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Que tempos!

 

Estamos ficando obsoletos, entrando em extinção...

 

Em minha mocidade li, no Jornal do Brasil, um ensaio de Isaac Asimov; além de grande ficcionista era um magnífico divulgador científico. Em seu trabalho explicava os motivos que levam as velhas gerações a serem substituídas pelas mais novas: ocorre uma inadequação, uma incapacidade de compreender ou aceitar os rumos científicos, culturais e morais da sociedade. Só os mais jovens conseguem se adaptar rapidamente e assim substituem a velha geração.

Esta semana o Senador Pedro Simon, em discurso inflamado no Senado Federal, fez uma excelente digressão acerca dos descaminhos que as telenovelas – particularmente as da TV Globo – vêm tomando. Os autores argumentam que, se fogem deste tipo de script, o bandido que se dá bem, o perverso que comete as mais incríveis atrocidades e se safa galhardamente, perdem audiência: é o que o povo quer assistir... Pior: torna-se indiscernível a ficção da realidade. Também no mundo político o cafajeste obtém sucesso e, se pilhado, presta depoimentos dignos de deficientes mentais. Ri-se de nós, os que ainda mantemos a capacidade de nos indignar com tantas e tamanhas injustiças, desfalques, roubos e trambiques com o fruto de nossos impostos.

 

_ Mas de onde é que veio todo esse dinheiro?

 

_ Que dinheiro, Senador?

 

_ Este que está em sua conta corrente, com a sua assinatura!

 

_ Não sei de dinheiro nenhum, Senhor Senador, não vi nada, assinei sem ver... – diz o depoente com ares de quem tomou algum tipo de entorpecente ou se considera (talvez não sem razão) a tratar com pessoas cordatas, dispostas a aceitar qualquer tipo de explicação ou silêncio.

 

Na favela um furto famélico de uma lata de ervilhas pode redundar em até um mês de encarceramento. Na cúpula, os golpes de alto calibre ficam sempre impunes.

 

 

 

Quem são os pobres?

 

            No Brasil a péssima distribuição de renda se constitui num dos principais motivos conducentes à violência urbana e rural entre tantas irregularidades mais.

            No topo da pirâmide social estão os banqueiros, jogadores da bolsa e megaespeculadores – todos isentos de imposto de renda através de diversos artifícios legais (leis, claro, elaboradas por gente eleita e patrocinada por eles para isso, afinal estamos no Brasil e não seria imaginável alguém legislar para os trabalhadores já que se elegem com dinheiro oriundo deste tipo de fonte...)

            Na outra extremidade estão os miseráveis, o lumpemproletariado composto por uma enorme massa de seres humanos desempregados ou “vivendo de bico” na chamada economia informal, sempre morrendo de medo do guarda da esquina. A estes, Lula chama de “pobres” e lhes concede a bolsa-esmola. Assim, particularmente nos grotões mais miseráveis do país – desde a periferia das grandes cidades ao interior do Nordeste – a maioria acaba preferindo sobreviver como cliente do Estado sem ter de fazer o esforço de conseguir emprego – e onde o conseguiriam? A economia está estagnada! – basta-lhes aplaudir o papai-presidente e concordar com todos os seus desmandos.

            Entre estes dois extremos vivemos nós: professores, engenheiros, agricultores, construtores, arquitetos, médicos, dentistas, enfermeiros, jornalistas... Nós que tentamos conseguir auferir rendimentos condignos com o fruto do nosso labor e somos os únicos taxados pelo imposto que não incide sobre a renda, mas sobre o trabalho produtivo. E em parâmetros inéditos. Nuncaantesnestepaiz se cobrou tanto imposto. O paralelo é com o Vice-Reinado de Barbacena, que cobrava 20% para a Coroa Portuguesa em meados do século XVIII - o “quinto dos infernos” – e teve de fazer face a uma rebelião que, malograda, lançou as sementes da emancipação política do Brasil. Os trabalhadores – biliardários e miseráveis isentados – pagam 40% em impostos, dois quintos dos infernos. Impostos superiores aos escandinavos em troca de serviços públicos inferiores aos africanos.

 

O caldo

 

            Em tudo isso os costumes seguem caminhos que vão deixando as gerações que consideravam relevantes itens como honra, honestidade e justiça relegadas a plano algum.

            Neste caldo de cultura, que as TV’s refletem ad nauseam, a pedagogia segue caminhos inauditos: os telespectadores – maioria da população – são levados a buscar levar vantagem em tudo não importa a que custo humano; a simulação, a dissimulação, a mentira, a desonestidade, a falta de pudor atinge níveis escandalosos tanto na telinha quanto na vida real. Frequentemente fica-se sem saber ao certo quando termina a novela e começa o noticiário, de tão similares as falcatruas se tornaram, na prática e no imaginário popular. Certo está o Senador Pedro Simon. O que se está ensinando às gerações que terão a incumbência de gerir esta Nação?

 

Autocrítica: Lula descobriu a fórmula do sucesso

 

Lula está absolutamente correto em sua avaliação: o brasileiro se acanalhou, os valores morais se esgarçaram completamente. Riem-se da honra, da honestidade, da correção e da ética – as próprias palavras, usadas nos lábios dos corruptos, perderam todo seu significado original.

