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Encaminhamento da Emancipação
Política no Brasil – A política joanina
As Principais Medidas de D. João
VI no Brasil
Rompimento do pacto colonial –
Com a transferência da Corte, o
Brasil praticamente deixou de ser colônia, devido às
seguintes medidas adotadas pelo regente:
• em 28 de janeiro de 1808, a Carta Régia
permitiu a abertura dos portos a todos "os navios
estrangeiros das potências que se conservem em paz e
harmonia com a minha Real Coroa", conforme o texto da carta,
acabando, na prática, com o regime do exclusivo
metropolitano ou pacto colonial;
• o Alvará de 1 °
de abril de 1808 revogou o de 1785, que proibia a instalação
de manufaturas no Brasil, complementando desse modo a Carta
Régia de 1808 que decretava a abertura dos portos;
• em 16 de dezembro de 1815, o Brasil foi
elevado à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarves.
A “Abertura dos Portos às Nações Amigas –
Embora a abertura dos portos
tivesse vindo ao encontro dos interesses dos proprietários
rurais brasileiros, essa medida tinha em vista apenas o
interesse e a conveniência da Corte. É o que afirma, aliás,
Hipólito José da Costa, um jornalista brasileiro da época.
Segundo suas palavras: "o governo português, quando se mudou
de Lisboa para o Rio de janeiro, deixou em poder dos
franceses, seus inimigos, os dois portos de Lisboa e Porto,
os únicos com que o Brasil comerciava na Europa; logo, não
podendo obter dali o que precisava, necessariamente havia de
recorrer aos outros portos, sob pena de se reduzir à última
penúria; porque, forçosamente, havia de não ter que ir à
Inglaterra para dali trazer os artigos de primeira
necessidade, para os pagar, era também preciso que para ali
mandassem os artigos de seu país que os ingleses
necessitassem. Logo, a abertura ou franquia deste
comercio, sendo uma medida que o governo adotou porque sem
ela pereceria, podemos dizer que o fez porque assim lhe
fazia conta, e não sei que povo fique obrigado a tão
estranha gratidão ao governo, por este adotar uma linha de
conduta necessária para conservar a sua existência como
governo e indivíduos".
A exatidão dessas afirmações pode, aliás,
ser verificada no próprio texto da Carta Régia que declarava
o caráter provisório da medida, “em razão das críticas e
públicas circunstâncias da Europa’’”.
A franquia dos portos teve importantes
conseqüências, pois deu início a um duplo processo: o da
emancipação política do Brasil e o seu ingresso na órbita de
influência inglesa.
Os grandes proprietários escravistas
brasileiros havia muito reivindicavam o livre comercio com
as nações estrangeiras. Assim, não obstante o seu caráter
provisório, a medida tornou-se irreversível, pois os grandes
proprietários não aceitariam a volta pura e simples à antiga
condição colonial.
Além disso, essa camada dominante
colonial contava com o apoio da burguesia inglesa, a quem
não interessava o fechamento do mercado brasileiro.
O Alvará de 1° de abril de 1808 –
A revogação do Alvará de 1785 de D.
Maria I, que proibia a manufatura no Brasil, ampliava a
liberdade econômica. O Brasil estava autorizado não apenas a
fazer livremente o comércio com o estrangeiro, como poderia
doravante dedicar-se livremente à atividade manufatureira.
Contudo, o Alvará de 1 ° de abril não foi
suficiente para promover o desenvolvimento manufatureiro no
Brasil. Havia dois fortes obstáculos: de um lado o
escravismo e, de outro, a concorrência inglesa. A escravidão
impedia o desenvolvimento do mercado interno, pois o escravo
era abastecido pelo senhor, com toda parcimônia previsível.
Nesse tempo, a Inglaterra encontrava-se em plena Revolução
Industrial e estava em condições de produzir em grande
quantidade mercadorias de boa qualidade a baixo preço. Além
disso, como nação favorecida, colocava com facilidade suas
mercadorias no Brasil. Portanto, não havia como enfrentar
com êxito a concorrência inglesa. Resultado: o Alvará de 1°
de abril tornou-se letra morta. Não obstante, a sua
importância reside no fato de que a proibição da produção
manufatureira estava formalmente suspensa.
O transplante do Estado português
– Chegando ao Brasil, a Corte se instalou no Rio de janeiro.
