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A Educação no
Brasil
Da Crueldade do Vestibular
Sempre considerei
uma COVARDIA que o jovem seja obrigado a decidir, aos 16 ou 17 anos de idade,
que profissão seguirá pelo resto de sua vida.
Não vou aqui trilhar novamente o
caminho – de resto brilhante e preciso – que Rubem Alves percorre com muito mais
precisão e clareza do que eu: “deveriam trocar o Vestibular por um sorteio!” Tal
o absurdo a que chegamos... Um dia essa excrescência merecerá o destino que lhe
cabe: a lata de lixo da história!
Coloco-me do ponto de vista do
jovem (essa a raiz da palavra respeito, “ver o outro com os olhos do
outro”) e vejo o cipoal de confusões em que se encontra: hormônios à flor da
pele; situação cruel de quem está só e precisa, visceralmente, de alguém. Quando
digo visceralmente não estou exagerando em absolutamente nada! O ser
humano depende fisicamente do sexo oposto e ponto final. Esta interdependência
humana é de tal sapiência que somente os poetas e místicos lhe alcançam a
plenitude. Se você é jovem sabe que pensa “naquilo” pelo menos 16h por dia (nas
outras oito sonha...); se já foi jovem, lembra-se de que era assim – há médicos
que até mesmo recomendam esta, digamos, prática, como excepcionalmente salutar!
Inegavelmente a prioridade
máxima do jovem, do adolescente é encontrar alguém que lhe complete. Da maneira
como o mundo está, contudo, em geral saem bebendo em fontes sujas, salobras,
poluídas, uma após a outra, jamais se saciando. Raramente encontram aquele oásis
com águas cristalinas que seria não o seu porto final, que isso não existe, mas
uma rota paralela, amiga, maior conquista que o ser humano ousa almejar...
Tristes tempos.
Mas divago. Para conseguir
sucesso nessa dimensão – que é a primeira no pensamento do jovem – é necessário
“ter sucesso” o que, em nossa cultura e civilização esquisita, virou sinônimo de
“ter dinheiro” – nada de talento, habilidades, conhecimento, agilidade,
charme... Só “a água gélida da materialidade mercadológica”. Para tanto precisa
transformar parte de sua capacidade laborativa em dinheiro.
No Capetalismo as pessoas só têm
o direito de escolher que parte do corpo venderão a quem, por que preço e por
quanto tempo. Eu mesmo vendo a utilização do meu cérebro para Instituições
educacionais durante algum tempo em troca de proventos que me permitam seguir
vivo, ainda que modestamente, outros vendem os braços para a construção civil,
outros ainda vendem... Bem, outras partes do corpo, com outras finalidades.
Decidido que as partes do corpo
que envolvem a dimensão da afetividade, do romantismo não serão, a princípio,
utilizadas com finalidades mercantis, o jovem já terá tomado uma grande decisão
– infelizmente menos freqüente do que outrora... Parte para aprimorar o seu
físico – se desejar realizar-se como atleta ou desportista – ou um conjunto de
habilidades – se pretender realizar-se profissionalmente como músico, ator,
intelectual ou artista e assim por diante.
Aí se volta ao problema inicial:
o jovem – que raramente descobre qual é efetivamente a vocação da sua vida em
idade tão tenra – nem sempre consegue conciliá-la com um dos maiores monstros do
mundo contemporâneo, o tal do “mercado de trabalho”. Quem de nós, professores,
ainda não presenciou a transformação de uma potencialmente talentosíssima
professora, atriz, pianista ou bailarina em rude e amarga advogada ou vendedora
embora talvez melhor remunerada? Ou o contrário, que não vai aqui juízo de valor
quanto a esta profissão ou aquela ser “melhor” do que outra.
Na maior parte dos casos o jovem
conclui seu ensino médio emocionalmente inseguro, ainda em busca de equilíbrio
particularmente na dimensão sentimental, VITAL ao ser humano; incerto quanto à
sua vocação – não são raros os casos em que o jovem fala com toda a franqueza do
mundo: “estou em dúvida entre engenharia e medicina” ou “estou entre nutrição e
mecatrônica”... – e apavorado com o fantasma do desemprego.
