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José do Patrocínio
Se toda a propriedade é roubo, a propriedade
escrava é um roubo duplo, contrária aos princípios humanos que qualquer ordem
jurídica deve servir." Não se tratava apenas de uma retórica inflamada
de nítida inspiração socialista, nem de um mero exercício de propagandismo
desabusado que se poderia esperar de um dos jornalistas mais famosos do pais.
Filho de um padre com uma escrava que vendia frutas, José do Patrocínio (1853
– 1905) sabia do que estava falando: senhor por parte de pai, escravo por
parte de mãe, vivera na pele todas as contradições da escravatura.
Nascido em Campos (RJ), um dos pólos escravagistas
do país, mudou-se para o Rio de Janeiro e começou a vida como servente de
pedreiro na Santa Casa de Misericórdia do Rio. Pagando o próprio estudo,
formou-se em farmácia. Em 1875, porém, descobriu a verdadeira vocação ao um
jornal satírico chamado "Os Ferrões” Começava ali a carreira de um dos
mais brilhantes Jornalistas brasileiros de todos os tempos. Dono de um texto
requintado e viril, José do Patrocínio - que de início assinava Proudhon --
se tornou um articulista famoso em todo o país. Conheceu a princesa Isabel,
fundou seu diário, a "Gazeta da Tarde" virou o "Tigre do
Abolicionismo". Em maio de 1883, criou, junto com André Rebouças, uma
confederação unindo todos os clubes abolicionistas do país. A revolução se
iniciara. "E a revolução se chama Patrocínio», diria Joaquim Nabuco.
Pouco depois de a princesa Isabel assinar a Lei
Áurea, sob uma chuva de rosas no paço da cidade, a campanha que, por dez anos,
Patrocínio liderara enfim parecia encerrada. “Minha alma sobe de joelhos
nestes paços", diria ele, curvando-se para beijar as mãos da "loira
mãe dos brasileiros”. Aos 35 anos incompletos, era difícil difícil supor que, a
partir dali, Patrocínio veria sua carreira ir ladeira abaixo. Mas foi o que
aconteceu: seu novo jornal, “A Cidade do Rio” (fundando em 1887), virou
porta-voz da monarquia – em tempos republicanos. Patrocínio foi acusado de
estimular a formação da "Guarda Negra", um bando de escravos
libertos que agiam com violência nos comícios republicanos. Era um "isabelista".
Em 1889, aderiu ao movimento republicano: tarde
demais para agradar aos adeptos do novo regime, mas ainda em tempo para ser
abandonado pelos ex-aliados. Em 1832, depois de atacar o ditador de plantão,
marechal Floriano, Patrocínio foi exilado na Amazônia. Rui Barbosa o defendeu,
num texto vigoroso. "Que sociedade é essa, cuja consciência moral
mergulha em lama, ao menor capricho da força, as estrelas de sua admiração?"
Em 93, Patrocínio voltou ao Rio, mas, como continuou o "Marechal de
Ferro", seu jornal foi fechado. A miséria bateu-lhe à porta e Patrocínio
mudou-se para um barracão no subúrbio. Por anos, dedicou-se a um projeto
delirante: construir um dirigível de 45 metros de comprimento. A nave jamais se
ergueria do chão.
Bibliografia: História do Brasil - Luiz Koshiba - Editora Atual História do Brasil - Bóris Fausto - EDUSP
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