Em 11 de março de 1808 iniciou-se a reorganização do Estado,
com a nomeação dos ministros. Assim, foram sendo recriados
todos os órgãos do Estado português: os ministérios do
Reino, da Marinha e Ultramar, da Guerra e Estrangeiros e o
Real Erário, que, em 1821, mudou o nome para Ministério da
Fazenda. Também foram recriados os órgãos da administração e
da justiça: Conselho de Estado, Desembargo do Paço, Mesa da
Consciência e Ordens, Conselho Supremo Militar.
Dessa maneira, peça por peça, o Estado
português renasceu no Brasil. Todavia, a complexa rede
burocrática implantou-se à revelia da colônia, e a ela se
sobrepôs como um corpo estranho, pois o Estado foi recriado
para empregar a nobreza parasitária que acompanhara o
regente, ignorando os interesses do Brasil.
Apesar disso, esse transplante do Estado
teve importantes conseqüências porque o Brasil não era mais
administrado "de fora". Com a transferência da Corte ocorreu
a interiorização do centro de decisão e a dispersão colonial
foi atenuada com o surgimento de um centro aglutinador
representado pelo Estado português. Ocorreu, assim, a
inversão brasileira: os negócios do Brasil, antes a cargo do
Ministério da Marinha e do Ultramar, passaram a ser de
competência do Ministério do Reino; no plano da justiça, o
Tribunal de Relação do Rio de janeiro foi convertido em Casa
de Suplicação, tribunal supremo de última instância*; o
setor militar foi reforçado com a fundação da Academia
Militar, da Academia da Marinha, do hospital e do arquivo
militar, da fábrica de pólvora, etc.
O Brasil eleva-se a “Reino Unido a
Portugal e Algarves” –
Lançadas assim as bases da autonomia administrativa da
colônia, essa nova situação foi formalizada com a elevação
do Brasil à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarves,
por ocasião do Congresso de Viena (1814-1815).
O Congresso de Viena, reunido logo depois
da derrota de Napoleão em Leipzig (1814), marcou o início de
uma vasta reação antinapoleônica na Europa. Através dele,
reorganizou-se o mapa político europeu, segundo os
interesses do absolutismo. Dois foram os princípios adotados
nessa reorganização: o da legitimidade e o do equilíbrio
europeu. Pelo princípio da legitimidade, retornaram ao poder
os antigos monarcas absolutistas depostos pelos
revolucionários franceses; pelo princípio do equilíbrio
europeu, realizou-se no Congresso de Viena a partilha de
territórios europeus e coloniais entre as potências de modo
equilibrado.
Ora, segundo o princípio da legitimidade,
a situação da dinastia bragantina era "ilegítima", pois o
Congresso de Viena só reconhecia Portugal como sede do
reino. O Brasil era considerado colônia. O reconhecimento da
legitimidade dinástica dependia, assim, do retorno de D.
João a Portugal. Esse impasse, todavia, foi solucionado com
a elevação do Brasil a reino, legitimando a permanência da
Corte no Brasil, através da lei de 16 de dezembro de 1815,
assinada por D. João.
Com a decisão de permanecer no Brasil, D.
João neutralizou qualquer tentativa de emancipação política,
mas, em compensação, provocou enorme insatisfação em
Portugal.
O Estado
Português no Brasil
A singularidade da emancipação brasileira
– A transferência da Corte portuguesa para o Brasil conferiu
à nossa independência política uma característica singular.
Enquanto a América espanhola obteve a independência por meio
de lutas mais ou menos sangrentas, a presença da Corte no
Brasil favoreceu a ruptura colonial sem grandes convulsões
sociais e, também, preservando a unidade territorial.
Unidade política e territorial
– De fato, dada a característica de sua formação colonial,
até o século XIX o Brasil estava dividido em unidades
dispersas, sem vínculos entre si, cada qual obedecendo
diretamente a Lisboa. A unidade territorial e política
existia, quase que exclusivamente, do ponto de vista da
administração metropolitana. A conversão do Brasil em sede
da monarquia portuguesa teve o mérito de transferir para a
colônia o conceito de unidade de que carecia. Por essa
razão, o processo de emancipação colonial do Brasil deu-se
como luta pela apropriação do Estado já constituído.
