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A Constituição de 1988
Nas eleições de 1986, os deputados federais e senadores, além
de ir para o Congresso, ficaram com a tarefa de elaborar a nova Constituição.
Por causa do Plano Cruzado, que congelou os preços, o PMDB
recebeu uma avalanche de votos. Assim, o presidente da Assembléia Nacional
Constituinte foi o deputado paulista (PMDB) Ulisses Guimarães.
Desde o início dos trabalhos, a Constituinte se dividiu em
dois grupos de políticos. De um lado, o bloco progressista, formado por
parlamentares dos partidos de esquerda (PT, PCB, PC do B), e de centro esquerda
(PDT e um pessoal do PMDB que, na maioria, depois fundaria um novo partido, o
PSDB). Do outro lado, o bloco do centrão, formado por políticos conservadores
(no Brasil, a direita tem vergonha e gosta de se dizer “de centro”), basicamente
do PFL, PDS, PL, PTB e vários do PMDB.
O PFL (Partido da Frente Liberal) era formado por políticos
ligados à burguesia, muitos foram membros do regime militar e originários do
PDS. No PFL estavam políticos tradicionais, particularmente do Nordeste, como é
o caso do baiano Antônio Carlos Magalhães. O PL era uma espécie de minifilial do
PFL, ou da UDN, ou da Arena, ou do PDS. O PTB, já vimos, nada tinha a ver com o
antigo PTB de Jango, Getúlio e Brizola. Era só o nome para um partido agrupando
gente próxima do PDS e do PFL. O PMDB, como acabamos de falar, estava dividido
entre uma ala mais conservadora e outra que defendia reformas inspiradas nas
idéias social-democratas (caso dos senadores Fernando Henrique Cardoso e Mário
Covas que, mais tarde, fundariam o PSDB).
Não foi fácil elaborar a Constituição. Havia muitos
interesses em disputa e os lobbies (grupos que buscam apoio de alguns políticos
para pressionar o Congresso para fazer certas leis) de latifundiários,
multinacionais, militares e até do presidente Sarney, marcavam em cima dos
constituintes.
Finalmente, a Constituição foi promulgada em 1988 e é a que
está em vigor atualmente. Tem seus problemas e muitas vezes dá a impressão de
que foi feita de improviso. Ela sempre parece nos lembrar de que no Brasil fazem
muitas leis porque elas nunca são cumpridas. De qualquer modo, é sem dúvida a
mais democrática que nós já tivemos.
São muitas as novidades e pontos importantes. Vamos destacar
alguns:
• Garantia maior dos
direitos humanos contra a arbitrariedade do Estado – Este é um ponto que
muitos brasileiros ignoram: o Estado tem obrigações para com o cidadão, e também
possui limites. Quem respeita a lei jamais poderá ser coagido pelo governo. O
Estado não pode fazer o que quiser com o cidadão. O Estado também é obrigado a
seguir a lei.
• A pena de morte e a
tortura são proibidos pela Constituição – Se a polícia pudesse prender,
torturar e matar quem ela quisesse, para que serviriam juízes e tribunais? Para
que serviriam as faculdades de Direito? A questão é simples: a lei ou o
faroeste. Se você acha que a lei deve prevalecer sobre a selvageria do
bangue-bangue, então até a polícia tem de obedecê-la. E a lei é clara: todos têm
direito á um julgamento, ninguém pode ser torturado, ninguém pode ser executado.
A defesa desses direitos elementares para todo mundo, inclusive para os
bandidos, é a garantia de que o Estado está sob controle do cidadão. Se a
polícia virar grupo de extermínio, ou seja, agir contra a lei, como ela poderá
defender a lei? Como a sociedade poderá confiar nela, já que a polícia faz o que
quer? Como evitar que ela passe a dominar a sociedade, impondo uma espécie de
ordem fascista? Quando a gente exige que os bandidos sejam tratados dentro da
lei (julgamento, sem tortura etc.) estamos garantindo que o cidadão comum também
será tratado legalmente. A defesa dos direitos humanos para todas as pessoas
protege os inocentes contra as arbitrariedades do Estado.
• Direitos do cidadão
– Nos anos 90, uma das palavras da moda era cidadania. Ela expressa a
idéia de que todos os cidadãos têm direitos que devem ser respeitados pelo
Estado: o direito de liberdade individual, o direito de poder interferir no
governo, direito à segurança, à educação, à saúde, à habitação, ao emprego. Está
tudo isso na Constituição de 1988. Mas nos anos 90, a sociedade estava tomando
consciência de que não deveria ficar de braços cruzados, aguardando que as
atitudes do governo caiam do céu. Os cidadãos organizados (associações,
sindicatos etc.) devem cobrar do Estado a prestação desses serviços. Esta é a
grande idéia democrática de nossos tempos: a sociedade civil se organiza para
lutar e conseguir o respeito a seus direitos de cidadania.
• Garantias
constitucionais – A Constituição estabelece vários dispositivos que defendem
o cidadão quando seus direitos são negados. Os principais são:
a) Habeas-corpus. Se você foi preso ou vai ser preso
injustamente (você não desrespeitou a lei), seu advogado pode pedir ao juiz um
habeas corpus para livra-lo da polícia imediatamente. Repare que as
ditaduras adoram suspender o direito de habeas corpus, exatamente para
fazer prisões ilegais à vontade.
b) Habeas-data. É o direito de todo o cidadão de saber
o que está na sua ficha em posse da polícia ou de um órgão de segurança do
governo. Acabou esse negócio de o governo te fichar sem você saber.
c) Mandado de Segurança. Protegem o cidadão quando
seus direitos estão prestes a ser desrespeitados por uma instituição. Agora,
existe também o mandado de segurança coletivo, isto é, impetrado por sindicatos
e associações da sociedade civil.
d) Mandado de injunção. Assegura o exercício de um
direito garantido pela Constituição.
e) Ação popular. Qualquer cidadão brasileiro pode
impetrar uma ação contra um órgão público e também contra as pessoas que se
beneficiarem de uma atitude inconveniente do governo. A ação popular pode ser
feita quando o cidadão considera que a sociedade está sendo ameaçada por
corrupção no governo, ou por desrespeito ao meio ambiente ou ao patrimônio
histórico e cultural, Ou seja, se você tiver provas contra algum funcionário
público ou político, ou se alguma empresa estiver poluindo sua cidade, por
exemplo, trate de entrar com uma ação popular contra eles. Vão ter de parar e
podem ir até para a cadeia. Um belo instrumento democrático, não é verdade? E em
alguns casos até já funcionou mesmo.
