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Guia INCORRETO da História do Brasil – Leandro Narloch – Resenha crítica

Muito, muito ruim. Péssimo uso para celulose, tinta e impressão. Um desperdício monstruoso e injustificável de árvores do Brasil

 

 

 

 

Politicamente Incorreto – O a. intitula seu trabalho de Guia “Politicamente” incorreto, inserindo-se claramente na ideologia conservadora estadunidense contemporânea, que contamina a de todos os países periféricos ao Império, a informar que palavras como “negro” devem ser evitadas e substituídas por “afro-descendente”; “índio”, por “americano nativo”; “esquerda” deve ser chamada de “ideologia” e “direita” passa a ser considerada “isenta de ideologia”. Além disso, os heróis culturais da resistência ao domínio estrangeiro devem ter suas histórias respeitadas (e o a. se propõe precisamente a enlamear a memória destes), assim como os vilões, genocidas e gatunos em geral devem ser expostos pelas suas crueldades (o a., no entanto busca em vão, partindo de premissas falsas ou falaciosas, colocar lindas cores nos criminosos enquanto joga lama nos heróis). O livro contém várias outras imprecisões e incorreções políticas que ultrapassam esta acepção mais recente, “da moda”, por assim dizer.

            Trata-se de um livro politicamente incorreto, em diversas acepções do termo, sem dúvida! Mas também antropologicamente incorreto, eticamente incorreto, economicamente incorreto, geopoliticamente incorreto e historicamente impreciso.Não fará falta alguma a quem não o ler.

            O a. faz um apanhado a esmo de histórias e preconceitos e os resume na primeira aba do livro, “Quem mais matou índios foram os próprios índios” – o que seria isso? Ouvindo a notícia da chegada da brutal “civilização ocidental” resolveram cometer suicídio coletivo para não cair nas mãos do inimigo? Deve haver algo mais dentro desse livro, não é possível uma abordagem assim simplista. “Antes de entrar em guerra o Paraguai era um país rural e burocrático” – em termos... A posse da terra se concentrava nas mãos da família Lopes, que era a única casta endinheirada do país. Todo o restante da população era constituída de descendentes de uma longa mestiçagem de guaranis com descendentes de espanhóis no país bilíngue e sem analfabetismo. Em 1850 todos os paraguaios com mais de 14 anos sabiam ler e escrever em espanhol e guarani. O país era eminentemente agrário, mas contava com ferrovias de fabricação própria (Solano Lopes contratou mais de centenas de profissionais de diversos países para ensinar a tecnologia industrial nascente aos paraguaios. Eram os estrangeiros a serviço do Paraguai e não o país a serviço dos estrangeiros como usualmente ocorre na América Latina) e as armas que o Paraguai usou na Guerra (canhões, pólvora, fuzis, balas, morteiros, etc. eram fabricadas no Paraguai, na Fundição Ybicuí), ao contrário dos países coligados contra o Paraguai (Uruguai, Argentina e Brasil) que precisavam comprar da Inglaterra o armamento, a munição, os uniformes e mesmo os grilhões para conduzir os “voluntários da pátria” ao front de combate. Os arquivos daquela guerra no Brasil seguem selados, portanto, qualquer pesquisador tem de confiar nas fontes primárias do Uruguai, da Argentina, da Inglaterra e mesmo dos EUA, onde se encontra inúmeras informações. A versão do Exército Brasileiro segue imutável desde 1850 e está em conflito com as outras versões dos arquivos já abertos, mas é a que o a. defende em sua obra, claramente incorreta, particularmente do ponto de vista político mesmo. Não me conto entre os que defendem a tese de que a Inglaterra, de alguma forma, fomentou aquela guerra. Mas é absolutamente inegável que a Inglaterra foi a maior vencedora do conflito com todos os países envolvidos brutalmente endividados para com a Potência Européia.

            As outras citações na aba inicial do livro não merecem mais que um bocejo, pois não chegam a constituir novidade: “Zumbi tinha Escravos”; “Santos Dumont não inventou o avião”, etc.

