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De Pernas para o Ar – Eduardo Galeano – Excertos

Apresentação

            Há anos tenho o projeto de resumir esse livro sensacional de Eduardo Galeano. Impossível. Trata-se de uma coletânea de dados muito bem feita com a utilização, em frases curtas e um estilo magistral, de um “instantâneo” desse Início de Século. Com o seu falecimento na segunda-feira passada, resolvi finalmente tomar coragem e fazer pelo menos uma breve compilação de excertos da Obra que merece ser lida.

Lázaro Curvêlo Chaves – 16./04/2015

 

 

 

 

Epígrafe

            “No século XXI, o mundo ao avesso está à vista de todos; o mundo tal qual é, com a esquerda na direita, o umbigo nas costas e a cabeça nos pés.”

 

Mensagem aos Pais

            “Hoje em dia as pessoas já não respeitam nada. Antes, colocávamos num pedestal a Virtude, a Honra, a Verdade e a Lei... A Corrupção campeia na vida americana de nossos dias. Onde não se obedece outra lei, a Corrupção é a única lei. A Corrupção está minando este país. A Virtude, a Honra e a Lei se evaporaram de nossas vidas.”

(Declaração de Al Capone ao jornalista Cornelius Vanderbilt Jr. Entrevista publicada na revista Liberty em 17 de outubro de 1931, dias antes de Al Capone ir para a prisão.)

 

Os Alunos

            “Dia após dia nega-se às crianças o direito de ser crianças. Os fatos, que zombam desse direito, ostentam seus ensinamentos na vida cotidiana. O mundo trata os meninos ricos como se fossem dinheiro, para que se acostumem a atuar como o dinheiro atua. O mundo trata os meninos pobres como se fossem lixo, para que se transformem em lixo. E os do meio, os que não são ricos nem pobres, conserva-os atados à mesa do televisor, para que aceitem desde cedo, como destino, a vida prisioneira. Muita magia e muita sorte têm as crianças que conseguem ser crianças.”

            “Na América Latina, crianças e adolescentes somam quase a metade da população total. Metade dessa metade vive na miséria. Sobreviventes: na América Latina, a cada hora, cem crianças morrem de fome ou de doenças curáveis, mas há cada vez mais crianças pobres em ruas e campos dessa região que fabrica pobres e proíbe a pobreza. Crianças são, em sua maioria, os pobres; e pobres são, em sua maioria, as crianças. E entre todos os reféns do sistema, são elas que vivem em pior condição. A sociedade as espreme, vigia, castiga e às vezes mata; quase nunca escuta, jamais a compreende.”

 

Para que o surdo escute

            “Nos países latino-americanos, a hegemonia do mercado está rompendo os laços de solidariedade e fazendo em pedaços o tecido social comunitário. Que destino têm os joões-ninguém, os donos de nada, em países onde o direito à propriedade já se torna o único direito? E os filhos dos joões-ninguém? Muitos deles, cada vez mais numerosos, são compelidos pela fome ao roubo, à mendicidade e à prostituição. A sociedade de consumo os insulta oferecendo o que nega. E eles se lançam aos assaltos, bandos de desesperados unidos pela certeza de que a morte os espera: segundo a UNICEF, há dez milhões de meninos abandonados nas grandes cidades latino-americanas. Segundo a organização Human Rights Watch, os esquadrões parapoliciais assassinam seis meninos por dia na Colômbia e quatro por dia no Brasil.”

 

Curso Básico de Injustiça

            “A publicidade manda consumir e a economia o proíbe. As ordens de consumo, obrigatórias para todos, mas impossíveis para a maioria, são convites ao delito. Sobre as contradições de nosso tempo, as páginas policiais dos jornais ensinam mais do que as páginas de informação política e econômica. Este mundo, que oferece o banquete a todos e fecha a porta no nariz de tantos, é ao mesmo tempo igualador e desigual: igualador nas ideias e nos costumes que impõe, desigual nas oportunidades que proporciona.”

 

 

 

Pontos de Vista

            “Do ponto de vista das estatísticas, se uma pessoa recebe mil dólares e outra não recebe nada, cada uma dessas duas pessoas aparece recebendo quinhentos dólares no cálculo da receita per capita. Do ponto de vista da luta contra a inflação, as medidas de ajuste são um bom remédio. Do ponto de vista de quem as padece, as medidas de ajuste multiplicam o cólera, o tifo, a tuberculose e outras maldições.”

