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Eu e Outros Poemas de Augusto dos Anjos (20/04/1884 - 12/11/1914)
 

1914 - 2014 - Centenário de Augusto dos Anjos

Monólogo de uma sombra

 

“Sou uma Sombra! Venho de outras eras,

Do cosmopolitismo das moneras...

Pólipo de recônditas reentrâncias,

Larva de caos telúrico, procedo

Da escuridão do cósmico segredo,

Da substância de todas as substâncias!

 

A simbiose das coisas me equilibra.

Em minha ignota mônada, ampla, vibra

A alma dos movimentos rotatórios...

E é de mim que decorrem, simultâneas,

A saúde das forças subterrâneas

E a morbidez dos seres ilusórios!

 

Pairando acima dos mundanos tetos,

Não conheço o acidente da Senectus

-- Esta universitária sanguessuga

Que produz, sem dispêndio algum de vírus,

O amarelecimento do papirus

E a miséria anatômica da ruga!

 

Na existência social, possuo uma arma

-- O metafisicismo de Abidarma --

E trago, sem bramânicas tesouras,

Como um dorso de azêmola passiva,

A solidariedade subjetiva

De todas as espécies sofredoras.

 

Como um pouco de saliva quotidiana

Mostro meu nojo à Natureza Humana.

A podridão me serve de Evangelho...

Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques

E o animal inferior que urra nos bosques

É com certeza meu irmão mais velho!

 

Tal qual quem para o próprio túmulo olha,

Amarguradamente se me antolha,

À luz do americano plenilúnio,

Na alma crepuscular de minha raça

Como uma vocação para a Desgraça

E um tropismo ancestral para o Infortúnio.

 

Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,

Trazendo no deserto das idéias

O desespero endêmico do inferno,

Com a cara hirta, tatuada de fuligens

Esse mineiro doido das origens,

Que se chama o Filósofo Moderno!

 

Quis compreender, quebrando estéreis normas,

A vida fenomênica das Formas,

Que, iguais a fogos passageiros, luzem.

E apenas encontrou na idéia gasta,

O horror dessa mecânica nefasta,

A que todas as coisas se reduzem!

 

E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,

Sobre a esteira sarcófaga das pestes

A mosrtrar, já nos últimos momentos,

Como quem se submete a uma charqueada,

Ao clarão tropical da luz danada,

O espólio dos seus dedos peçonhentos.

 

Tal a finalidade dos estames!

Mas ele viverá, rotos os liames

Dessa estranguladora lei que aperta

Todos os agregados perecíveis,

Nas eterizações indefiníveis

Da energia intra-atômica liberta!

 

Será calor, causa ubíqua de gozo,

Raio X, magnetismo misterioso,

Quimiotaxia, ondulação aérea,

Fonte de repulsões e de prazeres,

Sonoridade potencial dos seres,

Estrangulada dentro da matéria!

 

E o que ele foi: clavículas, abdômen,

O coração, a boca, em síntese, o Homem,

-- Engrenagem de vísceras vulgares --

Os dedos carregados de peçonha,

Tudo coube na lógica medonha

Dos apodrecimentos musculares.

 

A desarrumação dos intestinos

Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos

Dentro daquela massa que o húmus come,

Numa glutoneria hedionda, brincam,

Como as cadelas que as dentuças trincam

No espasmo fisiológico da fome.

 

É uma trágica festa emocionante!

A bacteriologia inventariante

Toma conta do corpo que apodrece...

E até os membros da família engulham,

Vendo as larvas malignas que se embrulham

No cadáver malsão, fazendo um s.

 

E foi então para isto que esse doudo

Estragou o vibrátil plasma todo,

À guisa de um faquir, pelos cenóbios?!...

Num suicídio graduado, consumir-se,

E após tantas vigílias, reduzir-se

À herança miserável dos micróbios!

 

Estoutro agora é o sátiro peralta

Que o sensualismo sodomita exalta,

Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo...

Como que, em suas clélulas vilíssimas,

Há estratificações requintadíssimas

De uma animalidade sem castigo.

 

Brancas bacantes bêbadas o beijam.

Suas artérias hírcicas latejam,

Sentindo o odor das carnações abstêmias,

E à noite, vai gozar, ébrio de vício,

No sombrio bazer domeretrício,

O cuspo afrodisíaco das fêmeas.

 

No horror de sua anômala nevrose,

Toda a sensualidade da simbiose,

Uivando, à noite, em lúbricos arroubos,

Como no babilônico sansara,

Lembra a fome incoercível que escancara

A mucosa carnívora dos lobos.

 

Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.

Negra paixão congênita, bastarda,

Do seu zooplasma ofídico resulta...

E explode, igual à luz que o ar acomete,

Com a veemência mavórtica do aríete

E os arremessos de uma catapulta.

 

Mas muitas vezes, quando a noite avança,

Hirto, observa através a tênue trança

Dos filamentos fluídicos de um halo

A destra descarnada de um duende,

Que tateando nas tênebras, se estende

Dentro da noite má, para agarrá-lo!

 

Cresce-lhe a intracefálica tortura,

E de su’alma na caverna escura,

Fazendo ultra-epiléticos esforços,

Acorda, com os candeeiros apagados,

Numa coreografia de danados,

A família alarmada dos remorsos.

 

É o despertar de um povo subterrâneo!

É a fauna cavernícola do crânio

-- Macbeths da patológica vigília,

Mostrando, em rembrandtescas telas várias,

As incestuosidades sangüinárias

Que ele tem praticado na família.

 

As alucinações tácteis pululam.

Sente que megatérios o estrangulam...

A asa negra das moscas o horroriza;

E autopsiando a amaríssima existência

Encontra um cancro assíduo na consciência

E três manchas de sangue na camisa!

 

Míngua-se o combustível da lanterna

E a consciência do sátiro se inferna,

Reconhecendo, bêbedo de sono,

Na própria ânsia dionísica do gozo,

Essa necessidade de horroroso,

Que é talvez propriedade do carbono!

 

Ah! Dentro de toda a alma existe a prova

De que a dor como um dartro se renova,

Quando o prazer barbaramente a ataca...

Assim também, observa a ciência crua,

Dentro da elipse ignívoma da lua

A realidade de uma esfera opaca.

Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,

Abranda as rochas rígidas, torna água

Todo o fogo telúrico profundo

E reduz, sem que, entanto, a desintegre,

À condição de uma planície alegre,

A aspereza orográfica do mundo!

 

Provo desta maneira ao mundo odiento

Pelas grandes razões do sentimento,

Sem os métodos da abstrusa ciência fria

E os trovões gritadores da dialética,

Que a mais alta expressãoda dor estética

Consiste essencialmente na alegria.

 

Continua o martírio das criaturas:

-- O homicídio nas vielas mais escuras,

-- O ferido que a hostil gleba atra escarva,

-- O último solilóquio dos suicidas --

E eu sinto a dor de todas essas vidas

Em minha vida anônima de larva!”

 

Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,

Da luz da lua aos pálidos venábulos,

Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo,

Julgava ouvir monótonas corujas,

Executando, entre daveiras sujas,

A orquestra arrepiadora do sarcasmo!

 

Era a elegia panteísta do Universo,

Na produção do sangue humano imenso,

Prostituído talvez, em suas bases...

Era a canção da Natureza exausta,

Chorando e rindo na ironia infausta

Da incoerência infernal daquelas frases.

 

E o turbilhão de tais fonemas acres

Trovejando grandíloquos massacres,

Há-de ferir-me as auditivas portas,

até que minha efêmera cabeça,

Reverta à quietação datrava espessa

E à palidez das fotosferas mortas!

 

 

 

Agonia de um filósofo

 

Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto

Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo...

O Inconsciente me assombra e eu nele rolo

Com a eólica fúria do harmatã inquieto!

 

Assisto agora à morte de um inseto!...

Ah! todos os fenômenos do solo

Parecem realizar de pólo a pólo

O ideal do Anaximandro de Mileto!

 

No hierático areópago heterogêneo

Das idéias, percorro como um gênio

Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...

 

Rasgo dos mundos o velário espesso;

E em tudo igual a Goethe, reconheço

O império da substância universal!

 

 

 

O Morcego

 

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.

Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:

Na bruta ardência orgânica dasede,

Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

 

“Vou mandar levantar outra parede...”

-- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho

E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,

Circularmente sobre a minha rede!

 

Pego de um pau. Esforços faço. Chego

A tocá-lo. Minh’alma se concentra.

Que ventre produziu tão feio parto?!

 

A Consciência Humana é este morcego!

Por mais que a gente faça, à noite ele entra

Imperceptivelmente em nosso quarto!

 

 

 

Psicologia de um vencido

 

Eu, filho do carbono e do amoníaco,

Monstro de escuridão e rutilância,

Sofro, desde a epigênese da infância,

A influência má dos signos do zodíaco.

 

Produndissimamente hipocondríaco,

Este ambiente me causa repugnância...

Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia

Que se escapa da boca de um cardíaco.

 

Já o verme -- este operário das ruínas --

Que o sangue podre das carnificinas

Come, e à vida em geral declara guerra,

 

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,

E há de deixar-me apenas os cabelos,

Na frialdade inorgânica da terra!

 

 

 

A Idéia

 

De onde ela vem?! De que matéria bruta

Vem essa luz que sobre as nebulosas

Cai de incógnitas criptas misteriosas

Como as estalactites duma gruta?!

 

Vem da psicogenética e alta luta

Do feixe de moléculas nervosas,

Que, em desintegrações maravilhosas,

Delibera, e depois, quer e executa!

 

Vem do encéfalo absconso que a constringe,

Chega em seguida às cordas da laringe,

Tísica, tênue, mínima, raquítica...

 

Quebra a força centrípeta que a amarra,

Mas, de repente, e quase morta, esbarra

No molambo da língua paralítica!

 

 

 

O Lázaro da pátria

 

Filho podre de antigos Goitacases,

Em qualquer parte onde a cabeça ponha,

Deixa circunferências de peçonha,

Marcas oriundas de úlceras e antrazes.

  

 

Todos os cinocéfalos vorazes

Cheiram seu corpo. À noite, quando sonha,

Sente no tórax a pressão medonha

Do bruto embate férreo das tenazes.

 

Mostra aos montes e aos rígidos rochedos

A hedionda elefantíase dos dedos

Há um cansaço no Cosmos... Anoitece.

 

Riem as meretrizes no Cassino,

E o Lázaro caminha em seu destino

Para um fim que ele mesmo desconhece!

 

 

 

Idealização da humanidade futura

 

Rugia nos meus centros cerebrais

A multidão dos séculos futuros

-- Homens que a herança de ímpetos impuros

Tornara etnicamente irracionais!

 

Não sei que livro, em letras garrafais,

Meus olhos liam! No húmus dos monturos,

Realizavam-se os partos mais obscuros,

Dentre as genealogias animais!

 

Como quem esmigalha protozoários

Meti todos os dedos mercenários

Na consciência daquela multidão...

 

E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,

Somente achei moléculas de lama

E a mosca alegre da putrefação!

 

 

 

Soneto

 

Ao meu primeiro filho nascidomorto com 7 meses incompletos.

2 fevereiro 1911.

 

Agregado infeliz de sangue e cal,

Fruto rubro de carne agonizante,

Filho da grande força fecundante

De minha brônzea trama neuronial,

 

Que poder embriológico fatal

Destruiu, com a sinergia de um gigante,

Em tua morfogênese de infante

A minha morfogênese ancestral?!

 

Porção de minha plásmica substância,

Em que lugar irás passar a infância,

Tragicamente  anônimo, a feder?!

 

Ah! Possas tu dormir, feto esquecido,

Panteisticamente dissolvido

Na noumenalidade do NÃO SER!

 

 

 

Versos a um cão

 

Que força pôde adstrita e embriões informes,

Tua garganta estúpida arrancar

Do segredo da célula ovular

Para latir nas solidões enormes?

 

Esta obnóxia inconsciência, em que tu dormes,

Suficientíssima é, para provar

A incógnita alma, avoenga e elementar

Dos teus antepassados vemiformes.

 

Cão! -- Alma do inferior rapsodo errante!

Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a

A escala dos latidos ancestrais...

 

E irás assim, pelos séculos adiante,

Latindo a esquisitíssima prosódia

Da angústia hereditária dos teus pais!

 

 

 

O Deus-Verme

 

Fator universal do transformismo.

Filho da teleológica matéria,

Na superabundância ou na miséria,

Verme -- é o seu nome obscuro de batismo.

 

Jamais emprega o acérrimo exorcismo

Em sua diária ocupação funérea,

E vive em contubérnio com a bactéria,

Livre das roupas do antropomorfismo.

 

Almoça a podridão das drupas agras,

Janta hidrópicos, rói vísceras magras

E dos defuntos novos incha a mão...

 

Ah! Para ele é que a carne podre fica,

E no inventário da matéria rica

Cabe aos seus filhos a maior porção!

 

 

 

Debaixo do tamarindo

 

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,

Como uma vela fúnebre de cera,

Chorei bilhões de vezes com a canseira

De inexorabilíssimos trabalhos!

 

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,

Guarda, como uma caixa derradeira,

O passado da Flora Brasileira

E a paleontologia dos Carvalhos!

 

Quando pararem todos os relógios

De minha vida e a voz dos necrológios

Gritar nos noticiários que eu morri,

 

Voltando à pátria da homogeneidade,

Abraçada com a própria Eternidade

A minha sombra há de ficar aqui!

 

 

 

As cismas do destino

 

I

 

Recife, Ponte Buarque de Macedo.

Eu, indo em direção à casa do Agra,

Assombrado com a minha sombra magra,

Pensava no Destino, e tinha medo!

 

Na austera abóbada alta o fósforo alvo

Das estrelas luzia... O calçamento

Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento,

Copiava a polidez de um crânio alvo.

 

Lembro-me bem. A ponte era comprida,

E a minha sombra enorme enchia a ponte,

Como uma pele de rinoceronte

Estendida por toda a minha vida!

 

A noite fecundava o ovo dos vícios

Animais. Do carvão da treva imensa

Caía um ar danado de doença

Sobre a cara geral dos edifícios!

 

Tal uma horda feroz de cães famintos,

Atravessando uma estação deserta,

Uivava dentro do eu, com a boca aberta,

A matilha espantada dos instintos!

 

Era como se, na alma da cidade,

Profundamente lúbrica e revolta,

Mostrando as carnes, uma besta solta

Soltasse o berro da animalidade.

 

E aprofundando o raciocínio obscuro,

Eu vi, então, à luz de áureos reflexos,

O trabalho genésico dos sexos,

Fazendo à noite os homens do Futuro.

 

Livres de microscópios e escalpelos,

Dançavam, parodiando saraus cínicos,

Bilhões de centrossomas apolínicos

Na câmara promíscua do vitellus.

 

Mas, a irritar-me os globos oculares,

Apregoando e alardeando a cor nojenta,

Fetos magros, ainda na placenta,

Estendiam-me as mãos rudimentares!

 

Mostravam-me o apriorismo incognoscível

Dessa fatalidade igualitária,

Que fez minha família originária

Do antro daquela fábrica terrível!

 

A corrente atmosférica mais forte

Zunia. E, na ígnea crosta do Cruzeiro,

Julgava eu ver o fúnebre candeeiro

Que há de me alumiar na hora da morte.

 

Ninguém compreendia o meu soluço,

Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas,

O ventobravo me atirava flechas

E aplicações hiemais de gelo russo.

 

A vingança dos mundos astronômicos

Enviava à terra extraordinária faca,

Posta em rija adesão de goma laca

Sobre os meus elementos anatômicos.

 

Ah! Com certeza, Deus me castigava!

Por toda a parte, como um réu confesso,

Havia um juiz que lia o meu processo

E uma forca especial que me esperava!

 

Mas o vento cessara por instantes

Ou, pelo menos, o ignis sapiens do Orco

Abafava-me o peito arqueado e porco

Num núcleo de substâncias abrasantes.

 

É bem possível que eu umdia cegue.

No ardor desta letal tórrida zona,

A cor do sangue é a cor que me impressiona

E a que mais neste mundo me persegue!

 

Essa obsessão cromática me abate.

Não sei por que me vêm sempre à lembrança

O estômago esfaqueado de uma criança

E um pedaço de víscera escarlate.

 

Quisera qualquer coisa provisória

Que a minha cerebral caverna entrasse,

E até ao fim, cortasse e recortasse

A faculdade aziaga da memória.

 

Na ascensão barométrica da calma,

Eu bem sabia, ansiado e contrafeito,

Que uma população doente do peito

Tossia sem remédio na minh’alma!

 

E o cuspo que essa hereditária tosse

Golfava, à guisa de ácido resíduo,

Não era o cuspo só de um indivíduo

Minado pela tísica precoce.

 

Não! Não era o meu cuspo, com certeza

Era a expectoração pútrida e crassa

Dos brônquios pulmorares de uma raça

Que violou as leis da Natureza!

 

Era antes uma tosse ubíqua, estranha,

Igual ao ruído de um calhau redondo

Arremessado no apogeu do estrondo,

Pelos fundibulários da montanha!

 

E a saliva daqueles infelizes

Inchava, em minha boca, de tal arte,

Que eu, para não cuspir  por toda a parte,

Ia engolindo, aos poucos, a hemoptísis!

 

Na alta alucinação de minhas cismas

O microcosmos líquido da gota

Tinha a abundância de uma artéria rota,

Arrebatada pelos aneurismas.

 

Chegou-me o estado máximo da mágoa!

Duas, três, quatro, cinco, seis e sete

Vezes que eu me furei com um canivete,

A hemoglobina vinha cheia de água!

 

Cuspo, cujas caudais meus beiços regam,

Sob a forma de mínimas camândulas,

Benditas sejam todas essas glândulas,

Que,  quotidianamente, te segregam!

 

Escarrar de um abismo noutro abismo,

Mandando ao Céu o fumo de um cigarro,

Há mais filosofia neste escarro

Do que em toda a moral do Cristianismo!

 

Porque, se no orbe oval que os meus pés tocam

Eu não deixasse o meu cuspo carrasco,

Jamais exprimiria o acérrimo asco

Que os canalhas do mundo me provocam!

 

II

 

Foi no horror dessa noite tão funérea

Que eu descobri, maior talvez que Vinci,

Com a força visualística do lince,

A falta de unidade na matéria!

 

Os esqueletos desarticulados,

Livres do acre fedor das carnes mortas,

Rodopiavam, com as brancas tíbias tortas,

Numa dança de números quebrados!

 

Todas as divindades malfazejas,

Siva e Arimã, os duendes, o In e os trasgos,

Imitando o barulho dos engasgos,

Davam pancadas no adro das igrejas.

 

Nessa hora de monólogos sublimes,

A companhia dos ladrões da noite,

Buscando uma taverna que os açoite,

Vai pela escuridão pensando crimes.

 

Perpetravam-se os atos mais funestos,

E o luar, da cor de um doente de icterícia,

Iluminava, a rir, sem pudicícia,

A camisa vermelha dos incestos.

 

Ninguém, de certo, estava ali, a espiar-me,

Mas um lampião, lembrava ante o meu rosto,

Um sugestionador olho, ali posto

De propósito, para hipnotizar-me!

 

Em tudo, então, meus olhos distinguiram

Da miniatura singular de uma aspa,

À anatomia mínima da caspa,

Embriões de mundos que não progrediram!

 

Ser cachorro! Ganir incompreendidos

Verbos! Querer dizer-nos que não finge,

E a palavra embrulhar-se na laringe,

Escapando-se apenas em latidos!

 

Despir a putrescível forma tosca,

Na atra dissoluçào que tudo inverte,

Deixar cair sobre a barriga inerte

O apetite necrófago da mosca!

 

A alma dos animais! Pego-a, distingo-a,

Acho-a nesse interior duelo secreto

Entre a ânsia de um vocábulo completo

E uma expressão que não chegou à língua!

 

Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos,

Nos antiperistálticos abalos

Que produzem nos bois e nos cavalos

A contração dos gritos instintivos!

 

Tempo viria, em que,  daquele horrendo

Caos de corpos orgânicos disformes

Rebentariam cérebros enormes,

Como bolhas febris de água, fervendo!

 

Nessa época que os sábios não ensinam,

A pedra dura, os montes argilosos

Criariam feixes de cordões nervosos

E o neuroplasma dos que raciocinam!

 

Almas pigméias! Deus subjuga-as, cinge-as

À imperfeição! Mas vem o Tempo, e vence-o,

E o meu sonho crescia nosilâncio,

Maior que as epopéias carolíngias!

 

Era a revolta trágica dos tipos

Ontogênicos mais elementares,

Desde os foraminíferos dos mares

À grei liliputiana dos pólipos.

 

Todos os personagens da tragédia,

Cansados de viver na paz de Buda,

Pareciam pedir com a boca muda

A ganglionária célula intermédia.

 

A planta que a canícula ígnea torra,

E as coisas inorgânicas mais nulas

Apregoavam encéfalos, medulas

Na alegria guerreira da desforra!

 

Os protistas e o obscuro acervo rijo

Dos espongiários e dos infusórios

Recebiam com os seus órgãos sensóricos

O triunfo emocional do regozijo.

 

E apesar de já não ser assim tão tarde,

Aquela humanidade parasita,

Como um bicho inferior, berrava, aflita,

No meu temperamento de covarde!

 

Mas, refletindo, a sós, sobre o meu caso

Vi que, igual a um amniota subterrâneo,

jazia atravassada no meu crânio

A intercessão fatídica do atraso!

 

A hipótese genial do microzima

Me estrangulava o pensamento guapo,

E eu me encolhia todo como um sapo

Que tem um peso incômodo por cima!

 

Nas agonias do delirium-tremens,

Os bêbedos alvares que me olhavam,

Com os copos cheios esterilizavam

A substância prolífica dos sêmens!

 

Enterravam as mãos dentro das goelas,

E sacudidos de um tremor indômito

Expeliam, na dor forte do vômito,

Um conjunto de gosmas amarelas.

 

Iam depois dormir nos lupanares

Onde, na glória da concupiscência,

Depositavam quase sem consciência

As derradeiras forças musculares.

 

Fabricavam destarte os bastodermas,

Em cujo repugnante receptáculo

Minha perscrutação via o espetáculo

De uma progênie idiota de palermas.

 

Prostituição ou outro qualquer nome,

por tua causa, embora o homem te aceite,

É que as mulheres ruins ficam sem leite

E os meninos sem pai morrem de fome!

 

Por que há de haver aqui tantos enterros?

Lá no “Engenho” também, a morte é ingrata...

Há o malvado carbúnculo que mata

A sociedade infante dos bezerros!

 

Quantas moças que o túmulo reclama!

E após a podridão de tantas moças,

Os porcos espojando-se nas poças

Da virgindade reduzida à lama!

 

Morte, ponto final da última cena,

Forma difusa da matéria embele,

Minha filosofia te repele,

Meu raciocínio enorme te condena!

 

Diante de ti, nas catedrais mais ricas,

Rolam sem eficácia os amuletos,

Oh! Senhora dos nossos esqueletos

E das caveiras diárias que fabricas!

 

E eu desejava ter, numa ânsia rara,

Ao pensar nas pessoas que perdera,

A inconsciência das máscaras de cera

Que a gente prega, como um cordão, na cara!

 

Era um sonho ladrão de submergir-me

Na vida universal,e, em tudo imerso,

Fazer da parte abstrada do Universo,

Minha morada equilibrada e firme!

 

Nisto, pior que o remorso do assassino,

Reboou, tal qual, num fundo de caverna,

Numa impressionadora voz interna,

o eco particular do meu Destino;

 

III

 

“Homem! por mais que a Idéia deintegres,

Nessas perquisições que não têm pausa,

Jamais, magro homem, saberás a causa

De todos os fenômenos alegres!

 

Em vão, com a bronca enxada árdega, sondas

A estéril terra, e a hialina lâmpada oca,

Trazes, por perscrutar (oh! ciência louca!)

O conteúdo das lágrimas hediondas.

 

Negro e sem fim é esse em que te mergulhas

lugar do Cosmos, onde a dor infrene

É feita como é feito o querosene

Nos recôncavos úmidos das hulhas!

 

Porque, para que a Dor perscrutes, fora

Mister que, não como és, em síntese, antes

Fosses, a refletir teus semelhantes,

A própria humanidade sofredora!

 

A universal complexidade é que Ela

Compreende. E se, por vezes, se divide,

Mesmo ainda assim, seu todo não Residencia

No quociente isolado da parcela!

 

Ah! Como o ar imortal a Dor não finda!

Das papilas nervosas que há nos tatos

Veio e vai desde os tempos mais transatos

Para outros tempos que hão de vir ainda!

 

Como o machucamento das insônias

Te estraga, quando toda a estuada Idéia

Dás ao sôfrego estudo da ninféia

E de outras plantas dicotiledôneas!

 

A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua

Que da ígnea flama bruta, estriada, espirra;

A formação molecular da mirra,

o cordeiro simbólico da Páscoa;

 

As rebeladas cóleras que rugem

No homem civilizado, e a ele se prendem

Como às pulseiras que os mascates vendem

A aderência teimosa da ferrugem;

 

O orbe feraz que bastos jojos acres

Produz’a rebelião que na batalha,

Deixa os homens deitados, sem mortalha,

Na sangueira concreta dos massacres;

 

Os sanguinolentíssimos chicotes

Da hemorragia; as nódoas mais espessas,

O achatamento ignóbil das cabeças,

Que ainda degrada os povos hotentotes;

 

O Amor e a Fome, a fera ultriz que o fojo

Entra, à espera que a mansa vítima o entre,

-- Tudo que gera no materno ventre

A causa fisiológica do nojo;

 

As pálpebras inchadas na vigília,

As aves moças que perderam a asa,

O fogão apagado de uma casa,

Onde morreu o chefe da família;

 

O trem particular que um corpo arrasta

Sinistramente pela via férrea,

A cristalização da massa térrea,

O tecido da roupa que se gasta;

 

A água arbitrária que hiulcos caules grossos

Carrega e come; as negras formas feias

Dos aracnídeos e das centopéias,

O fogo-fátuo que ilumina os ossos;

 

As projeções flamívomas que ofuscam,

Como uma pincelada rembrandtesca,

A sensação que uma coalhada fresca

Transmite às mãos nervosas dos que a buscam;

 

O antagonismo de Tífon e Osíris,

O homem grande oprimindo o homem pequeno

A lua falsa de um parasseleno,

A mentira meteórica do arco-íris;

 

Os terremotos que, abalando os solos,

Lembram paióis de pólvora explodindo,

A rotação dos fluidos produzindo

A depressão geológica dos pólos;

 

O instinto de procriar, a ânsia legítima

Da alma, afrontando ovante aziagos riscos,

O juramento dos guerreiros priscos

Metendo as mãos nas glândulas da vítima;

 

As diferenciações que o psicoplasma

Humano sofre da mania mística,

A pesada opressão característica

Dos dez minutos de um acesso de asma;

 

E, (conquanto contra isto ódios regougues)

A utilidade fúnebre da corda

Que arrasta a rês, depois que a rês engorda,

À morte desgraçada dos açougues...

 

Tudo isto que o terráqueo abismo encerra

Forma a complicação desse barulho

Travado entre o dragão do humano orgulho

E as forças inorgânicas da terra!

 

Por descobrir tudo isso, embalde cansas!

Ignoto é o gérmem dessa força ativa

Que engendra, em cada célula passiva,

A heterogeneidade das mudanças!

 

Poeta, feito malsão, criado com os sucos

De um leite mau, carnívoro asqueroso,

Gerado no atavismo monstruoso

Da alma desordenada dos malucos;

 

Última das criaturasinferiores

Governada por átomos mesquinhos,

Teu pé mata a uberdade dos caminhos

E esteriliza os ventres geradores!

 

O áspero mal que a tudo, em torno, trazes,

Amálogo é ao que, negro e a seu turno,

Traz o ávido filóstomo noturno

Ao sangue dos mamíferos vorazes!

 

Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes

A perfeição dos seres existentes,

Hás de mostrar a cárie dos teus dentes

Na anatomia horrenda dos detalhes!

 

O Espaço -- esta abstração spencereana

Que abrange as relações de coexistência

E só! Não tem nenhuma dependência

Com as vértebras mortais da espécie humana!

 

As radiantes elipses que as estrelas

Traçam, e ao espectador falsas se antolham

São verdades de luz que os homens olham

Sem poder, no entretanto, compreendê-las.

 

Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes

Que essa mão, de esqueléticas falanges,

Dentro dessa água que com a vista abranges,

Também prova o princípio de Arquimedes!

 

A fadiga feroz que te esbordoa

Há de deixar-te essa medonha marca,

Que, nos corpos inchados de anasarca,

Deixam os dedos de qualquer pessoa!

 

Nem terás no trabalho que tiveste

A misericordiosa toalha amiga,

Que afaga os homens doentes de bexiga

E enxuga, à noite, as pústulas da peste!

 

Quando chegar depois a hora tranqüila,

Tu serás arrastado, na carreira,

Como um cepo inconsciente de madeira

Na evolução orgânica da argila!

 

Um dia comparado com um milênio

Seja, pois, o teu último Evangelho...

É a evolução do novo para o velho

E do homogêneo para o heterogêneo!

 

Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo

A apodrecer!... És poeira e embalde vibras!

O corvo que comer as tuas fibras

Há de achar nelas um sabor amargo!”

 

IV

 

Calou-se a voz. A noite era funesta.