 
 

 

     

          Na aba da contracapa entendemos melhor um pouco o sensacionalismo e o amadorismo da aproximação do a. Um jovem, ex-editor da revista “Superinteressante”, sem formação em história e com vontade de irritar e “se vingar” dos professores que – quiçá eles mesmos confusos e mal preparados – transmitiram como “Oficial” a Nova História Crítica, aumentando a confusão. O folhetim “Superinteressante”, para quem não se recorda bem, falava de pessoas que teriam sido abduzidas por extraterrestres, gente que ouvia pela barriga, contatos mediúnicos com gente morta, publicava fotos sensacionalistas questionando o pouso dos astronautas estadunidenses na Lua e outras mixórdias sensacionalistas intelectualmente vazias de conteúdo.

            Abrimos o livro e o a. faz uma confusão sem sentido nem necessidade com as nomenclaturas dadas à Historiografia oficial. Não é culpado. Além de não ter formação na área, a educação no Brasil vem mesmo ladeira abaixo há décadas! Fico triste por ele...

            A partir de meados do século XX, os historiadores sérios foram às fontes primárias (sobreviventes de determinados eventos ou seus descendentes, jornais de época, registros de batizado, casamento ou – se já no período republicano – cartórios de registros) e revisaram a História Oficial passando a chamá-la de Nova História Crítica do Brasil. Esta versão, bem mais profunda e acurada, procurava a precisão histórica com todo o empenho e concluiu algumas coisas que passaram a ser ensinadas nas escolas públicas e privadas a partir da segunda metade do século XX (época em que o a. frequentava bancos escolares). Bem, o a. se rebela contra a história que coloca o negro, o índio e as mulheres no mesmo patamar de humanidade que os brancos vindos da Península Ibérica. Para ele, “é preciso remover o ranço de ideologia e reconhecer a superioridade do homem branco sobre o índio, o negro e as mulheres” – não o diz com essas palavras exatamente, mas é nelas que se firma para criticar a Nova História Crítica, voltando precisamente à História Oficial, tradicional, de Oliveira Vianna e outros epígonos da direita brasileira. Chama de “Oficial” a História Crítica que nos levou décadas para limpar de todo o ranço conservador da História Tradicional de meados do século passado e chama de “Nova História” este retrocesso à história à la Oliveira Vianna, dando ares de novidade a coisas já conhecidas e desconsideradas por imprecisas em meados e finais do século passado. História Incorreta mesmo, portanto. Diz desejar “causar raiva a um bocado de gente”. Talvez eu esteja um tanto zangado, mas não com o a., coitado, que se sujeitou a essa herança maldita da péssima educação das escolas que o levou a rebelar-se contra os fatos, voltando às ficções do tradicionalismo historiográfico.

            Provavelmente, por causa das ditaduras militares plantadas no Cone Sul da América Latina pelos EUA no auge da chamada “Guerra Fria” contra o comunismo, os intelectuais de direita brasileiros preferem alegar-se “sem ideologia”. “Com ideologia” são aqueles que acreditam numa alternativa mais humanizada, menos cruel, não capitalista a tudo o que vemos desmoronar em nosso país e vizinhança.

            Pois bem, como um pequenino Francis Fukuyama tupiniquim, alia-se ao também direitista (ou “não ideológico”) José Murilo de Carvalho e celebra “o fim das ideologias”. Ranço das ditaduras militares no Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, etc., os ideólogos da direita só conseguem vislumbrar ideologia na contestação. Sua ideologia voltada a elogiar o tradicional, voltar ao antigo dando-lhe nomes novos (inovando em palavras e fontes – sempre secundárias, mais um defeito de um não historiador se imiscuir em seara que lhe é desconhecida, jamais visita cemitérios para conferir datas, ou mesmo lê jornais de época, menos ainda entrevista pessoas – descendentes ou mesmo testemunhas oculares de alguns fatos narrados para aferir sua veridicidade: satisfaz-se com a pesquisa superficial em livros com cuja orientação ideológica concorda). Abordagem incorreta, “politicamente” incorreta, se se faz questão.