• Igualdade de
direitos fundamentais entre homens e mulheres Agora, “chefe de família” é o
casal. Trabalhos iguais, salários iguais, sem discriminação Vitória contra o
machismo.
• Racismo é crime.
Antes era apenas contravenção (crimezinho, tipo jogar no bicho). Agora, dá
cadeia. Ou seja, se você vir alguém cometendo alguma discriminação (clube que
não deixa negro entrar, jornal que diz tolices anti-semitas, grupos que atacam
orientais etc.) chame a polícia que o cara vai preso na hora. Sem direito a
pagar fiança.
• Fim da censura.
Acabou esse negócio de um idiota da polícia federal decidir o que a gente pode
ler, os filmes que a gente pode assistir ou as músicas que podemos ouvir. Agora,
todos têm direito de se manifestar livremente. Claro que isso não te dá direito
de mentir, de caluniar, Você pode defender as idéias, mas não o desrespeito à
lei,
• Novos direitos
trabalhistas. A jornada de trabalho semanal máxima passou a ser de 44 horas
(era de 48). Além disso, o pagamento da hora-extra é obrigatório e vale 50% mais
do que a hora comum de trabalho. Nas férias, o trabalhador recebe o salário
normal, acrescido de um terço. Se o trabalhador for despedido, ele recebe uma
indenização de 40% do valor de seu FGTS. A mulher que vai um ter um filho ganhou
o direito de ficar em casa, recebendo salário do patrão. É a licença-gestante,
que vale por 120 dias (antes, eram só 89). 0 trabalhador rural passou a ter os
mesmos direitos trabalhistas do trabalhador urbano, incluindo carteira assinada,
13° salário, férias remuneradas e aposentadoria.
• Novos direitos
sindicais. Agora, o Estado está proibido de intervir nos sindicatos. Mas
continuou a unicidade sindical, ou seja, em cada região só pode existir um único
sindicato por categoria. Também foi mantido o imposto sindical, que ajuda a
manter sindicatos pelegos (foi criado no tempo de Vargas, lembra? Reveja a pág.
277). Agora, o direito de greve é irrestrito, mas nos setores essenciais
(hospitais, transportes, energia elétrica etc.) é preciso avisar com
antecedência e manter um funcionamento mínimo.
• Novos direitos
políticos. Agora, pessoas com 16 anos para cima e analfabetos já podem
votar. Antes, eram excluídos. Para ser candidato, é preciso ter pelo menos 18 e
não ser analfabeto.
• Eleições em dois
turnos. Para presidente, governador e prefeito de cidades com mais de 200
mil eleitores, a eleição poderá ser em dois turnos. Caso nenhum candidato tenha
superado 50% do total de votos válidos (não contam os brancos e nulos), haverá
um segundo turno com a disputa de somente os dois mais votados no primeiro
turno. O voto, claro, é direto e secreto.
• Mandatos.
Originalmente, o mandato do presidente era de 5 anos. Os deputados, governadores
e prefeitos são eleitos por um período de 4 anos. Os senadores, de 8 em 8 anos.
• Ampliação dos
poderes do Congresso Nacional. Agora, o Congresso tem várias atribuições que
não possuía no tempo do regime militar. Na verdade, o presidente da República
(chefe do Poder Executivo) tem de governar negociando com o Congresso. O
Congresso Nacional se dedica fundamentalmente a fazer leis. Mas ele também atua
como fiscal da sociedade. Por exemplo, por meio das CPIs (Comissões
Parlamentares de Inquérito) apanhou o esquema ilegal do presidente Collor com PC
Farias. O Congresso também ganhou o direito de aprovar ou vetar o Orçamento
Geral da União. Ou seja, o presidente da República apresenta um plano de gastos
para o ano que vem e que deve ser aprovado por deputados e senadores. O
Congresso Nacional também pode reformar a Constituição, mas para isso há
necessidade de três quintos de votos do total de deputados e senadores.
• Medida provisória.
No tempo da ditadura, existia o decreto-lei. O general-presidente decretava uma
lei e ela passava a valer imediatamente. Se depois de um mês o Congresso não se
pronunciasse contra o decreto (poderia estar fechado, por exemplo), o decreto
passava automaticamente a valer como lei ordinária (comum). Isso acabou. Agora,
existe a medida provisória, que tem um prazo de 30 dias para ser examinada pelo
Congresso. Se depois de um mês o Congresso votar contra ou não votar nada, a
medida é imediatamente anulada.
• Reforma Agrária.
Está prevista na Constituição, mas a lei oferece tantas dificuldades, que os
latifundiários comemoraram quando ela foi aprovada. Na verdade, só se pode fazer
reforma agrária em terra improdutiva. Mas a lei não é clara a respeito do que é
terra produtiva ou não. Em outras palavras, neste terreno, crucial para a
conquista da justiça social neste país, não se avançou um milímetro.
• Proteção ao índio.
As comunidades indígenas terão suas terras demarcadas. Isso trouxe um problema
grave. Muitas dessas áreas são ricas em minerais, e cobiçadas por empresas
multinacionais. Os militares (com certa dose de razão) também temem que os EUA,
por exemplo, inventem que esses povos indígenas devem ficar “independentes do
Brasil” e enviem tropas para a região. Assim, o Brasil perderia territórios
riquíssimos. A preocupação é séria mesmo. Em vários programas de televisão na
Europa e nos EUA, aparecem filmes que escancaram que a Amazônia deveria
pertencer ao mundo inteiro e não ao Brasil. Em nome da defesa dos índios
(realmente ameaçados pelos donos de madeireiras e garimpeiros), cobram um pedaço
do nosso país. Olho vivo! Além de os norte-americanos seguirem de olho num
pedação do nosso país, os índios continuam desassistidos.
• Proteção ao meio
ambiente. Ainda faltam muitas leis. Afinal de contas, o que mais temos são
grandes empresários lucrando fortunas com fábricas que poluem o ar e as águas e
que destróem as florestas. Depois, pegam o avião e vão respirar ar puro na
Suíça, enquanto nossos bebês de Cubatão (SP) nascem sem cérebro. Agora, a
Floresta Amazônica, a Serra do Mar, a Mata Atlântica e o Pantanal se tornaram
patrimônio nacional.
