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José, Jó e a Roda da Fortuna

 

 

            Embora seja ateu, tenho familiares protestantes e meu irmão pediu-me que lhe ajudasse com um blog que mantinha quando tinha mais tempo. Agora, a exemplo do que vem ocorrendo no Brasil descarrilado e desgovernado praticamente desde o suicídio de Vargas (1954) até hoje, ladeira abaixo, chegando no ponto mais baixo agora, no terceiro mandato de Lulla da Silva, por procuração à sua ex-chefe da Casa Civil, meu irmão também arranjou um TERCEIRO emprego que somente sua aposentadoria e um segundo emprego não dão mais conta de manter o mesmo padrão de vida de há 20, 30 anos, como todos sabemos e vivenciamos dolorosamente.

            Mas isso também passa... Como veremos, os ciclos existenciais, por uma série de circunstâncias alheias a cada um de nós, nos jogam para cima e para baixo, seja economicamente, seja em termos de saúde ou mesmo sensação existencial (alegria ou não de viver, coisas assim).

Breve digressão: no primeiro parágrafo bateu uma dúvida... Não estou seguro se a grafia correta seria “ex-chefe” ou “ex-chefa”... Depois da publicação da famigerada Lei nº 12.605 de 3 de Abril de 2012, que determina a flexão de gênero para todos os profissionais, a grafia correta passa a ser – por idiota e horrível que pareça – assim: “presidentA”, “superintendentA”, “gerentA”, “pilotA”, etc... Não estou seguro quanto a “chefe” ou “chefa”, mas é aquela dona lá, filha de búlgaros e subordinada, por ordem de seu chefe, ao Mercado de Capitais, como ocorre em praticamente todos os países ocidentais que seguem celeremente ladeira abaixo em termos econômicos. Isso também passa.

Enfim, a reflexão aqui passa por 3 exemplos. O de José, do Egito; o de Jó e a Carta 10 do Tarot, “A Roda da Fortuna”, além de uma brevíssima análise da cantata “Carmina Burana”, composta por Carl Orff entre 1935 e 1936.

 
 

 

Todos conhecem a mitologia judaico-cristã neste país de raízes profundamente cravadas naquela tradição. O primeiro livro da Bíblia, Gênesis, traz em seus capítulos 29 a 32 a história de José; em síntese:

Jacó - que terá seu nome mudado para Israel quando da célebre luta com o Anjo - apaixona-se irremissivelmente por Raquel e só havia, à ocasião, um meio de casar-se com ela, sendo ele oriundo de família humilde: trabalhar para o pai dela, Labão. Inicialmente, o futuro sogro o engana e, ao cabo de sete anos trabalhando como pastor de ovelhas, casa Jacó com Lia, a irmã mais velha de Raquel. Mas tal era o seu amor que trabalha mais sete anos (segundo o costume) pela mão de Raquel. E a Escritura registra que aqueles anos todos “foram aos seus olhos como poucos dias, pelo muito que a amava”. Lia concebe e dá vários filhos ao patriarca. Raquel, inicialmente estéril, é veículo do milagre da concepção de José que se torna - ça va sans dire - o filho predileto de Jacó.

José, além de intensamente amado por seu pai humano recebia, em sonhos, o que ele considerava ser Visitações Divinas, e lhe concediam a habilidade excepcional de interpretar os sonhos com rara habilidade. Seus irmãos, num misto de inveja, temor e ódio, venderam-no como escravo aos egípcios por vinte moedas de prata. Jacó, informado pelos filhos que José havia sido devorado por um animal selvagem, fica inconsolável por vários anos.

Reza o relato que José se torna escravo de um egípcio cuja esposa o tenta mas ele a recusa – e não há nada no Universo conhecido mais perigoso que uma mulher rejeitada! – ela o acusa de assédio (em termos equivalentes e apropriados àquele tempo, claro está) e José é encarcerado!  Vemos aqui, na vida de José uma virada violenta da Roda da Fortuna: num momento está na Palestina, o filho mais amado pelos pais e considerando-se querido pela Divindade em que acredita; no momento seguinte se torna escravo e, de escravo em encarcerado! Chegou ao fundo do poço; mas não se deixa abater: torna-se amigo do carcereiro ao interpretar corretamente seus sonhos e vai ganhando notoriedade como “profeta”, como um bom intérprete dos sonhos, antigamente tidos como presságios ou mensagens dos deuses e ainda hoje respeitadíssimos (os Sonhos) nos meios psicanalíticos como porta privilegiada ao inconsciente.

