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A Imitação de Cristo - Tomás de
Kempis
LIVRO PRIMEIRO
AVISOS ÚTEIS PARA A VIDA ESPIRITUAL
CAPÍTULO 1
Da imitação de
Cristo e desprezo de todas as vaidades do mundo
- Quem me
segue não anda nas trevas, diz o Senhor (Jo 8,12). São estas as palavras
de Cristo, pelas quais somos advertidos que imitemos sua vida e seus
costumes, se verdadeiramente queremos ser iluminados e livres de toda
cegueira de coração. Seja, pois, o nosso principal empenho meditar sobre
a vida de Jesus Cristo.
- A doutrina
de Cristo é mais excelente que a de todos os santos, e quem tiver seu
espírito encontrará nela um maná escondido. Sucede, porém, que muitos,
embora ouçam frequentemente o Evangelho, sentem nele pouco enlevo: é que
não possuem o espírito de Cristo. Quem quiser compreender e saborear
plenamente as palavras de Cristo é-lhe preciso que procure conformar à
dele toda a sua vida.
- Que te
aproveita discutires sabiamente sobre a SS. Trindade, se não és humilde,
desagradando, assim, a essa mesma Trindade? Na verdade, não são palavras
elevadas que fazem o homem justo; mas é a vida virtuosa que o torna
agradável a Deus. Prefiro sentir a contrição dentro de minha alma, a
saber defini-la. Se soubesses de cor toda a Bíblia e as sentenças de
todos os filósofos, de que te serviria tudo isso sem a caridade e a
graça de Deus? Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade (Ecle 1,2), senão
amar a Deus e só a ele servir. A suprema sabedoria é esta: pelo desprezo
do mundo tender ao reino dos céus.
- Vaidade é,
pois, buscar riquezas perecedoras e confiar nelas. Vaidade é também
ambicionar honras e desejar posição elevada. Vaidade, seguir os apetites
da carne e desejar aquilo pelo que, depois, serás gravemente castigado.
Vaidade, desejar longa vida e, entretanto, descuidar-se de que seja boa.
Vaidade, só atender à vida presente sem providenciar para a futura.
Vaidade, amar o que passa tão rapidamente, e não buscar, pressuroso, a
felicidade que sempre dura.
- Lembra-te a
miúdo do provérbio: Os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos de
ouvir (Ecle 1,8). Portanto, procura desapegar teu coração do amor às
coisas visíveis e afeiçoá-lo às invisíveis: pois aqueles que satisfazem
seus apetites sensuais mancham a consciência e perdem a graça de Deus.
CAPITULO 2
Do humilde sentir
de si mesmo
1. Todo homem tem
desejo natural de saber; mas que aproveitará a ciência, sem o temor de
Deus? Melhor é, por certo,
o humilde
camponês que serve a Deus, do que o filósofo soberbo que observa o curso
dos astros, mas se descuida de si mesmo. Aquele que se conhece bem se
despreza e não se compraz em humanos louvores. Se eu soubesse quanto há no
mundo, porém me faltasse a caridade, de que me serviria isso perante Deus,
que me há de julgar segundo minhas obras?
- Renuncia ao
desordenado desejo de saber, porque nele há muita distração e ilusão. Os
letrados gostam de ser vistos e tidos por sábios. Muitas coisas há cujo
conhecimento pouco ou nada aproveita à alma. E mui insensato é quem de
outras coisas se ocupa e não das que tocam à sua salvação. As muitas
palavras não satisfazem à alma, mas uma palavra boa refrigera o espírito
e uma consciência pura inspira grande confiança em Deus.
-
Quanto mais e melhor souberes, tanto mais
rigorosamente serás julgado, se com isso não viveres mais santamente.
Não te desvaneças, pois, com qualquer arte ou conhecimento que
recebeste. Se te parece que sabes e entendes bem muitas coisas,
lembra-te que é muito mais o que ignoras. Não te presumas de alta
sabedoria (Rom 11,20); antes, confessa a tua ignorância. Como tu queres
a alguém te preferir, quando se acham muitos mais doutos do que tu e
mais versados na lei? Se queres saber e aprender coisa útil, deseja ser
desconhecido e tido por nada.
- Não há
melhor e mais útil estudo que se conhecer perfeitamente e desprezar-se a
si mesmo. Ter-se por nada e pensar sempre bem e favoravelmente dos
outros, prova é de grande sabedoria e perfeição. Ainda quando vejas
alguém pecar publicamente ou cometer faltas graves, nem por isso te
deves julgar melhor, pois não sabes quanto tempo poderás perseverar no
bem. Nós todos somos fracos, mas a ninguém deves considerar mais fraco
que a ti mesmo.
CAPITULO 3
Dos ensinamentos
da verdade
-
Bem-aventurado aquele a quem a verdade por si mesma ensina, não por
figuras e vozes que passam, mas como em si é. Nossa opinião e nossos
juízos muitas vezes nos enganam e pouco alcançam. De que serve a sutil
especulação sobre questões misteriosas e obscuras, de cuja ignorância
não seremos julgados? Grande loucura é descurarmos as coisas úteis e
necessárias, entregando-nos, com avidez, às curiosas e nocivas. Temos
olhos para não ver (Sl 113,13).
- Que se nos
dá dos gêneros e das espécies dos filósofos? Aquele a quem fala o Verbo
eterno se desembaraça de muitas questões. Desse Verbo único procedem
todas as coisas e todas o proclamam e esse é o princípio que também nos
fala (Jo 8,25). Sem ele não há entendimento nem reto juízo. Quem acha
tudo neste Único, e tudo a ele refere e nele tudo vê, poderá ter o
coração firme e permanecer em paz com Deus. Ó Deus de verdade, fazei-me
um convosco na eterna caridade! Enfastia-me, muita vez, ler e ouvir
tantas coisas; pois em vós acho tudo quanto quero e desejo. Calemse
todos os doutores, emudeçam todas as criaturas em vossa presença;
falai-me vós só.
- Quanto mais
recolhido for cada um e mais simples de coração, tanto mais sublimes
coisas entenderá sem esforço, porque do alto recebe a luz da
inteligência. O espírito puro, singelo e constante não se distrai no
meio de múltiplas ocupações porque faz tudo para honra de Deus, sem
buscar em coisa alguma o seu próprio interesse. Que mais te impede e
perturba do que os afetos imortificados do teu coração? O homem bom e
piedoso ordena primeiro no seu interior as obras exteriores; nem estas o
arrasam aos impulsos de alguma inclinação viciosa, senão que as submete
ao arbítrio da reta razão. Que mais rude combate haverá do que procurar
vencer-se a si mesmo? E este deveria ser nosso empenho: vencermo-nos a
nós mesmos, tornarmo-nos cada dia mais fortes e progredirmos no bem.
- Toda a
perfeição, nesta vida, é mesclada de alguma imperfeição, e todas as
nossas luzes são misturadas de sombras. O humilde conhecimento de ti
mesmo é caminho mais certo para Deus que as profundas pesquisas da
ciência. Não é reprovável a ciência ou qualquer outro conhecimento das
coisas, pois é boa em si e ordenada por Deus; sempre, porém, devemos
preferir-lhe a boa consciência e a vida virtuosa. Muitos, porém, estudam
mais para saber, que para bem viver; por isso erram a miúdo e pouco ou
nenhum fruto colhem.
- Ah! Se se
empregasse tanta diligência em extirpar vícios e implantar virtudes como
em ventilar questões, não haveria tantos males e escândalos no povo, nem
tanta relaxação nos claustros. De certo, no dia do juízo não se nos
perguntará o que lemos, mas o que fizemos; nem quão bem temos falado,
mas quão honestamente temos vivido. Dize-me: onde estão agora todos
aqueles senhores e mestres que bem conheceste, quando viviam e
floresciam nas escolas? Já outros possuem suas prebendas, e nem sei se
porventura deles se lembram. Em vida pareciam valer alguma coisa, e hoje
ninguém deles fala.
- Oh! Como
passa depressa a glória do mundo! Oxalá a sua vida tenha correspondido à
sua ciência; porque, destarte, terão lido e estudado com fruto. Quantos,
neste mundo, descuidados do serviço de Deus, se perdem por uma ciência
vã! E porque antes querem ser grandes que humildes, se esvaecem em seus
pensamentos (Rom 1,21). Verdadeiramente grande é aquele que a seus olhos
é pequeno e avalia em nada as maiores honras. Verdadeiramente prudente é
quem considera como lodo tudo o que é terreno, para ganhar a Cristo (Flp
3,8). E verdadeiramente sábio aquele que faz a vontade de Deus e
renuncia a própria vontade.
CAPÍTULO 4
Da prudência nas
ações
-
Não se há de dar crédito a toda palavra nem
a qualquer impressão, mas cautelosa e naturalmente se deve, diante de
Deus, ponderar as coisas. Mas, ai! Que mais facilmente acreditamos e
dizemos dos outros o mal que o bem, tal é a nossa fraqueza. As almas
perfeitas, porém, não crêem levianamente em qualquer coisa que se lhes
conta, pois conhecem a fraqueza humana inclinada ao mal e fácil de pecar
por palavras.
- Grande
sabedoria é não ser precipitado nas ações, nem aferrado obstinadamente à
sua própria opinião; sabedoria é também não acreditar em tudo que nos
dizem, nem comunicar logo a outros o que ouvimos ou suspeitamos. Toma
conselho com um varão sábio e consciencioso, e procura antes ser
instruído por outrem, melhor que tu, que seguir teu próprio parecer. A
vida virtuosa faz o homem sábio diante de Deus e entendido em muitas
coisas. Quanto mais humilde for cada um em si e mais sujeito a Deus,
tanto mais prudente será e calmo em tudo.
CAPÍTULO 5
Da leitura das
Sagradas Escrituras
- Nas
Sagradas Escrituras devemos buscar a verdade, e não a eloquência. Todo
livro sagrado deve ser lido com o mesmo espírito que o ditou. Nas
Escrituras devemos antes buscar nosso proveito que a sutileza da
linguagem. Tão grata nos deve ser a leitura dos livros simples e
piedosos, como a dos sublimes e profundos. Não te mova a autoridade do
escritor, se é ou não de grandes conhecimentos literários; ao contrário,
lê com puro amor a verdade. Não procures saber quem o disse; mas
considera o que se diz.
- Os homens
passam, mas a verdade do Senhor permanece eternamente (Sl 116,2). De
vários modos nos fala Deus, sem acepção de pessoa. A nossa curiosidade
nos embaraça, muitas vezes, na leitura das Escrituras; porque queremos
compreender e discutir o que se devia passar singelamente. Se queres
tirar proveito, lê com humildade, simplicidade e fé, sem cuidar jamais
do renome de letrado. Pergunta de boa vontade e ouve calado as palavras
dos santos; nem te desagradem as sentenças dos velhos, porque eles não
falam sem razão.
CAPÍTULO 6
Das afeições
desordenadas
- Todas as
vezes que o homem deseja alguma coisa desordenadamente, torna-se logo
inquieto. O soberbo e o avarento nunca sossegam; entretanto, o pobre e o
humilde de espírito vivem em muita paz. O homem que não é perfeitamente
mortificado facilmente é tentado e vencido, até em coisas pequenas e
insignificantes. O homem espiritual, ainda um tanto carnal e propenso à
sensualidade, só a muito custo poderá desprender-se de todos os desejos
terrenos. Daí a sua freqüente tristeza, quando deles se abstém, e fácil
irritação, quando alguém o contraria.
