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Deus
e o Estado
MIKHAIL BAKUNIN
Esta edição de Deus e o
Estado, cujo título não foi de autoria de Bakunin, recupera a primeira, de
1882, organizada por Carlo Cafiero e Elisée Reclus, publicada em Genebra pela
Gráfica Juraciana. No livro Bakounine - combats et idées, lançado pelo
Instituto de Estudos Eslavos, Paris, 1979, p. 242, afirma Pierre Pécheaux em
artigo intitulado "1882 - Deus e o Estado, editado por Carlo Cafiero e Elisée
Reclus": "Este escrito, que é um fragmento da 2ª edição do Império
Cnuto-Germânico e a Revolução Social, e o mais conhecido da obra de Bakunin,
traduzido para uma quinzena de idiomas, é objeto de pelo menos 75 edições. De
1882 a 1973, levantamos 71 edições em quinze idiomas diferentes". Neste mesmo
livro há um outro artigo - "Balanço das publicações" -, onde Pécheaux declara
que houve quatro versões de Deus e o Estado: a primeira, de 1882, de
Carlo Cafiero e Elisée Reclus; a segunda, de 1895, de Max Nettlau; a terceira,
uma combinação dos textos contidos nas duas anteriores e a quarta, do citado
Nettlau, acrescida de outros escritos de 1870 e 1871. Em função dessas
combinações variadas de textos, cria-se a confusão durante muitos anos a
respeito do conteúdo de Deus e o Estado, título que coube a Carlo Cafiero,
na edição de 1882, mas que foi aproveitado em diferentes edições subsequentes. A
tradução para o português é de Plínio Augusto Coelho.
Apresentação
Esta apresentação foi escrita
como advertência para a primeira edição desta obra, em 1882, por Carlo Cafiero e
Elisée Reclus.
A vida de Mikhail Bakunin já é
suficientemente conhecida em seus traços gerais. Amigos e inimigos sabem que
este homem foi grande no intelecto, na vontade, na energia perseverante; sabem
que grau de desprezo ele ressentia pela fortuna, pela posição social, pela
glória, todas estas misérias que a maioria dos humanos têm a baixeza de
ambicionar. Fidalgo russo, aparentado da mais alta nobreza do império, entrou,
um dos primeiros, nesta orgulhosa associação de revoltados que souberam se
libertar das tradições, dos preconceitos, dos interesses de raça e de classe, e
desprezar seu bem-estar. Com eles enfrentou a dura batalha da vida, agravada
pela prisão, pelo exílio, por todos os perigos e todas as amarguras que os
homens devotados sofrem em sua existência atormentada.
Uma simples pedra e um nome
marcam no cemitério de Berna o lugar onde foi depositado o corpo de Bakunin. E,
talvez, muito para honrar a memória de um lutador que tinha as vaidades deste
gênero em tão medíocre estima! Seus amigos não farão construir para ele,
certamente, nem faustosos túmulos nem estátua. Sabem com que amplo riso ele os
teria acolhido se lhe tivessem falado de um jazigo edificado em sua glória.
Sabem também que a verdadeira maneira de honrar seus mortos é continuar sua obra
- com o ardor e a perseverança que eles próprios dedicam a ela. Certamente que
esta é uma tarefa difícil, que demanda todos os nossos esforços, pois, entre os
revolucionários da geração que passa, não há sequer um que tenha trabalhado com
mais fervor pela causa comum da Revolução.
Na Rússia, entre os estudantes,
na Alemanha, entre os insurretos de Dresden, na Sibéria, entre seus irmãos de
exílio, na América, na Inglaterra, na França, na Suíça, na Itália, entre todos
os homens de boa vontade, sua influência direta foi considerável. A
originalidade de suas idéias, sua eloquência figurada e veemente, seu zelo
infatigável na propaganda, ajudados, por sinal, pela majestade natural de sua
aparência e por uma vitalidade possante, abriram a Bakunin o acesso a todos os
grupos revolucionários socialistas, e sua ação deixou em todos os lugares marcas
profundas, mesmo entre aqueles que, após o acolherem, o rejeitaram por causa da
diferença de objetivo ou de método. Sua correspondência era das mais extensas;
passava noites inteiras redigindo longas epístolas a seus amigos do mundo
revolucionário, e algumas destas cartas, destinadas a fortalecer os tímidos, a
despertar os adormecidos, a traçar planos de propaganda ou de revolta, tomaram
as proporções de verdadeiros volumes. São estas cartas que explicam sobretudo a
prodigiosa ação de Bakunin no movimento revolucionário do século.
As brochuras por ele publicadas,
em russo, em francês, em italiano, por mais importantes que sejam, e por mais
úteis que tenham sido para disseminar as novas idéias, são a parte mais fraca da
obra de Bakunin.
O texto que publicamos hoje,
Deus e o Estado, não é outra coisa, na realidade, senão um fragmento de
carta ou de relatório. Composto da mesma maneira que a maioria dos outros
escritos de Bakunin, possui o mesmo defeito literário, a falta de proporções;
além disso, é bruscamente interrompido: todas as buscas por nós realizadas para
encontrar o final do manuscrito foram em vão. Bakunin nunca tinha o tempo
necessário para concluir todos os trabalhos empreendidos. Obras eram começadas
sem que outras tivessem sido terminadas. "Minha própria vida é um fragmento",
dizia àqueles que criticavam seus escritos. Entretanto, os leitores de Deus e
o Estado certamente não lamentarão que o texto de Bakunin, ainda que
incompleto, tenha sido publicado. Nele, as questões aparecem tratadas com um
singular vigor de argumentação e de uma maneira decisiva. Ao se dirigir, com
justa razão, aos adversários de boa fé, Bakunin lhes demonstra a inanidade de
sua crença nesta autoridade divina sobre a qual foram fundamentadas todas as
autoridades temporais; ele lhes prova a gênese puramente humana de todos os
governos; enfim, sem deter-se naquelas origens do Estado que já estão condenadas
pela moral pública, tais como a superioridade física, a violência, a nobreza, a
fortuna, ele faz justiça à teoria que daria à ciência o governo das sociedades.
Mesmo supondo que fosse possível reconhecer, no conflito das ambições rivais e
das intrigas, os pretensos e os verdadeiros homens de ciência, e que se
encontrasse um modo de eleição que fizesse esgotar infalivelmente o poderio
daqueles cujo saber é autêntico, que garantia de sabedoria e de probidade em seu
governo poderiam eles nos oferecer? De antemão, não poderíamos, ao contrário,
prever entre estes novos senhores as mesmas loucuras e os mesmos crimes que
entre os senhores de outrora e os do tempo presente? Inicialmente, a ciência não
é: ela se faz. O homem de ciência do dia nada mais é que o ignorante do dia
seguinte. Basta que ele pense ter chegado ao fim para, por isso mesmo, cair
abaixo da criança que acaba de nascer. Mas, tendo reconhecido a verdade em sua
essência, não pode deixar de se corromper pelo privilégio e corromper outros
pelo comando. Para assentar seu governo, ele deverá, como todos os chefes de
Estado, tentar parar a vida nas massas que se agitam abaixo dele, mantê-las na
ignorância para assegurar a calma, enfraquecê-los pouco a pouco para dominá-los
de uma altura maior.
De resto, desde que os
"doutrinários" apareceram, o "gênio" verdadeiro ou pretenso tenta tomar o cetro
do mundo, e sabemos o que isto nos custou. Nós vimos esses homens de ciência em
ação, tanto mais insensíveis quanto mais estudaram, tanto menos amplos em suas
idéias quanto mais tempo passaram a examinar algum fato isolado sob todas as
suas faces, sem nenhuma experiência de vida, porque durante muito tempo não
tiveram outro horizonte senão as paredes de seu queijo, pueris em suas paixões e
vaidades, por não terem sabido tomar parte nas lutas sérias, e nunca aprenderam
a justa proporção das coisas. Não vimos, recentemente, fundar-se uma escola de
"pensadores", por sinal vulgares bajuladores e pessoas de vida sórdida, que
fizeram toda uma cosmogonia para seu uso particular? Segundo eles, os mundos não
foram criados, as sociedades não se desenvolveram, as revoluções não
transformaram os povos, os impérios não desmoronaram, a miséria, a doença e a
morte não foram as rainhas da humanidade senão para fazer surgir uma elite de
acadêmicos, flor desabrochada, da qual todos os outros homens nada mais são
senão seu estrume. E a fim de que esses redatores do Temps e dos
Débats tenham o lazer de "pensar" que as nações vivem e morrem na
ignorância; os outros humanos são consagrados à morte a fim de que estes
senhores tornem-se imortais!
Mas podemos nos tranqüilizar:
esses acadêmicos não terão a audácia de Alexandre, cortando com sua espada o nó
górdio; eles não erguerão o gládio de Carlos Magno. O governo pela ciência
torna-se tão impossível quanto o do direito divino, o do dinheiro ou da força
brutal. Todos os poderes são, doravante, submetidos a uma crítica implacável.
Homens nos quais nasceu o sentimento de igualdade não se deixam mais governar,
aprendem a governar a eles mesmos. Precipitando do alto dos céus aquele do qual
todo poder era suposto descer, as sociedades derrubam também todos aqueles que
reinavam em seu nome. Tal é a revolução que se realiza. Os Estados se deslocam
para dar lugar a uma nova ordem, na qual, assim como Bakunin gostava de dizer,
"a justiça humana substituirá a justiça divina". Se é permitido citar um nome
entre os revolucionários que colaboraram neste imenso trabalho de renovação, não
há nenhum que possamos assinalar com mais justiça do que o de Mikhail Bakunin.
Carlo Cafiero, Elisée Reclus
Genebra, 1882.
DEUS E O ESTADO
Três elementos ou três princípios
fundamentais constituem, na história, as condições essenciais de todo
desenvolvimento humano, coletivo ou individual: 1º) a animalidade humana;
2º) o pensamento; 3º) a revolta. À primeira corresponde
propriamente a economia social e privada; à segunda, a ciência; à
terceira, a liberdade.
Os idealistas de todas as
escolas, aristocratas e burgueses, teólogos e metafísicos, políticos e
moralistas, religiosos, filósofos ou poetas, sem esquecer os economistas
liberais, adoradores desmedidos do ideal, como se sabe, ofendem-se muito quando
se lhes diz que o homem, com sua inteligência magnífica, suas idéias sublimes e
suas aspirações infinitas, nada mais é, como tudo o que existe neste inundo, que
um produto da vil matéria.
Poderíamos responder-lhes que a
matéria da qual falam os materialistas, matéria espontaneamente, eternamente
móvel, ativa, produtiva, a matéria química ou organicamente determinada e
manifesta pelas propriedades ou pelas forças mecânicas, físicas, animais e
inteligentes, que lhe são forçosamente inerentes, esta matéria nada tem de comum
com a vil matéria dos idealistas. Esta última, produto de falsa
abstração, é efetivamente uma coisa estúpida, inanimada, imóvel, incapaz de dar
vida ao mínimo produto, um caput mortuum, uma infame imaginação
oposta a esta bela imaginação que eles chamam Deus; em relação ao
Ser supremo, a matéria, a matéria deles, despojada por eles mesmos de tudo o que
constitui sua natureza real, representa necessariamente o supremo nada. Eles
retiraram da matéria a inteligência, a vida, todas as qualidades determinantes,
as relações ativas ou as forças, o próprio movimento, sem o qual a matéria
sequer teria peso, nada lhe deixando da impenetrabilidade e da imobilidade
absoluta no espaço; eles atribuíram todas estas forças, propriedades ou
manifestações naturais ao ser imaginário criado por sua fantasia abstrativa; em
seguida, invertendo os papéis, denominaram este produto de sua imaginação, este
fantasma, este Deus que é o nada, "Ser supremo"; e, por conseqüência necessária,
declararam que o Ser real, a matéria, o mundo, era o nada. Depois disso eles vêm
nos dizer gravemente que esta matéria é incapaz de produzir qualquer coisa que
seja, até mesmo colocar-se em movimento por si mesma, e que por conseqüência
deve ter sido criada por seu Deus.
Quem tem razão, os idealistas ou
os materialistas? Uma vez feita a pergunta, a hesitação se torna impossível. Sem
dúvida, os idealistas estão errados e os materialistas certos. Sim, os fatos têm
primazia sobre as idéias; sim, o ideal, como disse Proudhon, nada mais é do que
uma flor, cujas condições materiais de existência constituem a raiz. Sim, toda a
história intelectual e moral, política e social da humanidade é um reflexo de
sua história econômica.
Todos os ramos da ciência
moderna, da verdadeira e desinteressada ciência, concorrem para proclamar esta
grande verdade, fundamental e decisiva: o mundo social, o mundo propriamente
humano, a humanidade numa palavra, outra coisa não é senão o desenvolvimento
supremo, a manifestação mais elevada da animalidade pelo menos para nós e em
relação ao nosso planeta. Mas como todo desenvolvimento implica necessariamente
uma negação, a da base ou do ponto de partida, a humanidade é, ao mesmo tempo e
essencialmente, a negação refletida e progressiva da animalidade nos homens; e é
precisamente esta negação, racional por ser natural, simultaneamente histórica e
lógica, fatal como o são os desenvolvimentos e as realizações de todas as leis
naturais no mundo, é ela que constitui e que cria o ideal, o mundo das
convicções intelectuais e morais, as idéias.
