|
Heráclito de Éfeso
"Para Deus tudo é belo e bom e justo; os
homens, contudo, julgam umas coisas injustas e outras justas."
As palavras de Heráclito vêm
provocando debates acirrados há vinte e seis séculos. Muito se discutiu sobre
ele entre já entre os gregos e romanos, mais tarde foi tema de debates entre
cristãos e muçulmanos e na filosofia moderna e contemporânea ressurge sempre de
tempos em tempos com renovado interesse. De sua Obra só conhecemos pouco mais de
uma centena de frases, os aforismo sempre citados em pelos mais diversos autores
a partir de uma das muitas coletâneas que se fizeram.
Aqueles fragmentos de Heráclito são
aforismos, frases definitivas, cortantes, frente às quais ninguém passa
impunemente. Não provém de um texto único. Já nasceram na forma de aforismos
que, por causa de sua natureza oracular, sibilina, granjearam a seu Autor a fama
de “obscuro”.
O pensamento aforismático não oculta
nem revela a plenitude do saber do pensador. Limita-se a indicá-lo e cabe a quem
interpreta buscar-lhe a compreensão.
Como sinais, os aforismos de
Heráclito não revelam nem ocultam seu pensar, mas o indica por sinais
fulgurantes. Obscuro ou luminoso, de acordo com a perspectiva que se adote,
trazem uma reflexão nova a partir de uma nova perspectiva, a do fogo.
O que equivale, guardadas as devidas
proporções, à nossa Tabela Periódica de Elementos Químicos, entre os gregos
reduz-se a quatro grandes princípios originais: fogo, água, ar, terra. Para os
mais conservadores, a terra, é o primeiro princípio. Para aqueles que se adaptam
às circunstâncias, é a água. Para os suaves é o ar. Para Heráclito e todos os
revolucionários é o fogo.
Tudo é feito pelo fogo e tudo se
dissipa no fogo. Tudo está submetido ao destino. O movimento – o devenir
perpétuo – determina toda a harmonia do mundo.
O fogo eternamente vivo
“Este mundo, que é o mesmo
para todos, nenhum dos deuses ou dos homens o fez; mas foi sempre, é e será um
fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se apaga com medida” - nessa
frase muitos vêem uma das chaves para a decifração do pensamento de Heráclito de
Éfeso, que já na Antiguidade tornou-se conhecido como “o Obscuro”.
De sua vida muito pouco se
sabe com certeza. Nascido em Éfeso, colônia grega da Ásia Menor, teria atingido
o auge de sua produtividade por ocasião da 69ª Olimpíada (504 – 501 a.C.).
Pertencia à família real de sua cidade e conta-se que teria renunciado à
dignidade de se tornar rei em favor de seu irmão. A obra que deixou está
constituída por uma série de frases isoladas, durante muito tempo consideradas
como fragmentos de um suposto texto original; posteriormente, a crítica
filosófica reconheceu que se tratava, na verdade, de aforismos. Modernamente, a
seqüência desses aforismos é apresentada segundo duas numerações: a inglesa,
devida a Bywater, ou a alemã, de Diels.
A apresentação aforismática
de seu pensamento e o estilo intencionalmente sibilino fazem de Heráclito um dos
pensadores pré-socráticos de mais difícil interpretação. Natural, portanto, que
a história da filosofia apresente uma sucessão de versões de seu pensamento,
dependentes sempre da perspectiva assumida pelo próprio intérprete.
Para a solução do “problema
heraclítico” dois pontos parecem oferecer bases mais seguras: a) o confronto das
proposições de Heráclito com seu contexto cultural (o que o próprio filósofo
parece indicar, na medida em que se apresenta como crítico implacável de idéias
e personagens de sua época ou da tradição cultural grega); b) o estilo de
Heráclito, que revela um uso peculiar da linguagem.
