O Sequestro da América – Charles Ferguson

banner

Título Original: “Predator Nation: Corporate Criminals, Political Corruption, and the Hijacking of America”

Lançamento: 2013

Páginas: 370

  English Version here

 

            Com este livro explosivo, Charles Ferguson, vencedor do Oscar de Melhor documentário em 2011 com “Inside Job”, precisamente sobre a crise econômica que abalou o setor financeiro mundial, dá prosseguimento à sua pesquisa informando não apenas que até 2013 (como já era o caso em 2011, quando ele, na cerimônia de premiação do Oscar protestou contra a impunidade dos implicados na fraude retratada em seu documentário) ninguém foi punido por haver fraudado não apenas o povo dos EUA, mas haver levado o mundo inteiro à sua pior crise desde a Grande Depressão de 1929. Neste livro, Ferguson denuncia a malha de intelectuais, funcionários do governo e a influência política sobre o congresso que, na prática, mantém nos EUA, como ocorre no Brasil, o crime verdadeiramente organizado no poder (sobre o caso brasileiro, de que também trato, o texto está sendo revisado. Já está em encaminhamento uma solução para o problema). Bem, em nosso caso, e após lermos o livro que Ferguson nos apresenta, conclui-se que, mais acurado seria dizer que, aqui na colônia, como ocorre na metrópole, os financistas se organizaram de maneira criminosa e tomaram a máquina de poder político de tal forma que todos os partidos estão de uma forma ou de outra comprometidos com a jogatina internacional. O mesmo ocorre com as outras colônias estadunidenses na América Latina assim como muitos países semi-democráticos da Europa, como Portugal, Grécia, Irlanda, Espanha...

            Colocando o problema em detalhes (sintetizando: uma gigantesca fraude provocada pelos banqueiros e jogadores da bolsa em Wall Street levando a crises sucessivas), postula algumas soluções; basicamente ele se manifesta claramente insatisfeito com a administração de Barack Obama que, de fato, nada prometeu, seu discurso era vazio demais para justificar qualquer esperança de modificações; os brasileiros devem estar lembrados. O discurso de Obama era monocórdio e repetia chavões vazios como “Sim, nós podemos!” – Podemos o quê, exatamente? Jamais se ficará sabendo. Como propaganda funcionou e, ao que percebemos, até Charles Ferguson deixou-se lograr. Ele tinha esperanças de que Obama promovesse o que chama de re-regulamentação do sistema econômico (o que não ocorrerá, seja quem for o governante por lá, dada a malha de associações em que todos os políticos dos grandes partidos por lá estão envolvidos).

            Como ele já havia deixado claro em “Inside Job”, toda desregulamentação começou na Era de Ronald Reagan que, na presidência, transferiu todo o poder decisório em economia, da Casa Branca para Wall Street – quem vê Barack Obama periodicamente mendigar ao Senado o direito de endividar o Estado ainda mais, pegando mais dinheiro emprestado no Banco Central de lá para poder pagar as contas do governo seguramente se recorda de que nem sempre foi assim por lá. Ferguson não é um homem de esquerda como, por exemplo, Noam Chomsky que, em suas Obras, vê os mesmos problemas, contudo propõe soluções radicais a problemas que são de fato de raiz. Ferguson é a favor da concentração de riquezas (mesmo de gigantescas fortunas) desde que seus possuidores, segundo sua avaliação, tenha feito algo para merecê-lo; seja contribuindo para aprimorar a tecnologia, tenha feito alguma importante descoberta científica ou de alguma forma haja criado, feito, produzido algo novo. E que paguem seus impostos em dia e não joguem o mundo em crise econômica após crise econômica.

            “Mas não foi assim que os mais ricos nos EUA chegaram lá”, diz Ferguson, “as pessoas que descrevo em meu livro enriqueceram monumentalmente por serem bem conectadas e profundamente desonestas”. O que vemos no cotidiano brasileiro e já não choca ninguém: Antônio Palocci multiplicou sua já monumental fortuna por 20 em 4 meses; o filho de Lula da Silva é hoje uma das maiores fortunas do país e o melhor que conseguia antes do pai chegar ao poder era ser zelador de zoológico, coisas assim... O brasileiro já se acostumou e parece anestesiado com relação a isto.

            Quando criança, meus pais me ensinaram que, para subir na vida é necessário estudar muito e trabalhar honestamente. Os tempos mudaram e hoje posso dizer de peito erguido: “meus pais me ensinaram a ser tão honesto, mas tão honesto que hoje, tudo o que eu NÃO tenho, devo a eles!” Os tempos mudaram lá, como aqui. Fica no ar a pergunta: diante destas modificações, de repercussão ética profunda, o que será que os pais estão ensinando a seus filhos? Sabemos que, nos EUA como no Brasil, somente os filhos da elite (gente desonesta e “bem” conectada) têm alguma chance de vida pelo menos equivalente ao padrão de seus pais. Não por mérito próprio do jovem, mas por serem filhos dessa elite podre! 