- Se, porém,
alcança o que desejava, sente logo o remorso da consciência, porque
obedeceu à sua paixão, que nada vale para alcançar a paz que almejava.
Em resistir, pois, às paixões, se acha a verdadeira paz do coração, e
não em segui-las. Não há, portanto, paz no coração do homem carnal, nem
no do homem entregue às coisas exteriores, mas somente no daquele que é
fervoroso e espiritual.
CAPÍTULO 7
Como se deve
fugir à vã esperança e presunção
- Insensato é
quem põe sua esperança nos homens ou nas criaturas. Nào te envergonhes
de servir a outrem por Jesus Cristo, e ser tido como pobre neste mundo.
Não confies em ti mesmo, mas põe em Deus tua esperança. Faze de tua
parte o que puderes, e Deus ajudará tua boa vontade. Não confies em tua
ciência, nem na sagacidade de qualquer vivente, mas antes na graça de
Deus, que ajuda os humildes e abate os presunçosos.
- Se tens
riquezas, não te glories delas, nem dos amigos, por serem poderosos,
senão em Deus, que dá tudo, além de tudo, deseja dar-se a si mesmo. Não
te desvaneças com a airosidade ou formosura de teu corpo, que com
pequena enfermidade se quebranta e desfigura. Não te orgulhes de tua
habilidade ou de teu talento, para que não desagrades a Deus, de quem é
todo bem natural que tiveres.
- Não te
reputes melhor que os outros para não seres considerado pior por Deus,
que conhece tudo que há no homem. Não te ensoberbeças pelas boas obras,
porque os juízos dos homens são muito diferentes dos de Deus, a quem não
raro desagrada o que aos homens apraz. Se em ti houver algum bem, pensa
que ainda melhores são os outros, para assim te conservares na
humildade. Nenhum mal te fará se te julgares inferior a todos; muito,
porém, se a qualquer pessoa te preferires. De contínua paz goza o
humilde; no coração do soberbo, porém, reinam inveja e iras sem conta.
CAPÍTULO 8 Como
se deve evitar a excessiva familiaridade
- Não abras
teu coração a qualquer homem (Eclo 8,22); mas trata de teus negócios com
o sábio e temente a Deus. Com moços e estranhos conversa pouco. Não
lisonjeies os ricos, nem busques aparecer muito na presença dos
potentados. Busca a companhia dos humildes e simples, dos devotos e
morigerados, e trata com eles de assuntos edificantes. Não tenhas
familiaridade com mulher alguma; mas, em geral, encomenda a Deus todas
as que são virtuosas. Procura intimidade com Deus apenas, e seus anjos,
e foge de seres conhecidos dos homens.
- Caridade se
deve ter para com todos; mas não convém ter com todos a familiaridade.
Sucede, freqüentemente, gozar de boa reputação pessoa desconhecida que,
na sua presença, desagrada aos olhos dos que a vêem. Julgamos, às vezes,
agradar aos outros com a nossa intimidade, mas antes os aborrecemos com
os defeitos que em nós vão descobrindo.
CAPÍTULO 9
Da obediência e
submissão
- Grande
coisa é viver na obediência, sob a direção de um superior, e não dispor
da própria vontade. Muito mais seguro é obedecer que mandar. Muitos
obedecem mais por necessidade que por amor: por isso sofrem e facilmente
murmuram. Esses não alcançarão a liberdade de espírito, enquanto não se
sujeitarem de todo o coração, por amor de Deus. Anda por onde quiseres:
não acharás descanso senão na humilde sujeição e obediência ao superior.
A imaginação dos lugares e mudanças a muitos tem iludido.
- Verdade é
que cada um gosta de seguir seu próprio parecer e mais se inclina
àqueles que participam da sua opinião. Entretanto, se Deus está conosco,
cumpre-nos, às vezes, renunciar ao nosso parecer por amor da paz. Quem é
tão sábio que possa saber tudo completamente? Não confies, pois,
demasiadamente em teu próprio juízo; mas atende também, de boa mente, ao
dos demais. Se o teu parecer for bom e o deixares, por amor de Deus,
para seguires o de outrem, muito lucrarás com isso.
- Com efeito,
muitas vezes ouvi falar que é mais seguro ouvir e tomar conselho que
dá-lo. É bem possível que seja acertado o parecer de cada um: mas não
querer ceder aos outros, quando a razão ou as circunstâncias o pedem, é
sinal de soberba e obstinação.
CAPÍTULO 10
Como se devem
evitar as conversas supérfluas
- Evita,
quanto puderes, o bulício dos homens, porque muito nos perturbam os
negócios mundanos ainda quando tratados com reta intenção; pois bem
depressa somos manchados e cativos da vaidade. Quisera eu ter calado
muitas vezes e não ter conversado com os homens. Por que razão, porém,
nos atraem falas e conversas, se raras vezes voltamos ao silêncio sem
dano da consciência? Gostamos tanto de falar, porque pretendemos, com
essas conversações, ser consolados uns pelos outros e desejamos aliviar
o coração fatigado por preocupações diversas. E ordinariamente sentimos
prazer em falar e pensar, ora nas coisas que muito amamos e desejamos,
ora nas que nos contrariam.
- Mas ai!
Muitas vezes é em vão e sem proveito, pois essa consolação exterior é
muito prejudicial à consolação interior e divina. Cumpre, portanto,
vigiar e orar, para que não passe o tempo ociosamente. Se for lícito e
oportuno falar, seja de coisas edificantes. O mau costume e o descuido
do nosso progresso espiritual concorrem muito para o desenfreamento de
nossa língua. Ajudam muito, porém, ao aproveitamento espiritual os
devotos colóquios sobre coisas espirituais, mormente quando se associam
em Deus pessoas que pensam e sentem do mesmo modo.
CAPÍTULO 11
Da paz e do zelo
em aproveitar
- Muita paz
podíamos gozar, se não nos quiséssemos ocupar com os ditos e fatos
alheios que não pertencem ao nosso cuidado. Como pode ficar em paz por
muito tempo aquele que se intromete em negócios alheios, que busca
relações exteriores, que raras vezes e mal se recolhe interiormente?
Bem-aventurados os simples, porque hão de ter muita paz!
-
Por que muitos santos foram tão perfeitos
e contemplativos? É que eles procuraram mortificar-se inteiramente em
- todos os
desejos terrenos, e assim puderam, no íntimo de seu coração, unir-se a
Deus e atender livremente a si mesmos. Nós, porém, nos ocupamos
demasiadamente das próprias paixões e cuidados com excesso das coisas
transitórias. Raro é vencermos sequer um vício perfeitamente; não nos
inflamamos no desejo de progredir cada dia; daí a frieza e tibieza em
que ficamos.
- Se
estivéssemos perfeitamente mortos a nós mesmos e interiormente
desimpedidos, poderíamos criar gosto pelas coisas divinas e algo
experimentar das doçuras da celeste contemplação. O que principalmente e
mais nos impede é o não estarmos ainda livres das nossas paixões e
concupiscências, nem nos esforçamos por trilhar o caminho perfeito dos
santos. Basta pequeno contratempo para desalentarmos completamente e
voltarmos a procurar consolações humanas.
- Se nos
esforçássemos por ficar firmes no combate, como soldados valentes, por
certo veríamos descer sobre nós o socorro de Deus. Pois ele está sempre
pronto a auxiliar os combatentes confiados em sua graça: Aquele que nos
proporciona ocasiões de peleja para que logremos a vitória. Se fizermos
consistir nosso aproveitamento espiritual tãosomente nas observâncias
exteriores, nossa devoção será de curta duração. Metamos, pois, o
machado à raiz, para que, livre das paixões, goze paz nossa alma.
- Se cada ano
extirpássemos um só vício em breve seríamos perfeitos. Mas agora, pelo
contrário, muitas vezes experimentamos que éramos melhores, e nossa vida
mais pura, no princípio da nossa conversão que depois de muitos anos de
profissão. O nosso fervor e aproveitamento deveriam crescer, cada dia;
mas, agora, considera-se grande coisa poder alguém conservar parte do
primitivo fervor. Se no princípio fizéramos algum esforço, tudo
poderíamos, em seguida, fazer com facilidade e gosto.
- Custoso é
deixar nossos costumes; mais custoso, porém, contrariar a própria
vontade. Mas, se não vences obstáculos pequenos e leves, como triunfarás
dos maiores? Resiste no princípio à tua inclinação e rompe com o mau
costume, para que te não metas pouco a pouco em maiores dificuldades.
Oh! Se bem considerasses quanta paz gozarias e quanto prazer darias aos
outros, se vivesses bem, de certo cuidarias mais do teu adiantamento
espiritual.
CAPÍTULO 12
Da utilidade das
adversidades
- Bom é
passarmos algumas vezes por aflições e contrariedades, porque
freqüentemente fazem o homem refletir, lembrando-lhe que vive no
desterro e, portanto, não deve pôr sua esperança em coisas alguma do
mundo. Bom é econtrarmos às vezes contradições, e que de nós façam
conceito mau ou pouco favorável, ainda quando nossas obras e intenções
sejam boas. Isto ordinariamente nos conduz à humildade e nos preserva da
vanglória. Porque, então, mais depressa recorremos ao testemunho
interior de Deus, quando de fora somos vilipendiados e desacreditados
pelos homens.
- Por isso,
devia o homem firmar-se de tal modo em Deus, que lhe não fosse mais
necessário mendigar consolações às criaturas. Assim que o homem de boa
vontade está atribulado ou tentado, ou molestado por maus pensamentos,
sente logo melhor a necessidade que tem de Deus, sem o qual não pode
fazer bem algum. Então se entristece, geme e chora pelas misérias que
padece. Então causa-lhe tédio viver mais tempo, e deseja que venha a
morte livrá-lo do corpo e unilo a Cristo. Então compreende também que
neste mundo não pode haver perfeita segurança nem paz completa.
CAPÍTULO 13
Como se há de
resistir às tentações
- Enquanto
vivemos neste mundo, não podemos estar sem trabalhos e tentações. Por
isso lemos no livro de Jó (7,1): É um combate a vida do homem sobre a
terra. Cada qual, pois, deve estar acautelado contra as tentações,
mediante a vigilância e a oração, para não dar azo às ilusões do
demônio, que nunca dorme, mas anda por toda parte em busca de quem possa
devorar (1 Pdr 5,8) . Ninguém há tão perfeito e santo, que não tenha, às
vezes, tentações, e não podemos ser delas totalmente isentos.
-
São, todavia, utilíssimas ao homem as
tentações, posto que sejam molestas e graves, porque nos humilham,
purificam e instruem. Todos os santos passaram por muitas tribulações e
tentações, e com elas aproveitaram; aqueles, porém, que não as puderam
suportar foram reprovados e pereceram. Não há Ordem tão santa nem lugar
tão retirado, em que não haja tentações e adversidades.
- Nenhum
homem está totalmente livre das tentações, enquanto vive, porque em nós
mesmos está a causa donde procedem: a concupiscência em que nascemos.
Mal acaba uma tentação ou tribulação, outra sobrevém, e sempre teremos
que sofrer, porque perdemos o dom da primitiva felicidade. Muitos
procuram fugir às tentações, e outras piores encontram. Não basta a fuga
para vencê-las; é pela paciência e verdadeira humildade que nos tornamos
mais fortes que todos os nossos inimigos.
