O Ministério
de José Bonifácio
Ambigüidades de José Bonifácio. Desde que
assumiu o ministério, em fevereiro de 1822, a oposição de
José Bonifácio aos radicais era evidente. Essa oposição se
aguçou ainda mais após a proclamação da independência,
quando os radicais sofreram uma sistemática repressão. José
Bonifácio fez calar a imprensa que os representava e fechou
a maçonaria; os seus inimigos políticos, principalmente em
São Paulo, foram perseguidos e presos.
Paralelamente, ele iniciou a organização
da monarquia, mas repudiando o absolutismo e ridicularizando
as pretensões nobiliárquicas dos grandes proprietários. Por
outro lado, segundo suas próprias palavras, as "esfarrapadas
bandeiras da suja democracia" eram equivalentes ao
absolutismo, que, em sua opinião, era "a pior das
anarquias”. Para completar, colocava-se contra a escravidão.
A propósito, escreveu certa vez: "Todo cidadão que ousar
propor o estabelecimento da escravidão e da nobreza será
imediatamente deportado”.
Em resumo, José Bonifácio era contrário à
democracia, ao absolutismo, à nobreza e à escravidão. Daí a
ambigüidade política do ministro, pois, apesar de ter
opiniões avançadas em certas questões - como em relação ao
escravismo -, era conservador ao extremo em outros pontos,
como o seu desprezo pela democracia.
Essa ambigüidade se explica: José
Bonifácio pertencia à elite econômica e social do Brasil e
tinha uma formação ilustrada (iluminista) e européia. Assim,
devido à sua formação ilustrada, era contrário tanto à
nobreza quanto ao absolutismo. Mas, ao mesmo tempo, era
favorável a um poder centralizado (embora não absolutista),
o que o afastava, por exemplo, da aristocracia rural do
norte e do nordeste. Tendo vivido 36 anos em Portugal, dos
20 aos 56 anos, e viajado pela Europa durante dez anos, José
Bonifácio conheceu de perto o capitalismo. Por essa razão,
defendia a expansão do trabalho assalariado, a mecanização
da lavoura e a imigração, e criticava a escravidão. Por
outro lado, essa visão "progressista" era traída pela sua
origem social, pois desconfiava da grande massa de mestiços,
negros livres e escravos, revelando-se, nesse ponto,
essencialmente aristocrático.
O isolamento de José Bonifácio. Pelas
razões apontadas, José Bonifácio desentendeu-se não só com
os radicais, mas também com a própria aristocracia rural do
sudeste, da qual era o representante no poder. Por outro
lado, o seu esforço de organizar a monarquia - que o
colocou, aparentemente, ao lado do imperador - também se
mostrou uma empresa contraditória, devido à sua formação
antiabsolutista. Logo se chocou com o imperador, que
terminou por se voltar contra ele.
Na realidade, José Bonifácio pretendia
governar em posição de eqüidistância em relação às forças
sociais e políticas representadas pelo "partido brasileiro",
pelos liberais radicais, pelo "partido português" e pelas
pretensões absolutistas de D. Pedro. Naturalmente,
tratava-se de uma fórmula impossível, que resultou no seu
completo isolamento político. A isso se deveu, enfim, o seu
afastamento do ministério.
A demissão dos Andradas. Afastando os
radicais do cenário político por meio de repressões, José
Bonifácio procurou, ao mesmo tempo, fortalecer o poder
Executivo e limitar o poder do Legislativo.
A Assembléia Geral Constituinte e
Legislativa, convocada em junho de 1822, foi instalada
oficialmente cm maio de 1823. Logo no início, surgiu uma
questão: a de saber se as leis emanadas da Assembléia
necessitavam ou não da sanção imperial. Para a maioria da
Assembléia, dominada pelos representantes da aristocracia
rural, a sanção era desnecessária. José Bonifácio defendia
um ponto de vista contrário. Mas a Assembléia conseguiu
impor a sua vontade, reduzindo as prerrogativas* de D. Pedro
I, que esboçou uma resistência, mas acabou cedendo.
Nesse cenário, o imperador teve a sua
própria evolução: depois de consumada a independência,
estava se afastando do "partido brasileiro" e de José
Bonifácio. Encontrava-se agora sob forte influência do
"partido português", que passara a defender o absolutismo.
