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Fundamentalismo Econômico
Entendemos por fundamentalismo toda e qualquer doutrina ou prática social que busca seguir determinados fundamentos tradicionais, geralmente baseados em algum livro sagrado ou práticas costumeiras, consuetudinárias. Todo o fundamentalismo tende a uma absolutização do eu, do ego em detrimento do outro. Deixa-se de perceber que, humano, o outro é em verdade um outro eu e termina-se por não reconhecer a validade do ponto de vista do outro. Este é um dos maiores problemas da atual globalização. Na globalização romana todo o mundo não-romano era considerado bárbaro, portanto indigno de considerações e diálogo. Deveriam os bárbaros ser globalizados (embora, claro, estas expressões não fossem utilizadas). Na globalização portuguesa sobre o que hoje chamamos de Brasil deveriam os chamados de “índios” e ainda os negros trazidos em cadeias por sobre o mar, ser globalizados. Presentemente, o poderio econômico norte-americano já globalizou pacificamente os países da América Latina. As nações islâmicas – particularmente aquelas que se assumem como fundamentalistas – mais refratárias à globalização norte-americana, estão sendo globalizadas à força. Para eles, o fundamentalismo econômico, que tem no Capital seu Deus Supremo e pauta-se por uma desconsideração total por fatores de cunho social-humanitário, é absolutamente inaceitável, uma vez que um dos primeiros preceitos do Islã é: Existe um único Deus, que é precisamente o Deus de Moisés, Abraão, Isaque e Jacó, ou seja, o mesmo Deus dos cristãos. No fundamentalismo econômico pouco se considera a religiosidade, exceto se corroboradora ou homologadora dos preceitos econômicos e do apego às posses materiais como meta suprema; no fundamentalismo islâmico leva-se a religiosidade mais a sério. Para o muçulmano só Deus possui. Ao homem é dado gerenciar, tão sabiamente quanto possível os dons e dádivas advindas da divindade. Naturalmente o fundamentalismo islâmico, por romper com os marcos da globalização moderna, ou seja, por pregar e praticar propósitos diferentes daqueles do fundamentalismo econômico, tornou-se desinteressante ao capitalismo e assim vem sendo combatido com violência no Afeganistão, no Iraque, na Chechênia e onde mais se manifeste.
Quatro pontos
1) Vivemos num mundo em que o fundamentalismo econômico impõe seus valores a todos os povos. Tecnicamente onde possível. À bala onde necessário. 2) Em todas as formas de fundamentalismo ocorre uma busca de absolutização do eu, do ego. Diz-se eu tenho razão, sou dono da verdade, você, se pensa diferente de mim, não tem razão. 3) O fundamentalismo econômico apresenta total devoção ao mercado de capitais; a preocupação social fica miseravelmente na propaganda e em plano zero na prática. 4) A marca da globalização de cima para baixo promovida pelos norte-americanos e seguida por todos os periféricos globalizados é o não reconhecimento do outro.
