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As palavras e
os números
Governando com e para as elites econômicas de
sempre
Quanto
mais estável e controlada estiver a economia, mais simples e fácil será
manter elevados os lucros dos especuladores que ampliam a cada dia a sua
fortuna. Qualquer crescimento na economia, por ridículo que seja, a superar
a meta imposta pelos especuladores, promoveria novas contratações,
melhoraria as condições de consumo e diminuiria a lucratividade da jogatina,
o que seria inadmissível aos que comandam a economia.
Os
saraus no Planalto, os passeios em carro oficial com sua cadelinha, os
gastos exorbitantes da Primeira Dama e asseclas com cartões de crédito
corporativo (ontem com prestação de contas através do SIAFI, hoje tema de
“Segurança Nacional), as quadrilhas que o Presidente forma (dentre as quais
se incluem mesmo as frivolidades das festas juninas) somadas ao consumo
exorbitante de água Don Perignon e Leite Condensado servido generosamente no
Aerolula (que desviou mais de R$ 50 bilhões de uma aeronáutica sucateada
para esta vaidade), os aplausos do público estrangeiro em suas constantes
viagens, os risos de galhofa quando propõe portar um colar de picanha e um
chapéu de abacaxi e outras frutas “para promover o Brasil” são meros
indicativos do tamanho da encrenca. O superfaturamento nas contas
publicitárias fica visível quando montanhas de dólares aparecem em malas,
bolsas e cuecas. Contra a má repercussão que esse tipo de procedimento
exageradamente excêntrico poderia trazer, algumas medidas de peso são
tomadas, como a campanha de desmoralização do Congresso Nacional e mesmo do
aparelho Judiciário brasileiro.
Quando as
palavras são usadas para dizer o contrário da realidade
O fato é
o governo dos bancos pelos bancos e para os bancos. Contra isso, as
palavras, principalmente do chefe do poder executivo coadjuvado pela
quadrilha de turno e uma poderosamente bem remunerada campanha publicitária.
Para
ocultar todo o benefício aos banqueiros e jogadores dos mais diversos
naipes, uma estratégia cuidadosa: por um lado gastos superiores a R$ 1
bilhão em propaganda para afirmar o oposto, ou seja, que o Brasil está hoje
melhor e há até um Plano de Aceleração do Crescimento com vistas a remover
alguns entraves ao progresso, como os cuidados com o meio ambiente e os
direitos dos trabalhadores.
O plano
está traçado e seus coadjuvantes são cooptados. Como a quadrilha do primeiro
mandato foi praticamente toda desbaratada, Lula levou 6 meses para compor
uma nova, com criminosos de todos os partidos venais dispostos a se tornar
cúmplices. Enquanto isso, assistíamos parados ao caos nas estradas, portos,
aeroportos, escolas, hospitais, quartéis de polícia e com o conseqüente
aumento na criminalidade, nos acidentes de trânsito, nas “balas perdidas”,
na formação de gerações sucessivas de analfabetos diplomados, nos baixos
salários de professores e médicos, na falta de estrutura para hospitais e
escolas, numa palavra, no caos em que o Brasil se transformou.
Para a
montagem do ministério no segundo mandato – que se prolongou por mais de 6
meses – jogaram-se fora as considerações de cunho ético ou administrativo.
No meio da articulação “para conseguir maioria no Congresso” e levar adiante
o projeto político dos especuladores não se levaram em conta fatores
desprezíveis a esta finalidade, tais como “notório saber na área”,
“probidade administrativa”, “honradez no trato da coisa pública” e outros
quesitos alheios aos propósitos desta administração.
A
propaganda, naturalmente, vai na direção oposta: fala em “promover o
crescimento nacional”, “geração de empregos”, “aprimorar as relações
trabalhistas”, “reforma agrária”, “respeito ao meio ambiente”,
“redistribuição de renda” e “diminuição das distâncias entre as classes
sociais” entre outras coisas.