A Constituição tem ainda muitos defeitos e limitações mas é,
no geral, razoavelmente democrática. Existe a possibilidade de ela ser
modificada com três quintos dos votos de todos os deputados e senadores. Nos
anos 90, se fala muito em fazer uma reforma constitucional. Alguns pontos já
foram alterados. Por exemplo, originalmente, a Constituição assegurava certos
privilégios para as empresas brasileiras. Agora, as empresas multinacionais têm
os mesmos direitos que as empresas nacionais. O mesmo artifício vem sendo
utilizado para questionar e minar direitos históricos que os trabalhadores
conquistaram através de lutas dificílimas neste país ao longo dos séculos.

Avanços? Só no papel...
A
Constituição guarda em si a possibilidade de ser modificada. Inclusive para
pior, o que, infelizmente, tem acontecido neste mundo tristemente tendente à
direitização e fascistização internacional em nome de abstrações desumanas e
inumanas como o “neoliberalismo” e a “globalização”.
Foi com esta
Constituição já promulgada que correram as eleições presidenciais de 1989.
Vejamos de perto aquela campanha.
Collor
de Mello, o dragão da maldade, contra o ‘Santo Guerreiro’
Depois de quase trinta anos, finalmente os brasileiros
puderam votar direto para presidente da República. A ditadura militar durou 25
anos. De 1964 até 1989 o povo em nada participou das decisões diretas do
Executivo Nacional, por 25 anos completamente subserviente aos quartéis. Na
primeira eleição, claro, as chances de se eleger um cidadão egresso do regime
que vigorou e governou este país por tanto tempo era de fato concreta. As
chances, contudo, de finalmente vermos as coisas modificadas na direção popular
também eram concretas e, portanto, o entusiasmo popular era justificadamente
formidável, com quase todo mundo querendo se informar, debater e votar com
inteligência.
As primeiras pesquisas de 1989 apontavam a liderança das
candidaturas de Brizola (PDT) e de Lula (PT). Teria o Brasil um presidente de
esquerda? Os grandes empresários roíam as unhas: quem será nosso candidato?
Os jovens talvez tivessem a resposta. Pela primeira vez, o
pessoal a partir de 16 anos poderia votar. Uma juventude que vinha sendo
reprimida e moldada. Consumismo, individualismo egoísta, futilidade, esses eram
os valores que choviam sobre a cabeça da moçada. Geração Coca-Cola. Nos anos 80,
da Era Reagan, o herói era o pouco-cérebro-muitos-músculos do cinema americano:
Rambo (Silvester Stallone). O guerrilheiro tinha deixado de ser ídolo. O pôster
de Che Guevara foi para a lata de lixo. Agora, o ideal era o yuppie, o rapaz que
abandonou a contestação e que se realiza existencialmente ganhando muito
dinheiro na Bolsa de Valores e consumindo feito um mauricinho. Academia de
ginástica, shopping, computador, amar a si mesmo. A TV Globo se tornava uma
Bíblia. Como seriam então os anos 90? Muito diferentes?
Foi quando apareceu o Caçador de Marajás. Fernando Collor
de Mello. Veio quase como que do nada e, de repente, as pesquisas o
apontavam como o favorito para vencer as eleições presidenciais de 1989. Como
será que ele conseguiu isso?
Collor nasceu em família tradicional de políticos. Seu avô,
Lindolpho Collor, tinha sido ministro de Getúlio: Seu pai, o senador Arnon Mello
(UDN), ficou conhecido por ter assassinado a tiros um colega durante uma sessão
do Congresso. Deve ter sido assim que o filho aprendeu a fazer política de
impacto. Logo depois que se casou pela primeira vez, com uma milionária,
Fernandinho ganhou de presente dos militares a prefeitura da cidade
“estratégica” de Maceió. Isso mesmo, uma prefeitura de presente de casamento.
Claro que ele não tinha sido eleito. Era o tempo da ditadura e os prefeitos de
capitais eram escolhidos. Bastava ser homem de confiança do regime militar. E
Collor foi de confiança. No Colégio Eleitoral, mostrou ser um fiel deputado do
PDS, votando em Paulo Maluf contra Tancredo Neves. Aí os tempos mudaram. Sarney
saiu do PDS e foi para o PMDB. Tancredo foi para o beleléu e Sarney ganhou a
presidência de graça. Collor aproveitou para mostrar suas habilidades atléticas
na modalidade esportiva “salto para onde estiver bom”: foi para o PMDB, se
derramou em elogios à Nova República e só faltou dar um beijinho na boca de
Sarney. Aproveitando o entusiasmo pelo Plano Cruzado, Collor foi eleito
governador de Alagoas. Naquela época começou a sonhar com a presidência. Bolou
um excelente esquema publicitário: perseguir funcionários públicos com altos
salários, os chamados marajás. Os jornais do país não poupavam elogios ao jovem
governador que “combatia a corrupção”. Nem todas as reportagens, porém,
mostravam que por trás daquele carnaval, Collor distribuía cargos públicos para
parentes de sua nova mulher (Rosane) e perdoava as dívidas dos usineiros de
açúcar com o governo do Estado.
A política eleitoral partidária é, via de regra, um completo
absurdo. Collor foi mais um exemplo. O homem que tinha sido malufista e do PDS
arrebatou o país com a imagem de que era novo na vida política nacional. Um
esquema publicitário caríssimo tratava de divulgar a idéia de que Collor era o
único candidato que “não tinha rabo preso”. As grandes redes de televisão
adoraram seu discurso demagógico e passaram a dar cada vez mais espaço. Grana,
poder e cara-de-pau, eis a receita para o sucesso collorido. Seu partido, o PRN
(Partido de Reconstrução Nacional), arrebanhava antigas figuras do regime
militar, vindas do PDS e do PFL. Muitos deles notórios envolvidos em falcatruas
e maracutaias. Assim, o marajá, milionário dono de duas empresas de televisão,
conquistava o coração dos pobres dizendo-se o único político capaz de ajudá-los.
De sarneísta no tempo do Plano Cruzado, passou a atacar o Sarney quando percebeu
que este era um excelente caminho para a popularidade.
O vencedor disparado do primeiro turno das eleições
presidenciais de 1989 foi Fernando Collor. Ele representava a materialização dos
novos valores: jovem, empresário, moto, esportes, ascensão vertiginosa, beleza,
televisão, consumo, autoconfiança.
A emoção ficou por conta da disputa do segundo lugar, para
ver quem iria brigar com Collor no segundo turno - Lula ou Brizola? (Mário
Covas, do PSDB, ficou em quarto lugar.)
