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Alguns
“ismos” das Ciências Sociais Januário Francisco Megale “A
humanidade caminhou, ao longo dos séculos, buscando compreender sua origem e
destino. Desde o epicurismo, o ceticismo, o estoicismo, sempre vivemos em meio
aos “ismos”, mas não conquistamos quase nada além do epicurismo e do
estoicismo, mesmo com o cristianismo, o marxismo e outros "ismos" que
ceifaram milhares de vidas inocentes.”. (J.
F. Megale) Comunismo,
epicurismo, estoicismo, cristianismo, historicismo, capitalismo, socialismo,
imperialismo, funcionalismo, marxismo, cientificismo etc. são alguns dos inúmeros
"ismos" das ciências sociais. O que vem a ser um "ismo"? Há
várias acepções, conforme a área ou ramo de conhecimento. Assim, dogmatismo,
ceticismo, subjetivismo, relativismo, pragmatismo e criticismo referem-se a posições
assumidas ou idéias aceitas sobre a possibilidade do conhecimento. O dogmatismo
defende que não existe o problema do conhecimento enquanto relação entre
sujeito e objeto. As coisas existem pura e simplesmente, o jeito é acreditar. O
ceticismo e o extremo do dogmatismo e afirma que o sujeito não pode apreender o
objeto, daí o conhecimento ser impossível. Já o subjetivismo e o relativismo
limitam a validade do conhecimento ao sujeito. Toda verdade é relativa, não há
verdade absoluta. Para o pragmatismo, o conhecimento ou a verdade significam
utilidade, valor, prática. Numa posição diferente, o criticismo admite o
conhecimento, mas sob reserva. Não é dogmático nem cético, mas reflexivo e
crítico. Para cada um destes “ismos” houve ilustres filósofos com suas
obras clássicas. Além destes “ismos” há outros, referentes ainda ao
conhecimento, sobre sua origem e sobre sua essência. Na
ciência política, por exemplo, há alguns "ismos" bem gerais e
outros mais particulares ou específicos, como por exemplo, colonialismo,
imperialismo, comunismo e bonapartismo, chauvinismo, bolchevismo. Afinal, o que
vem á ser um "ismo"? O
"ismo" é uma posição filosófica ou científica que sustenta algo
sobre uma idéia, um fato, um sistema, uma política, um programa, uma circunstância
etc. É uma idéia central a nortear o adepto perante o mundo ou em face de
determinadas coisas. É um método ou conjunto de valores, é um principio ou
conjunto de princípios explicativos sobre alguma coisa ou algum fato. É uma
filosofia ou um modo de ver o mundo ou determinado problema. Há tantas definições
de "ismos'" quase quantos "ismos" há. Cada um tem seu
contexto histórico em que surge e se desenvolve Ocorre, muitas vezes, que, após
passar a ser moda ou um sistema de idéias dominante, o "ismo" cai no
ostracismo. Mais tarde, pode ressurgir, como o liberalismo, que após quase cem
anos, volta ao cenário das idéias da política econômica de vários países,
chegando até nós, com a inauguração no Rio de Janeiro do Instituto Liberal,
em 1983, com outros similares em São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e outras
capitais. Há ainda os "ismos'" apenas históricos, que tiveram seu
tempo e hoje estão ultrapassados, continuando vivos apenas para compor o
contexto histórico-social de um passado próximo ou remoto, do qual somos
herdeiros como civilização e como cultura. A
inclusão deste capítulo neste roteiro de estudo tem tríplice objetivo.
