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Elysium, Neil Blomkamp, Dir. – 2013  - Apresentação

 

Ficha Técnica

Elysium - 2013

Gênero: Ficção Científica, Ação, Drama

Diretor: Neill Blomkamp

Atores Principais: Matt Damon, Jodie Foster, Alice Braga, Sharlto Copley, Wagner Moura

Brasileiros: Wagner Moura e Alice Braga (sobrinha de Sônia)

Página Oficial do Filme: http://www.itsbetterupthere.com/site/

IMDB: http://www.imdb.com/title/tt1535108/

Poster Oficial do Filme

 

A Estação Orbital "Elysium"

 
 
 

Introdução

            Algum tempo atrás um grande grupo de pessoas ocupou um prédio abandonado pela empresa de telefonia OI no Rio de Janeiro. No dia 11 de abril de 2014 a Polícia Militar entrou em choque com os ocupantes obrigando-os a sair, dentro de um processo provocado pela empresa OI, que se recordou de mais aquela propriedade. “Reintegração de posse” para a OI, expropriação do pouquíssimo que se conseguiu no desespero, para muita gente. (para conhecer mais sobre a questão da posse da terra, coisas e pessoas sobre ela, clique aqui). Um grupo de pessoas pobres buscando tomar parte do que os poderosos lhes roubam no cotidiano, leis a beneficiar a posse e desprezar a vida com o previsível confronto, com muitos mortos e feridos – uma das vítimas, raramente mencionada, é a Razão, que parece estar fora de moda.

 

            Fotos de mais este episódio da guerra civil interminável entre os ricos e os pobres no rio na página da Veja em http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/reintegracao-de-posse-no-rio-tem-confronto-com-pm

            Tudo isso traz à memória este filme futurista, cabe apresentá-lo, para quem não assistiu ainda...

Enredo

            A continuar tudo como está, num futuro não tão distante, nosso planeta ainda manterá condições que suportem a vida da nossa espécie, mas estará poluído, superpovoado e com uma doença ainda mais grave: a desigualdade social chega a tal ponto que as pessoas detentoras da renda planetária constroem uma gigantesca Estação Orbital (chamada Elysium) e para ela se mudam. Situado no ano 2159, apresenta soluções tecnológicas, como sempre ocorre, somente à disposição dos poucos que têm acesso a tais recursos sem os terem inventado nem por eles pago. Uma das mais interessantes é a cura instantânea de doenças gravíssimas como tipos complexos de câncer e até mesmo a exposição a doses letais de radiação. Como na vida real já ocorre, contudo paroxisticamente.

Elysium, era a parte do Hades, do outro lado do Rio Éstige, o Rio da Morte, imaginado, de fato, nas estrelas, para onde iriam os “nobres de sangue ou honra” da Grécia Clássica, os Patrícios Romanos e, em vida neste filme, a alta burguesia multinacional.

            É evidente a constante preocupação dos trabalhadores das áreas centrais do capitalismo com o seu desemprego e uma opinião pública em larga medida soldada contra a migração dos pobres do mundo para lá, seja legal, seja ilegalmente. A Estação Elysium “solve” este problema de manter o padrão de vida da camada abastada da população em órbita enquanto mantém a maioria da população (cada dia mais empobrecida, naturalmente) do planeta controlada e produzindo para eles, fiscalizada de perto por um sistema policial e judiciário sumário particularmente truculento e encaminhado por robôs.

            Ressalto ainda, nos Elíseos de Neil Blomkamp, uma eficiente e instantânea rede de computadores em interface direta com o cérebro humano; naves espaciais que vão e vêm ao planeta rapidamente; novas armas fundamentadas em ondas sonoras concentradas, capazes de pulverizar a matéria que vemos como sólida e exoesqueletos metálicos que multiplicam a força humana, entre muitos outros avanços dentro mesmo do campo dos possíveis ou prováveis se a humanidade de fato sobreviver mais uns 150 anos.