Se há aforismos de Heráclito
que não manifestam obscuridade são justamente os de cunho crítico. Aristocrata,
Heráclito não afirma apenas que “um só é dez mil para mim, se é o melhor”, como
também faz acerbas acusações à mentalidade vulgar desses homens que “não sabem o
que fazem quando estão despertos, do mesmo modo que esquecem o que fazem durante
o sono”. A religiosidade popular é também por ele vergastada: “Os mistérios
praticados entre os homens são mistérios profanos”. E explica: “É em vão que
eles se purificam sujando-se de sangue, como um homem que tivesse andado na lama
e quisesse lavar os pés na lama...” Nem mesmo alguns dos nomes mais
reverenciados na época são poupados: “O fato de aprender muitas coisas não
instrui a inteligência; do contrário teria instruído Hesíodo e Pitágoras, do
mesmo modo que Xenófanes e Hecateu”. Noutro aforismo Pitágoras é acusado de
possuir uma polimatia (conhecimento de muitas coisas) que não passava de uma
“arte de maldade”, enquanto Hesíodo, “o mestre da maioria dos homens, os homens
pensam que ele sabia muitas coisas, ele que não conhecia o dia ou a noite”. Nem
Homero escapa: “Homero errou em dizer: ‘Possa a discórdia se extinguir entre os
deuses e os homens!’ Ele não via que suplicava pela destruição do universo;
porque, se sua prece fosse atendida, todas as coisas pereceriam...”.
Em meio a tantas críticas,
Heráclito abre, entretanto, uma exceção: para a Sibila, “que com seus lábios
delirantes diz coisas sem alegria, sem ornatos e sem perfume”, mas que atinge
com sua voz para além de mil anos, graças ao deus que está nela. Percebe-se,
dessa maneira, que a adoção do estilo oracular é intencional em Heráclito, que
nele encontra a via adequada - indireta, sugestiva - para comunicar seu
pensamento: “O mestre a que pertence o oráculo de Delfos não exprime nem oculta
seu pensamento, mas o faz ver através de um sinal”. O exemplo do deus de Delfos
e da Sibila parece mostrar a Heráclito a diferença que separa as palavras do
pensamento (logos), a mesma que distancia a inteligência privada - o “sono” em
que está imersa a mentalidade vulgar - da inteligência comum, a “vigília”
daquele que se eleva acima dos muitos conhecimentos e reconhece “que todas as
coisas são Um”.
A unidade dos opostos
O que diz o Logos, do qual
Heráclito se faz o anunciador e em nome do qual condena o torpor da multidão ou
a polimatia dos supostos sábios, é isto: a unidade fundamental de todas as
coisas. Essa é “a natureza que gosta de se ocultar”. Mas a noção de unidade
fundamental, subjacente à multiplicidade aparente, já estava expressa pelo menos
desde Anaximandro de Mileto. A novidade trazida por Heráclito - e que lhe
permite julgar tão duramente seus antecessores e contemporâneos - está, na
verdade, em considerar aquela unidade como uma unidade de tensões opostas. Esta
teria sido sua grande descoberta: existe uma harmonia oculta das forças opostas,
“como a do arco e da lira”. A Razão (Logos) consistiria precisamente na unidade
profunda que as oposições aparentes ocultam e sugerem: os contrários, em todos
os níveis da realidade, seriam aspectos inerentes a essa unidade. Não se trata,
pois, de opor o Um ao Múltiplo, como Xenófanes e o eleatismo: o Um penetra o
Múltiplo e a multiplicidade é apenas uma forma da unidade, ou melhor, a própria
unidade. Daí a insuficiência do uso corrente das palavras: somente o logos
(razão-discurso) do filósofo consegue apreender e formular - não ao ouvido mas
ao espírito, não diretamente mas por via de sugestões sibilinas - aquela
simultaneidade do múltiplo (mostrado pelos sentidos) e da unidade fundamental
(descortinada pela inteligência desperta, em “vigília”).
Proclama Heráclito: “É sábio
escutar não a mim, mas a meu discurso (logos), e confessar que todas as coisas
são Um”. O Logos seria a unidade nas mudanças e nas tensões, a reger todos os
planos da realidade: o físico, o biológico, o psicológico, o político, o moral.
É a unidade nas transformações: “Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz,
superabundância-fome; mas ele assume formas variadas, do mesmo modo que o fogo,
quando misturado a arômatas, é denominado segundo os perfumes de cada um deles”.