Um dia, Faraó tem um sonho – aquele das sete vacas gordas que são devoradas por sete vacas magras – e nenhum de seus conselheiros e sábios consegue interpretar este sonho. Um deles, contudo, havia ouvido a fama de José, um escravo vindo da Palestina a quem se atribuía a habilidade de interpretar sonhos. Diante da ameaça de morte a quem não interpretasse apropriadamente aquele sonho os sacerdotes egípcios alegremente cedem a José essa dúbia honradez...

José, sem hesitar, diz o texto de autor desconhecido (a propósito, nem mesmo entre os rabinos mais fundamentalistas do judaísmo se encontra quem acredite que Moisés foi uma pessoa real, de carne e osso; interpreta-se o que chamamos de “Pentateuco” como METÁFORA, jamais literalmente) informa a Faraó que seu sonho predizia sete anos de fartura seguidos de sete anos de escassez, o que de fato mais tarde prova-se ser verdade. Pedindo conselhos àquele escravo, prisioneiro, estrangeiro, Faraó escuta com atenção suas orientações: deve o Faraó constituir Autoridade um homem que seja capaz de precaver-se contra os anos de escassez guardando o excesso dos anos de fartura. Faraó nomeia... JOSÉ para ser o que seria equivalente a Primeiro Ministro do Egito e lá o vemos a subir nos giros da Roda da Fortuna.

A escassez e a fome chegam também à Palestina, terra natal de José e Jacó ordena a seus filhos que vão ao Egito conversar com as Autoridades e tragam de lá o trigo, alimento vital. Aqueles pastores pobres de uma terra distante têm enorme dificuldade para conseguir uma audiência com o poderoso governador da única terra a salvo da fome. Escrevo estas linhas imaginando a cena: envergonhados, empobrecidos e suplicantes, ali estão os estrangeiros da Palestina, irmãos de José embora não o saibam, inseguros quanto a seu futuro ou sequer a decisão do poderoso governador do Egito. Quando finalmente se dá a conhecer, dirigindo-se a seus irmãos em seu próprio idioma, o que será que se passa na cabeça daqueles sujeitos? “Eu sou José. Aquele que vocês venderam como escravo...” E a superioridade moral de José faz com que seus irmãos sejam recebidos como príncipes, entre lágrimas, abraços e beijos.

Uma das muitas histórias contadas acerca do papa João XXIII, Angelo Giuseppe (José) Roncalli, informa que ele, como Chefe de Estado do Vaticano, teria dito estas mesmas palavras ao receber a delegação de Israel, ali em missão diplomática: “Eu sou José, seu irmão...”

Desde finais do século XX, as coisas no mundo humano andam severamente desencaminhadas, com a Globalização transformando a todos em idólatras e escravos de uma grande Besta, o Mercado de Capitais. Mas sabemos que, até por ser inacreditavelmente absurdo gerir as finanças internacionais de maneira tão irresponsável, isso não pode durar para sempre – já está durando, francamente, bem mais do que eu considerava possível e não me espanta que a sanha dos especuladores e banqueiros venha num crescendo tão assustador: eles sabem que este modelo está fadado ao mais retumbante fracasso e procuram – busco em vão uma palavra mais branda... – ROUBAR dos trabalhadores o máximo possível enquanto seus lacaios políticos conseguem controlar a plebe ignara.

Quanto a isto, sem problemas: Hitler passou, Mussolini passou (e pareciam imbatíveis em seu auge)... Lula também passará e a Globalização irá ser banida deste país – tomara que deste Planeta! – e tomara que em prol de uma economia planificada. Ora bolas: como pode uma Nação fazer qualquer coisa que preste para a gente que vive e trabalha se não pode PLANEJAR, se tem de obedecer ao Mercado e ao que ousam chamar de “Mão Invisível do Mercado” na maior transferência de renda dos trabalhadores para os ociosos jogadores e agiotas em toda a história humana no mundo? Sério: isso também vai passar...

Quanto a José, com que clareza vemos naquela história – mitológica evidentemente, mas para muitos iletrados “literal” – os altos e baixos da Roda da Fortuna; de como o Destino nos joga daqui para ali, de alto abaixo e de baixo acima sem que tenhamos de nosso mais que alguma habilidade...

