Esta obra é a continuidade dos Manifestos
Rosacruzes publicados no século XVII em que a Ordem Rosacruz torna pública sua
posição diante do estado atual do mundo, e constitui um elo de ligação entre
os rosacruzes do passado, do presente e do futuro. Assim sendo, este Manifesto
não é destinado unicamente aos Rosacruzes, mas deve ser difundido amplamente
para que sua mensagem seja conhecida pelo maior número de pessoas possível.
Por isso, a Ordem Rosacruz, AMORC autoriza a sua reprodução e divulgação
pedindo apenas que lhe seja creditada a autoria.
Este pronunciamento internacional publicado pela
Suprema
Grande Loja da Ordem Rosacruz, AMORC,
foi traduzido e editado na:
Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa.
Rua Nicarágua, 2620 – Bacacheri – 82515-260 –
Curitiba – Pr
Caixa Postal 4450 – 82501-970
Fone (0**41)351-3000 – FAX (0**41)351-3065
www.amorc.org.br
PRÓLOGO
Caro leitor:
Por não podermos nos dirigir
diretamente a você, fazemo-lo por meio deste Manifesto. Esperamos que tome
conhecimento dele sem preconceito e que ele suscite em você ao menos uma
reflexão. Não queremos convencê-lo da legitimidade desta Positio, mas
partilhá-la livremente com você. Naturalmente, esperamos que ela encontre um
eco favorável em sua alma. Caso contrário, apelamos à sua tolerância…
.'.
Em 1623, os rosacruzes afixaram nos
muros de Paris cartazes ao mesmo tempo misteriosos e intrigantes. Eis o seu
texto:
“Nós, deputados do Colégio principal da
Rosa+Cruz, demoramo-nos visível e invisivelmente nesta cidade pela graça do
Altíssimo, para O Qual se volta o coração dos Justos. Mostramos e ensinamos a
falar sem livros nem sinais, a falar todas as espécies de línguas dos países
em que desejamos estar para tirar os homens, nossos semelhantes, de erro de
morte.
Se alguém quiser nos ver somente por
curiosidade, jamais se comunicará conosco, mas, se a vontade o levar realmente
a se inscrever no registro de nossa Confraternidade, nós, que julgamos
pensamentos, faremos com que ele veja a verdade de nossas promessas; tanto é
assim que não estabelecemos o local de nossa morada nesta cidade, visto que os
pensamentos unidos à real vontade do leitor serão capazes de nos fazer
conhecê-lo, e ele a nós.”
Alguns anos antes, os rosacruzes já se
haviam dado a conhecer publicando três Manifestos deste então célebres:
Fama Fraternitatis, Confessio Fraternitatis e O Casamento
Alquímico de Christian Rosenkreutz, que apareceram respectivamente em
1614, 1615 e 1616. Na época, esses três Manifestos suscitaram numerosas
reações, não somente da parte dos meios intelectuais, mas também das
autoridades políticas e religiosas. Entre 1614 e 1620, cerca de 400 panfletos,
manuscritos e livros foram publicados, alguns para elogiá-los, outros para os
denegrir. De qualquer forma, seu aparecimento constituiu um evento histórico
muito importante, especialmente no mundo do esoterismo.
Fama Fraternitatis foi dirigido às
autoridades políticas e religiosas, bem como aos cientistas da época. Ao mesmo
tempo em que fazia um balanço talvez negativo da situação geral na Europa,
revelou a existência da Ordem da Rosa+Cruz através da história alegórica de
Christian Rosenkreutz (1378-1484), desde o périplo que o levara pelo mundo
inteiro antes de dar vida à Fraternidade Rosacruz, até à descoberta de seu
túmulo. Esse Manifesto já fazia apelo a uma Reforma Universal.
Confessio Fraternitatis completou o
primeiro Manifesto, por um lado insistindo na necessidade do ser humano e a
sociedade se regenerarem e, por outro lado, indicando que a Fraternidade dos
Rosacruzes possuía uma ciência filosófica que permitia realizar essa
Regeneração. Nisso ela se dirigia antes de tudo aos buscadores desejosos de
participar nos trabalhos da Ordem e promover a felicidade da Humanidade. O
aspecto profético desse texto intrigou muito os eruditos da época.
O Casamento Alquímico de Christian
Rosenkreutz, num estilo bastante diferente dos dois primeiros Manifestos,
relatou uma viagem iniciática que representava a busca da Iluminação. Essa
viagem de sete dias se desenrolava em grande parte num misterioso castelo onde
deviam ser celebradas as bodas de um rei e de uma rainha. Em termos
simbólicos, o Casamento Alquímico descrevia a jornada espiritual que
leva todo Iniciado a realizar a união entre sua alma (a esposa) e Deus (o
esposo).
Como sublinharam historiadores, pensadores
e filósofos contemporâneos, a publicação desses três Manifestos não foi nem
insignificante nem inoportuna. Ocorreu numa época em que a Europa atravessava
uma crise existencial muito importante: estava dividida no plano político e se
dilacerava em conflitos de interesses econômicos; as guerras de religiões
semeavam desgraça e desolação, mesmo no seio das famílias; a ciência tomava
impulso e já assumia uma orientação materialista; as condições de vida eram
miseráveis para a maioria das pessoas; a sociedade da época estava em plena
mutação, mas faltavam-lhe referências para evoluir no sentido do interesse
geral...
A História se repete e põe regularmente em
cena os mesmos eventos, mas numa escala geralmente mais vasta. Assim, perto de
quatro séculos após a publicação dos três primeiros Manifestos, constatamos
que o mundo inteiro, mais estritamente a Europa, enfrenta uma crise
existencial sem precedentes, em todos os campos de sua atividade: política,
econômica, científica, tecnológica, religiosa, moral, artística, etc. Por
outro lado, nosso planeta, isto é, nosso campo de vida e evolução, está
gravemente ameaçado, o que justifica a importância de uma ciência
relativamente recente, qual seja, a ecologia. Seguramente, a Humanidade atual
não está bem. Por isso, fiéis à nossa Tradição e ao nosso Ideal, nós,
Rosacruzes dos tempos atuais, julgamos que seria útil darmos testemunho disso
através desta Positio.