Sim, nossos primeiros ancestrais,
nossos Adão e Eva foram, senão gorilas, pelo menos primos muito próximos dos
gorilas, dos onívoros, dos animais inteligentes e ferozes, dotados, em grau
maior do que o dos animais de todas as outras espécies, de duas faculdades
preciosas: a faculdade de pensar e a necessidade de se revoltar.
Estas duas faculdades, combinando
sua ação progressiva na história, representam a potência negativa no
desenvolvimento positivo da animalidade humana, e criam consequentemente tudo o
que constitui a humanidade nos homens.
A Bíblia, que é um livro muito
interessante, e aqui e ali muito profundo, quando o consideramos como uma das
mais antigas manifestações da sabedoria e da fantasia humanas, exprime esta
verdade, de maneira muito ingênua, em seu mito do pecado original. Jeová, que,
de todos os bons deuses adorados pelos homens, foi certamente o mais ciumento, o
mais vaidoso, o mais feroz, o mais injusto, o mais sanguinário, o mais despótico
e o maior inimigo da dignidade e da liberdade humanas, Jeová acabava de criar
Adão e Eva, não se sabe por qual capricho, talvez para ter novos escravos. Ele
pôs, generosamente, à disposição deles toda a terra, com todos os seus frutos e
todos os seus animais, e impôs um único limite a este completo gozo: proibiu-os
expressamente de tocar os frutos da árvore de ciência. Ele queria, pois, que o
homem, privado de toda consciência de si mesmo, permanecesse um eterno animal,
sempre de quatro patas diante do Deus "vivo", seu criador e seu senhor. Mas eis
que chega Satã, o eterno revoltado, o primeiro livre-pensador e o emancipador
dos mundos! Ele faz o homem se envergonhar de sua ignorância e de sua obediência
bestiais; ele o emancipa, imprime em sua fronte a marca da liberdade e da
humanidade, levando-o a desobedecer e a provar do fruto da ciência.
Conhece-se o resto. O bom Deus,
cuja presciência, constituindo uma das divinas faculdades, deveria tê-lo
advertido do que aconteceria, pôs-se em terrível e ridículo furor: amaldiçoou
Satã, o homem e o mundo criados por ele próprio, ferindo-se, por assim dizer, em
sua própria criação, como fazem as crianças quando se põem em cólera; e não
contente em atingir nossos ancestrais, naquele momento ele os amaldiçoou em
todas as suas gerações futuras, inocentes do crime cometido por seus ancestrais.
Nossos teólogos católicos e protestantes acham isto muito profundo e justo,
precisamente porque é monstruosamente iníquo e absurdo. Depois, lembrando-se de
que ele não era somente um Deus de vingança e cólera, mais ainda, um Deus de
amor, após ter atormentado a existência de alguns bilhões de pobres seres
humanos e tê-los condenado a um eterno inferno, sentiu piedade e para salvá-los,
para reconciliar seu amor eterno e divino com sua cólera eterna e divina, sempre
ávida de vítimas e de sangue, ele enviou ao mundo, como uma vítima expiatória,
seu filho único, a fim de que ele fosse morto pelos homens. Isto é denominado
mistério da Redenção, base de todas as religiões cristãs.
Ainda se o divino Salvador
tivesse salvo o mundo humano! Mas não; no paraíso prometido pelo Cristo, como se
sabe, visto que é formalmente anunciado, haverá poucos eleitos. O resto, a
imensa maioria das gerações presentes e futuras arderão eternamente no inferno.
Enquanto isso, para nos consolar, Deus, sempre justo, sempre bom, entrega a
terra ao governo dos Napoleão III, Guilherme 1, Ferdinando da Áustria e
Alexandre de todas as Rússias.
Tais são os contos absurdos que
se narram e as doutrinas monstruosas que se ensinam, em pleno século XIX, em
todas as escolas populares da Europa, sob ordem expressa dos governos. Chama-se
a isto civilizar os povos! Não é evidente que todos os governos são os
envenenadores sistemáticos, os embrutecedores interessados das massas populares?
Eis os ignóbeis e criminosos
meios que eles empregam para reter as nações em eterna escravidão, a fim de
poder melhor despojá-las, sem dúvida nenhuma. O que são os crimes de todos os
Tropmann do mundo, em presença deste crime de lesa-humanidade que se comete
quotidianamente, abertamente, sobre toda a superfície do mundo civilizado, por
aqueles mesmos que ousam chamar-se de tutores e pais dos povos?
Entretanto, no mito do pecado
original, Deus deu razão a Satã; ele reconheceu que o diabo não havia enganado
Adão e Eva ao lhes prometer a ciência e a liberdade, como recompensa pelo ato de
desobediência que ele os induzira a cometer. Assim que eles provaram do fruto
proibido, Deus disse a si mesmo (ver a Bíblia): "Aí está, o homem tornou-se como
um dos deuses, ele conhece o bem e o mal; impeçamo-lo pois de comer o fruto da
vida eterna, a fim de que ele não se torne imortal como Nós".
Deixemos agora de lado a parte
fabulosa deste mito, e consideremos seu verdadeiro sentido, muito claro, por
sinal. O homem se emancipou, separou-se da animalidade e se constituiu homem;
ele começou sua história e seu desenvolvimento especificamente humano por um ato
de desobediência e de ciência, isto é, pela revolta e pelo pensamento.
O sistema dos idealistas
apresenta-nos inteiramente ao contrário. É a reviravolta absoluta de todas essas
experiências humanas e deste bom senso universal e comum, que é a condição
essencial de qualquer conhecimento humano, e que, partindo desta verdade tão
simples, há tanto tempo reconhecida, que 2 mais 2 são 4, até às considerações
científicas mais sublimes e mais complicadas, não admitindo, por sinal, nada que
não seja severamente confirmado pela experiência e pela observação das coisas e
dos fatos, constitui a única base séria dos conhecimentos humanos.
Concebe-se perfeitamente o
desenvolvimento sucessivo do mundo material, tanto quanto o da vida orgânica,
animal, e da inteligência historicamente progressiva do homem, individual ou
social. É um movimento completamente natural, do simples ao composto, de baixo
para cima, ou do inferior ao superior; um movimento conforme a todas as nossas
experiências quotidianas e, consequentemente, conforme também à nossa lógica
natural, às leis próprias de nosso espírito, que só se formam e só podem
desenvolver-se com a ajuda destas mesmas experiências, que nada mais são senão
sua reprodução mental, cerebral, ou o resumo ponderado.
Longe de seguir a via natural, de
baixo para cima, do inferior ao superior, e do relativamente simples ao mais
complicado; ao invés de admitir sabiamente, racionalmente, a transição
progressiva e real do mundo denominado inorgânico ao mundo orgânico, vegetal,
animal, em seguida especialmente humano; da matéria ou do ser químico à matéria
ou ao ser vivo, e do ser vivo ao ser pensante, os idealistas, obsedados, cegos e
impulsionados pelo fantasma divino que herdaram da teologia, tomam a via
absolutamente contrária. Eles vão de cima para baixo, do superior ao inferior,
do complicado ao simples. Eles começam por Deus, seja como pessoa, seja como
substância ou idéia divina, e o primeiro passo que dão é uma terrível queda das
alturas sublimes do eterno ideal na lama do mundo material: da perfeição
absoluta na imperfeição absoluta; do pensamento ao ser, ou ainda, do Ser Supremo
ao Nada. Quando, como o por que o Ser divino, eterno, infinito, o perfeito
absoluto, provavelmente entediado de si mesmo, decidiu-se a esse salto mortal
desesperado, eis o que nenhum idealista, nem teólogo, nem metafísico, nem poeta,
jamais soube compreender, nem explicar aos profanos. Todas as religiões passadas
e presentes e todos os sistemas de filosofia transcendentes apoiam-se nesse
único e iníquo mistério[']. Santos homens, legisladores inspirados, profetas e
messias, procuraram lá a vida e só encontraram a tortura e a morte. Assim como a
esfinge antiga, ele os devorou, porque não souberam explicar esse mistério.
Grandes filósofos, desde Heráclito e Platão até Descartes, Spinoza, Leibnitz,
Kant, Fichte, Schelling e Hegel, sem falar dos filósofos hindus, escreveram
amontoados de volumes e criaram sistemas tão engenhosos quanto sublimes, nos
quais disseram passagens muito belas, e grandes coisas, e descobriram verdades
imortais, mas deixaram este mistério, objeto principal de suas investigações
transcendentes, tão insondável quanto antes deles. Os esforços gigantescos dos
mais admiráveis gênios que o mundo conhece, e que, uns após outros, durante
trinta séculos pelo menos, empreenderam sempre esse trabalho de Sísifo, só
conseguiram tornar este mistério mais incompreensível ainda. Podemos esperar que
ele nos seja desvendado pelas especulações rotineiras de algum pedante discípulo
de uma metafísica artificialmente requentada, numa época em que todos os
espíritos vivos e sérios desviaram-se dessa ciência equivoca, saída de uma
transação entre o contra-senso da fé e a sadia razão científica?
É evidente que esse terrível
mistério é inexplicável, isto é, absurdo, e absurdo porque não se deixa
explicar. E evidente que alguém que dele necessite para sua felicidade, para sua
vida, deve renunciar à sua razão e retornar, caso seja possível, à fé ingênua,
cega, estúpida; repetir com Tertuliano e com todos os crentes sinceros estas
palavras que resumem a própria quintessência da teologia: Credo quja absurdum.
Nesse caso cessa toda a discussão
e só resta a estupidez triunfante da fé. Mas logo em seguida surge uma outra
pergunta:
Como pode nascer, em um homem
inteligente e instruído, a necessidade de crer nesse mistério?
Que a crença em Deus, criador,
ordenador, juiz, senhor, amaldiçoador, salvador e benfeitor do mundo, tenha se
conservado no povo, e sobretudo nas populações rurais, muito mais do que no
proletariado das cidades, nada mais natural. O povo, infelizmente, é ainda muito
ignorante e mantido na ignorância pelos esforços sistemáticos de todos os
governos que consideram isso, com muita razão, como uma das condições essenciais
de seu próprio poder. Esmagado por seu trabalho quotidiano, privado de lazer, de
comércio intelectual, de leitura, enfim, de quase todos os meios e de uma boa
parte dos estímulos que desenvolvem a reflexão nos homens, o povo aceita, na
maioria das vezes, sem crítica e em bloco, as tradições religiosas. Elas o
envolvem desde a primeira idade, em todas as circunstâncias de sua vida,
artificialmente mantidas em seu seio por uma multidão de corruptores oficiais de
todos os tipos, padres e leigos, elas se transformam entre eles em um tipo de
hábito mental, freqüentemente mais poderoso do que seu bom senso natural.
Há uma outra razão que explica e
legitima de certo modo as crenças absurdas do povo.
Esta razão é a situação miserável
à qual ele se encontra fatalmente condenado pela organização econômica da
sociedade, nos países mais civilizados da Europa. Reduzido, sob o aspecto
intelectual e moral, tanto quanto sob o aspecto material, ao mínimo de uma
existência humana, recluso em sua vida como um prisioneiro em sua prisão, sem
horizontes, sem saída, até mesmo sem futuro, se se acredita nos economistas, o
povo deveria ter a alma singularmente estreita e o instinto aviltado dos
burgueses para não sentir a necessidade de sair disso; mas, para isso, há
somente três meios: dois fantásticos, e o terceiro real. Os dois primeiros são o
cabaré e a igreja; o terceiro é a revolução social. Esta última, muito mais que
a propaganda antiteológica dos livres-pensadores, será capaz de destruir as
crenças religiosas e os hábitos de libertinagem no povo, crenças e hábitos que
estão mais intimamente ligados do que se pensa. Substituindo os gozos
simultaneamente ilusórios e brutais da orgia corporal e espiritual pelos gozos
tão delicados quanto ricos da humanidade desenvolvida em cada um e em todos, a
revolução social terá a força de fechar ao mesmo tempo todos os cabarés e todas
as igrejas.
Até lá, o povo, considerado em
massa, crerá, e se não tem razão de crer, pelo menos terá o direito de fazê-lo.
Há uma categoria de pessoas que,
se não crêem, devem pelo menos fazer de conta que sim. São todos os
atormentadores, os opressores, os exploradores da humanidade: padres, monarcas,
homens de Estado, homens de guerra, financistas públicos e privados,
funcionários de todos os tipos, soldados, policiais, carcereiros e carrascos,
capitalistas, aproveitadores, empresários e proprietários, advogados,
economistas, políticos de todas as cores, até o último vendedor de especiarias,
todos repetirão em uníssono essas palavras de Voltaire: "Se Deus não existisse
seria preciso inventá-lo".
Vós compreendeis, "é preciso uma
religião para o povo". E a válvula de escape.
Há também um número de almas
honestas, mas fracas, que, muito inteligentes para levar os dogmas cristãos a
sério, rejeita-os a retalho, mas não têm a coragem, nem a força, nem a resolução
necessária para repeli-los por atacado. Elas abandonam à crítica todos os
absurdos particulares da religião, elas desdenham de todos os milagres, mas se
agarram desesperadamente ao absurdo principal, fontes de todos os outros, ao
milagre que explica e legitima todos os outros milagres, à existência de Deus.