Leonel Brizola (PDT) teve resultados excepcionais no Rio
Grande do Sul e no Rio de Janeiro, estados onde tinha sido governador. Sua
campanha era centrada nos princípios nacionalistas e reformistas, ao estilo do
velho PTB do começo dos anos 60, e temperada com a social-democracia européia,
na qual Brizola tinha vários amigos. Atacava as multinacionais e os banqueiros
estrangeiros, acusando-os de sugar a economia brasileira, como se fossem um
monstruoso pernilongo. Para Brizola, as “perdas internacionais” seriam a origem
de todos os problemas brasileiros. O problema é que além do Rio Grande do Sul e
do Rio de Janeiro, o PDT tinha poucos votos.
O PT, partido do
LULA já estava organizado em quase todo o país. Em 1988, já tinha mostrado sua
força, elegendo prefeitos em diversas cidades importantes do país. Sua grande
força são os militantes do PT, geralmente estudantes e sindicalistas, que
trabalham de graça, só por idealismo. Isso não é propaganda, é um fato que os
adversários do PT reconhecem. O PT também contava com o apoio de católicos
leigos e de padres progressistas ligados à Teologia da Libertação, uma espécie
de socialismo cristão. Os petistas conseguiram muitos votos graças ao trabalho
da Igreja nas CEBs (Comunidades Eclesiais de Base). O socialismo não era mais
visto como uma coisa do diabo. Resultado: Lula venceu Brizola por uma leve
vantagem.
No segundo turno, Brizola falou em “engolir o sapo barbudo” e
apoiou Lula com sinceridade, transferindo muitos votos para o candidato petista.
Além do PSB e do PC do B, Lula tinha agora o apoio do PCB de Roberto Freire e
até dos tucanos do PSDB, apesar de esses últimos terem ficado meio em cima do
muro.
Então, o inesperado aconteceu. Lula começou a subir nas
pesquisas e a encostar em Collor. Veio o primeiro debate. (Collor,
antidemocrático, ainda não tinha ido a nenhum.) Para muitas pessoas, Collor, que
fez faculdade, venceria facilmente Lula, o torneiro mecânico. Mas o contrário
aconteceu. Lula mostrou que valia a experiência de anos de assembléias
sindicais. Entre os peões, todo mundo igual, só prevalece a idéia de quem tem
cérebro e sabe argumentar. Foi nessa excelente escola que Lula tinha aprendido a
debater. Irônico, ágil nas respostas, mostrando conhecer mais dados econômicos
do que o adversário, surpreendeu o país no debate apresentado pelas tevês.
Collor foi trucidado. E, nas semanas seguintes, Lula empatava nas pesquisas. A
esquerda brasileira estava a um passo do poder.
A assessoria de Collor preparou o troco. No horário
eleitoral, apresentava vídeos com uma tecnologia caríssima, impossível nos
programas do adversário. Até uma ex-namorada de Lula foi convocada para falar
mal dele. Espalhavam o boato de que a vitória do PT significaria “a ignorância
no poder”. Os erros de gramática de Lula, bem maiores do que os de Collor,
apavoravam a classe média. O apoio de tantos intelectuais a Lula era visto como
uma excentricidade da esquerda.
No segundo debate entre os candidatos, Collor foi bastante
agressivo, valendo-se de um candidato cansado (tinha feito vários comícios no
mesmo dia) e talvez confiante demais. Nesse enfrenta mento decisivo, Collor,
homem rico, dizia que não tinha dinheiro “para comprar uma aparelhagem de som
igual à de Lula”. Ridículo, mas eficaz. Lula, tolamente, perdeu-se em ficar
criticando a má atuação de Collor como governador em Alagoas: será que tinha
confundido a eleição para a qual era candidato? Na mesma época, alguns jornais
deram a entender que militantes do PT faziam parte de quadrilhas de
seqüestradores. Apesar do conteúdo falso das insinuações, muita gente ficou
assustada. O velho anticomunismo troglodita foi acionado e espalhou-se o boato
absurdo de que Lula seria defensor dos regimes comunistas do Leste europeu e
que, se ele ganhasse as eleições, o país viraria um caos, com os empresários
parando de investir e fugindo para Miami. Bem, era difícil negar que uma vitória
de Lula provocaria uma comoção no meio empresarial. O próprio PT também não
tinha sido muito claro a respeito de seu programa de governo. No fundo, a
população temia a instabilidade. E estaria completamente equivocada em seus
receios?
O vale-tudo para eleger Collor contava com a colaboração da
poderosa Rede Globo, ou melhor, a "Rede Gllobo". No Jornal Nacional, noticiário
noturno, a TV Globo manipulou as imagens do debate: só aparecia Collor dizendo
coisas inteligentes e Lula dizendo bobagens. Como se fosse o confronto entre o
gênio e santo com o jumento encapetado. Resultado: Collor venceu as eleições.
Vitória apertada, mas que aliviou as classes dominantes. As elites podiam
comemorar, com champanhe e caviar, e o povo mais humilde, com pão e água.
Collor
de Mello e o neoliberalismo
Durante toda a campanha, Collor acusou Lula de querer
confiscar o dinheiro das cadernetas de poupança. Pois assim que assumiu a
presidência, ordenou que o dinheiro das poupanças fosse bloqueado. Ninguém
poderia sacar além de uma certa quantia e o governo só devolveria o dinheiro
depois de um ano, em prestações.
A ministra Zélia Cardoso de Mello comandava as
mudanças econômicas. Ela acabou com o cruzado e fez a moeda voltar a ser o
cruzeiro; os preços foram congelados, embora os aluguéis, as mensalidades
escolares e a tarifas elétricas continuassem sendo reajustados; foram extintos o
IAA (Instituto do Açúcar e do Álcool) e o IBC (Instituto Brasileiro do Café),
tidos como empresas estatais que só serviam para atrapalhar agricultura.
O projeto econômico do governo Collor era apoiado no
neoliberalismo. Segundo Fernandinho e Zélia, este seria o caminho para o país
ingressar no Primeiro Mundo. Vamos entender como é que o neoliberalismo
apareceu no mundo?
O capitalismo vivia uma profunda transformação desde a crise
internacional de 1973. Em primeiro lugar, as empresas multinacionais passaram a
ser responsáveis pela maior parte do volume de produção e comércio do mundo. O
que significa que os investimentos no estrangeiro eram cada vez maiores e a
economia se tornava globalizada: um produto poderia ser feito com peças
vindas, por exemplo, do México, Sri Lanka, Japão e Itália, para ser vendido em
todos esses países.