E os queixos, a exibir trismos danados,

Eu puxava os cabelos desgrenhados

Como o Rei Lear, no meio da floresta!

 

Maldizia, com apóstrofes veementes,

No estentor de mil línguas insurretas,

O convencionalismo das Pandetas

E os textos maus dos códigos recentes!

 

Minha imaginação atormentada

Paria absurdos... Como diabos juntos,

perseguiam-me os olhos dos defuntos

Com a carne da esclerótica esverdeada.

 

Secara a clorofila das lavouras.

Igual aos sustenidos de uma endecha

Vinha-me às cordas glóticas a queixa

Das coletividades sofredoras.

 

O mundo resignava-se invertido

Nas forças principais do seu trabalho...

A gravidade era um princípio falho,

A análise espectral tinha mentido!

 

O Estado, a Associação, os Municípios

Eram mortos. De todo aquele mundo

Restava um mecanismo moribundo

E uma teleologia sem princípios.

 

Eu queria correr, ir para o inferno,

Para que, da psique no oculto jogo,

Morressem sufocadas pelo fogo

Todas as impressões do mundo externo!

 

Mas a Terra negava-me o equilíbrio...

Na Natureza, uma mulher de luto

Cantava, espiando as árvores sem fruto.

A canção prostituta do ludíbrio.

 

 

 

Budismo moderno

 

Tome, Dr., esta tesoura, e...corte

Minha singularíssima pessoa.

Que importa a mim que a bicharia roa

Todo o meu coração, depois da morte?!

 

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!

Também, das diatomáceas da lagoa

A criptógama cápsula se esbroa

Ao contato de bronca destra forte!

 

Dissolva-se, portanto, minha vida

Igualmente a uma célula caída

Na aberração de um óvulo infecundo;

 

Mas o agregado abstrato das saudades

Fique batendo nas perpétuas grades

Do último verso que eu fizer no mundo!

 

 

 

Sonho de um monista

 

Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo

Viajávamos, com uma ânsia sibarita,

por toda a pro-dinâmica infinita,

Na inconsciência de um zoófito tranqüilo.

 

A verdade espantosa do Protilo

Me aterrava, mas dentro da alma aflita

Via Deus -- essa mônada esquisita --

Coordenando e animando tudo aquilo!

 

E eu bendizia, com o esqueleto ao lado,

Na guturalidade do meu brado,

Alheio ao velho cálculo dos dias,

 

Como um pagão no altar de Proserpina,

A energia intracósmica divina

Que é o pai e é a mãe das outras energias!

 

 

 

Solitário

 

Como um fantasma que se refugia

Na solidão da natureza morta,

Por trás dos ermos túmulos, um dia,

Eu fui refugiar-me à tua porta!

 

Fazia frio e o frio que fazia

Não era esse que a carne nos contorta...

Cortava assim como em carniçaria

O aço das facas incisivas corta!

 

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!

E eu saí, como quem tudo repele,

-- Velho caixão a carregar destroços --

 

Levando apenas na tumba carcaça

O pergaminho singular da pele

E o chocalho fatídico dos ossos!

 

 

 

Mater Originalis

 

Forma vermicular desconhecida

Que estacionaste, mísera e mofina,

Como quase impalpável gelatina,

Nos estados prodrômicos da vida;

 

O hierofante que leu a minha sina

Ignorante é de que és, talvez, nascida

Dessa homogeneidade indefinida

Que o insigne Herbert Spencer nos ensina.

 

Nenhuma ignota união ou nenhum sexo

À contingência orgânica do sexo

A tua estacionária alma prendeu...

 

Ah! De ti foi que, autônoma e sem normas,

Oh! Mãe original das outras formas,

A minha forma lúgubre nasceu!

 

 

 

O Lupanar

 

Ah! Por que monstruosíssimo motivo

Prenderam para sempre, nesta rede,

Dentro do ângulo diedro da parede,
A alma do homem poilígamo e lascivo?!

 

Este lugar, moços do mundo, vede:

É o grande bebedeouro coletivo,

Onde os bandalhos, como um gado vivo,

Todas as noites, Vêm matar a sede!

 

É o afrodístico leito do hetairismo

A antecâmara lúbrica do abismo,

Em que é mister que o gênero humano entre.

 

Quando a promiscuidade aterradora

Matar a última força geradora

E comer o último óvulo do ventre!

 

 

 

Idealismo

 

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!

O amor da Humanidade é uma mentira.

É. E é por isso que na minha lira

De amores fúteis poucas vezes falo.

 

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!

Quando, se o amor quea Humanidade inspira

É o amor do sibarita e da hetaíra,

De Messalina e de Sardanapalo?!

 

Pois é mister que, para o amor sagrado,

O mundo fique imaterializado

-- Alavanca desviada do seu futuro --

 

E haja só amizade verdadeira

Duma caveira para outra caveira,

Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

 

 

 

Último credo

 

Como ama o homem adúltero o adultério

E o ébrio a garrafa tóxica de rum,

Amo o coveiro -- este ladrão comum

Que arrasta a gente para o cemitério!

 

É o transcendentalíssimo mistério!

É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,

É a morte, é esse danado número Um

Que matou Cristo e que matou Tibério!

 

Creio, como o filósofo mais crente,

na generalidade descrente

Com que a substância cósmica evolui...

 

Creio, perante a evolução imensa,

Que o homem universal de amanhã vença

O homem particular eu que ontem fui!

 

 

 

O caixão fantástico

 

Célere ia o caixão, e, nele, inclusas,

Cinzas, caixas cranianas, cartilagens

Oriundas, como os sonhos dos selvagens,

De aberratórias abstrações abstrusas!

 

Nesse caixão iam, talvez as Musas,

Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens

Enchiam meu encéfalo de imagens

As mais contraditórias e confusas!

 

A energia monística do Mundo,

À meia-noite, penetrava fundo

No meu fenomenal cérebro cheio...

 

Era tarde! Fazia muito frio.

Na rua apenas o caixão sombrio

Ia continuando o seu passeio!

 

 

 

Solilóquio de um visionário

 

Para desvirginar o labirinto

Do velho e metafísico Mistério,

Comi meus olhos crus no cemitério,

Numa antropofagia de faminto!

 

A digestão desse manjar funéreo

Tornado sangue transformou-me o instinto

De humanas impressões visuais que eu sinto

Nas divinas visões do íncola etéreo!

 

Vestido de hidrogênio incandescente,

Vaguei um século, improficuamente,

Pelas monotonias siderais...

 

subi talvez às máximas alturas,

Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras,

É necessário que ainda eu suba mais!

 

 

 

A um carneiro morto

 

Misericordiosíssimo carneiro

Esquartejado,  a maldição de Pio

Décimo caia em teu algoz sombrio

E em todo aquele que for seu herdeiro!

 

Maldito seja o mercador vadio

Que te vender as carnes por dinheiro,

pois, tua lã aquece o mundo inteiro

E guarda as carnes dos que estão com frio!

 

Quando a faca rangeu no teu pescoço,

Ao monstro que espremeu teu sangue grosso

Teus olhos -- fontes de perdão -- perdoaram!

 

Oh! tu que no Perdão eu simbolizo,

Se fosses Deus, no Dia de Juízo,

Talvez perdoasses os que te mataram!

 

 

 

Vozes da morte

 

Agora sim! Vamos morrer, reunidos,

Tamarindo de minha desventura,

Tu, com o envelhecimento da nervura,

Eu, com o envelhecimento dos tecidos!

 

Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos!

E a podridão, meu velho! E essa futura

Ultrafatalidade de ossatura,

A que nos acharemos reduzidos!

 

Não morrerão, porém, tuas sementes!

E assim, para o Futuro, em diferentes

Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos,

 

Na multiplicidade dos teus ramos,

Pelo muito que em vida nos amamos,

Depois da morte, inda teremos filhos!

 

 

 

Insânia de um simples

 

Em cismas patológicas insanas,

É-me grato adstringir-me, na hierarquia

Das formas vivas, à categoria

Das organizações liliputianas;

 

Ser semelhante aos zoófitos e às lianas,

Ter o destino de uma larva fria,

Deixar enfim na cloaca mais sombria

Este feixe de células humanas!

 

E enquanto arremedando Éolo iracundo,

Na orgia heliogabálica do mundo,

Ganem todos os vícios de uma vez,

 

Apraz-me, adstrito ao triângulo mesquinho

De um delta humilde, apodrecer sozinho

No silêncio de minha pequenez!

 

 

 

Os doentes

 

I

 

Como uma cascavel que se enroscava,

A cidade dos lázaros dormia...

Somente, na metróplole vazia,

Minha cabeça autônoma pensava!

 

Mordia-me a obsessão má de que havia,

Sob os meus pés, na terra onde eu pisava,

Um fígado doente que sangrava

E uma garganta órfã que gemia!

 

Tentava compreender com as conceptivas

Funções do encéfalo as substâncias vivas

Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam...

 

E via em mim, coberto de desgraças,

O resultado de bilhões de raças

Que há muito desapareceram!

 

II

 

Minha angústia feroz não tinha nome.

Ali, na urbe natal do Desconsolo,

Eu tinha de comer o último bolo

Que Deus fazia para a minha fome!

 

Convulso, o vento entoava um pseudosalmo.

Contrastando, entretanto, com o ar convulso

A noite funcionava como um pulso

Fisiologicamente muito calmo.

 

Caíam sobre os meus centros nervosos,

Como os pingos ardentes de cem velas,

O uivo desenganado das cadelas

E o gemido dos homens bexigosos.

 

Pensava! E em que eu pensava, não perguntes!

Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

Pedia para mim água e socorro

À comiseração dos transeuntes!

 

Bruto, de errante rio, alto e hórrido, o urro

Reboava. Além jazia os pés da serra,

Criando as superstições de minha terra,

A queixada específica de um burro!

 

Gordo adubo de agreste urtiga brava,

Benigna água, magnânima e magnífica,

Em cuja álgida unção, branda e beatífica,

A Paraíba indígena se lava!

 

A manga, a ameixa, a amêndoa, a abóbora, o álamo

E a câmara odorífera dos sumos

Absorvem diariamente o ubérrimo húmus

Que Deus espalha à beira do seu tálamo!

 

Nos de teu curso desobstruídos trilhos,

Apenas eu compreendo, em quaisquer horas,

O hidrogênio e o oxigênio que tu choras

Pelo falecimento dos teus filhos!

 

Ah! Somente eu compreendo, satisfeito,

A incógnita psique das massas mortas

Que dormem, como as ervas, sobre as hortas,

Na esteira igualitária do teu leito!

 

O vento continuava sem cansaço

E enchia com a fluidez do eólico hissope

Em seu fantasmagórido galope

A abundância geométrica do espaço.

 

Meu ser estacionava, olhando os campos

Circunjacentes. No Alto, os astros miúdos

Reduziam os Céus sérios e rudos

A uma epiderme cheia de sarampos!

 

III

 

Dormia embaixo, com a promíscua véstia

No enbotamento crasso dos sentidos,

A comunhão dos homens reunidos

Pela camaradagem da moléstia.

 

Feriam-me o  nervo óptico e a retina

Aponevroses e tendões de Aquiles,

Restos repugnantíssimos de bílis,

Vômitos impregnados de ptialina.

 

Da degenerescência étnica do Ária

Se escapava, entre estrépitos e estouros,

Reboando pelos séculos vindouros,

O ruído de uma tosse hereditária.

 

OH! desespero das pessoas tísicas,

Adivinhando o frio que há nas lousas,

Maior felicidade é a destas cousas

Submetidas apenas às leis físicas!

 

Estas, por mais que os cardos grandes rocem

Seus corpos brutos, dores não recebem;

Estas dis bacalhaus o óleo não bebem,

Estas não cospem sangue, estas não tossem!

 

Descender dos macacos catarríneos,

Cair doente e passar a vida inteira

Com a boca junto de uma escarradeira,

Pintando o chão de coágulos sangüíneos!

 

Sentir, adstritos ao quimiotropismo

Erótico, os micróbios assanhados

Passearem, como inúmeros soldados,

Nas cancerosidades do organismo!

 

Falar somente uma linguagem rouca.

Um português cansado e incompreensível,

Vomitar o pulmão na noite horrível

Em que se deita sangue pela boca!

 

Expulsar, aos bocados, a existência

Numa bacia autômata de barro,

Alucinado, vendo em cada escarro

O retrato da própria consciência!

 

Querer dizer a angústia de que é pábulo

E com a respiração já muito fraca

Sentir como que a ponta de uma faca,

Cortanto as raízes do último vocábulo.

 

Não haver terapêutica que arranque

Tanta opressão como se, com efeito,
Lhe houvessem sacudido sobre o peito

A máquina pneumática de Bianchi!

 

E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba

A erguer, como um cronômetro gigante

Marcando a transição emocionante

Do lar materno para a catacumba!

 

Mas vos não lamenteis, magras mulheres,
Nos ardores danados da febre hética,

Consagrando vossa última fonética

A uma recitação de mesereres.

 

Antes levardes ainda uma quimera

Para a garganta omnívora das lajes

Do que morrerdes, hoje, urrando ultrajes

Contra a dissolução que vos espera!

 

Porque a morte, resfriando-vos o rosto,

Consoante a minha concepção vesânica,

É a alfândega, onde toda a vida orgânica

Há de pagar um dia o último imposto!

 

IV

 

Começara a chover. Pelas algentes

Ruas, a água, em cachoeiras desobstruídas

Encharcava os buracos das feridas,

Alagava a medula dos Doentes!

 

Do fundo do meu trágico destino,

Onde a Resignação os braços cruza,

Saía, com o vexame de uma fusa,

A mágoa gaguejada de um cretino.

 

Aquele ruído obscuro de gagueira

Que à noite, em sonhos mórbidos, me acorda,

Vinha da vibração bruta da corda

Mais recôndita da alma brasileira!

 

Aturdia-me a tétrica miragem

De que, naquele instante, no Amazonas,

Fedia, entregue a vísceras glutonas,

A carcaça esquecida de um selvagem.

 

A civilização entrou na taba

Em que ele estava. O gênio de Colombo

Manchou de opróbrios a alma do mazombo,

Cuspiu na cova do morubixaba!

 

E o índio, por fim, adstrito à étnica escória,

Recebeu, tendo o horror no rosto impresso,

Esse achincalhamento do progresso

Que o anulava na crítica da História!

 

Como quem analisa uma apostema,

De repente, acordando na desgraça,

Viu toda a podridão de sua raça...

Na tumba de Iracema!...

 

Ah! Tudo, como um lúgubre ciclone,

Exercia sobre ela ação funesta

Desde o desbravamento da floresta

à ultrajante invenção do telefone.

 

E sentia-se pior que um vagabundo

Microcéfalo vil que a espécie encerra,

Desterrado na sua própria terra,

Diminuído na crônica do mundo!

 

A hereditariedade dessa pecha

Seguiria seus filhos. Dora em diante

Seu povo tombaria agonizante

Na luta da espingarda contra a flecha!

 

Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos.

Uma desesperada ânsia improfícua

De estrangular aquela gente iníqua

Que progredia sobre os seus despojos!

 

Mas, diante a xantocróide raça loura,

Jazem, caladas, todas as inúbias,

E agora, sem difíceis nuanças dúbias,

Com uma clarividência aterradora,

 

Em vez da prisca tribo e indiana tropa

A gente deste século, espantada,

Vê somente a caveira abandonada

De uma raça esmagada pela Europa!

 

V

 

Era a hora em que arrastados pelos ventos,

Os fantasmas hamléticos dispersos

Atiram na consciência dos perversos

A sombra dos remorsos famulentos.

 

As mães sem coração rogavam pragas

Aos filhos bons. E eu, roído pelos medos,

Batia com o pentágono dos dedos

Sobre um fundo hipotético de chagas!

 

Diabólica dinâmica daninha

Oprimia meu cérebro indefeso

Com a força onerosíssima de um peso

Que eu não sabia mesmo de onde vinha.

 

Perfurava-me o peito a áspera pua

do desânimo negro que me prostra,

E quase a todos os momentos mostra

Minha caveira aos bêbedos da rua.

 

Hereditariedades politípicas

Punham na minha boca putrescível

Interjeições de abracadabra horrível

E os verbos indignados das Filípicas.

 

Todos os vocativos dos blasfemos,

No horror daquela noite monstruosa,

Maldiziam, com voz estentorosa,

A peçonha inicial de onde nascemos.

 

Como que havia na ânsia de conforto

De cada ser, ex.: o homem e o ofídio,

Uma necessidade de suicídio

E um desejo incoercível de ser morto!

 

Naquela angústia absurda e tragicômica

Eu chorava, rolando sobre o lixo,

Com a contorção neurótica de um bicho

Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica.

 

E, como um homem doido que se enforca,

Tentava, na terráquea superfície,

Consubstanciar-me todo com a imundície,

Confundir-me com aquela coisa porca!

 

Vinha, às vezes, porém, o anelo instável

De, com o auxílio especial do osso masséter

Mastigando homeomérias neutras de éter

Nutrir-me da matéria imponderável.

 

Anelava ficar um dia, em suma,

Menor que o anfióxus e inferior à tênia,
Reduzido à plastídula homogênea,

Sem diferenciação de espécie alguma.

 

Era (nem sei em síntese o que diga)

Um velhíssimo instinto atávico, era

A saudade inconsciente da monera

Que havia sido minha mãe antiga.

 

Com o horror tradicional da raiva corsa

Minha vontade era, perante a cova,

Arrancar do meu próprio corpo a prova

Da persistência trágica da força.

 

A pragmática má de humanos usos

Não compreende que a Morte que não dorme

É a absorção do movimento enorme

Na dispersão dos átomos difusos.

 

Não me incomoda esse último abandono

Se a carne individual hoje apodrece

Amanhã, como Cristo, reaparece

Na universalidadej do c arbono!

 

A vida vem do éter que se condensa

Mas o que mais no Cosmos me entusiasma

É a esfera microscópica do plasma

Fazer a luz do cérebro que pensa.

 

Eu voltarei, cansado, da árdua liça

À substância inorgânica primeva

De onde, por epigênese, veio Eva

E a stirpe radiolar chamada Actissa.

 

Quando eu for misturar-me com as violetas

Minha lira, maior que a Bíblia e a Fedra

Reviverá, dando emoção à pedra

Na acústica de todos os planetas!

 

VI

 

À álgida agulha, agora, alva, a saraiva

Caindo, análoga era... Um cão agora

Punha a atra língua hidrófoba de fora

Em contrações miológicas de raiva.

 

Mas, para além, entre oscilantes chamas,

Acordavam os bairros da luxúria...

As prostitutas, doentes de hematúria,

Se extenuavam nas camas.

 

Uma, ignóbil, derreada de cansaço,

Quase que escangalhada pelo vício,

Cheirava com prazer no sacrifício

A lepra má que lhe roía o braço!

 

E ensangüentava os dedos da mão nívea

Com o sentimento gasto e a emoção pobre,

Nessa alegria bárbara que cobre

Os saracoteamentos da lascívia...

 

De certo, a perversão de que era presa

o sensorium daquela prostituta

Vinha da adaptação quase absoluta

À ambiência microbiana da baixeza!

 

Entanto, virgem fostes, e, quando o éreis,

Não tínheis ainda essa erupção cutânea,

Nem tínheis, vítima última da insânia,

Duas mamárias glândulas estéreis!

 

Ah! Certamente não havia ainda

Rompido, com violência, no horizonte,

O sol malvado que secou a fonte

De vossa castidade agora finda!

 

Talvez tivésseis fome, e as mãos, embalde,

Estendestes ao mundo, até que, à-toa,

Fostes vender a virginal coroa

Ao primeiro bandido do arrabalde.

 

E estais velha! -- De vós o mundo é farto,

E hoje, que a sociedade vos enxota,

Somente as bruxas negras da derrota

Freqüentam diariamente vosso quarto!

 

prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes

Longe da mancebia dos alcouces,

Nas quietudes nirvânicas mais doces

O noivado que em vida não tivestes!

 

VII

 

Quase todos os lutos conjugados,

Como uma associação de monopólio,

Lançavam pinceladas pretas de óleo

Na arquitetura arcaica dos sobrados.

 

Dentro da noite funda um braço humano

Parecia cavar ao longe um poço

Para enterrar minha ilusão de moço,

Como a boca de um poço artesiano!

 

Atabalhoadamente pelos becos,

Eu pensava nas coisas que perecem,

Desde as musculaturas que apodrecem

À ruína vegetal dos lírios secos.

 

Cismava no propósito funéreo

Da mosca debochada que fareja

O defunto, no chão frio da igreja,

E vai depois levá-lo ao cemitério!

 

E esfregando as mãos magras, eu, inquieto,

Sentia, na craniana caixa tosca,

A racionalidade dessa mosca,

A consciência terrível desse inseto!

 

Regougando, porém, argots e aljâmias,

Como quem nada encontra que o perturbe,

A energúmena gei dos ébrios da urbe

Festejava seu sábado de infâmias.

 

A estática fatal das paixões cegas,

Rugindo fundamente nos neurônios,

Puxava aquele povo de demônios

Para a promiscuidade das adegas.

 

E a ébria turba que escaras sujas masca,

À falta idiossincrásica de escrúpulo,

Absorvia com gáudio absinto, lúpulo

E outras substâncias tóxicas da tasca.

 

O ar ambiente cheirava a ácido acético,

Mas, de repente, com o ar de quem empesta,

Apareceu, escorraçando a festa,

A mandíbula inchada de um morfético!

 

Saliências polimórficas vermelhas,

Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo,

Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo

Tamanho aberratório das orelhas.

 

O fácies do morfético assombrava!

-- Aquilo era uma negra eucaristia,

Onde minh’alma inteira surpreendia

A Humanidade que se lamentava!

 

Era todo o meu sonho, assim inchado,

Já podre, que a morféia miserável

Tornava às impressões táteis, palpável,

Como se fosse um corpo organizado!

 

VIII

 

Em torno a mim, nesta hora, estriges voam,

E o cemitério, em que eu entrei adrede,

Dá-me a impressão de um boulevard que fede,

Pela degradação dos que o povoam.

 

Quanta gente, roubada à humana coorte

Morre de fome, sobre a palha espessa,

Sem ter, como Ugolino, uma cabeça

Que possa mastigar na hora da morte

 

E nua, após baixar ao caos budista,

Vem para aqui, nos braços de um canalha

porque o madapolão para a mortalha

Custa 1$200 ao lojista!

 

Que resta das cabeças que pensaram?!

E afundado nos sonhos mais nefastos,

Ao pegar num milhão de miolos gastos,

Todos os meus cabelos se arrepiaram.

 

Os evolucionistas benfeitores

Que por entre os cadáveres caminham,

iguais a irmãs de caridade, vinham

Com a podridão dar de comer às flores!

 

Os defuntos então me ofereciam

Com as articulações das mãos inermes,

Num prato de hospital, cheio de vermes,

Todos os animais que apodreciam!

 

 É possível que o estômago se afoite

(Muito embora contra isto a alma se irrite)

A cevar o antropófago apetite,

Comendo carne humana, à meia-noite!

 

Com uma ilimitadíssima tristeza,

Na impaciência do estômago vazio,

Eu devorava aquele bolo frio

Feito das podridões da Natureza!

 

E hirto, a camisa suada, a alma aos arrancos,

Vendo passar com as túnicas obscuras,

As escaveiradíssimas figuras

Das negras desonradas pelos brancos;

 

Pisando, como quem salta, entre fardos,

Nos corpos nus das moças hotentotes

Entregues, ao clarão de alguns archotes,

À sodomia indigna dos moscardos;

 

Eu maldizia o deus de mãos nefandas

Que, transgredindo a igualitária regra

Da Natureza, atira a raça negra

Ao contubérnio diário das quitandas!

 

Na evolução de minha dor grotesca,

Eu mendigava aos vermes insubmissos

Como indenização dos meus serviços,

O benefício de uma cova fresca.

 

Manhã. E eis-me a absorver a luz de fora,

Como o íncola do pólo ártico, às vezes,

Absorve, após a noite de seis meses,

Os raios caloríficos da aurora.

 

Nunca mais as goteiras cairiam

Como propositais setas malvadas,

No frio matador das madrugadas,

Por sobre o coração dos que sofriam!

 

Do meu cérebro à absconsa tábua rasa

Vinha a luz restituir o antigo crédito,

Proporcionando-me o prazer inédito,

De quem possui um sol dentro de casa.

 

Era a volúpia fúnebre que os ossos

Me inspiravam, trazendo-me ao sol claro,

À apreensão fisiológica do faro

O odor cadaveroso dos destroços!

 

IX

 

O inventário do que eu já tinha sido

Espantava. Restavam só de Augusto

A forma de um mamífero vetusto

E a cerebralidade de um vencido!

 

O gênio procriador da espécie eterna

Que me fizera, em vez de hiena ou lagarta,

Uma sobrevivência de Sidarta,

Dentro da filogênese moderna;

 

E arrancara milhares de existências

Do ovário ignóbil de uma fauna imunda,

Ia arrastando agora a alma infecunda

Na mais triste de todas as falências.

 

No céu calamitoso de vingança

Desagregava, déspota e sem normas,

O adesionismo biôntico das formas

Multiplicadas pela lei da herança!

 

A ruína vinha horrenda e deletéria

Do subsolo infeliz, vinha de dentro

Da matéria em fusão que ainda há no centro,

Para alcançar depois a periferia!

 

Contra a Arte, oh! Morte, em vão teu ódio exerces!

Mas, a meu ver, os sáxeos prédios tortos

Tinham aspectos de edifícios mortos,

Decompondo-se desde os alicerces!

 

A doença era geral, tudo a extenuar-se

Estava. O Espaço abstrato que não morre

Cansara... O ar que, em colônias fluídas, corre,

Parecia também desagregar-se!

 

 O prodromos de um tétano medonho

Repuxavam-me o rosto... Hirto de espanto,

Eu sentia nascer-me n’alma, entanto,

O começo magnífico de um sonho!

 

Entre as formas decrépitas do povo,

Já batiam por cima dos estragos

A sensação e os movimentos vagos

Da célula inicial de um Cosmos novo!

 

O letargo larvário da cidade

Crescia. Igual a um parto, numa furna,

Vinha da original treva noturna,

o vagido de uma outra Humanidade!

 

E eu, com os pés atolados no Nirvana,

Acompanhava, com um prazer secreto,

A gestação daquele grande feto,

Que vinha substituir a Espécie Humana! 

 

Asa de corvo

 

Asa de corvos carniceiros, asa

De mau agouro que, nos doze meses,

Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes

O telhado de nossa própria casa...

 

Perseguido por todos os reveses,

É meu destino viver junto a esa asa,

Como a cinza que vive junto à brasa,

Como os Goncourts, como os irmãos siameses!

 

É com essa asa que eu faço este soneto

E a indústria humana faz o pano preto

Que as famílias de luto martiriza...

 

É ainda com essa asa extraordinária

Que a Morte -- a costureira funerária --

Cose para o homem a última camisa!

 

 

 

Uma noite no Cairo

 

Noite no Egito. O céu claro e produndo

Fulgura. A rua é triste. A Lua cheia

Está sinistra, e sobre a paz do mundo

A alma dos Faraós anda e vagueia.

 

Os mastins negros vão ladrando à lua...

O Cairo é de uma formosura arcaica.
No ângulo mais recôndito da rua

Passa cantando uma mulher hebraica.

 

O Egito é sempre assim quando anoitece!

Às vezes, das pirâmides o quedo

E atro perfil, exposto ao luar, parece

Uma sombria interjeição de medo!

 

Como um contraste àqueles mesereres,

Num quiosque em festa alegre turba grita,

E dentro dançam homens e mulheres

Numa aglomeração cosmopolita.

 

Tonto do vinho, um saltimbanco da Ásia,

Convulso e roto, no apogeu da fúria,

Executando evoluções de razzia

Solta um brado epilético de injúria!

 

Em derredor duma ampla mesa preta

-- Última nota do conúbio infando --

Vêem-se dez jogadores de roleta

Fumando, discutindo, conversando.

 

Resplandece a celeste superfície.

Dorme soturna a natureza sábia...

Embaixo, na mais próxima planície,

Pasta um cavalo esplêndido da Arábia.

 

Vaga no espaço um silfo solitário.

Troam kinnors! Depois tudo é tranqüilo...

Apenas como um velho stradivário,

Soluça toda a noite a água do Nilo!

 

 

 

O Martírio do artista

 

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,

A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,

Busca exteriorizar o pensamento

Que em suas fronetais células guarda!

 

Tarda-lhe a Idéia!  A inspiração lhe tarda!

E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,

Como o soldado que rasgou a farda

No desespero do último momento!

 

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!...

É como o paralítico que, à míngua

Da própria voz e na que ardente o lavra

 

Febre de em vão falar, com os dedos brutos

Para falar, puxa e repuxa a língua,

E não lhe vem  à boca uma palavra!

 

 

 

Duas estrofes

 

(À memória de João de Deus)

 

Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova?

Tutti torniamo alla gran  madre  antica

E il nostro nome appena si ritrova.

Petrarca

 

A queda do teu lírico arrabil

De um sentimento português ignoto

Lembra Lisboa, bela como um brinco,

Que um dia no ano trágico de mil

E setecentos e cinqüenta e cinco,

Foi abalada por um terremoto!

 

A água quieta do Tejo te abençoa.

