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Imagens do Telescópio Espacial Hubble nos convidam a uma reflexão: quem é o dono da Terra mesmo?

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         A atmosfera do planeta Terra é fina em comparação com a massa do planeta inteiro, mas suficiente para distorcer imagens, quando observamos objetos no espaço. Imagine que a Terra fosse do tamanho de uma maçã. Ou que  uma maçã tivesse o tamanho do nosso planeta. A atmosfera terrestre é mais fina que a casca da maçã.

       Desde que Galileu Galilei teve a grande ideia de usar um brinquedo holandês para ampliar o alcance da visão humana, inventando o primeiro telescópio, seguimos um longo caminho. Os telescópios evoluíram desde a tentativa de criar lentes de vidro cada vez mais sofisticadas e maiores, assim como telescópios que chegavam a ser longos como edifícios até que Isaac Newton (um dos maiores gênios da história da humanidade) inventou o telescópio por refração com a utilização de espelhos ao invés de lentes de vidro. O modelo newtoniano de telescópio é o que utilizamos ainda hoje em todos os Grandes Telescópios na Terra e mesmo nos telescópios espaciais, em órbita geoestacionária, fora da atmosfera terrestre, longe de suas distorções e poluição.

           Há 4 mais famosos e importantes telescópios espaciais em órbita, cada um capaz de vislumbrar uma parte do espectro energético emitido pelos objetos espalhados pelo Cosmos.

            O mais famoso é o Telescópio Espacial Hubble, lançado em 1990 e capaz de fazer, basicamente, o que os grandes telescópios em terra o fazem: focaliza o espectro visível, até quase o ultravioleta; fora da atmosfera e com todo o avanço científico conquistado pela humanidade até 1990 consegue “ver” e mandar para o centro de controle, imagens a milhares de anos-luz de distância. Um esclarecimento: “ano-luz” é medida de DISTÂNCIA, não de tempo. Um ano-luz equivale à distância percorrida por um facho de luz à sua velocidade padrão de 300.000 Km por hora – em uma hora, a luz percorre 300.000 quilômetros – durante um ano. Em um ano, um facho de luz percorre nada menos que 9.460.730.472.580,8 Km – quase 10 TRILHÕES de quilômetros. As distâncias no Espaço Cósmico são de tirar o fôlego! Outra medida usada para distâncias astronômicas é o Parsec, que se refere a "distância correspondente à paralaxe de um arco de segundo" e corresponde a 3,26 anos-luz ou cerca de 31 trilhões de quilômetros. Enfim, o Telescópio Hubble (que recebe esse nome em homenagem ao astrônomo estadunidense Edwin Hubble que, na década de 20 do século XX descobriu que há várias galáxias no Universo; até então a Via Láctea, nossa galáxia, era considerada o Universo; além disso, Hubble percebeu que todas as galáxias estão se afastando umas das outras, levando a uma tentativa de, por inferência, verificar como seria antes, chegando á teoria do Big Bang, até hoje imbatida) consegue “ver” mais longe e com muito mais abrangência do que sonharíamos possível em séculos ou mesmo décadas passadas.

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Telescópio Espacial Hubble

            Outro é Telescópio Espacial Spitzer, que é programado para sintonizar ondas abaixo do espectro visível, os raios infravermelhos. Captar emissões dessa onda do espectro é importante, pois está sintonizado para traduzir ao compreensível o calor emitido. Calor não está no espectro visível, mas o Telescópio Spitzer o capta e isso permite verificar a existência de estrelas e galáxias ocultas por trás, por exemplo, de gigantescas quantidades de poeira cósmica, resultantes de estrelas que explodiram há bilhões de anos. Como há gigantescas (gigantescas de fato, quantidades suficientes para formar milhares de galáxias como a Via Láctea) quantidades de poeira cósmica, só como Spitzer, lançado em 1991, se conseguiu captar as emissões de calor de estrelas e galáxias muito além de toda a poeira cósmica entre nós e elas.