Primeiro, mostrar ao aluno que todo "ismo" é sempre parte de um
conjunto, parte de um processo no qual surge e se desenvolve, podendo continuar
ou ser substituído. Nada é gratuito nem fortuito na realidade social. O "ismo"
tem raízes e se desenvolve sempre vinculado a uma filosofia da história ou a
uma explicação pragmática do momento. Quase nunca é resultante só de um
fato, mas engloba a realidade como um todo cultural. Segundo, além desta
característica totalizante, é oportuno lembrar que nem todo "ismo"
surge como resposta antagônica ou como guerra a outro ou a qualquer teoria
anterior, embora isto tenha ocorrida. Há "ismos" bipolares, opostos,
mas são bem menos numerosos que os outros. Há alguns, que derivados de outros,
guardam sua essência, mas diferem na aplicação, no programa, na aceitação
teórica ou na posição metodológica. Terceiro, há "ismos" que
passam para a história como verdadeiras, piadas ou erros grosseiros, e, pior
ainda, se perpetuam em livros didáticos. Cuidado, alerta: são as palavras de
ordem diante do cipoal teórico das ciências sociais em tantos livros devorados
por mestres e alunos. Na listagem a seguir são mencionados alguns ismos que se
encontram nesta situação. De
modo algum esta relação é completa, não temos nada de completo neste
roteiro, pois estamos tratando de generalidades, de miscelâneas, com nenhum
compromisso com profundidade neste momento. Trata-se apenas de uma primeira
aproximação. Anarquismo O
termo guarda o sentido etimológico: sem governo. Doutrina que defende uma
sociedade livre de todo domínio. Significa libertação de qualquer dominação
superior, de ordem ideológica (religião, doutrina política), de ordem política
(estrutura de poder hierarquizada, de ordem econômica (propriedade dos meios de
produção), de ordem social (classe ou grupo social), sindicato; clube, associação),
de ordem jurídica (leis e normas). O sentimento geral pela liberdade individual
é transporto para a sociedade e encontra no anarquismo forte aliado. O
pensamento anárquico surge no final do século 18, com a obra de William Godwin:
Enquiry concerning political justice. A bandeira do anarquismo (recusa da
autoridade e da lei) está lançada nesta obra. Dentre os pensadores políticos
que abraçaram o anarquismo, temos Proudhon, Bakunin, Malatesta, Stierner, Kropotkin. Autoritarismo. Nas
ciências sociais o termo tem dois sentidos: Primeiro, comportamento ou
personalidade autoritários, tendo como área de investigação a psicologia. O
livro clássico é A personalidade autoritária, de Adorno. Segundo,
ideologia ou visão que preconiza os métodos autoritários sobre os liberais. O
autoritarismo se aproxima do totalitarismo. Permite práticas liberais conquanto
sujeitas ao controle da disciplina e da hierarquia. Emprega algumas medidas
excepcionais do totalitarismo mas não seus princípios. Bonapartismo A
expressão tem duplo significado. O primeiro, referente à política interna,
com origem em Marx (O dezoito Brumário de Luís Bonaparte), expressa a
forma de governo na qual o executivo concentra todo o poder em sua liderança
carismática, como representante direto da nação, e árbitro imparcial perante
todas as classes. O segundo, no sentido de política externa, tem um componente
de expansionismo com duplo objetivo; além da expansão territorial, traz o
objetivo de consolidação do regime de governo contra a oposição de grupos
radicais. Visa a fortalecer o grupo dominante e enfraquecer os adversários
internos. Neste sentido tem sido usado por historiadores alemães, como Meinecke
e Fischer, para explicar a política externa da Alemanha guilhermina e nazista.
O despotismo do poder bonapartista encontra sua válvula de escape contra pressões
internas na política externa. Capitalismo Sistema
econômico que se fundamenta em alguns princípios, como: 1) propriedade privada dos bens ou meios de produção; 2) economia de mercado ou livre-câmbio, recusando qualquer
limitação ao mercado; 3) utilização da tecnologia sempre renovada na produção; 4) racionalização do direito e da contabilidade em função
dos princípios acima; 5) liberdade de trabalho e relações capital-trabalho
reguladas pelo mercado; 6) comercialização da economia com vistas ao lucro. O
capitalismo defende uma economia livre, não centralmente planificada. É
a liberdade na produção. O Estado não interfere senão para barrar aberrações
contra tais princípios. O liberalismo tem sido fortemente vinculado ao
capitalismo. Só vigora em países cujo regime pol político é também aberto,
livre e democrático. A ética protestante contribui para o avanço do
capitalismo através de suas normas de vida, como muito trabalho, pouco consumo,
vida simples e muita poupança reinvestida. São muitos os autores clássicos do
capitalismo como também os de seus inúmeros subterras. Desde Sombart, Weber,
Schumpeter, até Galbraith, Hayek, Myrdal e outros contemporâneos. Clientelismo Com
origem na antiga Roma; clientela designava a relação entre indivíduos de
status inferior, mas que viviam na comunidade, protegidos pelos chefes de família.