Seu Deus não é, em nada, o Ser vigoroso e potente, o Deus totalmente positivo da
teologia. E um ser nebuloso, diáfano, ilusório, de tal forma ilusório que se
transforma em Nada quando se acredita tê-lo agarrado; é uma miragem, uma pequena
chama que não aquece nem ilumina. E entretanto elas se prendem a ele, e
acreditam que se ele desaparecesse, tudo desapareceria com ele. São almas
incertas, doentes, desorientadas na civilização atual, não pertencendo nem ao
presente nem ao futuro, pálidos fantasmas eternamente suspensos entre o céu e a
terra, e ocupando, entre a política burguesa e o socialismo do proletariado,
absolutamente a mesma posição. Elas não seu tem força para pensar até o fim, nem
para querer, nem para se decidir, e perdem seu tempo e sua ocupação
esforçando-se sempre em conciliar o inconciliável.
Na vida pública, estas pessoas se
chamam socialistas burgueses. Nenhuma discussão é possível com elas. Elas são
muito doentes.
Mas há um pequeno número de
homens ilustres, dos quais ninguém ousará falar sem respeito, e dos quais nada
poderá colocar em dúvida nem a saúde vigorosa, nem a força de espírito, nem a
boa fé. Basta que eu cite os nomes de Mazzini, Michelet, Quinet, John Stuart
Mill [2] Almas generosas e fortes, grandes corações, grandes espíritos, grandes
escritores, o primeiro, regenerador heróico e revolucionário de uma grande
nação, são todos apóstolos do idealismo, e desprezadores, adversários
apaixonados do materialismo, e, consequentemente, do socialismo, em filosofia
tanto quanto em política.
É pois contra eles que é preciso
discutir esta questão.
* * *
Constatemos inicialmente que
nenhum dos homens ilustres que acabo de citar, nem qualquer outro pensador
idealista com alguma importância em nossos dias ocupou-se, para dizer a verdade,
com a parte lógica desta questão. Nenhum tentou resolver filosoficamente a
possibilidade do salto mortal divino das regiões eternas e puras do
espírito à lama do mundo material. Será que eles temeram abordar esta insolúvel
contradição e se desesperaram de resolvê-la, depois que os maiores gênios da
história fracassaram, ou será que eles a consideraram como já suficientemente
resolvida? É segredo deles. O fato é que eles deixaram de lado a demonstração
teórica da existência de um Deus, e só desenvolveram suas razões e conseqüências
práticas. Eles falaram dele como de um fato universalmente aceito e, como tal,
não podendo mais tornar-se objeto de uma dúvida qualquer, limitando-se, contra
qualquer prova, a constatar a antigüidade e mesmo a universalidade da crença em
Deus.
Esta unanimidade imponente,
segundo a opinião de muitos homens e escritores ilustres, e, para citar apenas
os mais renomados dentre eles, Joseph de Maistre e o grande patriota italiano
Giuseppe Mazzini, vale mais do que todas as demonstrações da ciência; e, se a
lógica de um pequeno número de pensadores conseqüentes e mesmo muito influentes,
mas isolados, lhe é contrária, tanto pior, dizem eles, para estes pensadores e
para sua lógica, pois o consentimento geral, a adoção universal e antiga de uma
idéia foram sempre consideradas como a prova mais vitoriosa de sua verdade. O
sentimento de todo o mundo, uma convicção que é encontrada e se mantém sempre e
em todos os lugares não poderia se enganar; eles devem ter sua raiz numa
necessidade absolutamente inerente à própria natureza do homem. E visto que foi
constatado que todos os povos passados e presentes acreditaram e acreditam na
existência de Deus, é evidente que aqueles que têm a infelicidade de duvidar
disso, qualquer que seja a lógica que os tenha levado a esta dúvida, são
exceções, anomalias, monstros.
Assim, pois, a antigüidade e a
universalidade de uma crença seriam, contra toda ciência e contra toda lógica,
uma prova suficiente e irrecusável de sua verdade.
Por quê?
Até o século de Galileu e de
Copérnico, todo mundo acreditava que o sol girava em torno da terra. Todo mundo
não estava errado? O que há de mais antigo e de mais universal do que a
escravidão? A antropofagia, talvez. Desde a origem da sociedade histórica, até
nossos dias, sempre houve, e em todos os lugares, exploração do trabalho forçado
das massas, escravos, servos ou assalariados, por alguma minoria dominante,
opressão dos povos pela Igreja e pelo Estado. Deve-se concluir que esta
exploração e esta opressão sejam necessidades absolutamente inerentes à própria
existência da sociedade humana? Eis alguns exemplos que mostram que a
argumentação dos advogados do bom Deus nada prova.
Nada é, com efeito, nem tão
universal nem tão antigo quanto o iníquo e o absurdo; é ao contrário a verdade,
a justiça que, no desenvolvimento das sociedades humanas, aio as menos
universais e as mais jovens. Assim se explica, por sinal, um fenômeno histórico
constante: as perseguições àqueles que proclamam a primazia da verdade, por
parte dos representantes oficiais, privilegiados e interessados pelas crenças
"universais" e "antigas", e freqüentemente também por parte destas mesmas massas
populares que, após tê-los inicialmente desconhecido, acabam sempre por adotar e
por fazer triunfar suas idéias.
Para nós, materialistas e
socialistas revolucionários, não há nada que nos surpreenda e nos amedronte
nesse fenômeno histórico. Fortalecidos em nossa consciência, em nosso amor pela
verdade, por esta paixão lógica que por si só constitui uma grande força, e fora
da qual não há pensamento; fortalecidos em nossa paixão pela justiça e em nossa
fé inquebrantável no triunfo da humanidade sobre todas as bestialidades teóricas
e práticas; fortalecidos, enfim, em nossa confiança e no apoio mútuo que se dá o
pequeno número daqueles que compartilham nossas convicções, nós nos resignamos
por nós mesmos a todas as conseqüências desse fenômeno histórico no qual vemos a
manifestação de uma lei social tão invariável quanto todas as outras leis que
governam o mundo.
Esta lei é uma conseqüência
lógica, inevitável, da origem animal da sociedade humana; e diante de todas as
provas científicas, fisiológicas, psicológicas, históricas, que se acumularam em
nossos dias, assim como diante das façanhas dos alemães conquistadores da
França, que dão uma demonstração tão ruidosa, não é mais possível, realmente,
duvidar disso. Mas, do momento em que se aceita esta origem animal do homem,
tudo se explica. A história nos aparece então como a negação revolucionária, ora
lenta, apática, adormecida, ora apaixonada e possante, do passado. Ela consiste
precisamente na negação progressiva da animalidade primitiva do homem pelo
desenvolvimento de sua humanidade. O homem, animal feroz, primo do gorila,
partiu da noite profunda do instinto animal para chegar à luz do espírito, o que
explica de uma maneira completamente natural todas as suas divagações passadas e
nos consola em parte de seus erros presentes. Ele partiu da escravidão animal, e
atravessando a escravidão divina, termo transitório entre sua animalidade e sua
humanidade, caminha hoje rumo à conquista e à realização da liberdade humana.
Resulta daí que a antigüidade de uma crença, de uma idéia, longe de provar
alguma coisa em seu favor, deve, ao contrário, torná-la suspeita para nós. Isto
porque atrás de nós está nossa animalidade, e diante de nós nossa humanidade; a
luz humana, a única que pode nos aquecer e nos iluminar, a única que nos pode
emancipar, tornar-nos dignos, livres, felizes, e realizar a fraternidade entre
nós, jamais está no princípio, mas, relativamente, na época em que se vive, e
sempre no fim da história. Não olhemos jamais para trás, olhemos sempre para a
frente; à frente está nosso sol, nossa salvação; se nos é permitido, se é mesmo
útil, necessário nos virarmos para o estudo de nosso passado, é apenas para
constatar o que fomos e o que não devemos mais ser, o que acreditamos e
pensamos, e o que não devemos mais acreditar nem pensar, o que fizemos e o que
nunca mais deveremos fazer.
Eis o que concerne à antigüidade.
Quanto à universalidade de um erro, ela só prova uma coisa: a semelhança, senão
a perfeita identidade da natureza humana, em todos os tempos e sob todos os
climas. E, visto que está constatado que todos os povos, em todas as épocas de
sua vida, acreditaram e acreditam ainda em Deus, devemos concluir disso,
simplesmente, que a idéia divina, emanada de nós mesmos, é um erro
historicamente necessário no desenvolvimento da humanidade, e nos perguntarmos
por que, como ele foi produzido na história, por que a imensa maioria da espécie
humana o aceita, ainda hoje, como uma verdade?
Enquanto não soubermos dar-nos
conta da maneira como a idéia de um mundo sobrenatural e divino se produziu, e
pôde fatalmente se produzir no desenvolvimento histórico da consciência humana,
de nada adiantará estarmos cientificamente convencidos do absurdo desta idéia,
não conseguiremos nunca destruí-la na opinião da maioria, porque não saberemos
jamais atacá-la nas profundezas do ser humano, onde ela se originou. Condenados
a uma esterilidade sem saída e sem fim, devemos sempre contentar-nos em
combatê-la somente à superfície, em suas inúmeras manifestações, cujo absurdo,
tão logo abatido pelos golpes do bom senso, renasce imediatamente após, sob uma
nova forma, não menos insensata. Enquanto a raiz de todos os absurdos que
atormentam o mundo não for destruída, a crença em Deus permanecerá intacta e
jamais deixará de produzir novos brotos. E assim que, em nossos dias, em certas
regiões da alta sociedade, o espiritismo tende a se instalar sobre as ruínas do
cristianismo. Não é somente no interesse das massas, é no interesse da saúde de
nosso próprio espírito que devemos nos esforçar para compreender a gênese
histórica, a sucessão das causas que desenvolveram e produziram a idéia de Deus
na consciência dos homens. De nada adianta nos dizermos e nos considerarmos
ateus; enquanto não tivermos compreendido essas causas, nos deixaremos sempre
mais ou menos dominar pelos clamores dessa consciência universal, da qual não
teremos descoberto o segredo, e dada a fraqueza natural do indivíduo, mesmo do
mais forte, contra a influência todo-poderosa do meio social que o entrava,
corremos sempre o risco de recair, cedo ou tarde, de uma maneira ou de outra, no
abismo do absurdo religioso. Os exemplos dessas conversões vergonhosas são
freqüentes na sociedade atual.
* * *
Falei da razão prática principal
do poder exercido ainda hoje pelas crenças religiosas sobre as massas. Essas
disposições místicas não denotam no homem somente uma aberração do espírito, mas
um profundo descontentamento do coração. E o protesto instintivo e apaixonado do
ser humano contra as estreitezas, as vulgaridades, as dores e as vergonhas de
uma existência miserável. Contra esta doença, já disse, só há um único remédio:
a Revolução Social.
Em outros escritos me preocupei
em expor as causas que presidiram ao nascimento e ao desenvolvimento histórico
das alucinações religiosas na consciência do homem. E aqui quero tratar desta
questão da existência de um Deus, ou da origem divina do mundo e do homem sob o
ponto de vista de sua utilidade moral e social, e direi poucas palavras sobre a
razão teórica desta crença, a fim de melhor explicar meu pensamento.
Todas as religiões, com seus
deuses, seus semideuses e seus profetas, seus messias e seus santos, foram
criadas pela fantasia crédula do homem, que ainda não alcançou o pleno
desenvolvimento e a plena possessão de suas faculdades intelectuais. Em
conseqüência, o céu religioso nada mais é do que uma miragem onde o homem,
exaltado pela ignorância pela fé, encontra sua própria imagem, mas ampliada e
invertida, isto é, divinizada. A história das religiões, a do nascimento, da
grandeza e da decadência dos deuses que se se sucederam na crença humana, não é
nada mais do que o desenvolvimento da inteligência e da consciência coletivas
homens. À medida que, em sua marcha histórica progressiva, eles descobriam, seja
neles próprios, seja na natureza exterior, uma força, uma qualidade, ou mesmo
grande defeito quaisquer, eles os atribuíam a seus deuses após tê-los exagerado,
ampliado desmedidamente, como fazem habitualmente as crianças, por um ato de sua
fantasia religiosa. Graças a esta modéstia e a esta piedosa generosidade dos
homens, crentes e crédulos, o céu se enriqueceu com os despojos da terra, e, por
conseqüência necessária, quanto mais o céu se tornava rico, mais a humanidade e
a terra se tornavam miseráveis. Uma vez instalada a divindade, ela foi
naturalmente proclamada a causa, a razão, o árbitro e o distribuidor absoluto de
todas as coisas: o mundo não foi mais nada, ela foi tudo; e o homem, seu
verdadeiro criador, após tê-la tirado do nada sem o saber, ajoelhou-se diante
dela, adorou-a e se proclamou sua criatura e seu escravo.
O cristianismo é precisamente a
religião por excelência, porque ele expõe e manifesta, em sua plenitude, a
natureza, a própria essência de todo o sistema religioso, que é empobrecimento,
a escravização e o aniquilamento da humanidade em proveito da divindade.
