O LIVRO DOS ESPÍRITOS
A FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO ESTADO DE SÃO PAULO (F.E.E.S.P.) AUTORIZA AO
GRUPO DE ESTUDOS AVANÇADOS ESPÍRITAS (G.E.A.E.) A DISTRIBUIÇÃO DESTE TEXTO
NA FORMA DIGITAL SEM FINS LUCRATIVOS, DESDE QUE SEU CONTEÚDO NÃO SEJA
ALTERADO.
ESTÃO VEDADAS QUAISQUER OUTRAS FORMAS DE REPRODUÇÃO E DISTRIBUIÇÃO.
Caso você encontre algum erro (tipográfico ou não) neste texto,
contacte-nos em qualquer um dos seguintes endereços internet:
iglesia@dialdata.com.br (Carlos A. Iglesia)
jac14@po.CWRU.Edu (José Cid)
saf@fct.unl.pt (Sérgio Freitas)
Comentários também são bem vindos.
FICHA CATALOGRÁFICA
(Feita na Editora)
R 27 1 Kardec, Allan (1804-1869)
O Livro dos Espíritos: Filosofia Espiritualista / Allan Kardec; tradução
de J. Herculano Pires, revista e anotada pelo tradutor para esclarecimentos
e atualização dos problemas do texto; “contendo os princípios da Doutrina
Espírita sobre a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas
relações com os homens, as leis morais, a vida futura e o porvir da
humanidade”. Edições FEESP, São Paulo. SP.
BIBLIOGRAFIA
1. Espiritismo 2. Espiritismo-Filosofia I. Pires. José Herculano;
(1914-1979) II. Título
CDD - 133.9
133.901
Índice para catálogo sistemático
1. Espiritismo 133.9
3. Doutrina Espírita 133.901
Impresso no Brasil / Presita en Brazilo

ALLAN KARDEC
FILOSOFIA ESPIRITUALISTA
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
Contendo os Princípios da Doutrina Espírita sobre a imortalidade da alma,
a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a
vida presente, a vida futura e o porvir da humanidade (segundo o ensinamento
dos Espíritos superiores, através de diversos médiuns, recebidos e ordenados
por Allan Kardec.)
Tradução de
J. HERCULANO PIRES
Revista e anotada pelo tradutor
Edições
FEESP
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
8ª Edição - Março de 1995 - Do 61º ao 70º Milheiros
FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Livraria e Editora Espírita "Humberto de Campos"
Rua Santo Amaro, 372, Bela Vista, São Paulo, SP
CEP 01315-001, Tel.: (O11) 607-5544 - Fax: (O11) 604-5245
CGC 61.669.966/0003-72 - Insc. Estadual 112.061.126.114
ÁREA DE DIVULGAÇÃO
Diretor: Cáio Atanácios Petro Salama
Secretaria Gráfica: Rosana Moreira da Silva
Os Direitos Autorais desta edição foram
graciosamente cedidos à
Federação Espírita do Estado de São Paulo.
NOTA
É com satisfação que a FEESP lega ao público esta edição da
magistral obra do Codificador, em cuidadosa tradução elaborada pelo Prof. J.
Herculano Pires, esperando que ela alcance a mesma penetração colimada por
todas as demais que constituem o chamado pentateuco Kardequiano.
"O Livro dos Espíritos" deu autêntica guinada em todos os conceitos que
até então se prevaleciam, no tocante à realidade do mundo dos Espíritos, e
principalmente no sempre momentoso tema da pré-existência e persistência da
alma. Desta forma, a exemplo do que afirmou Jesus Cristo, quando proclamou
que não vinha destruir a lei mas dar-lhe cumprimento, o papel desempenhado
pelo "O Livro dos Espíritos", é de ajudar as demais religiões a consolidar a
crença na imortalidade da alma, representando assim poderosa barreira a
impedir a avassaladora marcha do materialismo desintegrador.
O Espiritismo veio oferecer o mais lógico conjunto doutrinário que tem
surgido, mas, ainda assim, tudo o que sustenta em sua estrutura está, à
saciedade, comprovado pela experimentação metódica de grandes sábios, de
projeção mundial e também por tudo aquilo que está contido no Evangelho.
O majestoso edifício de suas verdades irretorquíveis, alicerça-se sobre
a base granítica da ciência. Antes de tudo a Doutrina dos Espíritos faz um
apelo à razão e daí o seu progresso assombroso como nenhuma outra pode
alcançar, no mesmo espaço de tempo, através de toda a história do pensamento
humano.
A razão de ser dos sistemas filosóficos e das religiões consiste em
propiciar uma explicação lógica sobre a vida e o seu objetivo e,
conseqüentemente, prescrever o remédio necessário à dor que nasce em todas
as almas e orvalha de lágrimas, de forma indiscriminada, as faces dos pobres
e dos potentados.
A Terceira Revelação, consubstanciada nas obras da Codificação
Kardequiana mostra, de um modo claro, a origem do sofrimento; desvenda o
mistério da vida e da desencarnação; assegura o progresso de todos os
Espíritos dentro do tempo e do espaço, sob a égide das leis eternas e
imutáveis do Criador de todas as coisas.
Mais do que nunca, pois, os ensinamentos contidos nessa obra ajudarão
os homens a encontrarem o seu verdadeiro caminho e, os exemplos vivos com os
quais eles deparam no perlustrar das páginas; têm propiciado, a milhões e
milhões de pessoas, a prova irretorquível da sobrevivência da alma. Os
testemunhos de muitos nos dão conta de que uma quantidade infinda daqueles
que tiveram a ventura de conhecer o Espiritismo, tem trocado o caminho
íngreme e obscuro da descrença, pela estrada florida da crença fundamentada
sobre a razão e a lógica.
Esperamos, assim, que o contributo da Federação Espírita do Estado de
S. Paulo, lançando mais uma edição desta majestosa obra, seja visto como
mais uma fonte geratriz de consolações e de orientação, atendendo às
ponderações do Espírito de Verdade, quando disse que o papel do Espiritismo
é de evolver e revolucionar o mundo inteiro.
A Editora
EXPLICAÇÃO
Com este livro surgiu no mundo o Espiritismo. Sua primeira edição
foi lançada a 18 de abril de 1857, em Paris, pelo editor E. Dentu,
estabelecido no Palais Royal, Galérie d'Orleans, 13. Três novidades, à
maneira das tríades druídicas, apareciam com este livro; a DOUTRINA ESPÍRITA
e a palavra ESPIRITISMO, que a designava; o nome ALLAN KARDEC, que provinha
do passado celta das Gálias.
A primeira novidade era apresentada como antiga, em virtude de
representar a eterna realidade espiritual, servindo de fundamento a todas as
religiões de todos os tempos: a Doutrina Espírita. Era, entretanto, a
primeira vez que aparecia na sua inteireza, graças à revelação do Espírito
da Verdade prometida pelo Cristo. A segunda, a palavra Espiritismo, era um
neologismo criado por Kardec e desde aquele momento integrado na língua
francesa e nos demais idiomas do mundo. A terceira representava a
ressurreição do nome de um sacerdote druída desconhecido.
A maneira por que o livro fora escrito era também inteiramente nova. O
prof. Denizard Hippolyte Léon Rivail fizera as perguntas que eram
respondidas pelos Espíritos, sob a direção do Espírito da Verdade, através
da cestinha-de-bico. Psicografia indireta. Os médiuns, duas meninas,
Caroline Baudin, de 16 anos e, Julie Baudin, de 14, colocavam as mãos nas
bordas da cesta e o lápis (o bico) escrevia numa lousa. Pelo mesmo processo
o livro foi revisado pelo Espírito da Verdade através de outra menina, a
srta. Japhet. Outros médiuns foram posteriormente consultados e Kardec
informa, em Obras Póstumas: "Foi dessa maneira que mais de dez médiuns
prestaram concurso a esse trabalho".
Este livro é portanto, o resultado de um trabalho coletivo e conjugado
entre o Céu e a Terra. O prof. Denizard não o publicou com o seu nome
ilustre de pedagogo e cientista, mas com o nome obscuro de Allan Kardec, que
havia tido entre os druídas, na encarnação em que se preparara ativamente
para a missão espírita. O nome obscuro suplantou o nome ilustre, pois
representava na Terra a Falange do Consolador. Esta Falange se constituía
dos Espíritos Reveladores, sob a orientação do Espírito da Verdade e, dos
pioneiros encarnados, com Allan Kardec à frente.
A 16 de março de 1860 foi publicada a segunda edição deste livro,
inteiramente revisto, reestruturado e aumentado por Kardec sob orientação do
Espírito da Verdade, que desde a elaboração da primeira edição já o avisara
de que nem tudo podia ser feito naquela.
Assim, a primeira edição foi o primeiro impacto da Doutrina Espírita no
mundo, preparando ambiente para a segunda que a completaria. Toda a Doutrina
está contida neste livro, de forma sintética e, foi posteriormente
desenvolvida nos demais volumes da Codificação.
Escrito na forma dialogada da Filosofia Clássica, em linguagem clara e
simples, para divulgação popular, este livro é um verdadeiro tratado
filosófico que começa pela Metafísica, desenvolvendo em novas perspectivas a
Ontologia, a Sociologia, a Psicologia, a Ética e, estabelecendo as ligações
históricas de todas as fases da evolução humana em seus aspectos biológico,
psíquico, social e espiritual. Um livro para ser estudado e meditado, com o
auxílio dos demais volumes da Codificação.
O Tradutor
Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita
I — ESPIRITISMO E ESPIRITUALISMO
Para as coisas novas necessitamos de palavras novas, pois assim o
exige a clareza de linguagem, para evitarmos a confusão inerente aos
múltiplos sentidos dos próprios vocábulos. As palavras espiritual,
espiritualista, espiritualismo têm uma significação bem definida;
dar-lhes outra, para aplicá-las à Doutrina dos Espíritos, seria multiplicar
as causas já tão numerosas de anfibologia. Com efeito, o espiritualismo é o
oposto do materialismo; quem quer que acredite haver em si mesmo alguma
coisa além da matéria é espiritualista; mas não se segue daí que creia na
existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível.
Em lugar das palavras espiritual e espiritualismo
empregaremos, para designar esta última crença, as palavras espírita
e espiritismo, nas quais a forma lembra a origem e o sentido radical
e que por isso mesmo têm a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis,
deixando para espiritualismo a sua significação própria. Diremos,
portanto, que a Doutrina Espírita ou o Espiritismo tem por
princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo
invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou, se o
quiserem, os espiritistas.
Como especialidade o Livro dos Espíritos contém a Doutrina Espírita;
como generalidade liga-se ao Espiritualismo, do qual representa uma
das fases. Essa a razão porque traz sobre o título as palavras: Filosofia
Espiritualista.
II — ALMA, PRINCÍPIO VITAL E FLUIDO VITAL
Há outra palavra sobre a qual igualmente devemos entender-nos porque
é uma das chaves de toda doutrina moral e tem suscitado numerosas
controvérsias por falta de uma acepção bem determinada: é a palavra alma.
A divergência de opiniões sobre a natureza da alma provém da aplicação
particular que cada qual faz desse vocábulo. Uma língua perfeita, em que
cada idéia tivesse a sua representação por um termo próprio, evitaria muitas
discussões; com uma palavra para cada coisa todos se entenderiam.
Segundo uns, a alma é o princípio da vida orgânica material; não tem
existência própria e se extingue com a vida: é o puro materialismo. Neste
sentido e por comparação dizem de um instrumento quebrado, que não produz
mais som, que ele não tem alma. De acordo com esta opinião a alma seria um
efeito e não uma causa.
Outros pensam que a alma é o princípio da inteligência, agente
universal de que cada ser absorve uma porção. Segundo estes, não haveria em
todo o Universo senão uma única alma, distribuindo fagulhas para os diversos
seres inteligentes durante a vida; após a morte cada fagulha volta à fonte
comum, confundindo-se no todo, como os córregos e os rios retornam ao mar de
onde saíram. Esta opinião difere da precedente em que, segundo esta
hipótese, existe em nós algo mais do que a matéria, restando qualquer coisa
após a morte; mas é quase como se nada restasse, pois não subsistindo a
individualidade não teríamos mais consciência de nós mesmos. De acordo com
esta opinião, a alma universal seria Deus e cada ser uma porção da
Divindade; é esta uma variedade do Panteísmo.
Segundo outros, enfim, a alma é um ser moral, distinto, independente da
matéria e que conserva a sua individualidade após a morte. Esta concepção é
incontestavelmente a mais comum, porque sob um nome ou outro a idéia desse
ser que sobrevive ao corpo se encontra em estado de crença instintiva, e
independente de qualquer ensinança, entre todos os povos, qualquer que seja
o seu grau de civilização. Essa doutrina, para a qual a alma é causa e não
efeito, é a dos espiritualistas.
Sem discutir o mérito dessas opiniões, e não considerando senão o lado
lingüístico da questão, diremos que essas três aplicações da palavra alma
constituem três idéias distintas, que reclamariam, cada uma, um termo
diferente. Essa palavra tem, portanto, significação tríplice, e cada qual
está com a razão, segundo o seu ponto de vista, ao lhe dar uma definição; a
falha se encontra na língua, que não dispõe de mais de uma palavra para três
idéias. Para evitar confusões, seria necessário restringir a acepção da
palavra alma a uma de suas idéias. Escolher esta ou aquela é
indiferente, simples questão de convenção, e o que importa é esclarecer.
Pensamos que o mais lógico é tomá-la na sua significação mais vulgar, e por
isso chamamos alma ao ser imaterial e individual que existe em nós
e sobrevive ao corpo. Ainda que este ser não existisse e não fosse mais
que um produto da imaginação, seria necessário um termo para designá-lo.