Positio Fraternitatis Rosae Crucis
não é um ensaio escatológico. De maneira nenhuma é apocalíptico. Como vimos de
dizer, seu objetivo é transmitir nossa posição quanto ao estado do mundo atual
e pôr em evidência o que nos parece preocupante para o seu futuro. Como já o
fizeram em sua época nossos irmãos do passado, desejamos também apelar para
mais humanismo e espiritualidade, pois temos a convicção de que o
individualismo e o materialismo que prevalecem atualmente nas sociedades
modernas não podem trazer aos homens a felicidade a que eles legitimamente
aspiram. Esta Positio sem dúvida parecerá alarmista para alguns, mas
“não há surdo pior do que aquele que não quer ouvir e cego pior do que aquele
que não quer ver”.
A Humanidade atual está ao mesmo tempo
perturbada e desamparada. Os imensos progressos que ela realizou no plano
material não lhe trouxeram verdadeiramente felicidade e não lhe permitem
entrever o futuro com serenidade: guerras, fome, epidemias, catástrofes
ecológicas, crises sociais, atentados contra as liberdades fundamentais, são
outros tantos flagelos que contradizem a esperança que o Ser Humano depositara
em seu futuro. Por isso dirigimos esta mensagem a quem a queira de bom grado
ouvir. Ela segue a linha daquela que os rosacruzes do século XVII exprimiram
através dos três primeiros Manifestos, mas, para compreendê-la, é preciso ler
o grande livro da História com realismo e dirigir um olhar lúcido para a
Humanidade, este edifício feito de homens e mulheres em via de evolução.
.'.
POSITIO R+C
O Ser Humano evolui através do
Tempo, como o faz, aliás, tudo aquilo que participa no seu campo de vida, bem
como o próprio Universo. Aí está uma característica de tudo o que existe no
mundo manifesto. Mas consideramos que a evolução do Ser Humano não se limita
aos aspectos materiais de sua existência, convictos que estamos de que ele tem
uma alma, ou seja, uma dimensão espiritual. Conforme pensamos, é ela que dele
faz um ser consciente, capaz de refletir sobre a sua origem e o seu destino.
Por isso consideramos a evolução da Humanidade como um fim, a Espiritualidade
como um meio e o Tempo como um revelador.
A História não é tão inteligível pelos
eventos que a geram, ou que ela gera, quanto pelos elos que os unem. Por outro
lado, ela tem um sentido, o que a maioria dos historiadores atuais de bom
grado admite. Para compreendê-la, é preciso então levar em consideração os
eventos, é verdade que como elementos isolados, mas também e sobretudo como
elementos de um todo. Com efeito, consideramos que um fato só é
verdadeiramente histórico com relação ao conjunto a que pertence. Dissociar os
dois, ou fazer de sua dissociação uma moral da História, constitui uma fraude
intelectual. Assim é que há proximidades, justaposições, coincidências ou
concomitâncias que nada devem ao acaso.
Como dissemos no Prólogo, vemos uma
similitude entre a situação atual do mundo e a da Europa no século XVII.
Aquilo que alguns já qualificam como pós-modernidade, acarretou efeitos
comparáveis em numerosos campos e, infelizmente, provocou certa
degenerescência da Humanidade. Mas pensamos que essa degenerescência é apenas
temporária e que acabará numa Regeneração individual e coletiva, na condição,
não obstante, de que os homens dêem uma direção humanista e espiritualista ao
seu futuro. Se não o fizerem, estarão de fato se expondo a problemas muito
mais graves do que aqueles que estão enfrentando atualmente.
Com base na nossa Ontologia, consideramos
que o Ser Humano é a criatura mais evoluída dentre as que vivem na Terra,
mesmo se às vezes se comporta de maneira indigna no tocante a esse status. Ele
ocupa essa situação privilegiada porque é dotado de autoconsciência e de
livre-arbítrio. É então capaz de pensar e orientar sua existência por suas
próprias escolhas. Acreditamos também que todo ser humano é uma célula
elementar de um único e o mesmo corpo, o corpo da Humanidade inteira. Em
virtude deste princípio, nossa concepção do Humanismo consiste em afirmar que
todos os homens deveriam ter os mesmos direitos, gozar do mesmo respeito e
desfrutar a mesma liberdade, independentemente do país onde nascessem e
daquele onde vivessem.
Quanto à nossa concepção da
Espiritualidade, está fundada, por um lado, na convicção de que Deus existe
como Inteligência absoluta que criou o Universo e tudo o que ele contém e, por
outro lado, na certeza de que o Ser Humano tem uma alma que Dele emana. Melhor
ainda, consideramos que Deus Se manifesta em toda a Criação através das leis
que o Ser Humano deve estudar, compreender e respeitar, para sua maior
felicidade. De fato, consideramos que a Humanidade evolui para a compreensão
do Plano divino e está destinada a criar na Terra uma Sociedade ideal. Esse
humanismo espiritualista pode parecer utópico, mas unimo-nos a Platão, que
declarou em A República: “A Utopia é a forma de Sociedade ideal.
Talvez seja impossível de realizar na Terra, mas é nela que um sábio deve
depositar todas as suas esperanças”.
Neste período de transição da História, a
Regeneração da Humanidade nos parece mais que nunca possível em virtude da
convergência das consciências, da generalização das trocas internacionais, da
expansão da mestiçagem cultural, da universalização da informação, bem como da
interdisciplinaridade que existe desde já entre os diferentes ramos do saber.
Mas consideramos que essa Regeneração, que deve funcionar tanto no plano
individual quanto no coletivo, só se pode fazer privilegiando-se o ecletismo e
seu corolário, a tolerância. Com efeito, nenhuma instituição política, nenhuma
religião, nenhuma filosofia, nenhuma ciência detém o monopólio da Verdade.
Isto posto, podemos nos aproximar dessa Regeneração colocando em comum o que
essas instituições têm de mais nobre a oferecer aos seres humanos, o que
redunda em buscar a unidade através da diversidade.
Cedo ou tarde, as vicissitudes da
existência levam o Ser Humano a se interrogar quanto à razão de sua presença
na Terra. Essa busca de uma justificativa é natural, pois é parte Integrante
da alma humana e constitui o fundamento de sua evolução. Por outro lado, os
eventos que balizam a História não se justificam somente pelo fato de que
existem; eles postulam uma razão que lhes é exterior. Pensamos que essa
própria razão se integra a um processo espiritual que incita o Ser Humano a se
questionar quanto aos mistérios da vida, donde o interesse que ele algum dia
atribui ao misticismo e à “busca da Verdade”. Se essa busca é natural,
acrescentamos que o Ser Humano é impelido à esperança e ao otimismo por uma
injunção de sua natureza divina e por um instinto biológico de sobrevivência.
