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HERÁCLITO, O PENSADOR DO LOGOS (1)
Orsely Guimarães Ferreira de
Brito
HERÁCLITO NO PASSADO E NO PRESENTE DA
FILOSOFIA
Há vinte e cinco séculos as palavras de
Heráclito vêm provocando contínuas reflexões. Dele falaram gregos e romanos,
árabes e cristãos, modernos e contemporâneos. Sua obra se perdeu, mas muitas de
suas sentenças, citadas por diversos autores, foram conservadas e, mais tarde,
reunidas em coletâneas. (2)
Estes famosos fragmentos de Heráclito
são cento e vinte e seis frases, fulgurantes como relâmpagos, cortantes como uma
navalha. Não são pedaços retirados de um texto contínuo, linear. Nasceram -
sobre isto a crítica hoje concorda - sob a forma de aforismas. São frases
densas, concisas, que lhe valeram, desde cedo, a fama de "obscuro".
Heráclito aceita ser considerado
enigmático, sibilino, oracular. Tendo seguido a inscrição do Oráculo de Delfos
("Conhece-te a ti mesmo") e sabendo porque o deus délfico envia seus enigmas,
que atravessam milênios, através da sibila de boca delirante, Heráclito, ao
escrever em estilo enigmático, não oculta nem revela seu pensar, mas indica-o,
por sinais. Seus aforismas são ofuscantes sinais (para uns obscuros, para outros
luminosos) em busca de olhos de ver e de ouvidos de ouvir… (conforme os
fragmentos de número 92 e 93).(3)
Incompreendido pela maioria de seus
contemporâneos, seu pensamento vem provocando um eco insistente. Embora o mais
das vezes distorcido, ele foi continuamente citado, desde Platão, Aristóteles e
Teofrasto. Por sua vez, os estóicos o escolheram para fundamentar certos pontos
de sua doutrina. E na Idade Média alguns autores citaram o logos de Heráclito,
que tomam pelo mesmo Logos que aparece na Evangelho de São João. Mas é no século
XIX que o pensamento de Heráclito reaparece com esplendor, principalmente nas
interpretações de Hegel e de Nietzsche.
O PERÍODO INAUGURAL DA
FILOSOFIA
Durante o século VI A.C. uma nova onda
de pensamentos invade e ilumina o mundo grego. Há certamente uma rede de
relações entre os acontecimentos que propiciaram a emergência da polis como
cidade autônoma e os eventos culturais que marcaram este momento como sendo o do
início das ciências e a filosofia.(4)
Os pensadores do período inaugural
perscrutam a gênese do cosmos, a forma da Terra, o movimento dos astros, os
ciclos meteorológicos, a origem da vida, o alcance do pensamento. Não aceitam as
respostas prontas, tradicionais, e, sim, olhando em torno - com um olhar
penetrante, capaz de atravessar todas as distâncias - proferem suas conjecturas
de longo alcance. Contra as superstições e crenças estabelecidas, contra um
antigo saber já consagrado, preferiram o enfrentamento direto com o mistério
envolvente, tentando - numa luta de luz e sobra - decifrar os enigmas do
nascimento e da morte, dos céus e da Terra. Aos pensadores deste período
inaugural o Ser se revelou como physis , palavra grega cuja força se perdeu nas
traduções. Os romanos traduziram-na por natura. Mas a palavra Natureza,
proveniente do Latim, só se aproxima do sentido de physis se não mantivermos a
oposição usual entre natural e artificial, entre natural e cultural, pois os
gregos viam a physis como o domínio de todos os domínios. Fonte e origem, é dela
que nascem, crescem e vivem todas as coisas, num emergir constante. Ela é o
vigor originário do qual surgem os homens e os deuses, as plantas e os animais,
os templos, os navios e as artes. Eterna e sempre jovem, divina, a physis é o
Poder mais alto.
Foi nesta aurora do pensamento grego que
veio à luz a obra de Heráclito, o mais impressionante pensador deste
extraordinário momento. Nos manuais didáticos de Filosofia ele é apresentado
como o filósofo do devir, do vir-a-ser, do contínuo fluir de todos os entes; e
são menos consideradas suas frases sobre a luta (polemos) como o pai e rei de
todas as coisas; sobre a preeminência da harmonia oculta sobre a aparente; e
menos citadas suas teses sobre a interrelação cósmica de todos os entes, sobre a
articulação e polaridade dos opostos. Entretanto, a ênfase sempre posta, pela
maioria dos comentaristas, no mobilismo de Heráclito, esquece que para ele estas
mudanças não são um fluir caótico incaptável, e sim que existem ritmos e fases,
e que são cíclicas as transformações. Entretanto, o que é preciso ressaltar é
que a tese do mobilismo está em conexão com a doutrina do logos , capaz de
captar os fluxos e detê-los nos poderosos diques da linguagem, pois suas
palavras de sabedoria tiveram esse insólito poder.