Na falta de uma palavra especial para cada uma das duas outras idéias,
chamaremos:
Princípio vital, o princípio da vida material e orgânica, seja
qual for a sua fonte, que é comum a todos os seres vivos, desde as plantas
ao homem. A vida podendo existir sem a faculdade de pensar, o princípio
vital é coisa distinta e independente. A palavra vitalidade não daria
a mesma idéia. Para uns, o princípio vital é uma propriedade da
matéria, um efeito que se produz quando a matéria se encontra em dadas
circunstâncias; segundo outros, e essa idéia é mais comum, ele se encontra
num fluido especial, universalmente espalhado, do qual cada ser absorve e
assimila uma parte durante a vida, como vemos os corpos inertes absorverem a
luz. Este seria então o fluido vital, que segundo certas opiniões,
não seria outra coisa senão o fluido elétrico animalizado, também designado
por fluido magnético, fluido nervoso, etc.
Seja como for, há um fato incontestável, — pois resulta da observação,
— e é que os seres orgânicos possuem uma força íntima que produz o fenômeno
da vida, enquanto essa força existe; que a vida material é comum a todos os
seres orgânicos, e que ela independe da inteligência e do pensamento; que a
inteligência e o pensamento são faculdades próprias de certas espécies
orgânicas; enfim, que entre as espécies orgânicas dotadas de inteligência e
pensamento, há uma, dotada de um senso moral especial, que lhe dá
incontestável superioridade perante as outras, e que é a espécie humana.
Compreende-se que, com uma significação múltipla, a alma não exclui o
materialismo, nem o panteísmo. Mesmo o espiritualista pode muito bem
entender a alma segundo uma ou outra das duas primeiras definições, sem
prejuízo do ser imaterial distinto, ao qual dará qualquer outro nome. Assim,
essa palavra não representa uma opinião: é um Proteu, que cada qual ajeita a
seu modo, o que dá origem a tantas disputas intermináveis.
Evitaríamos igualmente a confusão, mesmo empregando a palavra alma
nos três casos, desde que lhe ajuntássemos um qualificativo para especificar
a maneira pela qual a encaramos, ou a aplicação que lhe damos. Ela seria
então um termo genérico, representando ao mesmo tempo o princípio da vida
material, da inteligência e do senso moral, que se distinguiriam pelo
atributo, como o gás, por exemplo, que se distingue ajuntando-se-lhe as
palavras hidrogênio, oxigênio e azoto. Poderíamos dizer, e talvez fosse o
melhor, a alma vital, para designar o princípio da vida material, a
alma intelectual, para o princípio da inteligência, e a alma
espírita, para o princípio da nossa individualidade após a morte. Como
se vê, tudo isto é questão de palavras, mas questão muito importante para
nos entendermos. Dessa maneira, a alma vital seria comum a todos os
seres orgânicos: plantas, animais e homens; a alma intelectual seria
própria dos animais e dos homens, e a alma espírita pertenceria
somente ao homem.
Acreditamos dever insistir tanto mais nestas explicações, quanto a
Doutrina Espírita repousa naturalmente sobre a existência em nós, de um ser
independente da matéria e que sobrevive ao corpo. Devendo repetir
freqüentemente a palavra alma no curso desta obra tínha-mos de fixar
o sentido em que a tomamos, a fim de evitar qualquer engano.
Vamos, agora, ao principal objetivo desta instrução preliminar.
III — A DOUTRINA E SEUS CONTRADITORES
A Doutrina Espírita, como toda novidade, tem seus adeptos e seus
contraditores. Tentaremos responder a algumas das objeções destes últimos,
examinando o valor das razões em que se apoiam, sem termos entretanto a
pretensão de convencer a todos; pois há pessoas que acreditam que a luz foi
feita somente para eles. Dirigimo-nos às pessoas de boa-fé, sem idéias
preconcebidas ou posições firmadas mas sinceramente desejosas de se
instruirem, e lhes demonstraremos que a maior parte das objeções que fazem à
doutrina provêm de uma observação incompleta dos fatos e de um julgamento
formado com muita ligeireza e precipitação.
Recordemos inicialmente, em breves palavras, a série progressiva de
fenômenos que deram origem a esta doutrina.
O primeiro fato observado foi o movimento de objetos; designaram-no
vulgarmente com os nomes de mesas girantes ou dança das mesas.
Esse fenômeno, que parece ter sido observado primeiramente na América, ou
melhor, que se teria repetido nesse país, porque a História prova que ele
remonta à mais alta Antigüidade, produziu-se acompanhado de circunstâncias
estranhas, como ruídos insólitos e golpes desferidos sem uma causa
ostensiva, conhecida. Dali, propagou-se rapidamente pela Europa e por outras
partes do mundo; a princípio provocou muita incredulidade, mas a
multiplicidade das experiências em breve não mais permitiu que se duvidasse
da sua realidade.
Se esse fenômeno se tivesse restringido ao movimento de objetos
materiais poderia ser explicado por uma causa puramente física. Estamos
longe de conhecer todos os agentes ocultos da Natureza e mesmo todas as
propriedades dos que já conhecemos; a eletricidade, aliás, multiplica
diariamente ao infinito os recursos que oferece ao homem e parece dever
iluminar a Ciência com uma nova luz. Não haveria, portanto, nada de
impossível em que a eletricidade, modificada por certas circunstâncias, ou
qualquer outro agente desconhecido, fosse a causa desse movimento. A reunião
de muitas pessoas, aumentando o poder da ação, parecia dar apoio a essa
teoria porque se poderia considerar essa reunião como uma pilha múltipla, em
que a potência corresponde ao número de elementos.
O movimento circular nada tinha de extraordinário: pertence à Natureza.
Todos os astros se movem circularmente; poderíamos, pois, estar em face de
um pequeno reflexo do movimento geral do Universo; ou, melhor dito, uma
causa até então desconhecida poderia produzir acidentalmente, nos pequenos
objetos e em dadas circunstâncias, uma corrente mais análoga à que
impulsiona os mundos.
Mas o movimento não era sempre circular. Freqüentemente era brusco,
desordenado, o objeto violentamente sacudido, derrubado, conduzido numa
direção qualquer e contrariamente a todas as leis da Estática, suspenso e
mantido no espaço. Não obstante, nada havia ainda nesses fatos que não
pudesse ser explicado pelo poder de um agente físico invisível. Não vemos a
eletricidade derrubar edifícios, arrancar árvores, lançar à distância os
corpos mais pesados, atraí-los ou repeli-los?
Supondo-se que os ruídos insólitos e os golpes não fossem efeitos
comuns da dilatação da madeira ou de qualquer outra causa acidental,
poderiam ainda muito bem ser produzidos por acumulação do fluido oculto. A
eletricidade não produz os ruídos mais violentos?
Até esse momento, como se vê, tudo pode ser considerado no domínio dos
fatos puramente físicos e fisiológicos. E sem sair dessa ordem de idéias,
ainda haveria matéria para estudos sérios, digna de prender a atenção dos
sábios. Por que não aconteceu assim? É penoso dizer, mas o fato se liga a
causas que provam, entre mil outras semelhantes, a leviandade do espírito
humano. De início, a vulgaridade do objeto principal que serviu de base às
primeiras experiências talvez não lhe seja estranha. Que influência não teve
uma simples palavra, muitas vezes, sobre as coisas mais graves! Sem
considerar que o movimento poderia ser transmitido a um objeto qualquer,
prevaleceu a idéia da mesa, sem dúvida por ser o objeto mais cômodo e porque
todos se sentam mais naturalmente em torno de uma mesa que de qualquer outro
móvel. Ora, os homens superiores são às vezes tão pueris, que não seria
impossível certos espíritos de elite se julgarem diminuídos se tivessem de
ocupar-se daquilo que se convencionara chamar a dança das mesas. É mesmo
provável que, se o fenômeno observado por Galvani o tivesse sido por homens
vulgares e caracterizado por um nome burlesco, estivesse ainda relegado ao
lado da varinha mágica. Qual o sábio que não se teria julgado diminuído ao
ocupar-se da dança das rãs?
Alguns, entretanto, bastante modestos para aceitarem que a Natureza
poderia não lhes ter dito a última palavra, quiseram ver, para tranqüilidade
de consciência. Mas aconteceu que o fenômeno nem sempre correspondeu à sua
expectativa, e por não se ter produzido constantemente, à sua vontade e
segundo a sua maneira de experimentação, concluíram eles pela negativa.
Malgrado, porém, sua sentença, as mesas, pois que há mesas, continuam a
girar, e podemos dizer com Galileu: "Contudo, elas se movem". Diremos ainda
que os fatos se multiplicaram de tal modo que têm hoje direito de cidadania
e que se trata apenas de encontrar para eles uma explicação racional.
Pode-se induzir qualquer coisa contra a realidade do fenômeno, pelo
fato de ele não se produzir sempre de maneira idêntica, segundo a vontade e
as exigências do observador? Os fenômenos de eletricidade e de química não
estão subordinados a determinadas condições, e devemos negá-los porque não
se produzem fora delas? Devemos estranhar que o fenômeno do movimento de
objetos pelo fluido humano tenha também as suas condições e deixe de se
produzir quando o observador, firmado no seu ponta de vista; pretende
fazê-lo seguir ao seu capricho ou sujeitá-lo às leis dos fenômenos comuns,
sem considerar que para fatos novos pode e deve haver novas leis? Ora, para
conhecer essas leis é necessário estudar as circunstâncias em que os fatos
se produzem e esse estando não pode ser feito sem uma observação
perseverante, atenta, e por vezes bastante prolongada.
Mas, objetam algumas pessoas, há freqüentemente fraudes visíveis.
Perguntaremos inicialmente se estão bem certas de que há fraudes e se não
tomaram por fraudes efeitos que não conseguiram apreender, mais ou menos
como o camponês que tomava um sábio professor de Física, fazendo
experiências, por um destro escamoteador. E mesmo supondo-se que as fraudes
tenham ocorrido algumas vezes, seria isso razão para se negar o fato?
Deve-se negar a Física, porque há prestidigitadores que se enfeitam com o
título de físicos? É necessário aos demais considerar o caráter das pessoas
e o interesse que elas poderiam ter em enganar. Seria tudo, então, simples
brincadeira? Pode-se muito bem brincar um instante, mas uma brincadeira
indefinidamente prolongada seria tão fastidiosa para o mistificador como
para o mistificado. Haveria, além disso, numa mistificação que se propaga de
um extremo a outro do mundo e entre as pessoas mais graves, mais veneráveis
e esclarecidas, alguma coisa pelo menos tão extraordinária quanto o próprio
fenômeno.
IV — MANIFESTAÇÕES INTELIGENTES
Se os fenômenos de que nos ocupamos se restringissem ao movimento de
objetos, teriam permanecido no domínio das Ciências Físicas: mas não
aconteceu assim: estavam destinados a nos colocar na pista dos fatos de uma
ordem estranha. Acreditou-se haver descoberto, não sabemos por iniciativa de
quem, que o impulso dado aos objetos não era somente o produto de uma força
mecânica cega, mas que havia nesse movimento a intervenção de uma causa
inteligente. Esta via, uma vez aberta, oferecia um campo inteiramente novo
de observações; era o véu que se levantava sobre muitos mistérios. Mas
haverá realmente neste caso uma potência inteligente? Essa é a questão. Se
essa potência existe, o que é ela, qual a sua natureza, a sua origem? É ela
superior a Humanidade? Tais são as outras questões que decorrem da primeira.
As primeiras manifestações inteligentes verificaram-se por meio de
mesas que se moviam e davam determinados golpes, batendo um pé, e assim
respondiam, segundo o que se havia convencionado, por "sim" ou por "não" a
questão proposta. Até aqui, nada há de bastante convincente para os céticos,
porque se poderia crer num efeito do acaso. Em seguida, obtiveram-se
respostas mais desenvolvidas por meio das letras do alfabeto: dando o móvel
um número de ordem de cada letra, chegava-se a formar palavras e frases que
respondiam as questões propostas. A justeza das respostas e sua
correspondência com a pergunta provocaram a admiração. O ser misterioso que
assim respondia, interpelado sobre a sua natureza, declarou que era um
Espírito ou Gênio, deu o seu nome e forneceu diversas informações a seu
respeito. Esta é uma circunstância muito importante a notar. Ninguém havia
então pensado nos Espíritos como um meio de explicar o fenômeno; foi o
próprio fenômeno que revelou a palavra. Fazem-se hipóteses freqüentemente
nas Ciências exatas para se conseguir uma base ao raciocínio; mas neste caso
não foi o que se deu.
Esse meio de correspondência era demorado e incômodo. O Espírito, e
esta é também uma circunstância digna de nota, indicou outro. Foi um desses
seres invisíveis quem aconselhou a adaptar-se um lápis a uma cesta ou a
outro objeto. A cesta, posta sobre uma folha de papel, é movimentada pela
mesma potência oculta que faz girar as mesas; mas em lugar de um simples
movimento regular, o lápis escreve por si mesmo, formando palavras, frases,
discursos inteiros de muitas páginas, tratando das mais altas questões de
Filosofia, de Moral de Metafísica, de Psicologia, etc., e isso com tanta
rapidez como se escrevesse a mão.
Esse conselho foi dado simultaneamente na América, na França e em
diversos países. Eis os termos em que foi dado em Paris, a 10 de julho de
1853, a um dos mais fervorosos adeptos da doutrina, que há muitos anos,
desde 1849, se ocupava com a evocação dos Espíritos: "Vá buscar no quarto ao
lado a cestinha; prenda nela um lápis, coloque-a sobre o papel e ponha-lhe
os dedos na borda". Feito isso, depois de alguns instantes a cesta se pôs em
movimento e o lápis escreveu legivelmente esta frase: "Isto que eu vos
disse, proibo-vos expressamente de o dizer a alguém; da primeira vez que
escrever, escreverei melhor".