            Ressalto que grandes intelectuais de direita nos EUA e Europa, fazem questão de assim o afirmar: o já citado Francis Fukuyama, Irving Kristol, Norman Podhoretz, Sam Harris, Milton Friedman... Bah, contam-se entre milhares e se orgulham de estar entre os principais ideólogos da direita. De esquerda são os que defendem os interesses do povo trabalhador, o que gera a riqueza (não na propaganda, como Lula e seus comparsas, mas na prática). Deles o mundo contemporâneo também está bem servido. No topo da lista, sem sombra de dúvida, Noam Chomsky, mas também Júlio José Chiavenatto, Eduardo Galeano, Ignácio Ramonet, Slavoj Zizek e por aí vai.

            Não sendo orientado por uma corrente ideológica, quem desejar escrever o que quer que seja fica mais perdido que barata em danceteria. O fato de o a. do livro em análise haver selecionado autores de direita como sua única fonte de pesquisa científica já o coloca ideologicamente em seu nicho, quer ele goste disso ou não, o que é irrelevante. 

Etnocentrismo, o maior buraco no livro

           É um trabalho Etnocêntrico, mais especificamente Eurocêntrico, que perde totalmente o valor, se por mais nada, por esta razão singela: a Cultura Européia, com toda a sua beleza e grandeza, não é nem pode ser a única a ser considerada em contatos culturais entre civilizações diferentes como a Européia com a Ameríndia e a Africana. Confira mais detalhes sobre isso em Etnocentrismo e o "Abandono Salutar" do Brasil entre 1500 e 1530

 

 

 

 

Estudos de casos

 

            Como faz o a., não vou me debruçar sobre tudo o que escreveu, há coisas que são por demais óbvias para merecer considerações mais aprofundadas. Uma revisão acurada e séria implicaria, sim, em outro livro...

 

1 – Índios     

O estudo aqui chega a um primarismo atroz: o a. “descobriu” que os índios já faziam guerra entre si antes da chegada dos europeus por aqui e que os portugueses se aliavam com algumas tribos para massacrar outras, a seguir com terceiras para massacrar as segundas, envolviam-nos nas disputas de terras com os navegadores oriundos de países protestantes que contestavam o direito do soberano da Igreja Católica “dividir o mundo entre Portugal e Espanha” e assim, levavam muitos índios a aliar-se com os portugueses para lutar contra franceses (que também tinham aliados entre os índios), holandeses, etc. Fazendo as contas, sim: índios mataram muitos índios. Eram motivados internamente, entre eles, para isso? Claro que não. Os índios podem ser considerados responsáveis pela sua própria extinção?  Ridículo...

            Há um conceito em antropologia, chamado de ETNOCENTRISMO que, resumidamente significa algo como “considerar a própria cultura ou civilização como superior a todas as demais ou mesmo a única válida”, o que é um erro, pois os seres humanos percorrem todos os rincões do Planeta Terra há pelo menos 150.000 anos, culturas e civilizações distantes optaram por atualizar determinados potenciais humanos e outras o fazem de maneira diferente. Tvetan Todorov em “A Conquista da América” coloca com clareza as diferenças de visão de mundo entre os Europeus e os nativos desta terra. A Europa Renascentista estava fechada nas certezas escolásticas da Igreja Católica e, em guerra contra muçulmanos e judeus, por ilação contra tudo o que não fosse cristão. Os “índios” foram surpreendidos com um acontecimento fabuloso cuja dimensão somente aos poucos se descortinou.

            Antropologicamente ainda, sabemos que a Espécie Humana é a única no Planeta Terra que pratica sacrifícios conscientes de membros da própria espécie, “sacrifícios humanos” como no caso de Giordano Bruno – e tantos milhões de seres humanos que iluminaram a Europa com as fogueiras da Santa Inquisição. Já li em algum lugar que “não foram milhões, foram apenas algumas centenas de milhares...” de pessoas que morreram porque eram “bruxas”, “hereges”, “maçons”, católicos entre os protestantes, protestantes entre os católicos, etc. Os Sacrifícios Humanos – sempre praticados em todas as sociedades humanas em todos os tempos – seguem uma ritualística e, milhões, centenas de milhares ou que número for, não me parece justificável. Hoje em dia, no centro do capitalismo os Sacrifícios Humanos são decididos em tribunais e cortes (os EUA são o último país do 1º mundo que ainda pratica esse tipo de ritual) e a forma de execução varia de lugar para lugar: fuzilamento, cadeira elétrica, injeção letal, gás... As comunidades tribais da América não são diferentes e também tinham lá seus rituais para os sacrifícios humanos. Ilógico considerar que um tipo de sacrifício humano é “aceitável” e outro tipo “não é aceitável”. A decisão, tradicionalmente se dá pelas armas, quem dispõe de maior aparato bélico vence e a sua forma de Sacrifício Humano adota nomes mais amenos (mas segue fazendo vítimas). Note bem: não há “superioridade moral” em questão neste caso. A superioridade bélica foi o suficiente para determinar “que código de conduta moral deve ser considerado superior”.