Nisso, a aspiração à Transcendência aparece como uma exigência vital da
espécie humana.
.'.
No tocante à política, consideramos
que é imperativo que ela se renove. Dentre os grandes modelos do século XX, o
marxismo-leninismo e o nacional-socialismo, baseados em postulados sociais
pretensamente definitivos, levaram a uma regressão da razão e, finalmente, à
barbárie. Os determinismos correlatos com essas duas ideologias totalitárias
contrastaram fatalmente com a necessidade de autodeterminação do Ser Humano,
traindo assim seu direito à liberdade e escrevendo, no mesmo golpe, algumas
das páginas mais negras da História. E a História desqualificou a ambas,
esperemos que para todo o sempre. Seja o que for que se pense disso, os
sistemas políticos baseados num monologismo, isto é, num pensamento único, têm
com freqüência em comum o fato de imporem ao Ser Humano “uma doutrina da
salvação” que se presume libertá-lo de sua condição imperfeita e elevá-lo a um
status “paradisíaco”. Por outro lado, a maioria deles não pede ao cidadão que
reflita e sim que creia, o que os assemelha, na realidade, a “religiões
laicas”.
Ao contrário, correntes de pensamento como
o rosacrucianismo não são monológicas e sim dialógicas e pluralistas. Em
outras palavras, encorajam o diálogo com outrem e favorecem as relações
humanas. Paralelamente, aceitam a pluralidade de opiniões e a diversidade dos
comportamentos. Tais correntes se nutrem, portanto, de trocas, de interações e
mesmo de contradições, coisa que as ideologias totalitárias proíbem e se
proíbem. É, aliás, por esta razão que o Pensamento Rosacruz sempre foi
rejeitado pelos totalitarismos, qualquer que fosse a sua natureza. Desde suas
origens, nossa Fraternidade preconiza o direito individual de forjar suas
idéias e expressá-las de maneira totalmente livre. Nisso, os rosacruzes não
são necessariamente livres-pensadores, mas todos são pensadores livres.
No estado atual do mundo, parece-nos que a
democracia continua a ser a melhor forma de governo, o que não exclui certas
fraquezas. Com efeito, sendo toda verdadeira democracia baseada na liberdade
de opinião e de expressão, nela se encontram, geralmente, uma pluralidade de
tendências, tanto entre os governantes como entre os governados. Infelizmente,
essa pluralidade com freqüência gera divisão, com todos os conflitos que disso
resultam. Assim é que a maioria dos Estados democráticos manifesta facções que
se opõem continuamente e de maneira quase sistemática. Essas facções
políticas, gravitando o mais das vezes em torno de uma maioria e de uma
oposição, não nos parecem mais adaptadas às sociedades modernas e desaceleram
a Regeneração da Humanidade. O ideal nessa matéria seria que cada nação
favorecesse a emergência de um governo que reunisse, todas as tendências
amalgamadas, as personalidades mais aptas a dirigir os negócios do Estado. Por
extensão, fazemos votos de que um dia exista um Governo mundial representativo
de todas as nações, do qual a ONU é apenas um embrião.
.'.
No tocante à economia, consideramos
que ela está completamente à deriva. Todo mundo pode constatar que ela
condiciona cada vez mais a atividade humana e é cada vez mais normativa. Hoje
em dia ela assume a forma de redes estruturadas muito influentes e, portanto,
dirigistas, quaisquer que sejam suas aparências. Por outro lado, mais que
nunca ela funciona a partir de valores determinados que se pretende
quantificáveis: custo de produção, limiar de rentabilidade, avaliação do
lucro, duração do trabalho, etc. Esses valores são consubstanciais com o
sistema econômico atual e lhe fornecem os meios de alcançar os fins que
persegue. Infelizmente, esses fins são fundamentalmente materialistas, porque
baseados no lucro e no enriquecimento excessivo. Assim é que se chegou a
colocar o Ser Humano a serviço da economia, quando essa economia é que deveria
ser colocada ao serviço do Ser Humano.
Em nossos dias, todas as nações são
tributárias de uma economia mundial que se pode qualificar como totalitária.
Esse totalitarismo econômico não corresponde às mais elementares necessidades
de centenas de milhões de pessoas, ao passo que as massas monetárias nunca
foram tão colossais no plano mundial. Isto significa que as riquezas
produzidas pelos homens só beneficiam uma minoria deles, o que deploramos. De
fato, constatamos que a defasagem não cessa de se ampliar entre os países mais
ricos e os países mais pobres. Pode-se observar o mesmo fenômeno em cada país,
entre os mais desprovidos e os mais favorecidos. Consideramos que assim é
porque a economia se tornou especulativa demais e porque ela alimenta mercados
e interesses que são mais virtuais que reais.
Evidentemente, a economia só cumprirá seu
papel quando for colocada a serviço de todos os seres humanos. Isto supõe que
se venha a considerar o dinheiro pelo que ele deve ser, a saber, um meio de
troca e uma energia destinada a proporcionar a cada um aquilo de que ele
precisa para viver feliz no plano material. Nisso estamos convictos de que o
Ser Humano não está destinado a ser pobre e menos ainda miserável, mas, ao
contrário, a dispor de tudo o que possa contribuir para o seu bem-estar, a fim
de que possa elevar sua alma, com toda quietude, a planos superiores de
consciência. A rigor, a economia deveria ser empregada de tal maneira que não
houvesse mais pobres e que toda pessoa vivesse em boas condições materiais,
pois isso é a base da dignidade humana. A pobreza não é uma fatalidade; não é
tampouco o efeito de um Decreto divino. De maneira geral, resulta do egoísmo
dos homens. Esperamos então que chegue o dia em que a economia esteja
fundamentada na partilha e na consideração do bem comum. Não obstante, os
recursos da Terra não são inesgotáveis e não podem ser partilhados ao
infinito, de modo que, certamente, há de ser necessário regular os
nascimentos, principalmente nos países superpovoados.
.'.