Duas escolas de filosofia, de estilos
divergentes, precederam o surgimento da obra de Heráclito: a dos milésios e a
dos pitagóricos. Em Mileto, cidade comercial e cosmopolita, situada na Ásia
Menor, floresce uma escola aberta e franca, onde o espírito crítico se manifesta
e se desenvolve nas respostas diferentes que se sucedem. Tales vê a physis como
hydor, líquido primordial e fecundo de que surge a vida e que em tudo pode se
transformar. Anaximandro, menos de duas décadas depois, propõe o apeiron
(Indeterminado, Ilimitado) como princípio (arché) de que surgem e a que retornam
todos os entes. E Anaximenes afirma ser o Ar (pneuma) a physis geradora de tudo
que vem à existência, pois assim como a nossa alma que é Ar nos mantém unidos, o
pneuma envolve e constitui os mundos, rarefazendo-se ou condensando-se. A escola
fundada por Pitágoras é muito diferente: assemelha-se a uma seita religiosa.
Sabe-se de sua ligação com o Orfismo. Pitágoras centraliza toda a autoridade.
Imperam a disciplina, os preceitos e as proibições. A par disso, os pitagóricos
desenvolvem o pensamento matemático; pensam os números, as proporções, as
relações quantitativas e suas conseqüências cósmicas. Percebem a relação entre o
comprimento das cordas dos instrumentos musicais e a produção de sons
harmônicos, e dirigindo o olhar para a imensidão do céu, com seus astros
dispostos a distâncias constantes, imaginam a existência de uma sinfonia das
esferas celestes, que giram em torno do Fogo Central (primeira hipótese não
geocêntrica).
Foi nesse momento inicial, em que
floresceram tantas idéias novas, que surgiu a palavra "filósofo" - um neologismo
capaz de designar essa nova estirpe de pensadores, que refletiram sobre números,
que fizeram o primeiro mapa da Terra (Anaximandro) e previram um eclipse
(Tales), que questionaram as crenças, os mitos, os poetas consagrados, a
educação e as leis da cidade.
É um preconceito julgar que os
princípios sejam apenas um engatinhar infantil a que se sucedem progressivos
enriquecimentos. Inicial, o período em que viveram Heráclito e Parmênides, nada
tem de primitivo. É um momento grandioso que estes dois gigantes do pensamento
escalam, por vertentes diversas, o mesmo cume: o que é a verdade, a que os
gregos chamavam de aletheia.
Outros períodos virão, outros séculos,
outras eras. O trabalho filosófico tornar-se-á mais disciplinado; serão
organizados quadros de gêneros, espécies e classes de conceitos em cada vez mais
rígida articulação. A filosofia será dividida em várias disciplinas; seu
vocabulário técnico vai crescer tanto que serão necessários dicionários de
filosofia. Os sistemas vão proliferar; estudiosos se dedicarão a escrever
histórias da filosofia. E nestes manuais didáticos, muito pouco históricos, às
vezes nada filosóficos e quase sempre parciais, os pensadores originários vão
aparecer sob a denominação absurda, mas infelizmente consagrada, de
"pré-socráticos". Traduções e interpretações provenientes de outras perspectivas
e interesses vão mascarar o sentido dos aforismas de Heráclito, do Poema de
Parmênides e dos demais pensadores do período inaugural. Terá sido perdido,
então, o prístino sentido das palavras fundamentais com que irrompeu a filosofia
grega: physis, logos, aletheia … Vão nascer as lógicas, as ciências vão
desenvolver um tipo de Razão intemporal que mede, calcula, investe e explora a
natureza. O conhecimento vai ser visto como uma força que contrapõe à realidade
(Sujeito X Objeto); o intelecto humano, julgando-se um poder separável, tecerá
redes de conceitos para aprisionar o Ser, conhecê-lo e dominá-lo, atingindo
certezas absolutas. E tudo isto parecerá um desejável progresso. Uma grande
névoa terá, então, obnublado os sinais de Heráclito. A clareira aberta com o
pensar poetante, criador, dos primeiros pensadores, e logo obscurecida por um
auto-suficiente racionalismo, só será de novo entrevista no século XIX, quando
um grande pensador, armado de amplo saber filosófico, perceber e denunciar as
traições sofridas pelos escritos dos primeiros filósofos gregos (que a tradição
embrulhou sob a depreciativa denominação de pré-socráticos). Este famoso
filólogo, este grande escritor (só cem anos depois reconhecido como filósofo), é
Nietzsche.