            Sabemos ainda que a Espécie Humana é a única capaz de juntar grupos grandes de pessoas para “fazer guerra” contra outro grupo (isso ocorre entre Zulus e Bantos; entre Tupinambás e Guaranis; entre Franceses e Alemães; entre estadunidenses e muçulmanos, entre judeus e palestinos...) Daí que, “informar” que “os índios também faziam guerra” é mais ou menos como informar que “os índios também são humanos” – não acrescenta nem subtrai absolutamente nada ao conhecimento a despeito do número de páginas dedicadas a este tema específico, buscando, ETNOCENTRICAMENTE, justificar as lutas dos brancos contra os índios como “justas” e as resistências dos índios aos brancos como “injustas” ou, no limite, “burrice”, uma vez que os europeus aqui estavam para “trazer a civilização”... Européia, que não era do interesse dos índios, como ficou claríssimo e fica claro até hoje, quando os madeireiros paulistas despejam – de avião – cargas enormes com doces, chocolates, camisetas, brinquedos e outras bugigangas para os Ianomâmi no Amazonas: tudo infectado com Varíola. Morta a população Ianomâmi da área pretendida pela madeireira, vão para lá os brancos vacinados e desmatam mais um pedaço grande do futuro Deserto Amazônico.

ANTROPOLOGICAMENTE INCORRETO é outro título que cabe ao livro em análise, portanto.

            Os índios do Brasil ficaram literalmente ENTRE A CRUZ E A ESPADA: ou se convertiam à mensagem da cruz – e morriam enquanto cultura – ou mantinham seus costumes e eram passados ao fio da espada. O genocídio dos índios do Brasil continua a pleno vapor em pleno século XXI, como digo acima e não há nada moralmente superior na cultura europeia que justifique este fato.

 

 

2 – Euclides da Cunha

            Alguns dados pinçados pelo a. da Obra de Marco Antonio Villa são realmente precisos. Villa é um pesquisador sério que vai à fonte, busca a fonte primária sempre e não escrevinha sobre o que leu em outros livros somente. Pessoas sérias conferem o que está publicado em livros – ideologicamente orientados todos, por definição – atrasava reportagens; talvez seu excesso de zelo o levasse a conferir a acuidade dos fatos antes de remetê-los a São Paulo com a sua assinatura e isso frequentemente fazia com que outros jornalistas apresentassem “furos” antes dele.

            O fato de estar dedicado à acuidade dos fatos está patenteado em seu livro mais famoso (e concordo com o a. neste ponto, para o leitor do século XXI, chatíssimo!) “Os Sertões”. Escrito numa época em que exibir erudição era praticamente obrigatório em livros sérios (como hoje exibir ignorância parece cumprir o mesmo papel), para o leitor da época foi aclamadíssimo, várias edições se fizeram publicar, várias leituras públicas de trechos do livro foram realizadas em diversos saraus no Rio de Janeiro mas, evidentemente, não era “Superinteressante”, não foi escrito com a intenção de “ser popular”. É realmente um livro para poucos, desde a sua publicação.

            É fato notório que Euclides da Cunha dedicava mais tempo a seus livros, suas cartas, seu trabalho e seus estudos que à família. Também notório que Anna da Cunha precisava frequentemente do suporte paterno; quando o Major Sólon Ribeiro faleceu, ela realmente ficou numa situação bastante difícil.

