ÍNDICE
Notas
À Segunda Edição
Nota
Preliminar
A
TERRA
I.Preliminares.
A entrada do sertão. Terra ignota. Em caminho para Monte Santo.
Primeiras impressões. Um sonho de geólogo.
II.
Golpe de vista do alto de Monte Santo. Do alto da Favela.
III.
O clima. Higrômetros singulares.
IV.
As secas. Hipóteses sobre a sua gênese. As caatingas.O juazeiro. A
tormenta. Ressurreição da flora. O umbuzeiro. A jurema. O sertão é um
paraíso. Manhãs sertanejas.
V.
Uma categoria geográfica que Hegel não citou. Como se faz um deserto. Como
se extingue o deserto. O martírio secular da terra.
O
HOMEM
I.
Complexidade do problema etnológico no Brasil. Variabilidade do meio
físico e sua reflexão na História. Ação do meio na fase inicial da
formação das raças. A formação brasileira no Norte. Os primeiros
povoadores. A gênese do mulato. Os "Serenos".
II.
Gênese dos jagunços; colaterais prováveis dos paulistas. Função histórica
do rio S. Francisco. O vaqueiro, mediador entre o bandeirante e o padre.
Fundações jesuíticas na Bahia. Um parêntesis irritante. Causas favoráveis
à formação mestiça dos sertões, distinguindo-a dos cruzamentos no litoral.
Uma raça forte.
III.
O sertanejo. Tipos díspares: o jagunço e o gaúcho. Os vaqueiros. Servidão
inconsciente; vida primitiva. A vaquejada e a arribada. Tradições. A seca.
Insulamento no deserto. Religião mestiça: seus fatores históricos. Caráter
variável da religiosidade sertanejo: a Pedra Bonita e Monte Santo. As
missões atuais.
IV.
Antônio Conselheiro, documento vivo de atavismo. Um gnóstico bronco.
Grande homem pelo avesso, representante natural do meio em que nasceu.
Antecedentes de família: os Maciéis. Uma vida bem auspiciada. Primeiros
reveses; e a queda. Como se faz um monstro. Peregrinações e martírios.
Lendas. As prédicas. Preceitos de montanista. Profecias. Um heresiarca do
século 2 em plena idade moderna. Tentativa de reação legal. Hégira para o
sertão.
V.
Canudos — antecedentes — aspecto original — e crescimento vertiginoso.
Regimen da urbs. Polícia de bandidos. População multiforme. O templo.
Estrada para o céu. As rezas. Agrupamentos bizarros. Por que não pregar
contra a República ? Uma missão abortada. Maldição sobre a Jerusalém de
taipa.
A
LUTA
I.
Preliminares. Antecedentes .
II.
Causas próximas da luta. Uauá. Primeiro combate.
III.
Preparativos da reação. A guerra das caatingas.
IV.
Autonomia duvidosa.
TRAVESSIA
DO CAMBAIO
I.
Monte Santo. Triunfos antecipados.
II.
Incompreensão da campanha. Em marcha para Canudos.
III.
O Cambaio. Baluartes sine calcii linimenti. Primeiro recontro. João
Grande. Episódio trágico.
IV.
Nos Tabuleirinhos. Segundo combate. A Legio Fulminata de João
Abade. Novo milagre de Antônio Conselheiro.
V.
Retirada.
VI.
Procissão dos jiraus.
EXPEDIÇÃO
MOREIRA CÉSAR
I.
O coronel Antônio Moreira César e o meio que o celebrizou. Floriano
Peixoto. Moreira César. Primeira expedição regular. Crítica. Cresce a
população de Canudos. Como a aguardam os jagunços a nova expedição.
Trincheiras. Armas. Pólvora. Balas. Lutadores. João Abade. Procissões.
Rezas.
II.
Partida de Monte Santo. Primeiros erros. Nova estrada. Em marcha para o
Angico. Psicologia do soldado brasileiro.
III.
Pitombas. O primeiro encontro. "Esta gente está desarmada...". O pânico e
a bravura. "Em acelerado!" Dois cartões de visita a Antônio Conselheiro.
Um olhar sobre Canudos. Chegada da força. Rebate.
IV.
A ordem de batalha. O terreno; crítica. Cidadela-mundéu. Conflitos
parciais. Saques antes do triunfo. No labirinto das vielas. Situação
inquietadora. Moreira César fora de combate. Recuo. Ao bater da
Ave-Maria.
V.
Sobre o Alto do Mário. O coronel Tamarindo. Alvitre de retirada. Protesto
de Moreira César. Retirada. Vaia.
VI.
Debandada; Fuga. Salomão da Rocha. Um arsenal ao ar livre. Uma diversão
cruel.
QUARTA
EXPEDIÇÃO
I.
Desastres. Canudos - uma diátese. Empastelamento de jornais
monárquicos. A rua do Ouvidor e as caatingas. Considerações. Versões
disparatadas. Mentiras heróicas. O cabo Roque. Levantamento em massa.
Planos. Um tropear de bárbaros.
II.
Mobilização de tropas. Concentração em Queimadas. Organiza-se a expedição.
Crítica. Delongas. Não há um plano de campanha. Crítica . A comissão de
engenharia. Siqueira de Meneses. Estrada de Calumbi. A marcha para
Canudos. O 5.° Corpo de Polícia Baiana. Alteração da formatura.
Incidentes. Um guia temeroso: Pajeú. No Rosário. Passagem nas Pitombas.
Recordações cruéis. O alto da Favela. Fuzilaria. Crítica. Trincheiras dos
jagunços. Continua a fuzilaria. Acampamento na Favela. Canudos. Chuva de
balas. Confusão e desordem. Baixas. Uma divisão aprisionada.
III.
Coluna Savaget. Carlos Teles. Cocorobó. Retrospecção geológica. Diante das
trincheiras. Carga de baionetas excepcional. A travessia. Macambira. Nova
carga de baionetas. Fuzilaria. Bombardeio. Trabubu. Emissário inesperado.
Destrói-se um plano de campanha.
IV.
Vitória singular. O medo. Baixas. Começo de uma batalha crônica.
Canhoneio; réplica dos jagunços. Regímen de privações. Aventuras do cerco;
caçadas perigosas. Desânimos. Assalto ao acampamento; a "matadeira". A
atitude do comando-em-chefe. Outro olhar sobre Canudos. Desânimo.
Deserções heróicas. Um choque galvânico na expedição combalida.
V.
O assalto: preparativos. Plano do assalto. O recontro. Linha de combate.
Crítica. Confusão. Tocaias dos jagunços. Nova vitória desastrosa. Baixas.
Nos flancos de Canudos. Posição crítica. Notas de um diário. Triunfos pelo
telégrafo.
VI.
Pelas estradas; os feridos. Depredações. Incêndios. Primeiras notícias
certas. Baixas. Versões e lendas. "Viva o Bom Jesus !". Um lance épico.
VII.
Outros reforços. A brigada Girard. Heroísmo estranho. Em viagem para
Canudos.
VIII.
Novos reforços. O marechal Bitencourt. Quadro lancinante. Colaboradores
prosaicos demais. Em Canudos. O sino da igreja. Fuzilaria.
NOVA
FASE DA LUTA
I.
Queimadas. Páginas demoníacas. Uma ficção geográfica. Fora da pátria. Em
Canudos. Prisioneiros. Diante de uma criança. Outra criança. Na estrada de
Monte Santo. Palimpsestos ultrajantes. Em Monte Santo. Em Canudos. Uma
"vaia entusiástica". Trincheira Sete de Setembro. Estrada de
Calumbi.
II.
Marcha da divisão auxiliar. Medo glorioso. Caxomongó. Rebate falso. Em
busca de meia ração de glória. Aspecto do acampamento. Em busca de uma
meia ração de glória. Aspecto do acampamento. Canudos. O charlatanismo da
coragem.
III.
Embaixada ao céu. Complemento do assédio. Cenário de tragédia.
ÚLTIMOS
DIAS
I.
O estrebuchar dos vencidos. Os prisioneiros. A degola
II.
Depoimento do autor. Um grito de protesto.
III.
Titãs contra moribundos. Constringe-se o assédio. Cavando o próprio
túmulo. Trincheira de cadáveres. Em torno das cacimbas. Sobre os muradais
da igreja nova
IV.
Passeio dentro de Canudos.
V.
O assalto. O canhoneio. Réplica dos jagunços. Baixas. Tupi Caldas. A
dinamite. Continua a réplica. Baixas. No hospital de sangue. Notas de um
Diário. Antônio, o Beatinho. Morte de Conselheiro. Prisioneiros.
VI.
O fim. Canudos não se rendeu. O cadáver do Conselheiro.
VII.
Duas linhas.
Notas à 2ª Edição
Este livro, secamante atirado à
publicidade, sem amparo de qualquer natureza, para que os protestos contra as
falsidades que acaso encerrasse se exercitassem perfeitamente desafogados,
conquistou - franca e espontânea - expressa pelo seus melhores
órgãos, a grande simpatia nobilitadora da minha terra, que não solicitei e que
me desvanece. Os únicos deslizes apontados pela crítica são, pela própria
desvalia, bastante eloqüentes no delatarem a segurança das idéias e
proposições aventadas.
É o que demonstra esta resenha
rápida:
I - ". . . Mercenários
inconscientes "
(Pág. VIII). Estranhou-se a expressão.
Mas devo mantê-la: mantenho-a.
Não tive o intuito de defender os
sertanejos, porque este livro não é um livro de defesa; é, infelizmente, de
ataque.
Ataque franco e, devo dizê-lo,
involuntário. Nesse investir, aparentemente desafiador, com os singularíssimos
civilizados que nos sertões, diante de semibárbaros, estadearam tão
lastimáveis selvatiguezas, obedeci ao rigor incoercível da verdade. Ninguém o
negará.
E se não temesse envaidar-me em
paralelo que não mereço, gravaria na primeira página a frase nobremente
sincera de Tucídides, ao escrever a história da guerra do Peloponeso -
porque eu também embora sem a mesma visão aquilina, escrevi
"sem dar crédito às primeiras
testemunhas que encontrei, nem às minhas próprias impressões, mas narrando
apenas os acontecimentos de que fui espectador ou sobre os quais tive
informações seguras."
II - " ... desabrigadas de todo
ante e acidez corrosiva dos aguaceiros tempestuosos..." (pág. 18).
Viu-se nesta frase uma inexatidão e um
dos imaginosos traços do meu apedrejado nefelibatismo científico ( * ).
( * ) Revista do Centro de Letras e
Artes, de Campinas, n.º 2, 31 de janeiro de 1903.
Ora, escasseando-me o tempo para atar
autores, limito-me a apontar a página 168 da Geologia de Contejean sobre a
erosão das rochas:
"des actions physiques et chimiques par
les eaux pluviales plus ou moins chargées d'acide carbonique -
principalement sur les roches les plus attaquables aux acides, comme les
calcaires" etc.
Para o caso especial do Brasil,
encontra-se ainda à página 151 do livro de Em. Liais, sobre a nossa
conformação geológica, a caracterização do fenômeno que "se montre en très
grande échelle, sans doute à cause de ia fréquence et de l' acidité des pluies
d'orage."
No entanto o crítico leciona: "Nem as
chuvas causam erosões por conterem algumas moléculas a mais de nitro ou de
amoníaco , senão pela rijeza da camada horizontal superior em relação às
camadas moles inferiores etc."
Extraordinária geologia, esta...
III - " ... as favelas tem, nas
folhas, de estômatos expandidos em vilosidades . . ." ( pág. 41).
Apresso-me em corrigir evidentíssimo
engano, tratando-se de noção tão simples.
Leia-se: nas folhas, de células
expandidas em vilosidades.
IV - "É que a morfologia da
terra viola as leis gerais dos climas" ( pág. 52 ) .
Outro dizer malsinado. Impugna-o
respeitável cientista:
"Penso que se a natureza combate os
desertos, apenas o facies geográfico modifica as condições extrínsecas do
meio. E se violência importa modificação, violar é desobedecer ao
preestabelecido. Assim, não há violação contra as leis gerais dos climas, eis
o que não padece duvida" ( * ).
( * ) Correio da Manhã de 3 de
fevereiro de 1903.
Inexplicável contradita, esta, que
investe com todas as conclusões da meteorologia moderna! Basta saber-se que
sendo as leis gerais de um clima as que se derivam das relações astronômicas
- as próprias ondulações dos isotermos , indisciplinadamente recurvos ,
mas que seguiriam os paralelos se respeitassem aquelas leis, são um atestado
da violação.
Nem precisávamos exemplificar o
predomínio permanente das causas particulares ou secundárias na constituição
climática de qualquer pais. De Santos, cujo clima equatorial é uma anomalia em
latitude superior à do trópico, à Groelândia coberta de gelos fronteira às
paragens benignas da Noruega, encontraríamos esplêndidos exemplos.
Ainda recentemente, no belo livro sobre
a psicologia dos ingleses, Boutmy assinala o fato de ter a Inglaterra, no
paralelo de 52.º, temperatura igual a 32.º de lat., dos Estados Unidos.
Quem quer que acompanhe num mapa o
isotermo de 0.º, partirá da frigidíssima Islândia, avançará para o sul, numa
curva caprichosa, para a Inglaterra, que não tocará; torcerá depois para o
extremo norte da Noruega, e volverá de novo ao sul e se aproximará, nos meses
frios, de Paris e de Viena - que assim se ligam malgrado latitudes
muito mais baixas, à enregelada terra polar.