Deus sendo tudo, o mundo real e o
homem não são nada. Deus sendo a verdade, a justiça, o bem, o belo, a força e a
vida, o homem é a mentira, a iniqüidade, o mal, a feiúra, a impotência e a
morte. Deus sendo o senhor, o homem é o escravo. Incapaz de encontrar por si
próprio a justiça, a verdade e a vida eterna, ele só pode alcançar isso por meio
de uma revelação divina. Mas quem diz revelação diz reveladores, messias,
profetas, padres e legisladores inspirados pelo próprio Deus; e estes, uma vez
reconhecidos como os representantes da divindade sobre a terra, como os santos
instituidores da humanidade, eleitos pelo próprio Deus para dirigi-la em direção
à via da salvação, exercem necessariamente um poder absoluto. Todos os homens
lhes devem uma obediência passiva e ilimitada, pois contra a razão divina não há
razão humana, e contra a justiça de Deus não há justiça terrestre que se
mantenha. Escravos de Deus, os homens devem sê-lo também da Igreja e do Estado,
enquanto este último for consagrado pela Igreja. Eis o que de todas as religiões
que existem ou que existiram, o cristianismo compreendeu melhor do que as
outras, sem excetuar a maioria das antigas religiões orientais, as quais só
abarcaram povos distintos e privilegiados, enquanto que o cristianismo tem a
pretensão de abarcar a humanidade inteira; eis o que, de todas as seitas
cristãs, o catolicismo romano, sozinho, proclamou e realizou com uma
conseqüência rigorosa. É por isso que o cristianismo é a religião absoluta, a
última religião, é por isso que a Igreja apostólica e romana é a única
conseqüente, a única lógica.
A despeito dos metafísicos e dos
idealistas religiosos, filósofos, políticos ou poetas, a idéia de Deus implica a
abdicação da razão e da justiça humanas; ela é a negação mais decisiva da
liberdade humana e resulta necessariamente na escravidão dos homens, tanto na
teoria quanto na prática.
Anão ser que queiramos a
escravidão e o envilecimento dos homens, como o querem os jesuítas, como o
querem os mômiers [3], os pietistas[4] e os metodistas protestantes, não podemos
nem devemos fazer a mínima concessão, nem ao Deus da teologia nem ao da
metafísica. Aquele que, neste alfabeto místico, começa por Deus, deverá
fatalmente acabar por Deus; aquele que quer adorar Deus, deve, sem se pôr
ilusões pueris, renunciar bravamente à sua liberdade e à sua humanidade.
Se Deus é, o homem é escravo;
ora, o homem pode, deve ser livre, portanto, Deus não existe.
Desafio quem quer que seja para
sair deste circulo, e agora que se escolha.
* * *
É preciso lembrar quanto e como
as religiões embrutecem e corrompem os povos? Elas matam neles a razão, o
principal instrumento da emancipação humana e os reduzem à imbecilidade,
condição essencial da escravidão. Elas desonram o trabalho humano e fazem dele
sinal e fonte de servidão. Elas matam a noção e o sentimento da justiça humana,
fazendo sempre pender a balança para o lado dos patifes triunfantes, objetos
privilegiados da graça divina. Elas matam o orgulho e a dignidade humana,
protegendo apenas a submissos e os humildes. Elas sufocam no coração dos povos
todo sentimento de fraternidade humana, preenchendo-o de crueldade.
Todas as religiões são cruéis,
todas são fundadas sobre o sangue, visto que todas repousam principalmente sobre
a idéia do sacrifício, isto é, sobre a imolação perpétua da humanidade à
insaciável vingança da divindade. Neste sangrento mistério, o homem é sempre a
vítima, e o padre, homem também, mas homem privilegiado pela graça, é o divino
carrasco. Isto nos explica por que os padres de todas as religiões, os melhores,
os mais humanos, os mais doces, têm quase sempre no fundo de seu coração - senão
no coração, pelo menos em sua imaginação, em seu espírito - alguma coisa de
cruel e de sanguinário.
* * *
Tudo isso, nossos ilustres
idealistas contemporâneos sabem melhor do que ninguém. São homens sábios, que
conhecem sua história de memória; e como eles são ao mesmo tempo homens vivos,
grandes almas penetradas de um amor sincero e profundo pelo bem da humanidade,
eles amaldiçoaram e estigmatizaram todas estas malfeitorias, todos estes crimes
da religião com uma eloqüência sem igual. Eles rejeitam com indignação toda
solidariedade com o Deus das religiões positivas e com seus representantes
passados e presentes sobre a terra.
O Deus que eles adoram, ou que
eles pensam adorar, distingue-se precisamente dos deuses reais da história por
não ser um Deus positivo, determinado da maneira que se quiser, teologicamente,
ou até mesmo metafisicamente. Não 6 nem o Ser supremo de Robespierre e de J.-J.
Rousseau, nem o deus panteísta de Spinoza, nem mesmo o deus, ao mesmo tempo
inocente, transcedente e muito equívoco de Hegel. Eles tomam cuidado de lhe dar
uma determinação positiva qualquer, sentindo muito bem que toda determinação o
submeteria à ação dissolvente da crítica. Eles não dirão se ele é um deus
pessoal ou impessoal, se ele criou ou não criou o mundo; sequer falarão de sua
divina providência. Tudo isso poderia comprometê-lo. Eles se contentarão em
dizê-lo: Deus, e nada mais do que isso. Mas então o que é seu deus? Não é sequer
uma idéia, é uma aspiração.
É o nome genérico de tudo o que
parece grande, bom, belo, nobre, humano. Mas por que não dizem então: o homem?
Ah! E que o rei Guilherme da Prússia e Napoleão III, e todos os idênticos a eles
são igualmente homens: eis o que os embaraça muito. A humanidade real nos
apresenta um conjunto de tudo o que há de mais vil e de mais monstruoso no
mundo. Como sair disso? Eles chamam um de divino e o outro de bestial,
representando a divindade e a animalidade como dois pólos entre os quais eles
situam a humanidade. Eles não querem ou não podem compreender que estes três
termos formam um único, e que se os separarmos, nós os destruímos.
Eles não são bons em lógica, e
dir-se-ia que a desprezam. E isso que os distingue dos metafísicos panteístas e
deístas, e o que imprime às suas idéias o caráter de um idealismo prático,
buscando suas inspirações menos no desenvolvimento severo de um pensamento do
que nas experiências, direi, quase nas emoções, tanto históricas e coletivas
quanto individuais, da vida. Isto dá à sua propaganda uma aparência de riqueza e
de potência vital, mas aparência somente, pois a vida se torna estéril quando é
paralisada por uma contradição lógica.
Esta contradição é a seguinte:
eles querem Deus e querem a humanidade. Obstinam-se em colocar juntos dois
termos que, uma vez separados, só podem se reencontrar para se entredestruir.
Eles dizem de uma só vez: Deus e a liberdade do homem, Deus e a dignidade, a
justiça, a igualdade, a fraternidade, a prosperidade dos homens, sem se
preocupar com a lógica fatal, em virtude da qual, se Deus existe, ele é
necessariamente o senhor eterno, supremo, absoluto, e se este senhor existe, o
homem é escravo; se ele é escravo, não há justiça, nem igualdade, nem
fraternidade, nem prosperidade possível. De nada adiantará, contrariamente ao
bom senso e a todas as experiências da história, eles representarem seu Deus
animado do mais doce amor pela liberdade humana: um senhor, por mais que ele
faça e por mais liberal que queira se mostrar, jamais deixa de ser, por isso, um
senhor. Sua existência implica necessariamente a escravidão de tudo o que se
encontra debaixo dele. Assim, se Deus existisse, só haveria para ele um único
meio de servir à liberdade humana; seria o de cessar de existir.
Amoroso e ciumento da liberdade
humana e considerando-a como a condição absoluta de tudo o que adoramos e
respeitamos na humanidade, inverto a frase de Voltaire e digo que, se Deus
existisse, seria preciso aboli-lo.
* * *
A severa lógica que me dita estas
palavras é muito evidente para que eu necessite desenvolver esta argumentação. E
me parece impossível que os homens ilustres, dos quais citei os nomes tão
célebres e tão justamente respeitados não tenham sido tocados e não tenham
percebido a contradição na qual eles caem ao falar de Deus e da liberdade humana
simultaneamente. Para que tenham passado ao longo do problema, foi preciso que
tivessem pensado que esta inconseqüência ou esta injustiça fosse, na prática,
necessária para o próprio bem da humanidade.
Talvez, também, ao falar da
liberdade como de uma coisa que é para eles respeitável e cara, eles a
compreendam completamente diferente da que concebemos, nós, materialistas e
socialistas revolucionários. Com efeito, eles não faiam jamais dela sem
acrescentar imediatamente uma outra palavra, a da autoridade, uma palavra e uma
coisa que detestamos com toda a força de nosso coração.
O que é a autoridade? E a força
inevitável das leis naturais que se manifestam no encadeamento e na sucessão
fatal dos fenômenos do mundo físico e do mundo social? Efetivamente, contra
estas leis, a revolta é não somente proibida, é também impossível. Podemos
conhecê-las mal, ou ainda não conhecê-las, mas não podemos desobedecê-las porque
elas constituem a base e as próprias condições de nossa existência: elas nos
envolvem, nos penetram, regulam todos os nossos movimentos, pensamentos e atos;
mesmo quando pensamos desobedecê-las, não fazemos outra coisa que manifestar sua
onipotência.
Sim, somos absolutamente escravos
destas leis. Mas nada há de humilhante nesta escravidão. A escravidão supõe um
senhor exterior, um legislador que se situe fora daquele ao qual comanda;
enquanto as leis não estão fora de nós, elas nos são inerentes, constituem nosso
ser, todo nosso ser, corporal, intelectual e moralmente: só vivemos, só
respiramos, só agimos, só pensamos, só queremos através delas. Fora delas não
somos nada, não somos. i)e onde nos viria então o poder e o querer de nos
revoltarmos contra elas?
Em relação às leis naturais, só
há, para o homem, uma única liberdade possível: reconhecê-las e aplicá-las cada
vez mais, conforme o objetivo de emancipação ou de humanização coletiva e
individual que ele persegue. Estas leis, uma vez reconhecidas, exercem uma
autoridade que jamais é discutida pela massa dos homens. E preciso, por exemplo,
ser, no fundo, um teólogo ou um economista burguês para se revoltar contra esta
lei, segundo a qual dois mais dois são quatro. E preciso ter fé para pensar que
não nos queimaríamos no fogo e que não nos afogaríamos na água, a menos que
tenhamos recorrido a algum subterfúgio, fundado sobre qualquer outra lei
natural. Mas estas revoltas, ou melhor, estas tentativas ou estas loucas
fantasias de uma revolta impossível não formam mais do que uma exceção bastante
rara, pois, em geral, se pode dizer que a massa dos homens, na vida quotidiana,
se deixa governar pelo bom senso, o que significa dizer, pela soma das leis
naturais geralmente reconhecidas, de maneira mais ou menos absoluta.
A infelicidade é que grande
quantidade de leis naturais já constatadas como tais pela ciência, permanecem
desconhecidas das massas populares, graças aos cuidados desses governos
tutelares que só existem, como se sabe, para o bem dos povos.
Há, além disso, um grande
inconveniente: é que a maior parte das leis naturais, que estão ligadas ao
desenvolvimento da sociedade humana e são tão necessárias, invariáveis, quanto
as leis que governam o mundo físico, não foram devidamente constatadas e
reconhecidas pela própria ciência [5]. Uma vez tivessem elas sido reconhecidas
pela ciência, e que da ciência, através de um amplo sistema de educação e de
instrução popular, elas passassem à consciência de todos, a questão da liberdade
estaria perfeitamente resolvida. As autoridades mais recalcitrantes devem
admitir que aí então não haverá necessidade de organização, nem de direção nem
de legislação políticas, três coisas que emanam da vontade do soberano ou da
votação de um parlamento eleito pelo sufrágio universal, jamais podendo estar
conformes às leis naturais, e são sempre igualmente funestas e contrárias à
liberdade das massas, visto que elas lhes impõem um sistema de leis exteriores,
e consequentemente despóticas.
A liberdade do homem consiste
unicamente nisto: ele obedece às leis naturais porque ele próprio as reconheceu
como tais, não porque elas lhe foram impostas exteriormente, por uma vontade
estranha, divina ou humana, coletiva ou individual, qualquer.
Suponde uma academia de sábios,
composta pelos representantes mais ilustres da ciência; imaginai que esta
academia seja encarregada da legislação, da organização da sociedade, e que,
inspirando-se apenas no amor da mais pura verdade, ela só dite leis
absolutamente conforme às mais recentes descobertas da ciência. Pois bem, afirmo
que esta legislação e esta organização serão uma monstruosidade, por duas
razões: a primeira, é que a ciência humana é sempre necessariamente imperfeita,
e que, comparando o que ela descobriu com o que ainda lhe resta a descobrir,
pode-se dizer que está ainda em seu berço. De modo que, se quiséssemos forçar a
vida prática dos homens, tanto coletivo quanto individual, a se conformar
estritamente, exclusivamente, com os últimos dados da ciência, condenar-se-ia
tanto a sociedade quanto os indivíduos a sofrer martírio sobre um leito de
Procusto, que acabaria em breve por desarticulá-los e sufocá-los, ficando a vida
sempre infinitamente maior do que a ciência.
A segunda razão é a seguinte: uma
sociedade que obedecesse à legislação emanada de uma academia científica, não
porque ela tivesse compreendido seu caráter racional - em cujo caso a existência
da academia se tornaria inútil - mas porque esta legislação, emanando da
academia, se imporia em nome de uma ciência que ela veneraria sem compreendê-la,
tal sociedade não seria uma sociedade de homens, mais de brutos. Seria uma
segunda edição dessas missões do Paraguai, que se deixaram governar durante
tanto tempo pela Companhia de Jesus. Ela não deixaria de descer, em breve, ao
mais baixo grau de idiotia.