Tu representas toda essa Lisboa

De glórias quase sobrenaturais,

Apenas com uma diferença triste,

Com a diferença que Lisboa existe

E tu, amigo, não existes mais!

O MAR, A ESCADA E O HOMEM

 

“Olha agora, mamífero inferior,

“À luz da espicurista ataraxia,

“O fracasso de tua geografia

“E do teu escafandro esmiuçador!

 

“Ah! Jamais saberás ser superior,

“Homem, a mim, conquanto ainda hoje em dia,

“Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia

“Voando ao vento o vastíssimo vapor.

 

“Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me!”

E a verticalidade da Escada íngreme:

“Homem, já transpuseste os meus degraus?!”

 

E Augusto, o Hércules, o Homem, aos soluços,

Ouvindo a Escada e o Mar, caiu de bruços

No pandemônio aterrador do Caos!

 

 

 

Decadência

 

Iguais às linhas perpendiculares

Caíram, como cruéis e hórridas hastas,

Nas suas 33 vértebras gastas

Quase todas as pedras tumulares!

 

A frialdade dos círculos polares,

Em sucessivas atuações nefastas,

Penetrara-lhe os próprios neuroplastas,

Estragara-lhe os centros medulares!

 

Como quem quebra o objeto mais querido

E começa a apanhar piedosamente

Todas as microscópicas partículas,

 

Ele hoje vê que, após tudo perdido,

Só lhe restam agora o último doente

E a armação funerária das clavículas!

 

 

 

Ricordanza della mia gioventú

 

A minha ama-de-leite Guilhermina

Furtava as moedas que o Doutor me dava.

Sinhá-Mocinha, minha Mãe, ralhava...

Via naquilo a minha própria ruína!

 

Minha ama, então, hipócrita, afetava

Susceptibilidade de menina:

“-- Não, não fora ela! --“ E maldizia a sina,

Que ela absolutamente não furtava.

 

Vejo, entretanto, agora, em minha cama,

Que a mim somente cabe o furto feito...

Tu só furtaste a moeda, o ouro que brilha.

 

Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama,

Eu furtei mais, porque furtei o peito

Que dava leite para a tua filha!

 

 

 

A um mascarado

 

Rasga essa máscara ótima de seda

E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos...

É noite, e, à noite, a escândalos e incestos

É natural que o instinto humano aceda!

 

Sem que te arranquem da garganta queda

A interjeição danada dos protestos,

Hás de engolir, igual a um porco, os restos

Duma comida horrivelmente azeda!

 

A sucessão de hebdômadas medonhas

Reduzirá os mundos que tu sonhas

Ao microcosmos do ovo primitivo...

 

E tu mesmo, após a árdua e atra refrega,

Terás somente uma vontade cega

E uma tendência obscura de ser vivo!

 

 

 

Vozes de um túmulo

 

Morri! E a Terra -- a mãe comum -- o brilho

Destes meus olhos apagou!... Assim

Tântalo, aos reais convivas, num festim,

Serviu as carnes do seu próprio filho!

 

Por que para este cemitério vim?!

Por que?! Antes da vida o angusto trilho

Palmilhasse, do que este que palmilho

E que me assombra, porque não tem fim!

 

No ardor do sonho que o fronema exalta

Construí de orgulho ênea pirâmide alta...

Hoje, porém, que se desmoronou

 

A pirâmide real do meu orgulho,

Hoje que apenas sou matéria e entulho

Tenho consciência de que nada sou!

 

 

 

Contrastes

 

A antítese do novo e do obsoleto,

O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,

O que o homem ama e o que o homem abomina,

Tudo convém para o homem ser completo!

 

O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,

Uma feição humana e outra divina

São como a eximenina e a endimenina

Que servem ambas para o mesmo feto!

 

Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!

Por justaposição destes contrastes,

Junta-se um hemisfério a outro hemisfério,

 

Às alegrias juntam-se as tristezas,

E o carpinteiroque fabrica as mesas

Faz também os caixões do cemitério!...

 

 

 

Gemidos de arte

 

I

 

Esta desilusão que me acabrunha

É mais traidora do que o foi Pilatos!...

Por causa disto, eu vivo pelos matos,

Magro, roendo a substância córnea de unha.

 

Tenho estremecimentos indecisos

E sinto, haurindo o tépido ar sereno,

O mesmo assombro que sentiu Parfeno

Quando arrancou os olhos de Dionisos!

 

Em giro e em redemoinho em mim caminham

Ríspidas mágoas estranguladoras,

Tais quais, nos fortes fulcros, as tesouras

Brônzeas, também gira e redemoinham.

 

Os pães -- filhos legítimos dos trigos --

Nutrem a geração do Ódio e da Guerra.

Os cachorros anônimos da terra

São talvez os meus únicos amigos!

 

Ah! Por que desgraçada contingência

À híspida aresta sáxea áspera e abrupta

Da rocha brava, numa ininterrupta

Adesão, não prendi minha existência?!

 

Por que Jeová, maior do que Laplace,

Não fez cair o túmulo de Plínio

Por sobre todo o meu raciocínio

Para que eu nunca mais raciocinase?!

 

Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles

Carinhos, com que guarda meus sapatos,

Por que me deu consciência dos meus atos

Para eu me arrepender de todos eles?!

 

Quisera antes, mordendo glabros talos,

Nabucodonosor ser do Pau d’Arco,

Beber a acre e estagnada água do charco,

Dormir na manjedoura com os cavalos!

 

Mas a carne é que é humana! A alma é divina.

Dorme num leito de feridas, goza

O lodo, apalpa a úlcera cancerosa,

Beija a peçonha, e não se contamina!

 

Ser homem! escapar de ser aborto!

Sair de um vente inchado que se anoja,

Comprar vestidos pretos numa loja

E andar de luto pelo pai que é morto!

 

E por trezentos e sessenta dias

Trabalhar e comer! Martírios juntos!

Alimentar-se dos irmãos defuntos,

Chupar os ossos das alimarias!

 

Barulho de mandíbulas e abdômens!

E vem-me com um desprezao por tudo isto

Uma vontade absurda de ser Cristo

Para sacrificar-me pelos homens!

 

Soberano desejo! Soberana

Ambição de construir para o homem uma

Região, onde não cuspa língua alguma

O óleo rançoso da saliva humana!

 

Uma região sem nódoas e sem lixos,

Subtraída à hediondez de ínfimo casco,

Onde a forca feroz coma o carrasco

E o olho do estuprador se encha de bichos!

 

Outras constelações e outros espaços

Em que, no agudo grau da última crise,

O braço do ladrão se paralise

E a mão da meretriz caia aos pedaços!

 

II

 

O sol agora é de um fulgor compacto,

E eu vou andando, cheio de chamusco,

Com a flexibilidade de um molusco,

Úmido, pegajoso e untuoso ao tacto!

 

Reúnam-se em rebelião ardente e acesa

Todas as minhas forças emotivas

E armem ciladas como cobras vivas

Para despedaçar minha tristeza!

 

O sol de cima espiando a flora moça

Arda, fustigue, queime, corte, morda!...

Deleito a vista na verdura gorda

Que nas hastes delgadas se balouça!

 

Avisto o vulto das sombrias granjas

Perdidas no alto... Nos terrenos baixos,

Das laranjeiras eu admiro os cachos

E a ampla circunferência das laranjas.

 

Ladra furiosa a tribo dos podengos.

Olhando para as pútridas charnecas

Grita o exército avulso das marrecas

Na úmida copa dos bambus verdoengos.

 

Um pássaro alvo artífice da teia

De um ninho, salta, no árdego trabalho,

De árvore em árvore e de galho em galho,

Com a rapidez duma semicolcheia.

 

Em grandes semicírculos aduncos,

Entrançados, pelo ar, largando pêlos,

Voam à semelhan ça de cabelos

Os chicotes finíssimos dos juncos.

 

Os ventos vagabundos batem, bolem

Nas árvores. O ar cheira. A terra cheira...

E a alma dos vegetais rebenta inteira

De todos os corpúsculos do pólen.

 

A câmara nupcial de cada ovário

Se abre. No chão coleia a lagartixa.

Por toda a parte a seiva bruta esguicha

Num extravasamento involuntário.

 

Eu, depois de morrer, depois de tanta

Tristeza, quero, em vez do nome -- Augusto,

Possuir aí o nome dum arbusto

Qualquer ou de qualquer obscura planta!

 

III

 

Pelo acidentalíssimo caminho

Faísca o sol. Nédios, batendo a cauda,

Urram os bois. O céu lembra uma lauda

Do mais incorruptível pergaminho.

 

Uma atmosfera má de incômoda hulha

Abafa o ambiente. O aziago ar morto a morte

Fede. O ardente calor da areia forte

Racha-me os pés como se fosse agulha.

 

Não sei que subterrânea e atra voz rouca,

Por saibros e por cem côncavos vales,

Como pela avenida das Mappales,

Me arrasta à casa do finado Toca!

 

Todas as tardes a esta casa venho.

Aqui, outrora, sem conchego nobre,

Viveu, sentiu e amou este homem pobre

Que carregava canas para o engenho!

 

Nos outros tempos e nas outras eras,

Quantas flores! Agora, em vez de flores,
Os musgos, como exóticos pintores,

Pintam caretas verdes nas taperas.

 

Na bruta dispersão de vítreos cacos,

À dura luz do sol resplandecente,

Trôpega e antiga, uma parede doente

Mostra a cara medonha dos buracos.

 

O cupim negro broca o âmago fino

Do teto. E traça trombas de elefantes

Com as circunvoluções extravagantes

Do seu complicadíssimo intestino.

 

O lodo obscuro trepa-se nas portas.

Amontoadas em grossos feixes rijos,

As lagartixas, dos esconderijos,

Estão olhando aquelas coisas mortas!

 

Fico a pensar no Espírito disperso

Que, unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança,

Como um anel enorme de aliança,

Une todas as coisas do Universo!

 

E assim pensando, com a cabeça em brasas

Ante a fatalidade que me oprime,

Julgo ver este Espírito sublime,

Chamando-me do sol com as suas asas!

 

Gosto do sol ignívomo e iracundo

Como o réptil gosta quando se molha

E na atra escuridão dos ares, olha

Melancolicamente para o mundo!

 

Essa alegria imaterializada,

Que por vezes me absorve, é o óbolo obscuro,

É o pedaço já podre de pão duro

Que o miserável recebeu na estrada!

 

Não são os cinco mil milhões de francos

Que a Alemanha pediu a Jules Favre...

É o dinheiro coberto de azinhavre

Que o escravo ganha, trabalhando aos brancos!

 

Seja este sol meu último consolo;

E o espírito infeliz que em mim se encarna

Se alegre ao sol, como quem raspa a sarna,

Só, com a misericórdia de um tijolo!...

 

Tudo enfim a mesma órbita percorre

E as bocas vão beber o mesmo leite...

A lamparina quando falta o azeite

Morre, da mesma forma que o homem morre.

 

Súbito, arrebentando a horrenda calma,

Grito, e se gritio é para que meu grito

Seja a revelação deste Infiniti

Que eu trago encarcerado da minh’alma!

 

Sol brasileiro! queima-me os destroços!

Quero assistir, aqui, sem pai que me ame,

De pé, à luz da consciência infame,

À carbonização dos próprios ossos!

 

 

 

Versos de amor

 

A um poeta erótico

 

Parece muito doce aquela cana.

Descasco-a, provo-a, chupo-a... ilusão treda!

O amor, poeta, é como a cana azeda,

A toda a boca que o não prova engana.

 

Quis saber que era o amor, por experiência,

E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,

Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,

Todas as ciências menos esta ciência!

 

Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo

Mas certo, o egoísta amor este é que acinte

Amas, oposto a mim. Por conseguinte

Chamas amor aquilo que eu não chamo.

 

Oposto ideal ao meu ideal conservas.

Diverso é, pois, o ponto outro de vista

Consoante o qual, observo o amor, do egoísta

Modo de ver, consoante o qual, o observas.

 

Porque o amor, tal como eu o estou amando,

É Espírito, é éter, é substância fluida,

É assim como o ar que a gente pega e cuida,

Cuida, entretanto, não o estar pegando!

 

É a transubstanciação de instintos rudes,

Imponderabilíssima e impalpável,

Que anda acima da carne miserável

Como anda a garça acima dos açudes!

 

Para reproduzir tal sentimento

Daqui por diante, atenta a orelha cauta,

Como Mársias -- o inventor da flauta --

Vou inventar também outro instrumento!

 

Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo

Ambiciono, que o idioma em que te eu falo

Possam todas as línguas decliná-lo

Possam todos os homens compreendê-lo.

 

Para que, enfim, chegando à última calma

Meu podre coração roto não role,

Integralmente desfibrado e mole,

Como um saco vazio dentro d’alma!

 

 

 

Sonetos

 

I

 

A meu pai doente

 

Para onde fores, Pai, para onde fores,

Irei também, trilhando as mesmas ruas...

Tu, para amenizar as dores tuas,

Eu, para amenizar as minhas dores!

 

Que coisa triste! O campo tão sem flores,

E eu tão sem crença e as árvores tão nuas

E tu, gemendo, e o horror de nossas duas

Mágoas crescendo e se fazendo horrores!

 

Magoaram-te, meu Pai?! Que mão sombria,

Indiferente aos mil tormentos teus

De assim magoar-te sem pesar havia?!

 

-- Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim

É bom, é justo, e sendo justo, Deus,

Deus não havia de magoar-te assim!

 

II

 

A meu pai morto

 

Madrugada de Treze de Janeiro,

Rezo, sonhando, o ofício da agonia.

Meu Pai nessa hora junto a mim morria

Sem um gemido, assim como um cordeiro!

 

E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!

Quando acordei, cuidei que ele dormia,

E disse à minha Mãe que me dizia:

“Acorda-o”! deixa-o, Mãe, dormir primeiro!

 

E saí para ver a Natureza!

Em tudo o mesmo abismo de beleza,

Nem uma névoa no estrelado véu...

 

Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,

Como Elias, num carro azul de glórias,

Ver a alma de   meu Pai subindo ao Céu!

 

III

 

Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra.

Em seus lábios que os meus lábios osculam

Microrganismos fúnebres pululam

Numa fermentação gorda de cidra.

 

Duras leis as que os homens e a hórrida hidra

A uma só lei biológica vinculam,

E a marcha das moléculas regulam,

Com a invariabilidade da clepsidra!

 

Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos

Roída toda de bichos, como os queijos

Sobre a mesa de orgíacos festins!...

 

Amo meu Pai na atômica desordem

Entre as bocas necrófagas que o mordem

E a terra infecta que lhe cobre os rins!

 

 

 

Depois da orgia

 

O prazer que na orgia a hetaíra goza

Produz no meu sensorium de bacante

O efeito de uma túnica brilhante

Cobrindo ampla apostema escrofulosa!

 

Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,

O sistema nervoso de um gigante

Para sofrer na minha carne estuante

A dor da força cósmica furiosa.

 

Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia

Que ao comércio dos homens me traz presa,

Livre deste cadeado de peçonha,

 

Semelhante a um cachorro de atalaia

Às decomposições da Natureza,

Ficar latindo minha dor medonha!

 

 

 

A Árvore da serra

 

-- As árvores, meu filho, não têm alma!

E esta árvore me serve de empecilho...

É preciso cortá-la, pois, meu filho,

Para que eu tenha uma velhice calma!

 

-- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!

Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!

Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...

Esta árvore, meu pai, possui minh’alma!...

 

-- Disse -- e ajoelhou-se, numa rogativa:

“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”

E quando a árvore, olhando a pátria serra,

 

Caiu aos golpes do machado bronco,

O moço triste se abraçou com o tronco

E nunca mais se levantou da terra!

 

 

 

Vencido

 

No auge de atordoadora e ávida sanha

Leu tudo, desde o mais prístino mito,

por exemplo: o do boi Ápis do Egito

Ao velho Niebelungen da Alemanha.

 

Acometido de uma febre estranha

Sem o escândalo fônico de um grito,

mergulhou a cabeça no Infinito,

Arrancou os cabelos na montanha!

 

Desceu depois à gleba mais bastarda,

Pondo a áurea insígnia heráldica da farda

À vontade do vômito plebeu...

 

E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria

O vencido pensava que cuspia

Na célula infeliz de onde nasceu.

 

 

 

O Corrupião

 

Escaveirado corrupião idiota,

Olha a atmosfera livre, o amplo éter belo,

E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo,

Que do fundo do chão todo o ano brota!

 

Mas a ânsia de alto voar, de à antiga rota

Voar, não tens mais! E pois, preto e amarelo,

Pões-te a assobiar, bruto, sem cerebelo

A gargalhada da última derrota!

 

A gaiola aboliu tua vontade.

Tu nunca mais verás a liberdade!...

Ah! Tu somente ainda és igual a mim.

 

Continua a comer teu milho alpiste.

Foi este mundo que me fez tão triste,

Foi a gaiola que te pôs assim!

 

 

 

Noite de um visionário

 

Número cento e três. Rua Direita.

Eu tinha a sensação de quem se esfola

E inopinadamente o corpo atola

Numa poça de carne liquefeita!

 

-- “Que esta alucinação tátil não cresça!”

-- Dizia; e erguia, oh! céu, alto, por ver-vos,

Com a rebeldia acérrima dos nervos

Minha atormentadíssima cabeça.

 

É a potencialidade que me eleva

Ao grande Deus, e absorve em cada viagem

Minh’alma -- este sombrio personagem

Do drama panteístico da treva!

 

Depois de dezesseis anos de estudo

Generalizações grandes e ousadas

Traziam minhas forças concentradas

Na compreensão monística de tudo.

 

Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme

Me aspergia, banhava minhas tíbias,

E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias,

Cortanto o melanismo da epiderme.

 

Arimânico gênio destrutivo

Desconjuntava minha autônoma alma

Esbandalhando essa unidade calma,

Que forma a coerência do ser vivo.

 

E eu sí a tremer com a língua grossa

E a volição no cúmulo do exício,

Como quem é levado para o hospício

Aos trambolhões, num canto de carro;ca!

 

Perante o inexorável céu aceso

Agregações abióticas espúrias,

Como um cara, recebendo injúrias,

Recebiam os cuspos do desprezo.

 

A essa hora, nas telúrias reservas,

O reino mineral americano

Dormia, sob os pés do orgulho humano,

E a cimalha minúscula das ervas.

 

E não haver quem, íntegra, lhe entregue,

Com os ligamentos glóticos precisos,

A liberdade de vingar em risos

A angústia milenária que o persegue!

 

Bolia nos obscuros labirintos

Da fértil terra gorda, úmida e fresca,

A ínfima fauna abscôndita e grotesca

Da família bastarda dos helmintos.

 

As vegetalidades subalternas

Que osserenos noturnos orvalhavam,

Pela alta frieza intrínseca, lembravam

Toalhas molhadas sobre as minhas pernas.

 

E no estrume fresquíssimo da gleba

Formigavam, com a símplice sarcode,

O vibrião, o ancilóstomo, o colpode

E outros irmãos legítimso da ameba!

 

E todas essas formas que Deus lança

No Cosmos, me pediam, com o ar horrível,

Um pedaço de língua disponível

Para a filogenética vingança!

 

A cidade exalava um podre béfio:

Os anúncios das casas de comércio,

Mais tristes que as elegais de Propércio,

Pareciam talvez meu epitáfio.

 

O motor teleológico da Vida

Parara! Agora, em diástoles de guerra,

Vinha do coração quente da terra

Um rumor de matéria dissolvida.

 

A química feroz do cemitério

Transformava porções de átomos juntos

No óleo malsão que escorre dos defuntos,

Com a abundância de um geyser deletério.

 

Dedos denunciadores escreviam

Na lúgubre extensão da rua preta

Todo o destino negro do planeta,

Onde minhas moléculas sofriam.

 

Um necrófilo mau forçava as lousas

E eu -- coetâneo do horrendo cataclismo --

Era puxado para aquele abismo

No redemoinho universal das cousas!

 

 

 

Alucinação à beira-mar

 

Um medo de morrer meus pés esfriava.

Noite alta. Ante o telúrico recorte,

na diuturna discórdia, a equórea coorte

Atordoadamente ribombava!

 

Eu, ególatra céptico, cismava

Em meu destino!... O vento estava forte

E aquela matemárica da Morte

Com os seus números negros, me assombrava!

 

Mas a alga usufrutuária dos oceanos

E os malacopterígios subraquianos

Que um castigo de espécie emudeceu,

 

No eterno horror das convulsões marítimas

Pareciam também corpos de vítimas

Condenados à Morte, assim como eu!

 

 

 

Vandalismo

 

Meu coração tem catedrais imensas,

Templos de priscas e longínquas datas,

Onde um nume de amor, em serenatas,

Canta a aleluia virginal das crenças.

 

Na ogiva fúlgida e nas colunatas

Vertem lustrais irradiações intensas

Cintilações de lâmpadas suspensas

E as ametistas e os florões e as pratas.

 

Com os velhos Templários medievais

Entrei um dia nessas catedrais

E nesses templos claros e risonhos...

 

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,

No desespero dos iconoclastas

Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

 

 

Memorial de Augusto dos Anjos em Sapê - Paraíba

 

 

 
 
 

Versos íntimos

 

Vês! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão -- esta pantera --

Foi tua companheira inseparável!

 

Acostuma-te à lama que te espera!

O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente invevitável

Necessidade de também ser fera.

 

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

o beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

 

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

 

 

 

Vencedor

 

Toma as espadas rútilas, guerreiro,

E à rutilância das espadas, toma

A adaga de aço, o gládio de aço, e doma

Meu coração -- estranho carniceiro!

 

Não podes?! Chama então presto o primeiro

E o mais possante gladiador de Roma.

E qual mais pronto, e qual mais presto assoma

Nenhum pôde domar o prisioneiro.

 

Meu coração triunfava nas arenas.

Veio depois um domador de hienas

E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

 

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem...

E não pôde domá-lo enfim ninguém,

Que ninguém doma um coração de poeta!

 

A Ilha de Cipango

 

Estou sozinho! A estrada se desdobra

Como uma imensa e rutilante cobra

De epiderfe finíssima de areia...

E por essa finíssima epiderme

Eis-me passeando como um grande verme

Que, ao sol, em plena podridão, passeia!

 

A agonia do sol vai ter começo!

Caio de joelhos, trêmulo... Ofereço

Preces a Deus de amor e de respeito

E o Ocaso que nas águas se retrata

Nitidamente repdoruz, exata,

A saudade interior que há no meu peito...

 

tenho alucinações de toda a sorte...

Impressionado sem cessar com a Morte

E sentindo o que um lázaro não sente,

Em negras nuanças lúgubres e aziagas

Vejo terribilíssimas adagas,

Atravessando os ares bruscamente.

 

Os olhos volvo para o céu divino

E observo-me pigmeu e pequenino

Através de minúsculos espelhos.

Assim, quem diante duma cordilheira,

Pára, entre assombros, pela vez primeira,

Sente vontade de cair de joelhos!

 

Soa o rumor fatídico dos ventos,

Anunciando  desmoronamentos

De mil lajedos sobre mil lajedos...

E ao longe soam trágicos fracassos

De heróis, partindo e fraturando os braços

Nas pontas escarpadas dos rochedos!

 

Mas de repente, num enleio doce,

Qual num sonho arrebatado fosse,

Na ilha encantada de Cipango tombo,

Da qual, no meio, em luz perpétua, brilha

A  árvore da perpétua maravilha,

À cuja sombra descansou Colombo!

 

Foi nessa ilha encantada de Cipango,

Verde, afetando a forma de um losango,

Rica, ostentando amplo floral risonho,

Que Toscanelli viu seu sonho extinto

E como sucedeu a Afonso Quinto

Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho!

 

Lembro-me bem. Nesse maldito dia

O gênio singular da Fantasia

Convidou-me a sorrir para um passeio...

Iríamos a um país de eternas pazes

Onde em cada deserto há mil oásis

E em cada rocha um cristalino veio.

 

Gozei numa hora séculos de afagos,

Banhei-me na água de risonhos lagos,

E finalmente me cobri de flores...

Mas veio o vento que a Desgraça espalha

E cobriu-me com o pano da mortalha,

Que estou cosendo para os meus amores!

 

Desde então para cá fiquei sombrioi!

Um penetrante e corrosivo frio

Anestesiou-me a sensibilidade

E a grandes golpes arrancou as raízes

Que prendiam meus dias infelizes

A um sonho antigo de felicidade!

 

Invoco os Deuses salvadores do erro.

A tarde morre. Passa o seu enterro!...

A luz descreve siguezagues tortos

Enviando à terra os derradeiros beijos.

Pela estrada feral dois realejos

Estão chorando meus amores mortos!

 

E a treva ocupa toda a estrada longa...

O Firmamento é uma caverna oblonga

Em cujo fundo a Via-Láctea existe.

E como agora a lua cheia brilha!

Ilha maldita vinte vezes a ilha

Que para todo o sempre me fez triste!

 

 

 

Mater

 

Como a crisálida emergindo do ovo

Para que o campo flórido a concentre,

Assim, oh! Mãe, sujo de sangue, um novo

Ser, entre dores, te emergiu do ventre!

 

E puseste-lhe, haurindo amplo deleite,

No lábio róseo a grande teta farta

-- Fecunda fonte desse mesmo leite

Que amamentou os éfebos de Esparta. --

 

Com que avidez ele essa fonte suga!

Ninguém mais com a Beleza está de acordo,

Do que essa pequenina sanguessuga,

Bebendo a vida no teu seio gordo!

 

Pois, quanto a mim, sem pretensões, comparo,

Essas humanas coisas pequeninas

A um biscuit de quilate muito raro

Exposto aí, à amostra, nas vitrinas.

 

Mas o ramo fragílimo e venusto

Que hoje nas débeis gêmulas se esboça,

Há de crescer, há de tornar-se arbusto

E álamo altivo de ramagem grossa.

 

Clara, a atmosfera se encherá de aromas,

O Sol virá das épocas sadias...

E o antigo leão, que te esgotou as pomas,

Há de beijar-te as mãos todos os dias!

 

Quando chegar depois tua velhice

Batida pelos bárbaros invernos,

Relembrarás chorando o que eu te disse,

À sombra dos sicômoros eternos!

 

 

 

Poema negro

 

A Santos Neto

 

Para iludir minha desgraça, estudo.

Intimamente sei que não me iludo.

Para onde vou (o mundo inteiro o nota)

Nos meus olhares fúnebres, carrego

A indiferença estúpida de um cego

E o ar indolente de um chinês idiota!

 

A passagem dos séculos me assombra.

Para onde irá correndo minha sombra

Nesse cavalo de eletricidade?!

Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:

-- Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?

E parece-me um sonho a realidade.

 

Em vão com o grito do meu peito impreco!

Dos brados meus ouvindo apenas o eco,

Eu torço os braços numa angústia douda

E muita vez, à meia-noite, rio

Sinistramente, vendo o verme frio

Que há de comer a minha carne toda!

 

É a Morte -- esta carnívora assanhada --

Serpente má de língua envenenada

Que tudo que acha no caminho, come...

-- Faminta e atra mulher que, a 1 de Janeiro,

Sai para assassinar o mundo inteiro,

E o mundo inteiro não lhe mata a fome!

 

Nesta sombria análise das cousas,

Corro. Arranco os cadáveres das lousas

E as suas partes podres examino...

Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,

Na podridão  daquele embrulho hediondo

Reconheço assombrado o meu Destino!

 

Surpreendo-me, sozinho, numa cova.

Então meu desvario se renova...

Como que, abrindo todos os jazigos,

A Morte, em trajes pretos e amarelos.

Levanta contra mim grandes cutelos

E as baionetas dos dragões antigos!

 

E quando vi que aquilo vinha vindo

Eu fui caindo como um sol caindo

De declínio em declínio; e de declínio

Em declínio, como a gula de uma fera,

Quis ver o que era, e quando vi o que era,

Vi que era pó, vi que era esterquilínio!

 

Chegou a tua vez, oh! Natureza!

Eu desafio agora essa grandeza,

Perante a qual meus olhos se extasiam.

Eu desafio, desta cova escura,

No histerismo danado da tortura

Todos os monstros que os teus peitos criam.

 

Tu não és minha mãe, velha nefasta!

Com o teu chicote frio de madrasta

Tu me açoitaste vinte e duas vezes...

Por tua causa apodreci nas cruzes,

Em que pregas os filhos que produzes

Durante os desgraçados nove meses!

 

Semeadora terrível de defuntod,

Contra a agressão dos teus contrastes juntos

A besta, que em mim dorme, acorda em berros

Acorda, e após gritar a última injúria,

Chocalha os dentes com medonha fúria

Como se fosso o atrito de dois ferros!

 

Pois bem! Chegou minha hora de vingança.

Tu mataste o meu tempo de criança

E de segunda-feira até domingo,

Amarrado no horror de tua rede,

Deste-me fogo quanto eu tinha sede...

Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!

 

Súbito outra visão negra me espanta!

Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.

A trava invade o obscuro orbe terrestre

No Vaticano, em grupos prosternados,

Com as longas fardas rubras, os soldados

Buardam o corpo do Divino Mestre.

 

Como as estalactites da caverna,

Cai no silêncio da Cidade Eterna

A água da chuva em largos fios grossos...

De Jesus Cristo resta unicamente

Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente

Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!

 

Não há ninguém na estrada da Ripetta.

