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O Homem e o Mito
José Carlos Mariátegui
José Carlos Mariátegui (1895 – 1930) foi um
dos maiores expoentes do socialismo latinoamericano. Pontuam em sua obra
questões como o papel do indivíduo na história, o pensamento andino
(particularmente Inca) e o lugar da religiosidade e do mito nos movimentos
sociais. Tais aportes trazem uma reflexão singular e entusiástica a todos
quantos se aproximam de sua obra.
Em
1926 fundou a revista Amauta (Semeador, em quéchua). Dela reproduzo este texto,
excerto de “El Alma Matinal”. Com a palavra o grande sociólogo peruano:
I
Todas as pesquisas da inteligência contemporânea
sobre a crise mundial deságuam nesta unânime conclusão: a civilização burguesa
sofre da ausência de um mito, de uma fé, de uma esperança. Ausência que e a
expressão de sua falência material. A experiência racionalista teve a paradoxal
eficiência de conduzir a humanidade à triste convicção de que a Razão não lhe
pode oferecer nenhum caminho. O racionalismo serviu apenas para desacreditar a
razão. Afirmou Mussolini que os demagogos sufocaram a idéia Liberdade. Mais
exato é, sem dúvida, que os racionalistas sufocaram a idéia Razão. A Razão
extirpou da alma da civilização burguesa os resíduos de seus antigos mitos. O
homem ocidental colocou, durante algum tempo, no retábulo dos deuses mortos a
Razão e a Ciência. Entretanto, nem a Razão nem a Ciência podem ser um mito. Nem
a Razão nem a Ciência podem satisfazer toda a necessidade de infinito que há no
homem. A própria Razão encarregou-se de demonstrar aos homens que ela não lhes
basta. Que unicamente o Mito possui a preciosa virtude de preencher seu eu
profundo.
A Razão e a Ciência corroeram e destruíram o
prestígio das antigas religiões. Eucken, em seu livro sobre o sentido e o valor
da vida, explica de maneira clara e certeira o mecanismo deste trabalho
destruidor. As criações da ciência deram ao homem uma sensação nova de sua
potencia. O homem, antes intimidado diante do sobrenatural, descobriu logo um
exorbitante poder para corrigir e retificar a Natureza. Esta sensação desalojou
de sua alma as raízes da velha metafísica.
Mas o homem, como a filosofia o define, é um animal
metafísico. Não se vive fecundamente sem uma concepção metafísica da vida. O
mito move o homem na história. Sem um mito a existência do homem não tem nenhum
sentido histórico. A história, fazem-na os homens possuídos e iluminados por uma
crença superior, por uma esperança sobre-humana; os demais constituem o coro
anônimo do drama. A crise da civilização burguesa mostrou-se evidente desde o
instante em que esta civilização constatou a carência de um mito. Renan
destacava melancolicamente, em tempos de orgulhoso positivismo, a decadência da
religião e inquietava-se pelo futuro da civilização européia. "As pessoas
religiosas escrevia vivem de uma sombra. Depois de nós, viver-se-á de quê?" A
desolada interrogação aguarda ainda uma resposta.
A civilização burguesa caiu no ceticismo. A guerra
parece ter reanimado os mitos da revolução liberal: a Liberdade, a Democracia, a
Paz. Mas a burguesia aliada os sacrificou, em seguida, aos seus interesses e aos
seus ressentimentos na Conferência de Versailles. O rejuvenescimento desses
mitos serviu, entretanto, para que a revolução liberal se realizasse plenamente
na Europa. Sua invocação condenou à morte os resquícios de feudalidade e de
absolutismo que ainda sobrevivem na Europa Central, na Rússia e na Turquia. E,
sobretudo, a guerra provou uma vez mais, de forma cabal e trágica, o valor do
mito. Os povos responsáveis pela vitória foram os povos capazes de conceber um
mito multitudinário.
II
O homem contemporâneo sente a peremptória
necessidade de um mito. O ceticismo e infecundo e o homem não se conforma com a
infecundidade. Uma exasperada e às vezes impotente "vontade de crer", tão aguda
no homem pós-bélico, era já intensa e categórica no homem pré-bélico. Um poema
de Henri Frank, A dança diante da arca, é o documento que tenho mais à mão a
respeito do estado de ânimo da literatura dos últimos anos pré-bélicos. Neste
poema lateja uma grande e profunda emoção. Por isto, sobretudo, quero citá-lo.
Henri Frank nos diz da sua profunda "vontade de crer". Israelita, trata,
primeiro, de reavivar na sua alma a fé no deus de Israel. A tentativa é vã. As
palavras do Deus de seus pais soam estranhas nesta época. O poeta não as
compreende. Declara-se surdo ao seu sentido. Homem moderno, o verbo do Sinai não
pode captá-lo. A fé morta não e capaz de ressuscitar. Sobre ela pesam vinte
séculos. “Israel morreu por haver dado um Deus ao mundo”. A voz do mundo moderno
propõe seu mito fictício e precário: a Razão. Mas Henri Frank não pode
aceitá-lo. “A Razão – diz – a razão não e o universo”.
“La
raison sans Dieu c'est la chambre sans lampe.”
O poeta parte em busca de Deus. Tem urgência em
satisfazer sua sede de infinito e de eternidade. Mas a peregrinação é
infrutífera. O peregrino queria contentar-se com a ilusão cotidiana. “Ah!
sache franchement saisir de tout moment – la fuyante fumée et le suc éphemère”.