A marginalização dos senhores rurais
– Com a instalação da Corte no Rio de Janeiro, os senhores
rurais brasileiros passaram a ter, teoricamente,
oportunidade para influir diretamente nas decisões do
governo. Porém, os ricos comerciantes, na maioria reinóis
(portugueses), aliaram-se à nobreza burocrática que
acompanhara o regente na fuga, constituindo o grupo
dominante. O verdadeiro núcleo de poder era formado pela
nobreza burocrática. Formada segundo o espírito tradicional
do Antigo Regime, essa nobreza monopolizava os
postos-chaves. Ao lado disso, D. João era um monarca de tipo
absolutista, o que restringia de maneira bastante
significativa a participação dos senhores rurais brasileiros
na vida política.
A opressão fiscal
– Em seu governo, D. João multiplicou as repartições
públicas sem atentar para as necessidades sociais. Os gastos
aumentaram e as rendas tributárias tradicionais já não eram
suficientes para as despesas. A manutenção do Estado e da
luxuosa vida cortesã exigia o aumento dos tributos
existentes e a criação de outros, pois os impostos
alfandegários, a principal fonte de recursos, haviam
diminuído.
De fato, os direitos de entrada de 48%,
na época da vigência do regime colonial, caíram para 24 %
com a abertura dos portos; a partir de 1810, passaram a 15 %
para a Inglaterra, de onde, aliás, mais se importava.
O Banco do Brasil
– Já em 12 de outubro de 1808 foi criado o Banco do Brasil
para servir de instrumento financeiro do Tesouro Real,
embora a sua finalidade declarada fosse a de atuar como
instituição creditícia dos setores produtivos - comércio,
indústria e agricultura.
O governo pôde, então, emitir papel-moeda
para suprir suas necessidades, custeando as despesas da casa
real, tribunais, exército, pensões e soldos, aos quais o
Erário Régio destinava cerca de dois terços de suas
receitas. Com isso, o Banco do Brasil teve a sua finalidade
completamente adulterada.
Em conseqüência, a fragilidade do banco
recém-criado tornou-se evidente. Para dar-lhe um mínimo de
solidez, foram criados dois impostos: um deles recaía sobre
os negociantes, livreiros, boticários e comerciantes de
ouro, prata, estanho, cobre; o outro era uma taxa cobrada
sobre as carruagens de quatro rodas, oficinas, navios, etc.
Em suma, o Banco do Brasil foi criado para cobrir déficits
financeiros do Estado e o próprio banco era sustentado por
novos impostos...
A corrupção administrativa
– Nada disso eliminou o déficit. E como os impostos, apesar
de elevados, não cobriam os gastos, os funcionários viviam
com os salários atrasados, às vezes até um ano. Isso
estimulou a prática da corrupção generalizada entre os
funcionários públicos, que cobravam dos interessados uma
certa quantia para tocar os despachos, processos e
concessões. Mas não eram apenas os pequenos. Os altos
funcionários, não raro, estavam associados a
contrabandistas, favorecendo operações ilícitas.
Contradições
da Política Joanina
Contradições da política econômica
– A política econômica joanina oscilou entre a liberação e
as restrições de cunho mercantilista. A liberdade econômica
(liberalismo) interessava à camada senhorial brasileira e à
burguesia inglesa. As restrições mercantilistas, por sua
vez, interessavam à burguesia colonialista portuguesa e, em
parte, ao Estado português no Brasil. Porém, não podendo
manter as restrições mercantilistas in totum, nem adotar
integralmente o livre-cambismo, D. João manteve-se
ambiguamente entre o regime colonial e a independência do
Brasil.
Assim, a abertura dos portos, que
beneficiava tanto os senhores rurais como a burguesia
inglesa, foi declarada, desde o princípio, como medida
provisória. E isso significava que ela seria suprimida tão
logo a Europa retornasse à normalidade. Porém, mesmo
provisória, ela feriu os interesses dos comerciantes
portugueses. Para remediar isso, através de inúmeros
decretos procurou-se restringir o comércio estrangeiro e
favorecer a burguesia portuguesa, isentando de taxas os
panos portugueses; por fim, estendeu-se aos comerciantes
portugueses o imposto de 15% ad valorem nas alfândegas
brasileiras, equiparando-os aos ingleses.
A "estamentização" da burguesia
colonialista lusa – Graças às
restrições mercantilistas, a burguesia portuguesa
monopolizou o comércio externo brasileiro, obtendo grandes e
fáceis lucros. Com a transferência da Corte e a abertura dos
portos, aquela burguesia já não contava com o respaldo
jurídico incondicional do Estado.