Dentro da igreja de São Pedro, quieta,

As luzes funerais arquejam fracas...

O vento entoa cânticos de morte.

Roma estremece! Além, num rumor forte

Recomeça o barulha das matracas.

 

A desagregação da minha Idéia

Aumenta. Como as chagas da morféia

O medo, o desalento e o desconforto

Paralisam-me os círculos motores.

Na Eternidade, os ventos gemedores

Estão dizendo que Jesus é morto!

 

Não! Jesus não morreu! Vive na serra

Da Borborema, no ar de minha terra,

Na molécula e no átomo... Resume

A espiritualidade da matéria

E ele é que embala o corpo da miséria

E faz da cloaca uma urna de perfume.

 

Na agonia  de tantos pesadelos

Uma dor bruta puxa-me  os cabelos.

Desperto. É tão vazia a minha vida!

No pensamento desconexo e falho

Trago as cartas confusas de um baralho

E pedaço de cera derretida!

 

Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme

Eu, somente eu, com a minha dor enorme

Os olhos ensangüento na vigília!

E observo, enquanto o horror me corta a fala

O aspecto sepulcral da austera sala

E a impassibilidade da mobília.

 

Meu coração, como um crital, se quebre

O termômetro negue minha febre,

Torne-se gelo o sangue que me abrase

E eu me converta na cegonha triste

Que das ruínas duma cassa assiste

Ao desmoronamento de outra casa!

 

Ao terminar este sendito poema

Onde vazei a minha dor suprema

Tenho os olhos em lágrimas imersos...

Rola-me na cabeça o cérebro oco.

Por ventura, meu Deus, estarei louco?!

Daqui por diante não farei mais versos.

 

 

 

Eterna mágoa

 

O homem por sobre quem caiu a praga

Da tristeza do Mundo, o homem que é triste

Para todos os séculos existe

E nunca mais o seu pesar se apaga!

 

Não crê em nada, pois, nada há que traga

Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.

Quer resistir, e quanto mais resiste

Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.

 

Sabe que sofre, mas o que não sabe

É que essa mágoa infinda assim, não cabe

Na sua vida, é que essa mágoa infinda

 

Transpõe a vida do seu corpo inerme;

E quando esse homem se transforma em verme

É essa mágoa que o acompanha ainda!

 

 

 

Queixas noturnas

 

Quem foi que viu a minha Dor chorando?!

Saio. Minh’alma sai agoniada.

Andam monstros sombrios pela estrada

E pela estrada, entre estes monstros, ando!

 

Não trago sobre a túnica fingida

As insígnias medonhas do infeliz

Como os falsos mendigos de Paris

Na atra rua de Santa Margarida.

 

O quadro de aflições que me consomem

O próprio Pedro Américo não pinta...

Para pintá-lo, era preciso a tinta

Feita de todos os tormentos do homem!

 

Como um ladrão sentado numa ponte

Espera alguém, armado de arcabuz,

Na ânsia incoercível de roubar a luz,

Estou à espera de que o Sol desponte!

 

Bati nas pedras dum tormento rude

E a minha mágoa de hoje é tão intensa

Que eu penso que a Alegria é uma doença

E a Tristeza é minha única saúde.

 

As minhas roupas, quero até rompê-las!

Quero, arrancado das prisões carnais,

Viver na luz dos astros imortais,

Abraçado com todas as estrelas!

 

A Noite vai crescendo apavorante

E dentro do meu peito, no combate,

A Eternidade esmagadora bate

Numa dilatação exorbitante!

 

E eu luto contra a universal grandeza

Na mais terrível desesperação

É a luta, é o prélio enorme, é a rebelião

Da criatura contra a natureza!

 

Para essas lutas uma vida é pouca

Inda mesmo que os músculos se esforcem;

Os pobres braços do mortal se torcem

E o sangue jorra, em coalhos, pela boca.

 

E muitas vezes a agonia é tanta

Que, rolando dos últimos degraus,

O Hércules treme e vai tombar no caos

De onde seu corpo nunca mais levanta!

 

É natural que esse Hércules se estorça,

E tombe para sempre nessas lutas,

Estrangulado pelas rodas brutas

Do mecanismo que tiver mais força.

 

Ah! Por todos os séculos vindouros

Há de travar-se essa batalha vã

Do dia de hoje contra o de amanhã,

Igual à luta dos cristãos e mouros!

 

Sobre histórias de amor o interrogar-me

É vão, é inútil, é improfícuo, em suma;

Não sou capaz de amar mulher alguma

Nem há mulher talvez capaz de amar-me.

 

O amor tem favos e tem caldos quentes

E ao mesmo tempo que faz bem, faz mal;

O coração do Poeta é um hospital

Onde morreram todos os doentes.

 

Hoje é amargo tudo quanto eu gosto;

A bênção matutina que recebo...

E é tudo; o pão que como, a água que bebo,

O velho tamarindo a que me encosto!

 

Vou enterrar agora a harpa boêmia

Na atra e assombrosa solidão feroz

Onde não cheguem o eco duma voz

E o grito desvairado da blasfêmia!

 

Que dentro de minh’alma americana

Não mais palpite o coração -- esta arca,

Este relógio trágico que marca

Todos os atos da tragédia humana!

 

Seja esta minha queixa derradeira

Cantada sobre o túmulo de Orfeu;

Seja este, enfim, o último canto meu

Por esta grande noite brasileira!

 

Melancolia! Estende-me tu’asa!

És a árvore em que devo reclinar-me...

Se algum dia o Prazer vier procurar-me

Dize a este monstro que fugi de casa!

 

 

 

Insônia

 

Noite. Da Mágoa o espírito noctâmbulo

Passou de certo por aqui chorando!

Assim, em mágoa, eu também vou passando

Sonâmbulo... sonâmbulo... sonâmbulo...

 

Que voz é esta que a gemer concentro

No meu ouvido e que do meu ouvido

Como um bemol e como um sustenido

Rola impetuosa por meu peito adentro?!

 

-- Por que é que este gemido me acompanha?!

Mas dos meus olhos no sombrio palco

Súbito surge como um catafalco

Uma cidade ou mapa-múndi estranha.

 

A dispersão dos sonhos vagos reúno.

Desta cidade pelas ruas erra

A procissão dos Mártires da Terra

Desde os Cristãos até Giordano Bruno!

 

Vejo diante de mim Santa Francisca

Que com o cilício as tentações suplanta,

E invejo o sofrimento desta Santa,

Em cujo olhar o Vício não faísca!

 

Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse,

Depois de embebedado deste vinho.

Sair da vida puro como o arminho

Que os cabelos dos velhos embranquece!

 

Por que cumpri o universal ditame?!

Pois se eu sabia onde morava o Vício,

Por que não evitei o precipício

Estrangulando minha carne infame?!

 

Até que dia o intoxicado aroma

Das paixões torpes sorverei contente?

E os dias correrão eternamente?!

E eu nunca sairei desta Sodoma?!

 

À proporção que a minha insônia aumenta

Hieróglifos e esfinges interrogo...

Mas, triunfalmente, nos céus altos, logo

Toda a alvorada esplêndida se ostenta.

 

Vagueio pela Noite decaída...

No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus

Vai projetando sobre os campos largos

O derradeiro fósforo da Vida.

 

O Sol, equilibrando-se na esfera,

Restitui-me a pureza da hematose

E então uma interior metamorfose

Nas minhas arcas cerebrais se opera.

 

O odor da margarida e da begônia

Subitamente me penetra o olfato...

Aqui, neste silêncio e neste mato,

Respira com vontade a alma campônia!

 

Grita a satisfação na alma dos bichos.

Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos.

As árvores, as flores, os corimbos,

Recordam santos nos seus próprios nichos.

 

Com o olhar a verde periferia abarco.

Estou alegre. Agora, por exemplo,

Cercado destas árvores, contemplo

As maravilhas reais do meu Pau d’Arco!

 

Cedo virá, porém,  o funerário,

Atro dragão da escura noite, hedionda,

Em que o Tédio, batendo na alma, estronda

Como um grande trovão extraordinário.

 

Outra vez serei pábulo do susto

E terei outra vez de, em mágoa imerso,

Sacrificar-me por amor do Verso

No meu eterno leito de Procusto!

 

 

 

Barcarola

 

Camtam nautas, choram flautas

Pelo mar e pelo mar

Uma sereia a cantar

Vela o Destino dos nautas.

 

Espelham-se os esplendores

Do céu, em reflexos, nas

Águas, fingindo cristais

Das mais deslumbrantes cores.

 

Em fulvos filões doirados

Cai a luz dos astros por

Sobre o marítimo horror

Como globos estrelados.

 

Lá onde as rochas se assentam

Fulguram como outros sóis

Os flamívomos faróis

Que os navegantes orientam.

 

Vai uma onda, vem outra onda

E nesse eterno vaivém

Coitadas! não acham quem,

Quem as esconda, as esconda...

 

Alegoria tristonha

Do que pelo Mundo vai!

Se um sonha e se ergue, outro cai;

Se um cai, outro se ergue e sonha.

 

Mas desgraçado do pobre

Que em meio da Vida cai!

Esse não volta, esse vai

Para o túmulo que o cobre.

 

Vagueia um poeta num barco.

O Céu, de cima, a luzir

Como um diamante de Ofir

Imita a curva de um arco.

 

A Lua -- globo de louça --

Surgiu, em lúcido véu.

Cantam! Os astros do Céu

Ouçam e a Lua Cheia ouça!

 

Ouço do alto a Lua Cheia

Que a sereia vai falar...

Haja silêncio no mar

Para se ouvir a sereia.

 

Que é que ela diz?! Será uma

História de amor feliz?

Não! O que a sereia diz

Não é história nenhuma.

 

É como um requiem profundo

De tristíssimos bemóis...

Sua voz é igual à voz

Das dores todas do mundo.

 

“Fecha-te nesse medonho

“Redudo de Maldição,

“Viajeiro da Extrema-Unção,

“Sonhador do último sonho!

 

“Numa redoma ilusória

“Cercou-te a glória falaz,

“Mas nunca mais, nunca mais

“Há de cercar-te essa glória!

 

“Nunca mais! Sê, porém, forte.

“O poeta é como Jesus!

“Abraça-te à tua Cruz

“E morre, poeta da Morte!”

 

-- E disse e porque isto disse

O luar no Céu se apagou...

Súbito o barco tombou

Sem que o poeta o pressentisse!

 

 

Vista de luto o Universo

E Deus se enlute no Céu!

Mais um poeta que morreu,

Mais um coveiro do Verso!

 

Cantam nautas, choram flautas

Pelo mar e pelo mar

Uma sereia a cantar

Vela o Destino dos nautas!

 

 

 

Tristezas de um quarto minguante

 

Quarto Minguante! E, embora a lua o aclare,

Este Engenho Pau d’Arco é muito triste...

Nos engenhos da várzea não existe

Talvez um outro que se lhe equipare!

 

Do observatório em que eu estou situado

A lua magra, quando a noite cresce,

Vista, através do vidro azul, parece

Um paralelepípedo quebrado!

 

O sono esmaga o encéfalo do povo.

Tenho 300 quilos no epigastro...

Dói-me a cabeça. Agora a cara do astro

Lembra a metade de uma casca de ovo.

 

Diabo! Não ser mais tempo de milagre!

Para que esta opressão desapareça

Vou amarrar um pano na cabeça,

Molhar a minha fornte com vinagre.

 

Aumentam-se-me então os grandes medos.

O hemisfério lunar se ergue e se abaixa

Num desenvolvimento de borracha,

Variando à ação mecânica dos dedos!

 

Vai-me crescendo a aberração do sonho.

Morde-me os nervos o desejo doudo

De dissolver-me, de enterrar-me todo

Naquele semicírculo medonho!

 

Mas tudo isto é ilusão de minha parte!

Quem sabe se não é porque não saio

Desde que, 6ª feira, 3 de maio,

Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?!

 

A lâmpada a estirar línguas vermelhas

Lambe o ar. No bruto horror que me arrebata,

Como um degenerado psicopata

Eis-me a contar o número das telhas!

 

-- Uma, duas, três, quatro... E aos tombos, tonta

Sinto a cabeça e a conta perco; e, em suma,

A conta recomeço, em ânsias: -- Uma...

Mas novamente eis-me a perder a conta!

 

Sucede a uma tontura outra tontura.

-- Estarei morto?! E a esta pergunta estranha

Responde a Vida -- aquela grande aranha

Que anda tecendo a minha desventura! --

 

A luz do quarto diminuindo o brilho

Segue todas as fases de um eclipse...

Começo a ver coisas de Apocalipse

No triângulo escaleno do ladrilho!

 

Deito-me enfim. Ponho o chapéu num gancho.

Cinco lençóis balançam numa corda,

Mas aquilo mortalhas me recorda,

E o amontoamento dos lençóis desmancho.

 

Vêm-me à imaginação sonhos dementes.

Acho-me, por exemplo, numa festa...

Tomba uma torre sobre a minha testa,

Caem-me de uma só vez todos os dentes!

 

Então dois ossos roídos me assombram...

-- “Por ventura haverá quem queira roer-nos?!

Os vermes já não querem mais comer-nos

E os formigueiros já nos desprezaram”.

 

Figuras espectrais de bocas tronchas

Tornam-me o pesadelo duradouro...

Choro e quero beber a água do choro

Com as mãos dispostas à feição de conchas.

 

Tal uma planta aquática submersa,

Antegozando as últimas delícias

Mergulho as mãos -- vis raízes adventícias --

No algodão quente de um tapete persa.

 

Por muito tempo rolo no tapete.

Súbito me ergo. A lua é morta. Um frio

Cai sobre o meu estômago vazio

Como se fosse um copo de sorvete!

 

A alta frialdade me insensibiliza;

O suor me ensopa. Meu tormento é infindo...

Minha família ainda está dormindo

E eu não posso pedir outra camisa!

 

Abro a janela. Elevam-se fumaças

Do engenho enorme. A luz fulge abundante

E em vez do sepulcral Quarto Minguante

Vi que era o sol batendo nas vidraças.

 

Pelos respiratórios tênues tubos

Dos poros vegetais, no ato da entrega

Do mato verde, a terra resfolega

Estrumada, feliz, cheia de adubos.

 

Côncavo, o céu, radiante e estriado, observa

A universal criação. Broncos e feios,

Vários reptis cortam os campos, cheios

Dos tenros tinhorões e da úmida erva.

 

Babujada por baixos beiços brutos,

No húmus feraz, hierática, se ostenta

A monarquia da árvore opulenta

Que dá aos homens o óbolo dos frutos.

 

De mim diverso, rígido e de rastos

Com a solidez do tegumento sujo

Sulca, em diâmetro, o solo um caramujo

Naturalmente pelos mata-pastos.

 

Entretanto, passei o dia inquieto,

A ouvir, nestes bucólicos retiros

Toda a salva festal de 21 tiros

Que festejou  os funerais de Hamleto!

 

Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas!

Quisera ser, numa última cobiça,

A fatia esponjosa de carniça

Que os corvos comem sobre as jurubebas!

 

Porque, longe do pão com que me nutres

Nesta hora, oh! Vida em que a sofrer me enxotas

Eu estaria como as bestas mortas

Pendurado no bico dos abutres!

 

 

 

Mistérios de um fósforo

 

Pego de um fósforo. Olho-o. Olho-o ainda. Risco-o

Depois. E o que depois fica e depois

Resta é um ou, por outra, é mais de um, são dois

Túmulos dentro de um carvão promíscuo.

 

Dois são, porque um, certo, é do sonho assíduo

Que a individual psique humana tece e

O outro é o do sonho altruístico da espécie

Que é o substractum dos sonhos do indivíduo!

 

E exclamo, ébrio, a esvaziar báquicos odres:

-- “Cinza, síntese má da podridão,

“Miniatura alegórica do chão,

“Onde os ventres maternos ficam podres;

 

“Na tua clandestina e erma alma vasta,

“Onde nenhuma lâmpada se acende,

“Meu raciocínio sôfrego surpreende

“Todas as formas da matéria gasta!”

 

Raciocinar! Aziaga contingência!

Ser quadrúpede! Andar de quatro pés

É mais do que ser Cristo e ser Moisés

Porque é ser animal sem ter consciência!

 

Bêbedo, os beiços na ânfora ínfima, harto,

Mergulho, e na ínfima ânfora, harto, sinto

O amargor específico do absinto

E o cheiro animalíssimo do parto!

 

E afogo mentalmente os olhos fundos

Na amorfia da cítula inicial,

De onde, por epigênese geral,

Todos os organismos são oriundos.

 

Presto, irrupto, através ovóide e hialino

Vidro, aparece, amorfo e lúrido, ante

Minha massa encefálica minguante

Todo o gênero humano intra-uterino!

 

É o caos da avita víscera avarenta

-- Mucosa nojentíssima de pus,

A nutrir diariamente os fetos nus

Pelas vilosidades da placenta! --

 

Certo, o arquitetural e íntegro aspecto

Do mundo o mesmo inda e, que, ora, o que nele

Morre, sou eu, sois vós, é todo aquele

Que vem de um ventre  inchado, ínfimo e infecto!

 

É a flor dos genealógicos abismos

-- Zooplasma pequeníssimo e plebeu,

De onde o desprotegido homem nasceu

Para a fatalidade dos tropismos. --

 

Depois, é o ceu abscôndito do Nada,

É este ato extraordinário de morrer

Que há de na última hebdômada, atender

Ao pedido da clélula cansada!

 

Um dia restará, na terra instável,

De minha antropocêntrica matéria

Numa côncava xícara funérea

Uma colher de cinza miserável!

 

Abro na treva os olhos quase cegos.

Que mão sinistra e desgraçada encheu

Os olhos tristes que meu Pai me deu

De alfinetes, de agulhas e de pregos?!

 

Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis!

Dentro um dínamo déspota, sozinho,

Sob a morfologia de um moinho,

Move todos os meus nervos vibráteis.

 

Então, do meu espírito, em segredo,

Se escapa, dentre as tênebras, muito alto,

Na síntese acrobática de um salto,

O espectro angulosíssimo do Medo!

 

Em cismas filosóficas me perco

E vejo, como nunca outro homem viu,

Na anfigonia que me produziu

Nonilhões de moléculas de esterco.

 

Vida, mônada vil, cósmico zero,

Migalha de albumina semifluida,

Que fez a boca mística do druida

E a língua revoltada de Lutero;

 

Teus gineceus prolíficos envolvem

Cinza fetal!... Basta um fósforo só

Para mostrar a incógnita de pó,

Em que todos os seres se resolvem!

 

Ah! Maldito o conúbio incestuoso

Dessas afinidades eletivas,

De onde quimicamente tu derivas,

Na aclamação simbiótica do gozo!

 

O enterro de minha última neurona

Desfila... E eis-me outro fósforo a riscas.

E esse acidente químico vulgar

Extraordinariamente me impressiona!

 

Mas minha crise artrítica não tarda.

Adeus! Que eu vejo enfim, com a alma vencida

Na abjeção embriológica da vida

O futuro de cinza que me aguarda!

 

 

 

OUTRAS POESIAS

 

 

O Lamento das coisas

 

Triste, a escutar, pancada por pancada,

A sucessividade dos segundos,

Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos

O choro da Energia abandonada!

 

É a dor da Força desaproveitada

-- O cantochão dos dínamos profundos,

Que, podendo mover milhões de mundos,

Jazem ainda na estática do Nada!

 

É o soluço da forma ainda imprecisa...

Da transcendência que se não realiza...

Da luz que não chegou a ser lampejo...

 

E é em suma, o subconsciente aí formidando

Da Natureza que parou, chorando,

No rudimentarismo do Desejo!

 

 

 

O meu nirvana

 

No alheamento da obscura forma humana,

De que, pensando, me desencarcero,

Foi que eu, num grito de emoção, sincero

Encontrei, afinal, o meu Nirvana!

 

Nessa manumissão schopenhauereana,

Onde a Vida do humano aspecto fero

Se desarraiga, eu, feito força, impero

Na imanência da Idéia Soberana!

 

Destruída a sensação que oriunda fora

Do tato -- ínfima antena aferidora

Destas tegumentárias mãos plebéias --

 

Gozo o prazer, que os anos não carcomem,

De haver trocado a minha forma de homem

Pela imortalidade das Idéias!

 

 

 

Caput Immortale

 

Na dinâmica aziaga das descidas,

Aglomeradamente e em turbilhão

Solucem dentro do Universo ancião,

Todas as urbes siderais vencidas!

 

Morra o éter. Cesse a luz. Parem as vidas.

Sobre  a pancosmológica exaustão

Reste apenas o acervo árido e vão

Das muscularidades consumidas!

 

Ainda assim, a animar o cosmos ermo,

Morto o comércio físico nefando,

OH! Nauta aflito do Subliminal,

 

Como a última expressão da Dor sem termo,

Tua cabeça há de ficar vibrando

Na negatividade universal!

 

 

 

Apóstrofe à carne

 

Quando eu pego nas carnes do meu rosto

Pressinto o fim da orgânica batalha:

-- Olhos que o húmus necrófago estracalha,

Diafragmas, decompondo-se, ao sol posto...

 

E o Homem -- negro heteróclito composto,

Onde a alva flama psíquica trabalha.

Desagrega-se e deixa na mortalha

O tato, a vista, o ouvido, o olfato e  o gosto!

 

Carne, feixe de mônadas bastardas.

Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas,

A dardejar relampejantes brilhos.

 

Dói-me ver, muito embora a alma te acenda,

Em tua podridão a herança horrenda,

Que eu tenho de deixar para os meus filhos!

 

 

 

Louvor à unidade

 

“Escafandros, arpões, sondas e agulhas

“Debalde aplicas aos heterôgeneos

“Fenômenos, e, há inúmeros milênios,

“Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas!

 

“Une, pois, a irmanar diamantes e hulhas,

“Com essa intuição monística dos gênios,

“A hirta forma falaz do aere perennius

“A transitoriedade das fagulhas!”

 

-- Era a estrangulaçao, sem retumbância,

Da multimilenária dissonância

Que as harmonias siderais invade...

 

Era, numa alta aclamação, sem gritos,

O regresso dos átomos aflitos

Ao descanso perpétuo da Unidade!

 

 

 

O pântano

 

Podem vê-lo, sem dor, meus semelhantes!...

Mas, para mim que a Natureza escuto,

Este pântano é o túmulo absoluto,

De todas as grandezas começantes!

 

Larvas desconhecidas de gigantes

Sobre o seu leito de peçonha e luto

Dormem tranqüilamente o sono bruto

Dos superorganismos ainda infantes!

 

Em sua estagnação arde uma raça,

Tragicamente, à espera de quem passa

Para abrir-lhe, às escâncaras, a porta...

 

E eu sinto a angústia dessa raça ardente

Condenada a esperar perpetuamente

No universo esmagado da água morta!

 

 

 

Suprême convulsion

 

O equilíbrio do humano pensamento

Sofre também a súbita ruptura,

Que produz muita vez, na noite escura,

A convulsão meteórica do vento.

 

E a alma o obnóxio quietismo sonolento

Rasga; e, opondo-se à Inércia, é a essência pura,

É a síntese, é o transunto, é a abreviatura

De todo o ubiqüitário Movimento!

 

Sonho, -- libertação do homem cativo --

Ruptura do equilíbrio subjetivo,

Ah! foi teu beijo convulsionador

 

Que produziu este contraste fundo

Entre a abundância do que eu sou, no Mundo,

E o nada do meu homem interior!

 

 

 

A um gérmen

 

Começaste a existir, geléia crua,

E hás de crescer, no teu silêncio, tanto

Que, é natural, ainda algum dia, o pranto

Das tuas concreções plásmicas flua!

 

A água, em conjugação com a terra nua,

Vence o granito, deprimindo-o... O espanto

Convulsiona os espíritos, e, entanto,

Teu desenvolvimento contunua!

 

Antes, geléia humana, não progridas

E em retrogradações indefinidas,

Volvas à antiga inexistência calma!...

 

Antes o Nada, oh! gérmen, que ainda haveres

De atingir, como o gémen de outros seres,

Ao supremo infortúnio de ser alma!

 

 

 

Natureza íntima

 

Ao filósofo Farias Brito

 

Cansada de observar-se na corrente

Que os acontecimentos refletia,

Reconcentrando-se em si mesma, um  dia,

A Natureza olhou-se interiormente!

 

Baldada introspecção! Noumenalmente

O que Ela, em realidade, ainda sentia

Era a mesma imortal monotonia

De sua face externa indiferente!

 

E a Natureza disse com desgosto:

“Terei somente, porventura, rosto?!

“Serei apenas mera crusta espessa?!

 

“Pois é possível que Eu, causa do Mundo,

“Quando mais em mim mesma me aprofundo

“Menos interiormente me conheça?!”

 

 

A floresta

 

Em vão com o mundo da floresta privas!

-- Todas as hermenêuticas sondagens,

Ante o hieroglifo e o enigma das folhagens,

São absolutamente negativas!

 

Araucárias, traçando arcos de ogivas,

Bracejamentos de álamos selvagens,

Como um convite para estranhas viagens,

Tornam todas as almas pensativas!

 

Há uma força vencida nesse mundo!

Todo o organismo florestal profundo

É dor viva, trancada num disfarce...

 

Vivem só, nele, os elementos broncos,

-- As ambições que se fizeram troncos,

Porque nunca puderam realizar-se!

 

 

 

A meretriz

 

A rua dos destinos desgraçados

Faz medo. O Vício estruge. Ouvem-se os brados

Da danação carnal... Lúbrica, à lua,

Na sodomia das mais negras bodas

Desarticula-se, em coréas doudas,

Uma mulher completamente nua!

 

É a meretriz que, de cabelos ruivos,

Bramando, ébria e lasciva, hórridos uivos

Na mesma esteira pública, recebe,

Entre farraparias e esplendores,

O eretismo das classes superiores

E o orgasmo bastardíssimo da plebe!

 

É ela que, aliando, à luz do olhar protervo,

O indumento vilíssimo do servo

Ao brilho da augustal toga pretexta,

Sente, alta noite, em contorções sombrias,

Na vacuidade das entranhas frias

O esgotamento intrínseco da besta!

 

É ela que, hirta, a arquivar credos desfeitos,

Com as mãos chagadas, espremendo os peitos,

Reduzidos, por fim, a âmbulas moles,

Sofre em cada molécula a angústia alta

De haver secado, como o estepe, à falta

Da água criadora que alimenta as proles!

 

É ela que, arremessada sobre o rude

Despenhadeiro da decrepitude,

Na vizinhança aziaga dos ossuários

Representa, através os meus sentidos,

A escuridão dos gineceus falidos

E a desgraça de todos os ovários!

 

Irrita-se-lhe a carne à meia-noite.

Espicaça-se a ignomínia, excita-a o acoite

Do incêndio que lha inflama a língua espúria.

E a mulher, funcionária dos instintos,

Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos,

Gane instintivamente de luxúria!

 

Navio para o qual todos os portos

Estão fechados, urna de ovos mortos,

Chão de onde uma só planta não rebenta,

Ei-la, de bruços, bêbeda de gozo

Saciando o geotropismo pavoroso

De unir o corpo à terra famulenta!

 

Nesse espolinhamento repugnante

O esqueleto irritado da bacante

Estrala... Lembra o ruído harto azorrague

A vergastar ásperos dorsos grossos.

E é aterradora essa alegria de ossos

Pedindo ao sensualismo que os esmague!

 

É o pseudo-regozijo dos eunucos

Por natureza, dos que são caducos

Desde que a Mãe-Comum lhes deu início...

É a dor profunda da incapacidade

Que, pela própria hereditariedade

A lei da seleção disfarça em Vício!

 

É o júbilo aparente da alma quase

A eclipsar-se, no horror da ocídua fase

Esterilizadora de órgãos... É o hino

Da matéria incapaz, filha do inferno,

Pagando com volúpia o crime eterno

De não ter sido fiel ao seu destino!

 

É o Desespero que se faz bramido

De anelo animalíssimo incontido,

Mais que a vaga incoercível na água oceânea...

É a Carne que, já morta essencialmente,

Para a Finalidade Transcendente

Gera o prodígio anímico da Insânia!

 

Nas frias antecâmeras do Nada

O fantasma da fêmea castigada,

Passa agora ao clarão da lua acesa

E é seu corpo expiatório, alvo e desnudo

A síntese eucarística de tudo

Que não se realizou na Natureza!

 

Antigamente, aos tácitos apelos

Das suas carnes e dos seus cabelos,

Na Óptica abreviatura de um reflexo,

Fulgia, em cada humana nebulosa,

Toda a sensualidade tempestuosa

Dos apetites bárbaros do Sexo!

 

O atavismo das raças sibaritas,

Criando concupiscências infinitas

Como eviterno lobo insatisfeito;

Na homofagia hedionda que o consome,

Vinha saciar a milenária fome

Dentro das abundâncias do seu leito!

 

Toda a libidinagem dos mormaços

Americanos fluía-lhe dos braços,

Irradiava-se-lhe, hírcica, das veias

E em torrencialidades quentes e úmidas,

Gorda a escorrer-lhe das ártérias túmidas

Lembrava um transbordar de ânforas cheias.

 

A hora da morte acende-lhe o intelecto

E à úmida habitação do vício abjecto

Afluem milhões de sóis, rubros, radiando...

Resíduos memoriais tornan-se luzes

Fazem-se idéias e ela vê as cruzes

Do seu martirológico miserando!