No
Brasil 2007 as palavras não são mais úteis para comunicar e informar. A
palavra hoje somente é útil para mentir e distorcer os fatos deixando a
todos na mais completa confusão e desalento. Num toque de humor negro, após
deixar o brasileiro sem esperança, desalentado e triste, ganham mais um rio
de dinheiro com campanhas para “promover o aumento da auto-estima”, fazendo
com que nos lembremos do campo de concentração de Auschwitz: trabalho
escravo, morticínio em massa, torturas cruéis; à entrada, uma banda de
música improvisada entoava alguns acordes e, à porta, podia-se ler que “O
trabalho liberta” – “Arbeit Macht Frei”.
Em 1999
o PT denunciava o então presidente FHC por gastar “astronômicos” R$ 200
milhões em propaganda governamental. Somente em 2006 Lula gastou mais de R$
1 bilhão e 300 milhões de reais na mesma rubrica que censurava a seu então
adversário. O silêncio do PSDB em relação a este fenômeno é suficientemente
eloqüente. Lula governa sem oposição.
Estatísticas usadas como peças de propaganda
Durante
anos os institutos de geografia e estatística – assim como os economistas –
gozaram de razoável credibilidade. Hoje, IBGE, Datafolha, DIEESE, etc. não
se deixam seduzir pelos fatos do Brasil concreto; contentam-se em atender
aqueles que podem pagar pelos seus serviços, dando-lhes o resultado
solicitado.
No
Brasil 2007 os cálculos dos índices de desemprego, violência urbana e rural,
renda familiar e salário, entre outros, reduziram-se de do estatuto de dados
relativamente próximos da realidade a meras peças de propaganda. Não mais se
calcula a inflação real, mas a partir de dados forjados obtém-se resultados
irreais e os preços seguem sendo majorados em valores “acima da inflação”,
sem parar.
Além
disso, sem que se faça absolutamente nada para aprimorar as condições
existenciais das pessoas reais, sem reformar uma única estrada, aeroporto ou
a infra-estrutura que lhes serve, sem que os salários recebam o menor
ajuste, os números são retificados e, num passe de mágica, a inflação e o
desemprego caem, a economia se aquece e o Brasil cresce ao nível das 10
maiores economias do mundo.
Diante
da propaganda massacrante, mesmo quando recebemos nossos minguados proventos
e percebemos que, a cada mês compramos menos coisas, que os impostos são
multiplicados e majorados, que os preços da água, luz, gás, telefone,
aluguel e víveres seguem em escala ascendente somos compelidos a aceitar a
propaganda que desinforma precisamente o oposto.
Numa
tentativa desesperada de fazer o discurso delirante se aproximar das
estatísticas, estas recebem nova maquiagem. Depois deste aprendizado –
embora a estagnação, necessária à ampliação da lucratividade sossegada dos
jogadores – seja um dado, vêm aí novos ajustes nas estatísticas para que o
crescimento prometido apareça pelo menos nos “inquestionáveis números”.
Nosso
povo vive tempos mais difíceis e sofridos que o italiano ou o dinamarquês ou
mesmo o argentino. Com um pequenino gesto de prestidigitação embasado nas
estatísticas estamos à frente deles em números, que não se deixam intimidar
pelo fato concreto da vida real dos seres humanos.
Mandato de
5 anos sem reeleição
Já se
tornou comum por aqui agir ao sabor da conjuntura. Em 1998 Lula se colocou
contrário à reeleição de FHC e tentou evitar que se legalizasse o instituto
da reeleição de que usufruiu com inigualável entusiasmo, até mesmo imitando
o processo de suborno ao Congresso Nacional (“herança maldita”, que manteve
incólume na prática e vive a criticar no discurso e na propaganda). Reeleito
e após os conchavos necessários à montagem da quadrilha para o segundo
mandato articula mais um ano para si e o final do estatuto da reeleição por
um lado, enquanto por outro proclama que não vai se posicionar a respeito
uma vez que “sempre foi contra o estatuto da reeleição”. Por algum motivo se
esqueceu disso em 2006, quando concorreu usando todas as armas lícitas e
ilícitas de que o Chefe de Estado dispõe no Brasil.
A
seguirem as coisas como estão, Lula poderá fazer o seu sucessor em 2010, por
5 anos, seja ele um lulo-petista ou um tucano dócil ao petismo. Após este
prazo pode se reeleger mais uma vez e descobrir que, afinal, o estatuto da
reeleição por dois mandatos de 5 anos lhe convém. Pode ocorrer ainda de,
circundado de corruptos e incompetentes como está atualmente, mal consiga
terminar o atual mandato. Excetuando-se o exercício de um governo para a
maioria, tudo é possível.