Mas há ainda uma terceira razão
que tornaria tal governo impossível. É que uma academia científica, revestida
desta soberania por assim dizer absoluta, ainda que fosse composta pelos homens
mais ilustres; acabaria infalivelmente, e em pouco tempo, por se corromper moral
e intelectualmente. E atualmente, com o pouco de privilégios que lhes deixam, a
história de todas as academias. O maior gênio científico, no momento em que se
torna acadêmico, um sábio oficial, reconhecido, decai inevitavelmente e
adormece. Perde sua espontaneidade, sua ousadia revolucionária, e a energia
incômoda e selvagem que caracteriza a natureza dos maiores gênios, sempre
chamada a destruir os mundos envelhecidos e a lançar os fundamentos dos novos
mundos. Ganha sem dúvida em polidez, em sabedoria utilitária e prática, o que
perde em força de pensamento. Numa palavra, ele se corrompe.
É próprio do privilégio e de toda
posição privilegiada matar o espírito e o coração dos homens. O homem
privilegiado, seja política, seja economicamente, é um homem depravado de
espírito e de coração. Eis uma lei social que não admite nenhuma exceção e que
se aplica tanto a nações inteiras quanto às classes, companhias e indivíduos. E
a lei da igualdade, condição suprema da liberdade e da humanidade. O objetivo
principal deste estudo é precisamente demonstrar esta verdade em todas as
manifestações da vida humana.
Um corpo científico, ao qual se
tivesse confiado o governo da sociedade, acabaria logo por deixar de lado a
ciência, ocupando-se de outro assunto; e este assunto, o de todos os poderes
estabelecidos, seria sua eternização, tornando a sociedade confiada a seus
cuidados cada vez mais estúpida e, por conseqüência, mais necessitada de seu
governo e de sua direção.
Mas o que é verdade para as
academias científicas, o é igualmente para todas as assembléias constituintes e
legislativas, mesmo quando emanadas do sufrágio universal. Este último pode
renovar sua composição, é verdade, o que não impede que se forme, em alguns
anos, um corpo de políticos, privilegiados de fato, não de direito, que,
dedicando-se exclusivamente à direção dos assuntos públicos de um pais, acabem
por formar um tipo de aristocracia ou de oligarquia política. Vejam os Estados
Unidos e a Suíça.
Assim,. nada de legislação
exterior e nada de autoridade, uma, por sinal, sendo inseparável da outra, e
todas as duas tendendo à escravização da sociedade e ao embrutecimento dos
próprios legisladores.
* * *
Decorre daí que rejeito toda
autoridade? Longe de mim este pensamento. Quando se trata de botas, apelo para a
autoridade dos sapateiros; se se trata de uma casa, de um canal ou de uma
ferrovia, consulto a do arquiteto ou a do engenheiro. Por tal ciência especial,
dirijo-me a este ou àquele cientista. Mas não deixo que me imponham nem o
sapateiro, nem o arquiteto, nem o cientista. Eu os aceito livremente e com todo
o respeito que me merecem sua inteligência, seu caráter, seu saber, reservando
todavia meu direito incontestável de crítica e de controle. Não me contento em
consultar uma única autoridade especialista, consulto várias; comparo suas
opiniões, e escolho aquela que me parece a mais justa. Mas não reconheço nenhuma
autoridade infalível, mesmo nas questões especiais; consequentemente, qualquer
que seja o respeito que eu possa ter pela humanidade e pela sinceridade desse ou
daquele indivíduo, não tenho fé absoluta em ninguém. Tal fé seria fatal à minha
razão, à minha liberdade e ao próprio sucesso de minhas ações; ela me
transformaria imediatamente num escravo estúpido, num instrumento da vontade e
dos interesses de outrem.
Se me inclino diante da
autoridade dos especialistas, e se me declaro pronto a segui-la, numa certa
medida e durante todo o tempo que isso me pareça necessário, suas indicações e
mesmo sua direção, é porque esta autoridade não me é imposta por ninguém, nem
pelos homens, nem por Deus. De outra forma as rejeitaria com horror, e mandaria
ao diabo seus conselhos, sua direção e seus serviços, certo de que eles me
fariam pagar, pela perda de minha liberdade e de minha dignidade, as migalhas de
verdade, envoltas em muitas mentiras que poderiam me dar.
Inclino-me diante da autoridade
dos homens especiais porque ela me é imposta por minha própria razão. Tenho
consciência de só poder abraçar, em todos os seus detalhes e seus
desenvolvimentos positivos, uma parte muito pequena da ciência humana. A maior
inteligência não bastaria para abraçar tudo. Daí resulta, tanto para a ciência
quanto para a indústria, a necessidade da divisão e da associação do trabalho.
Recebo e dou, tal é a vida humana. Cada um é dirigente e cada um é dirigido por
sua vez. Assim, não há nenhuma autoridade fixa e constante, mas uma troca
contínua de autoridade e de subordinação mútuas, passageiras e sobretudo
voluntárias.
Esta mesma razão me proíbe, pois,
de reconhecer uma autoridade fixa, constante e universal, porque não há homem
universal, homem que seja capaz de aplicar sua inteligência, nesta riqueza de
detalhes sem a qual a aplicação da ciência a vida não é absolutamente possível,
a todas as ciências, a todos os ramos da atividade social. E, se uma tal
universalidade pudesse ser realizada em um único homem, e se ele quisesse se
aproveitar disso para nos impor sua autoridade, seria preciso expulsar esse
homem da sociedade, visto que sua autoridade reduziria inevitavelmente todos os
outros à escravidão e à imbecilidade. Não penso que a sociedade deva maltratar
os gênios como ela o fez até o presente momento; mas também não acho que os deva
adular demais, nem lhes conceder quaisquer privilégios ou direitos exclusivos; e
isto por três razões; inicialmente porque aconteceria com freqüência de ela
tomar um charlatão por um gênio; em seguida porque, graças a este sistema de
privilégios, ela poderia transformar um verdadeiro gênio num charlatão,
desmoralizá-lo, animalizá-lo; e, enfim, porque ela daria a si um senhor.
Resumindo. Reconhecemos, pois, a
autoridade absoluta da ciência porque ela tem como objeto único a reprodução
mental, refletida e tão sistemática quanto possível, das leis naturais inerentes
à vida material, intelectual e moral, tanto do mundo físico quanto do mundo
social, sendo estes dois mundos, na realidade, um único e mesmo mundo natural.
Fora desta autoridade exclusivamente legítima, pois que ela é racional e
conforme à liberdade humana, declaramos todas as outras autoridades mentirosas,
arbitrárias e funestas.
Reconhecemos a autoridade
absoluta da ciência, mas rejeitamos a infalibilidade e a universalidade do
cientista. Em nossa igreja - que me seja permitido servir-me por um momento
desta expressão que por sinal detesto: a igreja e o Estado são minhas duas
ovelhas negras; em nossa Igreja, como na Igreja protestante, temos um chefe, um
Cristo invisível, a ciência; e como os protestantes, até mais conseqüentes do
que os protestantes, não queremos tolerar nem o papa, nem o concilio, nem
conclaves de cardeais infalíveis, nem bispos, nem mesmo padres. Nosso Cristo se
distingue do Cristo protestante no fato de este último ser um Cristo pessoal,
enquanto o nosso é impessoal; o Cristo cristão, já realizado num passado eterno,
apresenta-se como um ser perfeito, enquanto a realização e a perfeição de nosso
Cristo, a ciência, estão sempre no futuro: o que equivale a dizer que elas
jamais se realizarão. Ao não reconhecer outra autoridade absoluta que não seja a
da ciência absoluta, não comprometemos de forma alguma nossa liberdade.
Entendo por ciência absoluta a
ciência realmente universal, que reproduziria idealmente, em toda a sua extensão
e em todos os seus detalhes infinitos, o universo, o sistema ou a coordenação de
todas as leis naturais, manifestas pelo desenvolvimento incessante dos mundos. É
evidente que esta ciência, objeto sublime de todos os esforços do espírito
humano, jamais se realizará em sua plenitude absoluta. Nosso Cristo permanecerá
pois eternamente inacabado, o que deve enfraquecer muito o orgulho de seus
representantes titulados entre nós. Contra este Deus, filho, em nome do qual
eles pretendiam nos impor sua autoridade insolente e pedantesca, recorremos a
Deus pai, que é o mundo real, a vida real, do qual ele é apenas a expressão
muito imperfeita, e do qual somos os representantes imediatos, nós, seres reais,
vivendo, trabalhando, combatendo, amando, aspirando, gozando e sofrendo.
Numa palavra, rejeitamos toda
legislação, toda autoridade e toda influência privilegiada, titulada, oficial e
legal, mesmo emanada do sufrágio universal, convencido de que ela só poderia
existir em proveito de uma minoria dominante e exploradora, contra os interesses
da imensa maioria subjugada.
Eis o sentido no qual somos
realmente anarquistas.
* * *
Os idealistas modernos entendem a
autoridade de uma maneira totalmente diferente. Ainda que livres das
superstições tradicionais de todas as religiões positivas existentes, eles dão,
todavia, a esta idéia de autoridade, um sentido divino, absoluto. Esta
autoridade não é absolutamente a de uma verdade milagrosamente revelada, nem a
de uma verdade rigorosa e cientificamente demonstrada. Eles a fundam sobre um
pouco de argumentação quase-filosófica, e sobre muita fé vagamente religiosa,
sobre muito sentimento e abstração poética. Sua religião é como uma última
tentativa de divinização de tudo o que constitui a humanidade nos homens.
É bem o contrário da obra que
realizamos. Em vista da liberdade, da dignidade e da prosperidade humanas,
pensamos ter de retirar do céu os bens que ele roubou e queremos devolvê-los à
terra. Eles, ao contrário, esforçando-se em cometer um último roubo
religiosamente heróico, desejariam restituir ao céu, a este divino ladrão, tudo
o que a humanidade tem de maior, de mais belo, de mais nobre. E a vez dos
livre-pensadores pilharem o céu pela audaciosa impiedade de sua análise
científica!
Os idealistas acreditam, sem
dúvida, que, para gozar de uma maior autoridade entre os homens, as idéias e as
coisas humanas devem ser revestidas de uma sanção divina. Como se manifesta esta
sanção? Não por um milagre, como nas religiões positivas, mas pela grandeza ou
pela própria santidade das idéias e das coisas: o que é grande, o que e belo, o
que é nobre, o que é justo, é divino. Neste novo culto religioso, todo homem que
se inspira nestas idéias, nestas coisas, torna-se um padre, imediatamente
consagrado pelo próprio Deus. E a prova? Não há necessidade disso; é a própria
grandeza das idéias que ele exprime e das coisas que ele realiza. Elas são tão
santas que só podem ter sido inspiradas por Deus.
Eis em poucas palavras toda a sua
filosofia: filosofia de sentimentos, não de pensamentos reais, um tipo de
pietismo metafísico. Isto parece inocente, mas não o é em absoluto, e a doutrina
muito precisa, muito estreita e muito seca, que se esconde sob a onda
inapreensível destas formas poéticas conduz aos mesmos resultados desastrosos de
todas as religiões positivas: isto é, à mais completa negação da liberdade e da
dignidade humanas.
Proclamar como divino tudo o que
se encontra de grande, de justo, de real, de belo, na humanidade, é reconhecer
implicitamente que a humanidade, por si própria, teria sido incapaz de
produzi-lo; isto significa dizer que abandonada a si própria, sua própria
natureza é miserável, iníqua, vil e feia. Eis-nos de volta à essência de toda
religião, isto é, à difamação da humanidade pela maior glória da divindade. E do
momento em que a inferioridade natural do homem e sua incapacidade profunda de
se levantar por si mesmo, fora de toda inspiração divina, até as idéias justas e
verdadeiras, são admitidas, torna-se necessário admitir também todas as
conseqüências teológicas, políticas e sociais das religiões positivas. No
momento em que Deus, o Ser perfeito e supremo, posiciona-se em relação à
humanidade, os intermediários divinos, os eleitos, os inspirados de Deus, saem
da terra para esclarecer, dirigir e governar a espécie humana em seu nome.
Não se poderia supor que todos os
homens são igualmente inspirados por Deus? Neste caso não haveria, sem dúvida
alguma, necessidade de intermediários. Mas esta suposição é impossível porque os
fatos a contradizem sobremaneira. Seria preciso então atribuir à inspiração
divina todos os absurdos e erros que se manifestam, e todos os horrores, as
torpezas, as covardias e as imbecilidades que se cometem no mundo. Só haveria,
pois, poucos homens divinamente inspirados, os grandes homens da história, os
gênios virtuosos, como dizia o ilustre cidadão e profeta italiano Giuseppe
Mazzini. Imediatamente inspirados pelo próprio Deus e se apoiando sobre o
consentimento universal expressado pelo sufrágio popular, Dio e Popolo,
são eles que seriam chamados a governar as sociedades humanas[6].