O objeto a que se adapta o lápis, não sendo mais que simples
instrumento, sua natureza e sua forma não importam; procurou-se a disposição
mais cômoda e foi assim que muitas pessoas passaram a usar uma prancheta.
A cesta ou a prancheta não podem ser postas em movimento senão sob a
influência de certas pessoas, dotadas para isso de um poder especial e que
se designam pelo nome de médiuns, ou seja, intermediários entre os Espíritos
e os homens. As condições que produzem este podes estão ligadas a causas ao
mesmo tempo físicas e morais ainda imperfeitamente conhecidas, porquanto se
encontram médiuns de todas as idades, de ambos os sexos e em todos os graus
de desenvolvimento intelectual. Essa faculdade, entretanto, se desenvolve
pelo exercício.
V — DESENVOLVIMENTO DA PSICOGRAFIA
Mais tarde reconheceu-se que a cesta e a prancheta nada mais eram do
que apêndices da mão, e o médium, tomando diretamente o lápis, pôs-se a
escrever por um impulso involuntário e quase fébril. Por esse meio as
comunicações se tornaram mais rápidas, mais fáceis e mais completas: é esse,
hoje, o meio mais comum, tanto que o número de pessoas dotadas dessa aptidão
é bastante considerável e se multiplica dia a dia. A experiência, por fim,
tornou conhecidas muitas outras variedades da faculdade mediúnica,
descobrindo-se que as comunicações podiam igualmente verificar-se através da
escrita direta dos Espíritos, ou seja, sem o concurso da mão do médium nem
do lápis.
Verificado o fato, um ponto essencial restava a considerar: o papel do
médium nas respostas e a parte que nelas tomava, mecânica e moralmente. Duas
circunstâncias capitais, que não escapariam a um observador atento, podem
resolver a questão. A primeira é a maneira pela qual a cesta se move sob a
sua influência, pela simples imposição dos dedos na borda; o exame demonstra
a impossibilidade de o médium imprimir uma direção a cesta. Essa
impossibilidade se torna sobretudo evidente quando duas ou três pessoas
tocam ao mesmo tempo na mesma cesta; seria necessário entre elas uma
concordância de movimentos realmente fenomenal; seria ainda necessária a
concordância de pensamentos para que pudessem entender-se sobre a resposta a
dar. Outro fato, não menos original, vem ainda aumentar a dificuldade. É a
mudança radical da letra, segundo o Espírito que se manifesta e a cada vez
que o mesmo Espírito volta, repetindo-a. Seria pois necessário que o médium
se tivesse exercitado em modificar a própria letra de vinte maneiras
diferentes e, sobretudo, que ele pudesse lembrar-se da caligrafia deste ou
daquele Espírito.
A segunda circunstância resulta da própria natureza das respostas, que
são, na maioria dos casos, mormente quando se trata de questões abstratas ou
científicas, notoriamente fora dos conhecimentos e às vezes do alcance
intelectual do médium. Este, de resto, em geral não tem consciência do que
escreve e por outro lado nem mesmo entende a questão proposta, que pode ser
feita numa língua estranha ou mentalmente, sendo a resposta dada nessa
língua. Acontece, por fim, que a cesta escreve de maneira espontânea, sem
nenhuma questão proposta, sobre um assunto absolutamente inesperado.
As respostas, em certos casos, revelam um teor de sabedoria, de
profundeza e de oportunidade; pensamentos tão elevados e tão sublimes, que
não podem vir senão de uma inteligência superior, impregnada da mais pura
moralidade. De outras vezes são tão levianas, tão frívolas, e mesmo tão
banais que a razão se recusa a admitir que possam vir da mesma fonte. Essa
diversidade de linguagem não se pode explicar senão pela diversidade de
inteligências que se manifestam. Essas inteligências são humanas ou não?
Este é o ponto a esclarecer e sobre o qual se encontrará nesta obra a
explicação completa, tal como foi dada pelos próprios Espíritos.
Eis, portanto, os efeitos evidentes que se produzem fora do círculo
habitual de nossas observações; que não se passam de maneira misteriosa mas
a luz do dia; que todos podem ver e constatar; que não são privilégios de
nenhum indivíduo e que milhares de pessoas repetem a vontade todos os dias.
Esses efeitos têm necessariamente uma causa e desde que revelam a ação de
uma inteligência e de uma vontade, saem fora do domínio puramente físico.
Muitas teorias foram formuladas a respeito. Passaremos a examiná-las
dentro em pouco e veremos se podem tornar compreensíveis todos os fatos
produzidos. Admitamos por enquanto a existência de seres distintos da
humanidade, pois é essa a explicação dada pelas inteligências que se
manifestam, e vejamos o que eles nos dizem.
VI — RESUMO DA DOUTRINA DOS ESPÍRITOS
Os seres que se manifestam designam-se a si mesmos, como dissemos,
pelo nome de Espíritos ou Gênios, e dizem, alguns pelo menos, que viveram
como homens na Terra. Constituem o mundo espiritual, como nós constituímos,
durante a nossa vida, o mundo corporal.
Resumimos em poucas palavras os pontos principais da doutrina que nos
transmitiram, a fim de mais facilmente responder a certas objeções:
"Deus é eterno, imutável, imaterial, único, todo-poderoso,
soberanamente justo e bom.
Criou o Universo, que compreende todos os seres animados e inanimados,
materiais e imateriais.
Os seres materiais constituem o mundo visível ou corporal e os seres
imateriais o mundo invisível ou espírita, ou seja, dos Espíritos.
O mundo espírita é o mundo normal, primitivo, eterno, preexistente e
sobrevivente a tudo.
O mundo corporal é secundário; poderia deixar de existir ou nunca ter
existido, sem alterar a essência do mundo espírita.
Os Espíritos revestem temporariamente um invólucro material perecível e
sua destruição pela morte os devolve a liberdade.
Entre as diferentes espécies de seres corporais. Deus escolheu a
espécie humana para a encarnação dos Espíritos que chegaram a um certo grau
de desenvolvimento, o que lhe dá superioridade moral e intelectual ante as
demais.
A alma é um espírito encarnado, e o corpo apenas o seu invólucro.
Há no homem três coisas: lº) O corpo ou ser material, semelhante ao dos
animais e animado pelo mesmo princípio vital; 2º) A alma ou ser imaterial,
espírito encarnado no corpo; 3º) O laço que une a alma ao corpo, princípio
intermediário entre a matéria e o Espírito.
O homem tem assim duas naturezas: pelo corpo participa da natureza dos
animais, dos quais possui os instintos; pela alma participa da natureza dos
Espíritos.
O laço ou perispírito que une corpo e Espírito é uma espécie de
invólucro semimaterial. A morte é a destruição do invólucro mais grosseiro.
O Espírito conserva o segundo, que constitui para ele um corpo etéreo,
invisível para nós no seu estado normal, mas que ele pode tornar
acidentalmente visível e mesmo tangível, como se verifica nos fenômenos de
aparição.
O Espírito não é, portanto, um ser abstrato, indefinido, que só o
pensamento pode conceber. É um ser real, definido, que em certos casos pode
ser apreendido pelos nossos sentidos da vista, da audição e do tato.
Os Espíritos pertencem a diferentes classes, não sendo iguais em poder
nem em inteligência, saber ou moralidade. Os da primeira ordem são os
Espíritos Superiores que se distinguem pela perfeição, pelos conhecimentos e
pela proximidade de Deus, pela pureza dos sentimentos e o amor do bem: são
os anjos ou Espíritos puros. As demais classes se distanciam mais e mais
desta perfeição. Os das classes inferiores são inclinados as nossas paixões:
o ódio, a inveja, o ciúme, o orgulho, etc. e se comprazem no mal. Nesse
número há os que não são nem muito bons, nem muito maus; antes,
perturbadores e intrigantes do que maus; a malícia e a inconseqüência
parecem ser as suas características: são os Espíritos estouvados ou
levianos.
Os Espíritos não pertencem eternamente a mesma ordem. Todos melhoram,
passando pelos diferentes graus da hierarquia espírita. Esse melhoramento se
verifica pela encarnação, que a uns é imposta como uma expiação, a outros
como missão. A vida material é uma prova a que devem submeter-se repetidas
vezes até atingirem a perfeição absoluta; é uma espécie de peneira ou
depurador de que eles saem mais ou menos purificados.
Deixando o corpo, a alma volta ao mundo dos Espíritos, de que havia
saído para reiniciar uma nova existência material, após um lapso de tempo
mais ou menos longo durante o qual permanecerá no estado de espírito
errante.
Devendo o Espírito passar por muitas encarnações, conclui-se que todos
nós tivemos muitas existências e que teremos outras, mais ou menos
aperfeiçoadas, seja na Terra ou em outros mundos.
A encarnação dos Espíritos ocorre sempre na espécie humana. Seria um
erro acreditar que a alma ou espírito pudesse encarnar num corpo de animal.
As diferentes existências corporais do Espírito são sempre progressivas
e jamais retrógradas, mas a rapidez do progresso depende dos esforços que
fazemos para chegar à perfeição.
As qualidades da alma são as do Espírito encarnado. Assim, o homem de
bem é a encarnação de um bom Espírito e o homem perverso a de um Espírito
impuro.
A alma tinha a sua individualidade antes da encarnação e a conserva
após a separação do corpo.
No seu regresso ao mundo dos Espíritos a alma reencontra todos os que
conheceu na Terra e todas as suas existências anteriores se delineiam na sua
memória, com a recordação de todo o bem e todo o mal que tenha feito.
O Espírito encarnado está sob a influência da matéria. O homem que
supera essa influência, pela elevação e purificação de sua alma, aproxima-se
dos bons Espíritos com os quais estará um dia. Aquele que se deixa dominar
pelas más paixões e põe todas as suas alegrias na satisfação dos apetites
grosseiros aproxima-se dos Espíritos impuros, dando preponderância a
natureza animal.
Os Espíritos encarnados habitam os diferentes globos do Universo.
Os Espíritos não-encarnados ou errantes não ocupam nenhuma região
determinada ou circunscrita; estão por toda parte, no espaço e ao nosso
lado, vendo-nos e acotovelando-nos sem cessar. É toda uma população
invisível que se agita ao nosso redor.
Os Espíritos exercem sobre o mundo moral e mesmo sobre o mundo físico
uma ação incessante. Agem sobre a matéria e sobre o pensamento e constituem
uma das forças da Natureza, causa eficiente de uma multidão de fenômenos até
agora inexplicados ou mal explicados, que não encontram solução racional.
As relações dos Espíritos com os homens são constantes. Os bons
Espíritos nos convidam ao bem, nos sustentam nas provas da vida e nos ajudam
a suportá-las com coragem e resignação; os maus nos convidam ao mal: é para
eles um prazer ver-nos sucumbir e cair no seu estado.
As comunicações ocultas verificam-se pela influência boa ou má que eles
exercem sobre nós sem o sabermos, cabendo ao nosso julgamento discernir as
más e boas inspirações. As comunicações ostensivas realizam-se por meio da
escrita, da palavra ou de outras manifestações materiais, na maioria das
vezes através dos médiuns que lhes servem de instrumento.
Os Espíritos se manifestam espontaneamente ou pela evocação. Podemos
evocar todos os Espíritos: os que animaram homens obscuros e os dos
personagens mais ilustres, qualquer que seja a época em que tenham vivido;
os de nossos parentes, de nossos amigos ou inimigos e deles obter, por
comunicações escritas ou verbais, conselhos, informações sobre a situação em
que se acham no espaço, seus pensamentos a nosso respeito, assim como as
revelações que lhes seja permitido fazer-nos.
Os Espíritos são atraídos na razão de sua simpatia pela natureza moral
do meio que os evoca. Os Espíritos superiores gostam das reuniões sérias em
que predominem o amor do bem e o desejo sincero de instrução e de melhoria.
Sua presença afasta os Espíritos inferiores, que encontram, ao contrário,
livre acesso e podem agir com inteira liberdade entre as pessoas frívolas ou
guiadas apenas pela curiosidade e por toda parte onde encontrem maus
instintos. Longe de obtermos bons conselhos e informações úteis desses
Espíritos, nada mais devemos esperar do que futilidades, mentiras,
brincadeiras de mau gosto ou mistificações, pois freqüentemente se servem de
nomes veneráveis para melhor nos induzirem ao erro.
Distinguir os bons e os maus Espíritos e extremamente fácil. A
linguagem dos Espíritos superiores é constantemente digna, nobre, cheia da
mais alta moralidade, livre de qualquer paixão inferior, seus conselhos
revelam a mais pura sabedoria e têm sempre por alvo o nosso progresso e o
bem da Humanidade. A dos Espíritos inferiores, ao contrário, é
inconseqüente, quase banal e mesmo grosseira; se dizem às vezes coisas boas
e verdadeiras, dizem com mais freqüência falsidades e absurdos, por malícia
ou por ignorância; zombam da credulidade e divertem-se a custa dos que os
interrogam, lisonjeando-lhes a vaidade e embalando-lhes os desejos com
falsas esperanças. Em resumo, as comunicações sérias, na perfeita acepção do
termo, não se verificam senão nos centros sérios, cujos membros estão unidos
por uma íntima comunhão de pensamentos dirigidos para o bem.
A moral dos Espíritos superiores se resume, como a do Cristo, nesta
maxima evangélica: "Fazer aos outros o que desejamos que os outros nos
façam", ou seja, fazer o bem e não o mal. O homem encontra nesse princípio a
regra universal de conduta, mesmo para as menores ações.