-
Pouco adianta quem somente evita as ocasiões
exteriores, sem arrancar as raízes; antes lhe voltarão mais depressa as
tentações, e se achará pior. Vencê-las-á melhor com o auxílio de Deus, a
pouco e pouco com paciência e resignação, que com importuna violência e
esforço próprio. Toma a miúdo conselho na tentação e não sejas desabrido
e áspero para
o que é tentado,
trata antes de o consolar, como desejas ser consolado.
- O princípio
de todas a más tentações é a inconstância do espírito e a pouca
confiança em Deus; pois, assim como as ondas lançam de uma parte a outra
o navio sem leme, assim as tentações combatem o homem descuidado e
inconstante em seus propósitos. O ferro é provado pelo fogo, e o justo
pela tentação. Ignoramos muitas vezes o que podemos, mas a tentação
manifesta o que somos. Todavia, devemos vigiar, principalmente no
princípio da tentação; porque mais fácil nos será vencer o inimigo,
quando não o deixarmos entrar na alma, enfrentando-o logo que bater no
limiar. Por isso disse alguém: Resiste desde o princípio, que vem tarde
o remédio, quando cresceu o mal com a muita demora (Ovídio). Porque
primeiro ocorre à mente um simples pensamento, donde nasce a importuna
imaginação, depois o deleite, o movimento; e assim, pouco a pouco, entra
de todo na alma o malvado inimigo. E quanto mais alguém for indolente em
lhe resistir, tanto mais fraco se tornará cada dia, e mais forte o seu
adversário.
- Uns padecem
maiores tentações no começo de sua conversão, outros, no fim; outros por
quase toda a vida são molestados por elas. Alguns são tentados
levemente, segundo a sabedoria da divina Providência, que pondera as
circunstâncias e o merecimento dos homens, e tudo predispõe para a
salvação de seus eleitos.
- Por isso
não devemos desesperar, quando somos tentados; mas até, com maior
fervor, pedir a Deus que se digne ajudar-nos em toda provação, pois que,
no dizer de S. Paulo, nos dará graça suficiente na tentação para que a
possamos vencer (1 Cor 10,13). Humilhemos, portanto, nossas almas,
debaixo da mão de Deus, em qualquer tentação e tribulação porque ele há
de salvar e engrandecer os que são humildes de coração.
- Nas
tentações e adversidades se vê quanto cada um tem aproveitado; nelas
consiste o maior merecimento e se patenteia melhor a virtude. Não é lá
grande coisa ser o homem devoto e fervoroso quando tudo lhe corre bem;
mas, se no tempo da adversidade conserva a paciência, pode-se esperar
grande progresso. Alguns há que vencem as grandes tentações e, nas
pequenas, caem freqüentemente, para que, humilhados, não presumam de si
grandes coisas, visto que com tão pequenas sucumbem.
CAPÍTULO 14
Como se deve
evitar o juízo temerário
- Relanceia
sobre ti o olhar e guarda-te de julgar as ações alheias. Quem julga os
demais perde o trabalho, quase sempre se engana e facilmente peca; mas,
examinando-se e julgando-se a si mesmo, trabalha sempre com proveito. De
ordinário, julgamos as coisas segundo a inclinação do nosso coração,
pois o amor-próprio facilmente nos altera a retidão do juízo. Se Deus
fora sempre o único objetivo dos nossos desejos, não nos perturbaria tão
facilmente qualquer oposição ao nosso parecer.
- Muitas
vezes existe, dentro ou fora de nós, alguma coisa que nos atrai e em nós
influi. Muitos buscam secretamente a si mesmos em suas ações, e não o
percebem. Parecem até gozar de boa paz, enquanto as coisas correm à
medida de seus desejos; mas, se de outra sorte sucede, logo se inquietam
e entristecem. Da discrepância de pareceres e opiniões freqüentemente
nascem discórdias entre amigos e vizinhos, entre religiosos e pessoas
piedosas.
- É custoso
perder um costume inveterado, e ninguém renuncia, de boa mente, a seu
modo de ver. Se mais confias em tua razão e talento que na graça de
Jesus Cristo, só raras vezes e tarde serás iluminado; pois Deus quer que
nos sujeitemos perfeitamente a ele e que nos elevemos acima de toda
razão humana, inflamados do seu amor.
CAPÍTULO 15
Das obras feitas
com caridade
- Por nenhuma
coisa do mundo, nem por amor de pessoa alguma, se deve praticar qualquer
mal; mas, em prol de algum necessitado, pode-se, às vezes, omitir uma
boa obra, ou trocá-la por outra melhor. Desta sorte, a boa obra não se
perde, mas se converte em outra melhor. Sem a caridade, nada vale a obra
exterior; tudo, porém, que da caridade procede, por insignificante e
desprezível que seja, produz abundantes frutos, porque Deus não atende
tanto à obra, como à intenção com que a fazemos.
- Muito faz
aquele que muito ama. Muito faz quem bem faz o que faz. Bem faz quem
serve mais ao bem comum que à sua própria vontade. Muitas vezes parece
caridade o que é mero amor-próprio, porque raras vezes nos deixa a
inclinação natural, a própria vontade, a esperança da recompensa, o
nosso interesse.
- Aquele que
tem verdadeira e perfeita caridade em nada se busca a si mesmo, mas
deseja que tudo se faça para a glória de Deus. De ninguém tem inveja,
porque não deseja proveito algum pessoal, nem busca sua felicidade em
si, mas procura sobre todas as coisas ter alegria e felicidade em Deus.
Não atribui bem algum à criatura, mas refere tudo a Deus, como à fonte
de que tudo procede, e em que, como em fim último, acham todos os santos
o deleitoso repousar. Oh! Quem tivera só uma centelha de verdadeira
caridade logo compreenderia a vaidade de todas as coisas terrenas!
CAPÍTULO 16
Do sofrer os
defeitos dos outros
- Aquilo que
o homem não pode emendar em si mesmo ou nos demais, deve-o tolerar com
paciência, até que Deus disponha de outro modo. Considera que talvez
seja melhor assim, para provar tua paciência, sem a qual não têm grande
valor nossos méritos. Todavia, convém, nesses embaraços, pedir a Deus
que te auxilie, para que os possas levar com seriedade.
- Se alguém,
com uma ou duas advertências, não se emendar, não contendas com ele; mas
encomenda tudo a Deus para que seja feita a sua vontade, e seja ele
honrado em todos os seus servos, pois sabe tirar bem do mal. Procura
sofrer com paciência os defeitos e quaisquer imperfeições dos outros,
pois tens também muitas que os outros têm de aturar. Se não te podes
modificar como desejas, como pretendes ajeitar os outros à medida de
teus desejos? Muito desejamos que os outros sejam perfeitos, e nem por
isso emendamos as nossas faltas.
- Queremos
que os outros sejam corrigidos com rigor, e nós não queremos ser
repreendidos. Estranhamos a larga liberdade dos outros, e não queremos
sofrer recusa alguma. Queremos que os outros sejam apertados por
estatutos e não toleramos nenhum constrangimento que nos coíba. Donde
claramente se vê quão raras vezes tratamos o próximo como a nós mesmos.
Se todos fossem perfeitos, que teríamos então de sofrer nós mesmos por
amor de Deus?
- Ora, Deus
assim o dispôs para que aprendamos a carregar uns o fardo dos outros;
porque ninguém há sem defeito; ninguém sem carga; ninguém com força e
juízo bastante para si; mas cumpre que uns aos outros nos suportemos,
consolemos, auxiliemos, instruamos e aconselhemos. Quanta virtude cada
um possui, melhor se manifesta na ocasião da adversidade; pois as
ocasiões não fazem o homem fraco, mas revelam o que ele é.
CAPITULO 17
Da vida monástica
- Aprende a
abnegar-te em muitas coisas, se queres ter paz e concórdia com os
outros. Não é pouco habitar em mosteiros ou congregações religiosas,
viver ali sem queixas e perseverar fielmente até à morte. Bem-aventurado
é aquele que aí vive bem e termina a vida com um fim abençoado! Se
queres permanecer firme e fazer progressos, considera-te como desterrado
e peregrino sobre a terra. Convém fazer-te louco por amor de Cristo, se
queres seguir a vida religiosa.
- De pouca
monta são o hábito e a tonsura: são a mudança dos costumes e a perfeita
mortificação das paixões que fazem o verdadeiro religioso. Quem outra
coisa procura senão a Deus só e a salvação de sua alma, só achará
tribulações e angústias. Não pode ficar por muito tempo em paz quem não
procura ser o menor e o mais submisso de todos.
-
Para servir vieste, não para mandar;
lembra-te que foste chamado para trabalhar e sofrer, e não para folgar e
conversar. Aqui, pois, se provam os homens, à semelhança do ouro na
fornalha. Aqui, ninguém perseverará, se não quiser humilhar-se, de todo
o coração, por amor de Deus.
CAPÍTULO 18
Dos exemplos dos Santos Padres
- Contempla
os salutares exemplos dos Santos Padres, nos quais brilhou a verdadeira
perfeição religiosa, e verás quão pouco ou quase nada é o que fazemos.
Ah! Que é a nossa vida em comparação com a deles? Os santos e amigos de
Cristo serviram ao Senhor em fome e sede, em frio e nudez, em trabalho e
fadiga, em vigílias e jejuns, em orações e santas meditações, em
perseguições e muitos opróbrios.
- Oh! Quantas
e quão graves tribulações sofreram os apóstolos, os mártires, os
confessores, as virgens e todos quantos quiseram seguir as pisadas de
Cristo! Odiaram suas almas neste mundo, para possuí-las eternamente no
outro. Oh! Que vidas austeras e mortificadas levaram os Santos Padres no
deserto! Que contínuas e graves tentações suportaram! Quantas vezes
foram atormentados pelo inimigo! Quantas orações fervorosas ofereceram a
Deus! Que rigorosas abstinências praticaram! Que zelo e fervor tiveram
em seu adiantamento espiritual! Que guerra fizeram para subjugar os
vícios! Com que pura e reta intenção buscaram a Deus! Durante o dia
trabalhavam e passavam as noites em orações ainda que trabalhando não
interrompessem um momento a oração mental.
- Todo o
tempo era empregado utilmente; toda hora lhes parecia breve convivida
com Deus; e pela grande doçura das contemplações se esqueciam até da
necessária refeição do corpo. Renunciavam a todas as riquezas,
dignidades, honras, amigos e parentes; nada queriam do mundo; apenas
tomavam o indispensável para a vida e só com pesar satisfaziam as
exigências da natureza. Assim eram pobres nos bens terrenos, mas muito
ricos de graças e virtudes. Exteriormente lhes faltava tudo;
interiormente, porém, se deliciavam com graças e consolações divinas.
- Ao mundo
eram estranhos, mas íntimos e familiares amigos de Deus. A si mesmos
tinham em conta de nada, e o mundo os desprezava; mas eram preciosos e
queridos aos olhos de Deus. Mantinham-se na verdadeira humildade, viviam
em singela obediência, andavam em caridade e paciência; assim cada dia
faziam progresso na vida espiritual e mais a Deus agradavam. Esses foram
dados por modelos a todos os religiosos, e mais nos devem estimular ao
progresso espiritual, do que a multidão dos tíbios ao esmorecimento.