Eis-nos de novo sob o jugo da
Igreja e do Estado. E verdade que nesta nova organização, devida, como todas as
organizações políticas antigas, à graça de Deus, é apoiada desta vez, pelo menos
quanto à forma, à guisa de concessão necessária ao espírito moderno, e como nos
preâmbulos dos decretos imperiais de Napoleão III, sobre a pretensa vontade
do POVO, a Igreja não se chamará mais Igreja, ela se chama Escola. O que
importa? Sobre os bancos desta Escola não estarão sentadas somente as crianças:
haverá o eterno menor, o estudante para sempre reconhecido como incapaz de se
apresentar a seus exames, de alcançar a ciência de seus mestres e de passar em
sua disciplina: o povo. O Estado não se chamará mais monarquia, chamar-se-á
república, mas nem por isso deixará de ser Estado, isto é, uma tutela oficial e
regularmente estabelecida por uma minoria de homens competentes, gênios,
homens de talento ou de virtude, que vigiarão e dirigirão a conduta desta
grande, incorrigível e terrível criança, o povo. Os professores da Escola e os
funcionários do Estado chamar-se-ão republicanos; mas não deixarão de ser menos
tutores, pastores, e o povo permanecerá o que foi eternamente até agora: um
rebanho. Os tosquiados que se cuidem, pois onde há rebanho há necessariamente
pastores para tosquiá-lo e comê-lo.
O povo, neste sistema, será
eterno estudante e pupilo. Apesar de sua soberania totalmente fictícia, ele
continuará a servir de instrumento a pensamentos e vontades, e consequentemente
também a interesses que não serão os seus. Entre esta situação e o que chamamos
de liberdade, a única verdadeira liberdade, há um abismo. Será sob novas formas,
a antiga opressão e a antiga escravidão; e onde há escravidão, há miséria,
embrutecimento, a verdadeira materialização da sociedade, tanto das
classes privilegiadas quanto das massas.
Divinizando as coisas
humanas, os idealistas conseguem sempre o triunfo de um materialismo brutal.
E isto por uma razão muito simples: este divino se evapora e sobe para sua
pátria, o céu, e só o brutal permanece realmente sobre a terra.
Perguntei um dia a Mazzini que
medidas seriam tomadas para a emancipação do povo tão logo sua república
unitária triunfante se estabelecesse definitivamente. "A primeira medida,
disse-me, será a fundação de escolas para o povo." - E o que será ensinado ao
povo nestas escolas? "Os deveres do homem, o sacrifício e a abnegação." - Mas
onde ireis buscar um número suficiente de professores para ensinar estas coisas
que ninguém tem o direito nem o poder de ensinar, se não se dá o exemplo? O
número dos homens que encontram no sacrifício e na dedicação uma satisfação
suprema não é excessivamente restrito? Aqueles que se sacrificam ao serviço de
uma grande idéia obedecem a uma elevada paixão, e, satisfazendo esta paixão
pessoal, fora da qual a própria vida perde qualquer valor a seus olhos, eles
pensam normalmente em qualquer coisa que não seja erigir sua ação em doutrina,
enquanto aqueles que fazem da ação uma doutrina esquecem freqüentemente de
traduzi-la em ação, pela simples razão de que a doutrina mata a vida, mata a
espontaneidade viva da ação. Os homens como Mazzini, nos quais a doutrina e a
ação formam uma admirável unidade, são raras exceções. No cristianismo também
houve grandes homens, santos homens, que realmente fizeram, ou que pelo menos se
esforçaram apaixonadamente para fazer tudo o que diziam, e cujos corações,
transbordando de amor, estavam cheios de desprezo pelos gozos e pelos bens deste
mundo. Mas a imensa maioria dos padres católicos e protestantes que, por
profissão, pregaram e pregam a doutrina da castidade, da abstinência e da
renúncia, desmentem sua doutrina através de seu exemplo. Não é em vão, é em
conseqüência de uma experiência de vários séculos que se formaram, entre os
povos de todos os países, estes ditados: "Libertino como um padre; comilão como
um padre; ambicioso como um padre; ávido, interessado e cúpido como um padre".
Está constatado que os professores das virtudes cristãs, consagrados pela
Igreja, os padres, em sua imensa maioria, fizeram exatamente o contrário
daquilo que eles pregaram. Esta própria maioria, a universalidade deste fato,
provam que não se deve atribuir a culpa disso aos indivíduos, mas sim à posição
social, impossível e contraditória em si mesma, no qual estes indivíduos estão
colocados.
Há na posição do padre cristão
uma dupla contradição. Inicialmente a da doutrina de abstinência e de renúncia
às tendências e às necessidades positivas da natureza humana, tendências e
necessidades que, em alguns casos individuais, sempre muito raros, podem ser
continuamente afastadas, reprimidas e mesmo completamente eliminadas pela
influência constante de alguma poderosa paixão intelectual e moral, que, em
certos momentos de exaltação coletiva, podem ser esquecidas e negligenciadas,
por algum tempo, por uma grande quantidade de homens ao mesmo tempo; mas que são
tão profundamente inerentes à nossa natureza que acabam sempre por retomar seus
direitos, de forma que, quando não são satisfeitas de maneira regular e normal,
são finalmente substituídas por satisfações daninhas e monstruosas. E uma lei
natural, e, por conseqüência, fatal, irresistível, sob a ação funesta da qual
caem inevitavelmente todos os padres cristãos e especialmente os da Igreja
católica romana.
Mas há uma outra contradição
comum a uns e a outros. Esta contradição está ligada ao titulo e à própria
posição do senhor. Um senhor que comanda, oprime e explora, é um personagem
muito lógico e completamente natural. Mas um senhor que se sacrifica àqueles que
lhe são subordinados pelo seu privilégio divino ou humano é um ser contraditório
e completamente impossível. E a própria constituição da hipocrisia, tão bem
personificada pelo papa que, ainda que se dizendo o último servidor dos
servidores de Deus, e por sinal, seguindo o exemplo do Cristo, lava uma vez
por ano os pés de doze mendigos de Roma, proclama-se ao mesmo tempo vigário de
Deus, senhor absoluto e infalível do mundo. E preciso que eu lembre que os
padres de todas as Igrejas, longe de se sacrificarem pelos rebanhos confiados a
seus cuidados, sempre os sacrificaram, exploraram e mantiveram em estado de
rebanho, em parte para satisfazer suas próprias paixões pessoais, em parte para
servir à onipotência da Igreja? As mesmas condições, as mesmas causas produzem
sempre os mesmos efeitos. Isso acontece com os professores da Escola moderna,
divinamente inspirados e nomeados pelo Estado. Eles se tornarão,
necessariamente, uns sem o saber, os outros com pleno conhecimento de causa, os
mestres da doutrina do sacrifício popular para o poderio do Estado, em proveito
das classes privilegiadas.
Será preciso então eliminar da
sociedade todo o ensino e abolir todas as escolas? Longe disso. É necessário
distribuir a mancheias a instrução no seio das massas e transformar todas as
Igrejas, todos estes templos dedicados à glória de Deus e à escravização dos
homens, em escolas de emancipação humana. Mas, inicialmente, esclareçamos que as
escolas propriamente ditas, numa sociedade normal, fundada sobre a igualdade e
sobre o respeito da liberdade humana, só deverão existir para as crianças, não
para os adultos, para elas se tornarem escolas de emancipação e não de
servilismo, será preciso eliminar, antes de tudo, esta ficção de Deus, o
escravizador eterno e absoluto. Será necessário fundar toda a educação das
crianças e sua instrução sobre o desenvolvimento científico da razão, não sobre
o da fé; sobre o desenvolvimento da dignidade e da independência pessoais, não
sobre o da piedade e da obediência; sobre o culto da verdade e da justiça e,
antes de tudo, sobre o respeito humano. que deve substituir, em tudo e em todos
os lugares, o culto divino. O princípio da autoridade na educação das crianças
constitui o ponto de partida natural: ele é legítimo, necessário, quando é
aplicado às crianças na primeira infância, quando sua inteligência ainda não se
desenvolveu abertamente. Mas como o desenvolvimento de todas as coisas, e por
conseqüência da educação, implica a negação sucessiva do ponto de partida, este
princípio deve enfraquecer-se à medida que avançam a educação e a instrução,
para dar lugar à liberdade ascendente.
Toda educação racional nada mais
é, no fundo, do que a imolação progressiva da autoridade em proveito da
liberdade, onde esta educação tem como objetivo final formar homens livres,
cheios de respeito e de amor pela liberdade alheia. Assim, o primeiro dia da
vida escolar, se a escola aceita as crianças na primeira infância, quando elas
mal começam a balbuciar algumas palavras, deve ser o de maior autoridade e de
uma ausência quase completa de liberdade; mas seu último dia deve ser ó de maior
liberdade e de abolição absoluta de qualquer vestígio do principio animal ou
divino da autoridade.
O princípio de autoridade,
alicado aos homens que ultrapassaram ou atingiram a maioridade, torna-se uma
monstruosidade, uma negação flagrante da humanidade, uma fonte de escravidão e
de depravação intelectual e moral. Infelizmente, os governos paternalistas
deixaram as massas populares se estagnarem numa tão profunda ignorância que será
necessário fundar escolas não somente para as crianças do povo, mas também para
o próprio povo Destas escolas deverão ser absolutamente eliminadas as menores
aplicações ou manifestações do princípio de autoridade. Não serão mais escolas;
serão academias populares, nas quais não se poderá mais tratar nem de
estudantes, nem de mestres, onde o povo virá livremente ter, se assim achar
necessário, um ensinamento livre, nas quais, rico de sua experiência, ele
poderá. ensinar por sua vez muitas coisas aos professores que lhe trarão
conhecimentos que ele não tem. Será pois um ensinamento mútuo, um ato de
fraternidade intelectual entre a juventude instruída e o povo.
A verdadeira escola para o povo e
para todos os homens feitos é a vida. A única grande todo-poderosa autoridade
natural e racional, simultaneamente, a única que poderemos respeitar, será a do
espírito coletivo e público de uma sociedade fundada sobre o respeito mútuo de
todos os seus membros. Sim, eis uma autoridade que não é absolutamente divina,
totalmente humana, mas diante da qual nos inclinaremos de coração, certos de
que, longe de subjugá-los, ela emancipará os homens. Ela será mil vezes mais
poderosa, estejam certos, do que todas as vossas autoridades divinas,
teológicas, metafísicas, políticas e jurídicas, instituídas pela Igreja e pelo
Estado; mais poderosa que vossos códigos criminais, vossos carcereiros e vossos
verdugos.
A força do sentimento coletivo ou
do espírito público já é muito séria hoje. Os homens com maior tendência a
cometer crimes raramente ousam desafiá-la, enfrentá-la abertamente. Eles
procurarão enganá-la, mas evitarão ofendê-la, a menos que se sintam apoiados por
uma minoria qualquer. Nenhum homem, por mais possante que se imagine, jamais
terá força para suportar o desprezo unânime da sociedade, ninguém poderia viver
sem sentir-se apoiado pelo consentimento e pela estima, ao menos por uma certa
parte desta sociedade. E preciso que um homem seja levado por uma imensa e bem
sincera convicção, para que encontre coragem de opinar e de marchar contra
todos, e nunca um homem egoísta, depravado e covarde terá esta coragem.
Nada prova melhor do que este
fato a solidariedade natural e fatal que une todos os homens. Cada um de nós
pode constatar esta lei, todos os dias, sobre si mesmo e sobre todos os homens
que ele conhece. Mas, se esta força social existe, por que ela não foi
suficiente, até hoje, para moralizar, humanizar os homens? Simplesmente porque,
até o presente, essa força não foi, ela própria, humanizada; não foi humanizada
porque a vida social, da qual ela é sempre a fiel expressão, está fundada, como
se sabe, sobre o culto divino, não sobre o respeito humano; sobre a autoridade,
não sobre a liberdade; sobre o privilégio, não sobre a igualdade; sobre a
exploração, não sobre a fraternidade dos homens; sobre a iniqüidade e a mentira,
não sobre a justiça e a verdade. Por conseqüência, sua ação real, sempre em
contradição com as teorias humanitárias que ela professa, exerceu constantemente
uma influência funesta e depravadora. Ela não oprime pelos vícios e crimes: ela
os cria. Sua autoridade é consequentemente uma autoridade divina, anti-humana,
sua influência é malfazeja e funesta. Quereis torná-la benfazeja e humana? Fazei
a revolução social. Fazei com que todas as necessidades se tornem realmente
solidárias, que os interesses materiais e sociais de cada um se tornem iguais
aos deveres humanos de cada um. E, para isso, só há um meio: destruí todas as
instituições da desigualdade; estabelecei a igualdade econômica e social de
todos, e, sobre esta base, elevar-se-á a liberdade, a moralidade, a humanidade
solidária de todos.
* * *
Sim, o idealismo, em teoria, tem
por conseqüência necessária o materialismo mais brutal na prática; não, sem
dúvida, entre aqueles que o pregam de boa fé - o resultado habitual, para estes,
é de ver todos os seus esforços atingidos pela esterilidade - mas entre aqueles
que se esforçam em realizar seus preceitos na vida, em meio a toda a sociedade,
enquanto ela se deixar dominar pelas doutrinas idealistas.
Para demonstrar este fato geral,
que pode parecer estranho à primeira vista, mas que se explica naturalmente,
quando refletimos um pouco mais, não faltam as provas históricas.