A Onda Grevista
A contradição principal do governo Lula consiste em uma postura a favor dos pobres e miseráveis no discurso, mas, na prática, em uma opção preferencial pelas atividades especulativas, de banqueiros e jogadores da bolsa de valores. Como governa para o mercado de capitais, a orientação de praticar elevadíssimas taxas de juros e manter elevados índices de recursos públicos voltados a pagar a dívida sempre crescente, desvia o dinheiro público da produção para a especulação. A orientação política é clara: reduzir o poder aquisitivo dos trabalhadores evitando pagar reajustes salariais, mas, para disfarçar, mantém a divulgação de valores fantasiosos de inflação e, com base neles, remunera a mão de obra. Controlar a divulgação de notícias sobre o desemprego mantendo-as sempre otimistas embora o cotidiano do povo demonstre o oposto. Manter propagandas ufanistas sobre pretensas realizações econômicas e “retomadas de crescimento” mesmo diante de lojas vazias, comércio fechando e demitindo, falências generalizadas e um banditismo crescente. Como a orientação governamental é justamente na direção de desviar recursos dos trabalhadores e empresários para as atividades especulativas, à redução do poder aquisitivo da população e à diminuição do ritmo das atividades produtivas, faz sentido que o governo fique surpreso com o fato de funcionários públicos lutarem por reajustes salariais, por exemplo. De fato, mesmo com um superávit primário tão elevado, com os cofres governamentais abarrotados de dinheiro, este está destinado ao pagamento de juros da dívida, até para que ela cresça ainda mais dentro da lógica enlouquecida do capital. Não há recursos para salários porque isto não está nos planos do governo. O que está nos planos é a redução do poder aquisitivo e, assim, sempre que há qualquer concessão salarial o governo se articula para ajustar a política econômica a fim de que, mesmo com aumentos nominais nos valores de salário e mantendo o patamar inflacionário dentro de níveis aceitáveis se reduza ainda mais o poder aquisitivo dos trabalhadores transferindo cada vez mais recursos para a ciranda financeira. O pensamento unidimensional elegeu três indicadores para avaliar a saúde da economia: o risco país, o C-bond e a taxa de câmbio. Fatores que interessam única e exclusivamente ao mercado de capitais. De que outra maneira compreender que países em guerra como o Iraque ou divididos por guerra civil como a Colômbia tenham um risco país menor que o do Brasil apesar de todo o sacrifício que o governo brasileiro nos impõe? Longe de ser alguma forma de comunismo trata-se, isso sim, do paroxismo da forma ruim de encaminhamento do capitalismo tupiniquim que remonta à ditadura militar. Neste sentido, o petista Antonio Palocci e o tucano Henrique Meirelles continuam o encaminhamento unidimensional da economia que começa ainda na ditadura militar com Otávio Gouvêa de Bulhões, Mário Henrique Simonsen e Delfim Neto, passando por João Sayad e Dílson Funaro, chegando a Zélia Cardoso de Mello, Pedro Malan e Armínio Fraga. Todos economistas unidimensionais, incapazes de formular, menos ainda de praticar, uma política que contemple o ser humano que vive, ama e trabalha como algo relevante a suas abstrações econômicas.
Boas notícias: retomada do crescimento e queda no desemprego
“Tendo em vista as boas notícias da economia”, o governo aumentará o superávit primário, ou seja, a quantidade de dinheiro público extorquido do povo na forma de impostos que passa a destinar-se a pagar juros da dívida. Não se poderia ter o que quer que fosse contra as boas notícias, desde que fossem verdadeiras. Se tão somente elas refletissem algo que pudéssemos perceber fora da propaganda, no mundo real, concreto, palpável... Mas vivemos uma realidade cruel em que sobra cada vez mais mês no final do salário; caminhamos pelas ruas das cidades e vemos lojas vazias, mendigos, filas de desempregados e desesperados em busca de emprego e dignidade ou, entre os que já perderam até a dignidade em filas de esmolas e assistência social pública ou privada; restaurantes e supermercados indo ladeira abaixo, trocando marcas de produtos ou fechando por falta de quem consiga pagar pelo preço da comida, com toda a esmola que o governo anuncia estar dando; massas humanas cada vez maiores migrando das grandes cidades para o interior por absoluta falta de perspectiva econômica e desespero face à violência crescente; greves de várias categorias profissionais importantes... As boas notícias são verdadeiras? A economia brasileira vai bem? Ora, o risco-país está caindo, o preço do dólar está baixo e a inflação sob controle... E nós com isso? De que adiantam estes índices se está cada vez mais difícil viver com dignidade e o governo ainda ri dos trabalhadores fazendo apologia da mendicância e da esmola? Em que o fato de os jogadores considerarem que se arriscam menos jogando no Brasil me conforta? Que me importa o preço do dólar se eu sou trabalhador e não jogador? Qual é a graça de se viver em inflação sob controle se não temos dinheiro para nada?