Por isso Homero errara em pedir que cessasse a discórdia entre os deuses e os
homens: “O que varia está de acordo consigo mesmo”. A harmonia não é aquela que
Pitágoras propunha, de supremacia do Um, nem a verdadeira justiça é a que
Anaximandro havia concebido, ou seja, a extinção dos conflitos e das tensões
através da compensação dos excessos de cada qualidade-substância em relação a
seu oposto. A justiça não significa apaziguamento; pelo contrário, “o conflito é
o pai de todas as coisas: de alguns faz homens; de alguns, escravos; de alguns,
homens livres”. Mas ver a realidade como fundamentalmente uma tensão de opostos
não significa necessariamente optar pela guerra, no plano político; “guerra”,
neste último sentido, é apenas um dos pólos de uma tensão permanente (“Deus é
dia-noite, inverno-verão, guerra-paz...”). E essa tensão, que constitui a
verdadeira harmonia, necessita, para perdurar, de ambos os opostos.
Numa série de aforismos,
Heráclito enfatiza o caráter mutável da realidade, repetindo uma tese que já
surgira nos mitos arcaicos e, com dimensão filosófica, desde os milesianos. Mas
em Heráclito a noção de fluxo universal torna-se um mote insistentemente
glosado: “Tu não podes descer duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm
sempre sobre ti”. O império do Logos em sua feição física aparece então como as
transformações do fogo, que são “em primeiro lugar, mar; e a metade do mar é
terra e a outra metade vento turbilhonante”. O Logos-Fogo exerce uma função de
racionalização nas trocas substanciais análoga à que a moeda vinha desempenhando
na Grécia, desde o século VII: “Todas as coisas são trocadas em fogo e o fogo se
troca em todas as coisas, como as mercadorias se trocam por ouro e o ouro é
trocado por mercadorias”. Todavia, as transformações que integram o fluxo
universal não significam desgoverno e desordem; elo contrário, o Logos-Fogo é
também Razão universal e, por isso, impõe medida ao fluxo: “Este mundo (...) foi
sempre, é e será sempre um fogo eternamente vivo, que se acende com medida e se
apaga com medida”. A regularidade e a medida são garantidas pela simultaneidade
dos dois caminhos de transformação que compõem o fluxo universal: é ao mesmo
tempo que ocorre a troca do fogo em todas as coisas e de todas as coisas em
fogo, pois “o caminho para o alto e o caminho para baixo são um e o mesmo”. Isso
permite então afirmar: “...e a, metade do mar é terra, a metade vento
turbilhonante”. Assim, o que garante a tensão intrínseca às coisas é aquilo
mesmo que as sustenta: a medida imposta pelo Logos, essa “harmonia oculta” que
“vale mais que harmonia aberta”.
A consciência da fugacidade
das coisas gera uma nota de pessimismo que atravessa o pensamento de Heráclito:
“O homem é acendido e apagado como uma luz no meio da noite”. Mas o pessimismo
advém, sobretudo, de reconhecer o torpor em que vive a maioria dos homens,
ignorantes da lei universal que tudo rege. Por isso, o discurso (logos) do
filosofo, embora pretendendo ser a manifestação da Razão universal (Logos),
exprime-se como um solitário mono-logos, acima dos homens comuns, “esses loucos
que quando ouvem são como surdos”.
“Pré”-socráticos?
Desgraçadamente a filosofia
ocidental fez consagrar esta denominação absurda, como se todo o pensamento
anterior tendesse a Sócrates, Platão e Aristóteles – de resto, gigantes da
sabedoria universal – o que não é fato. Dentre os considerados pejorativamente “pré”-socráticos
há muitos que, como Heráclito, seguem caminho totalmente diversos e até mesmo
contemporâneos de Sócrates, evidenciando a ilogicidade do epíteto a eles apodado
injustamente.
Maquiavel informa que, em todos os
nossos empreendimentos, dependemos em 50% da “virtù” e, em 50% da fortuna, ou
seja, da pura sorte. Sócrates encontrou em Platão um digno seguidor que
encontrou em Aristóteles um seguidor e aperfeiçoador. O mesmo não se pode dizer
de outros pensadores como Heráclito, cujo pensamento fica obscuro, mal
interpretado e vilipendiado até praticamente ser redescoberto no século XIX por
dois gigantes do pensamento ocidental: Hegel e Nietzsche.