Quanto à ciência, consideramos que
ela chegou a uma fase particularmente crítica. É verdade que não se pode negar
que ela evoluiu muito e permitiu à Humanidade realizar progressos
consideráveis. Sem ela, os homens ainda estariam na idade da pedra. Mas,
enquanto os gregos haviam elaborado uma concepção qualitativa da pesquisa
científica, o século XVII provocou um verdadeiro sismo, instaurando a
supremacia do quantitativo, o que não deixa de guardar relação com a evolução
da economia. O mecanicismo, o racionalismo, o positivismo, etc., fizeram da
consciência e da matéria dois campos bem distintos e reduziram todo fenômeno a
uma entidade mensurável e desprovida de subjetividade. O como eliminou
o porquê. Se é um fato que as pesquisas realizadas ao longo das últimas
décadas resultaram em descobertas importantes, o ganho financeiro parece ter
primado sobre o resto. E chegamos hoje ao ápice do materialismo científico.
Tornamo-nos escravos da ciência, tanto mais
que não a submetemos à nossa vontade. Simples falhas tecnológicas podem hoje
colocar em perigo as mais avançadas sociedades, o que prova que o Ser Humano
criou um desequilíbrio entre o qualitativo e o quantitativo, mas também entre
ele próprio e aquilo que criou. Os objetivos materialistas que ele persegue
hoje em dia, através da pesquisa científica, acabaram extraviando seu
espírito. Paralelamente, eles o afastaram de sua alma e do que nele há de mais
divino. Essa excessiva racionalização da ciência é um perigo real que ameaça a
Humanidade a médio e talvez mesmo a curto prazo. Com efeito, toda sociedade em
que a matéria domina a consciência desenvolve o que há de menos nobre na
natureza humana. Em virtude disso ela se condena a desaparecer prematuramente
e em circunstâncias o mais das vezes trágicas.
Em certa medida, a ciência tornou-se uma
religião, mas uma religião materialista, o que é paradoxal. Fundada numa
abordagem mecanicista do Universo, da Natureza e do próprio Ser Humano, ela
tem seu próprio credo (“Só acreditar naquilo que veja”) e seu próprio
dogma (“Nenhuma verdade fora dela”). Isto posto, observamos no entanto
que as pesquisas que ela realiza sobre o como das coisas levam-na cada vez
mais a se interrogar sobre o seu porquê, de modo que ela pouco a pouco toma
consciência de seus limites e nisso começa a se juntar ao misticismo. Certos
cientistas, ainda raros, é verdade, chegaram mesmo a propor a existência de
Deus como postulado. É de se notar que a ciência e o misticismo estavam muito
ligados na Antiguidade, a tal ponto que os cientistas eram místicos e
vice-versa. É precisamente a reunificação desses dois meios de conhecimento
que precisa ser realizada no decorrer das próximas décadas.
Tornou-se necessário repensar a questão do
saber. Por exemplo, qual é o sentido real da reprodutibilidade de uma
experiência? Uma proposição que não se confirme em todos os casos, será ela
necessariamente falsa? Parece-nos urgente superarmos o dualismo racional
estabelecido no século XVII, pois é nessa superação que reside a verdadeiro
conhecimento. Nesta linha de pensamento, o fato de não se poder provar a
existência de Deus não é suficiente para se afirmar que ele não existe. A
verdade pode ter várias faces; manter somente uma, em nome da racionalidade, é
um insulto à razão. Além disso, pode-se verdadeiramente falar em racional e
irracional? É a própria ciência racional, ela que crê no acaso? Parece-nos,
com efeito, muito mais irracional acreditar nele do que não acreditar. Neste
particular, devemos dizer que nossa Fraternidade sempre se opôs à noção comum
do acaso, que ela considera uma solução de facilidade e uma fuga ante o real.
Nele vemos o que a seu respeito disse Albert Einstein, a saber: “A Senda
que Deus adota quando quer permanecer anônimo”.
A evolução da ciência coloca também novos
problemas nos planos ético e metafísico. Embora seja inegável que as pesquisas
em genética permitiram fazer grandes progressos no tratamento de doenças a
priori incuráveis, elas abriram caminho a manipulações que permitem criar
seres humanos por clonagem. Este gênero de procriação só pode levar a um
empobrecimento genético da espécie humana e à sua degenerescência. Além disso,
ela supõe critérios de seleção inevitavelmente marcados pela subjetividade e
apresenta, por conseguinte, riscos em matéria de eugenia. Por outro lado, a
reprodução por clonagem só leva em conta a parte física e material do ser
humano, sem atentar para o espírito nem para a alma. Por isso consideramos que
essa manipulação genética fere, não somente sua dignidade, mas também sua
integridade mental, psíquica e espiritual. Nisso aderimos ao adágio,
ciência sem consciência é a ruína da alma. Na História, a apropriação do
Ser Humano pelo Ser Humano só deixou tristes lembranças. Parece-nos então
perigoso permitir livre curso às experiências relativas à clonagem reprodutora
do ser humano em particular e dos seres vivos em geral. Temos os mesmos
receios a propósito das manipulações que tangem ao patrimônio genético dos
animais como ao dos vegetais.
.'.
Quanto à tecnologia, constatamos
que ela também está em plena mutação. Os homens sempre procuraram fabricar
ferramentas e máquinas para melhorar suas condições de vida e para serem mais
eficazes em seu trabalho. Em seu aspecto mais positivo, esse desejo tinha
originalmente três objetivos principais: permitir-lhes realizar coisas que não
podiam fazer usando somente suas mãos; poupá-los do sofrimento e da fadiga;
ganhar tempo. É preciso notar também que, durante séculos, para não dizer
milênios, a tecnologia só foi empregada para ajudar ao Ser Humano em trabalhos
manuais e atividades físicas, ao passo que em nossos dias ela o assiste ainda
no plano intelectual. Por outro lado, por muito tempo ela se limitou a
procedimentos mecânicos que requeriam a intervenção direta do Ser Humano e não
ameaçavam ou pouco ameaçavam o ambiente.
Desde então, a tecnologia se fez
onipresente e constitui o coração das sociedades modernas, a ponto de que se
tornou quase indispensável. Suas aplicações são múltiplas e ela passou a
integrar procedimentos tanto mecânicos quanto elétricos, eletrônicos, de
informática, etc. Infelizmente, toda medalha tem seu verso e as máquinas se
tornaram um perigo para o próprio Ser Humano. Com efeito, embora elas fossem
idealmente destinadas a ajudá-lo e a poupá-lo do sofrimento, chegaram ao ponto
de substituí-lo. Por outro lado, não se pode negar que o desenvolvimento
progressivo do maquinismo provocou certa desumanização da sociedade, no
sentido de que reduziu consideravelmente os contatos humanos, entendendo-se
aqui os contatos físicos e diretos. A isso acrescentam-se todas as formas de
poluição que a industrialização gerou em muitos campos.