- Oh! Quanto
foi o fervor de todos os religiosos, nos primeiros tempos de seus santos
institutos! Quanta piedade na oração! Que emulação nas virtudes! Que
austera disciplina vigorava então! Que respeito e obediência aos
preceitos do superior reluzia em todos! Os vestígios que deixaram ainda
atestam que foram verdadeiramente varões santos e perfeitos os que em
tão renhidos combates venceram o mundo. Hoje já se considera grande quem
não é transgressor da regra e com paciência suporta o jugo que se impôs.
- Ó tibieza e
desleixo do nosso estado, que tão depressa declinamos do fervor
primitivo, e já nos causa tédio o viver, por tanta negligência e
frouxidão! Oxalá em ti não entorpeça de todo o desejo de progredir nas
virtudes, já que tantos modelos viste de perfeição!
CAPÍTULO 19
Dos exercícios do
bom religioso
- A vida do
bom religioso deve ser ornada de todas as virtudes, para que corresponda
o interior ao que por fora vêem os homens; e com razão, ainda mais
perfeito deve ser no interior do que por fora parece, pois lá penetra o
olhar perscrutador de Deus, a quem devemos suma reverência, em qualquer
lugar onde estivermos, e em cuja presença devemos andar com pureza
Angélica. Cada dia devemos renovar nosso propósito e exercitar-nos a
maior fervor, como se esse fosse o primeiro dia de nossa conversão,
dizendo: Confortai-me, Senhor, meu Deus, no bom propósito e em vosso
santo serviço; concedei-me começar hoje deveras, pois nada é o que até
aqui tenho feito.
- A medida da
nossa resolução será nosso progresso, e grande solicitude exige o sério
aproveitamento. Se aquele que toma enérgicas resoluções tantas vezes
cai, que será daquele que as toma raramente ou menos firmemente propõe?
Sucede, porém, de vários modos deixarmos o nosso propósito; e raras
vezes passa sem dano qualquer leve omissão de nossos exercícios. O
propósito dos justos mais se firma na graça de Deus, que em sua própria
sabedoria; nela confiam sempre, em qualquer empreendimento. Porque o
homem propõe, mas Deus dispõe, e não está na mão do homem o seu caminho
(Jer 10,23).
-
Quando, por motivo de piedade ou proveito
do próximo, se deixa alguma vez o costumado exercício, fácil é reparar
- depois
essa falta; omiti-lo, porém, facilmente, por enfado ou negligência, já
é bastante culpável, e sentir-se-á o prejuízo. Esforcemo-nos quanto
pudermos, ainda assim cairemos em muitas faltas; contudo, devemos
sempre fazer um propósito determinado, mormente contra os principais
obstáculos do nosso progresso espiritual. Devemos examinar e ordenar
tanto o interior como o exterior, porque ambos importam ao nosso
aproveitamento.
- Se não
podes continuamente estar recolhido, recolhe-te de vez em quando, ao
menos uma vez por dia, pela manhã ou à noite. De manhã toma resoluções,
e à noite examina tuas ações: como te houveste hoje em palavras, obras e
pensamentos, porque nisso, talvez não raro, tenhas ofendido a Deus e ao
próximo. Arma-te varonilmente contra as maldades do demônio; refreia a
gula, e facilmente refrearás todo apetite carnal. Nunca estejas de todo
desocupado, mas lê ou escreve ou reza ou medita ou faze alguma coisa de
proveito comum. Nos exercícios corporais, porém, haja toda discrição,
porque não convém igualmente a todos.
- Os
exercícios pessoais não se devem fazer publicamente, mais seguro é
praticá-los secretamente. Guarda-te de ser negligente nos exercícios da
regra, e mais diligente nos particulares; mas, satisfeitas inteira e
fielmente as coisas de obrigação e preceito, se tempo sobrar, ocupa-te
em exercícios, conforme te inspirar a tua devoção. Nem todos podem ter o
mesmo exercício; um convém mais a este, outro àquele. Até do tempo
depende a conveniência e o atrativo das práticas; porque umas são mais
apropriadas para os dias festivos, outras para os dias comuns; dumas
precisamos para o tempo da tentação, de outras no tempo de paz e
sossego. Numas coisas gostamos de meditar quando estamos tristes, e
noutras quando estamos alegres no Senhor.
- À volta das
festas principais devemos renovar os nossos bons exercícios e com mais
fervor implorar a intercessão dos santos. De uma para outra festividade
devemos preparar-nos, como se então houvéssemos de sair deste mundo e
chegar à festividade eterna. Por isso, devemos aparelhar-nos
diligentemente, nos tempos de devoção, com vida mais piedosa e
observância mais fiel de todas as regras, como se houvéssemos de receber
em breve o galardão do nosso trabalho.
- E, se for
adiada essa hora, tenhamos por certo que não estamos ainda bem
preparados nem dignos de tamanha glória que, a seu tempo, se revelará em
nós, e tratemos de nos preparar para a morte. Bem-aventurado o servo.
Diz o evangelista São Lucas, a quem o Senhor, quando vier, achar
vigiando. Em verdade vos digo que o constituirá sobre todos os seus bens
(12, 37 e 43).
CAPÍTULO 20
Do amor à solidão
e ao silêncio
- Procura
tempo oportuno para cuidar de ti e relembra a miúdo os benefícios de
Deus. Renuncia às curiosidades e escolhe leituras tais, que mais sirvam
para te compungir, que para te distrair. Se te abstiveres de
conversações supérfluas e passeios ociosos, como também de ouvir
novidades e boatos, acharás tempo suficiente e adequado para te
entregares a santas meditações. Os maiores santos evitavam, quando
podiam, a companhia dos homens, preferindo viver com Deus, em retiro.
- Disse
alguém: "Sempre que estive entre os homens menos homem voltei" (Sêneca,
Epist. 7). Isso experimentamos muitas vezes, quando falamos muito. Mas
fácil é calar de todo, do que não tropeçar em alguma palavra. Mas fácil
é ficar oculto em casa, que fora dela ter a necessária cautela. Quem,
pois, pretende chegar à vida interior e espiritual, importa-lhe que se
afaste da turba, com Jesus. Ninguém, sem perigo, se mostra em público,
senão quem gosta de esconder-se. Ninguém seguramente fala, senão quem
gosta de calar. Ninguém seguramente manda, senão o que perfeitamente
aprendeu a obedecer.
- Não pode
haver alegria segura, sem o testemunho de boa consciência. Contudo, a
segurança dos santos estava sempre misturada com o temor de Deus; nem
eram menos cuidadosos e humildes em si mesmos, porque resplandeciam em
grandes virtudes e graças. A segurança dos maus, porém, nasce da soberba
e presunção, e acaba por enganar-se a si mesma. Nunca te dês por seguro
nesta vida, ainda que pareças bom religioso ou ermitão devoto.
-
Muitas vezes os melhores no conceito dos
homens correram graves perigos, por sua demasiada confiança. Por isso,
para muitos é melhor não serem de todo livres de tentações, mas que
sejam freqüentemente combatidos, para que não confiem demadiadamente
em si, nem se exaltem com soberba, nem tampouco busquem com ânsia as
consolações exteriores. Oh! Quem nunca buscasse alegria transitória,
nem deste mundo cuidasse, que consciência pura teria! Oh! Quem
arredasse todo vão cuidado, para só cuidar das coisas salutares e
divinas, pondo toda a sua confiança em Deus,
- de que
grande paz e sossego gozaria!
- Ninguém é
digno da consolação celestial, senão quem se excitar, com diligência, na
santa compunção. Se queres compungir-te de coração, entra em teu quarto,
despede todo o bulício do mundo, conforme está escrito: Compungi-vos em
vossos cubículos (Sl 4,5). Na cela acharás o que fora dela muitas vezes
perdes. A cela bem guardada causa doçura, e pouco freqüentada gera
enfado. Se bem a guardares e habitares no princípio de tua conversão,
ser-te-á depois querida companheira e suavíssimo consolo.
- No silêncio
e sossego faz progressos uma alma devota e aprende os segredos das
Escrituras. Ali ela acha a fonte de lágrimas, com que todas as noites se
lava e purifica, para tanto mais de perto unir-se ao Criador quanto mais
retirada viver do tumulto do mundo. Aquele, pois, que se aparta de seus
amigos e conhecidos verão aproximar-se Deus com seus santos anjos.
Melhor é estar solitário e tratar de sua alma, que, descurando-a, fazer
milagres. Merece louvor o religioso que raro sai, que foge de ser visto
pelos homens e nem procura vê-los.
- Para que
queres ver o que não te é lícito possuir? Passa o mundo e a sua
concupiscência (1Jo 2,17). A inclinação sensual convida a passeios;
passada, porém, àquela hora, que nos fica senão consciência pesada e
coração distraído? À saída alegre, muitas vezes sucede um regresso
triste, e à véspera deleitosa uma triste manhã. Assim, todo gosto carnal
entra suavemente; no fim, porém, remorde e mata. Que poderás ver alhures
que aqui não vejas? Eis: aqui tens o céu, a terra e todos os elementos;
e deles são feitas todas as coisas.
- Que poderás
ver, em parte alguma, estável debaixo do sol por muito tempo? Pensas
talvez te satisfazer completamente? Pois não o conseguirás. Se visses
diante de ti todas as coisas, que seria senão vã fantasia? Levanta os
olhos a Deus nas alturas e pede perdão de teus pecados e negligências.
Deixa as vaidades para os fúteis; tu, porém, atende ao que Deus te
manda. Fecha atrás de ti a porta e chama a teu Jesus amado. Fica-te com
ele em tua cela, porque tanta paz em outra parte não acharás. Se não
tivesses saído, e escutado os rumores do mundo, melhor terias conservado
a santa paz; enquanto folgares de ouvir novidades, terás que sofrer
desassossego do coração.
CAPÍTULO 21
Da compunção do
coração
- Se queres
fazer algum progresso, conserva-te no temor de Deus e não busques
demasiada liberdade; refreia, antes, todos os teus sentidos com a
disciplina e não te entregues à vã alegria. Procura a compunção do
coração e acharás a devoção. A compunção descobre tesouros, que a
dissipação bem depressa costuma desperdiçar. É de estranhar que o homem
jamais possa, nesta vida, gozar perfeita alegria, se considera seu
exílio e pondera os muitos perigos de sua alma.
- Pela
leviandade do coração e pelo descuido dos nossos defeitos não percebemos
os males de nossa alma; e muitas vezes, rimo-nos frivolamente, quando,
com razão, devíamos chorar. Não há verdadeira liberdade nem perfeita
alegria, sem o temor de Deus e Boa consciência. Ditoso aquele que pode
apartar de si todo estorvo das distrações e recolher-se com santa
compunção. Ditoso aquele que rejeita tudo que lhe possa manchar ou
agravar a consciência. Peleja varonilmente: um costume com outro se
vence.
- Se souberes
deixar os homens, eles te deixarão fazer tuas boas obras. Não te metas
em coisas alheias, nem te impliques nos negócios dos grandes. Olha
sempre primeiro para ti e admoesta-te com mais particularidade que a
todos os teus amigos. Não te entristeça a falta dos humanos favores, mas
penalize-te o não viveres com tanta cautela e prudência como convém a um
servo de Deus e devoto religioso. Mais útil e mais seguro é para o homem
não ter nesta vida muitas consolações, mormente sensíveis. Todavia, se
não temos, ou raramente sentimos o consolo divino, a culpa é nossa,
porque não procuramos a compunção do coração, nem rejeitamos de todo as
vãs consolações exteriores.