Platão ministrava suas prédicas nos
jardins de Academo, vindo daí o nome “academia”. Aristóteles passeava com seus
discípulos por um terreno próximo ao templo de Apolo Lyceo, o “bosque dos
lobos”. Daí a denominação “Liceu”. Que o ocidente esteja polvilhado de academias
e liceus é claro índice de uma vitória histórica de uma certa vertente da
filosofia. Apenas para comparararmos, o “Jardim”, proposta revolucionária de
Epicuro, está hoje reduzido (e se reduzindo cada vez mais) à educação
infantil...
Ao contrário de se constituir em
mera denominação cronológica, a expressão “pré”-socrático traz consigo pesada
gama de preconceito e valoração. Como se todo o pensamento multifacético da
Grécia clássica anterior – e mesmo contemporâneo! – a Sócrates e Platão teriam
sido pensadores menores, míseros precursores de um pensamento mais
sofisticado...
Não é uma denominação ingênua. É um
problema político da maior gravidade empacotar no mesmo balaio expoentes das
mais diversas áreas, gente de brilho ímpar como Parmênides, Zenão, Empédocles,
Anaxágoras e mesmo gênios como Demócrito e os sofistas que eram
contemporâneos de Sócrates! Não! Estes filósofos só mesmo por elevada má-fé
calculada poderia ser considerados “pré”-socráticos.
Com tal estratégia política, por
quase vinte séculos se obscureceu quase a ponto da perda total, conceitos
fundamentais do período inaugural da filosofia grega que, ou foram solenemente
sepultados ou mal digeridos por Sócrates e seus seguidores... Conceitos como
“Dialética”, “Physis”, “Logos”, “Aletheia”... Perderam-se muitos caminhos
recém-inaugurados e constitui árdua tarefa da filosofia moderna resgatar aqueles
valores em busca até mesmo da superação deste mundo unidimensional em que nos
enfiou, em última análise, o escolasticismo.
Deformando o pensamento de Heráclito
As teses dos primeiros pensadores
que não foram aceitas por Platão ou foram descartadas por Aristóteles caíram no
esquecimento ou sofreram contínuas perseguições. Os atomistas, desprezados por
Platão, que contra eles moveu uma campanha de silêncio, só foram resgatados
pelos Renascentistas. Os sofistas, contra os quais Platão moveu cerrada luta,
passaram à posteridade – mesmo os de estatura de Górgias e Protágoras – como
mestres falaciosos, criadores de raciocínios falsos com aparência de verdadeiros
(sofismas). Desta má fama, somente o século XX começou a libertá-los...
Com relação a Heráclito a situação é
a inda mais grave! Platão pensa conhecer-lhe o pensamento e chega mesmo a adotar
o que julga serem algumas de suas teses. Desde jovem, teve como tutor um mestre
chamado Crátilo, que se auto-proclamava heracliteano. Esse mau discípulo
transmitiu a Platão um Heráclito distorcido e amputado de seu centro: as
sentenças sobre o Logos, que falam sobre o pensamento, a palavra, o
conhecimento, a sabedoria, a linguagem...
Crátilo ensinou a Platão que,
segundo Heráclito, todos os objetos sensíveis estão em constante fluxo, em
devenir perpétuo, transformando-se continuamente (o que confere com o pensamento
original) mas que não é possível haver conhecimento de tais entes (o que é um
absurdo!). Crátilo aceita de Heráclito o mobilismo mas, diante da sentença
“ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, com que Heráclito aponta o constante
fluir de todos os entes, Crátilo deduz ser impossível entrar no rio sequer uma
única vez! E ainda acrescentava que, devido à rapidez com que tudo se
transforma, o conhecimento era impossível, nada se podia saber, nada se podia
afirmar... Se Crátilo fosse pouca coisa mais honesto intelectualmente e coerente
com a sua concepção, teria permanecido calado e, com isso, proporcionado um
grande bem à história da filosofia...
Resgatando Heráclito de Éfeso!
Por muitos séculos um Heráclito mal
interpretado por Crátilo e Platão – além da confusão com a expressão “dialética”
– grassou soberano em toda a filosofia ocidental. Foi somente na virada do
século XIX para o XX que Hermann Diels, um importante helenista, elaborou
intenso e extenso estudo filológico reunindo grande documentação de que resultou
a publicação dos “Fragmentos dos Pré-Socráticos”. Graças ao trabalho de Diels,
dispomos hoje de muito mais fonte de estudos desta temática, uma vez que os
estudos outrora dispersos e não sistematizados, agora são encontrados em sua
obra monumental.