O problema colocado atualmente pela
tecnologia provém do fato de que ela evoluiu muito mais rápido do que a
consciência humana. Consideramos também que é urgente que ela rompa com o
modernismo atual e se torne um agente de humanismo. Para isso é imperativo
recolocar o Ser Humano no centro da vida social, o que, em conformidade com o
que dissemos a respeito da economia, implica recolocar a máquina a seu
serviço. Essa perspectiva requer total reconsideração dos valores
materialistas que condicionam a sociedade atual. Isso supõe, por conseguinte,
que todos os homens voltem a se centrar em si mesmos e enfim compreendam que é
preciso privilegiar a qualidade de vida e cessar essa corrida desenfreada
contra o Tempo. Ora isso só será possível se eles reaprenderem a viver em
harmonia, não somente com a Natureza, mas também com eles próprios. O ideal
seria que a tecnologia evoluísse de tal maneira que libertasse o Ser Humano
das tarefas mais penosas e ao mesmo tempo lhe permitisse desabrochar
harmoniosamente em contato com os outros.
.'.
Quanto às grandes religiões,
consideramos que elas manifestam atualmente dois movimentos contrários: um,
centrípeto e, o outro, centrífugo. O primeiro consiste numa prática radical
que se pode observar sob forma de integrismos no seio do cristianismo, do
judaísmo, do islamismo ou do hinduísmo, entre outros. O segundo se traduz por
um abandono de seu credo em geral e de seus dogmas em particular. O indivíduo
não mais aceita manter-se na periferia de um sistema de crenças, mesmo que se
trate de uma religião dita revelada. Doravante, ele quer se colocar no centro
de um sistema de pensamento resultante de sua própria experiência. Nisso, a
aceitação dos dogmas religiosos não é mais automática. Os crentes adquiriram
certo senso crítico a respeito das questões religiosas e a validade de suas
convicções corresponde cada vez mais a uma validação pessoal. Onde a
necessidade de Espiritualidade produziu outrora algumas religiões com forma
arborescente (a forma de uma árvore bem enraizada em seu solo sócio-cultural,
que elas aliás contribuíram para enriquecer), hoje ela toma a forma de uma
estrutura em rizoma, feita de arbustos múltiplos e variados. Mas, o Espírito
não sopra onde quer?
Assim é que aparecem hoje em dia, à margem
ou no lugar das grandes religiões, grupos de afinidades, comunidades de idéias
ou movimentos de pensamento, no seio dos quais as doutrinas, mais propostas
que impostas, são admitidas por uma adesão voluntária. Independentemente da
natureza intrínseca dessas comunidades, desses grupos ou desses movimentos,
sua multiplicação traduz uma diversificação da busca espiritual. De maneira
geral, consideramos que essa diversificação se deve ao fato de que as grandes
religiões, que respeitamos como tais, não detêm mais o monopólio da fé. E
assim é porque elas respondem cada vez menos ao questionamento do Ser Humano e
não mais o satisfazem no plano interior. É talvez também porque elas se
afastaram da Espiritualidade. Ora, esta, embora imutável em essência, procura
constantemente se expressar através de veículos cada vez mais adaptados à
evolução da Humanidade.
A sobrevivência das grandes religiões
depende mais que nunca de sua aptidão para renunciar às crenças e posições
mais dogmáticas que elas adotaram com o passar dos séculos, tanto no plano
moral como no doutrinário. Para que elas perdurem, devem imperiosamente se
adaptar à sociedade. Se não se derem conta, nem da evolução das consciências
nem do progresso da ciência elas se condenarão a desaparecer a um prazo mais
ou menos longo, não sem provocar ainda mais conflitos étnico-sócio-religiosos.
Mas, na realidade, presumimos que seu desaparecimento é inevitável e que, sob
o efeito da globalização das consciências, elas darão nascimento a uma
Religião universal que integrará o que elas tinham de melhor a oferecer à
Humanidade para a sua Regeneração. Por outro lado, pensamos que o desejo de
conhecer as leis divinas, isto é, as leis naturais, universais e espirituais,
há de cedo ou tarde suplantar a necessidade exclusiva de crer em Deus. Nisso,
postulamos que a crença um dia dará lugar ao Conhecimento.
.'.
No que concerne à moral, no sentido
que damos a esta palavra que se tornou ambígua, consideramos que ela está cada
vez mais injuriada. Para nós ela não designa obediência cega a regras (para
não dizer a dogmas) sociais, religiosas, políticas ou outras. Ora, é assim que
muitos de nossos concidadãos percebem a moral dos nossos dias e daí vem sua
atual rejeição. Consideramos antes que ela se relaciona com o respeito que
todo indivíduo deveria ter para com ele próprio, os outros e o ambiente. O
respeito a si mesmo consiste em viver segundo suas próprias idéias e não em se
fundamentar nos comportamentos que se reprova nos outros. O respeito aos
outros consiste, simplesmente, em não fazermos ao nosso semelhante o que não
gostaríamos que ele nos fizesse, o que todos os sábios do passado ensinaram.
Quanto ao respeito ao ambiente, ousamos dizer que ele vem naturalmente:
respeitar a natureza e preservá-la para as gerações futuras. Vista sob esse
ângulo, a moral implica um equilíbrio entre os direitos e os deveres de cada
um, o que lhe dá uma dimensão humanística que nada tem de moralizadora.
A moral, no sentido que vimos de definir,
coloca todo o problema da educação. Ora, esta nos parece perdida. A maioria
dos pais já desistiu nesse campo ou não tem mais as referências necessárias
para educar corretamente seus filhos. Muitos deles descarregam sua
responsabilidade nos professores, para dissimular essa carência. Todavia, o
papel de um professor não é antes de tudo de instruir, ou seja, de transmitir
conhecimentos? Quanto à educação, consiste antes em inculcar valores cívicos e
éticos. Nisso compartilhamos a idéia de Sócrates, que via nela “a arte de
despertar as virtudes da alma”, tais como a humildade, a generosidade, a
honestidade, a tolerância, a benevolência, etc. Independentemente de toda
consideração de natureza espiritual, consideramos que são essas virtudes que
os pais e os adultos em geral deveriam inculcar nas crianças. Naturalmente,
isso implica, se não que eles próprios as tenham adquirido, ao menos que
tenham consciência da necessidade de adquiri-las.