Relação de dependência econômica e política entre o chefe e o cliente numa
fidelidade recíproca. O clientelismo vigorou de maneira dominante na política
brasileira da Velha República (1889-1930), sob o domínio das oligarquias
rurais. O livro nacional que bem descreve o clientelismo é Coronelismo,
Enxada e Voto, de Vitor Nunes Leal. Comunismo É
um regime político e um sistema econômico fundado em alguns princípios, entre
os quais citam-se: 1) o trabalho é a única fonte do valor; 2) o capital é um contínuo roubo ao trabalho; 3) o capitalismo é um sistema que leva a sociedade a uma
crescente proletarização; 4) o proletariado (classe trabalhadora) conduzirá a
sociedade a uma nova forma de regime político e econômico; 5) para garantir e apressar a retórica do proletariado, é
necessário e urgente criar a consciência de classe. Surgiu
na Europa no século 19 e tem em Marx, Engels e seus seguidores sua fundamentação
teórica bem estruturada. O Manifesto do Partido Comunista é a carta magna do
comunismo. Como modo de produção está superado para o futuro. O comunismo
primitivo é outra coisa bem diferente, cujos resquícios conhecemos através da
antropologia, nas sociedades tribais, ágrafas, primitivas ou selvagens, como
nossos índios não-aculturados. Desde Marx e Engels não cessa de crescer os
apologistas tanto do capitalismo como do comunismo. Determinismo (e Possibilismo) Há
vários determinismos; tratamos aqui do geográfico e, en passant, do econômico.
O determinismo econômico é um item ou tópico de importância secundária no
conceito de modo de produção e seu componente inseparável de infra-estrutura.
Digo de importância secundária porque o determinismo econômico de Marx sofreu
diversas interpretações no correr do tempo. Marx não era tão determinista
(ou mesmo marxista) como seus intérpretes e seguidores. O determinismo geográfico
tem raízes profundas na história. Já Hipócrates (século V a.C.) assinalava
em Dos ares, das águas e dos lugares o caráter determinista dos fenômenos
físicos sobre o comportamento humano. O mesmo ocorreu com Montesquieu em Do
espírito das leis (1848), sobretudo com o clima como fator determinante do
caráter do povo. “Dê-me
o mapa físico de um país, ... que lhe direi, a priori, qual região será
relevante na história, não por acidente, mas por necessidade.” A
afirmação acima, de Victor Cousin retrata bem o significado do determinismo
geográfico. Imputado a Ratzel; como grande divulgador desta teoria, o
determinismo teve grande divulgação como posição doutrinária da geografia
alemã, em oposição à geografia francesa, o que não corresponde à verdade.
A leitura de Antropogeografia, de Ratzel, mostra o ledo engano desta tese
difundida ainda em livros didáticos. Vidal de la Blache e a geografia francesa
surgiram como divulgadores do Possibilismo em oposição ao determinismo geográfico
alemão. O possibilismo defende a possibilidade da ação humana sobre o meio físico,
sobretudo com o avançar da técnica. Esbarra com a ecologia que combate o
crescente rompimento do equilíbrio ecológico. Desde Haeckel e Sorre a ecologia
tem sido tema estreitamente ligado à geografia, fazendo parte de sua natureza
ou sua essência. A rivalidade entre a França e a Alemanha de então, com a
derrota francesa na guerra franco-Prussiana (1870), e a reconhecida
superioridade da geografia alemã fizeram com que surgisse esta vinculação do
determinismo à geografia alemã e do possibilismo à geografia francesa. O possibilismo não deve ser confundido com possibilidades
(ou oportunidades) de vida – Lebenschancen ou life-chances – tema ligado à
mobilidade social, tratado por Weber (Economia e Sociedade, 1922) na área da
sociologia. Outra
acepção do possibilismo é a de determinismo cultural, tão divulgado na
antropologia do século XIX, a designar o crescimento regular da cultura ou o
condicionamento cultural. Os dois clássicos do tema são A antiga sociedade
(1877) de Morgan, e A origem da família, da propriedade privada e do Estado
(1884) de Engels. Esquerdismo O
vocábulo tem dupla origem. Primeiro, a palavra skaios (em grego, esquerda).