O mais
provável, e que nos relega a um desalento impotente é uma sucessão de
desmandos, estatísticas maquiadas, corrupção, envio de rios de dinheiro aos
bancos e a manutenção dos miseráveis na situação em que se encontram.
O Plano de
Aceleração do Crescimento das Grandes Fortunas
Lula fez
uma declaração digna de crédito (por incrível que pareça): que ele gosta dos
pobres, que governar para os pobres é muito mais fácil. Até por isso ele
assim os mantém. Entendendo por “pobres” os miseráveis que vivem
desempregados, dependentes da esmola governamental em troco de que compõem
um poderoso exército de eleitores agradecidos ao presidente que, ao invés de
dignidade e trabalho os mantém abaixo da linha da pobreza e se fortalece
nesta base. Enquanto isso, a infra-estrutura apodrece em todo o país sob o
aplauso entusiástico da claque lulo-petista coadjuvada por aqueles
hipnotizados pela propaganda.
Eleito
pela maioria miserável e governando para a minoria endinheirada de jogadores
e banqueiros, Lula submeteu ao Congresso Nacional seu plano para ampliar o
fosso social que separa os milionários dos miseráveis no Brasil. Se não
tiver sucesso em seu intuito, atribuirá à sua capacidade administrativa
qualquer melhoria, por insignificante que seja, à vida do povo. Se tiver
sucesso e o fosso, como tudo indica, se ampliar, dirá em algum jantar para
os jogadores que o contrataram, que o Congresso sabotou seus propósitos.
Se os
pobres deixarem de ser pobres, se houver melhoria nas condições existências
e de emprego para o povo brasileiro, pode ocorrer um crescimento no consumo
e isto é o que mais aterroriza os jogadores que veriam assim dificultada a
sua atuação em busca da ampliação da lucratividade fácil. A economia
precisa, para que o lucro dos banqueiros e jogadores siga fácil e elevado,
manter-se estagnada em patamares insignificantes, que o número de
desempregados e desesperados siga crescente e que os gastos públicos com
saúde, segurança, previdência e infra-estrutura sejam cada vez mais
reduzidos.
Paralelamente, é fundamental que o discurso siga direção contrária e as
palavras não reflitam os intentos ou os fatos. Já se conseguiu que os
números deixem de refletir a realidade e o presidente almeja conseguir um
colar picanha e um cocar com frutas tropicais “para promover a produção
nacional”.
Apagão
Aéreo
Não se
cogitou numa única obra na infra-estrutura aeroportuária. Há um motivo
político para que a infra-estrutura siga abandonada. Não aparece. Não é
minimamente vistosa. É feita nos subterrâneos que ninguém fora das equipes
técnicas visita e não se presta a inaugurações estridentes ou estrondosas
que possam render manchetes nos noticiários ou reverter em votos. O abandono
da infra-estrutura se faz ver quando esta não funciona, quando as panes são
freqüentes e exigem de um grupo de pessoas dedicadas o dobro da atenção e a
pressa nos reparos freqüentemente necessários. Além disso, a Escola de
Especialistas de Aeronáutica, como tudo o mais no Brasil, precisa de
material de ponta para trabalhar e treinar os futuros controladores de vôo,
em número menor a cada ano. Afora isso, há 15 anos os militares não recebem
reajuste salarial. Há pelo menos 2 décadas trabalham com os mesmos
equipamentos nas Torres de Controle de Tráfego Aéreo e o gerenciamento dos
lulo-petistas apontados para a Infraero tem causado preocupação e há
seguidos rumores de desvios de finalidade e recursos.
Quando
os Controladores de Tráfego Aéreo, diante do abandono em que se encontram,
fizeram um movimento para chamar a atenção, foram tratados da pior forma
possível. Como de praxe, o governo diz uma coisa, faz outra e tudo fica por
isso mesmo. Os primeiros episódios denotadores de um problema gravíssimo na
área eram perceptíveis desde outubro de 2006 e Lula somente tomou uma
decisão em abril de 2007. E a decisão foi: jogar a culpa dos problemas nos
controladores de tráfego aéreo e sua insatisfação salarial, mas não sem
antes envolver na confusão o Ministro da Defesa, o Comandante da
Aeronáutica, o Ministro do Planejamento e a Secretária Executiva da Casa
Civil.