Com certeza o leitor sabe que os rosacruzes
do passado praticavam a alquimia material, que consistia em transmutar metais
inferiores em ouro, principalmente o estanho e o chumbo. O que freqüentemente
se ignora é que eles também se dedicavam à alquimia espiritual. Nós,
rosacruzes dos tempos atuais, damos prioridade a essa forma de alquimia, pois
é dela que mais do que nunca o mundo necessita. Essa alquimia consiste, para
todo ser humano, em transmutar cada um de seus defeitos em sua qualidade
oposta, a fim de, precisamente, adquirir as virtudes a que já nos referimos.
Pensamos, com efeito, que são essas virtudes que fazem a dignidade humana,
pois o Ser Humano só é digno do seu status se as expressa através do que
pensa, diz e faz. Não há dúvida de que, se todos os indivíduos, sejam quais
forem suas crenças religiosas, suas idéias políticas ou outras, fizessem o
esforço de adquiri-las, o mundo seria melhor. Assim, pois, a Humanidade pode e
deve se regenerar, mas é preciso, para isso, que todo ser humano se regenere,
inclusive no plano moral.
.'.
Quanto à arte, consideramos que ela
seguiu, durante os séculos passados e mais particularmente durante as últimas
décadas, um movimento de intelectualização que a levou a uma crescente
abstração. Esse processo cindiu a arte em duas correntes opostas: uma arte
elitista e uma arte popular. A arte elitista é precisamente aquela que se
expressa através do abstrato e cuja compreensão está o mais das vezes limitada
àqueles que se dizem iniciados ou que se diz que são iniciados. Por uma reação
natural, a arte popular se opõe a essa tendência, acentuando sua maneira de
traduzir o concreto, às vezes de maneira excessivamente figurativa. Mas, por
paradoxal que isso pareça, ambas mergulham cada vez mais na matéria, tanto é
verdadeiro que os extremos se tocam. Assim foi que a arte se tornou,
estrutural e ideologicamente, materialista, à imagem da maioria dos campos da
atividade humana. Hoje em dia ela traduz mais os impulsos do ego do que as
aspirações da alma, o que lamentamos.
Acreditamos que a arte verdadeiramente
inspirada consiste em traduzir no plano humano a beleza e a pureza do Plano
Divino. Neste particular, barulho não é música; borradela não é pintura;
trituração não é escultura; extravasamento não é dança. Quando não são efeitos
da moda, são meios de expressão que traduzem uma mensagem sociológica que
seria um equívoco negligenciar. Pode-se naturalmente apreciar essas coisas,
mas parece-nos inconveniente qualificá-las como artísticas. Para que as
artes participem na Regeneração da Humanidade, consideramos que elas devem
colher sua inspiração nos arquétipos naturais, universais e espirituais, o que
implica que os artistas “se elevem” a esses arquétipos, em lugar de “descerem”
aos estereótipos mais comuns. Paralelamente, é absolutamente necessário que as
artes se dêem uma finalidade estética. Tais são, para nós, as duas principais
condições a reunir para que elas contribuam realmente para a elevação das
consciências e sejam a expressão humana da Harmonia Cósmica.
.'.
No tocante às relações do Ser Humano
com seus semelhantes, consideramos que elas são cada vez mais interesseiras e
deixam cada vez menos lugar ao altruísmo. É verdade que se manifestam impulsos
de solidariedade, mas isso acontece o mais das vezes fortuitamente, por
ocasião de catástrofes (inundações, tempestades, tremores de terra, etc.). Em
situações normais, é o cada um por si que predomina nos comportamentos.
Pensamos que também essa ascensão do individualismo é uma conseqüência do
materialismo excessivo que grassa atualmente nas sociedades modernas. Não
obstante, o isolamento que decorre disso deveria acabar, cedo ou tarde,
gerando o desejo e a necessidade de renovar o contato com os outros. Por outro
lado, pode-se esperar que essa solitude leve cada um a se interiorizar mais e
a se abrir finalmente para a Espiritualidade.
A generalização da violência nos parece
também muito preocupante. É verdade que ela sempre existiu, mas está se
manifestando cada vez mais nos comportamentos individuais. O que é mais grave
ainda é que ela se manifesta cada vez mais cedo. Neste começo do século XXI,
uma criança mata uma outra, aparentemente sem nenhum sentimento. A essa
violência efetiva acrescenta-se uma violência fictícia que invadiu as telas de
cinema e de televisão. A primeira inspira a segunda e esta alimenta aquela,
criando um círculo vicioso que é mais que tempo de deter. Nisso, se é inegável
que a violência tem múltiplas causas (miséria social, ruptura da família,
desejo de vingança, necessidade de dominação, sentimento de injustiça, etc.),
seu fator mais determinante não é outro senão a própria violência.
Evidentemente, essa cultura da violência é perniciosa e não pode ser
construtiva, tanto mais que, pela primeira vez na História conhecida, a
Humanidade tem os meios de se autodestruir em escala planetária.
Num paradoxo dos tempos modernos,
constatamos por outro lado que, na era da comunicação, os indivíduos
praticamente não se comunicam mais. Os membros de uma mesma família não
dialogam mais entre si, tão ocupados estão em escutar o rádio, assistir à
televisão ou surfar na Internet. A mesma constatação se impõe num plano mais
geral: a telecomunicação suplanta a comunicação propriamente dita. Com isso
ela instala o Ser Humano numa grande solidão e reforça o individualismo a que
já nos referimos. Que sejamos bem compreendidos: o individualismo, como
direito natural a viver de maneira autônoma e responsável, absolutamente não
nos parece condenável; bem ao contrário. Mas, que ele se torne um modo de vida
baseado na negação do outro, parece-nos particularmente grave, pois contribui
para a desagregação do meio familiar e do sistema social.
Por contraditório que pareça, consideramos
que a atual falta de comunicação entre nossos concidadãos resulta em parte de
um excesso de informação. Naturalmente, não se trata de se reconsiderar o
dever de informar e o direito de ser informado, pois ambos são os pilares de
toda democracia verdadeira. Parece-nos, no entanto, que a informação se tornou
ao mesmo tempo excessiva e invasora, a ponto de gerar o seu oposto: a
desinformação. Lamentamos igualmente que ela seja focalizada acima de tudo na
precariedade da condição humana e tanto ponha em epígrafe os aspectos
negativos do comportamento humano. Assim fazendo ela nutre, no melhor, o
pessimismo, a tristeza e o desespero; no pior, a suspeição, a divisão e o
rancor. Se é legítimo mostrar o que participa na feiúra do mundo, é do
interesse de todos revelar o que compõe a sua beleza. Mais que nunca o mundo
tem necessidade de otimismo, esperança e unidade.