- Reconhece
que és indigno da consolação divina, mas antes merecedor de muitas
aflições. Quando um homem está perfeitamente compungido, logo se lhe
torna enfadonho e amargo o mundo todo. O homem justo sempre acha
bastante matéria para afligir-se e chorar. Pois, quer olhe para si, quer
para o próximo, sabe que ninguém passa esta vida sem tribulações. E
quanto mais atentamente se considera, tanto mais profunda é a sua dor.
Matéria de justa mágoa e profundo pesar são nossos pecados e vícios, aos
quais de tal sorte estamos presos, que raras vezes podemos contemplar as
coisas do céu.
-
Se mais amiúdo pensasses na morte que numa
vida de muitos anos, não há dúvida que tua emenda seria mais
-
fervorosa. Se também meditasses seriamente nas penas futuras do
inferno ou do purgatório, creio que sofrerias de bom grado trabalhos e
dores, sem recear nenhuma austeridade. Mas, como estas coisas não nos
penetram o coração e amamos ainda os regalos, ficamos frios e muito
tíbios.
- É muitas
vezes pela fraqueza do espírito que este miserável corpo se queixa tão
facilmente. Pede, pois, humildemente ao Senhor que te dê o espírito de
compunção, e dize, com o profeta: Sustenta-me, Senhor, com o pão das
lágrimas e a bebida copiosa do pranto (Sl 79,6).
CAPÍTULO 22
Da consideração
da miséria humana
- Miserável
serás, onde quer que estejas e para onde quer que te voltes, se não te
voltares para Deus. Por que te afliges, quando não te correm as coisas a
teu gosto e vontade? Quem é que tem tudo à medida de seu desejo? Nem eu,
nem tu, nem homem algum sobre a terra. Ninguém há no mundo sem nenhuma
tribulação ou angústia, quer seja rei quer Papa. Quem é que vive mais
feliz? Aquele, de certo, que sabe sofrer alguma coisa por Deus.
- Dizem
muitos mesquinhos e tíbios: Olhai, que boa vida tem este homem: quão
rico é, quão grande e poderoso, de que alta posição! Olha tu para os
bens do céu, e verás que nada são os bens corporais, mas muito incertos
e onerosos, pois nunca vive sem temor e cuidado quem os possui. Não
consiste a felicidade do homem na abundância dos bens temporais;
basta-lhe a mediania. O viver na terra é verdadeira miséria. Quanto mais
espiritual quer ser o homem, mais amarga lhe será a vida presente,
porque conhece melhor e mais claramente vê os defeitos da humana
corrupção. Porque o comer, beber, velar, dormir, descansar, trabalhar e
estar sujeito a todas as demais grandes misérias e aflições para o homem
espiritual que deseja estar isento disto e livre de todo pecado.
- Sim, muito
oprimido se sente o homem interior com as necessidades corporais neste
mundo. Por isto roga o profeta a Deus, devotamente, que o livre delas,
dizendo: Livrai-me, Senhor, das minhas necessidades (Sl 24,17). Mas, ai
daqueles que não conhecem a sua miséria, e, outra vez, ai daqueles que
amam esta miserável e corruptível vida! Porque há alguns tão apegados a
ela - posto que mal arranjem o necessário com o trabalho ou com a esmola
- que, se pudessem viver aqui sempre, nada se lhes daria do reino de
Deus.
- Ó
insensatos e duros de coração, que tão profundamente jazem apegados à
terra, que não gostam senão das coisas carnais. Infelizes! Lá virá o
tempo em que hão de sentir, muito a seu custo, como era vil e nulo
aquilo que amaram. Os santos de Deus, e todos os fiéis amigos de Cristo,
não tinham em conta o que agradava à carne nem o que neste mundo
brilhava, mas toda a sua esperança e intenção se fixavam nos bens
eternos. Todo o seu desejo se elevava para as coisas invisíveis e
perenes, para que o amor do visível não se arrasta a desejar as coisas
inferiores. Não percas, irmão meu, a confiança de fazer progressos na
vida espiritual; ainda tens tempo e ocasião.
- Por que
queres adiar tua resolução? Levanta-te, começa já e dize: Agora é tempo
de agir, agora é tempo de pelejar, agora é tempo próprio para me
emendar. Quando estás atribulado e aflito, é tempo de merecer. Importa
que passes por fogo e água, antes que chegues ao refrigério (Sl 65,12).
Se não te fizeres violência, não vencerás os vícios. Enquanto estamos
neste frágil corpo, não podemos estar sem pecado, nem viver sem enfado e
dor. Bem quiséramos descanso de toda miséria; mas como pelo pecado
perdemos a inocência, perdemos também a verdadeira felicidade. Por isso
devemos ter paciência, e confiar na divina misericórdia, até que passe a
iniqüidade (Sl 52,6), e a vida absorva esta mortalidade (2Cor 5,4).
- Como é
grande a fragilidade humana, inclinada sempre ao mal! Hoje confessas os
teus pecados, e amanhã cometes outra vez os mesmos que confessaste.
Resolves agora te acautelar, e daqui a uma hora de portas como quem nada
se propôs. Com muita razão nos devemos humilhar e não nos ter em grande
conta, já que tão frágeis somos e tão inconstantes. Assim, facilmente se
pode perder pela negligência o que tanto nos custou a adquirir com a
divina graça.
- Que será de
nós no fim, se já tão cedo somos tíbios? Ai de nós, se assim procuramos
repouso, como se já estivéssemos em paz e segurança, quando nem sinal
aparece em nossa vida de verdadeira santidade. Bem necessário nos fora
que nos intruíssemos de novo, como bons noviços, nos bons costumes;
talvez que assim houvesse esperança de alguma emenda futura e maior
progresso espiritual.
CAPÍTULO 23 Da
meditação da morte
- Mui
depressa chegará teu fim neste mundo; vê, pois, como te preparas: hoje
está vivo o homem, e amanhã já não existe. Entretanto, logo que se
perdeu de vista, também se perderá da memória. Ó cegueira e dureza do
coração humano, que só cuida do presente, sem olhar para o futuro! De
tal modo te deves haver em todas as tuas obras e pensamentos, como se
fosse já a hora da morte. Se tivesses boa consciência não temerias muito
a morte. Melhor fora evitar o pecado que fugir da morte. Se não estás
preparado hoje, como o estarás amanhã? O dia de amanhã é incerto, e quem
sabe se te será concedido?
- Que nos
aproveita vivermos muito tempo, quando tão pouco nos emendamos? Oh! nem
sempre traz emenda a longa vida, senão que aumenta, muitas vezes, a
culpa. Oxalá tivéssemos, um dia sequer, vivido bem neste mundo! Muitos
contam os anos decorridos desde a sua conversão; freqüentemente, porém,
é pouco o fruto da emenda. Se for tanto para temer o morrer, talvez seja
ainda mais perigoso o viver muito. Bem-aventurado aquele que medita
sempre sobre a hora da morte, e para ela se dispõe cada dia. Se já viste
alguém morrer, reflete que também tu passarás pelo mesmo caminho.
- Pela manhã,
pensa que não chegarás à noite, e à noite não te prometas o dia
seguinte. Por isso anda sempre preparado e vive de tal modo que te não
encontre a morte desprevenido. Muitos morrem repentina e
inesperadamente; pois na hora em que menos se pensa, virá o Filho do
Homem (Lc 12,40). Quando vier àquela hora derradeira, começarás a julgar
mui diferentemente toda a tua vida passada, e doer-te-á muito teres sido
tão negligente e remisso.
- Quão feliz
e prudente é aquele que procura ser em vida como deseja que o ache a
morte. Pois o que dará grande confiança de morte abençoada é o perfeito
desprezo do mundo, o desejo ardente do progresso na virtude, o amor à
disciplina, o rigor na penitência, a prontidão na obediência, a renúncia
de si mesmo e a paciência em sofrer, por amor de Cristo, qualquer
adversidade. Mui fácil é praticar o bem enquanto estás são; mas, quando
enfermo, não sei o que poderás. Poucos melhoram com a enfermidade; raro
também se santificam os que andam em muitas peregrinações.
- Não confies
em parentes e amigos, nem proteles para mais tarde o negócio de tua
salvação, porque mais depressa do que pensas te esquecerão os homens.
Melhor é providenciar agora e fazer algo de bem, do que esperar pelo
socorro dos outros. Se não cuidas de ti no presente, quem cuidará de ti
no futuro? Mui precioso é o tempo presente: agora são os dias de
salvação, agora é o tempo favorável (2Cor 6,2). Mas, ai! Que melhor não
aproveitas o meio pelo qual podes merecer viver eternamente! Tempo virá
de desejares, um dia, uma hora sequer, para a tua emenda, e não sei se a
alcançarás.
- Olha, meu
caro irmão, de quantos perigos te poderias livrar e de quantos terrores
fugir, se sempre andasses temeroso e desconfiado da morte. Procura agora
de tal modo viver, que na hora da morte te possas antes alegrar que
temer. Aprende agora a desprezar tudo, para então poderes voar
livremente a Cristo. Castiga agora teu corpo pela penitência, para que
possas então ter legítima confiança.
- Ó louco,
que pensas viver muito tempo, quando não tens seguro nem um só dia!
Quantos têm sido logrados e, de improviso, arrancados ao corpo! Quantas
vezes ouviste contar: morreu este a espada; afogou-se aquele; este
outro, caindo do alto, quebrou a cabeça; um morreu comendo, outro
expirou jogando. Estes se terminaram pelo fogo, aqueles pelo ferro, uns
pela peste, outros pelas mãos dos ladrões, e de todos é o fim a morte,
e, depressa, qual sombra, acaba a vida do homem (Sl 143,4).
- Quem se
lembrará de ti depois da morte? E quem rogará por ti? Faze já, irmão
caríssimo, quanto puderes; pois não sabes, quando morrerás nem o que te
sucederá depois da morte. Enquanto tens tempo, ajunta riquezas imortais.
Só cuida em tua salvação, ocupa-te só nas coisas de Deus. Granjeia agora
amigos, venerando os santos de Deus e imitando suas obras, para que, ao
saíres desta vida, te recebam nas eternas moradas (Lc 16,9).
-
Considera-te como hóspede e peregrino neste mundo, como se nada tivesses
com os negócios da terra. Conserva livre teu coração, e erguido a Deus,
porque não tens aqui morada permanente. Para lá dirige tuas preces e
gemidos, cada dia, com lágrimas, a fim de que mereça tua alma, depois da
morte, passar venturosamente ao Senhor. Amém.
CAPÍTULO 24
Do juízo e das
penas dos pecadores
- Em todas as
coisas olha o fim, e de que sorte estarás diante do severo Juiz a quem
nada é oculto, que não se deixa aplacar com dádivas, nem aceita
desculpas, mas que julgará segundo a justiça. Ó misérrimo e insensato
pecador! Que responderás a Deus, que conhece todos os teus crimes, se,
às vezes, te amedronta até o olhar dum homem irado? Por que não te
acautelas para o dia do juízo, quando ninguém poderá ser desculpado ou
defendido por outrem, mas cada um terá assaz que fazer por si? Agora o
teu trabalho é frutuoso, o teu pranto aceito, o teu gemer ouvido,
satisfatória a tua contrição.