            Anna era uma mulher admirável. As ausências do marido a fizeram aproximar-se de Dilermando de Assis (que, por sinal, ela ajudou a criar desde a infância), amigo da família, hóspede constante e Anna, solitária e fogosa, numa viagem que Euclides fez à Amazônia a pedido do Barão do Rio Branco, acabou engravidando de Dilermando pela primeira vez. A criança morreu poucos dias após o parto, o que é fato. As versões sobre a morte do menino são divergentes. Judite de Assis, terceira filha do casal, escreveu um livro impregnado de insultos e inverdades sobre Euclides da Cunha, que a família de Euclides (eu, que assino estas linhas, tenho a honra de contar entre meus amigos os familiares de Euclides da Cunha, aliás) refuta linha por linha. Para Judite, Euclides da Cunha impediu Anna de alimentar a criança (o que, francamente, não me parece condizente com o perfil de um chefe de família tão ausente quanto Euclides o era...). Euclides da Cunha e seus descendentes acusam Anna de Assis de tomar abortivos que acabaram por minar o pouco de vida que nasceu com a criança. Como não houve um inquérito policial aprofundado e não há consenso quanto à causa mortis da criança, o a. preferiu ficar com a OPINIÃO da Judite. Direito dele, o de “tomar partido”, claro. Mas dizer que Euclides da Cunha foi um “infanticida” é um exagero desnecessário e, do ponto de vista histórico meramente factual, simplesmente INCORRETO.

            O segundo filho que Anna teve com Dilermando, Euclides da Cunha criou como seu e se referia a ele em suas cartas como “minha espiga de milho no cafezal”, pois ele e Anna eram morenos e o menino, loirinho, era “a cara do Dilermando”... O a. da “História Incorreta do Brasil” omite este fato – o segundo filho de Dilermando e Anna, estando ela ainda casada com Euclides, por ignorância ou omissão calculada a fim de reforçar a imagem de “infanticida” criada pela Judite, o a. ERROU DE NOVO.

            Arthur Schoppenhauer, provavelmente o homem que melhor compreendeu a mulher em toda a sua complexidade, assim se refere ao adultério:

            “A honra feminina quer que não ocorra um coito ilegítimo, pois somente assim o inimigo (os homens) é obrigado à capitulação (o casamento); por isso, toda a cópula ilegítima é punida pela comunidade feminina como uma traição em favor do inimigo, por meio da imposição de desonra à culpada e da expulsão do grupo.

            A honra masculina quer que não ocorra nenhum adultério, pois somente assim o inimigo (as mulheres) é obrigado a, pelo menos, manter a capitulação obtida; por isso, todo aquele que tolera conscientemente o adultério de sua mulher é punido pela comunidade masculina como traidor, por meio da imposição da desonra.”

            Difícil entrar nos pensamentos de outros seres humanos, mas é fato que Euclides da Cunha conhecia as infidelidades de sua mulher há muito tempo. Pode ter acontecido o que Schoppenhauer sugere: punido pela sociedade pela imposição da desonra, somado ao fato de estar fisicamente acabado (a necropsia de Euclides da Cunha detectou que se ele não morresse daqueles tiros desferidos por Dilermando, morreria rápido de um dos muitos males que o afligiam: Tuberculose, tumores no trato digestivo, suspeita de Mal de Chagas...) definiu a situação. Não tinha como sair vivo daquele “bangue-bangue” com uma pistolinha emprestada foi desafiar o campeão de tiro do Exército em sua própria casa...

3 – Interesses Econômicos como mola da história

            O a. se apresenta irritadiço com a análise da história – particularmente da história da expansão europeia, a única que o interessa, desprezando os índios e negros como seres inferiores – a partir de interesses econômicos. Despede a análise a partir de interesses econômicos com uma ou duas frases mal alinhavadas. O ideólogo da direita que se seguiu a Marx, Max Weber, teve um tanto mais de cuidado e fundamentou sua crítica ao marxismo com alguma elegância e profunda erudição. O a. da “História Incorreta” simplesmente se recusa a analisar a partir deste prisma numa frase e passa a fazê-lo frequentemente ao longo do livro.