A compreensão do Ser Humano pelo Ser Humano
constituiria um avanço considerável, mais radical ainda do que o impulso
científico e tecnológico que o século XX conheceu. Por isso toda sociedade
deve favorecer os encontros diretos entre seus membros, mas também abrir-se
para o mundo. Nisso defendemos a causa de uma Fraternidade humana que faça de
todo indivíduo um Cidadão do mundo, o que supõe que se ponha termo a toda
discriminação ou segregação de ordem racial, étnica, social, política ou
outra. Finalmente, trata-se de empreender o advento de uma Cultura da Paz,
fundada na integração e na cooperação, coisa em que os rosacruzes sempre se
empenharam. Sendo a Humanidade uma em essência, sua felicidade só é possível
favorecendo a de todos os seres humanos, sem exceção.
.'.
A propósito das relações do Ser
Humano com a Natureza, consideramos que elas nunca foram tão ruins num plano
de conjunto. Todo mundo pode constatar que a atividade humana tem efeitos cada
vez mais nocivos e degradantes sobre o ambiente. No entanto, é evidente que a
sobrevivência da espécie humana depende de sua aptidão para respeitar os
equilíbrios naturais. O desenvolvimento da Civilização gerou muitos perigos
decorrentes de manipulações biológicas relativas à alimentação, à utilização
em grande escala de agentes poluentes, à acumulação mal controlada de resíduos
nucleares, para citarmos apenas alguns riscos principais. A proteção da
Natureza e, portanto, a salvaguarda da Humanidade, tornou-se uma questão de
cidadania, ao passo que antes só dizia respeito aos especialistas. Ademais,
ela se impõe doravante no plano mundial. Isso é ainda mais importante porque o
próprio conceito de Natureza mudou e porque o Ser Humano está se sentindo
parte integrante dela; não se pode mais falar, hoje em dia, em Natureza em
si mesma. A Natureza há de ser, portanto, aquilo que o Ser Humano queira
que ela seja.
Uma das características da época atual é
seu grande consumo de energia. Esse fenômeno não seria em si mesmo inquietante
se fosse produzido com inteligência. Observamos, no entanto, que as fontes
naturais estão sendo superexploradas e estão se esgotando gradativamente
(carvão, gás, petróleo). Por outro lado, certas fontes de energia (centrais
nucleares) apresentam riscos consideráveis, muito difíceis de dominar. Notamos
também que, a despeito de recentes tentativas de acordo, certos perigos, como
a emissão de gás com efeito-estufa, a desertificação, o desmatamento, a
poluição dos oceanos, etc., não são objeto de medidas adequadas, por falta de
uma vontade suficiente. Além do fato de que essas agressões ao ambiente fazem
com que a Humanidade corra riscos muito graves, elas traduzem uma grande falta
de maturidade, tanto no plano individual quanto no coletivo. Seja o que for
que se diga, consideramos que as anormalidades climáticas atuais, com seu
cortejo de tempestades, inundações, etc., são uma conseqüência das agressões
que os homens infligem há muito tempo ao nosso planeta.
Evidentemente, um outro problema importante não deixará de se impor de modo
mais ou menos crucial no futuro: o problema da água. Ela é um elemento
indispensável à manutenção e ao desenvolvimento da vida. Sob uma forma ou
outra, todos os seres vivos dela necessitam. O Ser Humano não é exceção a essa
lei natural, mesmo porque seu corpo contém 70% de água. Ora, o acesso a um
volume constante atual de água doce está hoje limitado a no máximo para seis
habitantes no globo, proporção esta que ameaça reduzir-se para somente quatro
habitantes antes de meio século, devido ao aumento da população mundial e da
poluição dos rios e dos riachos. Os maiores especialistas concordam em dizer,
hoje em dia, que o “ouro branco” será, mais que o “ouro negro”, o jogo do
século, com todos os riscos de conflitos que isso implica. Uma tomada de
consciência global desse problema também se impõe.
A poluição do ar encerra ainda perigos
consideráveis para a vida em geral e para a espécie humana em particular. A
indústria, o aquecimento e os transportes, participam numa degradação de sua
qualidade e poluem a atmosfera, fonte de riscos para a saúde pública. As zonas
urbanas são as mais atingidas por esse fenômeno, que ameaça então se ampliar
na medida da urbanização. Nessa linha de pensamento, a hipertrofia das cidades
constitui um perigo não negligenciável para o equilíbrio das sociedades. A
propósito de seu crescimento, adotamos a opinião que Platão, ao qual já nos
referimos, emitiu em sua época: “Até ao ponto em que, aumentada, ela
conserve sua unidade, a cidade poderá se estender, mas não além desse ponto”.
O gigantismo não pode favorecer o humanismo no sentido com que já o
definimos. Ele acarreta necessariamente desarmonia no seio das grandes
cidades, gerando mal-estar e insegurança.
O comportamento do Ser Humano para com os
animais também faz parte de suas relações com a Natureza. Ele tem o dever de
amá-los e respeitá-los. Todos participam na cadeia da vida tal como se
manifesta na Terra e todos são agentes da Evolução. Ao seu nível, eles são
também veículos da Alma Divina e participam no Plano Divino. Vamos mesmo ao
ponto de considerar que os mais evoluídos dentre eles são seres humanos em
devir. Por todas essas razões, consideramos indignas as condições em que
muitos deles são criados e abatidos. Quanto à vivissecção, nela vemos um ato
de barbárie. De maneira geral, consideramos que a fraternidade deve incluir
todos os seres que a vida pôs no mundo. Compartilhamos também essas
proposições atribuídas a Pitágoras: “Enquanto os homens continuarem a
destruir sem piedade os seres vivos dos reinos inferiores, não conhecerão nem
a santidade nem a paz. Enquanto eles massacrarem os animais, haverão de se
matar entre si. Com efeito, quem semeia morticínio e dor não pode colher
alegria e amor”.
Ñ
Com respeito às relações do Ser
Humano com o Universo, consideramos que elas se baseiam na interdependência.