PREDOMÍNIO SECULAR DA RACIONALIDADE
PLATÔNICO-ARISTOTÉLICA
Enquanto as obras do período inaugural
se perderam todas, restando apenas fragmentos, as de Platão e Aristóteles foram
conservadas em grande parte. Provavelmente devido ao fato de terem ambos fundado
escolas importantes que durante séculos transmitiram seus ensinamentos: a
Academia e o Liceu. Estas designações, hoje sinônimos de escola, de
estabelecimento de ensino, só ganharam esse uso devido à fama crescente dos dois
filósofos, pois originariamente não tinham tal significado: a Academia platônica
deve seu nome ao fato de funcionar nos jardins do herói ateniense Academos; e a
palavra Liceu vem do grego lukeion , bosque dos lobos, e era o nome de um
terreno próximo ao templo de Apolo Lyceo, onde Aristóteles lecionava passeando
com seus discípulos. Que o mundo ocidental esteja povoado de liceus e academias
é um dos indícios do predomínio do tipo de racionalidade fundada por estes dois
gênios gregos.
Nas escolas de Platão e de Aristóteles
foi realizado um importante trabalho de levantamento do que haviam pensado os
mais antigos sobre os temas filosóficos que eles debatiam. Nas obras de Platão,
que escreveu em forma de diálogos, as doutrinas dos antigos aparecem nos
testemunhos e comentários de diversos personagens. Na obra de Aristóteles, as
posições dos primeiros pensadores são apresentadas, principalmente, no Primeiro
livro de metafísica. O discípulo e imediato sucessor de Aristóteles na direção
do Liceu, Teofrasto, escreveu uma obra chamada As Opiniões dos Físicos, onde
reúne as doutrinas antigas sobre os problemas da filosofia, tomando por base as
indicações aristotélicas. Esses três autores são as principais fontes a que se
remontam, direta ou indiretamente, todas as citações dos filósofos posteriores
sobre os pensadores iniciais. E são, portanto, os principais responsáveis por
uma primeira distorção do pensamento originário, surgido cerca de dois séculos
antes. O título mesmo da obra do discípulo de Aristóteles indica um dos
principais motivos de incompreensão: reúne os primeiros pensadores sobre a
denominação "físicos" ou "fisiólogos", já que todos escreveram acerca da physis
… Acontece que, já no tempo de Platão e Aristóteles, a palavra physis,
fundamental para aqueles pensadores, já não guardava seu sentido primordial de
domínio de todos os domínios, de poder mais alto, do qual os próprios deuses se
originavam.
Ao tempo de Platão, já a Filosofia
começava a dividir-se em vários campos: physis, nomos, logos, ethos. É a Platão
que se deve a divisão entre os mundos sensível e inteligível, sendo afirmada a
preeminência do Mundo das Idéias. Aristóteles, por sua vez, dividiu os entes em
dois tipos: entes físicos (a terra, os astros, os vegetais, os animais e, em
certo sentido, o homem) e entes técnicos (produzidos pela arte, pela perícia
humana). Quando, pois, Aristóteles chama os primeiros pensadores de físicos ou
fisiólogos, já obscurece suas posições, já os enquadra em parâmetros que impedem
sua compreensão autêntica. A designação de "fisiólogos" no vocabulário
aristotélico, em que physis tem menor abrangência, reduz indevidamente o âmbito
do questionamento originário.
Ao selecionar as doutrinas e
interpretá-las, umas foram mais que outras valorizadas. É notória a admiração de
Platão pelos pitagóricos, Parmênides e Sócrates; e sua aversão aos atomistas e
aos sofistas. Tudo isso vai ter uma influência enorme, pois Platão e Aristóteles
foram, sem dúvida, grandes filósofos, continuamente estudados, adquirindo grande
ascendência sobre os autores árabes, judeus e cristãos.
Acresce que foi na obra destes dois
gênios pagãos que as ortodoxias cristãs foram buscar apoio teórico: a de
Agostinho (350-430) baseando-se em Platão e no neo-platonismo; a de Tomas de
Aquino (1225-1274) estudando os textos aristotélicos (já antes escolhido pelos
árabes para interpretar o Corão). Considerando que a Igreja foi o centro
cultural que por mais de um milênio educou os bárbaros que
formaram a Europa, é fácil perceber o predomínio exercido pela racionalidade
platônico-aristotélica. E na medida em que os europeus dominaram os outros
povos, essa filosofia européia constituiu-se na linha mestra da cultura
ocidental.
Tendo sido escolhidos pelo clero cristão
como os filósofos em que se baseou a Teologia, estes gênios pagãos foram, de
certa forma, divinizados. A tradição escolástica nos fala do "divino Platão" e
Aristóteles não era chamado por seu nome: dizia-se apenas "o Filósofo". Por isso
mesmo as teses por eles defendidas ganharam enorme autoridade.
