetária”.
Ficou claro que somente apelando para a implementação no
Brasil deste plano tecnicamente engendrado nas vísceras do capitalismo
estadunidense se poderiam garantir os grandes lucros de especuladores nacionais
e internacionais, mantendo incólume o capitalismo brasileiro, desde que se
abstraíssem as questões políticas. Esta derrota da política é a principal
característica do Consenso de Washington no Brasil: dentro da mais rigorosa
ortodoxia econômica, o presidente do Banco Central dita as normas que serão
seguidas até pela Presidência da República, invertendo a hierarquia política
nacional. Combate a todos os gastos públicos, ou seja, o BACEN se recusando a
alocar recursos para atividades políticas como investimentos em saúde, educação
ou segurança pública, sob um discurso absolutamente privativista. A grande
conquista seria a paridade da moeda nacional ao dólar estadunidense, o que se
manteve no Brasil artificialmente anos a fio. Completando o círculo de ferro,
taxas de juros na estratosfera, com vistas a garantir “investimentos” externos
com a atratividade do lucro fácil sem a necessidade de investimento em setores
necessários ao social no Brasil. Toda a atividade social ou cultural ficou
relegada à rubrica “esmola” ou sujeita aos fluidos da iniciativa privada, que o
poder público, sem dinheiro para tanto que o capital brasileiro foi todo para
garantir o “bom nome” do Brasil lá fora, à revelia do bem-estar de nossa
gente...
Leitura Indicada:
Era perdida, era maldita,
era da traição – Pobre Brasil...
Tais foram os
epítetos dados pelos estudiosos aos últimos anos e há um esboço de como ficarão
conhecidos os novos tempos. Com tais epítetos sabe-se que a nação passa por um
período dificílimo de crise aparentemente interminável até porque os
governantes, antes de buscar soluções, impuseram-se como gigantescos obstáculos.
O período final da ditadura militar e o governo Sarney
ficaram conhecidos como “Década Perdida”; o período FHC ficou conhecido como
“Década Maldita” – foram 2 anos como ministro de Itamar e 8 como Presidente da
República. O século XXI começa sob o signo da traição.
Na Europa, berço da social-democracia, os partidos políticos
desta linha, após convocar reuniões plenárias com suas bases, via de regra
seguem o doutrinário neoliberal debaixo do discurso de “humanizar o
capitalismo”, com mais ou menos sucesso. Os países escandinavos são um exemplo
de sucesso neste tipo de encaminhamento. Lugares em que há praticamente pleno
emprego e os serviços sociais (fundamentalmente em torno da saúde e da educação)
são encargos exclusivos do poder público. Como resultado a qualidade do
atendimento médico, assim como da educação pública é inquestionável.
O Brasil, como diz Roberto Schwartz, está sempre colocando e
recolocando idéias estrangeiras fora do lugar. Temos dois grandes partidos com
ideário social-democrata: o PT e o PSDB. O PSDB frustrou as expectativas da
nação ao encaminhar de maneira técnica o procedimento político. Primeiro houve a
fé cega no Plano Real. Após tantos anos de inflação ininterrupta era preciso
agarrar-se a alguma coisa. Logo se percebeu que o aquele plano fora engendrado
no mesmo local em que o foram dezenas de outros similares na América Latina e
África: foi a aplicação prática, em nossas plagas, do “Consenso de Washington”.
Um exemplo bem próximo é a Argentina, onde Domingo Cavallo, o FHC deles,
implantou um plano econômico contemporâneo ao nosso real, cujos parâmetros
fundamentais eram os mesmos, ou seja: paridade entre a moeda nacional e o dólar
estadunidense, elevadíssima taxa de juros e controle rigoroso dos gastos
públicos – entendendo os investimentos em saúde e educação como gastos, foram
estes jugulados, quando não suprimidos, lá, aqui, no México e onde mais foi
aplicado – sempre com vistas a pagar vultosas quantias a título de “juros da
dívida”, que há anos ficou claro ser rigorosamente impossível pagar o principal.
O resultado disso, como não poderia deixar de ser, foi o
desemprego, o subemprego – o crescimento recorde das atividades econômicas
informais – o aumento do analfabetismo, da mortalidade, da criminalidade e do
consumo de entorpecentes do lado social e, do lado do capital, um
enriquecimento surpreendente das empresas ligadas ao crédito direto ao
consumidor, assim como daquelas que vivem de especulação. Em suma, dez anos de
plano real trouxeram mais lucros e maior conforto a quem já estava no topo da
pirâmide social brasileira.