E o viajante que perlonga a nossa
costa, do Rio à Bahia, demandando o Equador, não vai também, por uma linha
quase inalterável, traduzindo geometricamente um regímen constante, espelhado
na uniforme opulência das matas que ajardinam o litoral vastíssimo ?
Mas se parar em qualquer ponto e
avançar para o ocidente por um paralelo, pela linha definidora,
astronomicamente, da uniformidade climática, deparará transcorridas poucas
dezenas de léguas habitats inteiramente outros.
Não estão, nestes exemplos, que
multiplicaríamos se quiséssemos, palmares violações das leis gerais dos
climas?
V - Uma contradição apontada
pelo mesmo critico; diz ele:
". . . vejo à pág. 70 os dizeres
categóricos: Não temos unidade de raça. Não a teremos, talvez, nunca. E à pág.
616 lá está a proposição de que em Canudos se atacava a rocha viva de nossa
raça."
Neste salto mortal de 616 -70 = 546
páginas, é natural que se encontrem coisas disparatadas. Mas quem segue as
considerações que alinhei acerca da nossa gênese, se compreende que de fato
não temos unidade de raça, admite também que nos vários caldeamentos operados
eu encontrei no tipo sertanejo uma subcategoria étnica já formada (pág. 108)
liberta pelas condições históricas (pág. 112) das exigências de uma
civilização de empréstimo que lhe perturbariam a constituição definitiva.
Quer dizer que neste composto
indefenível - o brasileiro - encontrei alguma coisa que é
estável, um ponto de resistência recordando a molécula integrante das
cristalizações iniciadas. E era natural que, admitida a arrojada e animadora
conjetura de que estamos destinados à integridade nacional, eu visse naqueles
rijos caboclos o núcleo de força da nossa constituição futura, a rocha viva da
nossa raça.
Rocha viva... A locução sugere-me um
símile eloqüente.
De fato, a nossa formação como a do
granito surge de três elementos principais. Entretanto quem ascende por um
cerro granítico encontra os mais diversos elementos: aqui a argila pura, do
feldspato decomposto, variavelmente colorida: além a mica fracionada,
rebrilhando escassamente sobre o chão; adiante a arena friável do quartzo
triturado; mais longo o bloco moutonné, de aparência errática; e por toda a
banda da a mistura desses mesmos elementos com a adição de outros,
adventícios, formando o incaracterístico solo arável, altamente complexo. Ao
fundo, porém, removida a camada superficial, está o núcleo compacto e rijo da
pedra. Os elementos esparsos, em cima, nas mais diversas misturas, porque o
solo exposto guarda até os materiais estranhos trazidos pelos ventos, ai
estão, embaixo, fixos numa dosagem segura, e resistentes, e íntegros.
Assim, à medida que aprofunda, o
observador se aproxima da matriz de todo definida, do local. Ora o nosso caso
é idêntico - desde que sigamos das cidades do litoral para os vilarejos
do sertão.
A princípio uma dispersão estonteadora
de atributos que vão de todas as nuanças da cor a todos os aspectos do
caráter. Não há distinguir-se o brasileiro no intricado misto de brancos,
negros e mulatos de todos os sangues e de todos os matizes. Estamos à
superfície da nossa gens, ou melhor, seguindo à letra a comparação de há
pouco, calcamos o húmus indefinido da nossa raça. Mas, entranhando-nos na
terra, vemos os primeiros grupos fixos - o caipira, no Sul, e o
tabaréu, ao Norte - onde já se tornam raros o branco, o negro e o índio
puros. A mestiçagem generalizada produz entretanto, ainda todas as variedades
das dosagens díspares do cruzamento. Mas, à medida que prosseguimos, estas
últimas se atenuam.
Vai-se notando maior uniformidade de
caracteres físicos e morais. Por fim, a rocha viva - o sertanejo.
VI - Mas não fujo ainda a nova
objeção, porque
"se tivemos, inopinadamente, ressurreta
e em armas em nossa frente, uma sociedade velha, uma sociedade morta,
galvanizada por um doido, se tivemos aquilo (continua o critico) não se
compreende como na guerra de Canudos se atacasse a rocha viva da nossa
raça."
Ao falar em sociedade morta, referi-me
a uma situação excepcional da gente sertaneja corrompida por um núcleo de
agitados (pág. 205). O mesmo paralelo feito na mesma página com estados
idênticos de outros povos delata-lhe o caráter excepcional. De modo algum
enunciei uma proposição geral e permanente, senão transitória e especial,
reduzida a um fragmento do espaço - Canudos - e a um intervalo
de tempo - o ano de 1897.
Nada mais límpido. Encontraríamos
perfeito símile nessa misteriosa isomeria, mercê da qual corpos identicamente
constituídos, com os mesmos átomos num arranjo semelhante, apresentam todavia
propriedades diversíssimas. Assim pensando - e que se não irritem
demais as sensitivas do nosso meio científico com mais esta arrancada feroz de
nefelibatismo - eu vejo, e todos podem ver, no jagunço um corpo
isômetro do sertanejo. E compreendo que Antônio Conselheiro repontasse como
uma "integração de caracteres diferenciais, vagos e indefinidos, mal
percebidos quando dispersos pela multidão" - e não como simples caso
patológico, porque a sua figura de pequeno grande homem se explica
precisamente pela circunstância rara de sintetizar, de uma maneira empolgante
e sugestiva, todos os erros, todas as crendices e superstições, que são o
lastro do nosso temperamento.
VII - "A própria caatinga ali
assume aspecto novo . E uma melhor caracterização talvez a definisse mais
acertadamente como a paragem clássica das catanduvas" , etc. pág. 229.
Isto também sugeriu reparos. Prestadios
amadores, estremecendo por todas as corolas da botânica apisoadas pelo meu
nefelibatismo científico (eterno labéu!), puseram embargos ao dizer, doutrina
(sic) errônea do livro.
E pontificaram: "caatinga ( mato ruim )
é o resultado não do terreno mas da secura do ar, ao passo que as catanduvas
são florestas cloróticas (mato doente) resultantes da porosidade e da secura
do solo" ( * ) .
( * ) Revista de Centro de Letras e
Artes
Adorável objeção. Começa insurgindo
contra o tupi; termina insurgindo-se contra o português.
Caatinga ( mato ruim ! ) . . .
Catanduva ( mato doente ! ) . . .
Florestas cloróticas. . . Clorose de
uma planta significando, em vernáculo, o seu "estiolamento", isto é, alteração
mórbida determinada pela falta de luz, são originalíssimas aquelas matas nas
regiões brasileiras onde vegetam em pleno fustigar dos sóis!
Quanto à célebre doutrina duas
palavras. A discriminação dos aspectos da nossa flora é ainda um problema que
aguarda solução clara.
Observando que o aspecto principal da
caatinga ( mato branco ) e o de um cerrado rarefeito e tolhiço; e que o da
catanduva ( mato mau, áspero, doente ) é o de uma mata enfezada e dura, tracei
a frase com batida porque a flórula indicada, diversa da que prepondera no
sertão, me despontou aos olhos realmente com a última aparência.
VIII - Notaram-se, em todas as
páginas, termos que vários críticos caracterizaram como invenções ou
galicismos imperdoáveis. Mas foram infelizes com com os que apontaram. Cito-os
e defendo-os.
Esbotenar - esboicelar,
esborcinar ( Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo.
)
Ensofregar - tornar sôfrego (
Dic.. Cont.º, de Aulete. )
Preposterar - inverter a ordem
de qualquer coisa ( Idem )
Impacto - metido à força ( Idem.
)
Refrão - consideram-no
galicismo. Rep1ico com a frase de um mestre, Castilho: "Eis o eterno refrão
com que nos quebram o bichinho do ouvido."
Inusitado - Também se considerou
francesismo. Em latim, inusitatus.
Não notaram outros. Antes considerassem
à pág. 296, linha 3.ª a deplorável tortura de um verbo intransitivo que
sucessivas revisões não libertaram; e outros que exigem mais séria
mondadura.
27- 4-1903
Euclides da Cunha.
Nota Preliminar
Escrito nos raros intervalos de folga
de uma carreira fatigante, este livro, que a princípio se resumia à história
da Campanha de Canudos, perdeu toda a atualidade, remorada a sua publicação em
virtude de causas que temos por escusado apontar.
Demos lhe, por isto, outra feição,
tomando apenas variante de assunto geral o tema, a princípio dominante, que o
sugeriu.
Intentamos esboçar, palidamente embora,
ante o olhar de futuros historiadores, os traços atuais mais expressivos das
sub-raças sertanejas do Brasil. E fazêmo-lo porque a sua instabilidade de
complexos de fatores múltiplos e diversamente combinados, aliada às
vicissitudes históricas e deplorável situação mental em que jazem, as tomam
talvez efêmeras, destinadas a próximo desaparecimento ante as exigências
crescentes da civilização e a concorrência material intensiva das correntes
migratórias que começam a invadir profundamente a nossa terra.
O jagunço destemeroso, o tabaréu
ingênuo e o caipira simplório serão em breve tipos relegados às tradições
evanescentes, ou extintas.
Primeiros efeitos de variados
cruzamentos, destinavam-se talvez à formação dos princípios imediatos de uma
grande raça. Faltou-lhes, porém, uma situação de parada, o equilíbrio, que
Ihes não permite mais a velocidade adquirida pela marcha dos povos neste
século. Retardatários hoje, amanhã se extinguirão de todo.
A civilização avançará nos sertões
impelida por essa implacável "força motriz da História" que Gumplowicz, maior
do que Hobbes, lobrigou, num lance genial, no esmagamento inevitável das raças
fracas pelas raças fortes.
A campanha de Canudos tem por isto a
significação inegável de um primeiro assalto, em luta talvez longa. Nem
enfraquece o asserto o termo-la realizado nós filhos do mesmo solo, porque,
etnologicamente indefinidos, sem tradições nacionais uniformes, vivendo
parasitariamente à beira do Atlântico, dos princípios civilizadores elaborados
na Europa, e armados pela indústria alemã - tivemos na ação um papel
singular de mercenários inconscientes. Além disto, mal unidos àqueles
extraordinários patrícios pelo solo em parte desconhecido, deles de todo nos
separa uma coordenada histórica - o tempo.
Aquela campanha lembra um refluxo para
o passado.
E foi, na significação integral da
palavra, um crime.
Denunciemo-lo.
E tanto quanto o permitir a firmeza do
nosso espírito façamos jus ao admirável conceito de Taine sobre o narrador
sincero que encara a História como ela merece:
"il s’ irrite contre les demi vérités
que sont des demi faussetés, contre les auteurs qui n’altèrent ni une date, ni
une généalogie, mais dénaturent les sentiments et les moeurs, qui gardent le
dessin des événements et en changent la couleur, qui copient les faits et
défigurent l'âme; il veut sentir en barbare, parmi les barbares, et, parmi les
anciens, en ancien. "
Euclides da Cunha.
São Paulo, 1901
A TERRA
Capítulo I
Preliminares. A entrada do sertão. Terra ignota. Em caminho
para Monte Santo. Primeiras impressões. Um sonho de geólogo.
O Planalto Central do Brasil desce, nos
litorais do Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares;
e desata-se em chapadões nivelados pelos visos das cordilheiras marítimas,
distendidas do Rio Grande a Minas. Mas ao derivar para as terras setentrionais
diminui gradualmente de altitude, ao mesmo tempo que descamba para a costa
oriental em andares, ou repetidos socalcos, que o despem da primitiva grandeza
afastando-o consideravelmente para o interior.
De sorte que quem o contorna, seguindo
para o norte, observa notáveis mudanças de relevos: a principio o traço
contínuo e dominante das montanhas, precintando-o, com destaque saliente,
sobre a linha projetante das praias; depois, no segmento de orla marítima
entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, um aparelho litoral revolto, feito
da envergadura desarticulada das serras, riçado de cumeadas e corroído de
angras, e escancelando-se em baias, repartindo-se em ilhas, e desagregando-se
em recifes desnudos, à maneira de escombros do conflito secular que ali se
trava entre os mares e a terra; em seguida, transposto o 15° paralelo, a
atenuação de todos os acidentes - serranias que se arredondam e
suavizam as linhas dos taludes, fracionadas em morros de encostas indistintas
no horizonte que se amplia; até que em plena faixa costeira da Bahia, o olhar,
livre dos anteparos de serras que até lá o repulsam e abreviam, se dilata em
cheio para o ocidente, mergulhando no âmago da terra amplíssima lentamente
emergindo num ondear longínquo de chapadas...
Este facies geográfico resume a
morfogenia do grande maciço continental.
Demonstra-o análise mais íntima feita
por um corte meridiano qualquer, acompanhando à bacia do S. Francisco.
Vê-se, do fato, que três formações
geognósticas díspares, de idades mal determinadas, aí se substituem, ou se
entrelaçam, em estratificações discordantes, formando o predomínio exclusivo
de umas, ou a combinação de todas, os traços variáveis da fisionomia da terra.
Surgem primeiro as possantes massas gnaissegraníticas, que a partir do extremo
sul se encurvam em desmedido anfiteatro, alteando as paisagens admiráveis que
tanto encantam e iludem as vistas inexpertas dos forasteiros. A princípio
abeiradas do mar progridem em sucessivas cadeias, sem rebentos laterais, até
as raias do litoral paulista, feito dilatado muro de arrimo sustentando as
formações sedimentárias do interior. A terra sobranceia o oceano, dominante,
do fastígio das escarpas; e quem a alcança como quem vinga a rampa de um
majestoso palco, justifica todos os exageros descritivos - do
gongorismo de Rocha Pita às extravagâncias geniais de Buckle - que
fazem deste país região privilegiada, onde a natureza armou a sua mais
portentosa oficina.