Embora seus privilégios estivessem, por
isso, profundamente abalados, ainda mantinham fortes
ligações com a nobreza burocrática, garantindo para si a
maior parte das licenças e alvarás. Entretanto, diante do
perigo da ruptura definitiva do regime colonial, a burguesia
colonialista portuguesa tendeu a se defender, impedindo o
ingresso de brasileiros em suas fileiras. Com isso, a
burguesia colonialista lusa buscou na sua "estamentização"
(fechamento) a forma de preservar o que restava de seus
antigos privilégios mercantilistas.
Reagindo contra isso, os setores
identificados, parcial ou totalmente, com o liberalismo, em
razão de seus interesses econômicos, conduziram a luta em
dois níveis: no plano econômico, contra a persistência do
pacto colonial e, no plano político, contra a aliança da
nobreza com os comerciantes portugueses. Como a elite
colonial dos proprietários rurais era composta, em sua
maioria, por brasileiros, e o alto funcionalismo e seus
aliados burgueses fossem predominantemente de portugueses,
a luta entre esses grupos foi percebida como um
enfrentamento entre "brasileiros" e "portugueses”.
Na realidade, era mais do que isso: não
se tratava de conflitos entre nacionalidades, mas de uma
luta política travada em defesa de interesses de classes
conflitantes. Dada a impossibilidade de conciliar tais
interesses, a emancipação acabou se impondo como alternativa
dos grandes senhores rurais brasileiros.
A política cultural
– Com a vinda da Corte transformou-se a fisionomia cultural
do Brasil. Foram criadas bibliotecas e estabelecimentos de
ensino: Escola de Comércio, Escola Real de Ciência, Artes e
Ofícios, Academia Militar e da Marinha. Além disso, com o
intuito de organizar uma Academia de Belas-Artes foram
trazidos para o Brasil artistas plásticos franceses, que
chegaram chefiados por Joaquim Lebreton. Com ele
desembarcaram o arquiteto Grandjean de Montigny, o escultor
Taunay e o pintor Debret. Eram eles os membros da célebre
Missão Francesa, que aqui chegou em 1816.
A imprensa, até então proibida no Brasil,
foi difundida com o funcionamento dos primeiros prelos.
Fundou-se a Imprensa Régia, responsável pelas primeiras
publicações no Brasil. Sai o primeiro jornal do Brasil, A
Gazeta do Rio de janeiro. Na Bahia foi publicado o jornal A
Idade de Ouro no Brasil. Todas essas publicações, que
contavam com a proteção das autoridades, eram superficiais e
limitavam-se a louvar os poderosos, noticiando frivolidades
como o casamento de princesas, aniversários de membros
destacados da sociedade, etc.
Porém, começou a ser editado em 1808 o
Correio Braziliense, que fugia à regra. Era dirigido por
Hipólito José da Costa, um liberal que fazia oposição a D.
João. O jornal, evidentemente, não era impresso no Brasil,
mas em Londres, onde se encontrava o seu editor e principal
redator. Com uma periodicidade quase mensal, o jornal
sustentou-se até 1822 com base exclusivamente em sua difusão
no Brasil. O periódico expressava o ponto de vista dos
grandes proprietários numa linguagem liberal e elitista,
tendo como alvo principal o caráter absolutista de D. João.
A política externa
– A política externa de D. João esteve orientada contra a
França napoleônica. Em represália à invasão de Portugal, o
regente ordenou a invasão de Caiena (Guiana Francesa), em
1809, permanecendo o território sob domínio português até
1815.
Pretextando temor de intervenção francesa
no Prata, D. João, apoiado pela Inglaterra, interveio na
região platina, pela primeira vez em 1811 e novamente em
1816, quando então foi anexado o atual Uruguai, com o nome
de Província Cisplatina. A sua anexação foi grandemente
facilitada pelos conflitos entre as províncias interioranas
da Argentina e Buenos Aires, que ambicionava impor sua
supremacia em todo o Prata, graças à sua posição estratégica
no estuário. Essa instabilidade, aliás, iria prosseguir
ainda por muito tempo.
Bibliografia:
História do Brasil - Luiz
Koshiba - Editora Atual
História do Brasil - Bóris
Fausto - EDUSP |