Qual a conseqüência disso com relação a
Heráclito e aos demais pensadores do período inaugural? As teses dos antigos que
receberam aprovação de Platão e de Aristóteles, sendo em seguida consagradas
pela Igreja, tiveram uma duração secular: o geocentrismo, o movimento circular
dos astros, o cosmo esférico e fechado, a divisão do espaço inferior (da Terra à
Lua) e superior ou etéreo (da Lua às estrelas fixas). Estas posições só foram
depostas, e a muito custo, ao tempo de Copérnico, Kepler e Galileu. Giordano
Bruno, que ousou afirmar que só um espaço infinito seria compatível com a
infinitude de Deus, foi queimado vivo.
Ao contrário, as teses dos primeiros
pensadores que não foram aceitas por Platão ou foram descartadas por
Aristóteles, caíram no esquecimento ou sofreram contínuas perseguições. Os
atomistas, desprezados por Platão, que contra eles move uma campanha de
silêncio, só foram resgatados no Renascimento. Os sofistas, contra os quais
Platão moveu cerrada luta, passaram à posteridade - mesmo os de estatura de
Górgias e Protágoras - como mestres falaciosos, criadores de raciocínios falsos
com aparência de verdadeiros (sofismas). Desta má fama só o século XX começa a
livrá-los.
Com relação a Heráclito, o problema é
mais grave. Platão julga conhecê-lo, e dota mesmo parte de suas teses. Pois
teve, desde muito jovem, um mestre chamado Crátilo, que se julgava heracliteano.
Esse maus discípulo passou para Platão um Heráclito distorcido e amputado de seu
centro: as sentenças sobre o logos , que falam sobre o pensamento, a palavra, o
conhecimento, a sabedoria, a linguagem. Crátilo ensinou a Platão que para
Heráclito todos os objetos sensíveis estão em constante fluxo, transformando-se
continuamente (o que está certo) e que não é possível haver conhecimento de tais
entes (o que está errado). Crátilo aceita de Heráclito o mobilismo, mas diante
da sentença "Não tomarás banho duas vezes no mesmo rio", com que Heráclito
aponta o constante fluir de todos os entes, pensa poder corrigi-lo afirmando não
ser possível entrar no mesmo rio nem mesmo uma vez. E acrescentava que, devido à
rapidez com que tudo muda, nada se pode saber, nada se pode afirmar. (5) Se Crátilo fosse mais coerente teria
permanecido calado, o que teria sido um bem para o futuro da Filosofia, pois
Platão adotou a visão heracliteana do devir de todas as coisas como sendo o
caráter do mundo sensível, que por isso mesmo é objeto impróprio do
conhecimento; daí a necessidade da existência de um objeto próprio de
conhecimento: o mundo inteligível, o Mundo das Idéias. A divisão platônica entre
os mundo sensível e inteligível se instala.
Durante o predomínio secular da
racionalidade platônico-aristotélica, consagrada pelas duas grandes ortodoxias
cristãs de Agostinho e Tomas de Aquino, a visão heracliteana permaneceu em
eclipse, pois a tese central de Heráclito não é o mobilismo levando a um
completo ceticismo, e, sim, como pode o Logos gerir e captar, ver e dizer os
modos e os ciclos das transformações.
Outra conseqüência grave do predomínio
do pensamento platônico-aristotélico foi a maneira cristalizada de dividir os
períodos da História da Filosofia, colocando estes grandes mestres como
constituindo o clímax, o apogeu da Filosofia grega, e chamando de Pré-Socrático
o período de dois séculos que os antecede. Parece uma denominação puramente
cronológica, mas contém toda uma interpretação valorativa. Chamar Heráclito de
pré-socrático é como dizer: ele faz parte daquele grupo dos que vieram antes,
daqueles a quem só cabe a glória de terem sido os precursores, que devem se
contentar com a honra de terem construído os degraus que permitiram que Platão e
Aristóteles ascendessem à culminâncias meditativas da verdadeira Filosofia. Não
é uma designação inocente. Agrupar expoentes das mais diversas áreas, da
estatura de Parmênides, Empédocles, Anaxágoras, reunir neste grupo até mesmo
aqueles como Demócrito e os Sofistas - contemporâneos de Sócrates - não podiam
ser considerados pré-socráticos é, ao contrário, uma estratégia para obscurecer
a importância e originalidade daquele momento ímpar.
Assim caíram no esquecimento o sentido
de fundamentais palavras do período inaugural, poético-pensante: physis, logos,
aletheia … Perdeu-se a postura mesma dos questionamentos dos pensadores
originários, e os caminhos por eles abertos, se fecharam.
Resgatá-los é um trabalho atual, um
esforço arqueológico de desconstrução; o trabalho de retirar capas e mais capas
de preconceitos arraigados que conformaram a visão ocidental.