É que, de feito, sob o tríplice aspecto
astronômico, topográfico e geológico a nenhuma se afigura tão afeiçoada à
Vida.
Transmontadas as serras, sob a linha
fulgurante do trópico, vêem-se, estirados para o ocidente e norte, extensos
chapadões cuja urdidura de camadas horizontais de grés argiloso, intercaladas
de emersões calcárias, ou diques de rochas eruptivas básicas, do mesmo passo
lhes explica a exuberância sem par e as áreas complanadas e vastas. A terra
atrai irresistivelmente o homem, arrebatando-o na própria correnteza dos rios
que, do Iguaçu ao Tietê, traçando originalíssima rede hidrográfica, correm da
costa para os sertões, como se nascessem nos mares e canalizassem as suas
energias eternas para os recessos das matas opulentas. Rasgam facilmente
aqueles estratos em traçados uniformes, sem talvegues deprimidos, e dão ao
conjunto dos terrenos até além do Paraná a feição de largos plainos ondulados,
desmedidos.
Entretanto, para leste a natureza é
diversa.
Estereografa-se, duramente, nas placas
rígidas dos afloramentos gnáissicos; e o talude dos planaltos dobra-se do
socalco da Mantiqueira, onde se encaixa o Paraíba, ou desfaz-se em rebentos
que, após apontarem as alturas de píncaros centralizados pelo Itatiaia, levam
até o âmago de Minas as paisagens alpestres do litoral. Mas ao penetrar-se
este Estado nota-se, malgrado o tumultuar das serranias, lenta descensão geral
para o norte. Como nos altos chapadões de São Paulo e do Paraná, todas as
caudais revelam este pendor insensível com derivarem em leitos contorcidos e
vencendo, contrafeitas, o antagonismo permanente das montanhas: o rio Grande
rompe, rasgando-a com a força viva da corrente, a serra da Canastra, e,
norteados pela meridiana, abrem-se adiante os fundos vales de erosão do rio
das Velhas e do S. Francisco. Ao mesmo tempo, transpostas as sublevações que
vão de Barbacena a Ouro Preto, as formações primitivas desaparecem, mesmo nas
maiores eminências, e jazem sotopostas a complexas séries de xistos
metamórficos, infiltrados de veeiros fartos, nas paragens lendárias do
ouro.
A mudança estrutural origina quadros
naturais mais imponentes que os da borda marítima. A região continua alpestre.
O caráter das rochas, exposto nas abas dos cerros de quartzito, ou nas grimpas
em que se empilham as placas do itacolomito avassalando as alturas, aviva
todos os acidentes, desde os maciços que vão de Ouro Branco a Sabará, à zona
diamantina expandindo-se para nordeste nas chapadas que se desenrolam
nivelando-se às cimas da serra do Espinhaço; e esta, apesar da sugestiva
denominação de Eschwege, mal sobressai, entre aquelas lombadas definidoras de
uma situação dominante. Dali descem, acachoantes, para o levante, tombando em
catadupas ou saltando "travessões" sucessivos, todos os rios que do
Jequitinhonha ao Doce procuram os terraços inferiores do planalto arrimados à
serra dos Aimorés; e volvem águas remansadas para o poente os que se destinam
à bacia de captação do S. Francisco, em cujo vale, depois de percorridas ao
sul as interessantes formações calcárias do rio das Velhas, salpintadas de
lagos, solapadas de sumidouros e ribeirões subterrâneos, onde se abrem as
cavernas do homem pré-histórico de Lund, se acentuam outras transições na
contextura superficial do solo.
De fato, as camadas anteriores, que
vimos superpostas às rochas graníticas, decaem, por sua vez sotopondo-se a
outras, mais modernas de espessos estratos de grés.
Novo horizonte geológico reponta com um
traço original e interessante. Mal estudado embora, caracteriza-o notável
significação orográfica, porque as cordilheiras dominantes do sul ali se
extinguem, soterradas, numa inumação estupenda, pelos possantes estratos mais
recentes, que as circundam. A terra, porém, permanece elevada, alongando-se em
planuras amplas, ou avultando em falsas montanhas de denudação, descendo em
aclives fortes, mas tendo os dorsos alargados em plainos inscritos num
horizonte de nível, apenas apontoado a leste pelos vértices dos albardões
distantes, que perlongam a costa.
Verifica-se, assim, a tendência para um
aplainamento geral.
Porque, neste coincidir das terras
altas do interior e a depressão das formações arqueanas, a região montanhosa
de minas se vai prendendo, sem ressaltos, à extensa zona dos tabuleiros do
norte.
A serra do Grão Mogol raiando as lindes
da Bahia, é o primeiro espécimen dessas esplêndidas chapadas imitando
cordilheiras, que tanto perturbam aos geógrafos descuidados; e as demais que a
convizinham, da do Cabral mais próxima, à da Mata da Corda alongando-se para
Goiás, modelam-se de maneira idêntica. Os sulcos de erosão que as retalham são
cortes geológicos expressivos. Ostentam em plano vertical, sucedendo-se a
partir da base, as mesmas rochas que vimos substituírem em alongado roteiro
pela superfície: embaixo os rebentos graníticos decaídos pelo fundo dos vales,
em cômoros esparsos; à meia encosta, inclinadas, as placas xistosas mais
recentes; no alto, sobrepujando-as, ou circuitando-lhes os flancos em vales
monoclínicos, os lençóis de grés, predominantes e oferecendo aos agentes
meteóricos plasticidade admirável aos mais caprichosos modelos. Sem linhas de
cumeadas, as maiores serranias nada mais são que planuras altas, extensas
rechãs terminando de chofre em encostas abruptas, na molduragem golpeante do
regímen torrencial sobre o terreno permeável e móvel. Caindo por ali há
séculos as fortes enxurradas, derivando a princípio em linhas divagantes de
drenagem, foram pouco a pouco reprofundando-as, talhando-as em quebradas que
se fizeram cañons, e se fizeram vales em declive, até orlarem de escarpamentos
e despenhadeiros aqueles plainos soerguidos. E consoante a resistência dos
materiais trabalhados variaram nos aspectos: aqui apontam, rijamente, sobre as
áreas de nível, os últimos fragmentos das rochas enterradas, desvendando-se em
fraguedos que mal relembram, na altura, o antiqüíssimo "Himalaia brasileiro",
desbarrancado, em desintegração contínua, por todo o curso das idades;
adiante, mais caprichosos, se escalonam em alinhamentos incorretos de menires
colossais, ou em círculos enormes, recordando na disposição dos grandes blocos
superpostos, em rimas, muramentos desmantelados de ciclópicos coliseus em
ruínas ou então, pelos visos das escarpas, oblíquos e sobreanceando as
planuras que, interopostos, ladeiam, lembram aduelas desconformes, restos da
monstruosa abóbada da antiga cordilheira, desabada...
Mas desaparecem de todo em vários
pontos.
Estiram-se então planuras vastas.
Galgando-as pelos taludes, que as soerguem dando-lhes a aparência exata de
tabuleiros suspensos, topam-se, a centenas de metros, extensas áreas
ampliando-se, boleadas, pelos quadrantes, numa prolongação indefinida, de
mares. É a paragem formosíssima dos campos gerais, expandida em chapadões
ondulantes -grandes tablados onde campeia a sociedade rude dos
vaqueiros...
Atravessêmo-la.
Adiante, a partir de Monte Alto, estas
conformações naturais se bipartem: no rumo firme do norte a série do grés
figura-se progredir até ao plateau arenoso do Açuruá, associando-se ao
calcário que aviva as paisagens na orla do grande rio, prendendo-as às linhas
dos cerros talhados em diáclase, tão bem expressos no perfil fantástico do Bom
Jesus da Lapa; enquanto para nordeste, graças a degradações intensas (porque a
serra Geral segue por ali como anteparo aos alísios, condensando-os em
diluvianos aguaceiros), se desvendam, ressurgindo, as formações antigas.
Desenterram-se as montanhas.
Reponta a região diamantina, na Bahia,
revivendo inteiramente a de Minas, como um desdobramento ou antes um
prolongamento, porque é a mesma formação mineira rasgando, afinal, os lençóis
de grés, e alteando-se com os mesmos contornos alpestres e perturbados, nos
alcantis que irradiam da Tromba ou avultam para o norte nos xistos huronianos
das cadeias paralelas de Sincorá.
Deste ponto em diante, porém, o eixo da
serra Geral se fragmenta, indefinido. Desfaz-se. A cordilheira eriça-se de
contrafortes e talhados de onde saltam, acachoando, em despenhos, para o
levante, as nascentes do Paraguaçu, e um dédalo de serranias tortuosas, pouco
elevadas mas inúmeras, cruza-se embaralhadamente sobre o largo dos gerais,
cobrindo-os. Transmuda-se o caráter topográfico, retratando o desapoderado
embater dos elementos, que ali reagem há milênios entre montanhas derruídas, e
a queda, até então gradativa, dos planaltos começa a derivar em
desnivelamentos consideráveis. Revela-os o S. Francisco, no vivo infletir com
que torce para o levante, indicando do mesmo passo a transformação geral da
região.
Esta é mais deprimida e mais
revolta.
Cai para os terraços inferiores, entre
um tumultuar de morros, incoerentemente esparsos. Último rebento da serra
principal, a da Itiúba reúne-lhe alguns galhos indecisos, fundindo as
expansões setentrionais das da Furna, Cocais e Sincorá. Alteia-se um momento,
mas descai logo para todos os rumos: para o norte, originando a corredeira de
quatrocentos quilômetros à jusante do Sobradinho; para o sul, em segmentos
dispersos que vão até além do Monte Santo; e para leste, passando sob as
chapadas de Jeremoabo, até se desvendar no salto prodigioso de Paulo
Afonso.
E o observador que seguindo este
itinerário deixa as paragens em que se revezam, em contraste belíssimo, a
amplitude dos gerais e o fastígio das montanhas, ao atingir aquele ponto
estaca surpreendido...
A entrada sertão
Está sobre um socalco do maciço
continental, ao norte.
Demarca-o de uma banda, abrangendo dois
quadrantes, em semicírculo, o rio de S. Francisco: e de outra, encurvando
também para sudeste, numa normal a direção primitiva, o curso flexuoso do
Itapicuru-açu. Segundo a mediana, correndo quase paralelo entre aqueles, com o
mesmo descambar expressivo para a costa, vê-se o traço de um outro rio, o
Vaza-Barris, o Irapiranga dos tapuias, cujo trecho de Jeremoabo para as
cabeceiras é uma fantasia de cartógrafo. De fato, no estupendo degrau, por
onde descem para o mar ou para jusante de Paulo Afonso as rampas esbarrancadas
do planalto, não há situações de equilíbrio para uma rede hidrográfica normal.
Ali reina a drenagem caótica das torrentes, a naquele da Bahia facies
excepcional e selvagem.
Terra ignota
Abordando-o, compreende-se que até hoje
escasseiem sobre tão grande trato de território, que quase abarcaria a Holanda
(9º 11' - 10º 20' de lat. e 4° - 3° de long. O.R.J. ), notícias
exatas ou pormenorizadas. As nossas melhores cartas, enfeixando informes
escassos, lá têm um claro expressivo, um hiato, Terra ignota, em que se
aventura o rabisco de um rio problemático ou idealização de uma corda de
serras.
E. que transpondo o Itapicuru, pelo
lado do sul, as mais avançadas turmas de povoadores estacaram em vilarejos
minúsculos - Maçacará, Cumbe ou Bom Conselho - entre os quais o
decaído Monte Santo tem visos de cidade: transmontada a Itiúba, a sudoeste,
disseminaram-se pelos povoados que a abeiram acompanhando insignificantes
cursos de água, ou pelas raras fazendas de gado, estremados todos por uma
tapera obscura - Uauá, ao norte e a leste pararam às margens do S.
Francisco, entre Capim Grosso e Santo Antônio da Glória.
Apenas naquele último rumo se avantajou
uma vila secular, Jeremoabo, batizando o máximo esforço de penetração em tais
lugares, evitados sempre pelas vagas humanas, que vinham do litoral baiano
procurando o interior.
Uma ou outra o cortou, rápida, fugindo,
sem deixar traços.
Nenhuma lá se fixou. Não se podia
fixar. O estranho território, a menos de quarenta léguas da antiga metrópole,
predestinava-se a atravessar absolutamente esquecido os quatrocentos anos da
nossa história. Porque enquanto as bandeiras do sul lhe paravam à beira e
envesgando, depois, pelos flancos da Itiúba, se lançavam para Pernambuco e
Piauí até o Maranhão as do levante, repelidas pela barreira intransponível de
Paulo Afonso, iam procurar, no Paraguaçu e rios que lhe demoram ao sul, linhas
de acesso mais praticáveis, Deixavam-no de permeio, inabordável, ignoto.
É que mesmo trilhando o último daqueles
rumos, adstritas a itinerário menos longo, as salteava impressionadoramente o
aspecto estranho da terra repontando em transições imprevistas.