Para se livrar de seus antigos aliados e se aproximar do
"partido português", D. Pedro procurou afastar José
Bonifácio do ministério. Para deixar bem clara essa
intenção, o imperador resolveu absolver as vítimas das
perseguições de José Bonifácio em São Paulo. Depois disso,
tornou-se insustentável a permanência deste à frente do
ministério; não lhe restou outra saída que não a demissão,
no que foi acompanhado pelo irmão Martim Francisco, da
Fazenda. A influência política dos Andradas diminuiu ainda
mais quando o imperador decretou o fechamento do Apostolado
- sociedade secreta e centro político dos Andradas. Em 17 de
julho, o ministério foi recomposto, com a subida de José
Joaquim Carneiro de Campos (marquês de Caravelas) e Manuel
Jacinto Nogueira da Gama (marquês de Baependi).
A
queda dos Andradas assinalou uma grande mudança na vida
pública do país. Ela deu condições para a ascensão do
"partido português", que permaneceria no poder até a
abdicação de D. Pedro I, em 1831.
A Assembléia
Constituinte
Significado
– Quando, em 9 de dezembro de 1821, as Cortes de Lisboa
declararam os governos provinciais independentes do Rio de
Janeiro, procuravam com essa medida suprimir a unidade
política do Brasil. Subordinando as províncias diretamente a
Lisboa, o retorno ao regime colonial ficava relativamente
fácil. Inversamente, para resistir à recolonização, a
aristocracia rural precisava manter a unidade política e
somar as forças. A fim de conseguir isso, duas soluções se
apresentaram inicialmente. A solução idealizada pela
aristocracia rural e defendida por José Bonifácio era a
convocação do Conselho dos Procuradores Gerais das
Províncias do Brasil. Porém, os radicais discordavam. Para
eles, a unidade político-territorial deveria ser garantida
por uma Assembléia Constituinte eleita pelo povo, como órgão
representativo da vontade dos brasileiros. Visando esse fim,
os radicais impuseram a D. Pedro a convocação da
Constituinte, cujo decreto saiu a 3 de junho de 1822. Mas a
sua instalação oficial ocorreu somente em 2 de maio de 1823,
data comemorativa do descobrimento do Brasil, como
erroneamente se pensava. Portanto, a convocação e instalação
da Constituinte foi, teoricamente, uma vitória política dos
radicais.
A Constituinte como instrumento dos
conservadores. Tão logo a convocação da Constituinte foi
feita, os conservadores (aristocracia rural e aliados)
procuraram esvaziar o sentido popular da medida. José
Bonifácio conseguiu excluir, como eleitores, todos aqueles
que viviam de "salários e soldadas", retirando das camadas
populares o direito de eleger os seus representantes.
Ao todo foram eleitos noventa membros em
catorze províncias. Entre eles, 26 bacharéis em leis,
dezenove sacerdotes, sete militares e alguns médicos,
proprietários rurais e funcionários públicos. Em sua
maioria, entretanto, os deputados eram representantes dos
interesses da aristocracia rural.
A Constituição da Mandioca
– A fim de preparar um anteprojeto constitucional, os
constituintes designaram uma comissão composta de seis
deputados, liderados por Antônio Carlos Ribeiro de Andrada,
irmão de José Bonifácio.
O anteprojeto, que deveria ser a base da
Constituição propriamente dita, foi apresentado para
discussão na Assembléia em setembro de 1823.
Ele continha 272 artigos, inspirados
parcialmente nos ensinamentos dos filósofos iluministas,
dos quais pode-se destacar o princípio da soberania nacional
e o liberalismo econômico. Coerentemente, descartou-se a
democracia, que permitiria a participação popular na vida
política.
O anteprojeto tinha, além disso, um
caráter marcadamente anticolonialista, expresso na forma de
xenofobismo (ódio ao estrangeiro), especialmente contra os
portugueses. A lusofobia (ódio aos portugueses) não era sem
motivo: na Bahia, no Pará e na Cisplatina, as ameaças da
recolonização persistiam. O "partido português" continuava
ativo por toda parte. Nas ruas e nas praças, “brasileiros" e
"portugueses" se enfrentavam.
Seguindo o ideário liberal, o anteprojeto
era ainda antiabsolutista. Procurou-se, nesse ponto, limitar
ao máximo o poder de D. Pedro I, valorizando, em
contrapartida, a representação nacional. Para isso, o
anteprojeto declarava a indissolubilidade da Câmara, o veto
apenas suspensivo do imperador e o controle das Forças
Armadas pelo Parlamento e não pelo imperador. Assim, o
essencial do poder ficava nas mãos do Legislativo.
Além de garantir-se contra as ameaças da
recolonização e do absolutismo, era preciso garantir-se
contra o radicalismo das camadas populares. Assim, para
afastar a massa popular, o anteprojeto estabeleceu a eleição
em dois graus, de tal sorte que somente a aristocracia rural
pudesse eleger seus representantes. A capacidade eleitoral
foi condicionada à renda, não em dinheiro, mas com base numa
mercadoria de consumo corrente: a farinha de mandioca. Daí o
nome de Constituição da Mandioca dada pelo povo, cobrindo de
ridículo o anteprojeto.