Inícios atrofiados de ética, ânsia

De perfeição, sonhos de culminância,

Libertos da ancestral modorra calma,

Saem da infância embrionária e erguem-se, adultos,

Lançando a sombra horrível dos seus vultos

Sobre a noite fechada daquela alma!

 

É o sublevamento coletivo

De um mundo inteiro que aparece vivo,

Numa cenografia de diorama,

Que, momentaneamente luz fecunda,

Brilha na prostituta moribunda

Como a fosforecência sobre a lama!

 

É a visita alarmante do que outrora

Na abundância prospérrima da aurora,

Pudera progredir, talvez, decerto,

Mas que, adstrito a inferior plasma inconsútil,

Ficou rolando, como aborto inútil,

Como o ................. do deserto!

 

Vede! A prostituição ofídia aziaga

Cujo tóxico instila a infâmia , e a estraga

Na delinqüência .............. impune,

Agarrou-se-lhe aos seios impudicos

Como o abraço mortífero do Ficus

Sugando a seiva da árvore a que se une!

 

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Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto,

Mordeu-lhe a boca e o rosto...

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Ser meretriz depois do túmulo! A alma

Roubada a hirta quietude da urbe calma

onde se extinguem todos os escolhos:

E, condenada, ao trágico ditame,

Oferecer-se à bicharia infame

Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos!

 

Sentir a língua aluir-se-lhe na boca

E com a cabeça sem cabelos, oca...

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Na horrorosa avulsão da forma nívea

Dizer ainda palavras de lascívia

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Guerra

 

Guerra é esforço, é inquietude, á ânsia, é transporte...

É a dramatização sangrenta e dura

Da avidez com que o Espírito procura

Ser perfeito, ser máximo, ser forte!

 

É a Subconsciência que se transfigura

Em volição conflagradora... É a coorte

Das raças todas, que se entrega à morte

Para a felicidade da Criatura!

 

É a obsessão de ver sangue, é o instinto horrendo

De subir, na ordem cósmica, descendo

À irracionalidade primitiva...

 

É a Natureza que, no seu arcano,

Precisa de encharcar-se em sangue humano

Para mostrar aos homens que está viva!

 

 

 

O sarcófago

 

Senhor da alta hermenêutica do Fado

Perlustro o atrium da Morte... É frio o ambiente

E a chuva corta inexoravelmente

O dorso de um sarcófago molhado!

 

Ah! Ninguém ouve o soluçante brado

De dor produnfa, acérrima e latente,

Que o sarcófago, ereto e imóvel, sente

Em sua própria sombra sepultado!

 

Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível,

Que em toda a sua máscara se expande,

À humana comoção impondo-a, inteira...

 

Dói-lhe, em suma, perante o Incognoscível,

Essa fatalidade de ser grande

Para guardar unicamente poeira!

 

 

 

Hino à dor

 

Dor, saúde dos seres que se fanam,

Riqueza da alma, psíquico tesouro,

Alegria das glândulas do choro

De onde todas as lágrimas emanam...

 

És suprema! Os meus átomos se ufanam

De  pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro

Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro

De que as próprias desgraças se engalanam!

 

Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.

Com os corpúsculos mágicos do tato

Prendo a orquestra de chamas que executas...

 

E, assim, sem convulsão que me alvorece,

Minha maior ventura é estar de posse

De tuas claridades absolutas!

 

 

 

Última visio

 

Quando o homem, resgatado da cegueira

Vir Deus num simples grão de argila errante,

Terá nascido nesse mesmo instante

A mineralogia derradeira!

 

A impérvia escuridão obnubilante

Há de cessar! Em sua glória inteira

Deus resplandecerá dentro da poeira

Como um gasofiláceo de diamante!

 

Nessa última visão já subterrânea,

Um movimento universal de insânia

Arrancará da insciência o homem precito...

 

A Verdade virá das pedras mortas

E o homem compreenderá todas as portas

Que ele ainda tem de abrir para o Infinito!

 

 

 

Aos meus filhos

 

Na intermitência da vital canseira,

Sois vós que sustentais (Força Alta exige-o...)

Com o vosso catalítico prestígio,

Meu fantasma de carne passageira!

 

Vulcão da bioquímica fogueira

Destruiu-me todo o orgânico fastígio...

Dai-me asas, pois, para o último remígio,

Dai-me alma, pois, para a hora derradeira!

 

Culminâncias humanas ainda obscuras,

Expressões do universo radioativo,

Íons emanados do meu próprio ideal,

 

Benditos vós, que, em épocas futuras,

Haveis de ser no mundo subjetivo,

Minha continuidade emocional!

 

 

 

A dança da psique

 

A dança dos encéfalos acesos

Começa. A carne é fogo, A alma arde, A espaços

As cabeças, as mãos, os pés e os braços

Tombam, cedendo à ação de ignotos pesos!

 

É então que a vaga dos instintos presos

-- Mãe de esterilidades e cansaços --

Atira os pensamentos mais devassos

Contra os ossos cranianos indefesos.

 

Subitamente a cerebral coréia

Pára. O cosmos sintético da Idéia

Surge. Emoções extraordinárias sinto.

 

Arranco do meu crânio as nebulosas

E acho um feixe de forças prodigiosas

Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!

 

 

 

O poeta do hediondo

 

Sofro aceleradíssimas pancadas

No coração. Ataca-me a existência

A mortificadora coalescência

Das desgraças humanas congregadas!

 

Em alucinatórias cavalgadas,

Eu sinto, então, sondando-me a consciência

A ultra-inquisitorial clarividência

De todas as neuronas acordadas!

 

Quanto me dói no cérebro esta sonda!

Ah! Certamente eu sou a mais hedionda

Generalização do Desconforto...

 

Eu sou aquele que ficou sozinho

Cantando sobre os ossos do caminho

A poesia de tudo quanto é morto!

 

 

 

A fome e a amor

 

A um monstro

 

Fome! E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta,

Receando outras mandíbulas e esbangem,

Os dentes antropófagos que rangem,

Antes da refeição sanguinolenta!

 

Amor! E a satiríase sedenta,

Rugindo, enquanto as almas se confrangem,

Todas as danações sexuais que abrangem

A apolínica besta famulenta!

 

Ambos assim, tragando a ambiência vasta,

No desembestamento que os arrasta,

Superexcitadíssimos, os dois

 

Representam, no ardor dos seus assomos,

A alegoria do que outrora fomos

E a imagem bronca do que inda hoje sois!

 

 

 

Homo infimus

 

Homem, carne sem luz, criatura cega,

Realidade geográfica infeliz,

O Universo calado te renega

E a tua própria boca te maldiz!

 

O nôumeno e o fenômeno, o alfa e o ômega

Amarguram-te. Hebdômadas hostis

Passam... Teu coração se desagrega,

Sangram-te os olhos, e, entretanto, ris!

 

Fruto injustificável dentre os frutos,

Montão de estercorária argila preta,

Excrescência de terra singular.

 

Deixa a tua alegria aos seres brutos,

Porque, na superfície do planeta,

Tu só tens um direito: -- o de chorar!

 

 

 

Minha finalidade

 

Turbilhão teleolófico incoercível,

Que força alguma inibitória acalma,

Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma

Dos que amam apreender o Inapreensível!

 

Predeterminação imprescriptivel

Oriunda da infra-astral Substância calma

Plasmou, aparelhou, talhou minha alma

Para cantar de preferência o Horrível!

 

Na canonização emocionante,

Da dor humana, sou maior que Dante,

-- A águia dos latifúndios florentinos!

 

Sistematizo, suluçando, o Inferno...

E trago em mim, num sincronismo eterno

A fórmula de todos os destinos!

 

 

 

Numa forja

 

De inexplicáveis ânsias prisioneiro

Hoje entrei numa forja, ao meio-dia.

Trinta e seis graus à sombra. O éter possuía

A térmica violência de um braseiro.

                Dentro, a cuspir escórias

                De fúlgida limalha

Dardejando centelhas transitórias,

No horror da metalúrgica batalha

                O ferro chiava e ria!

 

Ria, num sardonismo doloroso

                De ingênita amargura,

                Da qual, bruta, provinha

Como de um negro cáspio de água impura

                A multissecular desesperança

                De sua espécia abjeta

Condenada a uma estática mesquinha!

 

Ria com essa metálica tristeza

                De ser na Natureza,

                Onde a Matéria avança

                E a Substância caminha

Aceleradamente para o gozo

                Da integração completa.

Uma consciência eternamente obscura!

 

O ferro continuava a chiar e a rir,

                E eu nervoso, irritado

                Quase com febre, a ouvir

                Cada átomo de ferro

                Contra a incude esmagado

                Sofrer, berrar, tinir.

 

Compreendia por fim que aquele berro

À substância inorgânica arrancado

Era a dor do minério castigado

Na impossibilidade de reagir!

 

Era um cosmos inteiro sofredor,

                Cujo negror profundo

                Astro nenhum exorna

                Gritando na bigorna

Asperamente a sua própria dor!

                Era, erguido do pó,

                Inopinadamente

                Para que à vida quente

Da sinergia cósmica desperte,

                A ansiedade de um mundo

                Doente de ser inerte,

                Cansado de estar só!

 

                Era a revelação

                De tudo que ainda dorme

No metal bruto ou na geléia informe

No parto primitivo da Criação!

                Era o ruído-clarão,

                -- O ígneo jato vulcânico

Que, atravessando a absconsa cripta enorme

                De minha cavernosa subconsciência,

                Punha em clarividência

Intramoleculares sóis acesos

Perpetuamente às mesmas formas presos,

Agarrados à inércia do Inorgânico

                Escravos da Coesão!

 

Repuxavam-me a boca hórridos trismos

                E eu sentia, afinal,

                Essa angústia alarmante

Própria da alienação raciocinante,

                Cheia de ânsias e medos

                Com crispações nos dedos

                Piores que os paroxismos

Da árvore que a atmosfera ultriz destronca.

A ouvir todo esse cosmos potencial,

Preso aos mineralógicos abismos

                Angustiado e arquejante

A debater-se na estreiteza bronca

                De um bloco de metal!

 

                Como que a forja tétrica

                Num estridor de estrago

Executava, em lúgubre crescendo

                A antífona assimétrica

E o incompreensível wagnerismo aziago

                De seu destino horrendo!

 

Ao clangor de tais carmes de martírio

Em cismas negras eu recaio imerso

                Buscando no delírio

De uma imaginação convulsionada

Mais revolta talvez de que a onda atlântica

                Compreender a semântica

Dessa aleluia bárbara gritada

Às margens glacialíssimas do Nada

Pelas coisas mais brutas do Universo!

 

 

 

Noli me tangere

 

A exaltação emocional do Gozo,

O Amor, a Glória, a Ciência, a Arte e a Beleza

Servem de combustíveis à ira acesa

Das tempestades do meu ser nervoso!

 

Eu sou, por conseqüência, um ser monstruoso!

Em minha arca encefálica indefesa

Choram as forças más da Natureza

Sem possibilidades de repouso!

 

Agregados anômalos malditos

Despedaçam-se, mordem-se, dão gritos

Nas minhas camas cerebrais funéreas...

 

Ai! Não toqueis em minhas faces verdes,

Sob pena, homens felizes, de sofrerdes

A sensação de todas as misérias!

 

 

 

O Canto dos presos

 

Troa, a alardear bárbaros sons abstrusos,

O epitalâmio da Suprema Falta,

Entoado asperamente, em voz muito alta,

Pela promiscuidade dos reclusos!

 

No wagnerismo desses sons confusos,

Em que o Mal se engrandece e o Ódio se exalta,

Uiva, à luz de fantástica ribalta,

A ignomínia de todos os abusos!

 

É a prosódia do cárcere, é a partênea

Aterradoramente heterogênea

Dos grandes transviamentos subjetivos...

 

É a saudade dos erros satisfeitos,

Que, não cabendo mais dentro dos peitos,

Se escapa pela boca dos cativos!

 

 

 

Aberração

 

Na velhice automática e na infância,

(Hoje, ontem, amanhã e em qualquer era)

Minha hibridez é a súmula sincera

Das defectividades da Substância:

 

Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia,

Como Belerofonte com a Quimera

Mato o ideal; cresto o sonho; achato a esfera

E acho odor de cadáver na fragrância!

 

Chamo-me Aberração. Minha alma é um misto

De anomalias lúgubres. Existo

Como a cancro, a exigir que os sãos enfermem...

 

Teço a infâmia; urdo o crime; engendro o lodo

E nas mudanças do Universo todo

Deixo inscrita a memória do meu gérmen!

 

 

 

Vítima do dualismo

 

Ser miserável dentre os miseráveis

-- Carrego em minhas células sombrias

Antagonismos irreconciliáveis

E as mais opostas idiosincrasias!

 

Muito mais cedo do que o imagináveis

Eis-vos, minha alma, enfim, dada às bravias

Cóleras dos dualismos implacáveis

E à gula negra das antinomias!

 

Psique biforme, o Céu e o Inferno absorvo...

Criação a um tempo escura e cor-de-rosa,

Feita dos mais variáveis elementos,

 

Ceva-se em minha carne, como um corvo,

A simultaneidade ultramonstruosa

De todos os contrastes famulentos!

 

 

 

Ao luar

 

Quando, à noite, o Infinito se levanta

À luz do luar, pelos caminhos quedos

Minha tátil intensidade é tanta

Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

 

Quebro a custódia dos sentidos tredos

E a minha mão, dona, por fim, de quanta

Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,

Todas as coisas íntimas suplanta!

 

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado

Nos paroxismos da hiperestesia,

O Infinitésimo e o Indeterminado...

 

Transponho ousadamente o átomo rude

E, transmudado em rutilância fria,

Encho o Espaço com a minha plenitude!

 

 

 

A um epilético

 

Perguntarás quem sou?! -- ao suor que te unta,

À dor que os queixos te arrebenta, aos trismos

Da epilepsia horrenda, e nos abismos

Ninguém responderá tua pergunta!

 

Reclamada por negros magnetismos

Tua cabeça há de cair, defunta

Na aterradora operação conjunta

Da tarefa animal dos organismos!

 

Mas após o antropófago alambique

Em que é mister todo o teu corpo fique

Reduzido a excreções de sânie e lodo,

 

Como a luz que arde, virgem, num monturo,

Tu hás de entrar completamente puro

Para a circulação do Grande Todo!

 

 

 

Canto de onipotência

 

Cloto, Átropos, Tífon, Laquesis, Siva...

E acima deles, como um astro, a arder,

Na hiperculminação definitiva

O meu supremo e estraordinário Ser!

 

Em minha sobre-humana retentiva

Brilhavam, como a luz do amanhecer,

A perfeição virtual tornada viva

E o embrião do que podia acontecer!

 

Por antecipação divinatória,

Eu, projetado muito além da História,

Sentia dos fenômenos o fim...

 

A coisa em si movia-se aos meus brados

E os acontecimentos subjugados

Olhavam como escravos para mim!

 

 

 

Minha árvore

 

Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada!

Como que a erva tem dor... Roem-na amarguras

Talvez humanas, e entre rochas duras

Mostra ao Cosmos a face degradada!

 

Entre os pedrouços maus dessa morada

É que, às apalpadelas e às escuras,

Hão de encontrar as gerações futuras

Só, minha árvore humana desfolhada!

 

Mulher nenhuma afagará meu tronco!

Eu não me abalarei, nem mesmo ao ronco

Do furacão que, rábido, remoinha...

 

Folhas e frutos, sobre a terra ardente

Hão de encher outras árvores! Somente

Minha desgraça há de ficar sozinha!

 

 

 

Anseio

 

Quem sou eu, neste ergástulo das vidas

Danadamente, a soluçar de dor?!

-- Trinta trilhões de células vencidas,

Nutrindo uma efeméride interior.

 

Branda, entanto, a afagar tantas feridas,

A áurea mão taumatúrgica do Amor

Traça, nas minhas formas carcomidas,

A estrutura de um mundo superior!

 

Alta noite, esse mundo incoerente

Essa elementaríssima semente

Do que hei de ser, tenta transpor o Ideal...

 

Grita em meu grito, alarga-se em meu hausto,

E, ai! como eu sinto no esqueleto exausto

Não poder dar-lhe vida material!

 

 

 

À mesa

 

Cedo à sofreguidão do estômago. É a hora

De comer. Coisa hedionda! Corro. E agora,

Antegozando a ensangüentada presa,

Rodeado pelas moscas repugnantes

                Eis-me sentado à mesa!

 

Como porções de carne morta... Ai! Como

Os que, como eu, têm carne, com este assomo

Que a espécie humana em comer carne tem!...

Como! E pois que a Razão não me reprime,

Possa a terra vingar-se do meu crime

                Comendo-me também.

 

 

 

Mãos

 

                Há mãos que fazem medo

Feias agregaçõs pentagonais,

Umas, em sangue, a delinqüentes natos,

Assinalados pelo mancinismo,

                Pertencentes talvez...

Outras, negras, a farpas de rochedo

                Completamente iguais...

Mãos de linhas análogas e anfratos

Que a Natureza onicriadora fez

Em contraposição e antagonismo

Às da estrela, às da neve, às dos cristais.

 

Mãos que adquiriram olhos, pituitárias

Olfativas, tentáculos sutis,

E à noite, vão cheirar, quebrando portas

O azul gasofiláceo silencioso

                Dos tálamos cristãos.

Mãos adúlteras, mãos mais sangüinárias

E estupradoras do que os bisturis

Cortando a carne em flor das crianças mortas.

                Monstruosíssimas mãos,

Que apalpam e olham com lascívia e gozo

A pureza dos corpos infantis.

 

 

 

Revelação

 

I

 

Escafandrista de insondado oceano

Sou eu que, aliando Buda ao sibarita,

Penetro a essência plasmática infinita,

-- Mãe promíscua do amor e do ódio insano!

 

Sou eu que, hirto, auscultando o absconso arcano,

Por um poder de acústica esquisita,

Ouço o universo ansioso que se agita

Dentro de cada pensamento humano!

 

No abstrato abismo equóreo, em que me inundo,

Sou eu que, revolvendo o ego profundo

E a escuridão dos cérebros medonhos,

 

Restituo triunfalmente à esfera calma

Todos os cosmos que circulam na alma

Sob a forma embriológica de sonhos!

 

II

 

Treva e fulguração; sânie e perfume;

Massa palpável e éter; desconforto

E ataraxia; feto vivo e aborto...

-- Tudo a unidade do meu ser resume!

 

Sou eu que, ateando da alma o ocíduo lume,

Apreendo, em cisma abismadora absorto,

A potencialidade do que é morto

E a eficácia prolífica do estrume!

 

Ah! Sou eu que, transpondo a escarpa angusta

Dos limites orgânicos estreitos,

Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia,

 

Sinto bater na putrescível crusta

Do tegumento que me cobre os peitos

Toda a imortalidade da Substância!

 

 

 

Versos a um coveiro

 

Numerar sepulturas e carneiros,

Reduzir carnes podres a algarismos,

Tal é, sem complicados silogismos,

A aritmética hedionda dos coveiros!

 

Um, dois, três, quatro, cinco... Esoterismos

Da Morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,

Na progressão dos números inteiros

A gênese de todos os abismos!

 

Oh! Pitágoras da última aritmética,

Continua a contar na paz ascética

Dos tábidos carneiros sepulcrais:

 

Tíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros,

Porque, infinita como os próprios números,

A tua conta não acaba mais!

 

 

 

Trevas

 

Haverá, por hipótese, nas geenas

Luz bastante fulmínea que transforme

Dentro da noite cavernosa e enorme

Minhas trevas anímicas serenas?!

 

Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?!

Não! Porque, na abismal substância informe,

Para convulsionar a alma que dorme

Todas as tempestades são pequenas!

 

Há de a Terra vibrar na ardência infinda

Do éter em branca luz transubstanciado,

Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo...

 

A própria Esfinge há de falar-vos ainda

E eu, somente eu, hei de ficar trancado

Na noite aterradora de mim mesmo!

 

 

 

As montanhas

 

I

 

Das nebulosas em que te emaranhas

Levanta-te, alma, e dize-me, afinal,

Qual é, na natureza espiritual,

A significação dessas montanhas!

 

Quem não vê nas graníticas entranhas

A subjetividade ascensional

Paralisada e estrangulada, mal

Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?!

 

Ah! Nesse anelo trágico de altura

Não serão as montanhas, porventura,

Estacionadas, íngremes, assim,

 

Por um abortamento de mecânica,

A representação ainda inorgânica

De tudo aquilo que parou em mim?!

 

II

 

Agora, oh! deslumbrada alma, perscuta

O puerpério geológico interior,

De onde rebenta, em contrações de dor,

Toda a sublevação da crusta hirsuta!

 

No curso inquieto da terráquea luta

Quantos desejos férvidos de amor

Não dormem, recalcados, sob o horror

Dessas agregações de pedra bruta?!

 

Como nesses relevos orográficos,

Inacessíveis aos humanos tráficos

Onde sóis, em semente, amam jazer,

 

Quem sabe, alma, se o que ainda não existe

Não vive em gérmem no agregado triste

Da síntese sombria do meu Ser?!

 

 

 

Apocalipse

 

Minha divinatória Arte ultrapassa

Os séculos efêmeros e nota

Diminuição dinâmica, derrota

Na atual força, integérrima, da Massa.

 

É a subversão universal que ameaça

A Natureza, e, em noite aziaga e ignota,

Destrói a ebulição que a água alvorota

E põe todos os astros na desgraça!

 

São despedaçamentos, derrubadas,

Federações sidéricas quebradas...

E eu só, o último a ser, pelo orbe adiante,

 

Espião da cataclísmica surpresa,

A única luz tragicamente acesa

Na universalidade agonizante!

 

 

 

A nau

 

A Heitor de Lima

 

Sôfrega, alçando o hirto esporão guerreiro,

Zarpa. A íngreme cordoalha úmida fica...

Lambe-lhe a quilha a espúmea onda impudica

E ébrios tritões, babando, haurem-lhe o cheiro!

 

Na glauca artéria equórea ou no estaleiro

Ergue a alma mastreação, que o Éter indica,

E estende os braços da madeira rica

Para as populações do mundo inteiro!

 

Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda,

Pára e, a amarra agarrada à âncora, sonha!

Mágoas, se as tem, subjugue-as ou disfarce-as...

 

E não haver uma alma que lhe entenda

A angústia transoceânica medonha

No rangido de todas as enxárcias!

 

 

 

Volúpia imortal

 

Cuidas que o genesíaco prazer,

Fomo do átomo e eurítmico transporte

De todas as moléculas, aborte

Na hora em que a nossa carne apodrecer?!

 

Não! Essa luz radial, em que arde o Ser,

Para a perpetuação da Espécie forte,

Tragicamente, ainda depois da morte,

Dentro dos ossos, continua a arder!

 

Surdos destarte a apóstrofes e brados,

Os nossos esqueletos descarnados,

Em convulsivas contorções sensuais,

 

Haurindo o gás sulfídrico das covas,

Com essa volúpia das ossadas novas

Hão de ainda se apertar cada vez mais!

 

 

 

O fim das coisas

 

Pode o homem bruto, adstrito à ciência grave,

Arrancar, num triunfo surpreendente,

Das profundezas do Subconsciente

O milagre estupendo da aeronave!

 

Rasgue os broncos basaltos negros, cave,

Sôfrego, o solo sáxeo; e, na ânsia ardente

De perscrutar o íntimo do orbe, invente

A lâmpada aflogística de Davy!

 

Em vão! Contra o poder criador do Sonho

O Fim das Coisas mostra-se medonho

Como o desaguadouro atro de um rio...

 

E quando, ao cabo do último milênio,

A humanidade vai pesar seu gênio

Encontra o mundo, que ela encheu , vazio!

 

 

 

Viagem de um vencido

 

Noite. Cruzes na estrada. Aves com frio...

E, enquanto eu tropeçava sobre os paus,

A efígie apocalíptica do Caos

Dançava no meu cérebro sombrio!

 

O Céu estava horrivelmente preto

E as árvores magríssimas lembravam

Pontos de admiração que sa admiravam

De ver passar ali meu esqueleto!

 

Sozinho, uivando hoffmânicos dizeres,

Aprazia-me assim, na escuridão,

Mergulhar minha exótica visão

Na intimidade noumenal dos seres.

 

Eu procurava, com uma vela acesa,

O feto original, de onde decorrem

Todas essas moléculas que morrem

Nas transubstanciações da Natureza.

 

Mas o que meus sentidos apreendiam

Dentro da treva lúgubre, era só

O ocaso sistemático de pó,

Em que as formas humanas se sumiam!

 

Reboava, num ruidoso borborinho

Bruto, análogo ao peã de márcios brados,

A rebeldia dos meus pés danados

Nas pedras resignadas do caminho.

 

Sentia estar pisando com a planta ávida

Um povo de radículas e embriões

Prestes a rebentar como vulcões,

Do ventre equatorial da terra grávida!

 

Dentro de mim, como num chão profundo,

Choravam, com soluços quase humanos,

Convulsionando Céus, almas e oceanos

As formas microscópicas do mundo!

 

Era a larva agarrada a absconsas landes,

Era o abjeto vibrião rudimentar

Na impotência angustiosa de falar,

No desespero de não serem grandes!

 

Vinha-me à boca, assim, na ânsia dos párias,

Como o protesto de uma raça invicta,

O brado emocionante da vindicta

Das sensibilidades solitárias!

 

A longanimidade e o vilipêndio,

A abstinência e a luxúria, o bem e o mal

Ardiam no meu orco cerebral,

Numa crepitação própria de incêndio!

 

Em contraposição à paz funérea,

Doía profundamente no meu crânio

Esse funcionamento simultâneo

De todos os conflitos da matéria!

 

Eu, perdido no Cosmos, me tornara

A assembléia belígera malsã,

Onde Ormuzd guerreava com Arimã,

Na discórdia perpétua do sansara!

 

Já me fazia medo aquela viagem

A carregar pelas ladeiras tétricas,

Na óssea armação das vértebras simétricas

A angústia da biológica engrenagem!

 

No Céu, de onde se vê o Homem de rastros,

Brilhava, vingadora, a esclarecer

As manchas subjetivas do meu ser

A espionagem fatídica dos astros!

 

Sentinelas de espíritos e estradas,

Noite alta, com a sidérica lanterna,

Eles entravam todos na caverna

Das consciências humanas mais fechadas!

 

Ao castigo daquela rutilância,

Maior que o olhar que perseguiu Caim,

Cumpria-se afinal dentro de mim

O próprio sofrimento da Substância!

 

Como quem traz ao dorso muitas cargas

Eu sofria, ao colher simples gardênia,

A multiplicação heterogênea

De sensações diversamente amargas.

 

Mas das árvores, frias como lousas,

Fluía, horrenda e monótona, uma voz

Tão grande, tão profunda, tão feroz

Que parecia vir da alma das cousas:

 

“Se todos os fenômenos complexos,

Desde a consciência à antítese dos sexos

Vêm de um dínamo fluídico de gás,

Se hoje, obscuro, amanhã píncaros galgas,

A humildade botânica das algas

De que grandeza não será capaz?!

 

Quem sabe, enquanto Deus, Jeová ou Siva

Oculta à tua força cognitiva

Fenomenalidades que hão de vir,

Se a contração que hoje produz o choro

Não há de ser no século vindouro

Um simples movimento para rir?!

 

Que espécies outras, do Equador aos pólos,

Na prisão milenária dos subsolos,

Rasgando avidamente o húmus malsão,

Não trabalham, com a febre mais bravia,

Para erguer, na ânsia cósmica, a Energia

À última etapa da objetivação?!

 

É inútil, pois, que, a espiar enigmas, entres

Na química genésica dos ventres,

Porque em todas as coisas, afinal,

Crânio, ovário, montanha, árvore, iceberg,

Tragicamente, diante do Homem, se ergue

A esfinge do Mistério Universal!

 

A própria força em que teu Ser se expande,
Para esconder-se nessa esfinge grande,

Deu-te (oh! mistério que se não traduz!)

Neste astro ruim de tênebras e abrolhos

A efeméride orgânica dos olhos

E o simulacro atordoador da Luz!

 

Por isto, oh! filho dos terráqueos limos,

Nós, arvoredos desterrados, rimos

Das vãs diatribes com que aturdes o ar...

Rimos, isto é, choramos, porque, em suma,

Rir da desgraça que de ti ressuma

É quase a mesma coisa que chorar!” 

 

Às vibrações daquele horrível carme

Meu dispêndio nervoso era tamanho

Que eu sentia no corpo um vácuo estranho

Como uma boca sôfrega a esvaziar-me!

 

Na avan çada epilética dos medos

Cria ouvir, a escalar Céus e apogues,

A voz cavernosíssima de Deus,

Reproduzida pelos arvoredos!

 

Agora, astro decrépito, em destroços,

Eu, desgraçadamente magro, a eguer-me,

Tinha necessidade de esconder-me

Longe da espécie humana, com os meus ossos!

 

Restava apenas na minha alma bruta

Onde frutificara outrora o Amor

Uma volicional fome interior

De renúncia budística absoluta!

 

Porque, naquela noite de ânsia e inferno,

Eu fora, alheio ao mundanário ruído,

A maior expressão do homem vencido

Diante da sombra do Mistério Eterno!