Enfim, a Pedra Fundamental do maior desastre financeiro desde a Grande Depressão de 1929 (e não nos iludamos, outros já estão sendo gestados!) foi lançada por Ronald Reagan nos anos 80. Em aliança com o capital especulativo (que os pseudo-economistas preferem chamar tecnicamente de “capital financeiro”), mudou o eixo do poder decisório em economia da Casa Branca para Wall Street. Desde aquele momento, e de forma crescente, todas as decisões relevantes para o cotidiano do normal dos seres humanos, passaram a ser tomadas pelos jogadores do Mercado Financeiro, não pelos políticos que o povo se ilude haver elegido conscientemente. A desregulamentação da Era Reagan mergulhou o país – portanto todo o mundo – em crises sucessivas, culminando com aquela de 2008 – explorada a fundo no documentário “Inside Job” – provocada pelos banqueiros, agiotas e jogadores desonestos que seguem no poder e cujos efeitos seguem vivos e a crise iniciada em 2008 segue com seus desdobramentos.

            De novo, em “O Sequestro da América”, Ferguson detalha a malha de interesses escusos envolvendo agentes do governo federal de lá, das universidades e do congresso em todas as administrações políticas. Informa que os dois grandes partidos políticos dos EUA (Republicano e Democrata) seguem o mesmo padrão de desregulamentação que vem criando o que Ferguson chama de “economia de dossel”, numa referência aos sistemas econômicos em dossel, como a Floresta Amazônica. Árvores gigantescas se abrem no topo bloqueando o sol (sua principal fonte de recursos) a todos os de baixo e assim, as plantas pequenas não conseguem prosperar. Neste novo modelo de “Economia de Dossel”, menos de 1% da população fica com o que é produzido pelos restantes 99% que, naturalmente, assistem impotentes suas vidas irem ladeira abaixo.

Ecossistema em Dossel - as árvores altas e copadas impedem a chegada dos raios do sol e o cresciemento das plantas que estão embaixo...

            Em detalhes dolorosos (nomes dos envolvidos, como as pessoas se deixaram enganar com facilidade...). Ferguson explica como, pouco a pouco, o setor financeiro tomou o poder nos EUA, criando algumas bolhas artificiais de crescimento no mercado de capitais, tornando-os ainda mais ricos emprestando dinheiro a gente que não tem meios para honrar seus compromissos. Tão organizado é o crime por lá (como o macaqueiam os criminosos daqui) que as agências encarregadas da avaliação de risco, reiteradamente premiaram com “Triple A” – AAA, a nota mais alta, correspondente ao risco mais baixo ou nulo – pessoas e companhias que claramente não tinham condições de honrar suas contas. E os empréstimos predatórios seguiram seu curso perverso; Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve (o Banco Central, privado, dos EUA), com o suporte dos bancos e dos apostadores na bolsa de Wall Street, convenceu o povo estadunidense de estarem todos sentados em cima de grandes fortunas. Tudo o que tinham de fazer era hipotecar suas casas e conseguiriam o dinheiro necessário para especular e progredir tanto quanto aqueles no topo da economia de dossel. Bancos aceitavam duas, três, em alguns casos mesmo cinco hipotecas da mesma casa. E a legislação estadunidense permite especular com o seguro sobre residências; assim, algumas moradias eram seguradas por 50 ou mais pessoas diferentes. Apenas para rememorar, há um motivo para que eu não possa fazer um seguro, digamos, contra o incêndio de sua casa: sem morar nela, minha única chance de ganhar será se sua casa pegar fogo... A situação chegou a tal ponto que muitos devedores passaram literalmente a valer mais para o banco mortos do que vivos! Desde o início estava claro – o que se evidenciou quando alguma investigação meramente cosmética aconteceu em 2009 – que os tomadores de empréstimos jamais conseguiriam honrar seus compromissos, menos ainda a companhia de seguros poderia pagar o valor equivalente a uma casa a 50 ou mais pessoas diferentes que caíam no conto deste tipo de “investimento”. Este é um dos principais motivos que levaram a AIG (American International Group) a maior companhia de seguros do mundo faliu e recebeu vastos aportes de recursos governamentais (dinheiro do contribuinte) alegadamente para prevenir uma crise global que já estava a toda a brida – precisamente por causa de ações como aqueles tomadas pela AIG entre outras grandes companhias...

            O livro – seguindo mesmo e aprofundando a linha do documentário “Inside Job” – apresenta-nos explicando em detalhes o significado dos novos termos utilizados pelos que se autodenominam “economistas”; termos como “credit default swaps”, “CDS”, “Derivativas” e coisas assim, para o comum dos mortais, mera bruxaria ou macumba. Aliás, “macumba” é um termo que ainda traz algum eivor de conexão – ou tentativa de conexão – com o mundo real; quem tem ideia clara do que sejam “credit default swaps”? Mesmo o mega-especulador George Soros confessou não ter idéia do que isso significa! Enfim, esses trecos foram criados alegadamente para aumentar a segurança da economia, mas seu resultado é o oposto disso; na prática sabemos hoje que tais orquestrações acadêmicas são formas sofisticadas de bater a carteira de gente inocente, transferindo a renda do setor produtivo para o setor financeiro; como ficou cristalinamente claro na crise que começou em 2008.