Comparai as duas últimas
civilizações do mundo antigo: a civilização grega e a civilização romana. Qual
delas é a mais materialista, a mais natural em seu ponto de partida, e a mais
humanamente ideal em seus resultados? Sem dúvida, a civilização grega. Qual
delas é, ao contrário, a mais abstratamente ideal em seu ponto de partida,
sacrificando a liberdade material do homem à liberdade ideal do cidadão,
representada pela abstração do direito jurídico, e o desenvolvimento natural da
sociedade humana à abstração do Estado, e qual delas se tornou, todavia, a mais
brutal em suas conseqüências? A civilização romana, certamente. E verdade que a
civilização grega, como todas as civilizações antigas, inclusive a de Roma, foi
exclusivamente nacional, e teve por base a escravidão. Mas, apesar destes dois
imensos defeitos, a primeira nem por isso deixou de conceber e realizar a idéia
da humanidade; ela enobreceu e realmente idealizou a vida dos homens; ela
transformou os rebanhos humanos em livres associações de homens livres; ela
criou, pela liberdade, as ciências, as artes, uma poesia, uma filosofia imortal,
e as primeiras noções do respeito humano. Com a liberdade política e social ela
criou o livre pensamento.
No fim da Idade Média, na época
da Renascença, bastou que os gregos emigrados introduzissem alguns desses livros
imortais na Itália para que a vida, a liberdade, o pensamento, a humanidade,
enterrados no sombrio calabouço do catolicismo, fossem ressuscitados. A
emancipação humana, eis o nome da civilização grega. E o nome da civilização
romana? E a conquista, com todas as suas conseqüências brutais. Sua última
palavra? A onipotência dos Césares. E o envilecimento e a escravidão das nações
e dos homens.
Ainda hoje, o que é que mata, o
que é que esmaga brutalmente, materialmente, em todos os países da Europa, a
liberdade e a humanidade? E o triunfo do princípio cesáreo ou romano.
Compararei agora duas
civilizações modernas: a civilização italiana e a civilização alemã. A primeira
representa, sem dúvida, em sua característica geral, o materialismo; a segunda
representa, ao contrário, tudo o que há de mais abstrato, de mais puro e de mais
transcendente no que concerne ao idealismo. Vejamos quais são os frutos práticos
de uma e da outra.
A Itália já prestou imensos
serviços à causa da emancipação humana. Ela foi a primeira que ressuscitou e que
aplicou amplamente o princípio da liberdade na Europa, que devolveu à humanidade
seus títulos de nobreza: a indústria, o comércio, a poesia, as artes, as
ciências positivas e o livre pensamento. Esmagada depois de três séculos de
despotismo imperial e papal, arrastada na lama por sua burguesia governante, ela
reaparece hoje, é verdade, bem abatida em comparação ao que foi, e, entretanto,
quanto ela difere da Alemanha! Na Itália, apesar desta decadência, passageira,
esperemo-lo, pode-se viver e respirar humanamente, cercado de um povo que parece
ter nascido para a liberdade. A Itália, mesmo burguesa, pode vos mostrar com
orgulho homens como Mazzini e como Garibaldi.
Na Alemanha, respira-se a
atmosfera de uma imensa escravidão política e social, filosoficamente explicada
e aceita por um grande povo, com uma resignação e uma boa vontade refletidas.
Seus heróis - falo sempre da Alemanha atual, não da Alemanha do futuro, da
Alemanha nobiliária, burocrática, política e burguesa, não da Alemanha
proletária - são totalmente o oposto de Mazzini e de Garibaldi: são, hoje,
Guilherme 1, o feroz e ingênuo representante do Deus protestante, são os Srs.
Bismarck e Von Moltke, os generais Manteuffel e Werler. Em todas as suas
relações internacionais, a Alemanha, desde que existe, foi lenta e
sistematicamente invasora, conquistadora, sempre pronta a estender sobre os
povos vizinhos seu próprio servilismo voluntário; e desde que ela se constituiu
em potência unitária, ela se tornou uma ameaça, um perigo para a liberdade de
toda a Europa. Hoje, a Alemanha é o servilismo brutal e triunfante.
Para mostrar como o idealismo
teórico se transforma incessante e fatalmente em materialismo prático, basta
citar o exemplo de todas as Igrejas cristãs e, naturalmente, antes de tudo, o da
Igreja apostólica e romana. No sentido ideal, o que há de mais sublime, de mais
desinteressado, de mais desprendido em todos os interesses desta terra, do que a
doutrina do Cristo pregada por esta Igreja? E o que há de mais brutalmente
materialista que a prática constante desta mesma Igreja, desde o século VIII,
quando começou a se constituir como poder? Qual foi e qual é ainda o objeto
principal de todos os seus litígios contra os soberanos da Europa? Seus bens
temporais, seus ganhos inicialmente, e em seguida seu poder temporal, seus
privilégios políticos.
É preciso fazer-lhe esta justiça,
pois ela foi a primeira a descobrir, na história moderna, esta verdade
incontestável, mas muito pouco cristã, que a riqueza e o poder, a exploração
econômica e a opressão política das massas são os dois termos inseparáveis do
reino do idealismo divino sobre a terra: a riqueza consolidando e aumentando o
poder, o poder descobrindo e criando sempre novas fontes de riqueza, e ambos
assegurando, melhor do que o martírio e a fé dos apóstolos, melhor do que a
graça divina, o sucesso da propaganda cristã. E uma verdade histórica, e as
igrejas, ou melhor, as seitas protestantes também não a desconhecem. Falo
naturalmente das igrejas independentes da Inglaterra, da América e da Suíça, não
das igrejas servis da Alemanha. Estas não têm nenhuma iniciativa própria; elas
fazem aquilo que seus senhores, seus soberanos temporais, que são ao mesmo tempo
seus chefes espirituais, lhes ordenam fazer. Sabe-se que a propaganda
protestante, a da Inglaterra e a da América sobretudo, se liga de uma maneira
muito estreita à propaganda dos interesses materiais e comerciais destas duas
grandes nações; sabe-se também que esta última propaganda não tem absolutamente
por objeto o enriquecimento e a propriedade material dos países nos quais ela
penetra em companhia da palavra de Deus, mas sim a exploração destes países, à
vista do enriquecimento e da prosperidade material de certas classes, que, em
seu próprio país, só visam a exploração e a pilhagem.
Numa palavra, não é nada difícil
provar, com a história na mão, que a Igreja, que todas as Igrejas, cristãs e não
cristãs, ao lado de sua propaganda espiritualista, provavelmente para acelerar e
consolidar seu sucesso, jamais negligenciaram de organizar grandes companhias
para a exploração econômica das massas, sob a proteção e a bênção direta e
especial de uma divindade qualquer; que todos os Estados que, em sua origem,
como se sabe, nada mais foram, com todas as suas instituições políticas e
jurídicas e suas classes dominantes e privilegiadas, senão sucursais temporais
destas diversas Igrejas, só tiveram igualmente por objeto principal esta mesma
exploração em proveito das minorias laicas, indiretamente legitimadas pela
Igreja; enfim, que em geral a ação do bom Deus e de todas as fantasias divinas
sobre a terra finalmente resultou, sempre e em todos os lugares, na fundação do
materialismo próspero do pequeno número sobre o idealismo fanático e
constantemente faminto das massas.
O que vemos hoje é uma nova prova
disso. A exceção desses grandes corações e desses grandes espíritos enganados
que citei mais acima, quem são hoje os defensores mais obstinados do idealismo?
Inicialmente são todas as cortes soberanas. Na França, foram Napoleão III e sua
esposa, Madame Eugénie; são todos os seus antigos ministros, cortesãos e
ex-marechais, desde Rouher e Bazaine até Fleury e Piétri; são os homens e as
mulheres do mundo oficial imperial, que tão bem idealizaram e salvaram a França.
São seus jornalistas e seus sábios: os Cassagnac, os Girardin, os Duvernois, os
Veuillot, os Leverrier, os Dumas. . . E enfim a negra falange dos jesuítas e das
jesuítas de todos os tipos de vestido; é a alta e média burguesia da França. São
os doutrinários liberais e os liberais sem doutrina: os Guizot, os Thiers, os
Jules Favre, os Pelletan e os Jules Simon, todos os defensores aguerridos da
exploração burguesa. Na Prússia, na Alemanha, é Guilherme 1, o rei demonstrador
atual do bom Deus sobre a terra; são todos os seus generais, todos os seus
oficiais pomeranianos e outros, todo o seu exército que, forte em sua fé
religiosa, acaba de conquistar a França da maneira ideal que se sabe. Na Rússia,
é o czar e toda a sua corte; são os Muravieff e os Berg, todos os degoladores e
os religiosos conversores da Polônia. Em todos os lugares, numa palavra, o
idealismo religioso filosófico, um destes qualificativos nada mais sendo do que
a tradução mais ou menos livre do outro, serve hoje de bandeira à força
sanguinária e brutal, à exploração material descarada; enquanto, ao contrário, a
bandeira do materialismo teórico, a bandeira vermelha da igualdade econômica e
da justiça social, é agitada pelo idealismo prático das massas oprimidas e
famintas, tendendo a realizar a liberdade maior e o direito humano de cada um na
fraternidade de todos os homens sobre a terra.
Quem são os verdadeiros
idealistas, não - os idealistas da abstração, mas da vida; não do céu, mas da
terra; e quem são os materialistas?
* * *
É evidente que o idealismo
teórico ou divino tem como condição essencial o sacrifício da lógica, da razão
humana, a renúncia à ciência. Vê-se, por outro lado, que defendendo as doutrinas
ideais, é-se forçosamente levado ao partido dos opressores e dos exploradores
das massas populares. Eis duas grandes razões que, segundo parece, bastariam
para afastar do idealismo todo grande espírito, todo grande coração. Como é
possível que nossos ilustres idealistas contemporâneos, aos quais, certamente,
não faltam nem o espírito, nem o coração, nem a boa vontade, e que devotaram
toda sua existência ao serviço da humanidade, como é possível que eles se
obstinem em permanecer entre os representantes de uma doutrina doravante
condenada e desonrada?
É preciso que eles sejam levados
a isso por uma razão muito forte. Não pode ser nem a lógica nem a ciência, visto
que a lógica e a ciência pronunciaram seu veredicto contra a doutrina idealista.
Não podem ser também interesses pessoais, pois estes homens estão infinitamente
erguidos acima de tudo o que carrega este nome. Só pode ser então uma forte
razão moral. Qual? Só pode haver uma. Esses homens ilustres pensam, sem dúvida,
que as teorias ou as crenças ideais são essencialmente necessárias à dignidade e
à grandeza moral do homem, e que as teorias materialistas, ao contrário,
rebaixam-no ao nível dos animais.
-E se o oposto fosse verdadeiro?
Todo desenvolvimento, já disse,
implica a negação do ponto de partida. A base, ou o ponto de partida, segundo a
escola materialista, sendo material, a negação deve ser necessariamente ideal.
Partindo da totalidade do mundo real, ou daquilo que se chama abstratamente de
costume, ela chega logicamente à idealização real, isto é, à humanização, à
emancipação plena e inteira da sociedade. Todavia, e pela mesma razão, sendo o
ideal a base e o ponto de partida da escola idealista, ela chega forçosamente à
materialização da sociedade, à organização de um despotismo brutal e de uma
exploração iníqua e ignóbil, sob a forma da Igreja e do Estado. O
desenvolvimento histórico do homem, segundo a escola materialista, é uma
ascensão progressiva; no sistema idealista ele só pode ser uma queda contínua.
Qualquer que seja a questão
humana que se queira considerar, encontra-se sempre esta mesma contradição
essencial entre as duas escolas. Assim, como já fiz observar, o materialismo
parte da animalidade para constituir a humanidade; o idealismo parte da
divindade para constituir a escravidão e condenar as massas a uma animalidade
sem saída. O materialismo nega o livre-arbítrio e resulta na constituição da
liberdade; o idealismo, em nome da dignidade humana, proclama o livre-arbítrio,
e, sobre as ruínas da liberdade, funda a autoridade. O materialismo rejeita o
princípio de autoridade porque ele o considera, com razão, como o corolário da
animalidade, e que, ao contrário, o triunfo da humanidade, objetivo e sentido
principal da história, só é realizável pela liberdade. Numa palavra, vós
encontrareis sempre os idealistas em flagrante delito de materialismo prático,
enquanto vereis os materialistas buscarem e realizarem as aspirações, os
pensamentos mais amplamente ideais.
A história, no sistema dos
idealistas, como já disse, não pode ser senão uma queda contínua. Eles começam
por uma queda terrível da qual jamais se levantam: pelo salto mortale das
regiões sublimes da idéia pura, absoluta, à matéria. E em que matéria! Não nesta
matéria eternamente ativa e móvel, cheia de propriedades e de forças, de vida e
de inteligência, tal como ela se apresenta a nós, no mundo real; mas na matéria
abstrata, empobrecida e reduzida à miséria absoluta, tal como a concebem os
teólogos e os metafísicos, que lhe roubaram tudo para dar a seu imperador, a seu
Deus; nesta matéria que, privada de qualquer ação e de qualquer movimento
próprios, só representa, em oposição à idéia divina, a estupidez, a
impenetrabilidade, a inércia e a imobilidade absolutas.
A queda é tão terrível que a
divindade, a pessoa ou a idéia divina se avilta, perde sua consciência, perde a
consciência de si mesma e nunca mais se reencontra. E nesta situação desesperada
ela é ainda forçada a fazer milagres!