Brasileiros no filme se tornam revolucionários por falta de opção

            Contando com atores de vários países, o Brasil se faz presente no casal em que o filme mais se concentra através de Alice Braga (Sobrinha de Sônia Braga) que faz par romântico com Matt Damon. O romantismo do casal não ultrapassa o platonismo, contudo, na infância e, quando o casal se reencontra, Matt Damon está prestes a morrer e Alice Braga preocupadíssima em levar sua filha moribunda de Leucemia “a qualquer casa em Elysium” onde encontrará uma máquina capaz de curar qualquer doença quase instantaneamente.

            Outro é Wagner Moura, famoso pela truculência do filme “Tropa de Choque” e que, no filme de Blomkamp faz um traficante rico, sediado no planeta e cuja principal atividade é buscar – na maior parte da trama sem sucesso – crackear o sistema de segurança de Elysium e levar pessoas doentes para que sejam tratadas lá. Tem naves abatidas, associados mortos em grande número pelas tropas robotizadas que controlam o sistema mas, ao final, finalmente conquista o sucesso (depois de muito suspense, claro) em parceria com Matt Damon que busca a cura emergencial para uma dose letal de radiação que tomou, devido ao descaso para com a segurança no trabalho onde exercia suas funções.

 

 

Da estética

 

            Em Elysium se criou uma biosfera espetacular, com muitas áreas verdes, jardins bem cuidados, crianças aparecem brincando felizes e bem vestidas em ambiente tão seguro quanto o que se via na Terra antes da Globalização da Economia. Todas as pessoas e paisagens da Estação que nos são apresentados, são lindas, fortes, lúcidas, saudáveis. Em moradias arejadas e com pintura suave, o conforto é abundante.

            No Planeta, onde mora a maioria que trabalha e mantém o bem-estar dos “elisianos”, os prédios estão ruindo; pichações horrorosas tomam o lugar da pintura; lâmpadas não ficam acesas, piscam irritantemente até que se apaguem; a favelização tomou conta de todas as partes habitadas; montanhas de lixo e sucata atrapalham todos os caminhos; as roupas dos moradores do Planeta estão sempre rotas e sujas; comercializam-se porcos nas ruas de Los Angeles, ruas, estradas e avenidas de chão batido com mais irregularidades que espaço para passagem e por aí vai.

 

 

 

A trama

 

            Começa com duas crianças de origem hispânica (o que, em Hollywood, codifica uma identificação imediata do padrão econômico das pessoas: baixíssimo) conversando sobre seu maior sonho, “irem morar em Elysium para sempre”. Uma total inviabilidade para “gente de baixa renda”. O menino virá a ser Matt Damon, que perde o contato com sua namoradinha da infância e se torna mais um dos que Elysium considerará “criminoso”, com várias passagens por instituições prisionais, portanto com boa parte do corpo recapeada de tatuagens e só se encontra com uma Alice Braga já adulta e enfermeira, às voltas com o tratamento anódino da filha para a Leucemia em estabelecimentos de saúde que ainda existem no planeta, praticamente sem recurso algum exceto a dedicação e a devoção de quem ainda acredita em tais valores numa sociedade assim despedaçada.

            Damon trabalha na linha de montagem de robôs de uma fábrica e, a caminho do trabalho, é abordado por um robô-policial truculento que lhe quebra o braço e manda que se reporte imediatamente a seu Oficial da Correcional – também um robô, por sinal. Não são “androides”, repare, não têm a aparência humana, mas membros inferiores e superiores de metal e, ao alto, células fotoelétricas e outros censores no que, anatomicamente, ficaria na posição de uma cabeça humana. O “Oficial da Correcional” informa a Damon que há o relato de uma altercação com policiais em serviço, e assim seu período de punição é estendido, deverá vir mais vezes e por um período mais longo, após longa espera em filas com gente, deduzimos, nas mesmas condições, conversar com o “Oficial da Correcional”, sempre sob o risco de ser novamente agredido por robôs-policiais que reportarão “uma altercação” e o ciclo se apresenta infindável.

            A seguir se dirige a um posto de saúde – onde reencontra Alice Braga – para imobilizar seu braço quebrado.