            Ferguson está – com justiça – PUTO DA VIDA porque nenhum dos responsáveis pela crise criada pelos banqueiros e apostadores foi punido ou teve de devolver sequer parte do que roubaram do setor produtivo. Pior que isso, frequentemente receberam grandes aportes de recursos governamentais que pagavam os empréstimos feitos sem garantia alguma, e o fizeram precisamente por saber que o governo os resgataria quando chegasse o momento. Não importa mais se Democratas ou Republicanos. Como no Brasil pouco importa se Petistas ou Tucanos: todos estão alinhados, perfilados com o crime organizado na cúpula.

            O nível da educação nos EUA despencou vertiginosamente e somente os filhos dos enriquecidos pelas múltiplas fraudes tem alguma chance de sucesso na vida (e não por mérito próprio, repita-se). Este, diz-nos Ferguson, foi uma das motivações principais a levá-lo a escrever esse livro.

            Num dos mais brilhantes e claros resumos dos motivos principais que levaram à crise, Ferguson escreve: “O desastre econômico foi conduzido por uma combinação de baixas taxas de juros, persistente desonestidade em todo o sistema financeiro, volumosa fraude em empréstimos predatórios, especulação, demanda por seguros ancorados e, não desprezível, um consumidor estadunidense desesperado por manter seu padrão de vida, havendo ouvido de todos – inclusive George Bush e Alan Greenspan, os apostadores e banqueiros, que hipotecar suas casas era a forma de fazê-lo (manter seu padrão de vida).”.

            No caso brasileiro, não creio ser casual que Lula da Silva e seus cúmplices fazem as mesmas alianças com o setor financeiro internacional facilitando a tomada de empréstimos por parte do consumidor e mesmo incentivando-os a fazê-lo. Estima-se que a “inadimplência”, eufemismo para quem está acostumado a receber o Oficial de Justiça com uma ordem de vasculhar a casa da vítima em busca de bens penhoráveis, atormente mais de 70% dos devedores brasileiros hoje; criando desemprego, subemprego, baixa renda salarial, falências pessoais, suicídio e desespero.

            As pessoas aparentemente estão acordando, ao que parece. Nos EUA e vários países do mundo, movimentos como “Ocupação de Wall Street” e protestos diversos, ainda que ciclotímicos aconteçam a todo o tempo.

            De certa forma, o livro de Ferguson é superior a muitos dos que também dissecaram a quebradeira de 2008, principalmente porque ele está debruçado sobre este tema, ganhando experiência e conhecimentos desde a produção de “Inside Job”, que foi em cartaz pela primeira vez em 2010, recebendo o Oscar em 2011.

            Aprofundando a compreensão de “onde estamos agora”, Ferguson descreve as consequências de suas descobertas: além do fato de que os perversos se safaram com seus crimes, “o crescimento das finanças predatórias é ao mesmo tempo a causa e o sintoma de uma mudança maior e mais perturbadora nos EUA. O setor financeiro constitui hoje o núcleo de uma nova oligarquia que vem subindo ao poder nos últimos 30 anos e transformando profundamente a vida dos EUA.”.

            Qualquer pessoa com algo mais na cabeça que cabelos hoje concorda que varrer a corrupção política e o controle que os bancos têm sobre o sistema de governo de um país é crucial. Um ponto triste é que Ferguson apresenta uma solução bastante ingênua. Ele postula, como muitos autores também limitados em seus níveis de consciência possível, que os EUA devem manter-se um país capitalista e as fontes de recursos devem permanecer nas mãos de uns poucos.

            Ora, quando o tempo clama por soluções radicais, ele informa que “ainda acredita no sonho americano” e sua proposta não vai além de coisas como “temos de encontrar uma terceira via” ou “temos de tomar o dinheiro do controle dos políticos”. Mais oportuno – talvez a única alternativa correta – seria tomar de volta para o povo o poder de fabricar e fazer circular o dinheiro; os bancos não precisam somente de “re-regulamentação”, devem ser DESPRIVATIZADOS se almejamos um futuro sustentável.

            Nunca é demais recordar que os momentos e lugares em que países cresceram de maneira verdadeiramente sustentável foi quando coisas como educação, saúde, segurança, infraestrutura e coisas assim, a base da economia de um país, em suma, estão no setor PÚBLICO e são bem gerenciadas. Fora esse tipo de solução – radical – estaremos condenados a ficar girando na “Jaula de Ferro” de Max Weber.

O Sequestro da América - Título Original: “Predator Nation: Corporate Criminals, Political Corruption, and the Hijacking of America” – Charles Ferguson (uma resenha)

 

Lázaro Curvêlo Chaves – 30/10/2013

Revisado a 1/10/2014