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Diógenes de Sinope (Diógenes o Cínico) nascido em Sinope no ano 404 e falecido em Corinto no ano 323 Antes da Nossa Era

Diógenes, lanterna acesa, procurando um homem honesto, tela de Jacob Jordaens - 1642

 

            Filho de um fabricante de moedas, já ao início de suas reflexões filosóficas demonstrava desprezo pelos bens materiais e foi expulso de Sinope por obliterar moedas: já acreditada numa vida simples e virtuosa, tendo como ídolo o herói Hércules, para quem a Virtude era melhor revelada pelos feitos que pelas palavras proferidas. Políticos contemporâneos teriam muito a aprender com este simples princípio...

            Exilado em Atenas, tornou-se famoso, controverso e alvo de intensa curiosidade, sendo um dos principais fundadores da Escola de Pensamento mais tarde conhecida como Cinismo. A palavra é derivada de cão (cachorro), Kunikos (Κυνικός)em grego. Fez da Pobreza uma virtude, nisso preconizando o cristianismo – o cristianismo prístino, primitivo,não as formas modernas “God is Money dos protestantes” nem a hipocrisia da Pompa e Circunstância da Igreja Católica Romana – em pelo menos um milênio.

Diogenes, em tela Jean Leon Gerome - 1860 

            Acerca do cristianismo cabe um parêntese acerca das Obras Perdidas dos Grande Filósofos da Antiguidade. Assim como milhares de Pensadores da Grécia Clássica, estima-se que Diógenes de Sinope haja deixado pelo menos alguns trabalhos escritos, mesmo esparsos. Todos se perderam na série de incêndios de bibliotecas instigados pela intolerância cristã a tudo quanto não estivesse de acordo com os rabiscos reverenciados pelos judeus desde a Era do Bronze. Carl Sagan em sua Obra Cosmos, informa que, no período decorrente entre a Destruição da Biblioteca de Alexandria pelo Bispo Theofilo no ano 391 da Nossa Era até o Renascimento, o Pensamento Ocidental conheceu cerca de MIL ANOS DE TREVAS. Já em 370 Da Nossa Era, a Filósofa e Astônoma Hypatia de Alexandria houvera sido brutalmente assassinada pela turba cristã, anunciando os novos tempos.

Biblioteca de Alexandria Incendiada pela Turba Cristã insuflada pelo Bispo Theofilo de Alexandria

            Ainda neste longo parêntese, há que se ressaltar o Poder da Ideologia Dominante hoje, esta do Mercado de Capitais, que submergiu a maior parte do mundo numa Era de Trevas que tem seu início em meados da década de 80 do século XX. Tomara não dure mil anos... Aprofundo este tema em outra parte.

            O que sabemos acerca de Diógenes de Sinope, chegou-nos de fontes secundárias ou terciárias, sendo em parte consideradas ficcionais. Sem que nos ficassem trabalhos escritos ou que mesmo Diógenes houvesse tido discípulos, pouco realmente se sabe de fato. Exploremos alguns detalhes narrados por Plutarco (46 a 120 Da Nossa Era), que viveu, portanto, cerca de 400 anos depois de Diógenes de Sinope e Diógenes Laertes (200 a 250 Da Nossa Era), cerca de meio século depois de Diógenes de Sinope, portanto... Muito se perde entre a tradição oral que dura meio milênio e seu registro, mas examinemos, enfim, algumas histórias que não estão em conflito e contêm, provavelmente, alguma verdade...

Segundo Plutarco, numa Grécia dominada pelo Império Macedônico, Alexandre o Grande se dirigiu a Diógenes, que sentava nu ao sol, saudou-o e perguntou se havia algo que desejava, se o Poderoso Alexandre poderia fazer alguma coisa por ele.

A resposta dada por Diógenes a Alexandre e registrada por Plutarco:

“De Alexandre só peço que não me tires o que tenho”. Diógenes vivia literalmente “como um cão”, não tinha absolutamente nada de seu e desprezava olimpicamente as posses materiais; para ele, SER feliz não equivalia a TER coisas... Alexandre fica confuso: “Este homem fala por enigmas! Eu lhe ofereço o mundo e ele me pede que não lhe tire o que tem? Que sortilégio é esse?” Diógenes retruca: “Peço a Alexandre que não fique entre mim e o Sol...” – em termos contemporâneos: “chega pra lá, cara, você está me bloqueando a luz solar!”

"A Alexandre só peço que não te ponhas entre mim e o Sol..."

Ainda segundo Plutarco Alexandre teria dito, admirado: “se eu não fosse Alexandre, gostaria de ser Diógenes!”

De Diógenes Laertes, várias outras histórias nos chegam. A mais verossímil, pois que repetida por vários filósofos (tais como Aristóteles) é a que se refere a Diógenes caminhando pelas ruas de Atenas com uma lamparina acesa “a procura de um homem honesto”. Questionado se havia algum, respondeu: “Em Atenas, nenhum. Em Esparta, alguns meninos...” A admiração e o respeito pela inocência infantil se repete também em Heráclito que, no fragmento 121 que nos ficou registra-se “Os efésios deveriam todos enforcar-se, e suas crianças deveriam abandonar a cidade!” Também várias comunidades estudadas no Continente Americano manifestavam enorme respeito e consideração para com suas crianças. Os Inuit (outrora conhecidos como “Esquimós”), por exemplo, dão a palavra primeiro às crianças, provavelmente pois nelas está o Futuro de sua Sociedade. Em terras hoje conhecidas como Brasil, várias comunidades tribais concediam a liderança da tribo a jovens que atingiam a puberdade, segundo relatos de Claude Lévi-Strauss.

Sua recusa aos bens materiais ficou registrada em pelo menos mais duas histórias, também relatadas por Diógenes Laertes.

_ Diógenes dormia num barril e se cobria com farrapos tendo somente um cocho para comida e uma caneca para água. Um dia, viu uma criança bebendo água com a concha da mão. Imediatamente jogou a caneca fora: ainda tinha mais do que precisava!

_ Um ateniense desejava ostentar a Diógenes os confortos da riqueza e o levou à sua casa. Ali viu tantas coisas bonitas que o único lugar suficientemente decrépito que encontrou para escarrar foi a cara de seu anfitrião...

_ Finalmente, há a história de “pedir esmolas a estátuas”. Quando questionado sobre o que fazia, respondeu: “estou praticando ser tratado com desprezo”.

Lázaro Curvêlo Chaves - 15/09/2014

 

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