Eles nos ensinam que o egoísmo, o orgulho, a sensualidade são paixões
que nos aproximam da natureza animal, prendendo-nos a matéria: que o homem
que, desde este mundo, se liberta da matéria pelo desprezo das futilidades
mundanas e o cultivo do amor ao próximo, aproxima-se da natureza espiritual;
que cada um de nós deve tornar-se útil segundo as faculdades e os meios que
Deus nos colocou nas mãos para nos provar; que o Forte e o Poderoso devem
apoio e proteção ao Fraco, porque aquele que abusa da sua força e do seu
poder para oprimir o seu semelhante viola a lei de Deus. Eles ensinam,
enfim, que no mundo dos Espíritos nada pode estar escondido: o hipócrita
será desmascarado e todas as suas torpezas reveladas; a presença inevitável
e incessante daqueles que prejudicamos é um dos castigos que nos estão
reservados; ao estado de inferioridade e de superioridade dos Espíritos
correspondem penas e alegrias que nos são desconhecidas na Terra.
Mas eles nos ensinam também que não há faltas irremissíveis, que não
possam ser apagadas pela expiação. O homem encontra o meio necessário nas
diferentes existências, que lhe permitem avançar, segundo o seu desejo e os
seus esforços, na via do progresso, em direção a perfeição que é o seu
objetivo final."
Este é o resumo da doutrina espírita, como ela aparece no ensinamento
dos Espíritos superiores. Vejamos agora as objeções que lhe fazem.
VII — A CIÊNCIA E O ESPIRITISMO
A oposição das corporações científicas é, para muita gente, senão
uma prova, pelo menos uma forte presunção contrária. Não somos dos que
levantam a voz contra os sábios, pois não queremos dar motivo a nos chamarem
de estouvados; temo-los, pelo contrário, em grande estima e ficaríamos muito
honrados se fossemos contados entre eles. Entretanto, sua opinião não
poderia representar todas as circunstâncias, um julgamento irrevogável.
Quando a Ciência sai da observação material dos fatos e trata de
apreciá-los e explicá-los, abre-se para os cientistas o campo das
conjecturas: cada um constrói o seu sistemazinho, que deseja fazer
prevalecer e sustenta encarniçadamente. Não vemos diariamente as opiniões
mais contraditórias serem preconizadas e rejeitadas, repelidas como erros
absurdos e depois proclamadas como verdades incontestáveis? Os fatos, eis o
verdadeiro critério dos nossos julgamentos, o argumento sem réplica. Na
ausência dos fatos, a dúvida é a opinião do homem prudente.
No tocante as coisas evidentes, a opinião dos sábios e justamente digna
de fé, porque eles as conhecem mais e melhor que o vulgo. Mas no tocante a
princípios novos, a coisas desconhecidas, a sua maneira de ver não é mais do
que hipotética, porque eles não são mais livres de preconceitos que os
outros. Direi mesmo que o sábio terá, talvez, mais preconceitos que qualquer
outro, pois uma propensão natural o leva a tudo subordinar ao ponto de vista
de sua especialidade: o matemático não vê nenhuma espécie de prova, senão
através de uma demonstração algébrica, o químico relaciona tudo com a ação
dos elementos, e assim por diante. Todo homem que se dedica a uma
especialidade escraviza a ela as suas idéias. Afastai-o do assunto e ele
quase sempre se confundirá, porque deseja tudo submeter ao seu modo de ver;
é esta uma conseqüência da fragilidade humana. Consultarei, portanto, de bom
grado e com absoluta confiança, um químico sobre uma questão de análise; um
físico sobre a força elétrica; um mecânico sobre a força motriz; mas eles me
permitirão, sem que isto afete a estima que lhes devo por sua
especialização, que não tenha em melhor conta a sua opinião negativa sobre o
Espiritismo do que a de um arquiteto sobre questões de música.
As ciências comuns se apóiam nas propriedades da matéria, que pode ser
experimentada e manipulada à vontade; os fenômenos espíritas se apoiam na
ação de inteligências que têm vontade própria e nos provam a todo instante
não estarem submetidas ao nosso capricho. As observações, portanto, não
podem ser feitas da mesma maneira, num e noutro caso. No Espiritismo elas
requerem condições especiais e outra maneira de encará-las: querer
sujeitá-las aos processos ordinários de investigação, seria estabelecer
analogias que não existem. A Ciência propriamente dita, como Ciência, é
incompetente para se pronunciar sobre a questão do Espiritismo: não lhe cabe
ocupar-se do assunto e seu pronunciamento a respeito, qualquer que seja,
favorável ou não, nenhum peso teria.
O Espiritismo é o resultado de uma convicção pessoal que os sábios
podem ter como indivíduos, independente de sua condição de sábios. Querer,
porém, deferir a questão à Ciência seria o mesmo que entregar a uma
assembléia de físicos ou astrônomos a solução do problema da existência da
alma. Com efeito, o Espiritismo repousa inteiramente sobre a existência da
alma e o seu estado após a morte. Ora, é supinamente ilógico pensar que um
homem deve ser grande psicólogo pelo simples fato de ser grande matemático
ou grande anatomista. O anatomista, dissecando o corpo humano, procura a
alma e porque não a encontra com o seu bisturi, como se encontrasse um
nervo, ou porque não a vê evolar-se como um gás, conclui que ela não existe.
Isto, em razão de colocar-se num ponto de vista exclusivamente material.
Segue-se daí que ele esteja com a razão, contra a opinião universal? Não.
Vê-se, portanto, que o Espiritismo não é da alçada da Ciência.
Quando as crenças espíritas estiverem vulgarizadas, quando forem
aceitas pelas massas, — o que, a julgar pela rapidez com que se propagam,
não estaria muito longe, — dar-se-á com elas o que se tem dado com todas as
idéias novas que encontraram oposição: os sábios se renderão a evidência.
Eles as aceitarão individualmente, pela força das circunstâncias. Até que
isso aconteça, seria inoportuno desviá-los de seus trabalhos especiais para
constrangê-los a ocupar-se de coisa estranha, que não está nas suas
atribuições nem nos seus programas. Enquanto isso, os que, sem estudo prévio
e aprofundado da questão, pronunciam-se pela negativa e zombam dos que não
concordam com a sua opinião, esquecem que o mesmo aconteceu com a maioria
das grandes descobertas que honram a Humanidade. Arriscam-se a ver os seus
nomes aumentando a lista dos ilustres negadores das idéias novas, inscritos
ao lado dos membros da douta assembléia que, em 1752, recebeu com estrondosa
gargalhada o relatório de Franklin sobre os pára-raios, julgando-o indigno
de figurar entre as comunicações da pauta, e daquela outra que fez a França
perder as vantagens da navegação a vapor ao declarar o sistema de Fulton um
sonho impraticável. Não obstante, eram questões de alçada da Ciência. Se
essas assembléias, que contavam com os maiores sábios do mundo, só tiveram
zombaria e sarcasmo para as idéias que ainda não compreendiam e que alguns
anos mais tarde deviam revolucionar a Ciência, os costumes e a indústria,
como esperar que uma questão estranha aos seus trabalhos possa ser melhor
aceita?
Esses erros lamentáveis não tirariam aos sábios, entretanto, os títulos
com que, noutros assuntos, conquistam o nosso respeito. Mas é necessário um
diploma oficial para se ter bom senso? E fora das cátedras acadêmicas não
haverá mais do que tolos e imbecis? Basta olhar para os adeptos da doutrina
espírita, para se ver se entre eles só existem ignorantes e se o número
imenso de homens de mérito que a abraçaram permite que a releguemos ao rol
das simples crendices. O caráter e o saber desses homens autorizam-nos a
dizer: pois se eles o afirmam, deve pelo menos haver alguma coisa.
Repetimos ainda que, se os fatos de que nos ocupamos estivessem
reduzidos ao movimento mecânico dos corpos, a pesquisa da causa física do
fenômeno seria do domínio da Ciência; mas desde que se trata de uma
manifestação fora do domínio das leis humanas, escapa a competência da
Ciência material porque não pode ser explicada por números, nem por forças
mecânicas. Quando surge um fato novo, que não se enquadra em nenhuma Ciência
conhecida, o sábio, para o estudar, deve fazer abstração de sua ciência e
dizer a si mesmo que se trata de um estudo novo, que não pode ser feito com
idéias preconcebidas.
O homem que considere a sua razão infalível está bem próximo do erro;
mesmo aqueles que têm as mais falsas idéias apoiam-se na própria razão e é
por isso que rejeitam tudo quanto lhes parece impossível. Os que ontem
repeliram as admiráveis descobertas de que a Humanidade hoje se orgulha,
apelaram a esse juiz para as rejeitar. Aquilo que chamamos razão é quase
sempre o orgulho mascarado e quem quer que se julgue infalível coloca-se
como igual a Deus. Dirigimo-nos, portanto, aos que são bastante ponderados
para duvidar do que não viram, e julgando o futuro pelo passado, não
acreditam que o homem tenha chegado ao apogeu nem que a Natureza lhes tenha
virado a última página do seu livro.
VIII — PERSEVERANÇA E SERIEDADE
Acrescentemos que o estudo de uma doutrina como a espírita, que nos
lança de súbito numa ordem de coisas tão nova e grande, não pode ser feito
proveitosamente senão por homens sérios, perseverantes, isentos de
prevenções e animados de uma firme e sincera vontade de chegar a um
resultado. Não podemos classificar assim aos que julgam a priori,
levianamente, sem terem visto tudo: os que não imprimem aos seus estudos nem
a continuidade, nem a regularidade e o recolhimento necessários; e menos
ainda aos que para não diminuírem a sua reputação de homens de espírito,
esforçam-se por encontrar um lado burlesco nas coisas mais verdadeiras ou
assim consideradas por pessoas cujo saber, caráter e convicções merecem a
consideração dos que se prezam de urbanidade. Que se abstenham, portanto, os
que não julgam os fatos dignos de sua atenção; ninguém pretende
violentar-lhes a crença, — mas que eles também saibam respeitar as dos
outros.
O que caracteriza um estudo sério é a continuidade. Devemos admirar-nos
de não obter respostas sensatas a perguntas naturalmente sérias, quando as
fazemos ao acaso e de maneira brusca, em meio a perguntas ridículas? Uma
questão complexa requer, para ser esclarecida, perguntas preliminares ou
complementares. Quem quer adquirir uma Ciência deve estudá-la de maneira
metódica, começando pelo começo e seguindo o seu encadeamento de idéias.
Aquele que propõe a um sábio, ao acaso, uma questão sobre Ciência de que
ignora os rudimentos, obterá algum proveito? O próprio sábio poderá, com a
maior boa vontade, dar-lhe uma resposta satisfatória? Essa resposta isolada
será forçosamente incompleta e, por isso mesmo, quase sempre ininteligível,
ou poderá parecer absurda e contraditória. Acontece o mesmo em nossas
relações com os Espíritos. Se desejamos aprender com eles, temos de
seguir-lhes o curso; mas, como entre nós, é necessário escolher os
professores e trabalhar com assiduidade.
Dissemos que os Espíritos superiores só comparecem as reuniões sérias,
aquelas sobretudo em que reina perfeita comunhão de pensamentos e de bons
sentimentos. A leviandade e as perguntas ociosas os afastam, como entre os
homens afastam as criaturas ponderadas; o campo fica então livre a turba de
Espíritos mentirosos e frívolos, sempre a espreita de oportunidades para
zombarem de nós e se divertirem a nossa custa. Em que se transformaria uma
pergunta séria, numa reunião dessas? Teria resposta? De quem? Seria o mesmo
que lançarmos, numa reunião de gaiatos, estas perguntas: O que é a alma? O
que é a morte? e outras coisas assim divertidas.
Se quereis respostas sérias, sede sérios vós mesmos, em toda a extensão
do termo e mantende-vos nas condições necessárias: somente então obtereis
grandes coisas. Sede, além disso, laboriosos e perseverantes em vossos
estudos, para que os Espíritos superiores não vos abandonem como faz um
professor com os alunos negligentes.
IX — MONOPOLIZADORES DO BOM SENSO
O movimento de objetos é um fato comprovado; resta saber se nesse
movimento há ou não manifestação inteligente e, em caso afirmativo, qual a
sua origem.
Não falamos do movimento inteligente de certos objetos, nem das
comunicações verbais ou das que são escritas diretamente pelos médiuns. Esse
gênero de manifestações, tão evidente para aqueles que viram e aprofundaram
o assunto, não é, a primeira vista, bastante independente da vontade para
convencer um observador novato. Não trataremos, portanto, senão da escrita
obtida com a ajuda de um objeto munido de lápis, como a cesta, a prancheta,
etc. A maneira por que os dedos do médium são postos sobre o objeto desafia,
como já dissemos, a mais consumada destreza em particular de qualquer forma
da formação das letras. Mas admitamos ainda que, por uma habilidade
maravilhosa, possa ele enganar os olhos mais atentos. Como explicar a
natureza das respostas, quando elas superam as idéias e os conhecimentos do
médium? E note-se que não se trata de respostas monossilábicas, mas quase
sempre de muitas páginas escritas com admirável rapidez, espontaneamente ou
sobre assunto determinado. Pela mão do médium menos versado em literatura
surgem poesias de uma sublimidade e de uma pureza impecáveis, que não
desmereceriam os melhores poetas humanos. E o que aumenta ainda a estranheza
desses fatos é que eles se produzem por toda parte e que os médiuns se
multiplicam ao infinito. Esses fatos são reais ou não? A essa pergunta só
podemos responder: Vede e observai; não vos faltará, oportunidades; mas,
sobretudo, observai com constância, por longo tempo e obedecendo as
condições necessárias.