Finalmente acredita que “a verdade é o entusiasmo sem esperança”. O homem traz
sua verdade em si mesmo.
“Si
l'Arche est vide où tu pensais trouver la loi, rien n'est réel que ta danse.”
III
Os filósofos nos trazem uma verdade análoga à dos
poetas. A filosofia contemporânea varreu o medíocre edifício positivista.
Esclareceu e demarcou os modestos limites da razão. Formulou as atuais teorias
do Mito e da Ação. É inútil, segundo estas teorias, procurar uma verdade
absoluta. A verdade de hoje não será a verdade de amanhã. Uma verdade e válida
apenas para uma época. Contentemo-nos com uma verdade relativa.
Mas esta linguagem relativista não e acessível e não
e inteligível para o vulgo. O vulgo não sutiliza tanto. O homem resiste em
seguir uma verdade enquanto não a crê absoluta e suprema. É inútil
recomendar-lhe a excelência da fé, do mito e da ação. É preciso propor-lhe uma
fé, um mito e uma ação. Onde encontrar o mito capaz de reanimar espiritualmente
a ordem que sucumbe?
A pergunta exaspera a anarquia intelectual, a
anarquia espiritual da civilização burguesa. Algumas almas lutam por restaurar a
Idade Média e o ideal católico. Outras trabalham por um retorno ao Renascimento
e ao ideal clássico. O fascismo, através da boca de seus teóricos, atribui-se
uma mentalidade medieval e católica; crê representar o espírito da
Contra-Reforma, embora, por outra parte, pretenda encarnar a idéia da Nação,
idéia tipicamente liberal. A teorização parece comprazer-se com a invenção dos
mais apurados sofismas. Mas todas as tentativas de ressuscitar mitos passados
estão destinadas ao fracasso. Cada época quer ter uma intuição própria do mundo.
Nada mais estéril que pretender reanimar um mito extinto. Jean R. Bloch, num
artigo publicado na revista Europe, escreve, a tal respeito, palavras de
profunda verdade. Na catedral de Chartres ouviu a voz maravilhosamente crédula
da longínqua Idade Média. Mas adverte quanto e como essa voz e estranha às
preocupações desta época.
“Seria uma loucura – escreve – pensar que a mesma fé
repetiria o mesmo milagre. Buscai ao vosso redor, em alguma parte, uma mística
nova, ativa, suscetível de milagres, apta a encher de esperança aos desgraçados,
a suscitar mártires e a transformar o mundo com promessas de bondade e de
virtude. Quando a tiverdes encontrado, designado, nomeado, não sereis
absolutamente o mesmo homem”.
Ortega y Gasset fala da “alma desencantada”. Romain
Rolland fala da “alma encantada”. Qual dos dois tem razão? Ambas as almas
coexistem. A “alma desencantada” de Ortega y Gasset é a alma da decadente
civilização burguesa. A “alma encantada” de Romain Rolland é a alma dos
forjadores da nova civilização. Ortega y Gasset vê apenas o acaso, o crepúsculo,
der Untergang. Romain Rolland vê a aurora, a alvorada, der Aurgang. O que mais
nítida e claramente diferencia, nesta época, a burguesia e o proletariado e o
mito. A burguesia já não tem mito algum. Tornou-se incrédula, cética e niilista.
O mito liberal renascentista envelheceu demasiadamente. O proletariado tem um
mito: a revolução social. Em direção a esse mito move-se com uma fé veemente e
ativa. A burguesia nega; o proletariado afirma. A inteligência burguesa
entretém-se numa crítica racionalista do método, da teoria e da técnica dos
revolucionários. Que incompreensão! A força dos revolucionários não está na sua
ciência; está na sua fé, na sua paixão, na sua vontade. É uma força religiosa,
mística, espiritual. É a força do Mito. A emoção revolucionária, como afirmei
num artigo sobre Gandhi, e uma emoção religiosa. Os motivos religiosos
deslocaram-se do céu para a terra. Não são divinos; são humanos, são sociais.
Há algum tempo que se constata o caráter religioso,
místico e metafísico do socialismo. Georges Sorel, um dos mais altos
representantes do pensamento francês do século XX, dizia em suas Reflexões
sobre a violência:
“Encontrou-se uma analogia entre a religião e o
socialismo revolucionário, que se propõe a preparação e ainda a reconstrução do
indivíduo para uma obra gigantesca. Mas Bergson nos ensinou que não somente a
religião pode ocupar a região do eu profundo; os mitos revolucionários podem
também ocupá-la com o mesmo título”.
Renan, como o mesmo Sorel lembra, referia-se à fé
religiosa dos socialistas, constatando sua inexpugnabilidade a todo desalento.
“A cada experiência frustrada, recomeçam. Não
encontraram a solução: a encontrarão. Jamais os assalta a idéia de que a solução
não exista. Eis aí sua força”.
A
mesma filosofia que nos mostra a necessidade do mito e da fé, torna-se incapaz
geralmente de compreender a fé e o mito dos novos tempos. "Miséria da
filosofia", como dizia Marx. Os profissionais da Inteligência não encontrarão o
caminho da fé; o encontrarão as multidões. Aos filósofos caberá, mais tarde,
codificar o pensamento que brote da grande gesta multitudinária. Acaso souberam
os filósofos da decadência romana compreender a linguagem do cristianismo? A
filosofia da decadência burguesa não pode ter melhor destino.
Lázaro Curvêlo
Chaves - 13/1/2005
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