- Grande e
salutar purgatório tem nesta vida o homem paciente: se, injuriado, mas
se dói da maldade alheia, que da ofensa própria; se, de boa vontade,
roga por seus adversários, e de todo o coração perdoa os agravos; se não
tarda em pedir perdão aos outros; se mais facilmente se compadece do que
se irrita; se constantemente faz violência a si mesmo, e se esforça por
submeter de todo a carne ao espírito. Melhor é expiar já os pecados e
extirpar os vícios, que adiar a expiação para mais tarde. Com efeito,
nós enganamos a nós mesmos pelo amor desordenado que temos à carne.
- Que outra
coisa há de devorar aquele fogo senão os teus pecados? Quanto mais te
poupas agora e segues a carne, tanto mais cruel será depois o tormento e
tanto mais lenha ajuntas para a fogueira. Naquilo em que o homem mais
pecou, será mais gravemente castigado. Ali os preguiçosos serão
incitados por aguilhões ardentes, e os gulosos serão atormentados por
violenta fome e sede. Os impudicos e voluptuosos serão banhados em pez
ardente e fétido enxofre, e os invejosos uivarão de dor, à semelhança de
cães furiosos.
- Não há
vício que não tenha o seu tormento especial. Ali, os soberbos serão
acabrunhados de profunda confusão, e os avarentos oprimidos com extrema
penúria. Ali será mais cruel uma hora de suplício do que cem anos aqui
da mais rigorosa penitência. Ali não há descanso nem consolação para os
condenados, enquanto aqui, às vezes, cessa o trabalho e nos consolam os
amigos. Relembra agora e chora teus pecados, para que no dia do juízo
estejas seguro entre os escolhidos. Pois erguer-se-ão, naquele dia, os
justos com grande força contra aqueles que os oprimiram e desprezaram (Sab
5,1). Então se levantará, para julgar, Aquele que agora se curvou
humildemente ao juízo dos homens. Então terá muita confiança o pobre e o
humilde, mas o soberbo estremecerá de pavor.
- Então se
verá que foi sábio, neste mundo, quem aprendeu a ser louco e desprezado,
por amor de Cristo. Então dará prazer toda tribulação, sofrida com
paciência, e a iniqüidade não abrirá a sua boca (Sl 106,42). Então se
alegrarão todos os piedosos e se entristecerão todos os ímpios. Então
mais exultará a carne mortificada, que se fora sempre nutrida em
delícias. Então brilhará o hábito grosseiro e desbotarão as vestimentas
preciosas. Então terá mais apreço o pobre tugúrio que o dourado palácio.
Mais valerá a paciente constância que todo o poderio do mundo. Mais será
engrandecida a singela obediência que toda a sagacidade do século.
- Mais
satisfação dará a pura e boa consciência que a douta filosofia. Mais
valerá o desprezo das riquezas que todos os tesouros da terra. Mais te
consolará a lembrança duma devota oração que a de inúmeros banquetes.
Mais folgarás de ter guardado silêncio, do que de ter falado muito. Mais
valor terão as boas obras que as lindas palavras. Mais agradará a vida
austera e árdua penitência que todos os gozos terrenos. Aprende agora a
padecer um pouco, para poupar-te mais graves sofrimentos no futuro.
Experimenta agora o que podes sofrer mais tarde. Se não podes agora
sofrer tão pouca coisa, como suportarás os eternos suplícios? Se tanto
te repugna o menor incômodo, que te fará então o inferno? Certo é que
não podes fruir dois gozos: deleitar-se neste mundo, e depois reinar com
Cristo.
- Se até hoje
tivesses vivido sempre em honras e delícias, que te aproveitaria isso se
tivesses que morrer neste instante? Logo, tudo é vaidade, exceto amar a
Deus e só a ele servir. Pois quem ama a Deus, de todo o coração, não
teme nem a morte, nem o castigo, nem o juízo, nem o inferno, porque o
perfeito amor dá seguro acesso a Deus. Mas quem ainda se delicia no
pecado, não é de estranhar que tema a morte e o juízo. Todavia, é bom
que, se do mal não te aparta o amor, te refreie ao menos o temor do
inferno. Aquele, porém, que despreza o temor de Deus, não poderá por
muito tempo perseverar no bem, e depressa cairá nos laços do demônio.
CAPÍTULO 25
Da diligente
emenda de toda a nossa vida
-
Sê vigilante e diligente no serviço de
Deus, e pergunta-te a miúdo: a que vieste, para que deixaste o mundo?
Não será para viver por Deus e tornar-te homem espiritual? Trilha,
pois, com fervor o caminho da perfeição, porque em breve receberás o
prêmio dos teus trabalhos; nem te afligirão, daí por diante, temores
nem dores. Agora, terás algum trabalho; mas depois acharás grande
repouso e perpétua alegria. Se tu permaneceres fiel e diligente no seu
serviço, Deus, sem dúvida, será fiel e generoso no prêmio. Conserva a
firme esperança de alcançar a palma; não cries, porém
-
segurança, para não caíres em tibieza ou presunção.
-
Certo homem que vacilava muitas vezes,
ansioso, entre o temor e a esperança, estando um dia acabrunhado pela
tristeza, entrou numa igreja, e diante dum altar, prostrado em oração,
dizia consigo mesmo: Oh! se eu soubesse que havia de perseverar! E logo
ouviu em si a divina respostas: Se tal soubesses, que farias? Faze já o
que então fizeras, e estarás bem seguro. Consolado imediatamente, e
confortado, abandonou-se à divina vontade, e cessou a ansiosa
perplexidade. Desistiu da curiosa indagação acerca do seu futuro
aplicando-se antes em conhecer qual fosse a vontade e
o perfeito agrado
de Deus para começar e acabar qualquer boa obra.
- Espera no
Senhor e faze boas obras, diz o profeta, habita na terra e serás
apascentado com suas riquezas (Sl 36,3). Há uma coisa que esfria em
muitos o fervor do progresso e zelo da emenda: o horror da dificuldade
ou o trabalho da peleja. Certo é que, mais que os outros, aproveitam nas
virtudes aqueles que com maior empenho se esmeram em vencer a si mesmos
naquilo que lhes é mais penoso e contrariam mais suas inclinações.
Porque tanto mais aproveita o homem, e mais copiosa graça merece, quanto
mais se vence a si mesmo e se mortifica no espírito.
- Não custa
igualmente a todos se vencer e mortificar-se. Todavia, o homem diligente
e porfioso fará mais progressos, ainda que seja combatido por muitas
paixões, que outro de melhor índole, porém menos fervoroso em adquirir
as virtudes. Dois meios, principalmente, ajudam muito a nossa emenda, e
vêm a ser: apartar-se valorosamente das coisas às quais viciosamente se
inclina a natureza, e porfiar em adquirir a virtude de que mais se há
mister. Aplica-te também a evitar e vencer o que mais te desagrada nos
outros.
- Procura
tirar proveito de tudo: se vês ou ouves relatar bons exemplos, anima-te
logo a imitá-los; mas, se reparares em alguma coisa repreensível,
guarda-te de fazê-la, e, se em igual falta caíste, procura emendar-te
logo dela. Assim como tu observas os outros, também eles te observam a
ti. Que alegria e gosto ver irmãos cheios de fervor e piedade, bem
acostumados e morigerados! Que tristeza, porém, e aflição, vê-los andar
desnorteados e descuidados dos exercícios de sua vocação! Que prejuízo
descurar os deveres do estado e aplicar-se ao que Deus não exige!
- Lembra-te
da resolução que tomaste, e põe diante de ti a imagem de Jesus
crucificado. Com razão te envergonharás, considerando a vida de Jesus
Cristo, pois até agora tão pouco procuraste conformar-te com ela,
estando há tanto tempo no caminho de Deus. O religioso que, com
solicitude e fervor, se exercita na santíssima vida e paixão do Senhor,
achará nela com abundância tudo quanto lhe é útil e necessário, e
escusará buscar coisa melhor fora de Jesus. Oh! se entrasse em nosso
coração Jesus crucificado, quão depressa e perfeitamente seríamos
instruídos!
- O religioso
cheio de fervor tudo suporta de boa vontade e executa o que lhe mandam.
O relaxado e tíbio, porém, encontra tribulação sobre tribulação,
sofrendo de toda parte angústias: é que ele carece da consolação
interior e lhe é vedado buscar a exterior. O religioso que transgride a
regra anda exposto a grande ruína. Quem busca a vida cômoda e menos
austera, sempre estará em angústias, porque uma ou outra coisa sempre
lhe desagrada.
- Que fazem
tantos outros religiosos que guardam a austera disciplina do claustro?
Raro saem, vivem retirados, sua comida é parca, seu hábito grosseiro,
trabalham muito, falam pouco, vigiam até tarde, levantam-se cedo, rezam
muito, lêem com freqüencia e conservam-se em toda a observância. Olha
como os cartuxos, os cistercienses, e os monges e monjas das diversas
ordens se levantam todas as noites para louvar o Senhor. Vergonha, pois,
seria, se tu fosses preguiçoso em obra tão santa, quando tamanha
multidão de religiosos entoa a divina salmodia.
- Oh! se nada
mais tivesses que fazer senão louvar a Deus Nosso Senhor de coração e
boca! Oh! se nunca precisares comer, nem beber, nem dormir, mas sempre
pudesses atender aos louvores de Deus e aos exercícios espirituais!
Então serias muito mais ditoso do que agora, sujeito a tantas exigências
do corpo! Oxalá não existissem tais necessidades, mas houvesse só
aquelas refeições que - ai! - tão raro gozamos!
- Quando o
homem chega ao ponto de não buscar sua consolação em nenhuma criatura,
só então começa a gostar perfeitamente de Deus, e anda contente,
aconteça o que acontecer. Então não se alegra pela abundância, nem se
entristece pela penúria, mas confia inteira e fielmente em Deus, que lhe
é tudo em todas as coisas, para quem nada perece nem morre, mas por quem
vivem todas as coisas e a cujo aceno, com prontidão, obedecem.
-
Lembra-te sempre do fim, e que o tempo
perdido não volta. Sem empenho e diligência, jamais alcançarás as
virtudes. Se começares a ser tíbio, logo te inquietarás. Se, porém,
procurares afervorar-te, acharás grande paz e sentirás mais leve o
trabalho com a graça de Deus e o amor da virtude. O homem fervoroso e
diligente está preparado para tudo. Mais penoso é resistir aos vícios e
às paixões que afadigar-se em trabalhos corporais. Quem não evita os
pequenos
defeitos pouco a
pouco cai nos grandes. Alegrar-te-ás sempre à noite, se tiveres empregado
bem o dia. Vigia sobre ti, anima-te e admoesta-te e, vivam os outros como
vivem, não te descuides de ti mesmo. Tanto mais aproveitarás, quanto maior
for a violência que te fizeres. Amém.
LIVRO SEGUNDO
EXORTAÇÕES À VIDA
INTERIOR
CAPÍTULO 1
Da vida interior
- O reino de
deus está dentro de vós, diz o Senhor (Lc 17,21). Converte-te a Deus de
todo o coração, deixa este mundo miserável, e tua alma achará descanso.