Segundo, no parlamento francês os oposicionistas (jacobinos) ocupavam as
cadeiras do lado esquerdo (la gauche). É a posição política que luta por
reformas políticas, sociais e econômicas profundas ou por meio de processos
violentos, até mesmo da revolução. A esquerda geralmente representa uma força
social revolucionária, às vezes reformista; nunca, porém, conservadora ou
reacionária contra as quais luta com denodo. O conceito se baseia na simetria
espacial. É uma forma simplista de classificar pessoas e regimes políticos.
Termo utilizado pela linguagem jornalística, pela linguagem oral, e até mesmo
pela linguagem acadêmica, mas com elevado grau de imprecisão. Aqui também há
clássicos. Fanatismo Obediência
cega a uma idéia, apoiada em um zelo obstinado até chegar ao uso da violência
para fins de proselitismo e de punição dos opositores ou indiferentes a tal idéia
ou crença. Está subjacente no fanatismo a noção de que o ideal, a doutrina
ou o objetivo abraçado e defendido é falso é perigoso, não merecedor de
tanta dedicação e perseverança. O fanático se opõe ao entusiasta, seguidor
de uma idéia nobre e benéfica. O fanatismo se prende ao dogmatismo e, em
parte, encontra adeptos entre pessoas de personalidade autoritária, que não
percebem o erro ou o perigo que passam a defender. O fanatismo não questiona a
sua crença e adere ao sectarismo. É fenômeno antigo na humanidade, e a religião
é sua fonte mais freqüente. Entre autores que trataram do tema destacam-se
Torquemada, Calvino e Clemente no passado, e Goebbels neste século. Funcionalismo Um
dos métodos das ciências sociais. Tem como visão central um sistema social
cujas instituições contribuem para a manutenção do equilíbrio. A palavra
função expressa bem o significado do método: cada órgão com sua função
bem desempenhada e o sistema terá seu equilíbrio garantido. Embora já usado
por Durkheim em A divisão do trabalho social e O Suicídio, o livro de
Radcliffe-Brown Função e equilíbrio da sociedade primitiva deram novo impulso
ao método. Função e equilíbrio são as palavras-chaves do funcionalismo
enquanto método de interpretação da realidade social. 0 funcionalismo não
nega a evolução ou a mudança social, mas a percebe através da seqüência de
equilíbrio s gerados pelas novas instituições sociais ou nova forma de
estruturação das antigas instituições. Historicismo Visão
ou filosofia segundo a qual todos os valores resultam de uma evolução histórica.
A historicidade ou a inserção cronológica, causal, condicionante e
concomitante de eventos na história constitui posição assumida a priori, isto
é, ela é prévia e determina a inserção dos fatos na história. Surgiu no século
XIX e contou com eminentes historiadores para divulgação e critica. O termo
historicismo apareceu em 1881 na obra de Karl Werner - Giambattista Vico como
filósofo e pesquisador erudito, com o significado de estrutura histórica da
realidade humana. A razão substitui a providência divina na visão
historicista, caracterizada pela consciência histórica, pela historicidade do
real. A humanidade é compreendida por sua história e a essência do homem não
é a espécie biológica, mas sua história, movida pela razão. Troeltsch,
Dilthey, Mannheim, Spengler, Herder, Toynbee figuram na galeria dos
historiadores que divulgaram o historicismo, e Popper o criticou em The
poverty of historicism, traduzida em português como A miséria do
historicismo. Humanismo O
termo humanismo surge em 1808 no livro A luta entre o filantropismo e o
humanismo, de J. N. Niethammer, no sentido de educação visando à formação
global do indivíduo através do estudo dos clássicos gregos e latinos, em
oposição às escolas da moderna pedagogia. O vocábulo surgiu tardiamente,
pois com este sentido já era praticado vários séculos antes, por Petrarca
(1304-1374), Erasmo de Rotterdam (1476-1536) e muitos outros autores. Nesta época
o humanismo procura por em destaque a dignidade da pessoa humana e sua autonomia
em face da revelação cristã medieval. Os humanistas eram todos exímios
helenistas e latinistas. A própria natureza e experiência humanas constituem