A cúpula do PT escolheu seguir para a direita, tal como o
PSDB o fizera quando no governo, sem qualquer consulta às bases eleitorais a
este respeito, como acontece na Europa. No caso petista, dada a tradição de
ouvir as bases e ainda ter uma militância aguerrida além de importantes
lideranças comunistas, este fato tem sido gravíssimo e provocado os maiores
escândalos. Quem ainda tenta encaminhar o processo político de maneira política
é relegado a segundo plano ou mesmo expulso do partido, sob a acusação infamante
de “coerência”. No PT é proibido hoje ser coerente a seu passado histórico. Se
outrora se pregava a cessação do pagamento da dívida externa, o fim do
monetarismo no encaminhamento econômico, o fim da cobrança de juros altos e do
desemprego, a volta das considerações sociais ao centro das atenções,
frustramo-nos todos ao sermos traídos pela cúpula do partido que optou por
agudizar o encaminhamento monetarista dando autonomia ao Banco Central que, na
prática, decide como o dinheiro em circulação no Brasil deve ser “tecnicamente”
empregado. Não há mais decisão política a este respeito a não ser como um
teatrinho voltado a engambelar o povo.
Engambelação passou a ser outro problema. Enquanto o Brasil
segue ladeira abaixo numa escalada pavorosa de desemprego, subemprego, ausência
de considerações sociais, enfim, que não sejam na condição de esmolas – que
inclusive são negadas – a propaganda martela tanto e por tantas vezes coisas até
verossímeis, se a prática, se a vida concreta não as desmentisse, mal sejam
pronunciadas, o que deixa a militância inocente e pouco instruída, além de
emocionalmente envolvida, num engajamento enlouquecido, tentando provar que “não
está tão ruim”, como se isso fosse o suficiente para um governo que prometia
mudanças e não cumpriu, que traiu a vontade do eleitorado. Se o PT prometesse na
campanha o que está fazendo na prática, ou seja, aumentar o desemprego e o
desespero, mantendo os tucanos como donos do Banco Central do Brasil e
agudizando a concentração de rendas ampliando o fosso entre ricos e pobres neste
país, sem dinheiro para nada a não ser o pagamento dos juros de uma dívida que
só faz crescer, tenho dúvidas se teria sido eleito.
Há a elaboração de cartilhas, com dinheiro público por sinal,
o que está sendo questionado, tentando provar que você e eu, leitor, assim como
nove em cada dez brasileiros estamos errados em nossa percepção da realidade.
Que não é verdadeira a nossa percepção de que há mais assaltos hoje do que há
dez anos, que há mais desemprego hoje do que há dez anos, que o governo Lula é
uma continuação piorada do governo FHC. Verdadeira é a cartilha do Duda Goebbels
Mendonça que, por vias tortuosas, “prova” que o contrário da realidade é que
constitui a “verdade” governamental.
Até quando a militância petista, traída pela cúpula do
partido, se deixará enganar pela propaganda governamental? Quanto tempo ainda
demorará até que perceba que estamos vivendo a pior ditadura do mundo, a
ditadura fria do Capital? Até quando aferirá a prática dos homens públicos
somente pelo discurso e não pela prática? Até quando suportará ser tutelada pela
cúpula partidária e aceitará candidamente ser tratada como uma criança
oligofrênica?
Esta ingenuidade da militância é extraordinária pois
constitui o ponto fulcral ao desabrochar do idealismo. Com o tempo desperta...
“Realizações”
do governo petista
Seduzido pelo
Poder, Lula se esquece de suas raízes e não governa. Miseravelmente discursa.
Sempre mentindo. Manipula estatísticas para desinformar no sentido de que seu
governo está realizando “o que nunca antes foi feito neste país” – e quando fala
isso não se refere à formação de quadrilha, que capitaneou ou testemunhou de
perto; tampouco acerca do suborno escancarado a parlamentares ou à queda de
ministros e líderes petistas outrora considerados íntegros por corrupção, abuso
de poder, peculato e crimes de responsabilidade.
Lula quer fazer
acreditar que seu governo é um bem e não um mal, que de fato é, para nosso país!
Nosso
endividamento cresceu para mais de R$ 1.000.000.000.000,00 (UM TRILHÃO DE
REAIS!). Isso realmente nunca havia acontecido antes neste país.
Nossos impostos
jamais haviam sido tão escorchantes. Pagamos ao governo Lula 40% - 2/5 dos
infernos, o dobro do que o Visconde de Barbacena cobrava ao exigir o “quinto” –
e o dinheiro não é empregado nas necessidades básicas de nosso país, vai para o
enriquecimento de banqueiros, para o suborno de parlamentares, para cobrir suas
despesas pessoais e prestar sinecuras a amigos e parentes.
Collor de Mello
seqüestrou a poupança dos Brasileiros. Lula seqüestrou a Esperança
transformando-a em agonia, desespero, desamparo e medo.
O estrago por
ele promovido à própria noção de “esquerda” no mundo somente poderá ser avaliado
com o passar dos anos. Tínhamos Esperança e recebemos a maior traição da
história pátria!
Neste momento o
Ministério Público indiciou os 40 ladrões. Só falta agora pegar o Ali Babá...
Vou Festejar
Como o hino
contemporâneo tem sido esta música de Jorge Aragão, na voz de Beth Carvalho –
“você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão”, conheça a letra e compre o
CD a partir da loja do Submarino. Detalhes no endereço:
http://www.culturabrasil.org/voufestejar.htm
Lázaro Curvêlo Chaves -
3 de abril de 2006