 

 

 

A noite

 

A nebulosidade ameaçadora

Tolda o éter, mancha a gleba, agride os rios

E urde amplas teias de carvões sombrios

No ar que álacre e radiante, há instantes, fora.

 

A água transubstancia-se. A onda estoura

Na negridão do oceano e entre os navios

Troa bárbara zoada de ais bravios,

Extraordinariamente atordoadora.

 

À custódia do anímico registro

A planetária escuridão se anexa...

Somente, iguais a espiões que acordam cedo,

 

Ficam brilhando com fulgor sinistro

Dentro da treva onímoda e complexa

Os olhos fundos dos que estão com medo!

 

 

 

A obsessão do sangue

 

Acordou, vendo sangue... Horrível! O osso

Frontal em fogo... Ia talvez morrer,

Disse. Olhou-se no espelho. Era tão moço,

Ah! Certamente não podia ser!

 

Levantou-se. E, eis que viu, antes do almoço,

Na mão dos açougueiros, a escorrer

Fita rubra de sangue muito grosso,

A carne que ele havia de comer!

 

No inferno da visão alucianada,

Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,

Viu vísceras vermelhas pelo chão...

 

E amou, com um berro bárbaro de gozo,

O monocromatismo monstruoso

Daquela universal vermelhidão!

 

 

 

Vox victimae

 

Morto! Consciência quieta haja o assassino

Que me acabou, dando-me ao corpo vão

Esta volúpia de ficar no chão

Fruindo na tabidez sabor divino!

 

Espiando o meu cadáver ressupino,

No mar da humana proliferação,

Outras cabe;as aparecerão

Para compartilhar do meu destino!

 

Na festa genetlíaca do Nada,

Abraço-me com a terra atormentada

Em contubérnio convulsionador...

 

E ai! Como é boa esta volúpia obscura

Que une os ossos cansados da criatura

Ao corpo ubiqüitário do Criador!

 

 

 

O último número

 

Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado,

A Idéia estertorava-se... No fundo

Do meu entendimento moribundo

Jazia o Último Número cansado.

 

Era de vê-lo, imóvel, resignado,

Tragicamente de si mesmo oriundo,

Fora da sucessão, estranho ao mundo,

Com o reflexo fúnebre do Incriado:

 

Bradei: -- Que fazes ainda no meu crânio?

E o Último Número, atro e subterrâneo,

Parecia dizer-me: “É tarde, amigo!

 

Pois que a minha antogênica Grandeza

Nunca vibrou em tua língua presa,

Não te abandono mais! Morro contigo!” 

 

 

 

Mágoas

 

Quando nasci, num mês de tantas flores,

Todas murcharam, tristes, langorosas,

Tristes fanaram redolentes rosas,

Morreram todas, todas sem olores.

 

Mais tarde da existência nos verdores

Da infância nunca tive as venturosas

Alegrias que passam bonançosas,

Oh! Minha infância nunca tive flores!

 

Volvendo à quadra azul da mocidade,

Minh’alma levo aflita à Eternidade,

Quando a morte matar meus dissabores.

 

Cansado de chorar pelas estradas,

Exausto de pisar mágoas pisadas,

Hoje eu carrego a cruz de minhas dores!

 

 

 

O condenado

 

Folga a Justica e Geme a natureza

Bocage

 

Alma feita somente de granito,

Condenada a sofrer cruel tortura

Pela rua sombria d’amargura

-- Ei-lo que passa -- réprobo maldito.

 

Olhar ao chão cravado e sempre fito,

Parece contemplar a sepultura

Das suas ilusões que a desventura

Desfez em pó no hórrido delito.

 

E, à cruz da expiação subindo mudo,

A vida a lhe fugir já sente prestes

Quando ao golpe do algoz, calou-se tudo.

 

O mundo é um sepulcro de tristeza.

Ali, por entre matas de ciprestes,

Folga a justiça e geme a natureza.

 

 

 

Soneto

 

Ouvi. snhora, o cântico sentido

Do coração que geme e s’estertora

N’ânsia letal que mata e que o devora

E que tornou-o assim, triste e descrido.

 

Ouvi, senhora, amei; de amor ferido,

As minhas crenças que alentei outrora

Rolam dispersas, pálidas agora,

Desfeitas todas num guaiar dorido.

 

E como a luz do sol vai-se apagando!

E eu tiste, triste pela vida afora,

Eterno pegureiro caminhando.

 

Revolvo as cinzas de passadas eras,

Sombrio e mudo e glacial, senhora,

Como um coveiro a sepultar quimeras!

 

 

 

Infeliz

 

Alma viúva das paixões da vida,

Tu que, na estrada da existência em fora,

Cantaste e riste, e na existência agora

Triste soluças a ilusão perdida;

 

OH! tu, que na grinalda emurchecida

De teu passado de felicidade

Foste juntar os goivos da Saudade

Às flores da Esperança enlanguescida;

 

Se nada te aniquila o desalento

Que te invade, e pesar negro e profundo,

Esconde à Natureza o sofrimento,

 

E fica no teu ermo entristecida,

Alma arrancada do prazer do mundo,

Alma viúva das paixões da vida.

 

 

 

Soneto

 

N’augusta solidão dos cemitérios,

Resvalando nas sombras dos ciprestes,

Passam meus sonhos sepultados nestes

Brancos sepulcros, pálidos, funéreos.

 

São minhas crenças divinais, ardentes

-- Alvos fantasmas pelos merencórios

Túmulos tristes, soturnais, silentes,

Hoje rolando nos umbrais marmóreos,

 

Quando da vida, no eternal soluço,

Eu choro e gemo e triste me debruço

Na laje fria dos meus sonhos pulcros,

 

Desliza então a lúgubre cooorte.

E rompe a orquestra sepulcral da morte,

Quebrando a paz suprema dos sepulcros.

 

 

 

Noivado

 

Os namorados ternos suspiravam,

Quando há de ser o venturoso dia?!

Quando há de ser?! O noivo então dizia

E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam.

 

 

E a mesma frase o noivo repetia;

Fora no campo pássaros trinavam.

Quando há de ser?! E os pássaros falavam,

Há de chegar, a brisa respondia.

 

Vinha rompendo a aurora majestosa,

Dos rouxinóis ao sonoroso arpejo

E a luz do sol vibrava esplendorosa.

 

Chegara enfim o dia desejado,

Ambos unidos, soluçara um beijo,

Era o supremo beijo de noivado!

 

 

 

Soneto

 

No meu peito arde em chamas abrasada

A pira da vingança reprimida,

E em centelhas de raiva ensurdecida

A vingança suprema e concentrada

 

E espuma e ruge a cólera entranhada,

Como no mar a vaga embravecida

Vai bater-se na rocha empedernida,

Espumando e rugindo em marulhada

 

Mas se das minhas dores ao calvário,

Eu subo na altitude dolorida

De um Cristo a redimir um mundo vário,

 

Em luta co’a natura sempiterna,

Já que do mundo não vinguei-me em vida,

A morte me será vingança eterna.

 

 

 

Triste regresso

 

A Dias Paredes

 

Uma vez um poeta, um tresloucado,

Apaixonou-se d’uma virgem bela;

Vivia alegre o vate apaixonado,

Louco vivia, enamorado dela.

 

Mas a Pátria chamou-o. Era soldado.

E tinha  que deixar pra sempre aquela

Meiga visão, olímpica e singela?!

E partiu, coração amargurado.

 

Dos canhões ao ribombo, e das metralhas,

Altivo lutador, venceu batalhas,

Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela.

 

E voltou, mas a fronte aureolada,

Ao chegar, pendeu triste e desmaiada,

No sepulcro da loura virgem bela.

 

 

 

Amor e religião

 

Conheci-o: era um padre, um desses santos

Sacerdotes da Fé de crença pura,

Da sua fala na eternal doçura

Falava o coração. Quantos, oh! Quantos

 

Ouviram dele frases de candura

Que d’infelizes enxugavam prantos!

E como alegres não ficaram tantos

Corações sem prazer e sem ventura.

 

No entanto dizem que este padre amara.

Morrera um dia desvairado, estulto,

Su’alma livre para o céu se alara.

 

E Deus lhe disse: “És duas vezes santo,

Pois se da Religião fizeste culto,

Foste do amor o mártir sacrossanto”.

 

 

 

Soneto

 

Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior

pelas nove primaveras que hoje completou.

 

 

Canta no espaço a passarada e canta

Dentro do peito o coração contente,

Tu’alma ri-se descuidosamente,

Minh’alma alegre no teu rir s’encanta.

 

Irmão querido, bom Pap[a, consente

Que neste dia de ventura tanta

Vá, num abraço de ternura santa,

Mostrar-te o afeto que meu peito sente.

 

Somente assim festejarei teus anos;

Enquanto outros podem, dão-te enganos,

Jóias, bonecos de formoso busto,

 

Eu só encontro no primor da rima

A justa oferta, a jóia que te exprima

O amor fraterno do teu mano.

 

 

 

Saudade

 

Hoje que a mágoa me apunhala o seio,

E o coração me rasga atroz, imensa,

Eu a bendigo da descrença em meio,

Porque eu hoje só vivo da descrença.

 

À noite quando em funda soledade

Minh’alma se recolhe tristemente,

Pra iluminar-me a alma descontente,

Se acende o círio triste da Saudade.

 

E assim afeito às mágoas e ao tormento,

E à dor e ao sofrimento eterno afeito,

Para dar vida à dor e ao sofrimento,

 

Da saudade na campa enegrecida

Guardo a lembrança que me snagra o peito,

Mas que no entanto me alimenta a vida.

 

 

 

A esmola de Dulce

 

Ao Alfredo A.

 

 

E todo o dia eu vou como um perdido

De dor, por entre a dolorosa estrada,

Pedir a Dulce, a minha bem amada

A esmola dum carinho apetecido.

 

E ela fita-me, o olhar enlanguescido,

E eu balbucio trêmula balada:

-- Senhora dai-me u’ma esmola -- e estertorada

A minha voz soluça num gemido.

 

Morre-me a voz, e eu gemo o último arpejo,

Estendendo à Dulce a mão, a fé perdida,

E dos lábios de Dulce cai um beijo.

 

Depois,  como este beijo me consola!

Bendita seja a Dulce! A minha vida

Estava unicamente nessa esmola.

 

 

 

Soneto

 

Gênio das trevas lúgubres, acolhe-me,

Leva-me o esp’rito dessa luz que mata,

E a alma me ofusca e o peito me maltrata,

E o viver calmo e sossegado tolhe-me!

 

Leva-me, obumbra-me em teu seio, acolhe-me

N’asa da Morte redentora, e à ingrata

Luz deste mundo em breve me arrebata

E num pallium de tênebras recolhe-me!

 

Aqui há muita luz e muita aurora,

Há perfumes d’amor -- venenos d’alma --

E eu busco a plaga onde o repouso mora,

 

E as trevas moram, e, onde d’água raso

O olhar não trago, nem me turba a calma

A aurora deste amor que é o meu ocaso!

 

 

 

O mar

 

O mar é triste como um cemitério;

Cada rocha é uma eterna sepultura

Banhada pela imácula brancura

De ondas chorando num alvor etéreo.

 

Ah! dessas vagas no bramir funéreo

Jamais vibrou a sinfonia pura

Do Amor; lá, só descanta, dentre a escura

Treva do oceano, a voz do meu saltério!

 

Quando a cândida espuma dessas vagas,

Banhando a fria solidão das fragas,

Onde a quebrar-se  tão fugaz se esfuma,

 

Reflete a luz do sol que já não arde,

Treme na treva a púrpura da tarde,

Chora a Saudade envolta nesta espuma!

 

 

 

Soneto

 

Aurora morta, foge! Eu busco a virgem loura

Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte

E Ela era a minha estrela, o meu único Norte,

O grande Sol de afeto -- o Sol que as almas doura!

 

Fugiu... E em si levou a Luz consoladora

Do amor -- esse clarão eterno d’alma forte --

Astro da minha Paz, Sírius da minha Sorte

E da Noite da vida a Vênus redentora.

 

Agora, oh! minha Mágoa, agita as tuas asas,

Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas

E, num pálio auroral de Luz deslumbradora,

 

Ascende à Claridade. Adeus oh! Dia escuro,

Dia do meu Passado! Irrompe, meu Futuro;

Aurora morta, foge -- eu busco a virgem loura!

 

 

 

Soneto

 

Canta teu riso esplêndido sonata,

E há, no teu riso de anjos encantados,

Como que um doce tilintar de prata

E a vibração de mil cristais quebrados.

 

Bendito o riso assim que se desata

-- Cítara suave dos apaixonados,

Sonorizando os sonhos já passados,

Cantando sempre em trínula volata!

 

Aurora ideal dos dias meus risonhos,

Quando, úmido de beijos em ressábios

Teu riso esponta, despertando sonhos...

 

Ah! Num delíquio de ventura louca,

Vai-se minh’alma toda nos teus beijos,

Ri-se o meu coração na tua boca!

 

 

 

Cravo de noiva

 

Ao Dias Paredes

 

 

Cravo de noiva. A nívea cor de cera

Que o seu seio branqueja, é como os prantos

Níveos, que a virgem chora, entre os encantos

Dum noivado risonho em primavera.

 

Flor de mistérios d’alma, sacrossantos,

Guarda segredos divinais que eu dera

Duas vidas, se duas eu tivera

Pra desvendar os seus segredos santos.

 

E tudo quer que nessa flor se enleve

O poeta. É que dessa concha armínea,

Da lactescência angélica da neve,

 

Se evolam castos, virginais aromas

De essência estranha; olências de virgínea

Carne fremindo num langor de pomas.

 

Plenilúnio

 

Desmaia o plenilúnio. A gaze pálida

Que lhe serve de alvíssimo sudário

Respira essências raras, toda a cáida

Mística essência desse alampadário.

 

E a lua é como um pálido sacrário,

Onde as almas das virgens em crisálida

De seios alvos e de fronte pálida,

Derramam a urna dum perfume vário.

 

Voga a lua na etérea imensidade!

Ela, eterna noctâmbula do Amor,

Eu, noctâmbulo da Dor e da Saudade.

 

Ah! Como a branca e merencória lua,

Também envolta num sudário -- a Dor,

Minh’alma triste pelos céus flutua!

 

 

 

Cítara mística

 

Cantas... E eu ouço etérea cavatina!

Há nos teus lábios -- dois sangrentos círios --

A gêmea florescência de dois lírios

Entrelaçados numa unção divina.

 

Como o santo levita dos Martírios,

Rendo piedosa dúlia peregrina

À tua doce voz que me fascina,

-- Harpa virgem brandindo mil delírios!

 

Quedo-me aos poucos, penseroso e pasmo,

E a Noite afeia como num sarcasmo

E agora a sombra versperal morreu...

 

Chegou a Noite... E para mim, meu anjo,

Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo,

É a música de Deus que vem do Céu!

 

 

 

Súplica num túmulo

 

Maria, eis-me a tues pés. Eu venho arrependido,

Implorar-te o perdão do imenso crime meu!

Eis-me, pois, a teus pés, perdoa o teu vencido,

Açucena de Deus, lírio morto do Céu!

 

Perdão! E a minha voz estertora um gemido,

E o lábio meu para sempre apartado do tue

Não há de beijar mais o teu lábio querido!

Ah! Quando tu morreste, o meu Sonho morreu!

 

Perdão, pátria da Aurora exilada do Sonho!

-- Irei agora, assim, pelo mundo, para onde

Me levar o Destino abatido e tristonho...

 

Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala!

Insânia, insânia, insânia, ah! ninguém me responde...

Perdão! E este sepulcro imenso que não fala!

 

 

 

Afetos

 

Bendito o amor que infiltra n’alma o enleio

E santifica da existência o cado,

-- Amor que é mirra e que é sagrado nardo,

Turificando a languidez dum seio!

 

O amor, porém, que da Desgraça veio

Maldito seja, seja como o fardo

Desta descrença funeral  em que ardo

E com que o fogo da paixão ateio!

 

Funambulescamente a alma se atira

À luta das paixões, e, como a Aurora

Que ao beijo vesperal anseia e expira,

 

Desce para a alma o ocaso da Carícia

Ora em sonhos de Dor, supremos, e ora

Em contorções supremas de Delícia!

 

 

 

Martírio supremo

 

Duma Quimera ao fascinante abraço,

Por um Cocito ardente e luxurioso,

Onde nunca gemeu o humano passo,

Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo!

 

O amor em lavas de candência d’aço,

Banhou-me o peito... Em ânsia de repouso,

Da Messalina fria no regaço,

Chora saudades do terreno pouso!

 

Como um mártir de estranho sacrifício,

Tinha os lábios crestados pela ardência

Da luz letal do grande Sol do Vício!

 

E mergulhei mais fundo no estuário...

Mas, no Inferno do Gozo, sem Calvário,

Cristo d’amor morri pela inocência!

 

 

 

Régio

 

Festa no paço! Noite... E no entretanto

Luzes, flores, clarões por toda a festa

E há nos régios salões, em cada aresta,

Credências d’ouro de supremo encanto.

 

No baldaquino a orquestra real se apresta

E o áureo dossel finge um relevo santo...

-- Bissos egípcios d’alto gosto, a um canto,

Flordilisados de nelumbo e giesta.

 

Morreu a noite e veio o Sol Eterno

-- Âmbar de sangue que desceu do Inferno

No turbilhão dos alvos raios diurnos...

 

Brilham no paço refulgências de elmo

E a princesa assomou como um santelmo

Na realeza branca dos coturnos.

 

 

 

Mártir da fome

 

Nesta da vida lúgubre caverna

De ossos e frios funerais que eu sinto

Como um chacal saciando o eterno instinto

Vou saciando a minha Fome Eterna.

 

-- Fomoe de sangue de um Passado extinto,

De extintas crenças -- bacanal superna,

Horrível assim como a Hidra de Lerna

E muda como o bronze de Corinto!

 

Ânsias de sonhos, desespero fundo!

E a alma que sonha no marnel do Mundo,

Morre de Fome pelas noites belas...

 

E como  o Cristo -- o Mártir do Calvário

Morre. E no entanto vai para o estelário

Matar a Fome num festim de estrelas!

 

 

 

Festival

 

Para Jônatas Costa

 

 

Címbalos soam no salão. O dia

Foge, e ao compasso de arrabis serenos

A valsa rompe, em compassados trenos

Sobre os veludos da tapeçaria.

 

Estatuetas de mármore de Lemnos

Estão dispostas numa simetria

Inconfundível, recordando a estria

Dos corpos de Afrodite e Vênus.

 

Fulgem por entre mil cristais vermelhos

O alvo cristal dos nítidos espelhos

E a seda verde dos arbustos glabros.

 

E em meio às refrações verdes e hialinas,

Vibra, batendo em todas as retinas, 

A incandescência irial dos candelabros.

 

 

 

Noturno

 

Chove. Lá fora os lampiões escuros

Semelham monjas a morrer... Os ventos,

Desencadeados, vão bater, violentos,

De encontro às torres e de encontro aos muros.

 

Saio de casa. Os passos mal seguros

Trêmulo movo, mas meus movimentos

Susto, diante do vulto dos conventos,

Negro, ameaçando os séculos futuros!

 

De São Francisco no plangente bronze

Em badaladas compassadas onze

Horas soaram... Surge agora a Lua.

 

E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos

Enquanto a chuva cai nos cemitérios

E o vento apaga os lampiões da rua!

 

 

 

Soneto

 

(Feito no decurso de dois minutos, em homenagem ao aniversário

natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos -- 28 de abril de 1905.)

 

Para quem tem na vida compreendido

Toda a grandeza da Fraternidade

O aniversário dum irmão querido

A alma de alegres emoções invade.

 

Depois quando no irmão estremecido

Fazem aliança o gênio e a probidade,

Atinge o amor um grau nunca atingido

No termômetro santo da Amizade.

 

O Alexandre dos Anjos merecia

Grandes coroas nesse grande dia,

Tesouros reais, auríferos tesouros...

 

Terá no entanto indubitavelmente

A admiração do século presente

E a sagração dos séculos vindouros!

 

 

 

O negro

 

Oh! Negro, oh! Filho da Hotentóia ufana

Teus braços brônzeos como dois escudos,

São dois colossos, dois gigantes mudos,

Representando a integridade humana!

 

Nesses braços de força soberana

Gloriosamente à luz do sol desnudos

Ao bruto encontro dos ferrões agudos

Gemeu por muito tempo a alma africana!

 

No colorido dos teus brônzeos braços,

Fulge o fogo mordente dos mormaços

E a chama fulge do solar brasido...

 

E eu cuido ver os múltiplos produtos

Da Terra -- as flores e os metais e os frutos

Simbolizados nesse colorido!

 

 

 

Senectude precoce

 

Envelheci. A cal da sepultura

Caiu por sobre a minha mocidade...

E eu que julgava em minha idealidade

Ver inda toda a geração futura!

 

Eu que julgava! Pois não é verdade?!

Hoje estou velho. Olha essa neve pura!

-- Foi saudade? Foi dor? -- Foi tanta agrura

Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade!

 

Sei que durante toda a travessia

Da minha infância trágica, vivia,

Assim como uma casa abandonada.

 

Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas...

Sei que na infância nunca tive auroras,

E afora disto, eu já nem sei mais nada!

 

 

 

André Chénier

 

Na real magnificência dos gigantes

Grave como um lacedemônio harmoste

André Chénier ia subir ao poste

A que Luís XVI subira dantes!

 

Que a sua morte a homem nenhum desgoste

E incite o heroísmo das nações distantes!...

Por isso, ele, a morrer, canta vibrantes

Versos divinos que arrebatam a hoste.

 

Não há quem nele um só tremor denote!

-- Continua a cantar, a alma serena...

Mas, de repente, pressentindo a lousa,

 

Batendo com a cabeça no barrote

Da guilhotina, diz ao povo: -- “É pena!

-- Aqui ainda havia alguma cousa...”

 

 

 

Mystica visio

 

Vinha passando pelo meu caminho

Um vulto estranhamente iluminado...

Para onde eu ia, o vulto ia a meu lado

E desde então, não andei mais sozinho!

 

Abraçou-me, beijou-me com um carinho

Que a um ser divino não seria dado...

E eu me elevava, sendo assim beijado

Muito acima do humano burburinho!

 

Falou-me de ilusões e de luares,

Da tribo alegre que povoa os ares...

-- Assombrava-me aquela claridade!

 

Mas através daquelas falsas luzes

Pude rever enfim todas as cruzes

Que têm pesado sobre a Humanidade!

 

 

 

Ilusão

 

Dizes que sou feliz. Não mentes. Dizes

Tudo que sentes. A infelicidade

Parece às vezes com a felicidade

E os infelizes mostram ser felizes!

 

Assim, em Tebas -- a tumbal cidade,

A múmia de um herói do tempo de Ísis,

Ostenta ainda as mesmas cicatrizes

Que eternizaram sua heroicidade!

 

Quem vê o herói, inda com o braço altivo,

Diz que ele não morreu, diz que ele é vivo,

E, persuadido fica do que diz...

 

 

 

Bem como tu, que nessa crença infinda

Feliz me viste no Passado, e a inda

Te persuades de que sou feliz!

 

 

 

Gozo insatisfeito

 

Entre o gozo que aspiro, e o sofrimento

De minha mocidade, experimento

O mais profundo e abalador atrito...

Queimam-me o peito cáusticos de fogo

Esta ânsia de absoluto desafogo

Abrange todo o círculo infinito.

 

Na insaciedade desse gozo falho

Busco no desespero do trabalho,

Sem um domingo ao menos de repouso,

Fazer parar a máquina do instinto,

Mas, quanto mais me desespero, sinto

A insaciabilidade desse gozo!

 

 

 

Dolências

 

Oh! Lua morta de minha vida,

                Os sonhos meus

Em vão te buscam, andas perdida

E eu ando em busca dos rastos teus...

 

Vago sem crenças, vagas sem norte,

Cheia de brumas e enegrecida,

Ah! Se morreste pra minha vida!

Vive, consolo de minha morte!

 

Baixa, portanto, coração ermo

                De lua fria

À plaga triste, plaga sombria

Dessa dor lenta que não tem termo.

 

Tu que tombaste no caos extremo

Da Noite imensa do meu Passado,

Sabes da angústia do torturado...

Ah! Tu bem sabes por que é que eu gemo!

 

Instilo mágoas saudoso, e enquanto

Planto saudades num campo morto,

Ninguém ao menos dá-me um conforto,

Um só ao menos! E no entretanto

 

Ninguém me chora! Ah! Se eu tombar

                Cedo na lida...

Oh! Lua fria vem me chorar

Oh! Lua morta da minha vida!

 

 

 

Idealizações

 

A Santos Neto

 

 

I

 

Em vão flameja, rubro, ígneo, sangrento

O sol, e, fulvos, aos astrais desígnios,

Raios flamejam e fuzilam ígneos,

Nas chispas fulvas de um vulcão violento!

 

É tudo em vão! Atrás da luz dourada,

Negras, pompeiam (triste maldição!)

-- Asas de corvo pelo coração...

-- Crepúsculo fatal vindo do Nada!

 

Que importa o Sol! A Treva, a Sombra -- eis tudo!

E no meu peito -- condenada treva --

A sombra desce, e o meu pesar se eleva

E chora e sangra, mudo, mudo, mudo...

 

E há no mei peito -- ocaso nunca visto,

Martirizado porque nunca dorme

As Sete Chagas dum martírio enorme,

E os Sete Passos que magoaram Cristo!

 

II

 

Agora dorme o astro de sangue e de ouro

Como um sultão cansado! As nuvens como

Odaliscas, da Noite ao negro assomo

Beijam-lhe o corpo ensangüentado d’ouro.

 

Legiões de névoas mortas e finadas

Como fragmentações d’ouro e basalto

Lembram guirlandas pompeando no Alto

Eterizadas, volaterizadas.

 

E a Noite emerge, santa e vitoriosa

Dente um velarium de veludos. Atros,

Descem os nimbos... No ar há malabatros

Turiferando a negridão tediosa.

 

Além, dourando as névoas dos espaços,

Na majestade dum condor bendito,

Subindo à majestade do Infinito,

A Via-Láctea vai abrindo os braços!

 

Áureas estrelas, alvas, luminosas,

Trazem no peito o branco das manhãs

E dormem brancas como leviatãos

Sobre o oceano astral das nebulosas.

 

Eu amo a noite que este Sol arranca!

Namoro estrelas... Sírius me deslumbra,

Vésper me encanta, e eu beijo na penumbra

A imagem lirial da Noite Branca.

 

III

 

De novo, a Aurora, entre esplendores, há-de

Alva, se erguer, como tombou outrora,

E como a Aurora -- o Sol -- hóstia da Aurora,

Abençoada pela Eternidade!

 

E ei-lo de novo, ontem moribundo,

Hoje de novo, curvo ao seu destino,

Fantástico, ciclópico, assassino

Ébrio de fogo, dominando o mundo!

 

Mas de que serve o Sol, se triste em cada

Raio que tomba no marnel da terra,

Mais em meu peito uma ilusão se enterra,

Mais em minh’alma um desespero brada?!

 

De que serve, se, à luz áurea que dele

Emana e estua e se refrange e ferve,

A Mágoa ferve e estua, de que serve

Se é desespero e maldição todo ele?!

 

Pois, de que serve, se aclarandoos cerros

E engalanando os arvoredos gaios,

A alma se abate, como se esses raios

N’alma caindo, se tornassem  ferros?!

 

IV

 

Poeta, em vão na luz do sol te inflamas,

E nessa luz queimas-te em vão! És todo

Pó, e hás de ser após as chamas, lodo,

Como Herculanum foi após as chamas.

 

Ah! Como tu, em lodo tudo acaba,

O leão, o tigre, o mastodonte, a lesma,

Tudo por fim há de acabar na mesma

Tênebra que hoje sobre ti desaba.

 

Ninguém se exime dessa lei imensa

Que, em plena e fulva reverberação,

Arrasta as almas pela Escuridão,

E arrasta os corações pela Descrença.

 

Ergue, pois poeta, um pedestal de tanta

Treva e dor tanta, e num supremo e insano

E extraordinário e grande e sobre-humano

Esforço, sobre ao pedestal, e... canta!

 

Canta a Descrença que passou cortanto

As tuas ilusões pelas raízes,

E em vez de chagas e de cicatrizes

Deixar, foi valas funerais deixando.

 

E foi deixando essas funéreas, frias,

Medonhas valas, onde, como abutres

Medonhos, de ossos, de ilusões te nutres,

Vives de cinzas e de ruinarias!

 

V

 

Agora é noite! E na estelar coorte,

Como recordação da festa diurna,

Geme a pungente orquestração noturna

E chora a fanfarra triunfal da Morte.

 

Então, a Lua que no céu se espalha,

Iluminando as serranias, banha

As serranias duma luz estranha,

Alva como um pedaço de mortalha!

 

Nessa música que a alma me ilumina

Tento esquecer as minhas próprias dores,

Canto, e minh’alma cobre-se de flores

-- Fera rendida à música divina.

 

Harpas concertam! Brandas melodias

Plangem... Silêncio! Mas de novo as harpas

Reboam pelo mar, pelas escarpas,

Pelos rochedos, pelas penedias...

 

Eu amo a Noite que este Sol arranca!

Namoro estrelas... Sírius me deslumbra,

Vésper me encanta, e eu beijo na penumbra

A imagem lirial da Noite Branca!