Deixando a orla marítima e seguindo em
cheio para o ocidente, tinham, transcorridas poucas léguas, amolentada ou
desinfluída a atração das "entradas" aventurosas, e extinta a miragem do
litoral opulento. Logo a partir de Camassari as formações antigas cobrem-se de
escassas manchas terciárias, alternando com exíguas bacias cretáceas,
revestidas do terreno arenoso de Alagoinhas que mal esgarçam, a leste, as
emersões calcárias de Inhambupe. A vegetação em roda transmuda-se, copiando
estas alternativas com a precisão de um decalque. Rarefazem-se as matas, ou
empobrecem. Extinguem-se, por fim, depois de lançarem rebentos esparsos pelo
topo das serranias; e estas mesmo, aqui e ali, cada vez mais raras, ilham-se
ou avançam em promontório nas planuras desnudas dos campos, onde uma flora
característica - arbustos flexuosos entrechassados de bromélias rubras
- prepondera exclusiva em largas áreas, mal dominada pela vegetação
vigorosa irradiante da Pojuca sobre o massapé feraz das camadas cretáceas
decompostas.
Deste lugar em diante, reaparecem os
terrenos terciários esterilizadores, sobre os mais antigos que, entretanto,
depois, dominam em toda a zona centralizada em Serrinha. Os morros do Lopes e
do Lajedo aprumam-se, à maneira de disformes pirâmides de blocos arredondados
e lisos; e os que se sucedem, beirando de um e outro lado as abas das serras
da Saúde e da Itiúba, até Vila Nova da Rainha e Juazeiro, copiam-lhes os
mesmos contornos das encostas estaladas, exumando a ossatura partida das
montanhas.
O observador tem a impressão de seguir
torneando a truncadura malgradada da borda de um planalto.
Calca, de fato, estrada três vezes
secular, histórica vereda por onde avançavam os rudes sertanistas nas suas
excursões para o interior.
Não a alteraram nunca.
Não a variou, mais tarde, a
civilização, justapondo aos rastos do bandeirante os trilhos de uma via
férrea.
Porque o caminho em cuja longura de cem
léguas, da Bahia ao Juazeiro, se entroncam numerosíssimos desvios para o
poente e para o sul, jamais comportou, a partir de seu trecho médio, variante
apreciável para leste e para o norte.
Calcando-o, em demanda do Piauí,
Pernambuco, Maranhão e Pará, os povoadores, consoante vários destinos,
dividiam-se em Serrinha. E progredindo para Juazeiro, ou volvendo à direita,
pela estrada real do Bom Conselho que, desde o século 17, os levava a Santo
Antônio da Glória e Pernambuco - uns e outros contorneavam sempre,
evitando-a sempre, a paragem sinistra e desolada, subtraindo-se a uma
travessia torturante.
De sorte que aquelas duas linhas de
penetração, que vão interferir o S. Francisco em pontos afastados -
Juazeiro e Santo Antônio da Glória -, formavam, desde aqueles tempos,
as lindes de um deserto.
Em caminho para Monte Santo
No entanto quem se abalança a
atravessá-lo, partindo de Queimadas para nordeste, não se surpreende a
princípio. Recurvo em meandros, o Itapicuru alenta vegetação vivaz; e as
barrancas pedregosas do Jacurici debruam-se de pequenas matas. O terreno,
areento e chão, permite travessia desafogada e rápida. Aos lados do caminho
ondulam tabuleiros rasos. A pedra, aflorando em lajedos horizontais, mal
movimenta o solo, esgarçando a tênue capa das areias que o revestem.
Vêem-se, porém, depois, lugares que se
vão tornando crescentemente áridos.
Varada a estreita faixa de cerrados,
que perlongam aquele último rio, está-se em pleno agreste, no dizer expressivo
dos matutos: arbúsculos quase sem pega sobre a terra escassa, enredados de
esgalhos de onde irrompem, solitários, cereus rígidos e salientes, dando ao
conjunto a aparência de uma margem de desertos. E o facies daquele sertão
inóspito vai-se esboçando, lenta e impressionadoramente...
Galga-se uma ondulação qualquer
- e ele se desvenda ou se deixa adivinhar, ao longe, no quadro
tristonho de um horizonte monótono em que se esbate, uniforme, sem um traço
diversamente colorido, o pardo requeimado das caatingas.
Intercorrem ainda paragens menos
estéreis, e nos trechos em que se operou a decomposição in situ do granito,
originando algumas manchas argilosas, as copas virentes dos ouricurizeiros
circuitam - parêntesis breves abertos na aridez geral - as
bordas das ipueiras. Estas lagoas mortas, segundo a bela etimologia indígena,
demarcam obrigatória escala ao caminhante. Associando-se às cacimbas e
"caldeirões", em que se abre a pedra, são-lhe recurso único na viagem
penosíssima. Verdadeiros oásis, têm contudo, não raro, um aspecto lúgubre:
localizadas em depressões, entre colinas nuas, envoltas pelos mandacarus
despidos e tristes, como espectros de árvores; ou num colo de chapada,
recortando-se com destaque no chão poento e pardo, graças à placa verde-negra
das algas unicelulares que as revestem.
Algumas denotam um esforço dos filhos
do sertão. Encontram-se, orlando-as, erguidos como represas entre as encostas,
toscos muramentos de pedra seca. Lembram monumentos de uma sociedade obscura.
Patrimônio comum dos que por ali se agitam nas aperturas do clima feroz, vêm
em geral, de remoto passado. Delinearam-nos os que se afoitaram primeiro com
as vicissitudes de uma entrada naquelas bandas. E persistem indestrutíveis,
porque o sertanejo, por mais escoteiro que siga, jamais deixa de levar uma
pedra que calce as suas junturas vacilantes.
Mas transpostos estes pontos -
imperfeita cópia das barragens romanas remanescentes na Tunísia -
entra-se outra vez nos areais exsicados. E avançando célere, sobretudo nos
trechos em que se sucedem pequenas ondulações, todas da mesma forma e do mesmo
modo dispostas, o viajante mais rápido tem a sensação da imobilidade.
Patenteiam-se-lhe uniformes, os mesmos quadros, num horizonte invariável que
se afasta à medida que ele avança. Raras vezes, como no povoado minúsculo de
Cansanção, larga emersão de terreno fértil se recama de vegetação virente.
Despontam vivendas pobres; algumas
desertas pela retirada dos vaqueiros que a seca espavoriu; em ruínas, outras,
agravando todas no aspecto paupérrimo o traço melancólico das paisagens...
Nas cercanias de Quirinquinquá, porem,
começa a movimentar-se o solo. O pequeno sítio ali ereto alevanta-se já sobre
alta expansão granítica, e atentando-se para o norte divisa-se região diversa
- riçada de vales e serranias, perdendo-se ao longe em grimpas
fugitivas. A serra de Monte Santo, com um perfil de todo oposto aos redondos
contornos que lhe desenhou o ilustre Martins, empina-se, a pique, na frente,
em possante dique de quartzito branco, de azulados tons, em relevo sobre a
massa gnáissica que Constitui toda a base do solo. Dominante sobre seu enorme
paredão, vincado pelas linhas dos estratos, expostas pela erosão eólia,
afigura-se cortina de muralha monumental. Termina em crista altíssima,
estremando-lhe o desenvolvimento no rumo de 13° NE, a cavaleiro da vila que se
lhe erige no sopé. Centraliza um horizonte vasto. Observa-se, então, que
atenuados para o sul e leste, os acidentes predominantes da terra progridem
avassalando os quadrantes do norte.
O sítio do Caldeirão, três léguas
adiante, ergue-se à margem dessa sublevação metamórfica; e alcançando-o, e
transpondo entra-se. afinal, em cheio, no sertão adusto...
Primeiras impressões
É uma paragem impressionadora
As condições estruturais da terra lá se
vincularam à violência máxima dos agentes exteriores para o desenho de relevos
estupendos. O regímen torrencial dos climas excessivos, sobrevindo, de súbito,
depois das insolações demoradas, e embatendo naqueles pendores, expôs há
muito, arrebatando-lhes para longe todos os elementos degradados, as séries
mais antigas daqueles últimos rebentos das montanhas: todas as variedades
cristalinas, e os quartzitos ásperos, e as filades e calcários, revezando-se
ou entrelaçando-se, repontando duramente a cada passo, mal cobertos por uma
flora tolhiça - dispondo-se em cenários em que ressalta predominante, o
aspecto atormentado das paisagens.
Porque o que estas denunciam -
no enterroado do chão, no desmantelo dos cerros quase desnudos, no contorcido
dos leitos secos dos ribeirões efêmeros, no constrito das gargantas e no quase
convulsivo de uma flora decídua embaralhada em esgalhos - é de algum
modo o martírio da terra, brutalmente golpeada pelos elementos variáveis,
distribuídos por todas as modalidades climáticas. De um lado a extrema secura
dos ares, no estio, facilitando pela irradiação noturna a perda instantânea do
calor absorvido pelas rochas expostas às soalheiras, impõe-lhes a alternativa
de alturas e quedas termométricas repentinas: e daí um jogar de dilatações e
contrações que as disjunge, abrindo-as segundo os planos de menor resistência.
De outro, as chuvas que fecham, de improviso, os ciclos adurentes das secas,
precipitam estas reações demoradas.
As forças que trabalham a terra
atacam-na na contextura íntima e na superfície sem intervalos na ação
demolidora, substituindo-se, com intercadência invariável, nas duas estações
únicas da região.
Dissociam-na nos verões queimosos;
degradam-na nos invernos torrenciais. Vão do desequilíbrio molecular, agindo
surdamente, à dinâmica portentosa das tormentas. Ligam-se e completam-se. E
consoante o preponderar de uma e outra, ou o entrelaçamento de ambas,
modificam-se os aspectos naturais. As mesmas assomadas gnáissicas
caprichosamente cindidas em planos quase geométricos, à maneira de silhares,
que surgem em numerosos pontos, dando, às vezes, a ilusão de encontrar-se, de
repente, naqueles ermos vazios, majestosas ruinarias de castelos -
adiante se cercam de fraguedos, em desordem, mal seguros sobre as bases
estreitas, em ângulos de queda, incombentes e instáveis, feito loghans
oscilantes, ou grandes desmoronamentos de dolmens; e mais longe desaparecem
sob acervos de blocos, com a imagem perfeita desses "mares de pedra" tão
característicos dos lugares onde imperam os regímens excessivos. Pelas abas
dos cerros, que tumultuam em roda - restos de velhíssimas chapadas
corroídas -, se derramam, ora em alinhamentos relembrando velhos
caminhos de geleiras, ora esparsos a esmo, espessos lastros de seixos e lajens
fraturadas, delatando idênticas violências. As arestas dos fragmentos, onde
persistem ainda cimentados ao quartzo os cristais de feldspato, são novos
atestados desses eleitos físicos e mecânicos que, despedaçando as rochas, sem
que se decomponham os seus elementos formadores, se avantajaram ao vagar dos
agentes químicos em função dos fatos meteorológicos normais.
Deste modo se tem a cada passo, em
todos os pontos, um lineamento incisivo de rudeza extrema. Atenuando-o em
parte, deparam-se várzeas deprimidas, sedes de antigos lagos, extintos agora
em ipueiras apauladas, que demarcam os pousos dos vaqueiros. Recortam-nas, no
entanto, abertos em caixão, os leitos as mais das vezes secos de ribeirões que
só se enchem nas breves estações das chuvas. Obstruídos, na maioria, de
espessos lastros de blocos entre os quais, fora das enchentes súbitas, defluem
tênues fios de água, são uma reprodução completa dos oueds que marginam o
Saara. Despontam-lhes em geral, normais às barrancas, estratos de um
talcoxisto azul-escuro em placas brunidas reverberando a luz em fulgurar
metálico - e sobre elas, cobrindo extensas áreas, camadas menos
resistentes de argila vermelha, cindidas de veios de quartzo,
interceptando-lhes, discordantes, os planos estratigráficos. Estas últimas
formações, silurianas talvez, cobrem de todo as demais à medida que se caminha
para NE e apropriam-se a contornos mais corretos. Esclarecem a gênese dos
tabuleiros rasos, que se desatam, cobertos de uma vegetação resistente, de
mangabeiras, até Jeremoabo.
Para o norte, porém, inclinam-se mais
fortemente as camadas. Sucedem-se cômoros despidos, de pendores resvalantes,
descaindo em quebradas onde enxurram torrentes periódicas, solapando-os; e
pelos seus topos divisam-se, alinhadas em fileiras, destacadas em lâminas, as
mesmas infiltrações quartzosas, expostas pela decomposição dos xistos em que
se embebem.
À luz crua dos dias sertanejos aqueles
cerros, aspérrimos rebrilham, estonteadoramente - ofuscante, num
irradiar ardentíssimo.
As erosões constantes quebram, porém, a
continuidade destes estratos que ademais, noutros pontos, desaparecem sob as
formações calcárias. Mas o conjunto pouco se transmuda. A feição ruiniforme
destas, casa-se bem a dos outros acidentes. E nos trechos em que elas se
estiram, planas, pelo solo, desabrigadas de todo ante a acidez corrosiva dos
aguaceiros tempestuosos, crivam-se, escarificadas, de cavidades circulares e
acanaladuras fundas, diminutas mas inúmeras, tangenciando-se em quinas de
rebordos cortantes, em pontas e duríssimos estrepes que impossibilitam as
marchas.
Deste modo, por qualquer vereda,
sucedem-se acidentes pouco elevados mas abruptos, pelos quais tornejam os
caminhos, quando não se justapõem por muitas légua aos leitos vazios dos
ribeirões esgotados. E por mais inexperto que seja o observador - ao
deixar as perspectivas majestosas, que se desdobram ao Sul, trocando-as pelos
cenários emocionantes daquela natureza torturada, tem a impressão persistente
de calcar o fundo recém-sublevado de um mar extinto, tendo ainda estereotipada
naquelas camadas rígidas a agitação das ondas e das voragens...