A evidência, o que respondem os antagonistas? Sois vítimas do
charlatanismo, dizem eles, ou joguetes de uma ilusão. Responderemos de
início que é preciso afastar a palavra charlatanismo de onde não existem
lucros, pois os charlatões não agem gratuitamente. Seria, quando muito, uma
mistificação. Mas por que estranha coincidência os mistificadores se teriam
entendido, de um extremo a outro do mundo, para agir da mesma maneira,
produzir os mesmos efeitos e dar aos mesmos assuntos e nas diversas línguas
respostas idênticas, senão quanto as palavras, pelo menos quanto ao sentido?
Como é que pessoas sérias, honradas e instruídas se prestariam a semelhantes
manobras, e com que objetivo? Como teriam encontrado entre as crianças a
paciência e a habilidade necessárias? Porque, se os médiuns não forem
instrumentos passivos, é claro que necessitam de habilidade e de
conhecimentos incompatíveis com certas idades e posições sociais.
Então acrescentam que, se não há embuste, os dois lados podem estar
embuídos por uma ilusão. Em boa lógica, a qualidade das testemunhas tem um
certo peso; ora, é o caso de se perguntar se a doutrina espírita, que conta
hoje milhões de adeptos, só os recruta entre os ignorantes. Os fenômenos em
que ela se apóia são tão extraordinários que concebemos a dúvida, mas não se
pode admitir a pretensão de alguns incrédulos ao monopólio do bom senso, ou
que, sem respeito as conveniências e ao valor moral dos adversários, tachem
de ineptos a todos os que não concordam com as suas opiniões. Aos olhos de
toda pessoa judiciosa, a opinião dos homens esclarecidos que viram
determinado fato por longo tempo e o estudaram e meditaram será sempre uma
prova ou pelo menos uma presunção favorável, por ter podido prender a
atenção de homens sérios que não tinham nenhum interesse em propagar erros,
nem tempo a perder com futilidades.
X — A LINGUAGEM DOS ESPÍRITOS E O PODER DIABÓLICO
Entre as objeções, algumas são mais consideráveis pelo menos na
aparência, porque baseiam-se na observação de pessoas sérias.
Uma dessas observações refere-se a linguagem de certos Espíritos, que
não parece digna da elevação atribuída aos seres sobrenaturais. Se quisermos
reportar-nos ao resumo da doutrina, atrás apresentado, veremos que os
próprios Espíritos ensinam que não são iguais em conhecimentos, nem em
qualidades morais, e que não se deve tomar ao pé da letra tudo o que dizem.
Cabe as pessoas sensatas separar o bom do mau. Seguramente os que deduzem,
desse fato, que tratamos com seres malfazejos, cuja única intenção é a de
nos mistificarem, não conhecem as comunicações dadas nas reuniões em que se
manifestam Espíritos superiores, pois de outra maneira não pensariam assim,
é pena que o acaso tenha servido tão mal a essas pessoas, não lhes mostrando
senão o lado mau do mundo espírita, pois não queremos supor que uma
tendência simpática atraia para elas os maus Espíritos em lugar dos bons, os
Espíritos mentirosos ou esses cuja linguagem é de revoltante grosseria.
Poderíamos concluir, quando muito que a solidez dos seus princípios não seja
bastante forte para preservá-las do mal, e que, encontrando um certo prazer
em lhes satisfazer a curiosidade, os maus Espíritos, por seu lado,
aproveitam-se disso para se introduzirem entre elas, enquanto os bons se
afastam.
Julgar a questão dos Espíritos por esses fatos seria tão pouco lógico
como julgar o caráter de um povo pelo que se diz e se faz numa reunião de
alguns estabanados, ou gente de má fama, a que não compareçem os sábios nem
as pessoas sensatas. Os que assim julgam estão na situação de um estrangeiro
que, chegando a uma grande capital pelo seu pior arrabalde, julgasse toda a
população da cidade pelos costumes e a linguagem desse bairro mesquinho. No
mundo dos Espíritos há também desníveis sociais; se aquelas pessoas
quisessem estudar as relações entre os Espíritos elevados ficariam
convencidas de que a cidade celeste não contém apenas a escória popular.
Mas, perguntam elas, os Espíritos elevados chegam até nós? Responderemos:
não permanecais no subúrbio; vede, observai e julgai; os fatos aí estão para
todos. A menos que a essas pessoas se apliquem estas palavras de Jesus: "Têm
olhos e não vêem; têm ouvidos e não ouvem".
Uma variante desta opinião consiste em não ver nas comunicações
espíritas e em todos os fatos materiais a que elas dão lugar senão a
intervenção de um poder diabólico, novo Proteu que revestiria todas as
formas para melhor nos iludir. Não a consideramos suscetível de um exame
sério e por isso não nos deteremos no caso: ela já está refutada pelo que
dissemos atrás. Acrescentaremos apenas que, se assim fosse, teríamos de
convir que o diabo é às vezes bem inteligente, bastante criterioso, e
sobretudo muito moral, ou então que existem bons diabos.
Como acreditar, de fato, que Deus não permita senão ao Espírito do mal
manifestar-se para nos perder, sem nos dar por contrapeso os conselhos dos
bons Espíritos? Se Ele não o pode, isto é uma impotência; se Ele o pode e
não faz, isso é incompatível com a sua bondade; e uma e outra suposição
seriam blasfêmías. Acentuemos que admitir a comunicação dos maus Espíritos é
reconhecer o princípio das manitestações. Ora, desde que estas existem, será
com a permissão de Deus. Como acreditar, sem cometer impiedade, que Ele só
permita o mal, com exclusão do bem? Uma doutrina assim é contraria ao bom
senso e as mais simples noções da religião.
XI — GRANDES E PEQUENOS
É estranho, acrescentam, que só falem de Espíritos de personalidades
conhecidas. E perguntam por que motivo só estes se manifestam. É um erro
proveniente, como muitos outros, de observação superficial. Entre os
Espíritos que se manifestam espontaneamente há maior número de desconhecidos
do que de ilustres. Eles se designam por qualquer nome, muitas vezes por
nomes alegóricos ou característicos. Quanto aos evocados, desde que não se
trate de parentes ou amigos, é muito natural que sejam de preferência os
conhecidos. Os nomes de personagens ilustres chamam mais a atenção por serem
mais destacados.
Acham ainda estranho que os Espíritos de homens eminentes atendam
familiarmente ao nosso apelo, ocupando-se às vezes de coisas
insignificantes, em comparação com as de que se ocupavam durante a vida.
Isso nada tem de estranho para os que sabem que o poder ou a consideração de
que esses homens gozavam no mundo não lhes da nenhuma supremacia no mundo
espírita. Os Espíritos confirmam com isto as palavras do Evangelho: Os
grandes serão humilhados e os pequenos serão exaltados, que devem ser
entendidas em relação a categoria que cada um de nós ocupará entre eles. É
assim que aquele que foi o primeiro na Terra podera encontrar-se entre os
últimos; aquele que nos faz curvar a cabeça nesta vida pode voltar como o
mais humilde artesão, porque ao deixar a vida perdeu toda a sua grandeza, e
o mais poderoso monarca talvez lá se encontre abaixo do último dos seus
soldados.
XI — DA IDENTIFICAÇÃO DOS ESPÍRITOS
Um fato demonstrado pela observação e confirmado pelos próprios
Espíritos é que os Espíritos inferiores apresentam-se muitas vezes com nomes
conhecidos e respeitados. Quem pode, portanto, assegurar que aqueles que
dizem ter sido Sócrates, Júlio César, Carlos Magno, Fénelon, Napoleão,
Washington, etc. tenham realmente animado esses personagens? Essa dúvida
existe entre alguns adeptos bastante fervorosos da Doutrina Espírita.
Admitem a intervenção e a manifestação dos Espíritos, mas perguntam que
controle podemos ter da sua identidade. Esse controle é de fato bastante
difícil de realizar, mas se não pode ser feito de maneira tão autêntica como
por uma certidão de registro civil, pode sê-lo por presunção, através de
certos indícios.
Quando se manifesta o Espírito de alguém que pessoalmente conhecemos,
de um parente ou de um amigo, sobretudo se morreu há pouco tempo, acontece
geralmente que sua linguagem corresponde com perfeição às características
que conhecíamos. Isto já é um indício de identidade. Mas a dúvida já não
será certamente possível quando esse Espírito fala de coisas particulares,
lembra casos familiares que somente o interlocutor conhece. Um filho não se
enganará, por certo, com a linguagem de seu pai e de sua mãe, nem os pais
com a linguagem do filho. Passam-se algumas vezes, nessas evocações íntimas
coisas impressionantes, capazes de convencer o mais incrédulo. O cético mais
endurecido é muitas vezes aterrado com as revelações inesperadas que lhe são
feitas.
Outra circunstância bastante característica favorece a identidade.
Dissemos que a caligrafia do médium muda geralmente com o Espírito evocado,
reproduzindo-se exatamente a mesma, de cada vez que o mesmo Espírito se
manifesta. Constatou-se inúmeras vezes que, para pessoas mortas
recentemente, a escrita revela semelhança flagrante com a que tinha em vida:
têm-se visto assinaturas perfeitamente idênticas. Estamos longe, entretanto,
de citar esse fato como uma regra, sobretudo como constante; mencionamo-lo
como coisa digma de registro.
Os Espíritos que atingiram certo grau de depuração são os únicos
libertos de toda influência corporal; mas quando não estão completamente
desmaterializados (esta é a expressão de que se servem) conservam a maior
parte das idéias, dos pendores e até mesmo das manias que tinham na Terra e
este é ainda um meio pelo qual podemos reconhecê-los. Mas chegamos ao
reconhecimento, sobretudo, através de uma multidão de detalhes que somente
uma observação atenta e contínua pode revelar. Vêem-se escritores discutirem
suas próprias obras ou suas doutrinas, aprovando-lhes ou condenando-lhes
certas partes; outros Espíritos lembrarem circunstâncias ignoradas ou pouco
conhecidas de suas vidas ou suas mortes; todas as coisas, enfim, que são
pelo menos provas morais de identidade, as únicas que se podem invocar
tratando-se de coisas abstratas.
Se, pois, a identidade do Espírito evocado pode ser, até certo ponto,
estabelecida em alguns casos, não há razão para que ela não o possa ser em
outros. E se, para as pessoas de morte mais remota não temos os mesmos meios
de controle, dispomos sempre daqueles que se referem a linguagem e ao
caráter. Porque, seguramente, o Espírito de um homem de bem nunca falará
como o de um perverso ou imoral. Quanto aos Espíritos que se servem de nomes
respeitáveis, logo se traem por sua linguagem e suas máximas. Aquele que se
dissesse Fénelon, por exemplo, e ainda que acidentalmente ferisse o bom
senso e a moral, mostraria nisso mesmo o seu embuste. Se, ao contrário, os
pensamentos que exprime são sempre puros, sem contradições, constantemente a
altura do caráter de Fénelon, não haverá motivos para duvidar-se de sua
identidade. Do contrário, teríamos de supor que um Espírito que só prega o
bem pode conscientemente empregar a mentira, sem nenhuma utilidade. A
experiência nos ensina que os Espíritos do mesmo grau, do mesmo caráter e
animados dos mesmos sentimentos, reúnem-se em grupos e em famílias. Ora, o
número dos Espíritos é incalculável e estamos longe de conhecê-los a todos;
a maioria deles não tem nomes para nós. Um Espírito da categoria de Fénelon
pode, portanto, vir em seu lugar, às vezes mesmo com o seu nome, porque é
idêntico a ele e pode substituí-lo e porque necessitamos de um nome para
fixar as nossas idéias. Mas que importa, na verdade, que um Espírito seja
realmente o de Fénelon? Desde que só diga boas coisas e não fale senão como
o faria o próprio Fénelon, é um bom Espírito; o nome sob o qual se apresenta
é indiferente e nada mais é, freqüentemente, do que um meio para a fixação
de nossas idéias. Não se verifica o mesmo nas evocações íntimas, pois
nestas, como já dissemos, a identidade pode ser estabelecida por meio de
provas que são, de alguma forma, evidentes.
Por fim, é certo que a substituição dos Espíritos pode ocasionar uma
porção de enganos, resultar em erros e muitas vezes em mistificações. Esta é
uma das dificuldades do Espiritismo prático. Mas jamais dissemos que esta
Ciência seja fácil nem que se possa aprendê-la brincando, como também não se
dá com qualquer outra Ciência. Nunca será demais repetir que ela exige
estudo constante e quase sempre bastante prolongado. Não se podendo provocar
os fatos, e necessário esperar que eles se apresentem por si mesmos, e
freqüentemente eles nos são trazidos pelas circunstâncias em que menos
pensávamos. Para o observador atento e paciente os fatos se tornam
abundantes, porque ele descobre milhares de nuanças características que lhe
parecem como raios de luz. O mesmo se dá com referência as ciências comuns;
enquanto o homem superficial só vê numa flor a sua forma elegante, o sábio
descobre verdadeiras maravilhas para o seu pensamento.
XIII — AS DIVERGÊNCIAS DE LINGUAGEM
Estas observações levam-nos a dizer algumas palavras sobre outra
dificuldade, referente a divergência de linguagem dos Espíritos.
Sendo os Espíritos muito diferentes uns dos outros, quanto ao
conhecimento e a moralidade, é evidente que a mesma questão pode ser
resolvida por eles de maneira contraditória, de acordo com suas respectivas
categorias, como o fariam, entre os homens, um sábio, um ignorante ou um
brincalhão de mau gosto. O essencial é saber a quem nos dirigimos.