Antes de Diels, Friedrich Nietzsche,
notável filólogo e filósofo, percebeu ao ler os aforismos de Heráclito, o quanto
o predomínio do escolasticismo e da racionalidade platônico-aristotélica haviam
traído, durante séculos, a originalidade do pensador de Éfeso.
Já Hegel, em suas preleções sobre a
História da Filosofia, afirmava não existir uma única frase de Heráclito que ele
não incorporou em sua Lógica.
A seguirmos a linha de raciocínio de
Hegel, Crátilo cometeu um erro crasso ao julgar e divulgar que Heráclito
considerava impossível o conhecimento.
De fato, se Heráclito houvesse dito
que não há conhecimento de um mundo que constantemente se transforma, se não
tivesse, pelo contrário, afirmado que as transformações se dão segundo medidas e
que está ao alcance do homem captar os modos das transformações, não teria
despertado o interesse de Hegel. Conceder à razão a possibilidade de conhecer o
que se transforma é conceber uma racionalidade também dinâmica. O que Hegel mais
admirou em Heráclito foi ter pensado, antes dele, essa possibilidade...
Os Aforismos
Penetremos um pouco mais no universo
de Heráclito. Segue um grupo de fragmentos, oriundo da compilação feita
magistralmente por Gerd Bornheim, mas cuja disposição original se perdeu.
Podemos dispô-las diversamente, construindo um mosaico cada vez mais variado de
pensamentos.
1) Os asnos preferem palha ao ouro.
2) Este Logos, os homens, antes ou depois de o
haverem ouvido, jamais o compreendem. Ainda que tudo aconteça conforme este
Logos, parece não terem experiência experimentando-se em tais palavras e obras,
como eu as exponho, distinguindo-se em tais palavras e obras, como eu as
exponho, distinguindo e explicando a natureza de cada coisa. Os outros homens
ignoram o que fazem em estado de vigília, assim como esquecem o que fazem
durante o sono.
3) Por isso, o comum deve ser seguido. Mas, a
despeito de o Logos ser comum a todos, o vulgo vive como se cada um tivesse um
entendimento particular.
4) (O Sol tem) a largura de um pé humano.
5) Se a felicidade consistisse nos prazeres do
corpo, deveríamos proclamar felizes os bois, quando encontram ervilhas para
comer.
6) Em vão procuram purificar-se, manchando-se
com novo sangue de vítimas, como se, sujos com lama, quisessem lavar-se com
lama. E louco seria considerado se alguém o descobrisse agindo assim. Dirigem
também suas orações a estátuas, como se fosse possível conversar com edifícios,
ignorando o que sejam os deuses e os heróis.
7) (O Sol é) novo todos os dias.
8) Se todas as coisas se tornassem fumaça,
conhecer-se-ia com as narinas.
9) Tudo se faz por contraste; da luta dos
contrários nasce a mais bela harmonia.
10) Correlações: completo e incompleto, concorde
e discorde, harmonia e desarmonia, e de todas as coisas, um, e de um, todas as
coisas.
11) Tudo o que rasteja é custodiado pelos golpes
(divinos).
12) Para os que entram nos mesmos rios, correm
outras e novas águas. Mas também almas são exaladas do úmido.
13) (Os porcos) alegram-se na lama (mais do que
na água limpa).
14) (A quem profetiza Heráclito?) Aos
noctívagos, aos magos, às bacantes, às mênades e aos mistas. (A estes ameaça com
o castigo após a morte, a estes profetiza o fogo). Pois o que os homens chamam
mistérios (...).
15) Não fossem para Dionísio as pompas
organizadas, com cantos fálicos, seriam os atos mais vergonhosos; o mesmo é,
contudo, Hades e Dionísio, pelo qual deliram e festejam as Lenéas.
16) Quem se poderá esconder da (luz) que nunca
se deita?
17) Muitos não entendem estas coisas, mesmo as
encontrando em seu caminho, e não as entendem quando ensinados; mas pensam
saber.
18) Se não tiveres esperança, não encontrarás o
inesperado, pois não é encontradiço e é inacessível.