Que Futuro estamos formando para
este país num quadro assim?
Professores
Se respeito meu aluno colocando-me no seu lugar e vendo
o mundo como ele o vê, gostaria que pais e alunos (e, em sendo possível,
autoridades também...) se colocassem também no lugar do professor.
Alguns que ainda vivem e
respiram entre nós, sobreviventes da “Era Vargas”, de grata memória para esta
Nação, “deixaram de ser juízes de direito para abraçar o magistério” ou
“casaram-se com professora estadual que era uma forma de dar um golpe do baú!”
E hoje? A hora-aula por vezes é
mais barata que uma banana nanica. Guardadas as devidas proporções, compare-se
uma hora de atendimento médico especializado e personalizado a uma hora numa
classe abarrotada com 60 a 80 pessoas onde mal cabem 40, pouco interessados
senão no “diproma”. Como respeitar as particularidades de cada ser humano
envolvido no processo ensino/aprendizagem num quadro assim? Mas é bem pior! O
professor estadual, em geral, precisa dar (dádiva quase que literal mesmo...)
uma média de 50 a 60 aulas semanais para garantir proventos minimamente
condignos. Uma média de duas aulas por turma, turmas com 60 pessoas... Lida com
cerca de 2.000 (DOIS MIL) seres humanos na fase mais carente e tenra da sua
formação, do seu processo de “hominização”.
Há muito, muito mesmo a se
fazer. Eu já confessei que, pobre, não consigo mesmo sobreviver com os proventos
do magistério público. Nem mesmo prestarei este concurso. Até por não concordar
com o encaminhamento pseudopedagógico que vem sendo dado em nossas escolas de
uma década para cá sem perspectiva de reversão, principalmente no Estado de São
Paulo...
Há muito a fazer, mas se não
estipularmos algumas metas a atingir, seremos movidos pelas forças cegas do
mercado numa direção que nada tem de humana. A título de propostas iniciais,
começaria com o seguinte (minha PROFESSORA Maria Olívia há de embasar melhor e
aprofundar estas questões, oportunamente!):
1. Limitação
no número de alunos por turma, para que o educador possa melhor acompanhar o
desenvolvimento de cada um de seus pupilos e para que também não se veja lançado
numa situação em que, por não haver espaço temporal à livre manifestação e
criatividade de cada educando, acabe reduzido à condição de palestrante ou, no
limite, repressor em seu sentido mais grosseiro mesmo. Um educador pode
acompanhar bem, de perto, o desenvolvimento intelectual, moral, humano, enfim,
de cada um de seus alunos em turmas de, no máximo, vinte alunos.
Fica
claro que qualquer intelectual competente é capaz de proferir palestras a
verdadeiras multidões. A situação, evidentemente, é bem outra no cotidiano dos
jovens estudantes. Aula é para formar, palestra, para informar.
2. Limitação
na quantidade de turmas em que o educador deve exercer suas atividades. Lidar
com um máximo de cinco turmas com vinte alunos em cada uma por ano permitirá ao
educador acompanhar de perto, com toda a seriedade, gravidade e atenção o
desenvolvimento de cada um dos cem jovens cujos nomes e características pode
memorizar tranqüilamente, com rapidez e facilidade até. Este ponto fala do
respeito humano que possa permitir aos alunos terem suas identidades
particulares reconhecidas, ponto também fundamental numa proposta pedagógica
séria.
3. Autonomia
pedagógica, melhor aceitação de metodologias alternativas. Não é concebível que
se trate seres humanos como máquinas. Que as instituições educacionais tenham
suas próprias filosofias é compreensível. Acolher com urbanidade, reconhecimento
e respeito idéias diferentes, contudo operacionais, diria mesmo que ainda mais
operacionais que as anteriores, é o mínimo que a prática democrática pede às
vésperas do terceiro milênio. Seguir com práticas medievais em pleno século XXI
é um disparate!