Mas, acrescentam, como se explica que os Espíritos reconhecidos como
superiores não estejam sempre de acordo? Diremos, inicialmente, que além da
causa já assinalada há outras que podem exercer certa influência sobre a
natureza das respostas, independente da qualidade dos Espíritos. Este é um
ponto capital, cuja explicação obteremos pelo estudo. Eis porque dizemos que
estes estudos requerem atenção contínua, observação profunda e, sobretudo,
como aliás todas as ciências humanas, a continuidade e a perseverança.
Necessitamos de anos para fazer um médico medíocre e três quartas partes da
vida para fazer um sábio, mas quer-se obter em algumas horas a Ciência do
infinito! Que ninguém, portanto, se iluda: o estudo do Espiritismo é imenso;
liga-se a todas as questões metafísicas e de ordem social; é todo um mundo
que se abre diante de nós. Será de espantar que exija tempo, e muito tempo,
para a sua realização?
A contradição, aliás, não é sempre tão real quanto pode parecer. Não
vemos todos os dias homens que professam a mesma Ciência divergirem nas suas
definições, seja porque empregam termos diferentes, seja por diferenças de
ponto de vista, embora a idéia fundamental seja sempre a mesma? Que se
conte, se possível, o número de definições dadas sobre a gramática!
Acrescentemos que a forma da resposta depende quase sempre da forma da
pergunta. Seria pueril, portanto, ver-se uma contradição onde geralmente não
existe mais do que uma diferença de palavras. Os Espíritos superiores não se
preocupam absolutamente com a forma; para eles, a essência do pensamento é
tudo.
Tomemos, por exemplo, a definição de alma. Não tendo esta palavra uma
definição única, os Espíritos podem, como nós, divergir na sua aplicação: um
poderá dizer que ela é o princípio da vida; outro, chamá-la de centelha
anímica; um terceiro dizer que ela é interna; um quarto, que é externa,
etc., e todos terão razão segundo os seus pontos de vista. Poderíamos mesmo
acreditar que alguns deles professem teorias materialistas e no entanto não
ser assim. O mesmo acontece com relação a Deus: será ele o princípio de
todas as coisas, o Criador do Universo, a inteligência suprema, o infinito,
o grande Espírito, etc., etc., mas em definitivo será sempre Deus. Citemos
ainda a classificação dos Espíritos. Formam eles uma série ininterrupta, do
mais baixo ao mais alto grau, e sua classificação é portanto arbitrária: um
poderá estabelecê-la em três classes, outro em cinco, dez ou vinte, à
vontade, sem por isso estar em erro.
Todas as ciências humanas oferecem o mesmo exemplo: cada sábio tem o
seu sistema; os sistemas variam mas a Ciência é sempre a mesma. Quer se
aprenda Botânica pelo sistema de Lineu, de Jussieu ou de Tournefort não se
saberá menos Botânica. Deixemos, portanto, de dar as coisas puramente
convencionais mais importância do que merecem, para nos atermos ao que é
verdadeiramente sério, e não raro a reflexão nos fará descobrir, naquilo que
parece mais contraditório, uma similitude que nos escapara ao primeiro
exame.
XIV — AS QUESTÕES DE ORTOGRAFIA
Passaríamos ligeiramente sobre a objeção de alguns céticos quanto as
falhas ortográficas de alguns Espíritos, se ela não nos desse oportunidade a
uma observação essencial. Essa ortografia, deve-se dizer, nem sempre é
impecável; mas somente a falta de argumentos pode torná-la objeto de uma
crítica séria, com a alegação de que se os Espíritos tudo sabem, devem saber
ortografia. Poderíamos opor-lhes numerosos pecados desse gênero cometidos
por sábios da Terra, sem que lhes tenha diminuído o mérito. Mas há neste
fato uma questão mais grave.
Para os Espíritos, principalmente para os Espíritos superiores, a idéia
é tudo, a forma não é nada. Livres da matéria, sua linguagem é rápida como o
pensamento, pois é o próprio pensamento que entre eles se comunica sem
intermediários. Devem, portanto, sentir-se mal quando são obrigados, a se
comunicarem conosco, a se servirem das formas demoradas e embaraçosas da
linguagem humana e sobretudo de sua insuficiência e imperfeição, para
exprimirem todas as suas idéias. É o que eles mesmos dizem, sendo curioso
observar os meios que empregam para atenuar esse inconveniente. O mesmo
aconteceria conosco se tivéssemos de nos exprimir numa língua de palavras e
fraseados mais longos, e mais pobre de expressões do que a nossa. É a
dificuldade que experimenta o homem de gênio, impaciente com a lentidão da
pena, sempre atrasada em relação ao pensamento.
Compreende-se, pois, que os Espíritos liguem pouca importância as
puerilidades ortográficas, principalmente quando tratam de um ensinamento
profundo e sério. Não é, aliás, maravilhoso que se exprimam indiferentemente
em todas as línguas, a todas compreendendo? Disso não se deve concluir,
entretanto, que a correção convencional da linguagem lhes seja desconhecida,
pois a observam quando necessário. Por exemplo, a poesia por eles ditada
quase sempre desafia a crítica do mais exigente purista, e isto, apesar
da ignorância do médium.
XV — A LOUCURA E SUAS CAUSAS
Há ainda criaturas que vêem perigo por toda parte, em tudo aquilo
que não conhecem, não faltando as que tiram conclusões desfavoráveis ao
Espiritismo do fato de terem algumas pessoas, que se entregaram a estes
estudos, perdido a razão. Como podem os homens sensatos aceitar essa
objeção? Não acontece o mesmo com todas as preocupações intelectuais, quando
o cérebro é fraco? Conhece-se o número de loucos e maníacos produzidos pelos
estudos matemáticos, médicos, musicais, filosóficos e outros? E devemos, por
isso, banir tais estudos? O que provam esses fatos? Nos trabalhos físicos,
estropiam-se os braços e as pernas que são os instrumentos da ação material;
nos trabalhos intelectuais, estropia-se o cérebro que é o instrumento do
pensamento. Mas se o instrumento se quebrou, o mesmo não acontece com o
Espírito: ele continua intacto e quando se libertar da matéria não
desfrutará menos da plenitude de suas faculdades. Foi no seu setor, como
homem, um mártir do trabalho.
Todas as grandes preocupações intelectuais podem ocasionar a loucura:
as Ciências, as Artes e a Religião fornecem os seus contingentes. A loucura
tem por causa primária uma predisposição orgânica do cérebro, que o torna
mais ou menos acessível a determinadas impressões. Havendo essa
predisposição à loucura, ela se manifestará com o caráter da preocupação
principal do indivíduo, que se tornará uma idéia fixa. Essa idéia poderá ser
a dos Espíritos, naquele que se ocupa do assunto, ou a de Deus, dos anjos,
do diabo, da fortuna, do poder, de uma arte, de uma ciência, da maternidade
ou de um sistema político ou social. É provável que o louco religioso se
apresente como louco espírita, se o Espiritismo foi a sua preocupação
dominante, como o louco espírita se apresentaria de outra forma, segundo as
circunstâncias.
Digo, portanto, que o Espiritismo não tem nenhum privilégio neste
assunto. E vou mais longe: digo que o Espiritismo bem compreendido é um
preservativo da loucura.
Entre as causas mais freqüentes de superexcitação cerebral devemos
contar as decepções, as desgraças, as afeições contrariadas que são também
as causas mais freqüentes do suicídio. Ora, o verdadeiro espírita olha as
coisas deste mundo de um ponto de vista tão elevado; elas lhe parecem tão
pequenas, tão mesquinhas, em face do futuro que o aguarda; a vida é para ele
tão curta, tão fugitiva, que as tribulações não lhe parecem mais do que
incidentes desagradáveis de uma viagem. Aquilo que para qualquer outro
produziria violenta emoção, pouco o afeta, pois sabe que as amarguras da
vida são provas para o seu adiantamento, desde que as sofra sem murmurar,
porque será recompensado de acordo com a coragem demonstrada ao suportá-las.
Suas convicções lhe dão uma resignação que o preserva do desespero e
conseqüentemente de uma causa constante de loucura e suicídio. Além disso,
conhece, pelo exemplo das comunicações dos Espíritos, a sorte daqueles que
abreviam voluntariamente os seus dias, e esse quadro é suficiente para o
fazer meditar. Assim, o número dos que tem sido detidos à beira desse
funesto despenhadeiro é considerável. Este é um dos resultados do
Espiritismo. Que os incrédulos se riam quanto quiserem: eu lhes desejo as
consolações que ele proporciona a todos os que se dão ao trabalho de lhe
sondar as misteriosas profundidades.
Entre as causas da loucura devemos ainda incluir o pavor, sendo que o
medo do Diabo já desequilibrou alguns cérebros. Sabe-se o número de vítimas
que ele tem feito ao abalar imaginações fracas com essa ameaça, que cada vez
se procura tornar mais terrível através de hediondos pormenores? O diabo,
dizem, só assusta as crianças, é um meio de torná-las mais ajuizadas. Sim,
como o bicho-papão e o lobisomem. Mas quando elas deixam de temê-lo ficam
piores do que antes. E para conseguir tão belo resultado não se levam em
conta as epilepsias causadas pelo abalo de cérebros delicados. A religião
seria bem fraca se, por não usar o medo, seu poder ficasse comprometido.
Felizmente assim não acontece. Ela dispõe de outros meios para agir sobre as
almas e o Espiritismo lhe fornece os mais eficazes e mais sérios, desde que
os saiba aproveitar. Mostra as coisas na sua realidade e com isso neutraliza
os efeitos funestos de um temor exagerado.
XVI — A TEORIA MAGNÉTICA E A DO MEIO AMBIENTE
Resta-nos examinar duas objeções: as únicas que realmente merecem
esse nome porque se apoiam em teorias racionais. Uma e outra admitem a
realidade de todos os fenômenos materiais e morais, mas excluem a
intervenção dos Espíritos.
Para a primeira dessas teorias, todas as manifestações atribuídas aos
Espíritos seriam apenas efeitos magnéticos. Os médiuns ficariam num estado
que se poderia chamar de sonambulismo acordado, fenômeno conhecido de todos
os que estudaram o magnetismo. Nesse estado as faculdades intelectuais
adquirem um desenvolvimento anormal, os círculos da percepção intuitiva se
ampliam além dos limites de nossa percepção ordinária. Dessa maneira, o
médium tiraria de si mesmo e por efeito de sua lucidez tudo quanto diz e
todas as noções que transmite, mesmo sobre as coisas que lhe sejam mais
estranhas no estado normal.
Não seremos nós quem contestará o poder do sonambulismo, cujos
prodígios presenciamos, estudando-lhe todas as facetas, durante mais de
trinta e cinco anos. Concordamos que, de fato, muitas manifestações
espíritas podem ser explicadas por esse meio. Mas uma observação prolongada
e atenta mostra uma multidão de fatos em que a participação do médium, a não
ser como instrumento passivo, é materialmente impossível. Aos que participam
desta opinião, diremos como já dissemos aos outros: "Vede e observai, porque
seguramente ainda não vistes tudo".
E a seguir lhes apresentaremos duas considerações tiradas de sua
própria doutrina. De onde veio a teoria espírita? É um sistema imaginado por
alguns homens para explicar os fatos? De maneira alguma. Mas, então, quem as
revelou? Precisamente esses médiuns de quem exaltais a lucidez. Se,
portanto, essa lucidez é tal como a supondes, por que teriam eles atribuído
aos Espíritos aquilo que teriam tirado de si mesmos? Como teriam dado esses
ensinamentos tão preciosos, tão lógicos, tão sublimes sobre a natureza das
inteligências extra-humanas? De duas, uma: ou eles são lúcidos, ou não o
são. Se o são, e se podemos confiar na sua veracidade, não se poderia
admitir sem contradição que não estejam com a verdade. Em segundo lugar, se
todos os fenômenos provêm do médium, deviam ser idênticos para um mesmo
indivíduo e não se veria a mesma pessoa falar linguagens diferentes, nem
exprimir alternadamente as coisas mais contraditórias. Essa falta de unidade
nas manifestações de um mesmo médium prova a diversidade das fontes. Se,
pois, não podemos encontrá-las todas no médium, é necessário procurá-las
fora dele.
Segundo a outra teoria, o médium é ainda a fonte das manifestações, mas
em vez de tirá-las de si mesmo, tira-as do meio ambiente. O médium seria uma
espécie de espelho refletindo todas as idéias, todos os pensamentos e todos
os conhecimentos das pessoas que o cercam: nada diria que não fosse
conhecido pelo menos de algumas delas. Não se poderia negar, e vai mesmo
nisto um princípio da Doutrina, a influência exercida pelos assistentes
sobre a natureza das manifestações. Mas esta influência é bem diversa do que
se pretende e entre ela e a que faria do médium um eco dos pensamentos
alheios, há grande distância, pois milhares de fatos demonstram
peremptoriamente o contrário. Há, portanto, um erro grave, que mais uma vez
prova o perigo das conclusões prematuras.
Essas pessoas, incapazes de negar a existência de um fenômeno que a
Ciência comum não consegue explicar, e não querendo admitir a intervenção
dos Espíritos, explicam-no a seu modo. A teoria que sustentam seria
sedutora, se pudesse abarcar todos os fatos, mas assim não acontece. E
quando se demonstra, até a evidência, que algumas comunicações do médium são
completamente estranhas aos pensamentos, aos conhecimentos, as próprias
opiniões de todos os presentes, e que essas comunicações são muitas vezes
espontâneas e contradizem as idéias preconcebidas, elas não se entregam por
tão pouco. A irradiação, respondem, amplia-se muito além do círculo
imediato; o médium é o reflexo de toda a Humanidade e dessa maneira, se não
encontra as inspirações ao seu redor, vai procurá-las fora: na cidade, no
país, no mundo inteiro e até mesmo em outras esferas.