19) Homens que não sabem escutar nem falar.
20) (Heráclito parece considerar o nascimento
uma infelicidade ao dizer:) Desde que nasceram querem viver e sofrer sua sorte
mortal – ou antes descansar –, e deixam filhos para haver outras sortes mortais.
21) Morto é tudo o que nós vemos acordados;
sonho, tudo o que nós vemos dormindo.
22) Os que procuram ouro, cavam em muita terra e
pouco encontram.
23) Não houvesse isso (a injustiça) ignorariam o
próprio nome de justiça.
24) Deuses e homens honram os caídos em combate.
25) Quanto maior for a morte, maiores os
destinos.
26) O homem, na noite, acende a si mesmo uma
luz, quando a lua dos seus olhos se apaga. Vivo, toca na morte, quando
adormecido; acordado, toca os que dormem.
27) O que aguarda os homens após a morte, não é
nem o que esperam nem o que imaginam.
28) Apenas a probabilidade é o que mais estimado
conhece e guarda. Mas a Justiça saberá ocupar-se dos que tramam mentiras e de
seus testemunhos.
29) Uma coisa preferem os melhores a tudo: a
glória eterna às coisas perecíveis; mas a massa empanturra-se como o gado.
30) Este mundo, igual para todos, nenhum dos
deuses e nenhum dos homens o fez; sempre foi, é e será um fogo eternamente vivo,
acendendo-se e apagando-se conforme a medida.
31) As transformações do fogo: primeiro o mar; e
a metade do mar é a terra, a outra metade o vento quente. A terra dilui-se em
mar, e esta recebe a sua medida segundo a mesmo lei, tal como era antes de se
tornar terra.
32) O Uno, o único sábio, recusa e aceita ser
chamado pelo nome de Zeus.
33) Lei é também obedecer à vontade de um só.
34) Também quando ouvem não compreendem, são
como mudos. Justificam o provérbio: presentes, estão ausentes.
35) De muitas coisas devem homens amantes da
sabedoria estar avisados.
36) Para as almas, morrer é transformar-se em
água; para a água, morrer é transformar-se em terra. Da terra, contudo, forma-se
a água, e da água a alma.
37) Porcos banham-se na lama, pássaros no pó e
na cinza.
38) (Tales, segundo alguns), foi o primeiro a
pesquisar os astros... (Também Heráclito e Demócrito são disto testemunhas).
39) Em Priene viveu Bias, filho de Teutanes,
cuja fama é maior que a dos outros.
40) A polimatia não instrui a inteligência. Não
fosse assim teria instruído Hesíodo e Pitágoras, Xonófanes e Hecateu.
41) Só uma coisa é sábia: conhecer o pensamento
que governa tudo através de tudo.
42) Homero deveria ser expulso dos jogos
públicos e ser castigado. Também Arquíloco.
43) Melhor apagar a desmedida que um incêndio.
44) O povo deve lutar por sua lei como pelas
muralhas.
45) Mesmo percorrendo todos os caminhos, jamais
encontrarás os limites da alma, tão profundo é o seu Logos.
46) (Chamava a) presunção, doença sagrada (e a
vista, enganadora).
47) Não devemos julgar apressadamente as grandes
coisas.
48) O arco tem por nome a vida, e por obra a
morte.
49) Um vale aos meus olhos dez mil, se é o
melhor.
49a) Descemos e não descemos nos mesmos rios;
somos e não somos.
50) (Heráclito afirma a unidade de todas as
coisas: do separado e do não separado, do gerado e do não gerado, do mortal e do
imortal, do Logos e do eterno, do pai e do filho, de Deus e da injustiça). É
sábio que os que ouviram, não a mim, mas ao Logos, reconheçam que todas as
coisas são um.
51) Eles não compreendem como, separando-se
podem harmonizar-se: harmonia de forças contrárias, como o arco e a lira.
52) O tempo é uma criança que brinca, movendo as
pedras do jogo para lá e para cá; governo de criança.
53) A guerra é o pai de todas as coisas e de
todas o rei; de uns fez deuses, de outros, homens; de uns, escravos, de outros,
homens livres.
54) A harmonia invisível é mais forte que a
visível.
55) Prefiro tudo aquilo que se pode ver, ouvir e
entender.