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Telescópio Espacial Spitzer

            Outros dois se especializam em emissões ACIMA do espectro visível: o Telescópio Espacial Chandra (que recebe o nome em homenagem ao astrofísico estadunidense Subrahmanyam Chandrasekhar) vasculha a imensidão do Cosmo por emissões de Raios-X, relevante para a detecção de reminiscentes de estrelas que explodem ou deixaram de existir. O Telescópio Chandra capta estas emissões e amplia nossa percepção do Cosmos. O quarto é também importantíssimo, o Telescópio Espacial Compton, que se especializa em Raios Gama, acima dos Raios-X no espectro de emissões e, desde o início de seu funcionamento em 1991 detectou algumas dezenas de pulsares, quasares (fundamentalmente estrelas de nêutron, profundamente densas e, embora por vezes maiores que o nosso sol, têm uma órbita de 1 ou 2 segundos) que geram e emitem quantidades dificilmente imagináveis de energia.

 

            Enfim, o que nos interessa de pronto é a descoberta do que os astrônomos estadunidenses passaram a chamar de “Pilares da Criação”. Trata-se de uma série de 3 conglomerados inimaginavelmente gigantescos de poeira cósmica situados a mais de 7.000 anos-luz de distância do nosso sistema solar. Multiplique 9.460.730.472.580 Km por 7.000 e terás um número 6.7 com 16 zeros após a primeira casa decimal (algo como sete quadrilhões de quilômetros distante daqui; comparativamente, a Lua fica a 400.000 quilômetros de distância da Terra e nos toma pelo menos 3 dias para viajar até lá no mais veloz foguete concebido pela engenhosidade humana; do Sol, o planeta Terra está a cerca de 150 milhões de quilômetros e a luz de nossa estrela leva cerca de 8 minutos para chegar até nós, o que equivale a dizer também que estamos a 150 milhões de quilômetros ou a 8 minutos-luz do Sol).

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Estes são os impressionantes "Pilares da Criação". Clique para ver a imagem em Alta Qualidade

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            Uma vez que o Telescópio Espacial Hubble nos envia imagens há 23 anos os astrônomos estão observando os Pilares da Criação desde a sua descoberta, já temos a segurança necessária para sabermos como aquele tipo de coisa monumentalmente gigantesca se forma e qual a sua composição.

            Os "Pilares da Criação" fazem parte de uma Nebulosa batizada de “Águia”, na nossa Galáxia (a Via Láctea) cerca de 7.000 anos-luz distantes do nosso Sol. São compostas, fundamentalmente de Hidrogênio – a substância mais abundante no Universo -, Hélio, Sílica (pedra), Carbono além de traços significativos de material mais raro, como Cálcio, Ferro, Ouro, Prata, Urânio, etc. As estrelas são gigantescas fornalhas termonucleares fundindo Hidrogênio em Hélio e, à medida em que seu “combustível”, o Hidrogênio, se aproxima do final, passam a fundir Hélio, formando Carbono, a seguir o Carbono e assim por diante, formando as substâncias mais complexas conhecidas. Quando se trata de uma estrela realmente gigantesca, como Betelgeuse, a Gigante Vermelha ao alto do Ombro do Caçador na constelação de Órion o Caçador, que fica a cerca de 650 anos-luz de distância da Terra, quando uma estrela gigantesca como aquela explode, geram-se ainda mais raros tipos de compostos químicos, deixando como resultado uma gigantesca nuvem de poeira cósmica similar a esta que vemos nos chamados “Pilares da Criação”.

            Em síntese, o que vemos nos Pilares da Criação é o resultado uma ou mais estrelas gigantescas que explodiram há alguns bilhões de anos. Com o impulso apropriado (um jorro de raios-gama, uma estrela que exploda nas proximidades ou o que o valha) a poeira cósmica começa a se mover, as partículas começam a se aproximar, inicialmente devido à eletricidade estática, a seguir, ganhando massa, a gravidade atrai mais material, que segue girando, crescendo, sua gravidade aumenta atraindo mais material até que se formem novas estrelas, ao redor delas, planetas, alguns, quiçá, com a possibilidade do surgimento da vida. Com os avanços da ciência permitindo-nos sabe precisamente como as Estrelas se formam e funcionam podemos afirmar, com todos os filósofos e cientistas que o fizeram antes de nós que somos, cada um de nós, “poeira de estrelas”.

 

 

           Observo as imagens dos “Pilares da Criação”, verdadeiro berçário de incontáveis sistemas planetários, ao mesmo tempo em que ouço, pela enésima vez os poemas “¿Puedes?”- do Poeta Cubano Nicolás Guillén e "Cemitério do Sertão", de Dom Pedro Casaldáliga e medito...