os fundamentos do humanismo. Há um segundo significado como forma de valorizar
o homem, fora da religião, decorrente do naturalismo ateu. E há ainda um
terceiro significado, mais usado que o anterior, como sinônimo de filosofia, de
visão do homem e do mundo. Neste sentido muitas filosofias advogam o humanismo,
como o cristianismo, o marxismo, e muitos partidos políticos o incluem em seus
princípios, como a democracia cristã, o liberalismo etc. A máxima do
humanismo certamente seria: Homo sum, humani nihil a me alienum puto (sou
homem, nada do que é humano me será estranho), verso de Terêncio, escravo
liberto e poeta latino (cerca de 190-159 a.C.). Humorismo O
cômico, a pilhéria, o gracejo, a ironia e o humor foram estudados por
cientistas, desde os filósofos antigos até psicólogos do século XX. Embora
Aristóteles tenha tratado sucintamente do tema, os antigos davam importância
ao humorismo, como comprova o velho adágio: Castigat ridendo mores e as antigas
comédias e sátiras grego-romanas. Segundo Bergson, a ironia consiste em fingir
ser o que se é realmente, e o humor, em mostrar o que é realmente, simulando o
que deveria ser. Freud em A pilhéria e suas relações com o inconsciente
(1905) trata do cômico e do humor, sob a perspectiva da psicanálise. Mas os clássicos
do humorismo são Theodor Lipps com Comicidade e humorismo, 1899; Kuno Fisher,
Sobre a pilhéria, 1889, e Bergson, O riso, 1900. O humorismo é tema importante
e sério nas ciências sociais, na imensa área de incidência entre
antropologia, psicologia e sociologia. Idealismo É
uma das diversas posições sobre o conhecimento e sobre a sua essência.
Considera o real redutível à idéia, ao pensamento, ou, em outros termos, a idéia
ou pensamento é a essência da realidade. Platão é o pioneiro a defender esta
posição. O idealismo gnosiológico é também defendido pelo cartesianismo e
por Berkeley, e o idealismo transcendental por Kant, Malebranche, Fichte,
Schelling, Hegel e outros filósofos. Ao idealismo se contrapõem o material
ismo e a sua práxis. Marx se opõe veementemente ao idealismo em sua tríplice
forma metafísica, histórica e ética. Suas primeiras obras, de 1843 a 1847,
constituem ampla crítica ao idealismo. A história e a vida real são
simplesmente "a atividade dos homens em busca de seus fins" (A sagrada
família, 1845). Além do idealismo, há o realismo e a fenomenologia como soluções
metafísicas sobre a essência do conhecimento. Individualismo O
termo pode ser compreendido como filosofia ou crença para a qual o indivíduo
é um fim em si mesmo - Individuum est ineffabile - e como uma teoria que
defende o primado do indivíduo sobre a sociedade e o Estado. E neste segundo
sentido que interessa às ciências sociais. Liberdade, propriedade privada e
limitação do poder do Estado - eis as palavras-chaves do Individualismo. Há
tendência em se vincular ou relacionar Capitalismo e Individualismo bem como
Socialismo e Coletivismo. De fato, há atributos comuns que os aproximam. O
livro de Tocqueville - A democracia na América - foi um dos primeiros a
mostrar as conquistas sociais dentro de um individualismo concreto, que muito
mais a aproxima do liberalismo. O individualismo ora é atacado ora é defendido
no decorrer dos tempos. Rousseau e Mandeville (por ele citado), Durkheim,
Toennies, Hayek e tantos outros tratam do tema. Integralismo Movimento
político brasileiro dos anos 1930 sob a direção de Plínio Salgado, com apoio
teórico de Oliveira Viana, Alberto Torres e Jackson de Figueiredo. É uma forma
de humanismo espiritualista defendendo o primado do espírito sobre o moral, do
moral sobre o social, do social sobre o nacional, do nacional sobre o indivíduo.
Tinha por lema Deus, pátria e família, e por emblema a letra grega maiúscula
sigma significando somatório, união. Teve influência do nazi-fascismo, caindo
também no preconceito contra os judeus e perdeu prestígio com a derrota destes
regimes na última guerra. Liberalismo Liberalismo
é um conceito de muitas acepções. O termo não tem significado unívoco.