A Prática e o Discurso
Lula discursou na ONU. Uma das coisas mais admiráveis em Lula é que ele realmente discursa muito bem. Contudo, além de discordar que a esmola seja a melhor maneira de lidar com a pobreza, ficamos aporrinhados ainda pelo fato de a sua prática cotidiana desmentir letra por letra do seu discurso. No palanque da ONU, Lula deu lições de combate à pobreza. Criar um imposto sobre armas e transações econômicas e utilizar os recursos em programas de esmolas para famílias carentes como o “Bolsa Família”. Enquanto isso, no mundo real, o programa Bolsa Família demonstra sua inoperância e o governo, a incompetência em mantê-lo. No Brasil as “atividades econômicas” que são taxadas são aquelas dos trabalhadores que movimentam suas modestíssimas contas bancárias. As monstruosamente portentosas, dos operadores financeiros e jogadores da bolsa de valores, são isentas de imposto! Motivo de galhofa no cenário internacional, Lula atesta sua falta de autoridade para ensinar alguma coisa a outros povos, do alto de um governo corrupto e incapaz sequer de taxar atividades econômicas. As esmolas, como se esperava, perdem-se nos labirintos da corrupção e a população carente, quando chega a ver alguma coisa é uma parte insignificante do portento arrecadado. A solução, evidentemente, não é essa! Se estivesse realmente interessado em encarar o problema da miséria dos brasileiros na direção de resolvê-lo, o governo deveria inverter a orientação de sua atividade econômica; o governo Lula, aquele que produziu mais pobres e miseráveis na história da república, deveria reorientar sua política econômica caso desejasse efetivamente resolver o problema da fome, da miséria e da pobreza.
Uma leitora atenta me pede que escreva umas linhas sobre as diferenças entre o stalinismo e o nazismo e que faça uma comparação com o que acontece no Brasil de Lula e do PT. Tarefa hercúlea, dada a complexidade daqueles regimes e o distanciamento histórico não permitir reedições tão simplistas em locais e tempos tão diferentes. Ainda assim tentemos... Basicamente, ambos os regimes são totalitários, praticam a censura, perseguem opositores e têm sua origem em formas de socialismo mal compreendidos e mal encaminhados. Na Rússia os comunistas chegaram ao poder através de uma revolução popular que ceifou milhares de vidas. Na Alemanha os nacional-socialistas chegaram ao poder pelo voto popular. Na Rússia a economia foi estatizada, a começar pelos bancos e latifúndios. Na Alemanha, a propriedade privada dos meios de produção (bancos e latifúndios) foi preservada. Na Rússia, pode-se dizer, fundamentalmente, que o autoritarismo começa com o assassinato do Czar Nicolau Romanov e de sua família inteira, inclusive crianças, para que não houvesse descendente livre a pleitear o trono. Na Alemanha, antigos líderes políticos da velha ordem Imperial, como Hindenburg, e famílias aristocráticas, como a de Hermann Göering, foram preservadas e guindadas às dimensões centrais de poder. Na Rússia stalinista enfatizava-se o internacionalismo proletário. Na Alemanha nazista era exaltado o nacionalismo. Sendo ambos os regimes, o stalinista e o fascista, totalitários, ditatoriais e conhecendo as sutis diferenças, comparemos: no Brasil, o PT de Lula chegou ao poder pelo voto popular, a economia segue fundamentada no enorme lucro dos bancos e do agronegócio dos latifundiários e antigos caciques da velha política como José Sarney, Orestes Quércia, e Antônio Carlos Magalhães são aliados importantes do regime. Inquietante ainda perceber que o governo Lula não se preocupa com o internacionalismo proletário, como os comunistas sempre propuseram, mas com um nacionalismo meramente de fachada e propaganda centrado no fundamentalismo econômico. Lembro que o fundamentalismo econômico apresenta total devoção ao mercado de capitais, a preocupação social fica miseravelmente na propaganda governamental e em plano zero na prática. Se já não fosse suficientemente mal tentarmos entender como foi que uma proposta progressista como a do PT se transformou em subserviência ao FMI e assistencialismo mal praticado temos de responder ainda a questões como esta: se Lula e o PT estão realizando um governo stalinista ou nazista? Interessante seria o povo governar a si mesmo, sem necessidade de líderes ou partidos com tais características...
Lázaro Curvêlo Chaves - 25 de setembro de 2004
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