Um sonho de geólogo
É uma sugestão empolgante.
Vai-se de boa sombra com um naturalista
algo romântico, imaginando-se que por ali turbilhonaram, largo tempo, na idade
terciária, as vagas e as correntes.
Porque, a despeito da escassez de dados
permitindo uma dessas profecias retrospectivas, no dizer elegante de Huxley,
capaz de esboçar a situação daquela zona em idades remotas, todos os
caracteres que sumariamos reforçam a concepção aventurosa.
Alentam-na ainda: o estranho
desnudamento da terra; os alinhamentos notáveis em que jazem os materiais
fraturados, orlando, em verdadeiras curvas de nível, os flancos das serranias;
as escarpas dos tabuleiros terminando em taludes a prumo, que recordam
falaises; e, até certo ponto, os restos da fauna pliocena, que fazem dos
caldeirões enormes ossuários de mastodontes, cheios de vértebras caldeirões
desconjuntadas e partidas, como se ali a vida fosse, de chofre, salteada e
extinta pelas energias revoltas de um cataclismo.
Há também a presunção derivada de
situação anterior, exposta em dados positivos. As pesquisas de Fred. Hartt, de
fato, estabelecem, nas terras circunjacentes a Paulo Afonso, a existência de
inegáveis bacias cretáceas; e sendo os fósseis que as definem idênticos aos
encontrados no Peru e México, e contemporâneos dos que Agassiz descobriu no
Panamá - todos estes elementos se acolchetam no deduzir-se que vasto
oceano cretáceo rolou as suas ondas sobre as terras fronteiras das duas
Américas, ligando o Atlântico ao Pacífico. Cobria, assim, grande parte dos
Estados setentrionais brasileiros, indo bater contra os terraços superiores
dos planaltos, onde extensos depósitos sedimentários denunciam idade mais
antiga, o paleozóico médio.
Então, destacadas das grandes ilhas
emergentes, as grimpas mais altas das nossas cordilheiras mal apontavam ao
norte, na solidão imensa das águas...
Não existiam os Andes o Amazonas, largo
canal entre altiplanuras das Guianas e as do continente, separava-as, ilhadas.
Para as bandas do sul o maciço de Goiás - o mais antigo do mundo
- segundo a dedução dedução de Gerber, o de Minas e parte do Planalto
Paulista, onde fulgurava, em plena atividade, o vulcão de Caldas, constituíam
o núcleo do continente futuro . . .
Porque se operava lentamente uma
sublevação geral: as Nassas graníticas alteavam-se ao norte arrastando o
conjunto geral das terras numa rotação vagarosa em torno de um eixo, imaginado
por Em. Liais entre os chapadões de Barbacena e a Bolívia. Simultaneamente ,ao
abrir-se a época terciária, se realiza o fato prodigioso do alevantamento dos
Andes; novas terras afloram nas águas: tranca-se, num extremo, o canal
amazônico, transmudando-se no maior dos rios; ampliam-se os arquipélagos
esparsos, e ganglionam-se em istmos, e fundem-se; arredondam-se, maiores, os
contornos das costas; e integra-se lentamente, a América.
Então os terrenos da extrema
setentrional da Bahia, que se resumiam nos cachopos de quartzito de Monte
Santo e visos de Itiúba, esparsos pelas águas, avolumaram-se, num ascender
contínuo. Elas nesse vagaroso altear-se, enquanto as regiões mais altas
recém-desvendadas, se salpintavam de lagos, toda a parte média daquela escarpa
permanecia imersa. Uma corrente impetuosa, de que é forma decaído a atual da
nossa costa, enlaçava-a. E embatendo-a longamente, domina enquanto o resto do
país, ao sul, se erigia já constituído, e corroendo-a, e triturando-a,
remoinhando para oeste e arrebatando todos os materiais desagregados, modelava
aquele recanto da Bahia até que ele emergisse de todo, seguindo o movimento
geral das terras, feito informe amontoado de montanhas derruídas.
O regímen desértico ali se firmou,
então, em flagrante antagonismo com as disposições geográficas: sobre uma
escarpa, onde nada recorda as depressões sem escoamento dos desertos
clássicos.
Acredita-se que a região incipiente
ainda está preparando-se para a Vida: o líquen ainda ataca a pedra, fecundando
a terra. E lutando tenazmente com o flagelar do clima, uma flora de
resistência rara por ali entretece a trama das raízes, obstando, em parte, que
as torrentes arrebatem todos os princípios exsolvidos - acumulando-os
pouco a pouco na conquista da paragem desolada cujos contornos suaviza
- sem impedir, contudo, nos estios longos, as insolações inclementes e
as águas selvagens, degradando o solo.
Daí a impressão dolorosa que nos domina
ao atravessarmos aquele ignoto trecho do sertão - quase um deserto
- quer se aperte entre as dobras de serranias nuas ou se estire,
monotonamente, em descampados grandes...
Capítulo II
Golpe de vista do alto de Monte Santo. Do alto da Favela.
Do alto da serra de Monte Santo
atentando-se para a região, estendida em torno num raio de quinze léguas,
nota-se, como num mapa em relevo, a sua conformação orográfica. E vê-se que as
cordas de serras, ao invés de se alongarem para o nascente, medianas aos
traçados do Vaza-Barris e Itapicuru, formando-lhes o divortium aquarum,
progridem para o norte.
Mostram-no as serras Grande e do
Atanásio, correndo, e a princípio distintas, uma para NO e outra para N e
fundindo-se na do Acaru, onde abrolham os mananciais intermitentes do Bendegó
e seus tributários efêmeros. Unificadas, aliam-se às de Caraíbas e do Lopes e
nestas de novo se embebem, formando-se as massas do Cambaio, de onde irradiam
as pequenas cadeias do Coxomongó e Calumbi, e para o noroeste os píncaros
torreantes do Caipã. Obediente à mesma tendência, a do Aracati, lançando-se a
NO, à borda dos tabuleiros de Jeremoabo, progride, descontínua, naquele rumo
e, depois de entalhada pelo Vaza-Barris em Cocorobó, inflete para o poente,
repartindo-se nas da Canabrava e Poço-de-Cima, que a prolongam. Todas traçam,
afinal, elítica curva fechada ao sul por um morro, o da Favela, em torno de
larga planura ondeante onde se erigia o arraial de Canudos - e daí para
o norte, de novo se dispersam e decaem até acabarem em chapadas altas à borda
do S. Francisco.
Deste modo, no ascender para o norte,
procurando o chapadão que o Parnaíba escava, aquele talude dos planaltos
parece dobrar-se num ressalto, perturbando toda a área de drenagem do S.
Francisco abaixo da confluência do Patamuté, num traçado de torrentes sem
nome, inapreciáveis na mais favorável escala, e impondo ao Vaza-Barris um
curso tortuoso do qual ele se liberta em Jeremoabo, ao infletir para a
costa.
Este é um rio sem afluentes. Falta-lhe
conformidade com o declive da terra. Os seus pequenas tributários, o Bendegó e
Caraíbas, volvendo águas transitórias, dentro dos leitos rudemente escavados,
não traduzem as depressões do solo. Têm a existência fugitiva das estações
chuvosas. São, antes, canais de esgotamento, abertos a esmo pelos enxurros
- ou correntes velozes que, adstritas aos relevos topográficos mais
próximos, estão, não raro, em desarmonia com as disposições orográficas
gerais. São rios que sobem. Enchem-se de súbito; transbordam; reprofundam os
leitos, anulando o obstáculo do declive geral do solo; rolam por alguns dias
para o rio principal; e desaparecem, volvendo ao primitivo aspecto de valos em
torcicolos, cheios de pedras, e secos.
O próprio Vaza-Barris, rio sem
nascentes em cujo leito viçam gramíneas e pastam os rebanhos, não teria o
traçado atual se corrente perene lhe assegurasse um perfil de equilíbrio
através de esforço contínuo e longo. A sua função como agente geológico é
revolucionária. As mais vezes cortado, fracionando-se em gânglios estagnados,
ou seco, à maneira de larga estrada poenta e tortuosa, quando cresce,
empanzinado, nas cheias, captando as águas selvagens que estrepitam nos
pendores, volve por algumas semanas águas barrentas e revoltas, extinguindo-se
logo em esgotamento completo, vazando, como o indica o dizer português,
substituindo-lhe com vantagem a antiga denominação indígena. É uma onda
tombando das vertentes da Itiúba, multiplicando a energia da corrente no
apertado dos desfiladeiros, e correndo veloz entre barrancos, ou entalada em
serras, até Jeremoabo.
Vimos como a natureza, em roda, lhe
imita o regímen brutal - calcando-o em terreno agro, sem os cenários
opulentos das serras e dos tabuleiros ou dos sem-fins das chapadas -
mas feito um misto em que tais disposições naturais se baralham, em confusão
pasmosa: planícies que de perto revelam séries de cômoros, retalhados de
algares; morros que o contraste das várzeas faz de grande altura e estão
poucas dezenas de metros sobre o solo, e tabuleiros que em sendo percorridos
mostram a acidentação caótica de boqueirões escancelados e brutos. Nada mais
dos belos efeitos das denudações lentas, no remodelar os pendores, no
despertar os horizontes e no desatar - amplíssimos - os gerais
pelo teso das cordilheiras, dando aos quadros naturais a encantadora grandeza
de perspectivas em que o céu e a terra se fundem em difusão longínqua e
surpreendedora de cores...
Entretanto, inesperado quadro esperava
o viandante que subia, depois desta travessia em que supõe pisar escombros de
terremotos, as ondulações mais próximas de Canudos.
Do alto da Favela
Galgava o topo da Favela. Volvia em
volta o olhar para abranger de um lance o conjunto da terra. E nada mais
divisava recordando-lhe os cenários contemplados. Tinha na frente a antítese
do que vira. Ali estavam os mesmos acidentes e o mesmo chão, embaixo,
fundamente revolto, sob o indumento áspero dos pedregais e caatingas
estonadas... Mas a reunião de tantos traços incorretos e duros -
arregoados divagantes de algares, sulcos de despenhadeiros, socavas de
bocainas, criava-lhe perspectiva inteiramente nova. E quase compreendia que os
matutos crendeiros de imaginativa ingênua, acreditassem que "ali era o
céu...".
O arraial, adiante e embaixo, erigia-se
no mesmo solo perturbado. Mas vistos daquele ponto, de permeio a distância
suavizando-lhes as encostas e aplainando-os - todos os serrotes breves
e inúmeros, projetando-se em plano inferior e estendendo-se, uniformes, pelos
quadrantes, davam-lhe a ilusão de uma planície ondulante e grande.
Em roda uma elipse majestosa de
montanhas...
A Canabrava, a nordeste, de perfil
abaulado e simples; a do Poço de cima, próxima, mas íngreme e alta; a de
Cocorobó, no levante, ondulando em seladas, dispersa em esporões; as vertentes
retilíneas do Calumbi ao sul; as grimpas do Cambaio, no correr para o poente;
e, para o norte, os contornos agitados do Caipã -ligam-se e
articulam-se no infletir gradual traçando, fechada, a curva desmedida.
Vendo ao longe, quase de nível,
trancando-lhe o horizonte, aquelas grimpas altaneiras, o observador tinha a
impressão alentadora de se achar sobre plateau elevadíssimo, páramo
incomparável repousando sobre as serras.
Na planície rugada, embaixo, mal se
lobrigavam os pequenos cursos d'água, divagando, serpeantes...
Um único se distinguia, o Vaza-Barris.
Atravessava-a, torcendo-se em meandros. Presa numa dessas voltas via-se uma
depressão maior, circundada de colinas... E atulhando-a, enchendo-a toda de
confusos tetos incontáveis, um acervo enorme de casebres...
Capítulo III
O clima. Higrômetros singulares.
Dos breves apontamentos indicados,
resulta que os caracteres geológicos e topográficos, a par dos demais agentes
físicos, mutuam naqueles lugares as influências características de modo a não
se poder afirmar qual o preponderante.
Se, por um lado, as condições genéticas
reagem fortemente sobre os últimos, estes, por sua vez, contribuíram para o
agravamento daquelas; e todas persistem nas influência recíprocas. Deste
perene conflito feito num círculo vicioso indefinido, ressalta a dignificação
mesológica do local. Não há abrangê-la em todas modalidades. Escasseiam-nos as
observações às coisas desta terra, com uma inércia cômoda de mendigos
fartos.
Nenhum pioneiro da ciência suportou
ainda as agruras daquele rincão sertanejo, em prazo suficiente para o
definir.
Martius por lá passou, com a mira
essencial de observar o aerólito, que tombara à margem do Bendegó e era já,
desde 1810, conhecido nas academias européias, graças a F. Mornay e Wollaston.
Rompendo, porém, a região selvagem, desertus austral, como a batizou, mal
atentou para a teria recamada de uma flora extravagante, sylva horrida, no seu
latim alarmado. Os que o antecederam e sucederam palmilharam, ferretoados da
canícula, as mesmas trilhas rápidas, de quem foge. De sorte que sempre
evitado, aquele sertão, até hoje desconhecido, ainda o será por muito
tempo.
O que se segue são vagas conjeturas.