RETORNO DE HERÁCLITO NO PENSAMENTO
CONTEMPORÂNEO
O eclipse sofrido pelos pensadores do
período originário, devido ao predomínio da aceitação escolástica das obras de
Platão e de Aristóteles, durou até o início da era moderna. Os humanistas da
época renascentista que descobriram, traduziram e reinterpretaram textos
clássicos, foram os primeiros a ter uma visão crítica com relação a cristalizada
cultura ortodoxa greco-cristã. Este notável trabalho filológico, que no
Renascimento provocou o retorno das teses dos atomistas e dos pitagóricos (que
tanta influência exerceu sobre as hipóteses astronômicas de Copérnico, Kepler e
Galileu), continuou vivo no âmbito das diversas academias e universidades, com
um papel importante na formação de novos valores educacionais.
Mas foi o desenvolvimento da filologia
no século XIX que trouxe de volta, com vigor extraordinário, a palavra de
Heráclito. Voltado para o estudo dos grandes poetas trágicos, Friedrich
Nietzsche reencontra, em seus estudos clássicos, os "pré-socráticos".
Compreendeu - à luz de um saber lingüístico incomparável - o quanto as traduções
traíram o pensamento de Heráclito e de outros pensadores inaugurais, e quão
impossível era continuar aceitando a visão tradicional. Filólogo e filósofo, ele
reunia as raras condições que lhe permitiram repensar a cultura ocidental e
denunciar o indevido predomínio da racionalidade platônico-aristotélica inserida
no racionalismo da Igreja.
No começo do século XX, um outro
helenista, Hermann Diels, através de um grande esforço de pesquisa filológica,
reuniu extensa documentação e publicou uma obra de peso: Os Fragmentos
Pré-Socráticos. Um clássico indispensável que provocou uma quantidade de estudos
sobre os primeiros pensadores. Podemos dizer que hoje temos mais elementos para
estudar aqueles autores antigos do que as épocas anteriores à nossa, em que
inúmeras citações, notícias e comentários estavam dispersos.
O retorno de Heráclito à Filosofia
Contemporânea teve, porém, seu momento inicial, antes mesmo de Nietzsche, quando
Hegel, em suas Preleções Sobre A História Da Filosofia, afirmou, em meio aos
mais altos elogios: " Não existe frase de Heráclito que eu não tenha integrado à
minha Lógica".
Hegel interpreta Heráclito à luz de sua
própria Filosofia. Criador de uma Lógica dialética que pensa o Absoluto como um
processo, que assimila o Tempo e a História, ele se debruça sobre os fragmentos
de Heráclito em contínua admiração pelo pensador que nos primórdios pode ver a
concretude do devir, que não separou o mundo em sensível e inteligível, como
Platão, nem fez do tempo a "imagem móvel da eternidade".
O fato de Hegel ter enaltecido Heráclito
confirma que Crátilo errou ao pensar que Heráclito considerava impossível o
conhecimento.
Se Heráclito tivesse dito que não há
conhecimento de um mundo que constantemente se transforma, se não tivesse, pelo
contrário, afirmado que as transformações se dão segundo medidas e que está ao
alcance do homem captar os modos das transformações, não teria despertado o
interesse de Hegel. Conceder à razão a possibilidade de conhecer o que se
transforma é conceber uma racionalidade também dinâmica. O que Hegel mais
admirou em Heráclito foi ter pensado, antes dele, essa possibilidade.
Nietzsche, porém, recusa-se a ver em
Heráclito um precursor da dialética hegeliana. Impossível traçar uma curva do
tempo, o esquema dialético do tempo futuro. Vê em Heráclito a "suprema força da
representação intuitiva". Não o considera obscuro, e sim, luminoso. Faz de
Heráclito um esteta que exclui toda moral e toda a teleologia, vendo o mundo com
total inocência, um jogo, como do artista e da criança - o jogo da grande
criança do mundo, Zeus. Um jogo do fogo consigo mesmo, mas onde impera o
múltiplo, pois "O Um é feito de muitos" e "repousa, transformando-se". O de
Heráclito é, para Nietzsche, "um mundo de pluralidades eternas e essenciais".
Isso não impede que o conflito da pluralidade possa trazer consigo lei e
direito, pois o que Heráclito viu, o segredo que vislumbrou, foi a "doutrina da
lei no vir-a-ser e do jogo na necessidade".
Estes são pensamentos de Nietzsche sobre
Heráclito, expostos na obra A Filosofia na Época da Tragédia Grega, na segunda
metade do século passado. Em nosso século, muitos estudiosos continuam
repensando seus fragmentos, tentando traduções mais autênticas; entre eles
ressalta o nome de Martin Heidegger. Em suas obras ele vem mostrando, em meio a
uma poderosa meditação sobre a cultura ocidental, sua ciência e tecnologia, a
importância do momento originário da Filosofia grega. Sobre Heráclito, é
imprescindível citar sua conferência intitulada Logos, que lança novas luzes
sobre termos que a tradição tem traduzido de forma encobridora.