Aprende a desprezar as coisas exteriores e entrega-te às interiores, e
verás chegar a ti o reino de Deus. Pois o reino de Deus é a paz e o gozo
no Espírito Santo (Rom 14, 17), que não se dá aos ímpios. Virá a ti
Cristo para consolar-te, se lhe preparares no teu interior digna
moradia. Toda a sua glória e formosura está no interior (Sl 44,14), e só
aí o Senhor se compraz. A miúdo visita ele o homem interior em doce
intretenimento, suave consolação, grande paz e familiaridade
sobremaneira admirável.
- Eia, alma
fiel, para este Esposo prepara teu coração, a fim de que se digne vir e
morar em ti. Pois assim ele diz: Se alguém me ama, guardará a minha
palavra, e viremos a ele e faremos nele a nossa morada (Jo 14,23). Dá,
pois, lugar a Jesus e a tudo mais fecha a porta. Se possuíres a Cristo,
estarás rico e satisfeito. Ele mesmo será teu provedor e fiel procurador
em tudo, de modo que não hajas mister de esperar nos homens. Porque os
homens são volúveis e faltam com facilidade à confiança, mas Cristo
permanece eternamente (Jo 12,34), e firme nos acompanha até ao fim.
- Não se há
de ter grande confiança no homem frágil e mortal, por mais que nos seja
caro e útil; nem nos devemos afligir com excessos, porque, de vez em
quando, nos contraria com palavras ou obras. Os que hoje estão contigo
amanhã talvez sejam contra ti, e reciprocamente, pois os homens mudam
como o vento. Põe toda a tua confiança em Deus, e seja ele o teu temor e
amor; ele responderá por ti, e fará do melhor modo o que convier. Não
tens aqui morada permanente (Hbr 13,14), e onde quer que estejas, és
estranho e peregrino; nem terás nunca descanso, se não estiveres
intimamente unido a Jesus.
- Para que
olhas em redor de ti, se não é este o lugar de teu repouso? No céu deve
ser a tua habitação, e como de passagem hás de olhar todas as coisas da
terra. Todas passam, e tu igualmente passas com elas; toma cuidado para
não te apegares a elas, a fim de que não te escravizem e percam. Ao
Altíssimo eleva sempre teus pensamentos, e a Cristo dirige súplica
incessante. Se não sabes contemplar coisas altas e celestiais, descansa
na paixão de Cristo e gosta de habitar em suas sacratíssimas chagas.
Pois, se te acolheres devotamente às chagas e preciosos estigmas de
Jesus, sentirás grande conforto em tuas mágoas, não farás mais caso do
desprezo dos homens e facilmente sofrerás as suas detrações.
- Cristo
também foi, neste mundo, desprezado dos homens, e em suma necessidade,
entre os opróbrios, o desampararam seus conhecidos e amigos. Cristo quis
padecer e ser desprezado; e tu ousas queixar-te de alguém? Cristo teve
adversidade e detratores; e tu queres ter a todos por amigos e
benfeitores? Como poderá ser coroada tua paciência, se não encontrares
alguma adversidade? Se não queres sofrer alguma contrariedade, como
serás amigo de Cristo? Sofre com Cristo e por Cristo, se com Cristo
queres reinar.
- Se uma só
vez entraras perfeitamente no Coração de Jesus e gozaras um pouco de seu
ardente amor, não farias caso do teu proveito ou dano, ao contrário, te
elegrarias com os mesmos opróbrios; porque o amor de Jesus faz com que o
homem se despreze a si mesmo. O amante de Jesus e da verdade, e o homem
deveras espiritual e livre de afeições desordenadas, pode facilmente
recolher-se em Deus, e, elevando-se em espírito, acima de si mesmo,
fruir delicioso descanso.
-
Aquele que avalia as coisas pelo que são,
e não pelo juízo e estimação dos outros, este é o verdadeiro sábio,
ensinado mais por Deus que pelos homens. Quem sabe andar recolhido
dentro de si, e ter em pequena conta as coisas exteriores, não precisa
escolher lugar nem aguardar horas para se dar a exercícios de piedade.
O homem interior facilmente se recolhe, pois nunca se entrega de todo
às coisas exteriores. Não o estorvam trabalhos externos nem ocupações,
às vezes necessárias, mas ele se acomoda às circunstâncias, conforme
sucedem. Quem tem o interior bem disposto e ordenado não se importa
com as façanhas e crimes dos homens. Tanto o homem se embaraça e
distrai, quanto se mete nas coisas
-
exteriores.
- Se foras
reto e puro, tudo te correria bem e se voltaria em teu proveito. Mas,
porque ainda não estás de todo morto a ti mesmo, nem apartado das coisas
terrenas, por isso muitas coisas te causam desgostos e perturbações.
Nada mancha tanto e embaraça o coração do homem como o amor desordenado
às criaturas. Se renunciares às consolações exteriores, poderás
contemplar as coisas do céu e gozar a miúdo da alegria interior.
CAPÍTULO 2
Da humilde
submissão
1.Não te importes
muito de saber quem seja por ti ou contra ti; mas trata e procura que Deus
seja contigo em tudo que fizeres. Tem boa consciência e Deus te defenderá,
pois a quem Deus ajuda não há maldade que o possa prejudicar. Se souberes
calar e sofrer, verás, sem dúvida, o socorro do Senhor. Ele sabe o tempo e
o modo de te livrar; portanto, entrega-te todo a ele. A Deus pertence
aliviar-nos e tirar-nos de toda a confusão. Às vezes é muito útil, para
melhor conservarmos a humildade, que os outros saibam os nossos defeitos e
no-los repreendam.
2. Quando o homem
se humilha por seus defeitos, aplaca facilmente os outros e satisfaz os
que estão irados contra ele. Ao humilde Deus protege e salva, ao humilde
ama e consola, ao humilde ele se inclina, dá-lhe abundantes graças e
depois do abatimento o levanta a grande honra. Ao humilde revela seus
segredos e com doçura a si o atrai e convida. O humilde, ao sofrer
afrontas, conserva sua paz, porque confia em Deus e não no mundo. Não
julgues ter feito progresso algum, enquanto te não reconheças inferior a
todos.
CAPÍTULO 3
Do homem bom e
pacífico
- Primeiro
conserva-te em paz, e depois poderás pacificar os outros. O homem
apaixonado, até o bem converte em mal e facilmente acredita no mal; o
homem bom e pacífico, pelo contrário, faz com que tudo se converta em
bem. Quem está em boa paz de ninguém desconfia; o descontente e
perturbado, porém, é combatido de várias suspeitas e não sossega, nem
deixa os outros sossegarem. Diz muitas vezes o que não devia dizer, e
deixa de fazer o que mais lhe conviria. Atende às obrigações alheias, e
descuida-se das próprias. Tem, pois, principalmente zelo de ti, e depois
o terás, com direito, do teu próximo.
- Bem sabes
desculpar e cobrir tuas faltas, e não queres aceitar as desculpas dos
outros! Mais justo fora que te acusasses a ti e escusasses o teu irmão.
Suporta os outros, se queres que te suportem a ti. Nota quão longe estás
ainda da verdadeira caridade e humildade, que não sabe irar-se ou
indignar-se senão contra si própria. Não é grande coisa conviver com
homens bons e mansos, porque isso, naturalmente, agrada a todos; e cada
um gosta de viver em paz e ama os que são de seu parecer. Viver, porém,
em paz com pessoas ásperas, perversas e mal educadas que nos contrariam,
é grande graça e ação louvável e varonil.
- Uns há que
têm paz consigo e com os mais; outros que não têm paz nem a deixam aos
demais; são insuportáveis aos outros, e ainda mais o são a si mesmos. E
há outros que têm paz consigo e procuram-na para os demais. Toda a nossa
paz, porém, nesta vida miserável, consiste mais na humilde resignação,
que em não sentir as contrariedades. Quem melhor sabe sofrer maior paz
terá. Esse é vencedor de si mesmo e senhor do mundo, amigo de Cristo e
herdeiro do céu.
CAPÍTULO 4
Da mente pura e
da intenção simples
- Com duas
asas se levanta o homem acima das coisas terrenas: simplicidade e
pureza. A simplicidade há de estar na intenção e a pureza no afeto. A
simplicidade procura a Deus, a pureza o abraça e frui. Em nenhuma boa
obra acharás estorvo, se estiveres interiormente livre de todo afeto
desordenado. Se só queres e buscas o agrado de Deus e o proveito do
próximo, gozarás de liberdade interior. Se teu coração for reto, toda
criatura te será um espelho de vida e um livro de santas doutrinas. Não
há criatura tão pequena e vil, que não represente a bondade de Deus.
-
Se fosses interiormente bom e puro, logo
verias tudo sem dificuldade e compreenderias bem. O coração puro penetra
o céu e o
inferno. Cada um julga segundo seu interior. Se há alegria neste mundo, é
o coração puro que a goza; se há, em alguma parte, tribulação e angústia,
é a má consciência que as experimenta. Como o ferro metido no fogo perde a
ferrugem e se faz todo incandescente, assim o homem que se entrega
inteiramente a Deus fica livre da tibieza e transforma-se em novo homem.
3. Quando o homem
começa a entibiar, logo teme o menor trabalho e anseia as consolações
exteriores. Quando, porém, começa deveras a vencer-se e andar com ânimo no
caminho de Deus, leves lhe parecem as coisas que antes achava onerosas.
CAPÍTULO 5
Da consideração
de si mesmo
1. Não podemos
confiar muito em nós, porque freqüentemente nos faltam a graça e o
critério. Pouca luz temos em nós e esta facilmente a perdemos por
negligência. De ordinário também não avaliamos quanta é nossa cegueira
interior. A miúdo procedemos mal e nos desculpamos, o que é pior. Às vezes
nos move a paixão, e pensamos que é zelo. Repreendemos nos outros as
faltas leves, e nos descuidamos das nossas maiores. Bem depressa sentimos
e ponderamos
o que dos outros
sofremos, mas não se nos dá do que os outros sofrem de nós. Quem bem e
retamente avaliasse suas obras não seria capaz de julgar os outros com
rigor.
- O homem
interior antepõe o cuidado de si a todos os outros cuidados, e quem se
ocupa de si com diligência facilmente deixa de falar dos outros. Nunca
serás homem espiritual e devoto, se não calares dos outros, atendendo a
ti próprio com especial cuidado. Se de ti só e de Deus cuidares, pouco
te moverá o que se passa por fora. Onde estás, quando não estás contigo?
E, depois de tudo percorrido, que ganhaste se esqueceste a ti mesmo? Se
queres ter paz e verdadeiro sossego, é preciso que tudo mais dispenses,
e a ti só tenhas diante dos olhos.
- Portanto,
grandes progressos farás, se te conservares livre de todo cuidado
temporal; muito te atrasará o apego a alguma coisa temporal. Nada te
seja grande, nobre, aceito ou agradável, a não ser Deus mesmo ou o que
for de Deus. Considera vã toda consolação que te vier das criaturas. A
alma que ama a Deus despreza tudo que é abaixo de Deus. Só Deus eterno e
imenso, que tudo enche, é o consolo da alma e a verdadeira alegria do
coração.
CAPÍTULO 6
Da alegria da boa
consciência
- A glória do
homem virtuoso é o testemunho da boa consciência. Conserva pura a
consciência, e sempre terás alegria. A boa consciência pode suportar
muita coisa e permanece alegre, até nas adversidades. A má consciência
anda sempre medrosa e inquieta. Suave sossego gozarás, se de nada te
acusar o coração. Não te dês por satisfeito, senão quando tiveres feito
algum bem. Os maus nunca têm verdadeira alegria nem sentem a paz
interior; pois não há paz para os ímpios, diz o Senhor (Is 57, 21). E se
disserem: Vivemos em paz, não há mal que nos possa acontecer, e quem
ousará ofender-nos? - não lhes dês crédito, porque de repente
levantar-se-á a ira de Deus, e então as suas obras serão aniquiladas e
frustados seus intuitos.