Muitos liberais e pouco liberalismo, diria algum dos liberais meio radicais em
sua corrente. É um conjunto de valores a nortear a existência humana. Pode ser
enunciado de diversas maneiras, pois abrange a vida social em todos os seus
aspectos. Pode-se dizer que é uma visão de mundo, uma filosofia do momento
presente. Caracteriza-se por alguns princípios, entre os quais arrolamos os
seguintes: 1) é individualista, defendendo o primado do indivíduo
sobre a sociedade ou qualquer grupo social; 2) é igualitário, admitindo e garantindo a igualdade do
homem enquanto pessoa, cada um com seu predicado moral igual, quaisquer que
sejam a origem étnica, a religião, o partido político, o sindicato, o clube
etc.; 3) é universalista, defendendo a homogeneidade moral da espécie
humana; regiões, estágios de crescimento econômico, países e regimes políticos
são aspectos secundários diante da igualdade moral do homem; 4) é otimista, admitindo o aperfeiçoamento das instituições
sociais de cada sociedade; 5) é recente na história da humanidade, surgindo após a
Revolução Gloriosa Inglesa, e de modo mais forte após a Revolução Francesa,
tendo como raiz o pensamento de Locke (1632-1704); 6) defende a liberdade como direito natural de todo indivíduo
e toda autoridade é limitada por esse direito. O
liberalismo é uma teoria ou doutrina de liberdade política e de liberdade econômica.
De conformidade com os quesitos anteriores, orienta a ação do Estado e de
qualquer autoridade, visando ao bem comum, sem ferir qualquer indivíduo ou
grupo social. Entre seus representantes contamos com Locke, Tocqueville e,
sobretudo com a Escola de Viena. O liberalismo ressurge agora no mundo com nova
força. No Brasil já temos vários Institutos Liberais, desde a criação, no
Rio de Janeiro em 1983; do primeiro núcleo de pesquisas e de divulgação do
liberalismo, nos moldes europeus. (Endereços - Rio de Janeiro: Av. Pres.
Wilson, 231, 27° andar - Castelo; São Paulo: Rua Bela Cintra, 471, sala 121. Marxismo É
um termo muito usado e com vários significados. Deriva de Marx (1818-18831 e
designa um método de interpretação das ciências sociais, uma filosofia da
história, uma corrente de pensamento na economia e mesmo um dogma ou religião.
As ciências sociais utilizam o marxismo como método de interpretação da
realidade social ao encararem a sociedade como um processo dinâmico movido pelo
antagonismo ou conflito inerente às classes sociais. O recurso teórico desta
visão é o materialismo dialético aplicado à história da humanidade, ou
seja, o materialismo histórico. O conceito-chave é modo de produção
(infra-estrutura e superestrutura). Como filosofia da história tem a mesma visão
metodológica, abrangendo sempre a tese, sua antítese e, do confronto das duas,
a síntese, que se afirma como tese e novo processo sempre recorrente. O caráter
determinante da infra-estrutura (forças produtivas e relações de produção)
mais o antagonismo entre as classes explicam o caminhar da humanidade desde o
comunismo primitivo, ao escravismo, feudalismo, capitalismo até o socialismo.
Como corrente de pensamento na economia, o marxismo guarda seu conteúdo desta
visão macro, mas desce para a microeconomia, na teoria do valor, em que o
trabalho é a palavra-chave enquanto relação social, cujo resultado é o salário
0 marxismo tem sido também um dogma ou religião com todas as características
desta. É o caso do marxismo-leninismo aplicado na União Soviética até
recentemente. O grande mérito do marxismo, em qualquer conceito em que seja
empregado, é vincular sempre o econômico ao político, envolvendo ambos pelo
histórico. Milenarismo E um termo que envolve aspectos religiosos e políticos.