Sendo o Ser Humano um filho da Terra e a Terra uma filha do Universo, o Ser
Humano é então um filho do Universo. Assim é que os átomos que compõem o corpo
humano provêm da Natureza e são encontrados nos confins do Cosmo, o que leva
os astrofísicos a dizer que “O Ser Humano é um filho das estrelas”.
Mas, se o Ser Humano está em débito com o Universo, este também deve muito a
ele; não a sua existência, é claro, mas sua razão de existir. Com efeito, que
seria o Universo se os olhos do Ser Humano não o pudessem contemplar, se sua
consciência não o pudesse apreender, se sua alma não pudesse nele se refletir?
Na realidade, O Universo e o Ser Humano precisam um do outro para se
conhecerem e mesmo se reconhecerem, o que não deixa de lembrar o célebre
adágio: “Conhece a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses”.
Não cabe todavia deduzir que nossa
concepção da Criação seja antropocêntrica. De fato, não fazemos do Ser Humano
o centro do Plano Divino. Digamos antes que fazemos da Humanidade o centro de
nossas preocupações. Segundo o nosso pensamento, sua presença na Terra não é
fruto do acaso ou de um concurso de circunstâncias. Ela é conseqüência de uma
Intenção que teve origem na Inteligência Universal que é comumente chamada de
Deus. Ora, se Deus, devido à Sua Transcendência, é incompreensível e
ininteligível, não acontece o mesmo com as leis pelas quais Ele se manifesta
na Criação. Como já o mencionamos, o Ser Humano tem o poder, se não o dever,
de estudar essas leis e de aplicá-las para o seu bem-estar material e
espiritual. Pensamos mesmo que é nesse estudo e nessa aplicação que residem,
não somente sua razão de ser, mas também sua felicidade.
As relações do Ser Humano com o Universo
colocam ainda a questão de saber se a vida existe em outros lugares além da
Terra. Estamos convencidos disto. Dado que o Universo contém cerca de cem
bilhões de galáxias e cada galáxia cerca de cem bilhões de estrelas, existem
provavelmente milhões de sistemas solares comparáveis ao nosso. Por
conseguinte, pensar que só o nosso planeta é habitado nos parece muito redutor
e constitui uma forma de egocentrismo. Dentre as formas de vida que povoam
outros mundos, algumas são provavelmente mais evoluídas do que as que existem
na Terra; outras, menos. Mas todas fazem parte do mesmo Plano Divino e
participam na Evolução Cósmica. Quanto a saber se extraterrestres podem
contatar nossa Humanidade, consideramos que sim, mas não fazemos disso objeto
de nenhuma expectativa. Temos outras prioridades. Isto posto, o dia em que se
fizer esse contato, pois ele há de ocorrer, constituirá um evento sem
precedente. Com efeito, a História do Ser Humano se fundirá à da Vida
Universal…
Ñ
EPÍLOGO
Caro leitor:
Aí está então o que queríamos lhe
dizer através deste Manifesto. Terá ele lhe parecido alarmista? Por razão
mesmo de nossa filosofia, esteja no entanto seguro de que somos ao mesmo tempo
idealistas e otimistas, posto que temos confiança no Ser Humano e em seu
destino. Quando se considera o que ele criou de mais útil e mais belo no campo
da ciência, da tecnologia, da arquitetura, da arte, da literatura ou em outros
e, quando se pensa nos sentimentos mais nobres que ele é capaz de ter e de
expressar, como o maravilhamento, a compaixão, o amor, etc., não se pode
duvidar de que ele possui em si algo de divino e de que é capaz de se
transcender para fazer o bem. A este respeito pensamos, com o risco de mais
uma vez parecermos utopistas, que o Ser Humano tem o poder de fazer da Terra
um lugar de paz, de harmonia e de fraternidade. Isso só depende dele.
A situação do mundo atual não é desesperada, mas
é preocupante. O que mais nos preocupa, não é tanto o estado da Humanidade
quanto o do nosso planeta. Pensamos, com efeito, que o tempo para a evolução
espiritual da Humanidade não está contado, pois, como sua alma é imortal, ele
tem de certo modo a eternidade para realizar essa evolução. Ao contrário, a
Terra está realmente ameaçada a médio prazo, pelo menos como habitat para a
espécie humana. O tempo está então contado para ela e consideramos que sua
preservação é o verdadeiro jogo do século XXI. É a ela que a política, a
economia, a ciência, a tecnologia e, em geral, todos os campos da atividade
humana, deveriam se dedicar. Será realmente tão difícil compreender que a
Humanidade só poderá encontrar felicidade vivendo em harmonia com as leis
naturais e, por extensão, com as leis divinas? Por outro lado, será tão
absurdo admitir que ela tenha os meios de se sublimar em seu próprio
interesse? Seja como for, se os seres humanos persistirem no atual
materialismo, as profecias mais sombrias se realizarão e ninguém será poupado.
Pouco importam as idéias políticas, as
crenças religiosas, as convicções filosóficas de cada um. Os tempos não estão
mais para divisão, qualquer que seja sua forma, mas para a união; para a união
das diferenças, a serviço do bem comum. Nisso, nossa Fraternidade conta em seu
quadro com cristãos, judeus, muçulmanos, budistas, hinduístas, animistas e
mesmo agnósticos. Reúne também pessoas que pertencem a todas as categorias
sociais e representam todas as correntes políticas clássicas. Homens e
mulheres nela têm um status de total igualdade e cada membro goza das mesmas
prerrogativas. É essa unidade na diversidade que faz a pujança do nosso ideal
e da nossa egrégora. Assim é porque a virtude que mais prezamos é a
tolerância, isto é, precisamente, o direito à diferença. Isto não faz de nós
sábios, pois a sabedoria abrange muitas outras virtudes. Consideramo-nos antes
filósofos, ou seja, literalmente, “amantes da sabedoria”.
.'.
Antes de selar esta Positio e
lhe dar assim a marca da nossa Fraternidade, desejamos encerrá-la com uma
invocação que traduz o que se poderia qualificar como a Utopia Rosacruz,
no sentido platônico do termo. Apelamos à boa vontade de todos e de cada um,
para que essa Utopia se torne um dia realidade, para o maior bem da
Humanidade. Talvez esse dia nunca chegue, mas, se todos os seres humanos se
esforçarem para acreditar nisso e agir em conformidade com isso, o mundo só
poderá ser melhor…
Utopia Rosacruz