 
 

 

O livro de Jó está mais ou menos no meio da bíblia cristã, um livro antes do livro de Salmos e a história é realmente muito interessante e, como a de José, crucial para a cultura da civilização ocidental – dizemos hoje coisas como “pobre de Jó”; “tempo de vacas magras” e “tempo de vacas gordas” e todos sabemos do que se trata.

O relato central informa de um dos muitos diálogos entre Deus e sua criatura, o Diabo – sempre que ouço ou leio sobre este dualismo, oriundo, sem sombra de dúvidas, do Zoroastrismo, fico pensando o que levaria as pessoas a considerar as religiões abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo) como “monoteístas” quando são claramente, no mínimo DUALISTAS...  Enfim, conversando com seu arquiinimigo, Deus fala ao Diabo de como Jó é um sujeito bom, honrado, piedoso, etc. O Diabo diz que Deus o tratou tão bem até ali (Jó é um fazendeiro rico, com várias esposas e concubinas, uma grande ninhada de filhos e filhas muito bonitos, além de rebanhos de gado e muita, muita fortuna) que não surpreende que ele seja a Deus tão grato e fiel... Pede autorização para derramar em Jó uma carrada de desgraças e recebe a permissão. Em pouco tempo Jó vai perdendo seus bens para secas e pragas, perde parentes – algumas mulheres simplesmente não conseguem viver com um cidadão de quem se apegaram pela sua “beleza interior” ou seja, do interior de sua bolsa... – outras, além de seus filhos e filhas são abatidos por doenças diversas e Jó os perde a todos ficando quase tão pauperizado quanto estamos hoje os brasileiros sob o regime do Capitalismo de Cassino que tomou conta do mundo como se fora uma praga ou maldição de alguma divindade irada. Ainda assim, mantém o seu eixo, a sua fé e diz algo como “Deus me deu, Deus levou, Bendito o Nome do Senhor” ou o que o valha. Não vacila. O Diabo, insatisfeito, pede a Deus permissão para penalizar Jó na carne, pois assim, argumenta o “Coisa Ruim”, finalmente Jó blasfemará contra seu criador. Deus autoriza o Diabo a agredir Jó na carne da maneira que desejar pois está seguro da firmeza da vítima. Jó é acometido de um tipo contagioso de Lepra – e a Lepra, que hoje chamamos de Hanseníase e sabemos haver tipos não contagiosos além de já ser tratável, naquele tempo era praticamente uma sentença de morte; o equivalente a um sujeito “pobre de Jó” contrair AIDS. “Já era”. Os leprosos ficavam isolados das outras pessoas e só sobreviviam da mendicância. Ainda assim Jó “bendiz o nome do Senhor”, segue o relato, e o Diabo capitula.

Ato contínuo, Jó é curado da Lepra, volta a trabalhar (num tempo em que trabalhar era a única forma de auferir rendimentos ao contrário de hoje, sob a Ditadura do Capital de Cassino, tempo em que o trabalho é violentamente castigado e todas as falcatruas imagináveis são regiamente recompensadas) e consegue com rapidez incrível, não apenas recuperar tudo o que tinha em termos de bens materiais como constitui um Harém ainda maior e qualitativamente melhor que o primeiro além de ter vários filhos e filhas e servos e servas, entre muitas coisas que superam em beleza e honra (era um tempo em que a honra tinha um grande valor, cumpre ressaltar, pois a maioria hoje parece haver-se esquecido de que a honra, algum dia, tenha valido alguma coisa) tudo o que tinha no passado.

A reflexão aqui diz respeito a como somos, por forças externas a nós – daí atribuí-las por vezes a amiguinhos invisíveis num céu ou inferno intangíveis – perdemos posição na vida e descemos a mais não poder. Mas isso passa. Diz um amigo que tudo nesta vida é passageiro, menos o motorista. Mas sério, estes episódios todos, estas exterioridades (riqueza-pobreza; saúde-doença; alegria-tristeza...) são ILUSÓRIAS, o fundamental é fazer como Jó e José: manter o eixo de seu sistema de crenças, apegar-se ao EIXO central da Roda da Fortuna, que ela gira mesmo!