Não creio que esta teoria encerre uma explicação mais simples e mais
provável que a do espiritismo, pois supõe uma causa bem mais maravilhosa. A
idéia de que seres do espaço, em contato permanente conosco, nos comuniquem
os seus pensamentos, nada tem que choque mais a razão do que a suposição
dessas irradiações universais, vindas de todos os pontos do Universo para se
concentrarem no cérebro de um indivíduo.
Diremos ainda uma vez — e este é um ponto capital, sobre o qual nunca
será demais insistir, — que a teoria sonambúlica e a que se poderia chamar
reflectiva foram imaginadas por alguns homens; são opiniões individuais,
formuladas para explicar um fato, enquanto a Doutrina dos Espíritos não é
uma concepção humana; foi ditada pelas próprias inteligências que se
manifestam, quando ninguém a imaginava e a opinião geral até mesmo a
repelia. Ora, perguntamos, onde os médiuns foram buscar uma doutrina que não
existia no pensamento de ninguém sobre a Terra? Perguntamos ainda por que
estranha coincidência milhares de médiuns espalhados por todas as partes do
globo, sem nunca se terem visto, concordaram em dizer a mesma coisa? Se o
primeiro médium que apareceu em França sofreu a influência de opiniões já
aceitas na América, por que estranha razão foi ele buscar as suas idéias a
duas mil léguas além-mar, no seio de um povo estranho por seus costumes e
sua língua, em vez de tomar o que estava ao seu redor?
Mas há ainda uma circunstância em que não se pensou bastante. As
primeiras manifestações, em França como na América, não se verificam nem
pela escrita, nem pela palavra, mas através de pancadas correspondentes as
letras do alfabeto, formando palavras e frases. Foi por esse meio que as
inteligências manifestantes declararam ser Espíritos. Se, portanto,
pudéssemos supor a intervenção do pensamento do médium nas comunicações
verbais ou escritas, o mesmo não se poderia fazer com relação as pancadas,
cuja significação não poderia ser conhecida previamente.
Poderíamos citar numerosos fatos que demonstram na inteligência
manifestante uma individualidade evidente e uma absoluta independência de
vontade. Enviaremos, portanto, os nossos contraditores a uma observação mais
atenta, e se eles quiserem estudar bem, sem prevenções, nada concluindo
antes de terem visto o necessário, reconhecerão a impotência de suas teorias
para explicar todos os fatos. Limitar-nos-emos a propor as seguintes
questões: Por que a inteligência que se manifesta, qualquer que seja,
recusa-se a responder a algumas perguntas sobre assuntos perfeitamente
conhecidos, como por exemplo o nome ou a idade do interrogante, o que ele
traz na mão, o que fez na véspera, o que pretende fazer amanhã e assim por
diante? Se o médium é o espelho do pensamento dos presentes, nada lhe seria
mais fácil de responder.
Os adversários respondem a esse argumento perguntando, por sua vez, por
que os Espíritos, que tudo devem saber, não podem dizer coisas tão simples,
segundo o axioma: "Quem pode o mais, pode o menos". E disso concluem
que não se trata de Espíritos. Se um ignorante ou um brincalhão,
apresentando-se perante uma douta assembléia, perguntasse, por exemplo, por
que se faz dia pleno ao meio-dia, seria crível que ela se desse ao trabalho
de responder seriamente e seria lógico concluir, do seu silêncio ou das
zombarias que dirigisse ao interpelante, que seus membros eram tolos? Ora, é
precisamente por serem superiores que os Espíritos não respondem a perguntas
ociosas ou ridículas, não querem entrar na berlinda; é por isso que eles se
calam ou dizem que só se ocupam de coisas mais sérias.
Perguntaremos, afinal, por que os Espíritos vêm e vão, muitas vezes,
num dado momento, e por que, passando esse momento não há nem preces nem
súplicas que os façam voltar? Se o médium não agisse senão pela impulsão
mental dos assistentes é claro que, nessa circunstância, o concurso de todas
as vontades reunidas deveria estimular a sua clarividência. Se, entretanto,
ele não cede aos desejos da assembléia, apoiado pela sua própria vontade, é
porque obedece a uma influência estranha, tanto a ele quanto aos demais, e
essa influência demonstra com isso a sua independência e a sua
individualidade.
XVII — PREENCHENDO OS VAZIOS NO ESPAÇO
O ceticismo, no tocante a Doutrina Espírita, quando não resulta de
uma oposição sistemática, interesseira, provém quase sempre de um
conhecimento incompleto dos fatos, o que não impede algumas pessoas de
liquidarem a questão como se a conhecessem perfeitamente. Pode-se ter muito
espírito e até mesmo muita instrução e não se ter bom senso; ora, o primeiro
indício da falta de senso é a crença na própria infalibilidade. Muitas
pessoas também não vêem nas manifestações espíritas mais que um motivo de
curiosidade. Esperamos que, pela leitura deste livro, encontrem nesses
fenômenos estranhos alguma coisa além de um simples passatempo.
A Ciência Espírita contém duas partes: uma experimental, sobre as
manifestações em geral; outra filosófica, sobre as manifestações
inteligentes. Quem não tiver observado senão a primeira estará na posição
daquele que só conhecesse a Física pelas experiências recreativas, sem haver
penetrado na Ciência. A verdadeira Doutrina Espírita está no ensinamento
dado pelos Espíritos, e os conhecimentos que esse ensinamento encerra são
muito sérios para serem adquiridos em outro modo que não por um estudo
profundo e continuado, feito no silêncio e no recolhimento. Mesmo porque só
nestas condições pode ser observado um número infinito de fatos e suas
nuanças, que escapam ao observador superficial e que permitem firmar-se uma
opinião.
Se este livro não tivesse por fim mais do que mostrar o lado sério da
questão, provocando estudos a respeito, isto já seria bastante e nos
felicitaríamos por termos sido escolhidos para realizar uma obra sobre a
qual não pretendemos ter nenhum mérito pessoal, pois os princípios aqui
expostos não são de nossa criação: o mérito é, portanto, inteiramente dos
Espíritos que o ditaram. Esperamos que ele tenha outro resultado, —o de
guiar os homens desejosos de se esclarecerem, mostrando-lhes nestes estudos
um objetivo grande e sublime, o do progresso individual e social, e
indicando-lhes o caminho a seguir para a sua consecução.
Concluiremos com uma derradeira consideração. Os astrônomos, sondando
os espaços, encontraram na distribuição dos corpos celestes lacunas
injustificáveis e em desacordo com as leis do conjunto. Suspeitaram que
essas lacunas deviam corresponder a corpos que haviam escapado as
observações. Por outro lado, observaram certos efeitos cuja causa lhes era
desconhecida e disseram a si mesmos: "ali deve haver um mundo, porque essa
lacuna não pode existir e esses efeitos devem ter uma causa". Julgando então
da causa pelos efeitos puderam calcular os elementos, e mais tarde os fatos
vieram justificar as suas previsões.
Apliquemos este raciocínio a outra ordem de idéias. Se observamos a
série dos seres percebemos que eles formam uma cadeia sem solução de
continuidade, desde a matéria bruta até o homem mais inteligente. Mas, entre
o homem e Deus, que são o alfa e o ômega de todas as coisas, que imensa
lacuna! Será razoável pensar que seja o homem o último anel dessa cadeia?
Que ele transponha, sem transição, a distância que o separa do infinito? A
razão nos diz que entre os mundos conhecidos devia haver outros mundos. Qual
a filosofia que preencheu essa lacuna? O Espiritismo no-la apresenta
preenchida pelos seres de todas as categorias do mundo invisível, e esses
seres não são mais que os Espíritos dos homens nos diferentes graus que
conduzem a perfeição. E assim tudo se liga, tudo se encadeia, do alfa ao
ômega. Vós, que negais a existência dos Espíritos, preenchei o vazio que
eles ocupam. E vós, que deles rides, ousai rir das obras de Deus e da sua
onipotência!
Allan Kardec

Prolegômenos
Fenômenos que escapam as leis da Ciência ordinária manifestam-se por
toda parte. E revelam como causa a acão de uma vontade livre e inteligente.
A razão nos diz que um efeito inteligente deve ter como causa uma força
inteligente. E os fatos provaram que essa força pode entrar em comunicação
com os homens, através de sinais materiais.
Essa força, interrogada sobre a sua natureza, declarou pertencer ao
mundo dos seres espirituais que se despojaram do envoltório corporal do
homem. Desta maneira é que foi revelada a Doutrina dos Espíritos.
As comunicações entre o mundo espírita e o mundo corpóreo pertencem a
Natureza e não constituem nenhum fato sobrenatural. E por isso que
encontramos os seus traços entre todos os povos e em todas as épocas, hoje
elas são gerais e evidentes por todo o mundo.
Os Espíritos anunciam que os tempos marcados pela Providência para uma
manifestação universal estão chegados e que, sendo os ministros de Deus e os
agentes da sua vontade, cabe-lhes a missão de instruir e esclarecer os
homens, abrindo uma nova era para a regeneração da Humanidade.
Este livro é o compêndio dos seus ensinamentos. Foi escrito por ordem e
sob ditado dos Espíritos superiores para estabelecer os fundamentos de uma
filosofia racional, livre dos prejuízos do espírito de sistema. Nada contém
que não seja a expressão do seu pensamento e não tenha sofrido o seu
controle. A ordem e a distribuição metódica das materias, assim como as
notas e a forma de algumas partes da redação constituem a única obra daquele
que recebeu a missão de o publicar.
No número dos Espíritos que concorreram para a realização desta obra há
muitos que viveram em diferentes épocas na Terra, onde pregaram e praticaram
a virtude e a sabedoria. Outros não pertencem, por seus nomes, a nenhum
personagem de que a História tenha guardado a memória, mas a sua elevação é
atestada pela pureza de sua doutrina e pela união com os que trazem nomes
venerados.
Eis os termos em que nos deram, por escrito e por meio de muitos
médiuns, a missão de escrever este livro:
"Ocupa-te, com zelo e perseverança, do trabalho que empreendeste com
o nosso concurso, porque esse trabalho é nosso. Nele pusemos as bases do
novo edifício que se eleva e que um dia devera reunir todos os homens num
mesmo sentimento de amor e caridade; mas, antes de o divulgares,
reve-lo-emos juntos, a fim de controlar todos os detalhes.
Estaremos contigo sempre que o pedires, para te ajudar nos demais
trabalhos, porque esta não é mais do que uma parte da missão que te foi
confiada e que um de nós já te revelou.
Entre os ensinamentos que te são dados há alguns que deves guardar
somente para ti, até nova ordem; avisar-te-emos quando chegar o momento de
os publicar. Enquanto isso, medita-os a fim de estares pronto quando te
avisarmos.
Porás no cabeçalho do livro o ramo de parreira que te desenhamos,
porque é ele o emblema do trabalho do Criador. Todos os princípios materiais
que podem melhor representar o corpo e o espírito nele se encontram
reunidos: o corpo é o ramo; o espírito é a seiva; a alma, ou o espírito
ligado a matéria é o bago. O homem quintessência o espírito pelo trabalho e
tu sabes que não é senão pelo trabalho do corpo que o espírito adquire
conhecimentos.
Não te deixes desencorajar pela crítica. Encontrarás contraditores
encarniçados, sobretudo entre as pessoas interessadas em trapaças.
Encontrá-los-as mesmo entre os Espíritos, pois aqueles que não estão
completamente desmaterializados procuram muitas vezes semear a dúvida, por
malícia ou por ignorância. Mas prossegue sempre; crê em Deus e marcha
confiante: aqui estaremos para te sustentar e aproxima-se o tempo em que a
verdade brilhará por toda parte.
A vaidade de certos homens, que crêem saber tudo e tudo querem explicar
à sua maneira, dará origem a opinões dissidentes; mas todos os que tiverem
em vista o grande princípio de Jesus se confundirão no mesmo sentimento de
amor ao bem e se unirão por um laço fraterno que envolverá o mundo inteiro;
deixarão de lado as mesquinhas disputas de palavras para somente se ocuparem
das coisas essenciais. E a doutrina será sempre a mesma, quanto ao fundo,
para todos os que receberem as comunicações dos Espíritos superiores.
E com perseverança que chegarás a recolher o fruto dos teus trabalhos.
A satisfação que terás, vendo a doutrina propagar-se e bem compreendida,
será para ti uma recompensa, cujo valor total conhecerás, talvez, mais no
futuro do que no presente. Não te inquietem, pois, os espinhos e as pedras
que os incrédulos ou os maus espalharão no teu caminho; conserva a
confiança; com ela chegarás ao alvo e merecerás sempre a nossa ajuda.
Lembra-te de que os Bons Espíritos assistem aos que servem a Deus com
humildade e desinteresse, e repudiam a qualquer que procure, no caminho do
céu, um degrau para as coisas da Terra; eles se afastam dos orgulhosos e dos
ambiciosos. O orgulho e a ambição serão sempre uma barreira entre o homem e
Deus; são um véu lançado sobre as claridades celestes e Deus não pode
servir-se do cego para fazer-nos compreender a luz".
São João Evangelista, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, São Luiz,
O Espírito da Verdade, Sócrates, Platão, Fénelon, Franklin, Swedenborg, etc.
LIVRO PRIMEIRO
As Causas Primárias
Capítulo I
Deus
I — Deus e o Infinito
1. O que é Deus?
— Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.
2. O que devemos entender por infinito?
— Aquilo que não tem começo nem fim: o desconhecido; todo o
desconhecido é infinito.