 

 

 

A vitória do espírito

 

Era uma preta, funeral mesquita,

Abandonada aos lobos e aos leopardos

Numa floresta lúgubre e esquisita.

 

Engalanava-lhe as paredes frias

Uma coroa de urzes e de cardos

Coberta em pálio pelas laçarias.

 

Uma vez, aos lampejos derradeiros

Das irisadas vespertinas velas,

Feras rompiam tojos e balseiros.

 

E pelas catacumbas desprezadas,

Mochos vagavam como sentinelas,

Em atalaia às gerações passadas!

 

Um crepúsculo imenso, nunca visto

Tauxiava o Céu de grandes roxos

Da mesma cor da túnica de Cristo.

 

Fulgia em tudo uma estriação violeta

E um violáceo clarão banhava os mochos

Quem em torno estavam da mesquita preta.

 

Já na eminência da amplidão sidérea

Como uma umbela, se desenrolava

A esteira astral da retração etérea.

 

Os astros mortos refulgiam vivos

E a noite, ampla e brilhante, rutilava

Lantejoulada de opalinos crivos.

 

Súbito alguém, o passo constrangendo,
Parou em frente da mesquita morta...

-- Um vento frio começou gemendo.

 

Era uma viúva, e o olhar errante, a viúva,

Em passo lento, foi transpondo a porta,

Eternamente aberta ao sol e à chuva.

 

A Lua encheu o espaço sem limites

E, dentro, nos altares esboroados,

Foram caindo como estalactites.

 

Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas

Um dilúvio de fósforos prateados

E uma chuva doirada de faíscas.

 

Fora, entretanto, por um chão de onagras

Vinha passeando como numa viagem

Um grupo feio de panteras magras.

 

E havia no atro olhar dessas panteras

Essa alegria doida da carnagem

Que é a alegria única das feras.

 

E ardendo na impulsão das ânsias doidas

E em sevas fúrias, infernais ardendo

Todas as feras, as panteras todas

 

Avançam para a viúva desvalida.

E raivosas, contra ela, arremetendo,

Tiram-lhe todas ali mesmo a vida.

 

Morria a noite. As flâmulas altivas

Do sol nascente erguiam-se vermelhas,

Comouma exposição de carnes vivas.

 

E iam cair em pérolas de sangue

Sobre as asas doiradas das abelhas,

E sobre o corpo da viúva  exangue.

 

A Natureza celebrava a festa

Do astro glorioso em cantos e baladas

-- O próprio Deus cantava na floresta!

 

Nos arvoredos rejuvenescidos,

Estrugiam canções desesperadas

De misereres e de sustenidos.

 

Além, entanto, na redoma clara

Que envolve a porta da região etérea,

O espírito da viúva se quedara

 

Ao contemplar dessa fulgente porta

E dessa clara e alva redoma aérea,

No desfilar de sua carne morta

A transitoriedade da matéria!

 

 

 

Canto íntimo

 

Meu amor, em sonhos erra,

Muito longe, altivo e ufano

Do barulho do oceano

E do gemido da terra!

 

O Sol está moribundo.

Um grande recolhimento

Preside neste momento

Todas as forças do Mundo.

 

De lá, dos grandes espaços,

Onde há sonhos inefáveis

Vejo os vermes miseráveis

Que hão de comer os meus braços.

 

Ah! Se me ouvisses falando!

(E eu sei que às dores resistes)

Dir-te-ia coisas tão tristes

Que acabarias chorando.

 

Que mal o amor me tem feito!

Duvidas?! Pois, se duvidas,

Vem cá, olha estas feridas,

Que o amor abriu no meu peito.

 

Passo longos dias, a esmo...

Não me queixo mais da sort

Nem tenho medo da Morte

Que eu tenho a Morte em mim mesmo!

 

“Meu amor, em sonhos, erra,

Muito longe, altivo e ufano

Do barulho do oceano

E do gemido da terra!” 

 

 

 

A luva

 

Para o Augusto Belmont

 

 

Pansa na glória! Arfa-lhe o peito, opresso.

-- O pensamento é uma locomotiva --

Tem a grandeza duma força viva

Correndo sem cessar para o Progresso.

 

Que importa que, contra ele, horrendo e preto

O áspide bjeto do Pesar se mova!...

E só, no quadrilátero da alcova,

Vem-lhe à imaginação este soneto:

 

“A princípio escrevia simplesmente

Para entreter o espírito... Escrevia

Mais por impulso de idiossincrasia

Do que por uma propulsão consciente.

 

Entendi, depois disso, que devia,

Como Vulcano, sobre a forja ardente

Da Ilha de Lemnos, trabalhar contente,

Durante as vinte e quatro horas do dia!

 

Riam de mim, os monstros zombeteiros,

Trabalharei assim dias inteiros,

Sem ter uma alma só que me idolatre...

 

Tenha a sorte de Cícero proscrito

Ou morra embora, trágico e maldito,

Como Camões morrendo sobre um catre!”

 

Nisto, abre, em ânsias, a tumbal janela

E diz, olhando o céu que além se expande:

“-- A maldade do mundo é muito grande,

Mas meu orgulho ainda é maior do que ela!

 

Ruja a boca danada da profana

Coorte dos homens, com o seu grande grito,

Que meu orgulho do alto do Infinito

Suplantará a própria espécie humana!

 

Quebro montanhas e aos tufões resisto

Numa absoluta impassibilidade”,

E como um desafio à eternidade

Atira a luva para o próprio Cristo!

 

Chove. Sobre a cidade geme a chuva,

Batem-lhe os nervos, sacudindo-o todo,

E na suprema convulsão o doudo

Parece aos astros atirar a luva!

 

 

 

A caridade

 

No universo a caridade

Em contraste ao vício infando

É como um astro brilhando

Sobre a dor da humanidade!

 

Nos mais sombrios horrores

Por entre a mágoa nefasta

A caridade se arrasta

Toda coberta de flores!

 

Semeadora de carinhos

Ela abre todas as portas

E no horror das horas mortas

Vem beijar os pobrezinhos.

 

Torna as tormentas mais calmas

Ouve o soluço do mundo

E dentro do amor profundo

Abrange todas as almas.

 

O céu de estrelas se veste

Em fluidos de misticismo

Vibra no nosso organismo

Um sentimento celeste.

 

A alegria mais acesa

Nossas cabeças invade...

Glória, pois, à Caridade

No seio da Natureza!

 

                                Estribilho

 

Cantemos todos os anos

Na festa da Caridade

A solidariedade

Dos sentimentos humanos.

 

 

 

OUTROS POEMAS ESQUECIDOS

 

 

 

Abandonada

 

Bem depressa sumiu-se a vaporosa

Nuvem de amores, de ilusões tão bela;

 O brilho  se pagou daquela estrela

Que a vida lhe tornava venturosa!

 

Sombras que passam, sombras cor-de-rosa

-- Todas se foram num festivo bando,

Fugazes sonhos, gárrulos voando

-- Resta somente um’alma tristurosa.

 

Coitada! o gozo lhe fugiu correndo,

Hoje ela habita a erma soledade,

Em que vive e em que aos poucos vai morrendo!

 

Seu rosto triste, seu olhar magoado,

Fazem lembrar em noute de saudade

A luz mortiça d’um olhar nublado.

 

 

 

Ceticismo

 

Desci um dia ao tenebroso abismo,

Onde a Dúvida ergueu altar profano;

Cansado de lutar no mundo insano

Fraco que sou volvi ao ceticismo.

 

Da Igreja -- a Grande Mãe -- o exorcismo

Terrível me feriu, e então sereno

De joelhos aos pés do Nazareno

Baixo rezei em fundo misticismo:

 

-- Oh! Deus, eu creio em ti, mas me perdoa!

Se esta dúvida cruel qual me magoa

Me torna ínfimo, desgraçado réu.

 

Ah, entre o medo que o meu ser aterra,

Não sei se viva pra morrer na terra,

Não sei se morra p’ra viver no céu!

 

 

 

A máscara

 

Eu sei que há muito pranto na existência,

Dores que ferem corações de pedra,

E onde a vida borbulha e o sangue medra,

Aí existe a mágua em sua essência.

 

No delírio, porém, da febre ardente

Da ventura fugaz e transitória

O peito rompe a capa tormentória

Para sorrindo palpitar contente.

 

Assim a turba inconsciente passa,

Muitos que esgotam do prazer a taça

Sentem no peito a dor indefinida.

 

E entre a mágoa que a másc’ra eterna apouca

A Humanidade ri-se e ri-se louca

No carnaval intérmino da vida.

 

 

 

O coveiro

 

Uma tarde de abril suave e pura

Visitava eu somente ao derradeiro

Lar; tinha ido ver a sepultura

De um ente caro, amigo verdadeiro.

 

Lá encontrei um pálido coveiro

Com a cabeça para o chão pendida;

Eu senti a minh’alma entristecida

E interroguei-o: “Eterno companheiro

 

Da morte, quem matou-te o coração?”

Ele apontou para uma cruz no chão,

Ali jazia o seu amor primeiro!

 

Depois, tomando a enxada, gravemente,

Balbuciou, sorrindo tristemente:

-- “Ai, foi por isso que me fiz coveiro!”

 

 

 

Pecadora

 

Tinha no olhar cetíneo, aveludado,

A chama cruel que arrasta os corações,

Os seios rijos eram dois brasões

Onde fulgia o simb’lo do pecado.

 

Bela, divina, o porte emoldurado

No mármore sublime dos contornos,

Os seios brancos, palpitantes, mornos,

Dançavam-lhe no colo perfumado.

 

No entanto, esta mulher de grã beleza,

Moldada pela mão da Natureza,

Tornou-se a pecadora vil. Do fado

 

Do destino fatal, presa, morria,

Uma noite entre as vascas da agonia,

Tendo no corpo o verme do pecado!

 

 

 

No claustro

 

Pelas do claustro salas silenciosas,

De lutulentas, úmidas arcadas,

Na vastidão silente das caladas

Abóbadas sombrias tenebrosas,

 

Vagueiam tristemente desfiladas

De freiras e de monjas tristurosas,

Que guardam cinzas de ilusões passadas,
Que guardam pet’las de funéreas rosas.

 

E à noute quando rezam na clausura,

No sigilo das rezas misteriosas,

Nem a sombra mais leve de ventura!

 

Só as arcadas ogivais desnudas,

E as mesmas monjas sempre tristurosas,

E as mesmas portas impassíveis, mudas!

 

 

 

Il trovatore

 

Canta da torre o trovador saudoso

-- Addio, Eleonora! oh! sonhos meus!

E o canto se desprende harmonioso,

Na vibração final do extremo adeus.

 

Repercute dolente, mavioso,

Subindo pelo Azul da Inspiração;

Assim canta também meu coração,

Trovador tortorado e angustioso,

 

Ai! não, não acordeis, lembranças minhas!

Saudade d’umas noutes em que vinhas

Cantar comigo um doce desafio!

 

Mas, pouco a pouco, os sons esmorecendo,

Perdem-se as notas pelo Azul morrendo,

-- Addio Eleonora, addio, addio!

 

 

 

A louca

 

Quando ela passa: -- a veste desgrenhada,

O cabelo revolto em desalinho,

No seu olhar feroz eu adivinho

O mistério da dor que a traz penada.

 

Moça, tão moça e já desventurada;

Da desdita ferida pelo espinho,

Vai morta em vida assim pelo caminho,

No sudário da mágoa sepultada.

 

Eu sei a sua história. -- Em seu passado

Houve um drama d’amor misterioso

-- O segredo d’um peito torturado --

 

E hoje, para guardar a mágoa oculta,

Canta, soluça -- o coração saudoso,

Chora, gargalha, a desgraçada estulta.

 

 

 

Primavera

 

Primavera gentil dos meus amores,

-- Arca cerúlea de ilusões etéreas,

Chova-te o Céu cintilações sidéreas

E a terra chova no teu seio flores!

 

Esplende, Primavera, os teus fulgores,

Na auréola azul, dos dias teus risonhos,

Tu que sorveste o fel das minhas dores

E me trouxeste o néctar dos teus sonhos!

 

Cedo virá, porém, o tiste outono,

Os dias voltarão a ser tristonhos

E tu hás de dormir o eterno sono,

 

Num sepulcro de rosas e de flores,

Arca sagrada de cerúleos sonhos,

Primavera gentil dos meus amores!

 

 

 

A esperança

 

A Esperança não murcha, ela não cansa,

Também como ela não sucumbe a Crença,

Vão-se sonhos nas asas da Descrença,

Voltam sonhos nas asas da Esperança.

 

Muita gente infeliz assim não pensa;

No entanto o mundo é uma ilusão completa,

E não é a Esperança por sentença

Este laço que ao mundo nos manieta?

 

Mocidade, portanto, ergue o teu grito,

Sirva-te a Crença do fanal bendito,

Salve-te a glória no futuro -- avança!

 

E eu, que vivo atrelado ao desalento,

Também espero o fim do meu tormento,

Na voz da Morte a me bradar; descansa!

 

 

 

Soneto

 

Senhora, eu trajo o luto do Passado,

Este luto sem fim que é o meu Calvário

E ansio e choro, delirante e vário,

Sonâmbulo da dor angustiado.

 

Quantas venturas que me acalentaram!

Meu peito túm’lo do prazer finado

Foi outrora do riso abençoado,

O berço onde as venturas se embalaram.

 

Mas não queiras saber nunca risonha

O mistério d’um peito que estertora

E o segredo d’um’alma que não sonha!

 

Não, não busques saber porque, Senhora,

É minha sina perenal, tristonha

-- Cantar o Ocaso quando surge a Aurora.

 

 

 

Sofredora

 

Cobre-lhe a fria palidez do rosto

O sendal da tristeza que a desola;

Chora -- o orvalho do pranto lhe perola

As faces maceradas de desgosto.

 

Quando o rosário de seu pranto rola,

Das brancas rosas do seu triste rosto

Que rolam murchas como um sol já posto

Um perfume de lágrimas se evola.

 

Tenta às vezes, porém, nervosa e louca

Esquecer por momento a mágoa intensa

Arrancando um sorriso à flor da boca.

 

Mas volta logo um negro desconforto,

Bela na Dor, sublime na Descrença,

Como Jesus a soluçar no Horto.

 

 

 

Ecos d’alma

 

Oh! madrugada de ilusões, santíssima,

Sombra perdida lá do meu Passado,

Vinde entornar a clâmide puríssima

Da luz que fulge no ideal sagrado!

 

Longe das tristes noutes tumulares

Quem me dera viver entre quimeras,

Por entre o resplandor das Primaveras

Oh! madrugada azul dos meus sonhares.

 

Mas quando vibrar a última balada

Da tarde e se calar a passarada

Na bruma sepulcral que o céu embaça

 

Quem me dera morrer então risonho

Fitando a nebulosa do meu sonho

E a Via-Láctea da Ilusão que passa!

 

 

 

Amor e crença

 

Sabes que é Deus? Esse infinito e santo

Ser que preside e rege os outros seres,

Que os encantos e a força dos poderes

Reúne tudo em si, num só encanto?

 

Esse mistério eterno e sacrossanto,

Essa sublime adoração do crente,
Esse manto de amor doce e clemente

Que lava as dores e que enxuga o pranto?

 

Ah! Se queres saber a sua grandeza

Estente o teu olhar à Natureza,

Fita a cúp’la do Céu santa e infinita!

 

Deus é o Templo do Bem. Na altura imensa,

O amor é a hóstia que bendiz a crença,

Ama, pois, crê em Deus e... sê bendita!

 

 

 

Arana

 

Ela é o tipo perfeito da ariana.

Branca, nevada, púbere, mimosa,

A carne exuberante e capitosa

Trescala a essência que de si dimana.

 

As níeas pomas do candor da rosa,

Rendilhando-lhe o colo de sultana,

Emergem da camisa cetinosa

Entre as rendas sutis de filigrana.

 

Dorme talvez. Em flácido abandono

Lembra formosa no seu casto sono

A languidez dormente da indiana.

 

Enquanto o amante pálido, a seu lado,

Medita, a fronte triste, o olhar velado,

No Mistério da Carne Soberana.

 

 

 

Tempos idos

 

Não enterres, coveiro, o meu Passado,

Tem pena dessas cinzas que ficaram;

Eu vivo d’essas crenças qe passaram,

E quero sempre tê-las ao meu lado!

 

Não, não quero o meu sonho sepultado

No cemitério da Desilusão,

Que não se enterra assim sem compaixão

Os escombros benditos do Passado!

 

Ai! não me arranques d’alma este conforto!

-- Quero abraçar  o meu Passado morto

-- Dizer adeus aos sonhos meus perdidos!

 

Deixa ao menos que eu suba à Eternidade

Velado pelo círio da Saudade,

Ao dobre funeral dos tempos idos!

 

 

 

Soneto

 

Na rua em funeral ei-la que passa

A romaria eterna dos aflitos,

A procissão dos tristes, dos proscritos,

Dos romeiros saudosos da desgraça.

 

E na choça a lamúria que traspassa

O coração, além, ânsias e gritos

De mães que arquejam sobre os pobrezitos

Filhos que a fome derrubou na praça.

 

Entre todos, porém, lânguida e bela,

Da juventude a  virginal capela

A lhe cingir de luz a fronte baça,

 

Vai Corina mendiga e esfarrapada,

A alma saudosa pelo amor vibrada

-- A Stella Matutina da Desgraça.

 

 

 

Soneto

 

Adeus, adeus, adeus!  E suspirando

Saí deixando morta a minha amada,

Vinha  o luar iluminando a estrada

E eu vinha pela estrada soluçando.

 

Perto um ribeiro claro murmurando

Muito baixinho como quem chorava,

Parecia o ribeiro estar chorando

As lágrimas que eu triste gotejava.

 

Súbito ecoou o sino o som profundo!

Adeus!  -- eu disse. para mim no mundo

Tudo acabou-se, apenas restam mágoas.

 

Mas no mistério astral da noite bela

Pareceu-me inda ouvir o nome dela

No marulhar monótono das águas!

 

 

 

A aenonave

 

Cindindo a vastidão do Azul profundo,

Sulcando o espaço, devassando a terra,

A Aeronave que um mistério encerra

Vai pelo espaço acompanhando o mundo.

 

E na esteira sem fim da azúlea esfera

Ei-la embalada n’amplidão dos ares,

Fitando o abismo sepulcral dos mares

Vencendo o azul que ante si s’erguera.

 

Voa, se eleva em busca do Infinito,

É como um despertar de estranho mito,

Auroreando a humana consciência.

 

Cheia da  luz do cintilar de um astro,

Deixa ver na fulgência do seu rastro

A trajetória augusta da Ciência.

 

 

 

Lirial

 

Porque choras assim, tristonho lírio,

Se eu sou o orvalho eterno que te chora,

P’ra que pendes o cálice que enflora

Teu seio branco do palor do círio?!

 

Baixa a mim, irmã pálida da Aurora,

Estrela esmaecida do Martírio;

Envolto da tristeza no delírio,

Deixa beijar-se a face que descora!

 

Fosses antes a rosa purpurina

E eu beijaria a pétala divina

Da rosa onde não pousa a desventura.

 

Ai! que ao menos talvez na vida escassa

Não chorasses à sombra da desgraça,

Para eu sorrir à sombra da ventura!

 

 

 

A minha estrela

 

Eu disse -- Vai-te, estrela do Passado!

Esconde-te no Azul da Imensidade,

Lá onde nunca chegue esta saudade,

-- A sombra deste afeto estiolado.

 

Disse, e a estrela foi p’ra o Céu subindo,

Minh’alma que de longe a acompanhava,

Viu o adeus que ela do Céu enviava,

E quando ela no Azul foi se sumindo

 

Surgia a Aurora -- a mágica princesa!

E eu vi o Sol do Céu iluminando

A Catedral da Grande Natureza.

 

Mas a noute chegou, triste, com ela

Negras sombras também foram chegando,

E eu nunca mais vi a minha estrela!

 

 

 

Soneto

 

A praça estava cheia. O condenado

Transpunha nobremente o cadafalso,

Puro de crime, isento de pecado,

Vítima augusta de indelével falso.

 

E na atitude do Crucificado,

O olhar azul pregado n’amplidão,

Pude rever naquele desgraçado

O drama lutuoso da Paixão.

 

Quando do algoz cruento o braço alçado

Se dispunha a vibrar sem compaixão

O golpe na cabeça do culpado

 

Ele, o algoz -- o criminoso -- então,

Caiu na praça como fulminado

A soluçar: perdão, perdão, perdão!

 

 

 

Versos d’um exilado

 

Eu vou partir. Na límpida corrente

Rasga o batel o leito d’água fina

-- Albatroz deslizando mansamente

Como se fosse vaporosa Ondina.

 

Exilado de ti, oh! Pátria! ausente

Irei cantar a mágoa peregrina

Como canta o pastor a matutina

Trova d’amor, à luz do sol nascente!

 

Não mais virei talvez e, lá sozinho,

Hei de lembrar-me do meu pátrio ninho

D’onde levo comigo a nostalgia

 

E esta lembrança que hoje me quebranta

E que eu levo hoje como a imagem santa

Dos sonhos todos que já tive um dia!

 

 

 

Ave dolorosa

 

Ave perdida para sempre -- crença

Perdida -- segue a trilha que te traça

O Destino, ave negra da Desgraça,

Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença!

 

Dos sonhos meus na Catedral imensa

Que nunca pouses. Lá, na névoa baça,

Onde o teu vulto lúrido esvoaça,

Seja-te a vida uma agonia intensa!

 

Vives de crenças mortas e te nutres,

Empenhada na sanha dos abutres,

Num desespero rábido, assassino...

 

E hás de tombar um dia em mágoas lentas,

Negrejada das asas lutulentas

Que te emprestar o corvo do Destino!

 

 

 

Nimbus

 

Nimbos de bronze que empanais escuros

O santuário azul da Natureza,

Quando vos vejo negros palinuros

Da tempestade negra e da tristeza,

 

Abismados na bruma enegrecida,

Julgo ver nos reflexos da minh’alma

As mesmas nuvens deslizando em calma,

Os nimbos das procelas desta vida;

 

Mas quando céu é límpido, sem bruma

Que a transparência tolda, sem nenhuma

Nuvem sequer, então, num mar de esp’rança,

 

Que o céu reflete, a vida é qual risonho

Batel, e a alma é a flâmula do sonho,

Que o guia e leva ao porto da bonança.

 

 

 

No campo

 

Tarde. Um arroio canta pela umbrosa

Estrada; as águas límpidas alvejam

Como cristais. Aragem suspirosa

Agita os roseirias que ali vicejam.

 

No Alto, entretanto, os astros rumorejam

Um presságio de noute luminosa

E ei-la que assoma -- a Louca Tenebrosa,

Branca, emergindo às trevas que a negrejam.

 

Chora a corrente múrmura, e, à dolente

Unção da noute, as flores também choram

Num chuveiro de pétalas, nitente,

 

Pendem e caem -- os roseirais descoram

E elas bóiam no pranto da corrente

Que as rosas, ao luar, chorando enfloram.

 

 

 

Insânia

 

No mundo vago das idealidades

Afundei minha louca fantasia;

Cedo atraiu-me a auréola fugidia

Da refulgência antiga das idades.

 

Mas ao esplendor das velhas majestades

Vacila a mente e o seu ardor esfria;

Busquei então na nebulosa fria

Das Ilusões, sonhar novas idades.

 

Que desespero insano me apavora!

Aqui, chora um ocaso sepultado;

Ali, pompeia a luz da branca aurora

 

E eu tremo e hesito entre um mistério escuro

-- Quero partir em busca do Passado

-- Quero correr em busca do Futuro.

 

 

 

O bandolim

 

Cantas, soluças, bandolim do Fado

E de Saudade o peito meu transbordas;

Choras, e eu julgo que nas tuas cordas

Choram todas as cordas do Passado!

 

Guardas a alma talvez d’um desgraçado,

Um dia morto da Ilusão às bordas,

Tanto que cantas, e ilusões acordas,

Tanto que gemes, bandolim do Fado.

 

Quando alta noute, a lua é triste e calma,

Teu canto, vindo de produndas fráguas,

É como as nênias do Coveiro d’alma!

 

Tudo eterizas num coral de endeixas...

E vais aos poucos soluçando mágoas,

E vais aos poucos soluçando queixas!

 

 

 

Ara maldita

 

Como um’ave, cindindo os céus risonhos,

Meiga, tu vinhas a cindir os ares,

E, qual hóstia, caindo dos altares,

Foste caindo n’ara dos meus sonhos.

 

E eu vi os seios teus virem inconhos

-- Esses teus seios que os cerúleos lares

Branquejaram de eternos nenufares,

Para nunca tocarem negros sonhos!

 

Caíste enfim no meu sacrário ardente,

Quiseste-me beijar a ara do peito,

E eu quis beijar-te o lábio redolente.

 

E beijei-te, mas eis que neste enleio,

Tocando n’ara negra o níveo seio,

Caíste morta ao celestial preceito.

 

 

 

Soneto

 

Na etérea limpidez de um sonho branco,

Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta,

E a procela chorou n’um fundo arranco

De mágoa triste e de paixão violenta.

 

E Lúcia disse à bruma lutulenta:

-- Foge, senão co’o o meu olhar te espanco!

E eu vi que, à voz de Lúcia, grave e lenta,

O céu tremia em seu trevoso flanco.

 

Fulgia a bruma para sempre. A vida

Despontava na aurora amortecida

À rutilância mágica do dia.

 

Aquele riso despertava a aurora!

E tudo riu-se, e como Lúcia, agora,

O sol, alegre e rubro, também ria!

 

 

 

Treva e luz

 

Neste pélago escuro em que te afundas,

Longe das sombras aurorais e amadas,

Sentes o peito em ânsias revoltadas,

Diluis teu peito em sensações profundas.

 

Mas, eis que emerges, luminosa, às fundas

Águas do mar das glórias obumbradas,

E, ante o branco estendal das madrugadas,

Nua, em banho ideal de amor te inundas.

 

Agora, à luz das alvoradas santas

Ungem-te o corpo redolências tantas,

Que, ao ver-te nua, o Mundo se concentre,

 

E a lua, a Virgem Mãe dos céus escampos,

Que beija a terra e que abençoa os campos,

Beije-te o seio e te abençoe o ventre!

 

 

 

Soneto

 

O Templo da Descrença -- ei-lo que avisto. A imensa

Cruz da Dor está serena como um lírio!

E vejo o pedestal que sustenta o Martírio;

E vejo o pedestal que sustenta a Descrença!

 

-- A colunata êxul do Sonho Morto -- o círio

Da Quimera Falaz, o túmulo da Crença,

Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa

N’uma fúria assombral de feras em delírio!

 

Penetro louco enfim o abismo funerário,

E a rasgar, a rasgar o lúrido sacrário,

Em mim como no Templo a Angústia se condensa,

 

E em mim como no Templo, urnas de Sonho; e, em bando,

Flores mortas da Aurora, e, eu sombrio chorando

Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença!

A peste

 

Filha da raiva de Jeová -- a Peste

N’um insano ceifar que aterra e espanta,

De espaço a espaço sepulturas planta

E em cada coração planta um cipreste!

 

Exulta o Eterno e... tudo chora, tudo!

Quando Ela passa, semeando a Morte,

Todos dizem co’os olhos para a Sorte

-- É o castigo de Deus que passa mudo!

 

-- Fúlgido foco de escaldantes brasas

-- O sol a segue, e a Peste ri-se, enquanto

Vai devastando o coração das casas...

 

E como  o sol que a segue e deixa um rastro

De luz em tudo, ela, como o sol  -- o astro --

Deixa um rastro de luto em cada canto!

 

 

 

Ideal

 

Quero-te assim, formosa entre as formosas,

No olhar d’amor a mística fulgência

E o misticismo cândido das rosas,

Plena de graça, santa de inocência!

 

Anjo de luz de astral aurifulgência,

Etéreo como as Wilis vaporosas,

Embaladas no albor da adolescência,

-- Virgens filhas das virgens nebulosas!

 

Quero-te assim, formosa, entre esplendores,

Colmado o seio de virentes flores,

A alma diluída em eterais cismares...

 

Quero-te assim -- e que bendita sejas

Como as aras sagradas das igrejas,

Como o Cristo sagrado dos altares.

 

 

 

Sombra imortal

 

-- E tu elas, a sós, no pó da fulgurância

Como uma velha cruz vela na sombra morta!

Fora, a noute é tumbal... e a saudade da infância,

Como um’alma de mãe, me acalenta e conforta!

 

Noute! E somente tu velas a rutilância...

Lua que já passou  e que hoje ainda corta

O penetral que guia à derradeira estância,

O penetral que leva à derradeira porta!

 

Revejo em ti, mulher, num lânguido smorzando

A sombra virginal qu’eu adoro chorando

E há de um dia amparar-me na luta correndo...

 

Ah! que um dia da Vida, estes dardos acúleos

Caíam, também da Dor, lá dos braços hercúleos,

Domados pela meiga Ônfale a que me rendo!

 

 

 

Coração frio

 

Frio o sagrado coração da lua,

Teu coração rolou da luz serena!

E eu tinha ido ver a aurora tua

Nos raios d’ouro da celeste arena...

 

E vi-te triste, desvalida e nua!

E o olhar perdi, ansiando a luz amena

No silêncio notívago da rua...

-- Sonâmbulo glacial da estranha pena!