 
 

 

Carmina Burana

A coletânea de poemas medievais elaborada por monges ali pelo século XI ou XII Da Nossa Era e encontrada somente em 1803 num monastério Beneditino da Bavária (Alemanha) é toda escrita em Latim (idioma que Carl Orff respeitou ao elaborar meticulosamente sua magnífica cantata) e examina, principalmente, o girar constante da “Roda da Fortuna”. Vai aqui um pequeno trecho da primeira parte para que se tenha uma ideia...

 
 

 

O Fortuna (O Fortuna)

Velut luna (És como a Lua)

Statu variabilis (Mutável)

Semper crescis (Sempre aumentas)

Aut decrescis; (e diminuis;)

Vita detestabilis (vida detestável)

Nunc obdurat (primeiro oprimes)

Et tunc curat (então alivias)

Ludo mentis aciem, (por brincadeira da mente)

Egestatem, (Pobreza)

Potestatem (Poder)

Dissolvit ut glaciem. (ela os funde como gelo.)

 

 

Sors immanis (Destino monstruoso)

Et inanis, (e vazio)

Rota tu volubilis, (Tu - Roda Volúvel)

Status malus, (Sois má)

Vana salus (vã é a felicidade)

Semper dissolubilis, (Sempre dissolúvel)

Obumbrata (nebulosa)

Et velata (and velada)

Michi quoque niteris; (Também a mim contagias;)

Nunc per ludum (Agora por brincadeira)

Dorsum nudum (o dorso nu)

Fero tui sceleris. (me entrego à tua perversidade.)

 

Sors salutis (Na saúde)

Et virtutis (na virtude)

Michi nunc contraria, (o destino está contra mim)

Est affectus (És doadora)

Et defectus (E tomadora)

Semper in angaria. (Mantendo-me sempre escravizado.)

Hac in hora (Nesta hora)

Sine mora (sem demora)

Corde pulsum tangite; (Tange a corda vibrante;)

Quod per sortem (uma vez que o Destino)

Sternit fortem, (abate o forte)

Mecum omnes plangite! (Chorai todos comigo!)

 

Mais adiante um alerta a quem está "por cima"

 

Rex sedet in vertice (Rei que te sentas no vértice)

caveat ruinam! (Precavenha-se contra a ruína!)

nam sub axe legimus (Pois no eixo se lê)

Hecubam reginam.(Rainha Hécuba.)

          * Esta cantata é facilmente encontrável nas lojas especializadas. Pela Internet, só consegui encontrar a versão que tenho (regida por Jean-Pierre Ponnelle, a melhor versão em minha opinião) no Amazon...

A Carta 10 do Tarot

 

Para essas exterioridades do fluxo existencial os antigos egípcios criaram uma representação pictográfica através da carta de número 10 do Tarot, chamada "A Roda da Fortuna". Joseph Campbell, seguramente o maior especialista em mitologia comparada que já viveu até hoje, afirma que aquele símbolo, entre os japoneses, é representado como a figura de dois peixes (um preto e outro branco, cada um com um olho da cor oposta para indicar algo como "há um pouco de mim em você e um pouco de você em mim" que todos estamos interligados de alguma forma, afinal) chamado de Yin e Yang.

Em termos de cartas de Tarot, o melhor que conheço ainda é o Gareth Knight Tarot Deck, facilmente encontrável nas livrarias especializadas. Pela Internet encontrei-o apenas no Amazon...

O importante, em síntese, é ENCONTRAR O EIXO, O CENTRO. Se nos identificamos com as exterioridades desta vida (riqueza, pobreza, saúde, doença, alegria, tristeza e todos os pares de opostos que se possam enumerar) nossos processos mentais também serão orientados por esta linha. Contudo, se nos identificamos com o EIXO central e não as bordas da Roda da Fortuna, viveremos mais seguros e felizes diante de um mundo cambiante e ilusório.

Aliás, é por isso que, nas cerimônias tradicionais de casamento dizemos um ao outro: "estou com você na saúde e na doença, da alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza", pois VOCÊ é minha bem-aventurança, não estas exterioridades ilusórias.

 

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 26 de julho de 2012

Revisado (por lembrança de meu Grande Camarada Cleber) a 02/02/2015

 

 

 

 

Recomendo entusiasticamente tanto o livro quanto os DVD's de Joseph Campbell "O Poder do Mito"

O Poder do Mito - Joseph Campbell

 
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