            Como foi que alguns seres humanos se tornaram tão gananciosos a ponto de se proclamar “donos” disso? E registrar em cartórios bem recentes na História Cósmica do Universo, a “propriedade privada” do resultado de incontáveis danças e contradanças das Esferas Cósmicas ao longo de pelo menos 14 bilhões de anos!

            Será que um dia teremos juízo e perceberemos que esse tipo de coisa não se possui? Que, no mínimo, somos tão produto destas danças cósmicas quanto todo o resto de tudo o que vemos e percebemos?

            Além de ofender a dignidade humana, a posse, a propriedade privada da Terra, ou da Água, ou do Ar, ofende a Razão!

            Alguém poderia contra-argumentar que “água e ar, não, por favor!” Com o que eu concordaria, claro! Mas, além da comercialização de água supostamente extraída de icebergs do Polo Norte de nosso planeta se tornou comum e, a se acreditar nos noticiários, uma parte significativa do fruto de nossos impostos vai para pagar a famosa “Água Dom Perignon” servida nos palácios em que se decidem os rumos da política e da economia em nosso país. Fora isso, lembra o que aconteceu na Bolívia há pouco tempo? A empresa privada estadunidense Bechtel privatizou até a água da chuva!

            Refrescando a memória: cedendo à pressão do Banco Mundial em 1993, o então presidente e ex-ditador militar Hugo Banzer, privatizou o serviço público de fornecimento de água às residências bolivianas. A empresa imposta pelo Banco Mundial tinha o nome fantasia de “Águas de Cochabamba” e era de fato uma fachada da multinacional Bechtel em coalizão com outras rapinantes de mesma estirpe.

            “Naturalmente” o preço do serviço foi num crescendo tão disparatado que as pessoas tiveram de tirar suas crianças da escola ou mesmo deixar de ir ao médico devido aos elevadíssimos preços da água. Tentando coletar água de chuva numa região de baixa precipitação, foram severamente reprimidos pela polícia boliviana que defendia o direito do conglomerado apontado pelo Banco Mundial de explorar a reserva natural ÁGUA do povo boliviano. Inclusive a água que cai do céu, a água da chuva...

            No ano 2.000 ocorreu a chamada “Guerra da Água” na Bolívia e o contrato com os rapinantes foi finalmente rescindido. A Bechtel reclamou “indenizações” da ordem de 25 milhões de dólares mas, diante da pressão popular e do estarrecimento internacional (privatizar água de chuva...) a empresa, a contragosto, retirou sua demanda.

 

Concentração Fundiária provoca fome e desespero no Brasil

            Em “O Cativeiro da Terra”, José de Souza Martins aponta para a diferença no encaminhamento da distribuição fundiária nos EUA e no Brasil. Em 1850 os EUA, para atrair imigrantes, criou uma lei conhecida como “Homestead Act”, dando a quem provasse ser capaz de morar e fazer produzir uma gleba de terra não menor que 50 acres, poderia, sem custo registrá-la como sua no cartório mais próximo. No mesmo ano, o Brasil promulgou a “Lei de Terras” determinando que, aquele que desejasse se tornar dono de terras deveria comprá-la do Império, pois que o Estado Nacional Brasileiro, “dono da terra” assim o determinava. Como pouca gente tem dinheiro no Brasil, historicamente falando, aqui a terra ficou concentrada com grandes latifúndios distribuídos entre pouquíssimos proprietários.

            Em pleno século XXI, um dos países do mundo com maior extensão territorial em terras férteis ao longo de todo o ano, somos importadores de... Trigo! Matéria-Prima para a confecção de pão! Por quê? Má distribuição da Terra.