Em segundo lugar, o volume de capital gerado pelas empresas
particulares superou o que estava nas mãos do Estado, o que certamente revelava
a inferioridade econômica do governo diante dos grandes monopólios e incentivava
a privatização de empresas estatais.
Em terceiro
lugar, a concorrência entre a Europa ocidental, os EUA e o Japão exigiu um
aumento de eficácia na produção e uma busca frenética por novos mercados. Em
resposta a essas exigências, aconteceu a afirmação dos setores de serviços de
alta tecnologia (informática, tele comunicações, robótica, engenharia genética,
química fina) e a reestruturação das empresas (técnicas administrativas de
reengenharia cortando o número de empregados, controle de qualidade,
computadores e robôs substituindo mão-de-obra, terceirização, isto é, empresas
que encerram determinadas sessões e passam a contratar outras empresas para
fazer aquele serviço).
Desde a crise de 1929 que o Estado capitalista se intrometia
fortemente sobre a economia. Receitas do economista J. M. Keynes para estimular
o crescimento e evitar os desarranjos do mercado. Depois da Segunda Guerra, o
keynesianismo levou ao Welfare State, o Estado do bem-estar. Mas a crise de 1973
e as mudanças que nós relatamos acima, deram voz a economistas como Milton
Friedman e Friedrich Hayek, que atacavam violentamente as idéias
keynesianas. Assim, nos anos 80, Keynes saiu da moda e os países desenvolvidos
começaram a seguir o neoliberalismo. Os primeiros “heróis” neoliberais foram o
presidente Ronald Reagan (EUA) e a primeira-ministra Margareth Thatcher
(Inglaterra), verdadeira heroína de Collor (o que ela fazia o deixava muito
doidão). Quase todo o mundo desenvolvido seguiu suas receitas, menos o Japão.
A idéia básica do neoliberalismo é a de que, se os homens
tiverem total liberdade para investir e lucrar, chegarão a um desenvolvimento do
mercado capitalista que beneficiará a toda sociedade. Vamos ver como:
1. Os neoliberais acham que o Estado não deve se
intrometer sobre a economia. Por isso defendem a privatização, ou seja,
as empresas e bancos estatais seriam todos vendidos para as empresas
particulares. Num segundo passo, seriam privatizados os hospitais públicos, a
assistência social (aposentadoria e planos médicos seriam feitos por empresas
privadas especializadas, que receberiam mensalidades das pessoas interessadas) e
as universidades do governo.
2. Os impostos cobrados sobre os ricos devem ser
menores. Aumentariam as diferenças sociais mas, em compensação, argumentam os
neoliberais, sobraria mais dinheiro para os ricos investirem na economia,
resultando, a médio prazo, em mais empregos e melhores salários.
3. As duas medidas anteriores se ligam ao corte nos
gastos públicos. Nem investimentos em empresas estatais nem gastos sociais.
4. Desregulamentação da economia. Facilidades
absolutas para o vale-tudo capitalista. Isso inclui abertura para as importações
(baixas taxas alfandegárias) e o fim do controle do governo sobre as operações
financeiras. No mundo inteiro estão se formando livres mercados, como o da União
Européia, o Nafta (Canadá, EUA, México), o Mercosul (Brasil, Argentina,
Paraguai, Uruguai) e as ligações entre o Japão e os Tigres Asiáticos (Coréia do
Sul, Hong Kong, Formosa).
5. Facilidade para contratar e demitir mão-de-obra,
tornando as empresas mais ágeis. Isso significa abolir leis de proteção
trabalhista. Os sindicatos podem protestar. Neste caso, um dos objetivos do
neoliberalismo é destruir o poder dos sindicatos operários.
6. Estímulos para os investimentos de capital
estrangeiro. A economia do planeta está se tornando multinacional.
Os neoliberais defendem um regime político liberal, ou seja,
com eleições decentes, liberdade de imprensa, pluripartidarismo. Acontece que
neoliberalismo econômico não é a mesma coisa que liberdade política. Foi o caso
do Chile, que já nos anos 80 aplicava as receitas neoliberais, mas dentro de uma
das piores ditaduras militares que o continente já conheceu (a do general
Pinochet).
Sem dúvida alguma, Collor foi o primeiro e é o principal
responsável por “rolado a bola” do neoliberalismo em nosso país. Foi ele quem
combateu leis nacionalistas que controlavam os negócios das empresas
estrangeiras no Brasil e quem iniciou um programa consistente de venda das
empresas estatais. Ao se recusar a pagar aposentadorias melhores, Collor também
mostrava seu empenho em adotar a idéia neoliberal de cortar brutalmente os
gastos do governo com programas sociais. Tudo isso, dizia ele, faria o Brasil
entrar no Primeiro Mundo.
Enquanto o país esperava para entrar no Primeiro Mundo,
Collor tratou ele mesmo de ir para lá fazer umas comprinhas no seu estilo de
consumidor yuppie: gravatas Hermès, uísque Logan 12 anos, malas Louis
Vuitton. O governo mandou liberar as importações, abaixando as tarifas
alfandegárias: foi a partir de Collor que o país foi invadido pelos produtos
estrangeiros, de eletrodomésticos a queijos franceses, de quinquilharias
coreanas a vinhos alemães. Os automóveis nacionais foram xingados de “carroças”
e esperava-se que a abertura para os importados criasse concorrência, o que
forçaria as multinacionais do Brasil a melhorar a qualidade de seus produtos.
Havia um fundo de verdade nisso tudo. Além do mais, puxa, graças a Collor,
qualquer favelado já tinha o direito de comprar automóveis Mercedes Benz,
telefone celular e gel para passar no cabelo.
O presidente era um Indiana Jones tupiniquim. Adorava a
imagem de esportista, de atleta que tudo pode. Parecia que todos os problemas
seriam facilmente resolvidos porque o homem do Planalto possuía a sutileza de um
lutador de caratê e a inteligência de um fanático por jet-ski. O segredo para
disparar a economia era o mesmo usado para acelerar uma moto Kawasaki 1000.
Enquanto isso, o povo competindo na raia, na modalidade “disputa por uma migalha
de comida”.
Da
cozinha para a cama
Quando Zélia pegou “emprestado” o dinheiro das poupanças, ela
tinha em mente duas coisas. Primeiramente, o governo estaria com dinheiro em
caixa, não precisando emitir papel-moeda para cobrir seus gastos. Depois, as
pessoas, sem a grana da poupança, deixariam de comprar. Como as vendas cairiam,
a tendência seria a queda dos preços. As duas coisas ajudariam a abaixar a
inflação.