56) Os homens se enganam no conhecimento das
coisas visíveis, como Homero, o mais sábio dos helenos. Pois também àqueles
enganavam os jovens, quando catavam piolhos e diziam: tudo o que vimos e
pegamos, nós abandonamos; tudo o que não vimos nem pegamos, levamos conosco.
57) A maioria tem por mestre Hesíodo. Estão
convictos ser o que mais sabe – ele, que nem sabia distinguir o dia da noite.
Pois é uma e a mesma coisa.
58) (Bem e mal são uma e a mesma coisa). Os
médicos cortam, queimam (torturam de todos os modos os doentes, exigem) um
salário, ainda que nada mereçam, fazendo(lhes) um bem semelhante (à doença).
59) O caminho da espiral sem fim é reto e curvo,
é um e o mesmo.
60) O caminho para baixo e o caminho para cima é
um e o mesmo.
61) O mar: a água mais pura e a mais abominável:
aos peixes, potável e saudável; aos homens, impotável e prejudicial.
62) Imortais, mortais; mortais, imortais. A vida
destes é a morte daqueles e a vida daqueles a morte destes.
63) Diante dele (Deus), levantam-se, e despertam
vigias dos vivos e dos mortos.
64) O relâmpago governa o universo.
65) (Fogo:) carência e abundância.
66) Pois tudo o fogo, aproximando-se, julgará (e
condenará).
67) Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra
e paz, abundância e fome. Mas toma formas variadas, assim como o fogo, quando
misturado com essências, toma o nome segundo o perfume de cada uma delas.
67a) Assim como a aranha, instalada no centro de
sua teia, sente quando uma mosca rompe algum fio (da teia) e por isso acorre
rapidamente, quase aflita pelo rompimento do fio, assim a alma do homem, ferida
alguma parte do corpo, apressadamente acode, quase indignada pela lesão do
corpo, ao qual está ligada firme e harmoniosamente.
70) (Dizia que as opiniões dos homens são) jogos
de crianças.
71) (Devemos lembrar-nos também do homem) que
esquece para onde leva o caminho.
72) Sobre o Logos, com o qual estão em constante
relação (e que governa todas as coisas), estão em desacordo, e as coisas que
encontram todos os dias lhes parecem estranhas.
73) Não se deve agir nem falar como os que
dormem.
75) Os adormecidos, (chama Heráclito, creio eu,)
operários e colaboradores nos acontecimentos do cosmos.
76) O fogo vive a morte da terra e o ar vive a
morte do fogo; a água vive a morte do ar e a terra a da água.
77) Tornar-se úmidas, para as almas, é prazer ou
morte. (O prazer consiste no início da vida. E em outro lugar diz:) Nós vivemos
a morte delas (das almas) e eles vivem a nossa morte.
78) O espírito do homem não tem conhecimentos,
mas o divino tem.
79) O homem é infantil frente à divindade, assim
como a criança frente ao homem.
80) É necessário saber que a guerra é o comum; é
a justiça, discórdia; e que tudo acontece segundo discórdia e necessidade.
81) Pitágoras ancestral dos charlatães.
82) O mais belo símio é feio comparado ao homem.
83) O mais sábio dos homens, comparado a Deus,
parecer-se-á um símio, em sabedoria, beleza e todo o resto.
84a) Movendo-se, descansa (o fogo etéreo do
corpo humano).
84b) É cansativo servir e obedecer sempre aos
mesmos (senhores).
85) Lutar contra os desejos é difícil. Pois o
que exige, compra a alma.
86) (Grande parte do divino) subtrai-se ao
conhecimento, por falta de confiança.
87) Um homem tolo assusta-se a cada palavra.
88) Em nós, manifesta-se sempre uma e a mesma
coisa: vida e morte, vigília e sono, juventude e velhice. Pois a mudança de um
dá o outro e reciprocamente.
89) Para aqueles que estão em estado de vigília,
há um mundo único e comum.
90) O fogo se transforma em todas as coisas e
todas as coisas se transformam em fogo, assim como se trocam as mercadorias por
ouro e o ouro por mercadorias.
91) Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio.
Dispersa-se, reúne-se; avança e se retira.