Atravessamo-lo no prelúdio de um estio ardente e, vendo-o apenas nessa quadra,
vimo-lo sob o pior aspecto. O que escrevemos tem o traço defeituoso dessa
impressão isolada, desfavorecida, ademais, por um meio contraposto à
serenidade do pensamento, tolhido pelas emoções da guerra. Além disto os dados
de um termômetro único e de um aneróide suspeito, misérrimo arsenal científico
com que ali lidamos, nem mesmo vagos lineamentos darão de climas que divergem
segundo as menores disposições topográficas, criando aspectos díspares entre
lugares limítrofes. O de Monte Santo, por ex., que é, ao primeiro comparar,
muito superior ao de Queimadas, diverge do dos lugares que lhe demoram ao
norte, sem a continuidade que era lícito prever de sua situação intermédia. A
proximidade das massas montanhosas torna-o estável, lembrando um regímen
marítimo em pleno continente: escala térmica oscilando em amplitudes
insignificantes; firmamento onde a transparência dos ares é completa e a
limpidez inalterável; e ventos reinantes, o SE no inverno e o NE no estio
- alternando-se com rigorismo raro. Mas está insulado. Para qualquer
das bandas, deixa-o o viajante num dia de viagem. Se vai para o norte,
salteiam-no transições fortíssimas: a temperatura aumenta; carrega-se o azul
dos céus; embaciam-se os ares; e as ventanias rolam desorientadamente de todos
os quadrantes - ante a tiragem intensa dos terrenos desabrigados, que
dali por diante se estiram. Ao mesmo tempo espelha-se o regímen excessivo: o
termômetro oscila em graus disparatados passando, já em outubro, dos dias com
35° à sombra para as madrugadas frias.
No ascender do verão acentua-se o
desequilíbrio. Crescem a um tempo as máximas e as mínimas, até que no fastígio
das secas transcorram as horas num intermitir inaturável de dias queimosos e
noites enregeladas.
A terra desnuda tendo contrapostas, em
permanente conflito, as capacidades emissiva e absorvente dos materiais que a
formam, do mesmo passo armazena os ardores das soalheiras e deles se esgota,
de improviso. Insola-se e enregela-se, em 24 horas. Fere-a o sol e ela
absorve-lhe os raios, e multiplica-os e reflete-os, e refrata-os, num
reverberar ofuscante: pelo topo dos cerros, pelo esbarrancado das encostas,
incendeiam-se as acendalhas da sílica fraturada, rebrilhantes, numa trama
vibrátil de centelhas; a atmosfera junto ao chão vibra num ondular vivíssimo
de bocas de fornalha em que se pressente visível, no expandir das colunas
aquecidas, a efervescência dos ares; e o dia, incomparável no fulgor, fulmina
a natureza silenciosa, em cujo seio se abate, imóvel, na quietude de um longo
espasmo, a galhada sem folhas da flora sucumbida.
Desce a noite, sem crepúsculo, de
chofre - um salto da treva por cima de uma franja vermelha do poente
- e todo este calor se perde no espaço numa irradiação intensíssima,
caindo a temperatura de súbito, numa queda única, assombrosa . . .
Ocorrem, todavia, variantes cruéis.
Propelidas pelo nordeste, espessas nuvens, tufando em cúmulos, pairam ao
entardecer sobre as areias incendidas. Desaparece o sol e a coluna mercurial
permanece imóvel, ou, de preferência, sobe. A noite sobrevém em fogo; a terra
irradia como um sol escuro, porque se sente uma dolorosa impressão de faúlhas
invisíveis; mas toda a ardência reflui sobre ela, recambiada pelas nuvens. O
barômetro cai, como nas proximidades das tormentas; e mal se respira no
bochorno inaturável em que toda a adustão golfada pela soalheira se concentra
numa hora única da noite.
Por um contraste explicável, este fato
jamais sucede nos paroxismos estivais das secas, em que prevalece a
intercadência de dias esbraseados e noites frigidíssimas, agravando todas as
angústias dos martirizados sertanejos.
Copiando o mesmo singular desequilíbrio
das forças que trabalham a terra, os ventos ali chegam, em geral,
turbilhonando revoltos, em rebojos largos. E, nos meses em que se acentua, o
nordeste grava em tudo sinais que lhe recordam o rumo.
Estas agitações dos ares desaparecem,
entretanto, por longos meses; reinando calmarias pesadas - ares imóveis
sob a placidez luminosa dos dias causticantes. Imperceptíveis exercem-se,
então, as correntes ascensionais dos vapores aquecidos sugando à terra a
umidade exígua; e quando se prolongam, esboçando o prelúdio entristecedor da
seca, a secura da atmosfera atinge a graus anormalíssimos.
Higrômetros singulares
Não a observamos através do rigorismo
de processos clássicos, mas graças a higrômetros inesperados e bizarros.
Percorrendo certa vez, nos fins de
setembro, as cercanias de Canudos, fugindo à monotonia de um canhoneio frouxo
de tiros espaçados e soturnos, encontramos, no descer de uma encosta,
anfiteatro irregular, onde as colinas se dispunham circulando a um vale único.
Pequenos arbustos, icozeiros virentes viçando em tufos intermeados de
palmatórias de flores rutilantes, davam ao lugar a aparência exata de algum
velho jardim em abandono. Ao lado uma árvore única, uma quixabeira alta,
sobranceando a vegetação franzina.
O sol poente desatava, longa, a sua
sombra pelo chão, e protegido por ela - braços largamente abertos, face
volvida para os céus, - um soldado descansava.
Descansava... havia três meses.
Morrera no assalto de 18 de julho. A
coronha da mannlicher estrondada, o cinturão e o boné jogados a uma banda, e a
farda em tiras, diziam que sucumbira em luta corpo a corpo com adversário
possante. Caíra, certo, derreando-se à violenta pancada que lhe sulcara a
fronte, manchada de uma escara preta. E ao enterrar-se, dias depois, os
mortos, não fora percebido. Não compartira, por isto, à vala comum de menos de
um côvado de fundo em que eram jogados, formando pela última vez juntos, os
companheiros abatidos na batalha. O destino que o removera do lar desprotegido
fizera-lhe afinal uma concessão: livrara-o da promiscuidade lúgubre de um
fosso repugnante; e deixara-o ali há três meses - braços largamente
abertos, rosto voltado para os céus, para os sóis ardentes, para os luares
claros, para as estrelas fulgurantes...
E estava intacto. Murchara apenas.
Mumificara conservando os traços fisionômicos, de modo a incutir a ilusão
exata de um lutador cansado, retemperando-se em tranqüilo sono, à sombra
daquela árvore benfazeja. Nem um verme - o mais vulgar dos trágicos
analistas da matéria - lhe maculara os tecidos. Volvia ao turbilhão da
vida sem decomposição repugnante, numa exaustão imperceptível. Era um aparelho
revelando de modo absoluto, mas sugestivo, a secura extrema dos ares.
Os cavalos mortos naquele mesmo dia
semelhavam espécimens empalhados, de museus. O pescoço apenas mais alongado e
fino, as pernas ressequidas e o arcabouço engelhado e duro.
À entrada do acampamento, em Canudos,
um deles, sobre todos, se destacava impressionadoramente. Fora a montada de um
valente, o alferes Wanderley; e abatera-se, morto juntamente com o cavaleiro.
Ao resvalar, porém, estrebuchando malferido, pela rampa íngreme, quedou,
adiante, à meia encosta, entalado entre fraguedos. Ficou quase em pé, com as
patas dianteiras firmes num ressalto da pedra... E ali estacou feito um animal
fantástico, aprumado sobre a ladeira, num quase curvetear, no último arremesso
da carga paralisada, com todas as aparências de vida, sobretudo quando, ao
passarem as rajadas ríspidas do nordeste, se lhe agitavam as longas crinas
ondulantes . . .
Quando aquelas lufadas, caindo a
súbitas, se compunham com as colunas ascendentes, em remoinhos turbilhonantes,
à maneira de minúsculos ciclones, sentia-se, maior, a exsicação do ambiente
adusto: cada partícula de areia suspensa do solo gretado e duro irradiava em
todos os sentidos, feito um foco calorífico, a surda combustão da terra.
Fora disto - nas longas
calmarias, fenômenos óticos bizarros.
Do topo da Favela, se a prumo dardejava
o sol e a atmosfera estagnada imobilizava a natureza em torno, atentando-se
para os descambados, ao longe, não se distinguia o solo.
O olhar fascinado perturbava-se no
desequilíbrio das camadas desigualmente aquecidas, parecendo varar através de
um prisma desmedido e intáctil, e não distinguia a base das montanhas, como
que suspensas. Então, ao norte da Canabrava, numa enorme expansão dos plainos
perturbados, via-se um ondular estonteador; estranho palpitar de vagas
longínquas; a ilusão maravilhosa de um seio de mar, largo, irisado, sobre que
caísse, e refrangesse, e ressaltasse a luz esparsa em cintilações
ofuscantes...
Capítulo IV
As secas. Hipóteses sobre a sua gênese. As caatingas.
O sertão de Canudos é um índice
sumariando a fisiografia dos sertões do Norte. Resume-os, enfeixa os seus
aspectos predominantes numa escala reduzida. É-lhes de algum modo uma zona
central comum.
De fato, a inflexão peninsular,
extremada pelo cabo de S. Roque, faz que para ele convirjam as lindes
interiores de seis Estados - Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba,
Ceará e Piauí - que o tocam ou demoram distantes poucas léguas.
Desse modo é natural que as
vicissitudes climáticas daqueles nele se exercitem com a mesma intensidade,
nomeadamente em sua manifestação mais incisiva, definida numa palavra que é o
terror máximo dos rudes partícios que por ali se agitam - a seca.
Escusamo-nos de longamente a estudar,
averbando o desbarate dos mais robustos espíritos no aprofundar-lhe a gênese,
tateantes ao través de sem número de agentes complexos e fugitivos.
Indiquemos, porém, inscrita num traçado de números inflexíveis, esta
fatalidade inexorável.
De fato, os seus ciclos - porque
o são no rigorismo técnico do termo - abrem-se e encerram-se com um
ritmo tão notável que recordam o desdobramento de uma lei natural, ainda
ignorada.
Revelou-o, pela primeira vez, o senador
Tomás Pompeu, traçando um quadro por si mesmo bastante eloqüente, em que os
aparecimentos das secas, no século passado e atual, se defrontam em
paralelismo singular, sendo de presumir que ligeiras discrepâncias indiquem
apenas defeitos de observação ou desvios na tradição oral que as
registrou.
De qualquer modo ressalta à simples
contemplação uma coincidência repetida bastante para que se remova a intrusão
do acaso.
Assim, para citarmos apenas as maiores,
as secas de (1710-1711), (1723-1727), (1736-1737), (1744-1745), (1777-1778),
do século 18, se justapõem às de ( 1808-1809 ), ( 1824-1825 ) (1835-1837),
(1844-1845), (1877-1879), do atual.
Esta coincidência, espelhando-se quase
invariável, como se surgisse do decalque de uma quadra sobre outra, acentua-se
ainda na identidade das quadras remansadas e longas que, em ambas, atreguaram
a progressão dos estragos.
De fato, sendo, no século passado, o
maior interregno de 32 anos (1745-1777), houve no nosso outro absolutamente
igual e, o que é sobremaneira notável, com a correspondência exatíssima das
datas (1845-1877).
Continuando num exame mais íntimo do
quadro, destacam-se novos dados fixos e positivos, aparecendo com um rigorismo
de incógnitas que se desvendam. Observa-se, então, uma cedência raro
perturbada na marcha do flagelo, intercortado de intervalos pouco díspares
entre nove e doze anos, e sucedendo-se de maneira a permitirem previsões
seguras sobre a sua irrupção.
Entretanto, apesar desta simplicidade
extrema nos resultados imediatos, o problema, que se pode traduzir na fórmula
aritmética mais simples, permanece insolúvel.
Hipóteses sobre a gênese das secas
Impressionado pela razão desta
progressão raro alterada, e fixando-a um tanto forçadamente em doze anos, um
naturalista, o barão de Capanema, teve o pensamento de rastrear nos fatos
extraterrestres, tão característicos pelos períodos invioláveis em que se
sucedem, a sua origem remota. E encontrou na regularidade com que repontam e
se extinguem, intermitentemente, as manchas da fotosfera solar, um símile
completo.
De fato, aqueles núcleos obscuros,
alguns mais vastos que a Terra, negrejando dentro da cercadura fulgurante das
fáculas, lentamente derivando à feição da rotação do Sol, têm entre o máximo e
o mínimo da intensidade, um período que pode variar de nove a doze anos. E
como desde muito a intuição genial de Herschel lhes descobrira o influxo
apreciável na dosagem de calor emitido para a Terra, a correlação surgia
inabalável, neste estear-se em dados geométricos e físicos acolchetando-se num
efeito único.
Restava equiparar o mínimo das manchas,
anteparo à irradiação do grande astro, ao fastígio das secas no planeta
torturado - de modo a patentear, cômpares, os períodos de umas e
outras.
Falhou neste ponto, em que pese à sua
forma atraentíssima, a teoria planeada: raramente coincidem as datas do
paroxismo estival, no Norte, com as daquele.
O malogro desta tentativa, entretanto,
denuncia menos a desvalia de uma aproximação imposta rigorosamente por
circunstâncias tão notáveis, do que o exclusivismo de atentar-se para uma
causa única. Porque a questão, com a complexidade imanente aos fatos
concretos, se atém, de preferência, a razões secundárias, mais próximas e
enérgicas, e estas, em modalidades progredindo, contínuas, da natureza do solo
à disposição geográfica, só serão definitivamente sistematizadas quando
extensa série de observações permitir a definição dos agentes preponderantes
do clima sertanejo.