Tendo denunciado o encobrimento do logos
de Heráclito sob o predomínio platônico-aristotélico e apontando o seu retorno
na atualidade, vamos tentar um encontro com seus aforismas, sem a menor
pretensão de apresentar o verdadeiro Heráclito e sim, apenas, tentar que seus
ofuscantes sinais atravessem os vinte e cinco séculos que dele nos distanciam e
possam, ainda, nos tocar...
Heráclito viveu na segunda metade do
século VI A.C., em Éfeso, na Jônia, Ásia Menor. Escreveu em prosa, em dialeto
jônico. Consta que por ser descendente dos fundadores da cidade, poderia ter
sido rei de Éfeso, mas cedeu este direito a um irmão. Descontente com seus
concidadãos, afirma, no fragmento 121, que os adultos deveriam enforcar-se todos
e entregar o governo aos jovens; pois os efésios haviam expulsado da cidade,
Hermodoro, seu melhor homem, porque não queriam entre eles alguém tão valoroso!
Heráclito deixou de intervir nas questões políticas, passando a viver solitário.
Mas com as crianças gostava de lidar. Foi visto, muitas vezes, jogando com
meninos. O que aprendeu com eles deixou nestes dizeres que vêm ressoando através
das eras: "O Tempo é uma criança brincando; o poder real é o de um menino"
(fragmento 32).
Alguns comentaristas descrevem-no como
misantropo, aristocrata, elitista. De fato, afirmou (fragmento 104) que a
maioria dos homens é ignorante, e diz (fragmento 49): "Um para mim vale mil se
for o melhor". Mas, por outro lado, insiste em que todos os homens podem, sem
iniciação, nem ritual, atingir a sabedoria. Basta buscar conhecer-se e manter-se
atento, acordado. Mas, a maioria vive como se estivesse dormindo, e, no sono,
cada qual se volta para um mundo particular (conforme os fragmentos 1, 2, 72,
73, 89). De todos estes que se esquecem de atender ao logos , afirma Heráclito:
"Ouvindo, descompassados, assemelham-se a surdos; o ditado lhes concerne:
presentes estão ausentes" (fragmento 34). E também: "Há o que os melhores homens
prefiram a tudo: a glória perene às coisas perecedouras. A grande maioria porém
farta-se à maneira do gado" (fragmento 29).
Dono de um saber luminoso que se empenha
em transmitir a todos e confiante em que "comum é a todos o pensar" (fragmento
113), em que "a todos é compartilhado o conhecer-se a si mesmo e pensar
sensatamente" (fragmento 116), não hesita em ferir os que não enxergam o caminho
próprio do homem, sua verdadeira vocação: assim como o gado é levado à força
para pastar (que é a felicidade do gado), aqui Heráclito fere os humanos com sua
ironia, comparando-os aos animais; e tangendo-os em direção ao prazer próprio do
homem: "Pensar sensatamente é a mais elevada perfeição, e é sabedoria dizer a
verdade e agir de acordo com a physis, ouvindo-a" (fragmento 112). Entretanto,
"asnos preferem palha ao ouro" (fragmento 9).
Propondo uma sabedoria que cada qual
deve buscar por si mesmo, usando o poder de pensar de que dispõem os humanos,
ele critica as superstições, as crenças tradicionais, os rituais de sacrifícios;
considera que são raros os sacrifícios puros, e tolas, em sua maioria, as
práticas religiosas populares: "Purificam-se manchando-se com outro sangue ... E
à estátuas dirigem suas preces, como alguém que falasse com casas, ignorando o
que são deuses e heróis" (fragmento 5).
Heráclito é hostil com os eruditos, pois
se para atingir a sabedoria é preciso inquirir muitas coisas (conforme o
fragmento 35), o saber muitas coisas não é suficiente para tornar sábio ao
homem: "A erudição não confere sabedoria; do contrário seriam sábios Hesíodo,
Pitágoras, Xenófanes e Hecateu" (fragmento 40).
Nega a sabedoria a estes homens famosos
e considera sábios Hermodoro (que os efésios expulsaram da cidade por saber
demais) e Bias: "Em Priene viveu Bias, filho de Teutames, cujo logos é maior que
o dos outros" (fragmento 39).