Acontece que deu tudo errado. Caindo as vendas, claro, os
empresários trataram de diminuir a produção. Com isso, as pessoas eram
despedidas. Recessão e desemprego. Então, valia o velho esquema brasileiro para
lucrar, na base do aumento frenético dos preços. O Brasil mergulhava em uma das
piores crises econômicas de sua história. A inflação ultrapassou os 20% mensais
e a recessão (diminuição das atividades econômicas) fez o país regredir. A
Associação Brasileira de Supermercados constatou a diminuição de 15% no consumo
de arroz e feijão: trocando em miúdos, o povo comia menos. Nas grandes cidades,
milhares de maltrapilhos, vítimas do desemprego, passaram a morar nas caladas.
No Brasil de Collor, com o salário mínimo mais baixo do que o do Paraguai, morar
em barraco passou a ser sonho de consumo.
A inabilidade em negociar a dívida externa com os banqueiros
internacionais abalou o cargo da ministra da economia. A gota d’água foi o
namoro de Zélia com o ministro da Justiça, o sr. Bernardo Cabral. É óbvio que
uma mulher tem o direito de transar com quem ela tiver vontade. Zélia não era
pior ministra porque se tornou amante de um espertinho casado. Aliás, a vida
íntima deles nunca foi de nossa conta. Mas a imagem moralista do governo Collor
ficou arranhada: foi ele que se incomodou com isso tudo, não o povo, que apenas
se divertia com as revelações picantes.
Zélia acabou
sendo demitida. No seu lugar, assumiu o embaixador Marcílio Marques Moreira.
Diplomata de carreira, renegociou a dívida externa, ganhando elogio dos
americanos. É como a raposa que aplaude o bom comportamento das galinhas.
Enquanto isso, a economia brasileira ia caindo do poleiro.
O
vilão
O empresário alagoano Paulo César Farias, o PC, começou a
vida como homem pobre. Esperto e bajulador, ligou-se a políticos importantes e
foi ganhando fortuna.
Em 1984, PC Farias auxiliou um grupo que colhia fundos de
empresários nordestinos em apoio à eleição indireta de Paulo Maluf no Colégio
Eleitoral. O candidato do regime militar perdeu para Tancredo, mas PC tinha
conquistado experiência e prestígio nos bastidores mais sujos da política.
Dois anos depois, PC já era o principal responsável pela
campanha de Fernando Collor nas eleições para governador. Mostrou-se bastante
eficiente, conseguindo o patrocínio dos usineiros alagoanos.
“De acordo com os levantamentos feitos pela Receita Federal,
a entrada de Collor no governo de Alagoas representa o início da formação do
império que seria construído até maio deste ano (...) Antes de Collor assumir o
governo de Alagoas, empresas de propriedades de PC enfrentaram graves
dificuldades financeiras.” (Xico Sá, Folha de S. Paulo, 30/09/92).
Onde Collor ia, o PC ia atrás. Quanto mais poder Collor
obtinha, maior era a fortuna de PC Farias. Simples coincidência?
Briga
entre irmãos detona crise
Os irmãos Collor de Mello não se falavam. Um acusava o outro de praticar a
modalidade esportiva "rasteira no irmão". Pedro ficou furioso quando descobriu
que o jornal de sua propriedade, a Gazeta de Alagoas, ganharia um novo
concorrente. E quem era o dono do novo jornal? PC Farias. Com um detalhe: PC era
sócio de Collor. Pedro não agüentou mais. Que irmão é esse que se junta a outro
cara para ganhar dinheiro? Botou a boca no mundo. Concedeu uma entrevista à Veja
que foi mais venenosa do que cocaína: revelava os podres do irmão, suas ligações
safadas com PC e o suposto fato de que ele se drogava. A acusação mais grave de
Pedro era a denúncia de que Fernando havia montado um esquema de corrupção com
PC Farias. Os empresários que quisessem favores do governo deveriam dar uma
contribuição por fora. Dinheiro que ia para o bolso do Collor via PC. Muito
simples e atrevido. A dupla dinâmica morcegava o país.
Pouco depois, o jornal O Globo publicou denúncia de
empresários de transportes queixando-se de que pagavam US$ 500 mil mensais ao
“esquema PC” para que o governo aumentasse as tarifas.
Os escândalos se sucediam. O país exigia uma investigação
apurada. Assim, instituiu-se uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito).
Tratava-se de um grupo escolhido de deputados e senadores que passou a
investigar profundamente as ligações Collor-PC. A cada dia que passava,
apareciam mais indícios da vergonhosa associação. Entretanto, faltava o
principal: como provar as ligações entre os dois? Sem documentos, as denúncias
não levariam a nada.
Viva o
povo brasileiro
No domingo, 27 de junho de 1992, a revista IstoÉ publicou uma
entrevista bombástica com Eriberto Freire, motorista da secretária do presidente
Collor, Ana Acioli. Eriberto revelava a chave do esquema: ele depositava a grana
das propinas com cheques fantasmas, isto é, contas abertas em nome de pessoas
inexistentes, um truque usado para despistar. Percebeu? O dinheiro da corrupção
era depositado em contas fantasmas. Assim, ninguém suspeitaria que estavam à
disposição de PC e de Collor.
A CPI começou a rastrear as operações financeiras de PC.
Descobriram que ele pagava as contas de Cláudio Humberto, porta-voz da
presidência da República, Cláudio Vieira, secretário do presidente, e até as
compras de calcinhas de Rosane Collor. PC pagou a reforma dos jardins na casa da
Dinda (residência de Collor em Brasília): uma fábula, dinheiro suficiente para
construir centenas de jardins iguais. Truque óbvio para lavar dinheiro.
Tudo isso demonstra claramente a vantagem da democracia sobre
um regime autoritário. Muita gente acha que uma ditadura acabaria com os
corruptos. Que bobagem! Para começar, de onde veio Collor? Começou a carreira
apoiando a ditadura militar: foi da Arena, depois do PDS e votou em Maluf, o
candidato do regime autoritário. Se Collor fosse um ditador, o primeiro jornal
que ousasse fazer uma criticazinha seria fechado. A revista IstoÉ jamais teria
permissão para publicar aquela entrevista demolidora. Numa ditadura, o Congresso
e o Poder Judiciário teriam de se calar diante dos desmandos do Executivo. Foi
justamente por vivermos num regime aberto que os esquemas não puderam ser
abafados. A imprensa livre, os deputados e senadores decentes, os juízes
independentes, tudo isso foi fundamental para dar um basta à bandalheira
instalada no governo.