            Não gosta de ver o quintal dos EUA ser assim referido, como se tivéssemos outra alternativa. Veja-se o que se tem feito, por exemplo na História do Brasil (o mesmo valendo para Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai...) nas últimas décadas: Entre 1955 e 1960 os EUA criaram uma Escola Superior de Guerra e chamaram militares de alto escalão de todo o subcontinente para frequentar suas aulas (aprendia-se “métodos de extração de confissão”, eufemismo para tortura, outro fenômeno que, no reino animal, só ocorre na Espécie Humana, a tortura; “combate ao comunismo”; “controle de distúrbios populares” e outros temas angelicais congêneres. De volta aos países de origem, todos os militares de alta patente criaram suas próprias “Escolas Superiores de Guerra” com o mesmo tipo de orientação ideológica. Em 1964 foi a vez dos militares brasileiros darem um golpe no presidente constitucional, com largo apoio estadunidense que mantinha uma frota a postos para intervir a qualquer momento caso os militares brasileiros não conseguissem controlar a situação. Aqui não foi necessária uma intervenção direta, como a que ocorreu no Chile em 1973 com o desembarque dos boinas verdes estadunidenses atirando a esmo no que se mexesse, como usualmente fazem nos países que invadem.

No final do século XX foi a vez do Poder decisório de fato nos EUA foi transferido da Casa Branca para Wall Street e os ideólogos da direita estadunidense – Milton Friedman à frente – e toda a economia do subcontinente foi orientada segundo o que se convencionou chamar “Consenso de Washington”; no Brasil, “Plano Real”, na Argentina, “Plano Cavallo”. O princípio é bem simples: privatizações subvencionadas por recursos oriundos dos impostos dos povos do país dominado; elevação das taxas de juros; moeda mais ou menos paritária ao dólar estadunidense não importa a que meios ou custos ao povo do país vítima; congelamento de salários; contenção de “gastos” com saúde, educação e segurança pública, tornando o país “seguro” para o Capital e tremendamente inseguro para a vida humana; “internalização”, na moeda local, da dívida externa a ser paga, com juros maiores aos mesmos credores. O modelo se espalha pelo mundo inteiro e, como não é “sustentável” – uma dívida crescente cujos juros não pagos são agregados ao principal numa escalada sem fim. Até o presente as “alternativas” encontradas são as de “reduzir os custos da mão de obra” e “reduzir os gastos do governo” – Robin Hood às avessas arrancar dinheiro de quem tem pouco para transferir aos senhores do cassino internacional em que se tornou o capitalismo contemporâneo.

Em nada disso consegue o a. encontrar “interesses econômicos” conflitantes entre os agressores e os agredidos? Inocência, incoerência ou ideologia? A resposta aparece claramente na expressão – “isenta de ideologia” com que o a. termina o livro, em minha edição na página 336: “Viva o Brasil Capitalista!”

 

Coando mosquito

 

            Vale a pena ler este livro, mas eu tomaria o cuidado de somente o recomendar a quem já tem algum conhecimento pelo menos de metodologia científica séria. Trabalhos elaborados a partir de fontes secundárias ou terciárias não são sérios nem merecem ser levados a sério. Servem, no máximo, como uma referência parcial a um recorte muito particular de eventos selecionados de acordo com a orientação ideológica do a., sem compromisso com a realidade histórica.

            O samba nasceu do jazz...

            Zumbi não se chamava Francisco e tinha escravos...

            Os Portugueses aprenderam a escravidão com os negros e a feijoada tem origem europeia...

            Aleijadinho foi um personagem de ficção (o a. defende lá o seu ponto de vista. É preciso reconhecer que há mais obras atribuídas a um único artista do que seria racional imaginar, mas se vamos a Congonhas do Campo, vemos as estátuas em pedra-sabão e, definitivamente, aquilo não é obra de um personagem de quadrinhos da Superinteressante!)

            A princípio os jesuítas “deram uma folga” na mata atlântica, SIC, pois eram os índios que a estavam destruindo (SIC de novo!). No fim das contas, os Portugueses aprenderam com os índios a prática da coivara (assusta como os portugueses só aprenderam o que não presta com os povos da África e da América...).

            Os índios eram viciados em cachaça e não davam sossego às pessoas que viviam suas vidas pacatas nos povoados adjacentes – estranho... E eu que pensava que a cachaça era uma invenção europeia...