            A ênfase no agronegócio ou, mais “elegantemente”, agro business, faz que muitas empresas multinacionais usando sementes-franquenstein (a empresa Monsanto, por exemplo, produz um tipo de arroz suicida. Sua semente não germina. Isso torna necessária a compra de novas sementes, da Monsanto, a cada novo ciclo de plantação e colheita) e, o que é muito pior, desde a Ditadura Militar, o Brasil, em busca de “fontes alternativas de energia” decidiu produzir um combustível – altamente poluente, caríssimo, economicamente inviável e destruidor da terra – de origem vegetal: o álcool de cana-de-açúcar. É contrário até mesmo às regras do mercado capitalista investir em algo cujo processo produtivo seja duas ou três vezes mais caro que o produto final. Assim como você não compraria (ou confeccionaria) algo com um custo de produção de, digamos R$ 100 e vendesse o resultado por R$ 20,00. Irracional do ponto de vista burguês, capitalista mesmo. Com o álcool combustível é o mesmo. O processo produtivo é muitíssimo mais caro que o resultado final. A solução que os militares encontraram diante da iminência da cessação da produção de petróleo no mundo – que foi um terror em meados da década de 70 e, embora nada tenha mudado, prefere-se não se falar mais nisso – foi SUBVENCIONAR como o dinheiro dos impostos dos brasileiros, a produção do álcool a fim de torná-lo ainda mais barato que a gasolina. Temos uma TREMENDA incidência de raios solares no Brasil e mesmo contrariando o mercado de energia, muitas casas hoje são abastecidas por um sistema de energia solar. Após a instalação de células fotoelétricas no telhado e um sistema de baterias, o dono da casa já não precisa pagar a qualquer empresa prestadora de serviços de energia elétrica. Além dos acima citados Telescópios Espaciais (movidos e mantidos com a energia abundante e gratuita gerada pelo Sol), há uma série de automóveis, barcos e aviões capazes de se locomover galhardamente com energia elétrica oriunda da Energia Solar. Além disso temos grandes linhas de praias com fortes ventos e a Energia Eólica também é uma alternativa inteligente!

Acontece, e o Brasil é sui generis neste ponto; temos uma casta de fazendeiros enriquecidos com subvenções governamentais em torno da produção de álcool a partir da cana-de-açúcar e estes, por sua vez, passam a subvencionar campanhas eleitorais dos políticos que lhes manterão os privilégios além de contratar intelectuais venais para desinformar e criar a idéia falsa, irreal, de uma espécie de “onda verde”, não poluente, a produzir combustível a partir de vegetais. Olha, é uma produção poluidora, caríssima, destruidora da terra, irracional do ponto de vista mercadológico e, o que é pior, gera ainda prejuízos para outros setores da economia! Tendo em vista que a boa terra está ocupada com a cana-de-açúcar, não se produz trigo na quantidade que precisamos para o pão nosso de cada dia e nos tornamos importadores de trigo de países com área de plantio infinitamente menor que a nossa mas que não caíram no conto do “combustível vegetal” por isso prosperam mais.

Mas... Você pode “ser dono de terras”? Mesmo? Como diz Nicolás Guillén, a quem pertence “a profunda noite das raízes, dentes de dinossauros, a cauda espersa de longínquos esqueletos, selvas já sepultadas, aves mortas, peixes de pedra, enxofre dos vulcões, milhões e milhões de anos em espiral crescendo”? E tudo isso resultado da explosão de estrelas a bilhões de anos. Apossar-se da Natureza sem o menor pudor?

Há que se repensar, entre milhares de outras coisas como a representatividade política que, no Brasil, é inexistente, também, quiçá principalmente, na posse e utilização da Terra cuja “finalidade social” é miseravelmente mencionada poeticamente numa constituição fabricada por parlamentares que não foram eleitos para elaborar uma constituição (a de 1988) e que, devido à pavorosa quantidade de emendas constitucionais já nem está mais em vigor! Ninguém – nem mesmo os juízes – sabem quais são as leis em vigor no Brasil; nossa única certeza é a de que amanhã já serão outras, dada a vertiginosa velocidade na votação das Emendas Constitucionais...

Vamos olhar para a imensidão do Cosmos, vamos pensar na infinitude do Tempo e vestirmo-nos de humildade. O piscar de olhos de uma vida humana é breve demais para tanta mesquinharia...

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 23 de setembro de 2013

Revisado a 06/11/2014

Leia ainda

“¿Puedes?”- Nicolás Guillén (com declamação na voz do Poeta)

Cemitério do Sertão" - Dom Pedro Casaldáliga (declamado pelo Autor)

D. Pedro Casaldáliga, Bispo Prelado de São Félix do Araguaia, Contra a Globalização

 

 

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