 

A Linguagem

            “A cada vez que se reúnem, e se reúnem com inútil frequência, os presidentes das Américas emitem comunicados repetindo que “o mercado livre contribuirá para a prosperidade”. Para a prosperidade de quem é algo que não fica muito claro. A Realidade, que também existe, embora às vezes não se note, e que fala embora às vezes se faça de muda, nos informa que o livre fluxo de capitais está engordando cada dia mais os narcotraficantes e os banqueiros que acoiam seus narcodólares. O desmoronamento dos controles públicos, nas finanças e na economia, facilita-lhes o trabalho: proporciona-lhes boas máscaras e lhes permite organizar, com maior eficiência, os circuitos de distribuição de droga e a lavagem de dinheiro sujo. Diz também a Realidade que esse sinal verde está servindo para que o norte do mundo possa dar rédea solta à sua generosidade, instalando no sul e no leste suas indústrias mais poluidoras, pagando salários simbólicos, presenteando-nos com seus lixos nucleares e outros lixos.”

 

Justiça

            “Em 1997, um automóvel de placa oficial trafegava em velocidade normal por uma Avenida de São Paulo. No carro, que era novo e caro, iam três homens. Num cruzamento, um policial mandou o carro parar. Fez com que os três desembarcassem e os manteve durante uma hora de mãos para cima, e de costas, enquanto os interrogava insistentemente, querendo saber onde tinham furtado o veículo. Os três homens eram negros. Um deles, Edivaldo Brito, era Secretário de Justiça do governo do Estado de São Paulo. Os outros dois eram funcionários da Secretaria. Para Brito, aquilo não era uma novidade. Em menos de um ano, já lhe acontecera cinco vezes a mesma coisa. O policial que os deteve também era negro.”

 

O medo global

            “Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não tem medo da fome, tem medo da comida. Os motoristas têm medo de caminhar e os pedestres têm medo de ser atropelados. A democracia tem medo de lembrar e a linguagem tem medo de dizer. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras. É o tempo do medo. Medo da mulher da violência do homem e medo do homem da mulher sem medo. Medo dos ladrões, medo da polícia. Medo da porta sem fechaduras, do tempo sem relógios, da criança sem televisão, medo da noite sem comprimidos para dormir e medo do dia sem comprimidos para despertar. Medo da multidão, medo da solidão, medo do que foi e do que pode ser, medo de morrer, medo de viver.”

 

O inimigo público

            “No princípio de 1998, o jornalista Samuel Blixen fez uma comparação eloquente. O butim de cinquenta assaltos, realizados pelas mais audaciosas quadrilhas de delinquentes do Uruguai, somava cinco milhões de dólares. O butim de dois bancos, cometidos sem fuzis ou pistolas, por um banco e um financista, somava setenta milhões.”

 

Cuidado

            O desenhista argentino Nick imaginou um jornalista entrevistando um vizinho de bairro, que responde agarrado às grades:

            _Veja... Todos nós colocamos grades nas janelas, câmeras de tevê, holofotes, ferrolhos duplos e vidro blindado...

            _ Você ainda recebe seus parentes?

            _ Sim, tenho um regime de visitas.

            _ E o que diz a polícia?

            _ Diz que, se eu tiver bom comportamento, no domingo pela manhã poderei ir à padaria.

 

Trabalhos Práticos: como triunfar na vida e fazer amigos

            “O crime é o espelho da ordem. Os delinquentes que povoam as prisões são pobres e quase sempre atuam com armas curtas e métodos caseiros. Se não fosse por esses defeitos da pobreza e do feito artesanal, os delinquentes de bairro bem poderiam ostentar faixas presidenciais, cartolas de cavalheiros, mitras de bispos e togas de juízes; e assinariam decretos governamentais em lugar de apodar a impressão digital ao pé das confissões...”

 

 

Lições da Sociedade de Consumo

            “O Suplício de Tântalo atormenta os pobres. Condenados à sede e à fome, também estão condenados a contemplar os manjares que a publicidade oferece. Quando aproximam a boca ou levam a mão, as maravilhas se afastam. E se, aventurando-se ao assalto, conseguem dar de mão em alguma, vão parar na cadeia ou no cemitério. Manjares de plástico, sonho de plástico. É de plástico o paraíso que a televisão promete a todos e a poucos dá. A seu serviço estamos. Nesta civilização onde as coisas importam cada vez mais e as pessoas cada vez menos, os fins foram sequestrados pelos meios: as coisas te compram, o computador te programa, a TV te assiste...”

 

 

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