Muitas pessoas se perguntaram: por que grandes empresários,
como a família Marinho, dona da Rede Globo, e outros, que tinham apoiado
a eleição de Collor, acabaram se voltando contra ele? Porque, normalmente, os
empresários querem um governo que os favoreça, e não um governo que arme tanto a
ponto de prejudicar os negócios. Qual é o empresário que gosta de saber que
parte de sua grana vai para o bolso de um político corrupto? A lógica do
capitalismo é a do investimento, não a da rapinagem, do roubo descarado.
Além disso, havia o clamor popular. Cada vez mais, as pessoas
tomavam consciência dos fatos e repudiavam aquela sem-vergonhice no Palácio do
Planalto. No Brasil inteiro as pessoas começavam a falar “o Brasil está
mudando”. Até a Rede Globo embarcava nessa nova mentalidade, exibindo uma série
televisiva de Gilberto Braga, Anos Rebeldes, que mostrava uma clara simpatia
pelos estudantes revolucionários dos anos 60 no Brasil. A tevê não cria nem
reflete a realidade, ela é a realidade.
Collor quis dar uma de esperto. Convocou a população a
desfilar com tarja preta de luto contra os ataques ao presidente. Tiro pela
culatra. Nas capitais de todo o país, centenas de milhares de estudantes
caras-pintadas foram para as ruas, vestidos de verde e amarelo, para exigir a
deposição do presidente corrupto.
Talvez você tenha ouvido alguém falar que os jovens foram
manipulados. Não dê ouvido a esse tipo de comentário cretino, feito por pessoas
que acham que aqui no Brasil a população sempre será cordeirinha, manipulada,
enganada. Ora bolas, pense bem: os jovens não sabiam o que estava acontecendo? A
população não tinha consciência dos fatos? Não precisavam de ninguém para sair
na rua e exigir as mudanças no país! Por trás da aparente crítica, essa idéia de
que o povo foi joguete dos políticos e meios de comunicação não passa de uma
repetição sutil do velho desprezo que as elites sentem pelo povo, a antiga
crença safada de que o povo não passa de um gado incapaz de agir por conta
própria. Mentira! As pessoas que foram para a rua, dos meninos das escolas aos
aposentados, sabiam exatamente o que estavam fazendo, sabiam que aquilo era uma
excelente pressão sobre o Congresso.
Claro que tinha muito político que estava em cima do muro.
Mas eles pensaram: “Se eu votar a favor de Collor, o que será de mim nas
próximas eleições?” Maravilhas da democracia: a pressão do povo realmente pode
mudar as coisas!
A luta da população não era um simples protesto moralista que
afirma que a corrupção é o grande mal. Era bem mais do que isso. Ela tinha uma
idéia, que talvez fosse difusa e pouco consciente, mas muito rica: a de que se
deve construir uma nova ética. Em vez da ética do golpe de caratê, do “cada um
por si mesmo” e do “ao poder tudo é permitido”, a ética construída pela vontade
e pela consciência popular.

Queima de
Arquivo ou Crime Passional? Mais um dos "mistééérios" da política brasileira...
Parlamentarismo ou presidencialismo?
O Brasil deveria continuar presidencialista ou seguiria o
parlamentarismo? Deveria continuar a ser uma república ou voltaria a ser uma
monarquia parlamentar? Os brasileiros responderam através do plebiscito de abril
de 1993. Dos 70% que se interessaram em votar, cerca de 2/3 escolheram a
república e 55% decidiram pelo presidencialismo.
Cai o
Pano
Em 29 de setembro de 1992, a esmagadora maioria dos deputados
federais concedeu licença para Collor ser julgado, pelo Senado, por crime de
responsabilidade (desobediência à Constituição). Imediatamente, ele foi
afastado. Finalmente, em 22 de dezembro, os senadores votaram o impeachment do
presidente, isto é, Collor perdeu o mandato presidencial. Ninguém mais poderia
dizer que no Brasil quem é poderoso faz o que quer!
Todo o mundo democrático aplaudiu o Brasil. Talvez, pela
primeira vez na América Latina, uma crise política foi contornada sem
intervenção direta das Forças Armadas. Sem dúvida, esperança de dias melhores.
Itamar
Franco
Ele é o mineiro que nasceu no mar: Itamar Franco veio à luz
num navio, quando sua mãe viajava de Salvador para o Rio de Janeiro. Tal como o
pai, formou-se em engenharia. Mas na faculdade (Juiz de Fora, MG) já se envolvia
com o movimento estudantil. Nos anos 60 foi político do PTB, Durante o regime
militar, esteve no MDB, quando foi eleito prefeito de Juiz Fora e senador.
Itamar Franco era conhecido como político honesto. Por isso
Collor o tinha convidado para ser o vice da chapa do PRN. Pela segunda vez na
vida, ele entrava de gaiato no navio. Agora, com a saída de Collor, Itamar, o
vice, assumia a presidência do Brasil.
Itamar Franco tinha hábitos bem mais austeros do que Collor.
Não aparecia pilotando jet-ski ou motos japonesas de última geração. Os aviões
supersônicos que ele gostava de pilotar eram as belas meninas que, de vez em
quando, apareciam nos noticiários com o título de “a nova namorada do
presidente”. (Itamar era descasado, e, portanto, dono do próprio nariz, se é que
vocês me entendem.)
No começo do governo, a inflação disparou. Temperamental,
Itamar dava umas broncas, xingava ministros na frente da imprensa e depois
ficava quieto. Cismou que a solução para a economia do país era trazer de volta
o antigo fusquinha, o carro de sucesso da Volkswagen que o Brasil não mais
produzia por ser considerado antiquado. Num entusiasmo de Carnaval, no Rio de
Janeiro, a imprensa fotografou o presidente abraçado com uma moça de memória
fraca: a coitadinha usava vestido curto mas tinha esquecido de botar a calcinha.
O país riu da cena com a entusiasta da frente liberal. Mas isso era problema
pessoal do Itamar, ele não era pior governante por causa do episódio
pornô-humorístico. Na verdade, o presidente preferiu se dedicar às namoradas e
deixou o Brasil nas mãos do PSDB. O todo-poderoso ministro Fernando Henrique
Cardoso assumia as rédeas do governo.
Partidos...