Como quer que seja, o penoso regímen
dos Estados do Norte está em função de agentes desordenados e fugitivos, sem
leis ainda definidas, sujeitas às perturbações locais, derivadas da natureza
da terra, e a reações mais amplas, promanadas das disposições geográficas. Daí
as correntes aéreas que o desequilibram e variam.
Determina-o em grande parte, e talvez
de modo preponderante, a monção de nordeste, oriunda da forte aspiração dos
planaltos interiores que, em vasta superfície alargada até ao Mato Grosso,
são, como se sabe, sede de grandes depressões barométricas, no estio. Atraído
por estas, o nordeste vivo, ao entrar, de dezembro a março, pelas costas
setentrionais, é singularmente favorecido pela própria conformação da terra,
na passagem célere por sobre os chapadões desnudos que irradiando intensamente
lhe alteiam o ponto de saturação diminuindo as probabilidades das chuvas, e
repelindo-o, de modo a lhe permitir acarretar para os recessos do continente,
intacta, sobre os mananciais dos grandes rios, toda a umidade absorvida na
travessia dos mares.
De fato, a disposição orográfica dos
sertões, à parte ligeiras variantes - cordas de serras que se alinham
para nordeste paralelamente à monção reinante - , facilita a travessia
desta. Canaliza-a. Não a contrabate num antagonismo de encostas,
abarreirando-a, alteando-a, provocando-lhe resfriamento e a condensação em
chuvas.
Um dos motivos das secas repousa,
assim, na disposição topográfica.
Falta às terras flageladas do Norte uma
alta serrania que, correndo em direção perpendicular àquele vento, determine a
dynamic colding, consoante um dizer expressivo.
Um fato natural de ordem mais elevada
esclarece esta hipótese.
Assim é que as secas aparecem sempre
entre duas datas fixadas há muito pela prática dos sertanejos, de 12 de
dezembro a 19 de março. Fora de tais limites não há um exemplo único de
extinção de secas. Se os atravessam, prolongam-se fatalmente por todo o
decorrer do ano, até que se reabra outra vez aquela quadra. Sendo assim e
lembrando-nos que é precisamente dentro deste intervalo que a longa faixa das
calmas equatoriais, no seu lento oscilar em torno do equador, paira no zênite
daqueles Estados. levando a borda até aos extremos da Bahia, não poderemos
considerá-la, para o caso, com a função de uma montanha ideal que correndo de
leste a oeste corrigindo momentaneamente lastimável disposição orográfica, se
anteponha a monção e lhe provoque a parada, a ascensão das correntes, o
resfriamento subseqüente e a condensação imediata nos aguaceiros diluvianos
que tombam então, de súbito, sobre os sertões ?
Este desfiar de conjeturas tem o valor
de indicar quantos fatores remotos podem incidir numa questão que duplamente
nos interessa pelo seu traço superior na ciência, e pelo seu significado mais
íntimo no envolver o destino de extenso trato do nosso país. Remove, por isto,
a segundo plano o influxo até hoje inutilmente agitado dos alísios, e é de
alguma sorte fortalecido pela intuição do próprio sertanejo para quem a
persistência do nordeste - o vento da seca, como o batiza
expressivamente - equivale à permanência de uma situação irremediável e
crudelíssima.
As quadras benéficas chegam de
improviso.
Depois de dois ou três anos, como de
1877-1879, em que a insolação rescalda intensamente as chapadas desnudas, a
sua própria intensidade origina um reagente inevitável. Decai afinal, por toda
a parte, de modo considerável, a pressão atmosférica. Apruma-se maior e mais
bem definida, a barreira das correntes ascensionais dos ares aquecidos,
antepostas às que entram pelo litoral. E entrechocadas umas e outras, num
desencadear de tufões violentos, alteiam-se, retalhadas de raios, nublando em
minutos o firmamento todo, desfazendo-se logo depois em aguaceiros fortes
sobre os desertos recrestados.
Então parece tornar-se visível o
anteparo das colunas ascendentes, que determinam o fenômeno, na colisão
formidável com o nordeste.
Segundo numerosas testemunhas -
as primeiras bátegas despenhadas da altura não atingem a terra. A meio caminho
se evaporam entre as camadas referventes que sobem, e volvem, repelidas, às
nuvens, para, outra vez condensando-se, precipitarem-se de novo e novamente
refluírem; até tocarem o solo que a princípio não umedecem, tornando ainda aos
espaços com rapidez maior, numa vaporização quase como se houvessem caído
sobre chapas incandescentes, para mais uma vez descerem, numa permuta rápida e
contínua, até que se formem, afinal, os primeiros fios de água derivando pelas
pedras, as primeiras torrentes em despenhos pelas encostas, afluindo em
regatos já avolumados entre as quebradas, concentrando-se tumultuariamente em
ribeirões correntosos; adensando-se, estes, em rios barrentos traçados ao
acaso, à feição dos declives, em cujas correntezas passam velozmente os
esgalhos das árvores arrancadas, rolando todos e arrebentando na mesma onda,
no mesmo caos de águas revoltas e escuras...
Se ao assalto subitâneo se sucedem as
chuvas regulares, transmudam-se os sertões, revivescendo. Passam, porém não
raro, num giro célere, de ciclone. A drenagem rápida do terreno e a
evaporação, que se estabelece logo mais viva, tornam-nos, outra vez, desolados
e áridos. E penetrando-lhes a atmosfera ardente, os ventos duplicam a
capacidade higrométrica, e vão, dia a dia, absorvendo a umidade exígua da
terra -reabrindo o ciclo inflexível das secas...
As caatingas
Então, a travessia das veredas
sertanejas é mais exaustiva que a de uma estepe nua.
Nesta, ao menos, o viajante tem o
desafogo de um horizonte largo e a perspectiva das planuras francas.
Ao passo que a caatinga o afoga;
abrevia-lhe o olhar; agride-o e estonteia-o; enlaça-o na trama espinescente e
não o atrai; repulsa-o com as folhas urticantes, com o espinho, com os
gravetos estalados em lanças; e desdobra-se-lhe na frente léguas e léguas,
imutável no aspecto desolado: árvores sem folhas, de galhos estorcidos e
secos, revoltos, entrecruzados, apontando rijamente no espaço ou estirando-se
flexuosos pelo solo, lembrando um bracejar imenso, de tortura, da flora
agonizante . . .
Embora esta não tenha as espécies
reduzidas dos desertos - mimosas tolhiças ou eufórbias ásperas sobre o
tapete das gramíneas murchas - e se afigure farta de vegetais
distintos, as suas árvores, vistas em conjunto, semelham uma só família de
poucos gêneros, quase reduzida a uma espécie invariável, divergindo apenas no
tamanho, tendo todas a mesma conformação, a mesma aparência de vegetais
morrendo, quase sem troncos, em esgalhos logo ao irromper do chão. É que por
um efeito explicável de adaptação às condições estreitas do meio ingrato,
evolvendo penosamente em círculos estreitos, aquelas mesmo que tanto se
diversificam nas matas ali se talham por um molde único. Transmudam-se, e em
lenta metamorfose vão tendendo para limitadíssimo número de tipos
caracterizados pelos atributos dos que possuem maior capacidade de
resistência.
Esta impõe-se, tenaz e inflexível.
A luta pela vida, que nas florestas se
traduz como uma tendência irreprimível para a luz, desatando-se os arbustos em
cipós, elásticos, distensos, fugindo ao afogado das sombras e alteando-se
presos mais aos raios do Sol do que aos troncos seculares de ali, de todo
oposta, é mais obscura, é mais original, é mais comovedora. O Sol é o inimigo
que é forçoso evitar, iludir ou combater. E evitando-o pressente-se de algum
modo, como o indicaremos adiante, a inumação da flora moribunda, enterrando-se
os caules pelo solo. Mas como este, por seu turno, é áspero e duro, exsicado
pelas drenagens dos pendores ou esterilizado pela sucção dos estratos
completando as insolações, entre dois meios desfavoráveis - espaços
candentes e terrenos agros -as plantas mais robustas trazem no aspecto
anormalíssimo, impressos, todos os estigmas desta batalha surda.
As leguminosas, altaneiras noutros
lugares, ali se tornam anãs. Ao mesmo tempo ampliam o âmbito das frondes,
alargando a superfície de contato com o ar, para a absorção dos escassos
elementos nele difundidos. Atrofiam as raízes mestras batendo contra o subsolo
impenetrável e substituem-nas pela expansão irradiante das radículas
secundárias, ganglionando-as em tubérculos túmidos de seiva. Amiúdam as
folhas. Fitam-nas rijamente, duras como cisalhas, à ponta dos galhos para
diminuírem o campo da insolação. Revestem de um indumento protetor os frutos,
rígidos, às vezes, como estróbilos. Dão-lhes na deiscência perfeita com que as
vagens se abrem, estalando como se houvessem molas de aço, admiráveis
aparelhos para propagação das sementes, espalhando-as profusamente pelo chão.
E têm, todas, sem excetuar uma única, no perfume suavíssimo das flores ,
anteparos intácteis que nas noites frias sobre elas se alevantam e se arqueiam
obstando a que sofram de chofre as quedas de temperatura, tendas invisíveis e
encantadoras, resguardando-as...
Assim disposta, a árvore aparelha-se
para reagir contra o regímen bruto.
Ajusta-se sobre os sertões o cautério
das secas; esterilizam-se os ares urentes; empedra-se o chão, gretando,
recrestado; ruge o nordeste nos ermos; e, como um cilício dilacerador, a
caatinga estende sobre a terra as ramagens de espinhos... Mas, reduzidas todas
as funções, a planta, estivando, em vida latente, alimenta-se das reservas que
armazena nas quadras remansadas e rompe os estios, pronta a transfigurar-se
entre os deslumbramentos da primavera.
Algumas, em terrenos mais favoráveis,
iludem ainda melhor as intempéries, em disposição singularíssima.
Vêem-se numerosos aglomerados em capões
ou salpintando, isolados, as macegas, arbúsculos de pouco mais de metro de
alto, de largas folhas espessas e luzidias, exuberando floração ridente em
meio da desolação geral. São os cajueiros anões, os típicos anacardia humilis
das chapadas áridas, os cajuís dos indígenas. Estes vegetais estranhos, quando
ablaqueados em roda, mostram raízes que se entranham a surpreendente
profundura. Não há desenraizá-los. O eixo descendente aumenta-lhes maior à
medida que se escava. Por fim se nota que ele vai repartindo-se em divisões
dicotômicas. Progride pela terra dentro até a um caule único e vigoroso,
embaixo.
Não são raízes, são galhos. E os
pequeninos arbúsculos, esparsos, ou repontando em tufos, abrangendo às vezes
largas áreas, uma árvore única e enorme, inteiramente soterrada.
Espancado pelas canículas, fustigado
dos sóis, roído dos enxurros, torturado pelos ventos, o vegetal parece
derrear-se aos embates desses elementos antagônicos e abroquelar-se daquele
modo, invisível, no solo sobre que alevanta apenas os mais altos renovos da
fronde majestosa.
Outros, sem esta conformação, se
aparelham de outra sorte.
As águas que fogem no volver selvagem
das torrentes, ou entre as camadas inclinadas dos xistos, ficam retidas, longo
tempo, nas espatas das bromélias, aviventando-as. No pino dos verões, um pé de
macambira é para o matuto sequioso um copo d'água cristalina e pura. Os caroás
verdoengos, de flores triunfais e altas; os gravatás e ananases bravos,
trançados em touceiras impenetráveis, copiam-lhe a mesma forma, adrede feita
àquelas paragens estéreis. As suas folhas ensiformes, lisas e lustrosas, como
as da maioria dos vegetais sertanejos, facilitam a condensação dos vapores
escassos trazidos pelos ventos, por maneira a debelar-se o perigo máximo à
vida vegetativa, resultante de larga evaporação pelas folhas, esgotando e
vencendo a absorção pelas radículas.
Sucedem-se outros, diversamente
apercebidos, sob novos aprestos, mas igualmente resistentes.
As nopaleas e cactus, nativas em toda a
parte, entram na categoria das fontes vegetais, de Saint-Hilaire. Tipos
clássicos da flora desértica, mais resistentes que os demais, quando decaem a
seu lado, fulminadas, as árvores todas, persistem inalteráveis ou mais vívidos
talvez. Afeiçoaram-se aos regímens bárbaros; repelem os climas benignos em que
estiolam e definham. Ao passo que o ambiente em fogo dos desertos parece
estimular melhor a circulação da seiva entre os seus cladódios túmidos.
As favelas, anônimas ainda na ciência
- ignoradas dos sábios, conhecidas demais pelos tabaréus -talvez
um futuro gênero cauterium das leguminosas, têm, nas folhas de células
alongadas em vilosidades, notáveis aprestos de condensação, absorção e defesa.
Por um lado, a sua epiderme ao resfriar-se, à noite, muito abaixo da
temperatura do ar, provoca, a despeito da secura deste, breves precipitações
de orvalho; por outro, a mão, que a toca, toca uma chapa incandescente de
ardência inaturável.
Ora, quando ao revés das anteriores as
espécies não se mostram tão bem armadas para a reação vitoriosa, observam-se
dispositivos porventura mais interessantes: unem-se, intimamente abraçadas,
transmudando-se em plantas sociais. Não podendo revidar isoladas,
disciplinam-se, congregam-se, arregimentam-se. São deste número todas as
cesalpinas e as catingueiras, constituindo, nos trechos em que aparecem,
sessenta por cento das caatingas; os alecrins-dos-tabuleiros, e os
canudos-de-pito, heliotrópios arbustivos de caule oco, pintalgado de branco e
flores em espiga, destinados a emprestar o nome ao mais lendário dos
vilarejos...