Havia uma razão para essa forma peculiar
de medir a renda: excluíam-se, ao mesmo tempo, as camadas
populares e os comerciantes portugueses. As primeiras porque
não apresentavam rendas suficientes e os segundos porque,
por serem comerciantes, tinham a renda expressa diretamente
em dinheiro, e não em alqueires de mandioca, como era
necessário. De um só golpe, o "partido português" e os
radicais estavam afastados automaticamente da vida política.
Os eleitores da paróquia, ou de primeiro
grau, deveriam ter uma renda mínima equivalente a 150
alqueires de farinha de mandioca. Eles elegiam os eleitores
de províncias, ou de segundo grau, cuja renda mínima exigida
era de 250 alqueires. Por fim, estes últimos elegiam os
deputados e senadores, que precisavam de uma renda
correspondente a 500 e 1 000 alqueires, respectivamente,
para serem elegíveis.
Dessa forma, a aristocracia rural
reservava para si a exclusividade da representação nacional
e o pleno controle do poder político.
A dissolução da Constituinte
– Dadas essas características, o anteprojeto foi
imediatamente objeto de críticas. A insistência em cercear o
poder imperial fez D. Pedro I voltar-se contra a Assembléia.
Além disso, desde a queda dos Andradas, em julho de 1823, o
"partido português" vinha fazendo progressos. Esse setor
ultra-reacionário aproximava-se agora de D. Pedro I,
defendendo francamente o absolutismo, no que foi plenamente
correspondido pelo imperador.
A hostilidade entre brasileiros e
portugueses aumentava. Nesse quadro de tensões crescentes,
um incidente aparentemente sem importância veio definir
bruscamente a situação.
O jornal A Sentinela publicou uma
carta ofensiva aos militares portugueses do Exército
imperial, assinada por alguém que se denominava “um
brasileiro resoluto”. Os militares atingidos
espancaram violentamente David Pamplona, considerado
erradamente autor daquela carta. O incidente causou enorme
comoção na Assembléia, que passou a exigir explicações a D.
Pedro. A ruptura entre o imperador e a Assembléia tornou-se
inevitável. Praticamente em estado de rebelião, a Assembléia
declarouse em sessão permanente. A resistência dos
deputados do dia 11 para 12 de novembro ficou conhecida como
Noite da Agonia. D. Pedro I respondeu decretando a sua
dissolução em 12 de novembro de 1823. A Assembléia foi
invadida pelas tropas imperiais, e os deputados foram
presos. Os irmãos Andradas foram deportados.
Chegava ao
fim o breve período em que a aristocracia rural esteve no
poder. Em seu lugar, D. Pedro I estabeleceu o absolutismo
apoiado pelo "partido português”. Para os brasileiros a
situação era agora alarmante, pois estava-se a um passo da
recolonização. A emancipação não estava concluída.
A Carta
outorgada de 1824
Características
– A dissolução da Constituinte acarretou grande
descontentamento. Para minimizar o acontecido, D. Pedro
nomeou rapidamente uma comissão de dez membros - o Conselho
de Estado - para redigir um texto constitucional. Depois de
quarenta dias, no dia 25 de março de 1824, a Constituição
foi outorgada à nação.
O novo texto constitucional estava
calcado, em muitos pontos, no anteprojeto de Antônio Carlos.
A única grande inovação foi a adoção do quarto poder, o
Moderador, ao lado da consagrada fórmula tripartite:
Executivo, Legislativo e Judiciário. A idéia do poder
Moderador era de um teórico liberal suíço, Benjamin
Constant.
Tal como o anteprojeto de Antônio Carlos,
a Constituição de 1824 afastava a camada popular da
política, ao condicionar a participação política à renda. Só
que desta vez, em dinheiro. Os eleitores de paróquia e de
província deveriam apresentar uma renda de 100 e 200
milréis, respectivamente; os candidatos à Câmara e ao
Senado, 400 e 800 mil-réis, respectivamente.
O poder Legislativo era formado por um
Senado vitalício e por uma Câmara dos Deputados, com
mandato de três anos. Os senadores eram escolhidos pelo
imperador, a partir de uma lista tríplice, apresentada pelas
províncias. Sua função era propor, redigir e aprovar as
leis.
O poder Judiciário era exercido por um
Supremo Tribunal, com magistrados escolhidos pelo imperador.