 

Estavas fria! A neve que a alma corta

Não gele talvez mais, nem mais alquebre

Um coração como a alma que está morta...

 

E estavas morta, eu vi, eu que te almejo,

Sombra de gelo que me apaga a febre,

-- Lua que esfria o sol do meu desejo!

 

 

 

Noturno

 

Para o vale noital da eterna gaza

Rolou o Sol -- imenso moribundo --

E a noute veio na negrura d’asa,

Santificada pela Dor do Mundo!

 

U’a luz, entanto, no negror me abrasa,

E um canto vai morrer no vale fundo...

Que luz é esta que das brumas vasa,

Que canto é este, virginal, profundo?!

 

Rumores santos... e no santo arpejo,

Somente tristes os teus olhos veho,

Para o Infinito e para o Céu voltados!

 

Cantas, e é noute de fatais abrolhos...

Choras, e no meu peito estes teus olhos

Como que cravam dois punhais gelados!

 

 

 

Sedutora

 

Alva d’aurora, e em lânguida sonata

Vinhas transpondo a margem do caminho,

Branca bem como empalidecido arminho,

Alvorejando em arrebol de prata.

 

Bendita a Santa do Carinho, inata!

E, ajoelhando à imagem do Carinho,

O roble altivo  entreteceu-te um ninho,

Alva d’aurora, te acolheu a mata.

 

Pérolas e ouro pela serrania...

No lago branco e rútilo do dia

O azul pompeava para sempre vasto.

 

Chegaste, o seio branco, e, tu, chegando,

Uma pantera foi-se ajoelhando,

Rendida ao eflúvio do teu seio casto!

 

 

 

Pelo mundo

 

Ânsias que pungem, mórbidos encantos,

Crepitações de flamas incendidas

Nalma explodindo como fogos santos,

Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas.

 

Eflúvios quentes e fatais quebrantos

Crestam a alma das virgens adormidas...

E as brumas velam nos sinistros mantos

E as virgens dormem nas tumbais jazidas!

 

Súbitos fremem ‘spasmos derradeiros...

E a paixão morre  e os corações coveiros

Vão como duendes pelos céus risonhos,

 

Chorando auroras músicas perdidas

Na estrada santa ensangüentando as Vidas,

Nos campos-santos enterrando os Sonhos!

 

 

 

Soneto

 

E o mar gemeu a funda melopéia

À luz feral que a tarde morta instila,

Triste como um soluço de Dalila,

Fria como um crepúsculo da Judéia.

 

Já Vésper, no Alto, a lânquida, cintila!

Naquela hora morria para a Idéia

A minha branca e desgraçada Déa,

Qual rosa branca que ao tufão vacila.

 

E o mar chamou-a para o fundo abismo!

E o céu chamou-a para o Misticismo.

Nesse momento a Lua vinha calma

 

E céu e mar num desespero mudo

Não viram que num halo de veludo

À alma de Déa se evolava est’alma.

 

 

 

O riso

 

“Ri, coração, tristíssimo palhaço”.

Cruz e Sousa

 

 

O Riso -- o valtairesco clown -- quem mede-o?!

-- Ele, que ao frio alvor da Mágoa Humana,

Na Via-Láctea fria do Nirvana,

Alenta a Vida que tombou no Tédio!

 

Que à Dor se prende, e a todo o seu assédio,

E ergue à sombra da dor a que se irmana

Lauréis de sangue de volúpia insana,

Clarões de sonho em nimbos de epicédio!

 

Bendito sejas, Riso, clown da Sorte

-- Fogo sagrado nos festins da Morte

-- Eterno fogo, saturnal do Inferno!

 

Eu te bendigo! No mundano cúmulo

És a Ironia que tombou no túmulo

Nas sombras mortas de um desgosto eterno!

 

 

 

Soneto

 

Vamos, querida! Já é Ave-Maria

-- A hora dos tristes e dos descontentes.

Desfaz-se o peito em vibrações dormentes

E o Fado geme sob a névoa fria!

 

Que eu sinta n’alma o que tu n’alma sentes!

Nesta Missa de Atroz Melancolia

Bebes chorando o Vinho da Agonia

-- Consagração das almas padecentes!

 

Foi numa tarde assim que nos amamos.

Silfos morriam... No ar, os gaturamos

Num recesso de névoa, adormecida...

 

Punge-me o peito da Saudade o cardo

Enquanto num mocho, sonolento e tardo,

Canta no espaço a maldição da Vida!

 

 

 

A um mártir

 

Alma em cilício, vem, enrista a clava,

Brande no seio o espículo e o acinace

E unjam-te o seio que d’auroras nasce

Sangrentas bênçãos eclodindo em lava!

 

Nossa Senhora te unge a face escrava,

Cristo saudoso te abençoa a face

De monja -- violeta que do Céu baixasse

À Virgem Santa Natureza brava!

 

Vais caminhando para a terra extrema,

Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema

E a tua crença, o desespero mate-a...

 

E em nuvens d’ouro ascende enfim ao plaustro

Da Neve Eterna, estrela azul do claustro,

Levada para o Azul da Via-Láctea!

 

 

 

Pelo mar

 

Manhã em flor. O mar é um policromo

E imenso lago d’íris e alabastros...

À aurora é brano e ao sol, o mar é como

Um pálio imenso que caiu dos astros.

 

Longe, bem longe, no alvoral assomo

Ergue um navio os altanados mastros

E o Oceano dorme -- alourecido pomo

Num leito irial de pérolas e nastros.

 

A alma da Mágoa vai pelo seu dorso,

Em sonhos geme... Um coração de corso

Geme no mar, vibra no mar, entanto,

 

Colma-lhe o seio a opala das esponjas...

E à noute morta choram vagas -- monjas

Purificadas no cristal do pranto!

 

 

 

Pallida luna

 

És do Passado! Vieste d’alvorada

N’asa dos elfos pela Morte espalma...

Cantas... e eu ouço esta berceuse calma

Da harpa dos mundos ideais do Nada!

 

Ergue o Missal brilhante de tu’alma,

Mas nessa elevação mistificada,

Vem, que eu te espero, Deusa constelada

Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma!

 

Venhas e desças, Lua dos Martírios,

Desças, mas venhas pela unção dos lírios.

Visão de Ocaso de anluaradas comas,

 

Vaso de Unção descido dos espaços,

Para ungirmos nós dois, os nossos paços,

Na tule idealizada dos aromas.

 

 

 

A morte de Vênus

 

Velhos berilos, pálidas cortinas,

Morno frouxel de nardos recendendo

Velam-lhe o sono, e Vênus vai morrendo

No berço azul  das névoas matutinas!

 

Halos de luz de brancas musselinas

Vão-lhe do corpo virginal descendo

-- Abelha irial que foi adormecendo

Sobre um coxim de pérolas divinas.

 

E quando o Sol lhe beija a espádua nua,

Cai-lhe da carne o resplendor da Lua

No reverbero dos deslumbramentos...

 

 

 

Enquanto no ar há sândalos, há flores

E haustos de morte -- os últimos cangores

Da música chorosa dos mementos!

 

 

 

Sonho de amor

 

Sobre o aromal e amplo coxim de Flora,

Que os vapores da tarde inca incensavam

E que um incenso tênue e bom vapora,

Os namorados lânguidos sonhavam.

 

A alma do Ocaso entrava o céu agora

E havia pelas tênebras que entravam

Ora estrangulamentos surdos, ora

Ruídos de carnes que se estrangulavam.

 

E sonharam assim durante toda

A noute, e toda a alva manhã durante!

-- O Sol jorrava largos raios longos

 

E em roda víride e nevado, em roda,

Lembrava o campo um colorido ondeante

De vidros verdes e cristais oblongos!

 

 

 

Soneto

 

A orgia mata a mocidade, quando

Rugem na carne do delírio as feras,

E o moço morre como está sonhando

Nas suas vinte e cinco primaveras.

 

Em cima -- o oiro sem mancha das esferas,

Em baixo oiro manchado de execrando

Festim de sibaritas, de heteras

Lubricamente se despedaçando!

 

Em cima, a rede do estelário imáculo

Suspensa no alto como um tabernáculo

-- A orgia, em baixo, e no delírio doudo

 

Como arvoredos juvenis tombados

Os moços mortos, os brasões manchados,

E um turbilhão de púrpuras no lodo!

 

 

 

Soneto

 

E ele morreu. Ele que foi um forte

Que nunca se quebrou pelo Desgosto

Morreu... mas não deixou na ara do rosto

Um só vestígio que acusasse a Morte!

 

O anatomista que investiga a sorte

Das vidas que se abismam no Sol-posto

Ficaria admirado do seu rosto

Vendo-o tão belo, tão sereno e forte!

 

Quando meu Pai deixou o lar amigo

Um sabiá da casa muito antigo,

Que há muito tempo não cantava lá,

 

Diluiu o silêncio em litanias...

E hoje, poetas, já faz sete dias

Que eu ouço o canto desse sabiá!

 

 

 

Vae victis

 

A Dor meu coração torça e retorça

E me retalhe como se retalha

Para escárnio e alegria da canalha

Um leão vencido que perdeu a força!

 

Sobre mum caia essa vingança corsa,

Já que perdi a última batalha!

E, enquanto o Tédio a carne me trabalha,

A Dor meu coração torça e retorça!

 

Cubra-me o corpo a podridão dos trapos!

Os vibriões, os vermes vis, os sapos

Encontrem nele pábulo eviterno...

 

-- Repositório de milhões de miasmas

Onde se fartem todos os fantasmas,

Primavera, verão, outono, inverno!

 

 

 

A dor

 

Chama-se a Dor, e quando passa, enluta

E todo mundo que por ela passa

Há de beber a taça da cicuta

E há de beber até o fim da taça!

 

Há de beber, enxuto o olhar, enxuta

A face, e o travo há de sentir, e a ameaça

Amarga dessa desgraçada fruta

Que é a fruta amargosa da Desgraça!

 

E quando o mundo todo paralisa

E quando a multidão toda agoniza,

Ela, inda altiva, ela, inda o olhar sereno

 

De agonizante multidão rodeada,

Derrama em cada boca envenenada

Mais uma gota do fatal veneno!

 

 

 

Terra fúnebre

 

Aqui morreram tantos poetas! Tanta

Guitarra morta este lugar encerra!...

Aqui é o Campo-Santo, aqui é a Terra!

Em que a alma chora e em que a Saudade canta!

 

O caminheiro que o Pesar desterra,

Pare chorando nesta Terra Santa,

E se cantar como a Saudade canta,

O caminheiro fique nesta Terra!

 

À noute aqui um trovador eterno

Chora, abraçado às campas dos poetas,

-- Esse sombrio trovador é o Inverno!

 

Aqui é a Terra, onde, ao noturno açoute,

Carpem na sombra pássaros ascetas,

Gemem poetas -- pássaros da Noute!

 

 

 

Soneto

 

O sonho, a crença e o amor, sendo a risonha

Santíssima Trindade da Ventura

Pode ser venturosa a criatura

Que não crê, que não ama e que não sonha?!

 

Pois a alma acostumada a ser tristonha

Pode achar por acaso ou porventura

Felicidade numa sepultura,

Contentamento numa dor medonha?!

 

Há muito tempo, o sonho, do meu seio
Partiu num célere arrebatamento

De minha crença arrebentando a grade

 

Pois se eu não amo e se também não creio

De onde me vem este contentamento,

De onde me vem esta felicidade?!

 

 

 

Meditando

 

Penso em venturas! A alma do homem pensa

Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem

Há de embalar eternamente a crença

Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem!

 

Punjam-no os vermes da Desgraça, assomem

Descrenças, surjam tédios na Descrença,

Luta, e morrem os vermes que o consomem,

Vence, e por fim, nada há que o abata e o vença!

 

Por isso, poeta, eu penso na Ventura!

E o pensamento, na Suprema Altura

Sinto, no imenso Azul do Firmamento

 

Ir rolando pelo ouro das estrelas,

E esse ouro santo vir rolando pelas

Trevas profundas do meu pensamento!

 

 

 

Soneto

 

Para que nesta vida o espírito esfalfaste

Em vãs meditações, homem meditabundo?!

Escalpelaste todo o cadáver do mundo

E, por fim, nada achaste... e, por fim, nada achaste!

 

A loucura destruiu tudo que arquitetaste

E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo!...

De que te serviu, pois, estudares, profundo,

O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?!

 

Pois, para penetrar o mistério das lousas,

Foi-te mister sondar a substância das cousas

Construíste de ilusões um mundo diferente,

 

Desconheceste Deus no vidro do astrolábio

E quando a ciência vã te proclamava sábio

A tua construção quebrou-se de repente!

 

 

 

O ébrio

 

Bebi! Mas sei porque bebi!... Buscava

Em verdes nuanças de miragens, ver

Se nesta ânsia suprema de beber,

Achava a Glória que ninguém achava!

 

E todo o dia então eu me embriagava

-- Novo Sileno, -- em busca de ascender

A essa Babel fictícia do Prazer

Que procuravam e que eu procurava.

 

Trás de mim, na atra estrada que trilhei,

Quantos também, quantos também deixei,

Mas eu não contarei nunca a ninguém.

 

A ninguém nunca eu contarei a história

Dos que, como eu, foram buscar a Glória

E que, como eu, irão morrer também.

 

 

 

O canto da coruja

 

A coruja cantara-lhe na porta

Sinistramente a noite inteira! Indício

Mais certo não havia!  -- Era o suplício!...

Daí a pouco, ela seria morta.

 

Saiu. O Sol ardia.  A estrada torta

Lembrava a antiga ponte de Sublício...

Havia pelo chão um desperdício

De folhas que a áurea xantofila corta.

 

Nisto, ouve o canto aziago da coruja!

-- Quer fugir, e não vê por onde fuja.

Implora a Deus como a um fetihe vago...

 

-- Se ao menos voasse! -- E o horror começa! Rasga

As vestes; uma convulsão a engasga

E morre ouvindo o mesmo canto aziago!

 

 

 

Nome maldito

 

Das trombetas proféticas o alarde

Falou-lhe, por seus onze augúrios certos:

“É maldito o teu nome! E aos céus abertos,

Não há divina proteção que o guarde!”

 

Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos

E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E, à tarde,

Saiu aos tombos, como um cão covarde,

A percorrer desertos e desertos...

 

E, assombrado, com medo do Infinito,

Por toda a parte, onde, aos tropeços, ia,

Por toda a parte viu seu nome escrito!

 

Vieram-lhe as ânsias. Teve sede e fome...

E foi assim que ele morreu um dia

Amaldiçoado pelo próprio nome!

 

 

 

Dolências

 

Eu fui cadáver antes de viver!

Meu corpo, assim como o de Jesus Cristo,

Sofreu o que olhos de homem não têm visto

E olhos de fera não puderam ver!

 

Acostumei-me, assim, pois, a sofrer

E acostumado a assim sofrer existo...

Existo! -- E apesar disto, apesar disto

Inda cadáver hei também de ser!

 

Quando eu morrer de novo, amigos, quando

Eu, de saudades me despedaçando

De novo, triste e sem cantar, morrer,

 

Nada se altere em sua marcha infinda

-- O tamarindo reverdeça ainda,

A lua continue sempre a nascer!

 

 

 

A lágrima

 

-- Faça-me o obséquio de trazer reunidos

Clorureto de sódio, água e albumina...

Ah! Basta isto, porque isto é que origina

A lágrima de todos os vencidos!

 

-- A farmacologia e a medicina

Com a relatividade dos sentidos

Desconhecem os mil desconhecidos

Segredos dessa secreção divina.

 

-- O farmacêutico me obtemperou. --

Vem-me então à lembrança o pai ioiô

Na ânsia psíquica da última eficácia!

 

E logo a lágrima em meus olhos cai.

Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai

Do que todas as drogas da farmácia!

 

 

 

Ave libertas

 

Ao clarão da madrugada,

Da liberdade ao toque alvissareiro,

Banhou-se o coração do Brasileiro

Num eflúvio de luz auroreada.

 

É que baqueia a vida escravizada!

Já se ouvem os clangores do pregoeiro,

Como um Tritão, levando ao mundo inteiro,

Da República a nova sublimada.

 

E ali do despotismo entre os escombros,

Rola um drama que a Pátria exalça e doura

Numa auréola de paz imorredoura,

A República rola-lhe nos ombros;

 

Enquanto fora na trevosa agrura

Sucumbe o servilismo, e, esplendorosa,

A liberdade assoma majestosa,

-- Estrela d’Alva imaculada e pura!

 

É livre a Pátria outrora opressa e exangue!

Esse labéu que mancha a glória pública,

Que apouca o triunfo e que se chama sangue,

Manchar não pode as aras da República.

 

Não! que esse ideal puro, risonho,

Há de transpor sereno os penetrais

Da Pátria, e há de elevar-se neste sonho

Ao topo azul das Glórias Imortais!

 

Esplende, pois, oh! Redentora d’alma,

Oh! Liberdade, essa bendita e branca

Luz que os negrores da opressão espanca,

Essa luz etereal bendita e calma.

 

Vós, oh Pátria, fazei que destes brilhos,

Caia do santuário lá da História,

Fulgente do valor da vossa glória,

A bênção do valor dos vossos filhos!

 

 

 

Quadras

 

Embala-me em teus braços,

De amores bons à sombra --

Quero em cheirosa alfombra

Pousar os sonhos lassos!

 

Teus seios, oh! morena

-- Relíquias de Carrara --

Têm a ambrosia rara

Da mais rara verbena.

 

Aperta-me em teu peito,

E dá-me assim, divina,

De lírios e boninas

Um veludíneo leito.

 

Assim como Jesus,

Eu quero o meu Calvário

-- Anelo morrer vário

Dos braços teus na Cruz!

 

Porque não me confortas?!

Bem sei, perdeste a ciência,

Morreu-te a redolência,

Alma das virgens mortas --

 

Mas não! Apaga os traços

De tão funesto aspeito...

Aperta-me em teu peito,

Embala-me em teus braços!

 

 

 

Vênus morta

 

A Via-Sacra Azul do amor primeiro

Veste hoje o luto que a desgraça veste

No miserere do meu desespero...

 

-- Lotus diluído n’alma dum cipreste!

Como um lilás eternizando abrolhos

Tinge de roxo o arminho da grinalda,

Rola a violeta santa dos teus olhos

-- Tufos de goivo em conchas de esmeralda.

 

No vácuo imenso das desesperanças

E dos passados viços,

Recordo o beijo que te dei nas tranças

Emolduradas num florão de riços.

 

E como um nume de pesar, plangente,

Guarda a saudade que levou do Marne,

Eu guardo o travo deste beijo ardente

E a Nostalgia desta Pátria -- a Carne.

 

Sonho abraçar-te, pálida camélia,

Mas neste sonho, langue e seminua,

Pareces reviver a antiga Ofélia,

Opalescência trágica da lua!

 

Tu, oh Quimera, de reverberantes

E rubras asas de beliantos pulcros,

Crava-lhe n’alma o tirso das bacantes,

Brande-lhe n’alma o frio dos sepulcros.

 

Reza-lhe todo o cantochão memento

Dessa Missa de amor da Extrema Agrura,

Abençoada pelo meu tormento

E consagrada pela sepultura.

 

E que ela suba na serena gaza

Dos mistérios dourados e serenos

À terra Ideal das púrpuras em brasa

E ao Céu doirado e auroreal de Vênus!

 

 

 

Ode ao amor

 

Enches o peito de cada homem, medras

Nalma de cada virgem, e toda a alma

Enches de beijos de infinita calma...

E o aroma dos teus beijos infinitos

Entra na terra, bate nos granitos

E quebra as rochas e arrebenta as pedras!

 

És soberano! Sangras e torturas!

Ora, tangendo tiorbas em volatas,

Cantas a Vida que sangrando matas,

Ora, clavas brandindo em seva e insana

Fúria, lembras, Amor, a soberana

Imagem pétrea das montanhas duras.

 

Beijam-te o passo multidões escravas

Dos Desgraçados! -- Estas multidões

Sonham pátrias doiradas de ilusões

Entre os tórculos negros da Desgraça

-- Flores que tombam quando a neve passa

No turblhão das avalanches bravas!

 

Tudo dominas! -- Dos vergéis tranqüilos

Aos Capitólios, e dos Capitólios

Aos claros pulcros e brilhantes sólios

De esplendor pulcro e de fulgências claras,

Rendilhados de fulvas gemas raras

E pontilhados de crisoberilos.

 

Sobes ao monte ondeo edelweiss pompeia

Nalma do que subiu àquele monte!

Mas, vezes, desces ao segredo insonte

Do mar profundo onde a sereia canta

E onde a Alcíone trêmula se espanta

Ouvindo a gusla crebra da sereia!

 

Rompe a manhã. Sinos além bimbalham.

Troa o conúbio dos amores velhos

-- As borboletas e os escaravelhos

Beijam-se no ar...Retroa o sino. E, quietos

Beijam-se além os silfos e os insetos

Sob a esteira dos campos que se orvalham.

 

E em tudo estruge a tua dúlia -- dúlia

Que na fibra mais forte e até na fibra

Mais tênue, chora e se lamenta e vibra...

E em cada peito onde um Ocaso chora

Levanta a cruz da redenção da Aurora

Como a Judite a redimir Betúlia!

 

Bem haja, pois, esse poder terrível,

-- Essa dominação aterradora

-- Enorme força regeneradora

Que faz dos homens um leão que dorme

E do Amor faz uma potência enorme

Que vela sobre os homens, impassível!

 

Esta de amor onde queixosa, Irene,

Quedo, sonhei-a, aos astros, ontem, quando

Entre estrias de estrelas, fosforeando,

Egrégia estavas no teu plaustro egrégio

Mais bela do que a Virgem de Corrégio

E os quadros divinais de Guido Reni!

 

Qual um crente em asiático pagode,

Entre timbales e anafis estrídulos,

Cativo, beija os áureos pés dos ídolos,

Assim, Irene, eis-me de ti cativo!

Cativaste-me, Irene, e eis o motivo,

Eis o motivo porque fiz esta ode.

 

 

 

Canto de agonia

 

Agonia de amor, agonia bendita!

-- Misto de infinita mágoa e de crença infinita.

Nos desertos da Vida uma estrela fulgura

E o Viajeiro do Amor, vendo-a, triste, murmura:

-- Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como

Chorei, ontem, a sós, num volutuoso assomo,

Numa prece de amor, numa felícia infinda,

Delícia que ainda gozo, oração, prece que ainda

Entre saudades rezo, e entre sorrisos e entre

Mágoas soluço, até que esta dor se concentre

No âmago de meu peito e de minha saudade.

Amor, escuridão e eterna claridade...

-- Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve,

Frio que me assassina, amor e frio, neve,

Neve que me embala como um berço divino,

Neve da minha dor, neve do meu destino!

E eu aqui a chorar nesta noite tão fria!

Agonia, agonia, agonia, agonia!

-- Diz e morre-lhe a voz, e cansado e morrendo

O Viajeiro vai, e vê a luz e vendo

Uma sombra que passa, uma nuvem que corre,

Caminha e vai, o louco, abraça a sombra e... morre!

E a alma se lhe dilui na amplidão infinita...

Agonia de amar, agonia bendita!

História de um vencido

 

Sol alto. A terra escalda: é um forno. A flama oriunda

Da solar refração bate no mundo, acende

O pó, aclara o mar e por tudo se estende

E arde em tudo, mordendo a atra terra infecunda.

 

E o Velho veio para o labor cotidiano,

Triste, do alegre Sol ao grande globo quente

E pôs-se para aí, desoladoramente

A revolver da terra o atro e infecundo arcano.

 

Por seis horas seu braço empenhado na luta,

Fez reboar pelo solo, alta e descompassada

A dura vibração incômoda da enxada,

Rasgando, do agro solo, a superfície bruta.

 

Mas o braço cansou! Trabalhou... e o trabalho

-- Do Eterno Bem motor principal e alavanca --

Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca

De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho!

 

Sangrou-lhe o coração e a saudade da Aurora!

-- O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era!

E surpreendido viu que um abismo se erguera

Entre o fraco que era hoje, e entre o Hércules de outrora!

 

Pois havia de assim, nesta maldita senda

De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro

Ir caminhando até tombar sem um amparo

No tremendo marnel da Desgraça tremenda?!

 

II

 

Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo

E ele, lúgubre e só, trôpego e cambaleando

Foi-se arrastando, foi aos poucos se arrastando,

Para as bordas fatais dum precipício fundo!

 

Quis um momento ainda olhar para o Passado...

E em tudo que o rodeava, oito vezes, funéreo

Horrorizado viu como num cemitério

Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado!

 

De súbito, avistando uma frondosa tília

Julgou, louco, avistar a ÁRvore da Esperança...

E bateram-lhe então de chofre na lembrança

A casa que deixara, os filhos, a família!

 

Não morreria, pois! Somente morreria

Se da Vida, sozinho, ele pisasse os trilhos...

Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?!

Preciso era viver! Portanto, viveria!

 

Viveria! E a fecunda e deleitosa seara

Verde dos campos, onde arde e floresce a Crença,

Compensaria toda a sua dor imensa

Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara!

 

E aos tropeços, tombando, o Velho caminhava...

Caminhava, e a sonhar, bêbado de miragem,

Nem viu que era chegado o termo da viagem,

E amplo, a rugir-lhe aos pés, o precipício estava.

 

Num instante viu tudo, e compreendendo tudo,

Quis fazer um esforço -- o último esforço, e o braço

Pendeu exangue, o peito arqueou-se, o cansaço

Empolgara-o, e ele quis falar e estava mudo!

 

Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?!

E trágico, no horror brutoda despedida

Abraçou-se com a Dor, abraçou-se com a Vida

E sepultou-se ali no coração das águas!

 

Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos!

Eram tropeiros, era a turba trovadora

Que assim cantava, enquanto a Terra Vencedora

Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos!

 

E o cadáver, a toa, a flux d’água, flutua!

Ninguém o vê, ninguém o acalenta, o acalenta...

Somente entre a negrura atra da terra poenta

Alguém beija, alguém vela o cadáver: a Lua!

 

 

 

Estrofes sentidas

 

Eu sei que o Amor enche o Universo todo

E se prende dos poetas à guitarra

Como o pólipo que se agarra ao lodo

E a ostra que às rochas eternais se agarra.

 

O amor reduz-nos a uniformes placas,

Uniformiza todos os anelos

E une organizações fortes e fracas

Nos mesmos laços e nos mesmos elos.

 

Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma,

E, desvairado, sem prever o abismo

Fiz desse amor um ídolo de Roma,

Eleito Deus no altar do fetichismo!

 

Tudo sacrifiquei para adorá-lo

-- Mas hoje, vendo o horror dos meus destroços,

Tenho vontade de estrangulá-lo

E reduzi-lo muitas vezes a ossos!

 

Todo o ser que no mundo turbilhona

Veja do Amor, à luz das minhas frases,

Uma montanha que se desmorona,

Estremecendo em suas próprias bases.

 

E em qualquer parte do Universo veja --

Sombrias ruínas de um solar egrégio

E o desmoronamento duma Igreja

Despedaçada pelo sacrilégio.

 

A Natureza veste extraordinárias

Roupagens de ouro. Além, nas oliveiras,

Aves de várias cores e de várias

Espécies, cantam óperas inteiras.

 

A compreensão da minha niilidade

Aumenta à proporção que aumenta o dia

E pouco a pouco o encéfalo me invade

Numa clareza de fotografia.

 

Na área em que estou, ao matinal assomo,

Passa um rebanho de carneiros dóceis...

E o Sol arranca as minhas crenças como

Boucher de Perthes arrancava fósseis.

 

Observo então a condição tristonha

Da Humanidade, ébria de fumo e de ópio,

Tal qual ela é, e não tal qual a sonha

E a vê o Sábio pelo telescópio.

 

O Sábio vê em proporções enormes

Aquilo que é composto de pequenas

Partes, construindo corpos quase informes

E aquilo que é uma parcela apenas.

 

Da observação nos elevados montes

Prefiro, à nitidez real dos aspectos,

Ver mastodontes onde há mastodontes

E insetos ver onde há somente insetos.

 

A inanidade da Ilusão demonstro

Mas, demonstrando-a, sinto um violento

Rancor da Vida -- este maldito monstro

Que no meu próprio estômago alimento!

 

Nisto a alma o ofício da Paixão entoa

E vai cair, heroicamente, na água

Da misteriosíssima lagoa

Que a língua humana denomina Mágoa!

 

Dos meus sonhos o exército desfila

E, à frente dele, eu vou cantando a nênia

Do Amor que eu tive e que se fez argila,

Como Tirteu na guerra de Messênia!

 

Transponho assim toda a sombria escarpa

Sinistro como quem medita um crime...

E quando a Dor me dói, tanjo minha harpa

E a harpa saudosa a minha Dor exprime!

 

Estes versos de amor que agora findo

Foram sentidos na solidão de uma horta,

À sombra dum verdoengo tamarindo

Que representa a minha infância morta!

 

 

 

FIM

Eu e Outras Poesias, de Augusto dos Anjos

 

Fonte:

ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. 42. ed. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1998.

Texto proveniente de:

A Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa

http://www.bibvirt.futuro.usp.br>

A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo

Permitido o uso apenas para fins educacionais.

 

Texto-base digitalizado por:

Francisco de Mesquita Moreira – Rio de Janeiro/RJ

 

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