4. Ponderável
aumento salarial. É isso mesmo, chegamos a uma situação tão absurda que somente
com propostas aparentemente "loucas" se pode reverter o quadro. Estou propondo
uma diminuição na jornada de trabalho de 50 aulas semanais para no máximo 25 e
uma contrapartida salarial condigna ao respeito que merece o profissional
formador de seres humanos para a vida.
Com
salários melhores, com mais tempo livre, o profissional do ensino poderá
dedicar-se com maior empenho a seu auto-aperfeiçoamento, exercendo um trabalho
cada vez melhor.
O que
está aqui proposto, com todas as letras, em síntese, é que se coloque a ênfase
no ser humano, na atividade pedagógica em si, não mais na lucratividade da
"empresa" escola ou mesmo nas regras draconianas do mercado. Discutir a situação
do mercado, a "corrida de lobos" da sociedade industrial é, quiçá, tema para
outro trabalho. Aqui digo que mercado é uma coisa e atividade educacional é
outra totalmente diferente. Dentro das atuais regras colocadas pelo mercado -
daí a expressão "emergenciais" que apodo às medidas propostas - o professor
precisa resgatar o seu valor mesmo. Caso se prefira um linguajar diferente,
enquanto o mercado ditar suas regras, a "mercadoria" professor precisa ser
melhor valorizada!
Expondo idéias como estas em
seminários a colegas professores, obtive muita solidariedade e a crítica
solitária: "trata-se de um sonho, de um delírio", mas ocorre o contrário! A
realidade é que se transformou num pesadelo macabro e irracional, só crível
porque existente de forma material, só por esse motivo falar no racional soa
como sonho ou delírio.
De todo o modo, enquanto nosso modelo
educacional estiver, como está, distanciado da Razão - embora obedeça a algum
tipo de lógica que me escapa - estaremos assistindo e vivenciando o inferno
dantesco da deterioração assombrosa das condições intelectuais e morais de nossa
gente. Urge reverter este quadro!
Soluções para o
Ensino Superior
Arrogante subtítulo, não? Mas se alguém não começar a pensar nisso, repito,
seremos movidos não pela Razão, mas pelas forças IRRACIONAIS do mercado.
Com 16 para 17 anos o rapazinho,
a mocinha, não têm, em geral, maturidade suficiente para tomar a decisão
irreversível da profissão da sua vida, tomando em conta todos os condicionantes
em questão (vocação, matrimônio, mercado de trabalho...). Vislumbro uma solução
e a coloco, pela vez primeira, em discussão:
Que as Universidades dediquem de
dois a três anos de formação GERAL superior; ênfase à Matemática, à Ortografia,
às Humanidades, sempre com acompanhamento psicológico profissional personalizado
envolvendo pais e alunos. Faço questão de ressaltar este fato pois fui uma
vítima do modelo anquilosado que ainda grassa: o meu pai tinha vocação para que
eu fosse “engenheiro eletrônico”. Resultado? Aos 7 anos de idade montei meu
primeiro rádio, formei-me especialista em Radar de Bordo de Aviões e Centrais
Telefônicas e fui cursar “Engenharia Eletrônica”. Fiz três anos na Nuno Lisboa.
Vi que não me interessava – em meu pai já não estava respirando entre os
vivos... – e a matemática me fascinava! Tranquei matrícula, vestibular de novo e
um ano de Matemática na Universidade Federal Fluminense. A gente aprende
matemática para saber mais matemática que permite resolver e aprender mais
matemática num círculo vicioso sem fim! Mas Pitágoras de Samos foi Iniciado numa
Escola de Mistérios Egípcia, o mesmo acontecendo com Tales de Mileto,
“divulgadores”, mais que “autores”, ambos, de teoremas e teorias egípcias há
muito conhecidas... Me encontrei: FILOSOFIA! Mas eu tinha de trabalhar durante o
dia e os cursos de filosofia no Brasil destinam-se somente àqueles que dispõem
de tranqüilidade econômica para ficar integralmente por conta de estudar o dia
inteiro. Alternativamente, cursei Ciências Sociais, na mesma Federal Fluminense.