Cometemos um gravíssimo erro de avaliação ao propor o mote “o povo não quer esmola, mas dignidade e trabalho!” Lula conseguiu demonstra precisamente o oposto: o povo miserável quer é “se dar bem”, “levar vantagem” e sair impune conforme vêem nos exemplos dos de cima!

Ao nomear o deputado tucano mais votado do país para a presidência do Banco Central não estava acenando à oposição, mas aos especuladores. Henrique Meirelles, respondendo a inquéritos parados no Supremo Tribunal Federal, é oriundo da ciranda financeira que faz fortunas da noite para o dia sem o menor esforço laboral. Gerente e representante dos interesses do Bank Boston, exerce atividades completamente sem controle algum de quem quer que seja para garantir que o Brasil siga expendendo uma fábula de recursos a desviar à ciranda financeira. Em sua gestão, pagando mais que todos os anteriores aos especuladores, conseguiu ultrapassar em muito a barreira do trilhão (R$ 1.250.000.000.000,00 segundo cálculos mais recentes) em endividamento crescente e com isso consegue fazer o risco país cair a patamares jamais antes avençados. Estamos hoje, segundo avaliação do Banco J. P. Morgan, num dos menores patamares do mundo! Isso significa muito simplesmente que o Estado Nacional Brasileiro merece cada vez mais a confiança dos especuladores internacionais: seguirá desviando recursos da saúde, educação, segurança, saneamento e infra-estrutura o dos governos seguirem desviando recursos da santeadores, conseguiu ultrapassar em muito a barreira do trilhuem quer que seja para a ciranda financeira.

Pena que a Economia deixou de ser ciência e se tornou um sacerdócio. Se ainda existisse algum eivor de honestidade intelectual por parte dos economistas se perceberia que, onde o J. P. Morgan considera mais arriscado especular o povo vive melhor e o risco-país é mais elevado. Onde o risco país é mais baixo, o povo vive muito pior.

Basta mencionar que atrocidades como rebeliões nos presídios, chuvas de balas perdidas nas grandes cidades, crimes contra turistas e, mais recentemente, o apagão aéreo levando o Brasil a ser considerado um dos locais mais perigosos do mundo para a aviação civil coincidiu com as maiores quedas no risco-país para perceber a falácia.

A nota cômica da semana fica por conta do Manteiga. Depois de ensinar ao IBGE (Instituto Brasileiro de Maquiagem das Estatísticas) como fazer o Brasil apresentar melhores resultados com pequenos ajustes de cálculos, pretende agora ensinar o mesmo ao J. P. Morgan... Ainda considera os menos de 160 pontos um índice mais elevado do que o país merece. Talvez esteja certo. Pela lógica que vem norteando seu procedimento à frente do Ministério da Fazenda o país é hoje um dos mais seguros aos especuladores do mundo! Pena ser tão inseguro para os cidadãos comuns, tão sobretaxados que estamos em grande medida nos piores níveis desde o feudalismo.

 

Desânimo...

 

Confesso que, por vezes, me sinto compelido simplesmente a me calar. Que adianta um magote de pessoas de bem explicar o que está acontecendo uns aos outros – que todos concordam – enquanto a maioria é vergonhosamente manipulada pela propaganda oficial e oficiosa, reféns do bolsa-esmola e entusiastas acríticos da quadrilha que tomou conta do país?

Surpreende que ainda haja intelectuais e políticos com uma trajetória política extraordinária a defender a quadrilha de Lula. Esta prima por recursos abstratos à ética de Spinoza para aplaudir as medidas governamentais. Aquele que foi condenado na justiça conseguiu reeleger-se pelo povo cliente do bolsa-esmola com o patrocínio dos ricos recursos dos especuladores e hoje desmente na prática tudo de bom que fez pelo país ao longo de quase toda a sua vida. Um pároco que já foi ético, prisioneiro político e teólogo da libertação, hoje compara o bolsa-esmola ao milagre da multiplicação dos pães em escala ampliada relegando Jesus Cristo a protagonista da comédia lulista.

Que saudades do PT na oposição! Já imaginou um governo corrupto e incompetente como este tendo o PT da década de 90 como oposição? Sem poder – ou sequer tentar! – mudar as estruturas, o PT se passou para o lado dos poderosos e joga às favas toda a sua história que eu, modestamente, ajudei, em meu tempo, a construir.

 

Quais serão os próximos escândalos?

 

            Fernando Rodrigues, em uma de suas colunas, atribuiu a Lula as qualidades de uma frigideira de teflon. Nada pega nele! Cercado de corruptos e incompetentes, a única certeza que se tem é que novos escândalos surgirão e Lula – que jamais sabe de nada... – se apresentará indignado, se dirá mais uma vez “traído” e jogará nas “elites” a culpa pelos sucessivos erros e desvios de conduta moral dele e de sua quadrilha. Sem mencionar que está governando precisamente com e para as elites, quase com certeza este discurso, testado e aprovado, “colará” mais uma vez e assim Lula se encaminha galhardamente para um 3º mandato ou para acrescentar mais um ano em sua segunda gestão.

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 15/04/2007

 

 

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