3. Poderíamos dizer que Deus é o infinito?
— Definição incompleta. Pobreza da linguagem dos homens, insuficiente
para definir as coisas que estão além da sua inteligência.
Deus é infinito nas suas perfeições, mas o infinito é uma abstração;
dizer que Deus é o infinito é tomar o atributo de uma coisa por ela mesma,
definir uma coisa, ainda não conhecida, por outra que também não o é.
II — Provas da Existência de Deus
4. Onde podemos encontrar a prova da existência de Deus?
— Num axioma que aplicais as vossas ciências: Não há efeito sem causa.
Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem, e vossa razão vos
responderá.
Para crer em Deus é suficiente lançar os olhos as obras da Criação.
O Universo existe; ele tem, portanto, uma causa. Duvidar da existência de
Deus seria negar que todo efeito tem uma causa, e avançar que o nada pode
fazer alguma coisa.
5. Que conseqüência podemos tirar do sentimento intuitivo, que todos os
homens trazem consigo, da existência de Deus?
— Que Deus existe; pois de onde lhes viria esse sentimento, se ele não
se apoiasse em nada? É uma conseqüência do princípio de que não há efeito
sem causa.
6. O sentimento íntimo da existência de Deus, que trazemos conosco, não
seria o efeito da educação e o produto de idéias adquiridas?
— Se assim fosse, por que os vossos selvagens também teriam esse
sentimento?
Se o sentimento da existência de um ser supremo não fosse mais que o
produto de um ensinamento, não seria universal e nem existiria, como as
noções científicas, senão entre os que tivessem podido receber esse
ensinamento.
7. Poderíamos encontrar a causa primária da formação das coisas nas
propriedades íntimas da matéria?
— Mas, então, qual seria a causa dessas propriedades? É sempre
necessária uma causa primária.
Atribuir a formação primária das coisas as propriedades íntimas da
matéria seria tomar o efeito pela causa, pois essas propriedades são em si
mesmas um efeito, que deve ter uma causa.
8. Que pensar da opinião que atribui a formação primária a uma
combinação fortuita da matéria, ou seja, ao acaso?
— Outro absurdo! Que homem de bom senso pode considerar o acaso como um
ser inteligente? E, além disso, o que é o acaso? Nada.
A harmonia que regula as forças do Universo revela combinações e
fins determinados, e por isso mesmo um poder inteligente. Atribuir a
formação primária ao acaso seria uma falta de senso, por que o acaso é cego
e não pode produzir efeitos inteligentes. Um acaso inteligente já não seria
acaso.
9. Onde se pode ver, na causa primária, uma inteligência suprema,
superior a todas as outras?
— Tendes um provérbio que diz o seguinte: Pela obra se conhece o autor.
Pois bem: vede a obra e procurai o autor! É o orgulho que gera a
incredulidade. O homem orgulhoso nada admite acima de si, e é por isso que
se considera um espírito forte. Pobre ser, que um sopro de Deus pode abater!
Julga-se o poder de uma inteligência pelas suas obras. Como nenhum
ser humano pode criar o que a Natureza produz, a causa primária há de estar
numa inteligência superior à Humanidade.
Sejam quais forem os prodígios realizados pela inteligência humama,
esta inteligência tem também uma causa primária. É a inteligência superior a
causa primária de todas as coisas, qualquer que seja o nome pelo qual o
homem a designe.
III — Atributos da Divindade
10. 0 homem pode compreender a natureza íntima de Deus?
— Não. Falta-lhe, para tanto, um sentido.
11. Será um dia permitido ao homem compreender o mistério da Divindade?
— Quando o seu espírito não estiver mais obscurecido pela matéria, e
pela sua perfeição tiver se aproximado dela, então a verá e compreenderá.
A inferioridade das faculdades do homem não lhe permite compreender
a natureza íntima de Deus. Na infância da humanidade, o homem o confunde
muitas vezes com a criatura, cujas imperfeições lhe atribui; mas, à medida
que o seu senso moral se desenvolve, seu pensamento penetra melhor o fundo
das coisas, e ele faz então, a seu respeito, uma idéia mais justa e mais
conforme com a boa razão, embora sempre incompleta.
12. Se não podemos compreender a natureza íntima de Deus, podemos ter
uma idéia de algumas de suas perfeições?
— Sim, de algumas. O homem as compreende melhor, à medida que se eleva
sobre a matéria; ele as entrevê pelo pensamento.
13. Quando dizemos que Deus é eterno, infinito, imutável, imaterial,
único, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, não temos uma idéia
completa de seus atributos?
— Do vosso ponto de vista, sim, porque acreditais abranger tudo; mas
ficai sabendo que há coisas acima da inteligência do homem mais inteligente,
e para as quais a vossa linguagem, limitada às vossas idéias e às vossas
sensações, não dispõe de expressões. A razão vos diz que Deus deve ter essas
perfeições em grau supremo, pois se tivesse uma de menos, ou que não fosse
em grau infinito, não seria superior a tudo, e por conseguinte não seria
Deus. Para estar acima de todas as coisas, Deus não deve estar sujeito a
vicissitudes e não pode ter nenhuma das imperfeições que a imaginação é
capaz de conceber.
DEUS É ETERNO. Se ele tivesse tido um começo, teria saído do nada,
ou, então, teria sido criado por um ser anterior. É assim que, pouco a
pouco, remontamos ao infinito e a eternidade,
É IMUTÁVEL. Se Ele estivesse sujeito a mudanças as leis que regem o
Universo não teriam nenhuma estabilidade.
É IMATERIAL. Quer dizer, sua natureza difere de tudo o que chamamos
matéria, pois de outra forma Ele não seria imutável, estando sujeito as
transformações da matéria.
É ÚNICO. Se houvesse muitos Deuses, não haveria unidade de vistas nem
de poder na organização do Universo.
É TODO-PODEROSO. Porque é único. Se não tivesse o poder soberano,
haveria alguma coisa mais poderosa ou tão poderosa quanto Ele, que assim não
teria feito todas as coisas. E aquelas que ele não tivesse feito seriam obra
de um outro Deus.
É SOBERANAMENTE JUSTO E BOM. A sabedoria providencial das leis divinas
se revela nas menores como nas maiores coisas, e esta sabedoria não nos
permite duvidar da sua justiça nem da sua bondade.
IV — Panteísmo
14. Deus é um ser distinto, ou seria, segundo a opinião de alguns, o
resultante de todas as forças e de todas as inteligências do Universo,
reunidas?
— Se assim fosse, Deus não existiria, porque seria efeito e não causa;
ele não pode ser, ao mesmo tempo, uma coisa e outra.
— Deus existe, não o podeis duvidar, e isso é o essencial. Acreditai no
que vos digo e não queirais ir além. Não vos percais num labirinto, de onde
não poderíeis sair. Isso não vos tornaria melhores, mas talvez um pouco mais
orgulhosos, porque acreditaríeis saber, quando na realidade nada saberíeis.
Deixai, pois, de lado, todos esses sistemas; tendes que vos desembaraçar de
muitas coisas que vos tocam mais diretamente. Isto vos seria mais útil do
que querer penetrar o que é impenetrável.
15. Que pensar da opinião segundo a qual todos os corpos da Natureza,
todos os seres, todos os globos do Universo, seriam partes da Divindade e
constituiriam, pelo seu conjunto, a própria Divindade, ou seja, que pensar
da doutrina panteísta?
— Não podendo ser Deus, o homem quer pelo menos ser uma parte de Deus.
16. Os que professam esta doutrina pretendem nela encontrar a
demonstração de alguns dos atributos de Deus. Sendo os mundos infinitos,
Deus é, por isso mesmo, infinito; o vácuo ou o nada não existindo em parte
alguma, Deus está em toda parte; Deus estando em toda parte, pois que tudo é
parte integrante de Deus, dá a todos os fenômenos da Natureza uma razão de
ser inteligente. O que se pode opor a este raciocínio?
— A razão. Refleti maduramente e não vos será difícil reconhecer-lhe o
absurdo.
Esta doutrina faz de Deus um ser material que, embora dotado de
inteligência suprema, seria em ponto grande aquilo que somos em ponto
pequeno. Ora, a matéria se transformando sem cessar, Deus, nesse caso, não
teria nenhuma estabilidade e estaria sujeito a todas as vicissitudes e mesmo
a todas as necessidades da humanidade; faltar-lhe-ia um dos atributos
essenciais da Divindade: a imutabilidade. As propriedades da matéria não
podem ligar-se a idéia de Deus, sem que o rebaixemos em nosso pensamento, e
todas as sutilezas do sofisma não conseguirão resolver o problema da sua
natureza íntima. Não sabemos tudo o que ele é, mas sabemos aquilo que não
pode ser, e este sistema está em contradição com as suas propriedades mais
essenciais, pois confunde o criador com a criatura precisamente como se
quiséssemos que uma máquina engenhosa fosse parte integrante do mecânico que
a concebeu.
A inteligência de Deus se revela nas suas obras, como a de um pintor no
seu quadro; mas as obras de Deus não são o próprio Deus, como o quadro não é
o pintor que o concebeu e executou.
Capítulo II
Elementos Gerais do Universo
I — Conhecimento do Princípio das Coisas
17. Pode o homem conhecer o princípio das coisas?
— Não. Deus não permite que tudo seja revelado no homem, aqui na Terra.
18. O homem penetrará um dia o mistério das coisas que lhe estão
ocultas?
— O véu se ergue na medida em que ele se depura; mas, para a
compreenção de certas coisas, necessita de faculdades que ainda não possui.
19. O homem não poderá, pelas investigações da Ciência, penetrar alguns
dos segredos da Natureza?
— A Ciência lhe foi dada para o seu adiantamento em todos os sentidos,
mas ele não pode ultrapassar os limites fixados por Deus.
Quanto mais é permitido ao homem penetrar nesses mistérios, maior
deve ser a sua admiração pelo poder e a sabedoria do Criador. Mas, seja por
orgulho, seja por fraqueza, sua própria inteligência o torna freqüentemente
joguete da ilusão. Ele formula sistemas sobre sistemas, e cada dia que passa
mostra quantos erros tomou por verdades e quantas verdades repeliu como
erros. São outras tantas decepções para o seu orgulho.
20. Pode o homem receber, fora das investigações da Ciência,
comunicações de uma ordem mais elevada sobre aquilo que escapa ao testemunho
dos sentidos?
— Sim, se Deus o julgar útil, pode revelar-lhe aquilo que a Ciência não
consegue apreender.
É através dessas comunicações que o homem recebe, dentro de certos
limites, o conhecimento do seu passado e do seu destino futuro.
II — Espírito e Matéria
21. A matéria existe desde toda a eternidade, como Deus, ou foi
criada por Ele num certo momento?
— Só Deus o sabe. Há, entretanto, uma coisa que a vossa razão deve
indicar: é que Deus, modelo de amor e de caridade, jamais esteve inativo.
Qualquer que seja a distância a que possais imaginar o início da sua ação,
podereis compreendê-lo um segundo na ociosidade?
22. Define-se geralmente a matéria como aquilo que tem extensão, que
pode impressionar os sentidos e é impenetrável. Essa definição é exata?
— Do vosso ponto de vista, sim, porque só falais daquilo que percebeis.
Mas a matéria existe em estados que não conheceis. Ela pode ser, por
exemplo, tão etérea e sutil que não produza nenhuma impressão nos vossos
sentidos: entretanto, será sempre matéria, embora não o seja para vós.
— A matéria é o liame que escraviza o espírito; é o instrumento que ele
usa, e sobre o qual, ao mesmo tempo, exerce a sua ação.
De acordo com isto, pode-se dizer que a matéria é o agente, o
intermediário, com a ajuda do qual e sobre o qual o espírito atua.
23. Que é o espírito?
— O princípio inteligente do Universo.
23-a. Qual é a sua natureza íntima?
— Não é fácil analisar o espírito na vossa linguagem. Para vós, ele não
é nada, porque não é coisa palpável; mas, para nós, é alguma coisa. Ficai
sabendo: nenhuma coisa é o nada e o nada não existe.
24. Espírito é sinônimo de inteligência?
— A inteligência é um atributo essencial do espírito; mas um e outro se
confundem num princípio comum, de maneira que, para vós, são uma e a mesma
coisa.
25. O espírito é independente da matéria ou não é mais do que uma
propriedade desta, como as cores são propriedades da luz e o som uma
propriedade do ar?
— São distintos, mas é necessária a união do espírito e da matéria para
dar inteligência a esta.
25-a Esta união é igualmente necessária para a manifestação do
espírito? (Por espírito, entendemos aqui o princípio da inteligência,
abstração feita das individualidades designadas por esse nome).
— É necessária para vós, porque não estais organizados para perceber o
espírito sem a matéria; vossos sentidos não foram feitos para isso.
26. Pode-se conceber o espírito sem a matéria e a matéria sem o
espírito?
— Pode-se, sem dúvida, pelo pensamento.
27. Haveria, assim, dois elementos gerais do Universo; a matéria e o
espírito?
— Sim, e acima de ambos Deus, o Criador, o pai de todas as coisas.
Essas três coisas são o princípio de tudo o que existe, a verdade universal.
Mas, ao elemento material é necessário ajuntar o fluido universal, que
exerce o papel de intermediário entre o espírito e a matéria propriamente
dita, demasiado grosseira para que o espírito possa exercer alguma ação
sobre ela. Embora, de certo ponto de vista, se pudesse considerá-lo como
elemento material, ele se distingue por propriedades especiais. Se fosse
simplesmente matéria, não haveria razão para que o espírito não o fosse
também. Ele está colocado entre o espírito e a matéria; é fluido, como a
matéria é matéria; susceptível, em suas inumeráveis combinações