PDS muda de nome
Era uma vez a UDN, que apoiou o golpe de 64 e mudou a sigla
para Arena... e depois mudou para PDS... e depois para PPR... até que em 1995,
virou PPB.
Entre seus principais
caciques, PauIo Maluf (SP) e Espiridião Amim (SC).
A bicada dos tucanos
Em 1988, muitos políticos saíram do PMDB para fundar o PSDB
(Partido da Social-Democracia Brasileira). O símbolo é aquela ave bicuda chamada
tucano.
Social-democracia foi uma palavra que ficou pouco tempo na
moda aqui no Brasil, logo suplantada pelo neoliberalismo. Em princípio, os
social-democratas do PSDB defendem uma economia modernizada mas que dê atenção
especial para as questões sociais. Ou seja, o PSDB proclama-se um partido de
centro esquerda. Na prática “evoluiu” de um partido de indecisos, de gente “em
cima do muro” para mais um partido de direita que se recusa terminantemente a
assumir-se como tal...
Justiça seja feita, na CPI contra Collor os tucanos,
acompanhando os deputados do PT deram bonitas bicadas bicadas no governo.
Mas o governo de Itamar Franco acabou sendo dominado pelo
PSDB, principalmente através do ministro Fernando Henrique Cardoso. Itamar não
deu nenhum pio contrário. O tucano FHC aproveitou para implantar o plano real,
que o levou ao maior dos vôos: a presidência.
O
Plano Real
A inflação no país era uma coisa muito irritante. Os preços
aumentavam diariamente, mas você só recebia no final d.o mês. Ou seja, a cada
dia, o dinheiro que você tinha no bolso estava sendo desvalorizado. Para o
pessoal da classe média, dava para se defender um pouco jogando em fundos de
aplicação financeira (FAFs), que rendiam juros diários. Mas para o povão, sem
conta em banco, era uma desgraça só.
As eleições presidenciais de 1994 começaram a esquentar.
Lula, do PT, saiu disparado nas pesquisas de opinião. O PT tinha feito algumas
boas prefeituras e seus deputados eram famosos pela dedicação ao trabalho
parlamentar. Nas denúncias de corrupção, apareceram políticos de quase todos os
partidos, mas nenhum do PT. O PT sempre teve muito prestígio entre intelectuais,
sindicalistas e estudantes. A cada eleição que passava, conquistava mais votos.
Em todos os movimentos populares, tipo camponeses sem-terra, associações de
moradores, greves operárias, lá estavam os militantes do PT. Um governo de Lula
era a promessa de muita atenção aos problemas sociais. Isso atraía grande parte
do eleitorado.
Mas o PSDB tinha algumas cartas na manga. A principal era o
fato de ter um governo nas mãos: Fernando Henrique Cardoso (FHC) era o ministro
no comando da economia. O PSDB possui muitos intelectuais, o próprio FHC foi um
dos mais importantes sociólogos burgueses do Brasil, professor da USP e de
diversas universidades estrangeiras. O PSDB também tinha fama de políticos
honestos e modernizadores, como Mário Covas (SP), por exemplo. No Ceará, dois
governadores tucanos (Tasso Jereissati e Ciro Gomes) tinham realizado obras
sociais elogiadas por alguns setores (principalmente, os ligados ao PSDB...). No
mínimo, eram bem diferentes dos velhos políticos oligárquicos.
Faltava o ovo de Colombo. O PSDB achou. No México e na
Argentina, foram instalados planos econômicos que reduziram drasticamente a
inflação. Os economistas do PSDB adaptaram essas idéias para o Brasil: nascia o
Plano Real.
A principal
medida do plano foi criar uma nova moeda, o real. Só que esse real passava a
valer um pouquinho mais do que o dólar americano! Coisa esquisita, o dinheiro do
Brasil valendo mais do que o dos EUA. Enfim, isso teve vários efeitos. O
primeiro é que as importações ficavam muito mais fáceis. Afinal, o Brasil
comprava com uma moeda valiosíssima. Facilitando as importações, as empresas
puderam reduzir os custos da compra de máquinas e matérias-primas. Além disso,
os produtos importados passaram a chegar bem baratos, provocando a queda dos
preços dos similares nacionais. O principal, porém, estava no fato de que o
truque para segurar a inflação era encontrar um ponto em comum. Como chegar a um
acordo se cada empresário, cada sindicato, queria botar os preços e salários num
nível? O ponto de acordo foi encontrado: o dólar, que todos reconhecem como uma
moeda forte e estável. Pronto, o dólar seria a âncora, a referência absoluta
para todos os preços.
O resultado inicial foi empolgante: a inflação desceu de modo
espetacular. Os pobres descobriam que seu dinheiro não diminuía mais a cada dia.
A propaganda governamental enfatizava que, na prática, os trabalhadores “estavam
ganhando mais”. Podiam comprar a crédito porque as prestações eram as mesmas
todos os meses. Todo mundo comprando, economia reaquecida. De repente, o
ministro FHC e sua equipe pareciam ter realizado um milagre econômico. (Epa! Já
ouvimos essa expressão antes...)
É bem verdade que a velha conhecida, a Rede Globo, voltava a
dar força total para o seu candidato, no caso, o tucano.
O PT não percebeu a importância da queda da inflação. Seus
dirigentes chegaram a declarar que a inflação nem era o maior problema do país.
Pronto, foi mole para a campanha do PSDB dizer que “se Lula for eleito, o Plano
Real será extinto e a inflação retornará ao Brasil”. De nada adiantou o PT dizer
que no dia seguinte às eleições, os preços voltariam a subir. Inclusive, porque
isso não aconteceu realmente.
Para consolidar sua candidatura, FHC montou uma aliança com o
maior partido do país, o conservador PFL, herdeiro do velho PDS. Pronto, estava
garantido o apoio do Congresso ao Plano Real.
O PT ainda tentou apresentar a imagem de Lula como um
político moderno, estadista recebido por grandes líderes políticos europeus, que
nada tinha para assustar a classe média. Mas era bem difícil competir com a
imagem do professor bem-sucedido, do ministro que criou um plano que tinha
"acabado com a inflação".
As eleições presidenciais de 1994 nem precisaram de segundo
turno. FHC venceu facilmente. Lula, em segundo lugar, veio bem depois. Nas
eleições para governador, o PSDB também arrebentou.
Bibliografia:
História do Brasil – Luiz Koshiba – Ed. Atual
História Crítica do Brasil – Mário Schmidt – Ed.
Novos Tempos
História do Brasil – Boris Fausto – Ed. Difel
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