- A quem ama
não é dificultoso gloriar-se na tribulação; pois gloriar-se assim é
gloriar-se na cruz do Senhor (Gál 6,14). Pouco dura a glória que os
homens dão e recebem. A glória do mundo anda sempre acompanhada de
tristeza. A glória dos bons está na própria consciência, e não na boca
dos homens. A alegria dos justos é de Deus e em Deus, a sua alegria
procede da verdade. Quem deseja a glória verdadeira e eterna não faz
caso da temporal. E quem procura a glória temporal ou não a despreza de
todo, mostra que pouco ama a celestial. Grande tranqüilidade do coração
goza aquele que não faz caso de elogios nem de censuras.
- É fácil
estar contente e sossegado, tendo a consciência pura. Não és mais santo
porque te louvam, nem mais ruim porque te censuram. És o que és, nem te
podem os louvores fazer maior do que és aos olhos de Deus. Se
considerares o que és no teu interior, não farás caso do que te dizem os
homens. O homem vê o rosto, Deus o coração (1 Rs 16,7). O homem nota os
atos, mas Deus pesa as intenções. Proceder sempre bem e ter-se em
pequena conta é indício de uma alma humilde. Rejeitar toda consolação
das criaturas é sinal de grande pureza e confiança interior.
-
Aquele que não procura o testemunho
favorável dos homens mostra que está todo entregue a Deus. Porque, como
diz S.Paulo, não é aprovado aquele que a si próprio recomenda, mas
aquele que é recomendado por Deus (2Cor 10,18). Andar recolhido no
interior com Deus, sem estar preso a alguma afeição humana, é próprio do
homem espiritual.
CAPÍTULO 7
Do amor de Jesus sobre todas a coisas
-
Bem-aventurado aquele que compreende o que seja amar a Jesus e
desprezar-se a si por amor de Jesus. Por esse amor deves deixar qualquer
outro, pois Jesus quer ser amado acima de tudo. O amor da criatura é
anganoso e inconstante; o amor de Jesus é fiel e inabalável. Apegado à
criatura, cairás com ela, que é instável; abraçado com Jesus, estarás
firme para sempre. A Ele ama e guarda como amigo que não te desamparará,
quando todos te abandonarem, nem consentirá que pereças na hora suprema.
De todos te hás de separar um dia, quer queiras, que não.
- Conchega-te
a Jesus na vida e na morte; entrega-te à sua fidelidade, que só Ele te
pode socorrer, quando todos te faltarem. Teu Amado é de tal natureza,
que não admite rival: Ele só quer possuir teu coração e nele reinar como
rei em seu trono. Se souberas desprender-te de toda criatura, Jesus
acharia prazer em morar contigo. Quando confiares nos homens, fora de
Jesus, verás que estás perdido. Não te fies nem te firmes na cana
movediça: porque toda a carne é feno, e toda a sua glória fenece como a
flor do campo (Is 40,6).
- Facilmente
serás enganado, se só olhares para as aparências dos homens. Se procuras
alívio e proveito nos outros, quase sempre terás prejuízo. Procura a
Jesus em todas as coisas, e Jesus acharás. Se te buscas a ti mesmo,
também te acharás, mas para a tua ruína. Pois o homem que não busca a
Jesus é mais nocivo a si mesmo que todo o mundo e seus inimigos todos.
CAPÍTULO 8
Da familiar
amizade com Jesus
- Quando
Jesus está presente, tudo é suave e nada parece dificultoso; mas, quando
Jesus está ausente, tudo se torna penoso. Quando Jesus não fala ao
coração, nenhuma consolação tem valor; mas se Jesus fala uma só palavra,
sentimos grande alívio. Porventura não se levantou logo Maria Madalena
do lugar onde chorava, quando Marta lhe disse: O Mestre está aí e te
chama? (Jo 11,28). Hora bendita, quando Jesus te chama das lágrimas para
o gozo do espírito! Que seco e árido és sem Jesus! Que néscio e vão, se
desejas outra coisa, fora de Jesus! Não será isto maior dano do que se
perdesse o mundo inteiro?
- Que te pode
dar o mundo sem Jesus? Estar sem Jesus é terrível inferno, estar com
Jesus é doce paraíso. Se Jesus estiver contigo, nenhum inimigo te pode
ofender. Quem acha a Jesus acha precioso tesouro, ou, antes, o bem
superior a todo bem; quem perde a Jesus perde muito mais do que se
perdesse a todo o mundo. Paupérrimo é quem vive sem Jesus, e riquíssimo
quem está bem com Jesus.
- Grande arte
é saber conversar com Jesus, e grande prudência conservá-lo consigo. Sê
humilde e pacífico, e contigo estará Jesus; sê devoto e sossegado, e
Jesus permanecerá contigo. Depressa podes afugentar a Jesus e perder a
sua graça, se te inclinares às coisas exteriores; e se o afastas e o
perdes, aonde irás e a quem buscarás por amigo? Sem amigo não podes
viver, e se não for Jesus teu amigo acima de todos, estarás mui triste e
desconsolado. Logo, loucamente procedes, se em qualquer outro confias e
te alegras. Antes ter o mundo todo por adversário, que ofender a Jesus.
Acima de todos os teus amigos seja, pois, Jesus amado dum modo especial.
- Sê livre e
puro no teu interior, sem apego a criatura alguma. É mister
desprenderes-te de tudo e ofereceres a Deus um coração puro, se queres
sossegar e ver como é suave o Senhor. E, com efeito, tal não
conseguirás, se não fores prevenido e atraído por sua graça, de modo
que, deixando e despedindo tudo mais, com ele só estejas unido. Pois,
quando lhe assiste a graça de Deus, de tudo é capaz o homem; e quando
ela se retira, logo fica pobre e fraco, como que abandonado aos
castigos. Ainda assim, não deves desanimar nem desesperar, antes
resignar-te na vontade de Deus, e sofrer tudo que te acontecer, por
honra de Jesus; pois ao inverno sucede o verão, depois da noite volta o
dia, e após a tempestade reina a bonança.
CAPÍTULO 9
Da privação de
toda consolação
-
Não é dificultoso desprezar as consolações
humanas, quando gozamos das divinas. Grande coisa, porém, e mui
meritória, é poder estar sem consolação, tanto divina como humana,
sofrendo de boa mente o desamparo do coração,
- sem em
nada buscar-se a si mesmo, nem atender ao seu próprio merecimento. Que
maravilha será estares alegre e devoto, quando te assiste a graça! De
todos é almejada esta hora. E mui suave andar, levado pela graça de
Deus. E que maravilha não sentir a carga aquele que é sustentado pelo
Onipotente e acompanhado do guia supremo!
- Gostamos de
ter qualquer consolação, e é penoso ao homem despojar-se de si mesmo. O
glorioso mártir São Lourenço venceu o mundo em união com seu pai
espiritual, porque desprezou todos os atrativos do século e sofreu com
paciência, por amor de Cristo, que o separassem do Supremo Pontífice São
Xisto a quem ele muito amava! Assim, com a amor de Deus, ele subjugou o
amor da criatura, e ao alívio humano preferiu o beneplácito divino. Daí
aprende tu a deixar, às vezes, por amor de Deus, um parente ou amigo
querido. Nem tanto te aflijas se te abandonar algum amigo, sabendo que
todos, finalmente, nos havemos de separar uns dos outros.
- Só com
renhido e longo combate interior aprende o homem a dominar-se plenamente
e pôr em Deus todo o seu afeto. Quando o homem confia em si, facilmente
desliza nas consolações humanas. Mas o verdadeiro amigo de Cristo e
fervoroso imitador de suas virtudes não se inclina às consolações nem
busca tais doçuras sensíveis; antes, procura exercícios austeros e sofre
por Cristo trabalhos penosos.
- Quando,
pois, Deus te mandar consolação espiritual, recebe-a com ações de
graças, mas lembra-te sempre que é mercê de Deus, e não merecimento teu.
Com isto, porém, não te desvaneças, nem te entregues a excessiva alegria
ou a vã presunção; sê antes mais humilde pelo dom recebido, mais
prudente e timorato em tuas ações, pois passará aquela hora e voltará a
tentação. Quando te for tirada a consolação, não desesperes logo,
aguarda, pelo contrário, com humildade e paciência, a visita celestial;
pois Deus é bastante poderoso para restituir-te maior graça e
consolação. Isto não é novo nem estranho aos que são experientes nos
caminhos de Deus; porque nos grandes santos e antigos profetas houve
muitas vezes esta mudança.
- Por isso um
deles, sentindo a presença da graça, exclamava: Eu disse em minha
abundância: não serei abalado jamais (Sl 29,7). Sentindo, porém,
retirar-se a graça, acrescenta: Desviastes de mim, Senhor, o vosso
rosto, e fiquei perturbado (v.8). Entretanto não desespera, mas com mais
instância roga ao Senhor, e diz: A vós, Senhor, clamarei, e ao meu Deus
rogarei (v.9). Alcança, afinal, o fruto de sua oração e atesta ter sido
atendido, dizendo: Ouviu-me o Senhor, e compadeceu-se de mim, o Senhor
se fez meu protetor (v.11). Mas em quê? Convertestes, diz ele, meu
pranto em gozo, e me cercastes de alegria (v.12). Se isto sucedeu aos
grandes santos, não devemos desesperar nós outros, fracos e pobres, por
nos sentirmos umas vezes com fervor, outras vezes com frieza porque vai
e vem o espírito de Deus, segundo lhe apraz. Por isso diz o santo Jó:
Senhor, visitais o homem na madrugada, e logo o provais (7,18).
- Em que
posso, pois, esperar ou em que devo confiar, senão na grande
misericórdia de Deus e na esperança da graça celestial? Porque, ou me
assistem homens justos, irmãos devotos e amigos fiéis, ou livros santos
e formosos tratados, ou cânticos e hinos suaves, tudo isso de pouco me
serve e pouco me agrada, quando estou desamparado da graça e entregue à
minha própria pobreza. Não há então melhor remédio que Deus.
- Nunca
encontrei homem tão religioso e devoto, que não sofresse, às vezes, a
subtração da graça e sentisse o arrefecimento do fervor. Nenhum santo
foi tão altamente arrebatado e esclarecido que, antes ou depois, não
fosse tentado. Porque não é digno da alta contemplação de Deus quem por
Deus não sofreu alguma tribulação. Costuma vir primeiro a tentação, como
sinal precursor da próxima consolação; porque aos provados pela tentação
é prometido o celeste consolo. A quem tiver vencido, diz o Senhor, darei
a comer o fruto da árvore da vida (Apc 2,7).
- Dá Deus a
consolação, para fortalecer o homem contra as adversidades. Segue-se
então a tentação, para que não se desvaneça a felicidade. O demônio não
dorme, nem a carne já está morta; por isso, não cesses nunca de
aparelhar-te para a peleja, porque à direita e à esquerda estão teus
inimigos que nunca descansam.
CAPÍTULO 10
Do agradecimento
pela graça de Deus
-
Para que buscas rep
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