Alguns tradutores preferem não traduzir
as palavras fundamentais, e deixam permanecer em grego logos, physis, polemos,
etc. Já mostramos, no início, a ampla abrangência da palavra physis, perdida já
ao tempo de Aristóteles e muitas vezes traduzida por natureza. Polemos é
normalmente traduzida por luta, combate; desta palavra sai polêmica, que é
também combate, mas num nível diverso. Polemos é o embate primordial de que os
próprios contendores emergem. Logos ultrapassa a todas as palavras em
dificuldade. Em cada sentença, uma tradução seria mais que outra pertinente.
Traduzem-na por razão. pensamento, percepção, sabedoria, palavra ... Tem sempre
uma ligação com a possibilidade de conhecer, com o modo autêntico de acontecer
sabedoria, com a aparição do saber na palavra.
Voltemos a algumas frases do pensador,
sobre os sentidos, a percepção, a psique: "As coisas de que [há] visão, audição,
aprendizagem, só estas prefiro" (fragmento 55); "Os olhos são testemunhos mais
exatos que os ouvido" (fragmento 101a). E, certamente, contra os que não confiam
nos sentidos e se dedicam a mostrar os erros dos sentidos: "Maus testemunhos são
para os homens olhos e ouvidos se almas bárbaras eles têm" (fragmento 107). Pois
como poderíamos denunciar e corrigir os erros dos sentidos senão aprendendo seus
testemunhos com uma psique capaz de ampla consideração? Ainda sobre a alma
afirma: "Limites da alma não encontrarias, nem todo o caminho percorrendo; tão
profundo logos ela tem" (fragmento 45), e: "De alma é [um] logos que a si
próprio se acrescenta" (fragmento 115), e ainda: "Para as almas é morte
tornar-se água, e para a água é morte tornar-se terra, e de terra nasce água, e
de água alma" (fragmento 36). Este último fragmento é para acordarmos da ilusão
de que Heráclito fala como um de nós, que nada tem de obscuro, que pode ser
perfeitamente entendido; ele mesmo aceitava ser chamado de enigmático; pois
enigmáticas são as coisas mesmas que tentava clarificar, e que nunca se
aclararam totalmente, pois: "Physis Kriptesthai Philei" (fragmento 123): a
natureza (o perene emergir) e o velamento, mutuamente se atraem. Ou seja: o
desvelar-se ama o velar-se; ou ainda, na tradução usual: a natureza ama
ocultar-se. É como um jogo de luz e sombras que não cabe em uma linguagem
simplória, exigindo de Heráclito os atritos verbais com que tentou dar
testemunho das contradições das coisas mesmas, sua conjuntura, seu equilíbrio
imanente, feito de tensões, que é luta e harmonia ao mesmo tempo.
Para penetrar um pouco mais no mundo de
Heráclito, apresentamos um grupo de fragmentos, alertando que são frases cuja
disposição no texto original se perdeu Podemos dispô-las diversamente,
construindo outros mosaicos de pensamento:
"Não de mim, mas do logos tendo é sábio
homologar. Tudo é Um" (50);
"Articulações: inteiro-não-inteiro,
concorde-discorde, consonante-dissonante, e de tudo um e de um tudo"
(10);
"Este mundo, o mesmo para todos, não o
fez nenhum dos deuses nem dos homens, mas sempre foi, é e será, um fogo sempre
vivo, acendendo-se e apagando-se segundo medidas" (30);
"Transmudando-se, repousa"
(84a);
"Para o deus são belas, boas e justas,
todas as coisas, foram os homens que tiveram umas coisas por justas e outras por
injustas" (112).
"O deus é dia-noite, inverno-verão,
guerra-paz, saciedade-fome; varia como o fogo que ateado a especiarias é chamado
conforme o perfume destas" (67);
"Para os homens não seria melhor se lhes
sucedesse tudo quanto querem" (110);
"A doença torna agradável a saúde; a
fome, a saciedade; a fadiga, o repouso" (111);
"Permuta recíproca, do fogo por todas as
coisas e destas pelo fogo; tal como por ouro mercadorias e por mercadorias ouro"
(90);
"O combate é de todas as coisas pai, de
todas rei, a uns manifestou como deuses, a outros como homens; de uns fez
escravos, de outros livres" (53);
"Devemos saber que o combate é comum a
tudo e que a luta é justiça; as coisas nascem e morrem pela luta"
(80);
"Harmonia invisível, à visível superior"
(54);
"Não compreendem como o divergente
consigo mesmo concorda; harmonia reciprocamente tensa, como a do arco e da lira"
(51);
"De quantos ouvi a doutrina ninguém
chega ao ponto de reconhecer que a [coisa] sábia é separada de tudo"
(108);
"Há só uma coisa sábia: compreender o
pensamento que, como tal, governa tudo através de tudo" (41).
Os fragmentos de Heráclito são tocantes
por sua força e beleza. Ele nos fala do Um, que em si mesmo se diferencia,
abrindo-se em um jogo de riqueza plural, um íntimo combate que aos próprios
contendores faz surgir: deuses ou homens, livres ou escravos ...
