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Entrevista com a Cidadão Romena Gorbanescu Totoliciu Areta Ildiko: "O comunismo tem um lado humano e um lado desumano"

 
 

Romania: Ilustrated History - Nicolae Klepper

 

Romenia, País Latino (Pequena Incursão Pela História e Cultura) - Vicente Oliveira

Entrevista com Gorbanescu Totoliciu Areta Ildiko, cidadã Romena que viveu a transição do comunismo ao capitalismo em seu país e vê aspectos positivos e negativos em ambas as formas de encaminhamento político e econômico.

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Pelo lado humano, afirmo que as pessoas tinham emprego e eu mesma jamais entendi o conceito de “desemprego”. Ninguém podia ter coisas se não tivesse dinheiro e só se obtinha dinheiro trabalhando. Todos tinham, como fruto de seu trabalho, uma casa própria, um apartamento e até mesmo um carro. Por outro lado, quem se recusasse a trabalhar sem justificativa poderia ser preso por vadiagem por um período de até 3 meses.

A educação era pública, gratuita e de boa qualidade, mas, por outro lado, era obrigatória e o salário dos professores era um pouco menor que o dos camponeses. Se dizia que os camponeses proveem a comida da nossa mesa e são mais vitais à sociedade que os professores, também importantes porque formam as mentes das futuras gerações. Os salários obedeciam a uma ordem decrescente segundo a qual os operários recebiam relativamente melhores salários, os camponeses um pouco menos e os professores ainda menos. A diferença entre os maiores e os menores salários, contudo, não era grande, a sociedade era mais igualitária. Ainda como aspecto negativo, havia censura, não se podia falar do governo e o direito de ir e vir era muito limitado.

Vivi mais intensa e dolorosamente nos momentos finais do comunismo em meu país. Ceausescu queria pagar a dívida externa e deixou muita gente passando fome; nas áreas rurais, como a que eu morava, não havia problema de fome, mas nas áreas urbanas mais densamente habitadas, as pessoas, por dias a fio, só tinham como comida biscoitos de arroz e ficaram realmente enfurecidas com ele. No auge da crise que antecedeu a deposição de Ceausescu só tínhamos eletricidade durante 2 horas por dia à tardinha e 2 horas para TV. Eu não tinha noção do que acontecia em outros países. Ainda no auge da crise não havia mais aquecimento para as casas (e aqui na Europa faz muito frio no inverno, o aquecimento doméstico é fundamental). Havia escassez por toda a parte e as fronteiras foram fechadas, pois muitos queriam sair do país.

O capitalismo chegou como uma tempestade. Inesperada. Estávamos desprevenidos. No começo eu participei do jogo diferente do capitalismo. Fiquei deslumbrada com toda a nudez e libertinagem que nunca imaginei ser possível. Não compreendendo bem o capitalismo, as pessoas pensavam que os negócios correriam sozinhos, que teriam coisas sem precisar trabalhar, ficaram preguiçosas. Nem todas as pessoas são boas e, gradualmente, meu país se transformou numa ruína intelectual e material (“tara mea a devenit o ruina materiala si intelectuala”): comidas cheias de hormônios; a gente mais moça reduzida a uma situação praticamente de escravização à Europa Ocidental, sem perspectiva de futuro. O que há de bom? Temos fronteiras abertas e podemos sair do meu país, lindo, mas governado por ladrões que se revezam no saque ao dinheiro público. Gosto de liberdade, mas somente a posteriori compreendi as consequências da virada. A Ética e a Moralidade devem ser respeitadas e quem atua de maneira contrária deve se esconder, atormentada, em secreta miséria. O capitalismo somente me trouxe a liberdade de expressão, o direito de ir e vir e o de fazer negócios por mim mesma.

Gorbanescu Totoliciu Areta Ildiko em entrevistas para Lázaro Curvêlo Chaves - 03/05/2014 (3 AM às 8:40 AM Horário de Brasília)

  

 
 
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