            Sobre Monarquia e Império um elogio à (SIC) vocação pacifista e gradualista do brasileiro...

            Os comunistas eram trapalhões e atrapalhados em sua luta contra a ditadura militar. Deve ser por isso que os generais mandaram tantos aviões Hércules C-130 carregados com “essa gente desagradável” para ser jogada no meio do Oceano Atlântico.

            Santos Dumont não cometeu suicídio por que viu sua invenção ser usada na Primeira Guerra Mundial – em verdade, os irmãos Wright claramente passaram a sua frente e Santos Dumont não tinha problemas em ver seus balões e aviões usados para despejar bombas... Por algum motivo que só o a. pode explicar, a versão corrente na época e até bem recentemente de que foi o homossexualismo de Dumont o que o levou à depressão e ao suicídio não aparece e este viés tem um potencial bem ao gosto do pequenino a., sensacionalista.

            A Doutora Niède Guidon enviou amostras de suas descobertas na Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, Piauí para análise e datação precisa em laboratórios na França e EUA – inclusive coprólitos – fezes fossilizadas, úteis para se descobrir o que as pessoas que ali moravam comiam. A datação através do Carbono 14 e outras metodologias mais sofisticadas vaticinaram: o sítio arqueológico de São Raimundo Nonato apresenta ocupação humana datada de mais de 45.000 anos atrás. Este fato em si traz mais perguntas que respostas – havia seres humanos organizados em alguma forma de comunidade em São Raimundo Nonato há mais de 45.000 anos. Como chegaram ali? Qual era o clima, a vegetação e a hidrologia do lugar há 45 milhares de anos? Qual teria sido sua trajetória e o que os atraiu ali? É preciso pesquisar mais a fundo os pontos intermediários que necessariamente nossos ancestrais trilharam antes de chegar até ali, etc. Interessante como, neste caso, que não cabe, a única coisa que o a. consegue ver (sempre vemos o mundo com nossos próprios olhos, claro está) são “interesses econômicos escusos”, o que ele se recusa a admitir em casos concretamente documentados e provados... É de se lamentar, não causar ira ou raiva, que a educação no Brasil tenha chegado a ponto de um a. poder colocar uma barbaridade dessas num livro publicado embora por editora obscura. Não creio que a Doutora Niède Guidon, grande ser humano, vá se rebaixar a responder ao leandro, tadinho... É uma acusação tão absurdamente risível que sequer mereceria comentário se esse livro não houvesse atingido (ao lado daqueles de auto-ajuda ao Autor e lixo intelectual similar) um lugar de destaque entre “os mais lidos” num país tão culturalmente pauperizado quanto o nosso...

 

Veredicto

            Trata-se de um livro bem escrito, superficial ao estremo, sem aprofundar tema algum além das fontes secundárias ou terciárias, completamente inútil ao estudioso ou estudante de História do Brasil que apresenta – mal, muito mal e superficialmente – alguns fatos curiosos que talvez mereçam um olhar mais aguçado de algum historiador realmente sério.

            Do ponto de vista histórico, factual, por se fundamentar em fontes secundárias ou terciárias apresenta-se HISTORICAMENTE INCORRETO.

            Do ponto de vista antropológico, por centrar-se na visão eurocêntrica e apresentar desprezo monumental a qualquer cultura diferente da europeia o livro é ANTROPOLOGICAMENTE INCORRETO.

            Do ponto de vista da orientação ideológica, ao tomar o partido dos “vencedores” contra os “vencidos”, volta à História Oficial do Brasil do início do século XX, apoia o Império, a ditadura militar e a ditadura do Capital. É IDEOLOGICAMENTE ORIENTADO À DIREITA E POLITICAMENTE INCORRETO.

             Em síntese, como digo acima e reafirmo aqui: "É um livreco muito, muito ruim. Péssimo uso para celulose, tinta e impressão. Um desperdício monstruoso e injustificável de árvores do Brasil." 

 

Leitura Recomendada ao Cientista Social Crítico, a fim de perceber para onde vai a propaganda anti-popular no Brasil

 

 
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