            Dali vai para a fábrica em que trabalha e seu capataz, ao vê-lo com o gesso no braço, ameaça dispensá-lo. Ele insiste: “eu preciso desse emprego”, como parece ser o caso da maioria dos terráqueos em luta constante para encontrar uma forma de sobreviver. Recebe uma incumbência literalmente fatal: entrar numa câmara de bombardeio radioativo de alguns robôs e destravar algum mecanismo parado. Após relutar e pontificar o perigo da empreitada, vai e o inevitável acontece: a porta do compartimento metálico (sujo e pichado por fora) se fecha e ele recebe o bombardeio de uma carga mortal de radiação.

            Um robô o atende, de um lado devido ao fato de a carga de radiação a que foi submetido ser letal não só a ele (Matt Damon) mas potencialmente a outros seres humanos que dele se aproximem; de outro, ninguém é autorizado a (nem mesmo parece se importar em) abandonar a linha de produção, sequer para prestar socorro. O robô-enfermeiro da empresa lhe dá um vidro de pílulas e informa: “Você recebeu uma dose letal de radiação; este comprimido é potente. Tome-o às refeições e isso deverá mantê-lo operacional pelos próximos cinco dias, caso você viva todo este tempo. Obrigado pelos seus serviços” – e assim é demitido. O equivalente futurista a aposentadoria, fundo de garantia e atendimento médico se resume a um vidro de pílulas que “provavelmente o manterão operacional até sua morte, a ocorrer no prazo máximo de 5 dias”.

            Passando muito mal sobe um morro e chega próximo a sua casa em meio a um bocado de barracos e encontra um amigo a quem diz: “só tenho uma esperança: ir até Elysium e me deitar numa daquelas máquinas instantâneas de cura, para isso tenho, no máximo, 5 dias, precisamos conversar com o Aranha”.

O Aranha é Wagner Moura que acabara de perder duas naves abatidas em pleno voo a caminho de Elysium, com todas as 46 pessoas doentes e seus familiares a bordo. Moura cobra para levar as pessoas a Elysium e Damon não tem um centavo. Oferece seus serviços a Moura “para o que ele quiser”. A princípio faz troça: “todo mundo que ir para Elysium, mas sem pagamento não posso fazer nada”. Sabedor de que está à morte Moura lhe propõe uma missão de alto risco: sequestrar um “elisiano” e roubar os dados de sua cabeça através de uma interface tão sofisticada quanto precária. Sem alternativa, Damon aceita e recebe um exoesqueleto metálico parafusado em interface com seus ossos e nervos, o que lhe dá a força necessária a levar a cabo a missão.

Enquanto isso, em Elysium, Jodie Foster, Ministra da Segurança Estatal de Elysium recebe uma reprimenda do Conselho de Ministros, por haver abatido duas naves cheias de gente em pleno voo e explica: “não temos tempo para essas considerações humanitárias se desejarmos manter nosso estilo de vida por aqui”. Planeja um golpe para assumir o poder a fim ter mais liberdade para “fazer o que precisa ser feito” como é moda se dizer quando “o que precisa ser feito” é destruir vidas humanas. Em articulação com o diretor-presidente da fábrica de robôs e programas em que Damon trabalhava, encomenda um programa que reinicializará todo o sistema de Elysium e, no processo, colocará no poder quem Foster desejar. A caminho de Elysium com o programa de reinicialização compilado e gravado em seu cérebro, nave com o diretor-presidente é emboscada e derrubada por Damon. É um processo vertiginoso e cheio de ação – há que se agradar as crianças de todas as idades que gostam desse tipo de coisa também, claro, para aumentar a bilheteria do filme – com robôs lutando contra humanos, armas sônicas, um traidor psicopata (Sharlto Copley) aliado a Elysium e, no meio disso tudo, o diretor-presidente morre, mas Damon consegue transferir os dados da cabeça do cara para a dele em tempo.