As fundamentais palavras de Heráclito,
physis, logos, luta, fogo, não funcionam como conceitos abstratos, que tenhamos
que primeiro definir. É outra forma de falar, de pôr à luz. Elas se apóiam umas
nas outras, como para uma construção. Possuem, todas, poderosa ambivalência.
Logos não se contrapõe a physis, como mais tarde o pensamento se oporá à
natureza, o sujeito aos objetos, em busca da objetividade do
conhecimento.
Se a physis é o domínio de todos os
domínios, o logos é também da physis. Sendo ela o perene emergir, como um clarão
que nunca se apaga, o logos deve estar no centro mesmo deste brilhar, e o logos
humano deve auscultar, receptivo, a sua voz e fazê-la florescer em
palavras.
Se a Natureza - no sentido divino e
abrangente do momento inaugural - é para os primeiros gregos o Ser dos entes que
vêm à existência, se é o permanente emergir, é preciso que os humanos, de olhos
acesos e de alma seca e brilhante (pois a alma de brilho seco é a mais sábia
...[118]) saibam cantar em obras o clarão da verdade, em templos e estátuas de
mármore, e na palavra dos pensadores. Os entes só têm o sentido que apresentam
(esse mar, esse sol, nossa polis, os deuses e os heróis) porque um mundo foi
instaurado e cada coisa brilhou em seu lugar: o teatro e as tragédias, os navios
e as muralhas, as novas leis da cidade...
Heráclito não é, principalmente, o
pensador do rio fluindo sem parar. É o pensador do fogo, pois todas as coisas
são uma troca pelo fogo. O fogo queima e destrói, mas nunca tudo de uma vez ao
mesmo tempo, e sim metra-metra, segundo medidas. Ele garante no fragmento 30:
"Este mundo não o fez nenhum deus nem homem. Sempre foi e será como um fogo
sempre vivo". O fogo aquece, constrói e destrói. Mas, sobretudo, ilumina: o fogo
etéreo está no relâmpago que tudo dirige, nas almas secas, brilhantes, no brilho
dos olhos abertos ... Heráclito gostaria de arrancar todas as pálpebras que
fecham os olhos humanos para que enxerguem o brilho do logos, para que
cor-respondam (como um eco responde) com seu coração, à lei da divina physis, à
lei da polis e à lei do logos da psique, que continuamente cresce...
Heráclito se orgulha de ser o artífice
daquelas frases de puro fogo etéreo, que se evolaram daquele rio em que não nos
podemos banhar duas vezes, cujas águas sempre em fuga paralisam os logos dos
crátilos.
Ele nos conta, no fragmento 108, que
descobriu uma verdade que antes dele ninguém sequer suspeitara: a Sabedoria é
uma coisa separada, que detém a torrente, constrói o abrigo, produz permanência.
A Sabedoria se ergue, poderosa, sobre o próprio transmudar, dizendo-o,
guardando-o na Linguagem, mesmo o mais inaudito: o não-ser, o Ser, o vir-a-ser
...
1
Este trabalho foi publicado nos "Cadernos do ICHF" nº 07, do Instituto de
Ciências Humanas e Filosofia da Universidade federal Fluminense, em julho de
1989.
2
Destas coletâneas, a mais importante é a de Hermann Diels Walther Kranz,
intitulada Der Fragmenten der Vorsokratiker, cuja numeração dos fragmentos de
Heráclito adotaremos neste trabalho.
3
Em português pode ser encontrada uma tradução dos fragmentos de Heráclito,
seguindo a mesma numeração de Diels Kranz, no volume Pré-Socráticos, da série Os
Pensadores, da Editora Abril Cultural.
4
Um grupo de Helenistas de língua francesa vem estudando meticulosamente estas
relações. Cabe lembrar Marcel Detienne, Pierre Vidal-Naquet e Jean-Pierre
Vernant. Deste último importa citar a obra (já traduzida para o português pela
Difusão Européia do Livro) As Origens do Pensamento Grego, que incide sobre a
relação entre Polis e Filosofia.
5
É o maior discípulo de Platão, Aristóteles, que nos conta o aqui exposto sobre
Crátilo, na sua Metafísica: Cap. VI, do Primeiro Livro e Cap. V do Quarto
Livro.
Agradeço penhorado à minha querida
professora Orsely Guimarães pelo quanto com ela aprendi e tive a honra de estar
presente quando ela apresentou a uma platéia entusiasmada este magnífico texto.
Reproduzo-o, aqui, dando-lhe o devido crédito e comunicando que pode ser
encontrado também na bela página "O Retorno de Afrodite" de Rubedo, no endereço
http://www.rubedo.psc.br/
Lázaro Curvêlo Chaves
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