92) A Sibila, que com boca delirante, pronuncia
palavras ásperas, secas e sem artifícios, (fazendo-as ressoar durante mil anos).
Pois o Deus a inspira.
93) O senhor, cujo oráculo está em Delfos, não
fala nem esconde: ele indica.
94) O Sol não ultrapassará os seus limites; se
isto acontecer, as Eríneas, auxiliares da Justiça, saberão descobri-lo.
95) Melhor é dissimular sua ignorância. (Isto é
difícil no desenfreio e ao beber).
96) Os cadáveres deveriam ser lançados fora como
estrume.
97) Os cães ladram àqueles que não conhecem.
98) As almas aspiram o aroma no Hades.
99) Não houvesse o Sol, seria noite, a despeito
das demais estrelas.
100) (...) o tempo próprio, que traz todas as
coisas.
101) Eu me procurei a mim próprio.
101a) Os olhos são testemunhos mais agudos que
os ouvidos.
102) Para Deus tudo é belo e bom e justo; os
homens, contudo, julgam umas coisas injustas e outras justas.
103) Na circunferência, o princípio e o fim se
confundem.
104) Qual é o seu espírito ou o seu
entendimento? Acreditam nos cantores de rua e seu mestre á a massa, pois isto
não sabem: “A maioria é má e poucos são os bons.”
106) (Heráclito censura Hesíodo por considerar
uns dias bons e outros maus). Por ignorar que a natureza de cada dia é uma e a
mesma.
107) Maus testemunhos para os homens são os
olhos e os ouvidos, se suas almas são bárbaras.
108) De quantos ouvi as palavras, nenhum chegou
a compreender que a sabedoria é distinta de todas as coisas.
110) Não seria melhor para os homens, se lhes
acontecesse tudo o que desejam.
111) A doença torna a saúde agradável; o mal, o
bem; a fome, a saciedade; a fadiga, o repouso.
112) O bem pensar é a mais alta virtude; e a
sabedoria consiste em dizer a verdade e em agir conforme a natureza, ouvindo a
sua voz.
113) O pensamento é comum a todos.
114) Os que falam com inteligência devem
apoiar-se sobre o comum a todos, como uma cidade sobre as suas leis, e mesmo
muito mais. Pois todas as leis humanas nutrem-se de uma única lei divina. Esta
domina, tanto quanto quer; basta a todos (e a tudo) e ainda os ultrapassa.
115) À alma pertence o Logos, que se aumenta a
si próprio.
116) A todos os homens é permitido o
conhecimento de si mesmos e o pensamento correto.
117) O homem ébrio titubeia e se deixa conduzir
por uma criança, sem saber para onde vai; pois úmida está a sua alma.
118) Brilho seco: alma mais sábia e melhor.
119) O caráter é o destino (daimon) de
cada homem.
120) Términos da aurora e da noite: a Ursa e, ao
lado oposto à Ursa, o Guardião de Zeus, resplandecente.
121) Os efésios deveriam todos enforcar-se, e
suas crianças deveriam abandonar a cidade, pois expulsaram a Hermodoro, o mais
valoroso dentre eles, dizendo: “Ninguém dentre nós deve ser o mais valoroso;
senão, (que viva) em outro lugar e com outros”.
123) A natureza ama esconder-se.
124) A mais bela harmonia cósmica é semelhante a
um monte de coisas atiradas.
125) Mesmo uma bebida se decompõe, se não for
agitada.
125a) Que vossa riqueza, efésios, jamais se
esgote, para que se manifeste a vossa maldade.
126) O frio torna-se quente, o quente frio, o
úmido seco e o seco úmido.
Lázaro Curvêlo Chaves -
1º de dezembro de 2004
Bibliografia:
Heráclito, o Pensador do Logos – Orsely Guimarães
– Cadernos do ICHF – julho de 1989
Os Filósofos Pré-Socráticos – Gerd Borheim (org.)
– Ed. Cultrix
Pré-Socráticos – Coleção “Os Pensadores” – Abril
Cultural
Arquivo de Artigos Semanais, Sociologia, Filosofia, Psicologia, Ensaios Críticos
©
Copyleft LCC
Publicações Eletrônicas - Todo o conteúdo desta página pode ser
distribuído exclusivamente para fins não comerciais desde que mantida a citação
do Autor e da fonte. |