Designa movimentos sociais surgidos geralmente em momentos de crise, cujo conteúdo
e objetivo é o retorno ao passado feliz aqui na terra. O componente religioso
é a crença irracional na salvação iminente e total. O componente político
é a associação e a participação ativa em decorrência desta crença. 0
surgimento de um I líder carismático dá vigor ao movimento, cujo messias ou
salvador passa a controlar toda a massa religiosa politizada. O texto clássico
é o livro da Professora Maria Isaura Pereira de Queiroz: O messianismo no
Brasil e no mundo. O tema não foge de todo da psicologia social devido ao tipo
psicológico do líder a à tendência a paroxismo, produzida pela sugestão e
imitação voluntária. A manipulação das massas também está, muitas vezes,
presente em tais movimentos. Positivismo Conjunto
de idéias e doutrinas de Comte (1798-1857) baseado nas obras Curso de
filosofia positiva (1830-42), Sistema de filosofia positiva (1851-54)
e Catecismo positivista (1852. Admite a evolução da humanidade em três
estados: teológico, metafísico e positivo. "Tudo é relativo - eis o
princípio absoluto único." Classificou também as ciências conforme a
generalidade decrescente e a complexidade crescente: matemática, astronomia, física,
química, biologia, sociologia; acrescentou mais tarde a psicologia. Criou o vocábulo
sociologia, dividida em estática (organismo social) cujo fim é a ordem e dinâmica
(evolução humana) cujo fim é o progresso. No século XX o positivismo
ressurgiu com novo nome e outra preocupação, no Círculo de Viena, empirismo lógico
ou positivismo lógico. Sectarismo É
a adesão a um I líder, a uma fé, a uma doutrina pol política, adesão firme
e cega, até as últimas conseqüências, mesmo absurdas. Tem muita semelhança
com o fanatismo e compromete o bem-estar social, através da perseguição ou
intolerância dos seguidores e do abandono do bom senso, dos valores, direitos e
deveres do cidadão. É o impulso passional que move o indivíduo, não a razão.
Traz a conotação de espírito de seita, alimentado pelo ódio. Socialismo É um regime econômico cujos princípios são basicamente os
seguintes: 1) propriedade social ou coletiva dos meios de produção; 2) planificação social estruturada teoricamente com a
finalidade de constituir uma sociedade mais justa, com minimização da
desigualdade social; 3) tendência geral para a defesa da justiça igualitária.
Teve seu auge no século 19 e Marx dedicou um capítulo de seu Manifesto
Comunista para os diversos tipos de socialismo, a fim de orientar intelectuais e
a classe operária contra tendências ou correntes socialistas reformistas e
burguesas. É evidente que tal regime econômico não seja adequado ao
liberalismo que inspira o capitalismo. Seu ideal de igualdade tem, na realidade,
dividido a sociedade em dois segmentos ou classes distintas: o povo cujas
necessidades básicas são satisfeitas e os dirigentes cujas necessidades supérfluas
continuam a crescer, qual pequeno reduto capitalista dentro do socialismo. A
URSS é apontada como o modelo vivo do socialismo. Em face do fracasso econômico
contínuo, surgem com esperança a Glasnost e a Perestroika, cujos êxitos o
mundo inteiro aguarda. Totalitarismo É
o primado do poder de Estado sobre o indivíduo. É a expansão do controle e da
ação permanente do Estado sobre a vida social. O totalitarismo tem por princípio
a ação e o controle do Estado sobre a sociedade, geralmente não admite
partidos políticos, salvo o do poder. Os exemplos mais característicos e
recentes são os regimes nazi-fascista e soviético. O livro clássico é Origens
do totalitarismo, de Hannah Arendt. Utilitarismo ou Pragmatismo Teoria
ética e social que defende a busca do poder como objetivo do homem. E uma versão
moderna do epicurismo, ou a busca da felicidade. Surgiu no final do século XIX
com J. Bentham e J. Mill. Tem certa semelhança com o hedonismo,
diferenciando-se deste pelo aspecto moral. Segundo Veblen, o homem econômico é
um emérito calculador de prazeres e de sofrimentos, se se consideram o lucro e
o custo como prazer e sofrimento. O direito serviu-se da idéias utilitaristas,
através da jurisprudência produzida pela obra de Beccaria: Dos delitos e das
penas, que defendia a pena ou o sofrimento para todos os criminosos, de qualquer
classe sem distinção, desde a nobreza até a classe mais baixa. 0 crime deve
ser compensado de seu prejuízo para com a sociedade através do castigo e a única
medida do crime é a extensão do dano: maior crime, maior pena.
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