Não estão no quadro das plantas sociais
brasileiras, de Humboldt, e é possível que as primeiras vicejem, noutros
climas, isoladas. Ali se associam. E, estreitamente solidárias as suas raízes,
no subsolo, em apertada trama, retém as águas, retêm as terras que se
desagregam, e formam, ao cabo, num longo esforço, o solo arável em que nascem,
vencendo, pela capilaridade do inextricável tecido de radículas enredadas em
malhas numerosas, a sucção insaciável dos estratos e das areias. E vivem.
Vivem é o termo - porque há, no fato, um traço superior à passividade
da evolução vegetativa...
O juazeiro
Têm o mesmo caráter os juazeiros, que
raro perdem as folhas de um verde intenso, adrede modeladas às reações
vigorosas da luz. Sucedem-se meses e anos ardentes. Empobrece-se inteiramente
o solo aspérrimo. Mas, nessas quadras cruéis, em que as soalheiras se agravam,
à vezes, com os incêndios espontaneamente acesos pelas ventanias atritando
rijamente os galhos secos e estonados sobre o depauperamento geral da vida, em
roda, eles agitam as ramagens virentes, alheios às estações, floridos sempre,
salpintando o deserto com as flores cor de ouro, álacres, esbatidas no pardo
dos restolhos - à maneira de oásis verdejantes e festivos.
A dureza dos elementos cresce,
entretanto, em certas quadras, ao ponto de os desnudar: é que se enterroaram
há muito os fundos das cacimbas, e os leitos endurecidos das ipueiras mostram,
feito enormes carimbos, em moldes, os rastros velhos das boiadas; e o sertão
de todo se impropriou à vida.
Então, sobre a natureza morta, apenas
se alteiam os cereus esguios e silentes, aprumando os caules circulares
repartidos em colunas poliédricas e uniformes, na simetria impecável de
enormes candelabros. E avultando ao descer das tardes breves sobre aqueles
ermos, quando os abotoam grandes frutos vermelhos destacando-se, nítidos, à
meia luz dos crepúsculos, eles dão a ilusão emocionante de círios enormes,
fincados a esmo no solo, espalhados pelas chapadas, e acesos...
Caracterizam a flora caprichosa da
plenitude do estio.
Os mandacarus ( cereus jaramacaru ),
atingindo notável altura, raro aparecendo em grupos, assomando isolados acima
da vegetação caótica, são novidade atraente, a princípio. Atuam pelo
contraste. Aprumam-se tesos triunfalmente, enquanto por toda a banda a flora
se deprime. O olhar, perturbado pelo acomodar-se à contemplação penosa dos
acervos de ramalhos estorcidos, descansa e retifica-se percorrendo os seus
caules direitos e corretos. No fim de algum tempo, porém, são uma obsessão
acabrunhadora. Gravam em tudo monotonia inaturável, sucedendo-se constantes,
uniformes, idênticos todos, todos do mesmo porte, igualmente afastados,
distribuídos com uma ordem singular pelo deserto.
Os xiquexiques (cactus peruvianus) são
uma variante de proporções inferiores, fracionando-se em ramos fervilhantes de
espinhos, recurvos e rasteiros, recamados de flores alvíssimas. Procuram os
lugares ásperos e ardentes. São os vegetais clássicos dos areais queimosos.
Aprazem-se no leito abrasante das lajens graníticas feridas pelos sóis.
Têm como sócios inseparáveis neste
habitat, que as próprias orquídeas evitam, os cabeças-de-frade, deselegantes e
monstruosos melocactos de forma elipsoidal, acanalada, de gomos espinescentes,
convergindo-lhes no vértice superior formado uma flor única intensamente
rubra. Aparecem de modo inexplicável, sobre a pedra nua, dando, realmente, no
tamanho, na conformação, no modo por que se espalham, a imagem singular de
cabeças decepadas e sanguinolentas jogadas por ali, a esmo, numa desordem
trágica. É que estreitíssima frincha lhes permitiu insinuar, através da rocha,
a raiz longa e capilar até a parte inferior, onde acaso existam, livres de
evaporação, uns restos de umidade.
E a vasta família, revestindo todos os
aspectos, decai, a pouco e pouco, até aos quipás reptantes, espinhosos,
humílimos, trançados sobre a terra à maneira de espartos de um capacho
dilacerador; às ripsalides serpeantes, flexuosas, como víboras verdes pelos
ramos, de parceria com os frágeis cactos epifitas, de um glauco empalecido,
presos por adligantes aos estipites dos ouricurizeiros, fugindo do solo
bárbaro para o remanso da copa da palmeira.
Aqui, ali, outras modalidades: as
palmatórias-do-inferno opúntias de palmas diminutas, diabolicamente erriçadas
de espinhos - com o vivo carmim das cochonilhas que alimentam; orladas
de flores rutilantes, quebrando alacremente a tristeza solene das
paisagens...
E pouco mais especializa quem anda,
pelos dias claros, por aqueles ermos, entre árvores sem folhas e sem flores.
Toda a flora, como em uma derrubada, se mistura em baralhamento indescritível.
É a catanduva, mato doente, da etimologia indígena, dolorosamente caída sobre
o seu terrível leito de espinhos !
Vingado um cômoro qualquer, postas em
torno as vistas, perturba-as o mesmo cenário desolador: a vegetação
agonizante, doente e informe, exausta, num espasmo doloroso...
É a sylva oestu aphylla, a sylva
borrida, de Martius, abrindo no seio iluminado da natureza tropical um vácuo
de deserto.
Compreende-se, então, a verdade da
frase paradoxal, de Aug. de Saint-Hilaire: "Há, ali, toda a melancolia dos
invernos, com um sol ardente e os ardores do verão!"
A luz crua dos dias longos flameja
sobre a terra imóvel e não a anima. Reverberam as infiltrações de quartzo
pelos cerros calcários, desordenadamente esparsos pelos ermos, num alvejar de
banquises; e, oscilando à ponta dos ramos secos das árvores inteiriçadas,
dependuram-se as tilândsias alvacentas, lembrando flocos esgarçados, de neve,
dando ao conjunto o aspecto de uma paisagem glacial de vegetação hibernante,
nos gelos . . .
A tormenta
Mas no empardecer de uma tarde
qualquer, de março, rápidas tardes sem crepúsculos, prestes afogadas na noite,
as estrelas pela primeira vez cintilam vivamente.
Nuvens volumosas abarreiram ao longe os
horizontes, recortando-os em relevos imponentes de montanhas negras.
Sobem vagarosamente; incham, bolhando
em lentos e desmesurados rebojos, na altura; enquanto os ventos tumultuam nos
plainos, sacudindo e retorcendo as galhadas.
Embruscado em minutos, o firmamento
golpeia-se de relâmpagos precípites, sucessivos, sarjando fundamente a
imprimadura negra da tormenta. Reboam ruidosamente as trovoadas fortes. As
bátegas de chuva tombam grossas, espaçadamente, sobre o chão, adunando-se logo
em aguaceiro diluviano...
Ressurreição da flora
E ao tornar da travessia o viajante,
pasmo, não vê mais o deserto.
Sobre o solo, que as amarílis atapetam,
ressurge triunfalmente a flora tropical.
É uma mutação de apoteose.
Os mulungus rotundos, à borda das
cacimbas cheias, estafolhas; as caraíbas e baraúnas altas refrondescem à
margem dos ribeirões refertos; ramalham, ressoantes, os marizeiros esgalhados,
à passagem das virações suaves; assomam, vivazes, amortecendo as truncaduras
das quebradas, as quixabeiras de folhas pequeninas e frutos que lembram contas
de ônix; mais virentes, adensam-se os icozeiros pelas várzeas, sob o ondular
festivo das copas dos ouricuris: ondeiam, móveis, avivando a paisagem,
acamando-se nos plainos, arredondando as encostas, as moitas floridas do
alecrim-dos-tabuleiros, de caules finos e flexíveis; as umburanas perfumam os
ares, filtrando-os nas frondes enfolhadas, e - dominando a
revivescência geral - não já pela altura senão pelo gracioso do porte,
os umbuzeiros alevantam dois metros sobre o chão, irradiantes em círculo, os
galhos numerosos.
O umbuzeiro
É a árvore sagrada do sertão. Sócia
fiel das rápidas horas felizes e longos dias amargos dos vaqueiros. Representa
o mais frisante exemplo de adaptação da flora sertaneja. Foi, talvez, de talhe
mais vigoroso e alto - e veio descaindo, pouco a pouco, numa
interdecadência de estios flamívomos e invernos torrenciais, modificando-se à
feição do meio, desinvoluindo, até se preparar para a resistência e reagindo,
por fim, desafiando as secas duradouras, sustentando-se nas quadras miseráveis
mercê da energia vital que economiza nas estações benéficas das reservas
guardadas em grande cópia nas raízes.
E reparte-as com o homem. Se não
existisse o umbuzeiro aquele trato de sertão, tão estéril que nele escasseiam
os carnaubais tão providencialmente dispersos nos que o convizinham até ao
Ceará, estaria despovoado. O umbu é para o infeliz matuto que ali vive o mesmo
que a mauritia para os garaunos dos llanos.
Alimenta-o e mitiga-lhe a sede.
Abre-lhe o seio acariciador e amigo, onde os ramos recurvos e entrelaçados
parecem de propósito feitos para a armação das redes bamboantes. E ao chegarem
os tempos felizes dá-lhe os frutos de sabor esquisito para o preparo da
umbuzada tradicional.
O gado, mesmo nos dias de abastança,
cobiça o sumo acidulado das suas folhas. Realça-se-lhe, então, o porte,
levantada, em recorte firme, a copa arredondada, num plano perfeito sobre o
chão, à altura atingida pelos bois mais altos, ao modo de plantas ornamentais
entregues à solicitude de práticos jardineiros. Assim decotadas semelham
grandes calotas esféricas. Dominam a flora sertaneja nos tempos felizes, como
os cereus melancólicos nos paroxismos estivais.
A jurema
As juremas, prediletas dos caboclos
- o seu haxixe capitoso, fornecendo-lhes, grátis, inestimável
beberagem, que os revigora depois das caminhadas longas, extinguindo-lhes as
fadigas em momentos, feito um filtro mágico - derramam-se em sebes,
impenetráveis tranqueiras disfarçadas em folhas diminutas; refrondam os
marizeiros raros - misteriosas árvores que pressagiam a volta das
chuvas e das épocas aneladas do "verde" e o termo da "magrém" - quando,
em pleno flagelar da seca, Ihes porejam na casca ressequida dos troncos
algumas gotas d'água; reverdecem os angicos; lourejam os juás em moitas, e as
baraúnas de flores em cachos, e os araticuns à ourela dos banhados... mas,
destacando-se, esparsos pelas chapadas, ou no bolear dos cerros, os
umbuzeiros, estrelando flores alvíssimas, abrolhando em folhas, que passam em
fugitivos cambiantes de um verde pálido ao róseo vivo dos rebentos novos,
atraem melhor o olhar, são a nota mais feliz do cenário deslumbrante.
O sertão é um paraíso
E o sertão é um paraíso...
Ressurge ao mesmo tempo a fauna
resistente das caatingas: disparam pelas baixadas úmidas os caititus esquivos;
passam, em varas, pelas tigüeras num estrídulo estrepitar de maxilas
percutindo, os queixadas de canela ruiva; correm pelos tabuleiros altos, em
bandos, esporeando-se com os ferrões de sob as asas, as emas velocíssimas; e
as seriemas de vozes lamentosas, e as sericóias vibrantes, cantam nos
balsedos, à fimbria dos banhados onde vem beber o tapir estacando um momento
no seu trote, brutal, inflexivelmente retilíneo, pela caatinga, derribando
árvores; e as próprias suçuaranas, aterrando os mocós espertos que se aninham
aos pares, nas luras dos fraguedos, pulam, alegres, nas macegas altas, antes
de quedarem nas tocaias traiçoeiras aos veados ariscos ou novilhos
desgarrados...
Manhãs sertanejas
Sucedem-se manhãs sem par, em que o
irradiar do levante incendido retinge a púrpura das eritrinas e destaca
melhor, engrinaldando as umburanas de casca arroxeada, os festões multicores
das bignônias. Animam-se os ares numa palpitação de asas, céleres, ruflando.
- Sulcam-nos as notas de clarins estranhos. Num tumultuar de
desencontrados vôos passam, em bandos, as pombas bravas que remigram, e rolam
as turbas turbulentas das maritacas estridentes... enquanto feliz, deslembrado
de mágoas, segue o campeiro pelos arrastadores, tangendo a boiada farta, e
entoando a cantiga predileta...
Assim se vão os dias.
Passam-se um, dois, seis meses
venturosos, derivados da exuberância da terra, até que surdamente,
imperceptivelmente, num ritmo maldito, se despeguem, a pouco e pouco, e caiam,
as folhas e as flores, e a seca se desenhe outra vez nas ramagens mortas das
árvores decíduas...
Capítulo V
Uma categoria geográfica que Hegel não citou. Como se faz um
deserto. Como se extingue o deserto. O martírio secular da terra.
Resumamos, enfeixemos estas linhas
esparsas.
Hegel delineou três categorias
geográficas como elementos fundamentais colaborando com outros no reagi: sobre