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Quadras ao gosto popular


Fernando Pessoa




Cantigas de portugueses
São como barcos no mar —
Vão de uma alma para outra
Com riscos de naufragar.



A caixa que não tem tampa
Fica sempre destapada
Dá-me um sorriso dos teus
Porque não quero mais nada.



No baile em que dançam todos
Alguém fica sem dançar.
Melhor é não ir ao baile
Do que estar lá sem estar.



Vale a pena ser discreto?
Não sei bem se vale a pena.
O melhor é estar quieto
E ter a cara serena.



Tenho um relógio parado
Por onde sempre me guio.
O relógio é emprestado
E tem as horas a fio.



Aquela senhora velha
Que fala com tão bom modo
Parece ser uma abelha
Que nos diz: "Não incomodo".



Não digas mal de ninguém,
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual.



Quando vieste da festa,
Vinhas cansada e contente.
A minha pergunta é esta:
Foi da festa ou foi da gente?



Tenho uma pena que escreve
Aquilo que eu sempre sinta.
Se é mentira, escreve leve.
Se é verdade, não tem tinta.



Deixaste cair a liga
Porque não estava apertada...
Por muito que a gente diga
A gente nunca diz nada.



Não há verdade na vida
Que se não diga a mentir.
Há quem apresse a subida
Para descer a sorrir.



Santo Antônio de Lisboa
Era um grande pregador
Mas é por ser Santo Antônio
Que as moças lhe têm amor.



Tem um decote pequeno,
Um ar modesto e tranqüilo;
Mas vá-se lá descobrir
Coisa pior do que aquilo!



Aquela loura de preto
Com uma flor branca no peito,
É o retrato completo
De como alguém é perfeito.

"A quadra é um vaso de flores que o Povo põe à janela da sua alma. Da órbita triste do vaso escuro a graça exilada das flores atreve o seu olhar de alegria. Quem faz quadras portuguesas comunga a alma do povo, humildemente de todos nós e errante dentro de si próprio. Ser intensamente patriótico é, primeiro, valorizar em nós o indivíduo que somos, e fazer o possível por que se valorizem os nossos compatriotas, para que assim a Nação que é a suma viva dos indivíduos que a compõem, e não o amontoado de pedras e areia que compõem o seu território, ou a coleção de palavras separadas ou ligadas de que forma o seu léxico ou a sua gramática — possa orgulhar-se de nós que, porque ela nos criou, somos seus filhos, e seus pais, porque a vamos criando." As quadras acima foram extraídas do livro "Fernando Pessoa – Obra Poética", Cia. José Aguilar Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 649.

 

 

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