Mas já estava com 25 anos quando finalmente “me encontrei”. Certo, meu caso é
paroxístico. Mas para evitar casos assim ou sequer remotamente similares, sugiro
uma integração entre corpo discente, corpo docente, orientação pedagógica e pais
de estudantes universitários em seus primeiros (2 ou 3) primeiros anos de curso
superior.
Após estes cuidados, seguramente
o jovem estará amadurecido o suficiente para a escolha da sua própria carreira.
E por enquanto?
Enquanto o mercado rege a educação,
enquanto a Razão estiver expulsa das Universidades, sugiro a meus pupilos
estudar “Arquitetura”. É um curso que abre um amplo leque de opções em Ciências
Humanas e Ciências Naturais. Tem-se de aprender um pouco de História da Arte,
Filosofia, Física, Resistência de Materiais... Curso suficientemente eclético
para que o/a jovem se encontre e possa aproveitar pelo menos alguns “créditos”
de seus primeiros estudos tão logo se decida pela carreira “definitiva”...
Lázaro Curvêlo Chaves
PS - Enviei este trabalho por e-mail para o
Ministro da Educação, Cristóvão Buarque que, sem sequer lê-lo, incumbiu um certo
"DL" de responder-me, depois de muito tempo, nos seguintes termos:
"Prezado Lázaro,
Primeiramente, nos desculpamos pela demora em responder a sua mensagem. Tal
situação se deu pelo fato de que a Central de Atendimento Fala, Brasil esteve
passando por um processo de ampliação para melhor atender a população que nos
procura, tanto pelo 0800, como pela nossa caixa de e-mail.
Quanto ao assunto em questão, informamos que fomos incumbidos pelo senhor
ministro para responder a sua mensagem. Assim, é importante ressaltarmos que
consideramos importante a opinião da população ao expor sua sugestão ou crítica
aos assuntos referentes à educação em nosso país.
Sabemos que a educação em nosso país está precária nos diversos níveis, mas é
necessário um estudo aprofundado dos pontos críticos para que se definam as
ações que poderão reverter essa situação. É importante que a população
compreenda que as ações que estão por vir demandam tempo e em alguns casos
dependem de aprovação pelo Congresso Nacional de legislação que as
regulamentem.
Aproveitamos a oportunidade para sugerir que você conheça as metas do Ministro
Cristovam Buarque para a educação. Basta acessar a página do MEC em
www.mec.gov.br na coluna à esquerda com o
título METAS PARA EDUCAÇÃO.
Atenciosamente,
Fala, Brasil
0800 - 616161
DL"
Minha Resposta:
Entendo...
Apresento-me como Educador, como profissional com idéias e disposição para
fazer o necessário (se é que minha mensagem chegou a ser lida, o que duvido
muitíssimo dado o disparate da resposta) e sou tratado como "população" que
"precisa compreender", etc e tal... Admiro, como disse e volto a dizer, mas
vocês se negaram peremptoriamente a ler, imensamente o Ministro Chritóvão
Buarque. Sei que é bem intensionado e que não conta com o apoio necessário.
Estou aqui colocando MAIS UMA VEZ, a mim e à minha página "Cultura Brasileira",
http://www.culturabrasil.org/ à
inteira disposição da Educação no Brasil. Se o Ministério dedicado a este setor
não se importa, se "depende de compreensão da população e cooperação do
congresso", etc, já é outro assunto.
Um favorzinho?
Se não lêem o que escrevo, por que se dão ao trabalho de me responder (e com
tamanho atraso)?
Senhores, gente que trabalha com Educação, com cérebros tenros de seres
humanos idem deviam ter um pouquinho mais de compostura.
Muito desapontado,
Lázaro Curvêlo Chaves
CIDADÃO BRASILEIRO !"
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