Isto porque, do momento em que a
matéria é inerte, todo movimento que se produz no mundo, mesmo o mais material,
é um milagre, outra coisa não pode ser senão o efeito de uma intervenção
providencial, da ação de Deus sobre a matéria. E eis que esta pobre divindade,
quase anulada por sua queda, permanece alguns milhares de séculos neste sono, em
seguida desperta lentamente, esforçando-se em vão para recuperar alguma vaga
lembrança dela mesma, e cada movimento que faz com esta finalidade, na matéria,
torna-se uma criação, uma formação nova, um novo milagre. Desta maneira ela
ultrapassa todos os níveis da materialidade e da bestialidade; inicialmente gás,
corpo químico simples ou composto, mineral, ela se espalha em seguida sobre a
terra como organização vegetal e animal, depois se concentra no homem. Aqui, ela
parece haver se reencontrado, pois ela acende no ser humano uma chama angélica,
uma parcela de seu próprio ser divino, a alma imortal.
Como ela pode conseguir alojar
uma coisa absolutamente imaterial numa coisa absolutamente material; como o
corpo pode conter, encerrar, limitar, paralisar o espírito puro? Eis mais uma
destas questões que somente a fé, esta afirmação apaixonada e estúpida do
absurdo, pode resolver. E o maior dos milagres. Aqui, nada temos a fazer senão
constatar os efeitos, as conseqüências práticas deste milagre.
Após milhares de séculos de vãos
esforços para retornar a ela mesma, a Divindade, perdida e espalhada na matéria
que ela anima e que põe em movimento, encontra um ponto de apoio, uma espécie de
local para seu próprio recolhimento. E o homem, é sua alma imortal aprisionada
singularmente num corpo mortal. Mas cada homem, considerado individualmente, é
infinitamente restrito, muito pequeno para englobar a imensidão divina; ele só
pode conter uma pequena parcela, imortal como o Todo, mas infinitamente menor
que o Todo. Resulta disso que o Ser divino, o Ser absolutamente imaterial, o
Espírito, é divisível como a matéria. Eis ainda um mistério cuja solução é
preciso deixar à fé.
Se Deus, por inteiro, pudesse se
alojar em cada homem, então cada homem seria Deus. Teríamos uma grande
quantidade de Deuses, cada um se achando limitado pelos outros, mas nem por isso
menos infinito, contradição que implicaria necessariamente a destruição mútua
dos homens, a impossibilidade de que existisse mais do que um. Quanto às
parcelas, é outra coisa; nada de mais racional, com efeito, que uma parcela seja
limitada por outra, e que ela seja menor do que o Todo. Aqui se apresenta outra
contradição. Ser maior e menor são dois atributos da matéria, não do espírito,
tal como o compreendem os idealistas. Segundo os materialistas, é verdade, o
espírito outra coisa não é senão o funcionamento do organismo totalmente
material do homem, e a grandeza ou a pequenez do espírito dependem da maior ou
menor perfeição material do organismo humano. Mas estes mesmos atributos de
limitação e de grandeza relativas não podem ser atribuídos ao espírito, tal como
o compreendem os idealistas, ao espírito absolutamente imaterial, ao espírito
existindo fora de qualquer matéria. Lá não pode haver nem maior, nem menor, nem
qualquer limite entre os espíritos, pois só há um único espírito: Deus. Se
acrescentarmos que as parcelas infinitamente pequenas e limitadas que constituem
as almas humanas são ao mesmo tempo imortais, evidenciar-se-á o cúmulo da
contradição. Mas é uma questão de fé. Deixemos isto de lado.
Eis pois a Divindade destroçada e
alojada por infinitas pequenas partes, numa imensa quantidade de seres de todos
os sexos, de todas as idades, de todas as raças e de todas as cores. Eis aí uma
situação excessivamente incômoda e infeliz, pois as parcelas divinas
reconhecem-se tão pouco no início de sua existência humana, que começam por se
entredevorar. Todavia, no meio desse estado de barbárie e de brutalidade
totalmente animal, estas parcelas divinas, as almas humanas, conservam como que
uma vaga lembrança de sua divindade primitiva, e são invencivelmente arrastadas
rumo a seu Todo; elas se procuram, elas o procuram. E a própria Divindade,
espalhada e perdida no mundo material, que se procura nos homens, e está de tal
forma embrutecida por esta multidão de prisões humanas, nas quais se acha
espalhada, que, ao se procurar, comete loucuras sobre loucuras.
Começando pelo fetichismo, ela se
procura e adora a si mesma, ora numa pedra, ora num pedaço de pau, ora num
esfregão. E até mesmo muito provável que jamais tivesse saído do esfregão se
a outra divindade, que não se deixou diminuir na matéria, e se conservou no
estado de espírito puro, nas alturas sublimes do ideal absoluto, ou nas regiões
celestes, não tivesse tido piedade dela.
Eis um novo mistério. E o da
Divindade que se cinde em duas metades, mas igualmente infinitas todas as duas,
e das quais uma - Deus pai - se conserva nas puras regiões imateriais; a outra -
Deus filho - se deixa enfraquecer na matéria. Nós iremos ver, daqui a pouco,
estabelecerem-se relações contínuas de cima para baixo e de baixo para cima
entre estas duas Divindades, separadas uma da outra; e estas relações,
consideradas como um único ato eterno e constante, constituirão o Espírito
Santo. Tal. é, em seu verdadeiro sentido teológico e metafísico, o grande, o
terrível mistério da Trindade cristã.
Mas deixemos, rapidamente, estas
alturas e vejamos o que se passa sobre a terra.
Deus pai, vendo, do alto de seu
esplendor eterno, que o pobre Deus filho, humilhado, atordoado por sua queda,
mergulhou e perdeu-se de tal forma na matéria, que, preso ao estado humano, não
consegue se reencontrar, decide 5& corrê-lo. Entre esta imensa quantidade de
parcelas simultaneamente imortais, divinas e infinitamente pequenas, nas quais
Deus filho disseminou-se a ponto de não poder se reconhecer, Deus pai escolhe
aquelas que mais lhe aprazem; ele toma seus inspirados, seus profetas, seus
gênios virtuosos, OS grandes benfeitores e legisladores da humanidade:
Zoroastro, Buda, Moisés, Confúcio, Licurgo, Sólon, Sócrates, o divino Platão, e
sobretudo Jesus Cristo, a completa realização de Deus filho, enfim recolhido e
concentrado numa pessoa humana; todos os apóstolos, São Pedro, São Paulo e São
João, Constantino, o Grande, Maomé, depois Gregório VII, Carlos Magno, Dante,
segundo uns, Lutero também, Voltaire e Rousseau, Ropespierre e Danton, e muitos
outros grandes e santos personagens, dos quais é impossível recapitular todos os
nomes, mas entre os quais, como russo, peço para não se esquecerem de São
Nicolau.
* * *
Eis que chegamos à manifestação
de Deus sobre a terra. Mas tão logo Deus aparece, o homem se aniquila. Dir-se-á
que não se aniquila visto ser ele próprio uma parcela de Deus. Perdão! Admito
que a parcela de um todo determinado, limitado, por menor que seja esta parte,
seja uma quantidade, uma grandeza positiva. Mas uma parcela do infinitamente
grande, comparada com ele, é infinitamente pequena. Multiplicai bilhões de
bilhões por bilhões de bilhões, seu produto, em comparação ao infinitamente
grande, será infinitamente pequeno, e o infinitamente pequeno é igual a zero.
Deus é tudo, por conseguinte o homem e todo o mundo real com ele, o universo,
nada são. Vós não escapareis disto.
Deus aparece, o homem se
aniquila; e quanto maior se torna a Divindade, mais a humanidade se torna
miserável. Esta é a história de todas as religiões; este é o efeito de todas as
inspirações e de todas as legislações divinas. Na história, o nome de Deus é a
terrível dava com a qual os homens diversamente inspirados, os grandes gênios,
abateram a liberdade, a dignidade, a razão e a prosperidade dos homens.
Tivemos inicialmente a queda de
Deus. Temos agora uma queda que nos interessa mais, a do homem, causada pelo
aparecimento da manifestação de Deus sobre a terra.
Vede em que erro profundo se
encontram nossos caros e ilustres idealistas. Ao nos falarem de Deus, eles
crêem, eles querem nos educar, nos emancipar, nos enobrecer e, ao contrário,
eles nos esmagam e nos aviltam. Com o nome de Deus, eles imaginam poder
estabelecer a fraternidade entre os homens, e, ao contrário, criam o orgulho, o
desprezo; semeiam a discórdia, o ódio, a guerra; fundam a escravidão. Isto
porque, com Deus, vêm os diferentes graus de inspiração divina; a humanidade se
divide em homens muito inspirados, menos inspirados, não inspirados. Todos são
igualmente nulos diante de Deus, é verdade; mas comparados uns aos outros, uns
são maiores do que os outros; não somente pelo fato, o que não seria nada, visto
que uma desigualdade de fato se perde por si mesma na coletividade, quando ela
não se pode agarrar a nenhuma ficção ou instituição legal; mas pelo direito
divino da inspiração: o que constitui logo em seguida uma desigualdade fixa,
constante, petrificada. Os mais inspirados devem ser escutados e
obedecidos pelos menos inspirados, pelos não inspirados. Eis o princípio da
autoridade bem estabelecido, e com ele as duas instituições fundamentais da
escravidao: a Igreja e o Estado.
* * *
De todos os despotismos, o dos
doutrinadores ou dos inspirados religiosos é o pior. Eles são tão ciumentos da
glória de seu Deus e do triunfo de sua idéia que não lhes resta mais coração,
nem pela liberdade, nem pela dignidade, nem mesmo pelos sofrimentos dos homens
vivos, homens reais. O zelo divino, a preocupação com a idéia acabam por
dissecar, nas almas mais delicadas, nos corações mais compassivos, as fontes do
amor humano. Considerando tudo o que é, tudo o que se faz no mundo do ponto de
vista da eternidade ou da idéia abstrata, eles tratam com desdém as coisas
passageiras; mas toda a vida dos homens reais, dos homens em carne e osso, só é
composta de coisas passageiras; eles próprios nada mais são do que seres que
passam, e que, uma vez passados, são substituídos por outros, também
passageiros, mas que não retornam jamais. O que há de permanente ou de
relativamente eterno é a humanidade, que se desenvolve constantemente, de
geração em geração. Digo relativamente eterno porque, uma vez destruído
nosso planeta, e ele' não pode deixar de perecer cedo ou tarde, pois tudo que
começa tem necessariamente um fim, uma vez nosso planeta decomposto, para servir
sem dúvida alguma de elemento a alguma nova formação no sistema do universo, o
único realmente eterno, quem pode saber o que acontecerá com todo o nosso
desenvolvimento humano? Todavia, como o momento desta dissolução se encontra
imensamente afastado de nós podemos considerar, em relação à vida humana tão
curta, a humanidade eterna. Mas esse fato de a humanidade ser progressiva só é
real e vivo por suas manifestações em tempos determinados, em lugares
determinados, em homens realmente vivos, e não em sua idéia geral.
* * *
A idéia geral é sempre uma
abstração e por isso mesmo, de alguma forma, uma negação da vida real. A ciência
só pode compreender e denominar os fatos reais em seu sentido geral, em suas
relações, em suas leis; numa palavra, o que é permanente em suas informações
contínuas, mas jamais seu lado material, individual, por assim dizer, palpitante
de realidade e de vida, e por isso mesmo, fugitivo e inapreensível. A ciência
compreende o pensamento da realidade, não a realidade em si mesma; o pensamento
da vida, não a vida. Eis seu limite, o único limite verdadeiramente
intransponível para ela, porque ela está fundada sobre a própria natureza do
pensamento, que é o único órgão da ciência.
Sobre esta natureza se fundam os
direitos incontestáveis e a grande missão da ciência, mas também sua impotência
vital e mesmo sua ação malfazeja, todas as vezes que, por seus representantes
oficiais, nomeados, ela se arroga o direito de governar a vida. A missão da
ciência é, constatar as relações gerais das coisas passageiras e reais:
reconhecendo as leis gerais que são inerentes ao desenvolvimento dos fenômenos
do mundo físico e do mundo social, ela assenta, por assim dizer, as balizas
imutáveis da marcha progressiva da humanidade, indicando as condições gerais,
cuja observação rigorosa e necessária e cuja ignorância ou esquecimento será
sempre fatal. Numa palavra, a ciência é a bússola da vida; mas não é a vida. A
ciência é imutável, impessoal, geral, abstrata, insensível, como as leis das
quais ela nada mais é do que a reprodução ideal, refletida ou mental, isto é,
cerebral (para nos lembrar de que a ciência nada mais é do que um produto
material de um órgão material, o cérebro). A vida é fugidia e passageira,
mas também palpitante de realidade e individualidade, de sensibilidade,
sofrimentos, alegrias, aspirações, necessidades e paixões. É somente ela que,
espontaneamente, cria as coisas e os seres reais. A ciência nada cria, ela
constata e reconhece somente as criações da vida. E todas as vezes que os homens
de ciência, saindo de seu mundo abstrato, envolvem-se com a criação viva, no
mundo real, tudo o que eles propõem ou tudo o que eles criam é pobre,
ridiculamente abstrato, privado de sangue e vida, natimorto, igual ao
homunculus criado por Wagner, o discípulo pedante do imortal Dr. Fausto.
Disso resulta que a ciência tem por missão única iluminar a vida, e não
governá-la.
O governo da ciência e dos homens
de ciência, ainda que fossem positivistas, discípulos de Auguste Comte, ou ainda
discípulos da escola doutrinária do comunismo alemão, não poderia ser outra
coisa senão um governo impotente, ridícul |