O traidor psicopata sequestra Alice Braga e captura Damon, levando-o a Elysium onde Foster começa a extrair o programa de sua cabeça. O psicopata degola Foster numa curiosa justiça poética. Wagner Moura segue a seguir em sua própria nave e encontra Damon lutando com o psicopata já envergando uma armadura semelhante à de Damon. Tentando ajudar, Moura se fere (se esqueceu de levar a “Tropa de Choque” com ele, talvez), mas consegue invadir o sistema; Damon finalmente neutraliza o psicopata e Moura “pluga” sua cabeça ao computador-central de Elysium com o plano de tornar todos os moradores da Terra “legais” em Elysium.

Problema: se transferir os dados, frita a cabeça de Damon que toma a decisão de sacrificar-se e ansioso por ajudar quem poderia ter sido filha dele, a filha de Alice Braga, liga para a ex-namorada executa o programa. Todos os cidadãos da Terra passam a ser legais, inclusive a filha de Braga que já está deitada num compartimento médico pronta para ter suas células restabelecidas, o que ocorre em frações de segundo.

O filme acaba com uma série de naves sendo despachadas automaticamente para prestar socorro aos novos cidadãos de Elysium, no Continente Africano.

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Considerações

 

            Verossímil.

Atualmente, a ganância bestial dos mercadores torna inviável mesmo a construção de uma Estação Orbital que os coloque a uma distância maior daqueles a quem exploram e que seguem satisfeitos com isso. Mas o futuro do planeta já tem as linhas delineadas na direção indicada por Neil Blomkamp, em particular a palpável decomposição geral e cada vez mais aguda das relações dos seres humanos entre si e entre os seres humanos e a natureza, haja visto mesmo o que aconteceu no Rio de Janeiro no 11 de abril.

Vale como alerta, trazendo um vislumbre do que a Espécie Humana é capaz de fazer, tanto no campo tecnológico quanto no social. A cada avanço tecnológico somam-se os retrocessos no campo social, com o uso constante da tecnologia – fruto do engenho humano – contra o Ser Humano. Somos capazes de construir as mais eficientes formas de repressão a manifestações populares (tanques com jatos d’água, emissores da gás lacrimogêneo e gás de pimenta, etc.), mesmo, quiçá principalmente, quando atender às demandas populares é mais simples, racional e barato.

Todos vivem hoje em alguma forma de aprisionamento. Os mais ricos saem de suas moradias blindadas e cercadas com grades eletrificadas, entram em automóveis blindados e vão para escritórios blindados com brutal segurança à porta. Para o lazer, vão com a família em seus automóveis blindados para clubes distantes também cercados, blindados e protegidos por seguranças armados. Os mais pobres aprisionados “do lado de fora” daquelas condições, sem memória alguma de um tempo em que isso não existia, ficam presos às fábricas ou escritórios em que trabalham durante o dia e, como Copley no filme, dispostos a qualquer coisa para manterem a impressão delirante de pertinência a uma classe social que não é a deles. Parte significativa da população mora em condições carcerárias ainda mais sórdidas que aquelas de prisões europeias tristemente famosas como Treblinka ou Majdanek. A desigualdade social jamais antes foi tão gritante e, a seguirem as coisas como estão, principalmente dado o nível de aceitação geral destas condições, o fosso social tende a se distanciar cada vez mais, inexoravelmente.

A possibilidade de algum mercador pouca coisa mais esclarecido tomar a decisão de investir em alguma forma de tecnologia que os leve a uma vida paradisíaca numa Estação Orbital longe dos pobres existe, é diferente de zero, embora pequena. Menor ainda – mas tampouco nula – é a probabilidade de a Espécie Humana decidir, em algum tempo, se decidir pela solidariedade, pelo avanço social; reduzir ou mesmo suprimir a exploração do homem pelo homem, sair da insanidade coletiva programada e adotar os caminhos da Razão. Ah, sim, na propaganda tudo vai maravilhosamente bem no melhor dos mundos e tudo indica que seguirá melhorando. Na propaganda. Aqui abri um pequenino e modesto parêntese para tentar, com a ajuda da ficção, visitar a realidade, tão distante da propaganda...

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 12 de abril de 2014

Revisado a 17/11/2014

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