Para o
grande público, a quem Lula passa a imagem de um analfabeto dramaticamente
limitado, maioria que não viaja de avião e só ouviu falar no problema pelo
noticiário, fica um misto de sensação de “vingança de classe” e a convicção
de que Lula não sabia de nada. Essa desculpa vem servindo a seus propósitos
e nada indica que venha a ocorrer um átimo de aprimoramento nas condições
aeroportuárias brasileiras dados estes fatos. “É problema da Aeronáutica”,
diz Lula, a quem a maioria naturalmente o grande público dá razão.
Convocados ao Planalto, todos os componentes venais da Tropa de Choque
lulista são orientados a barrar a CPI na Câmara e buscar obstaculizá-la ao
máximo no Senado. Por decisão do STF a Câmara instala a CPI. Imediatamente
Lula instrui seus asseclas a tomar conta da presidência e da relatoria, já
esquentando o forno para fazer uma grande pizza. Depois de fazer o
impossível para barrar a CPI, instala-se uma com tudo para ser inócua e não
investigar coisa alguma de relevância enquanto se superfatura nova campanha
publicitária para dizer que “nuncaantesnestepaís” se investigou tanto.
Causaria
surpresa – se não fosse suficientemente sórdida – esta estratégia de não
fazer absolutamente nada para que o Brasil deixe de ser um dos países mais
perigosos para o Tráfego Aéreo Internacional, já em níveis africanos. A
estratégia é dupla: de um lado visa silenciar a crítica e, de outro, evitar
a punição aos verdadeiros culpados pelo caos que estão, como tudo o mais
nesta administração, nas salas do Planalto.
E as
festas do 1º de Maio?
É
simples aglomerar uma multidão. Com o fruto das “sobras de campanha” –
eufemismo para o superfaturamento nas contas publicitárias do governo –
contratam-se algumas duplas caipiras e compram-se algumas casas e automóveis
para sortear diante da turba que, entre os aplausos às músicas e a ânsia
pelos prêmios ouve o discurso dos condenados pela Comissão de Ética da
Câmara dos Deputados em 2006. Estes, reeleitos, compõem nova comissão e se
auto-anistiam. Em meio aos discursos, mais propaganda governamental
diversionista falando de um Brasil crescente, poderoso e promotor de
empregos. Lula não pode promover o crescimento pois isso desagradaria
aqueles que pagaram muito para que ele se reelegesse. Tampouco pode promover
melhorias salariais ou geração de empregos pois perderia o exército de
eleitores clientes, pois só pode pagar a esmola governamental aos
miseráveis.
Por que
aferrar-se ao poder?
Há
saraus no Planalto, festas e jogos de futebol na Granja do Torto, recepções
entre autoridades internacionais, passeios no automóvel oficial com animais
de estimação, o consumo exorbitante de água Don Perignon e leite condensado
no Aerolula, salamaleques e os gastos não controlados da Primeira Dama com
seus cartões de crédito corporativo. Estes gastos, a princípio eram
detalhados pelo SIAFI, hoje são matéria de Segurança Nacional, o que dá mais
conforto a quem gasta e a certeza da intocabilidade.
E o povo?
Ética é
um conceito demasiado vago para ser compreendido por quem está desempregado
e dependente da esmola estatal. Ao ver repetidamente no noticiário como se
comportam os que dirigem este país, nada mais conseguem fazer do que
imitá-los: roubando, atraiçoando, mentindo, dizendo uma coisa e fazendo
outra, alternando a modalidade do discurso de acordo com audiência mas
sobretudo jogando sobre outros uma culpa que é só sua.
São
muitas as realizações deste governo, mas a mais marcante, sem dúvida alguma,
e de difícil reversão, é a formação de uma geração de hipócritas traiçoeiros
e sem caráter.
Lázaro Curvêlo
Chaves – 07/05/2007
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