O poder Executivo era exercido por um
ministério escolhido pelo imperador e presidido por ele, e a
ele competia fazer cumprir as leis.
O Poder Moderador
– O poder Moderador pertencia exclusivamente ao imperador.
Teoricamente, esse poder, tal como aparecia no Curso de
política constitucional de Benjamin Constant, deveria ser um
poder neutro, cuja função seria a de garantir a harmonia dos
outros três. Na prática, tornou-se o núcleo do verdadeiro
poder. Exercido pelo imperador, o poder Moderador tornou-se
instrumento de sua vontade pessoal ou de seu absolutismo.
Ao Poder Moderador cabia aprovar ou não
as medidas emanadas do Legislativo, nomear os senadores
vitalícios e dissolver a Câmara dos Deputados. No Executivo,
estava nas mãos do imperador o poder de escolher os membros
vitalícios do Conselho de Estado, além de nomear e demitir
os ministros e presidentes das províncias. As dezenove
províncias que formavam o Brasil estavam diretamente
subordinadas ao poder Moderador, coibindo as tendências
autonomistas. Enfim, desde que cabia ao imperador nomear e
demitir os juízes, também o Judiciário estava sob controle
do poder Moderador.
O Padroado
– Além do amplo poder conferido ao imperador, a Carta de
1824 declarava o catolicismo como religião oficial do
Estado. E a relação entre a Igreja e o Estado era regulada
pelo regime de padroado, segundo o qual os clérigos eram
pagos pelo Estado, o que os equiparava a meros funcionários
públicos. Por isso, ao imperador competia nomear sacerdotes
aos vários cargos eclesiásticos e dar prévio consentimento à
aplicação das bulas papais (decisões emanadas da Santa Sé).
A Confederação do Equador
(1824)
O absolutismo de D. Pedro
– A total concentração dos poderes nas mãos do imperador
gerou grande insatisfação. No nordeste, o descontentamento
foi particularmente intenso com a nomeação dos presidentes
de províncias pelo imperador, em fevereiro de 1824, ferindo
frontalmente as aspirações autonomistas da aristocracia
rural nordestina.
De fato, a unidade econômica e
territorial do país era precária. A ausência de integração
nacional explicava-se pela manutenção do caráter colonial da
economia brasileira. Cada província dependia mais do mercado
externo do que do intercâmbio entre si. No plano político,
passaram agora a depender do Rio de Janeiro, onde um
imperador absolutista vedava a sua participação nas decisões
importantes. Para as províncias do nordeste, a emancipação
não havia alterado quase nada. No máximo, consagrava a
substituição de Lisboa pelo Rio de Janeiro. E os nordestinos
não viam nisso nenhuma vantagem. Muito pelo contrário.
Reações ao absolutismo
– O descontentamento brotou por toda parte. Em Pernambuco
houve o protesto contra a nomeação, pelo imperador, de Pais
Barreto como presidente da província. O mesmo ocorreu na
Paraíba, onde as forças locais, "espantadas" com a
dissolução da Constituinte, desconfiavam de tudo que vinha
do Rio de Janeiro. No Ceará, os eleitores consideravam-se
"atacados nos seus direitos na pessoa dos seus legítimos
representantes”.
Em Pernambuco, a reação às pretensões
absolutistas de D. Pedro foi mais decidida, devido à
tradição republicana e revolucionária da província, que
remontava a 1817. A começar por Manuel de Carvalho,
ex-rebelde de 1817, que, após o fracasso do movimento, se
exilara nos Estados Unidos, onde completou sua formação
republicana e federalista. Foi ele o chefe nominal da mais
importante reação ao absolutismo de D. Pedro I: a
Confederação do Equador, a rebelião pernambucana que eclodiu
em 1824.
O espírito liberal, assentado na
experiência de 1817, difundiu-se através de dois jornais
pernambucanos: a Sentinela da Liberdade na Guarita de
Pernambuco, de Cipriano Barata, que iniciou sua circulação a
partir de 9 de abril de 1823, e Tífis Pernambucano, dirigido
por frei Caneca, que surgiu em 25 de dezembro de 1823. Esses
jornais prepararam espiritualmente a rebelião.
Cipriano Barata
– Cipriano José Barata de Almeida, nascido na Bahia em 1764,
de família abastada, estudou em Coimbra, onde recebeu as
influências liberais que norteavam então os revolucionários
da França. No Brasil, ligou-se à Conjuração Baiana de 1798 e
à revolução de 1817; foi deputado nas Cortes de Lisboa e na
Assembléia Constituinte do Rio de Janeiro, o que lhe valeu o
apelido de "o homem de todas as revoluções”.
Notabilizou-se, todavia, como jornalista
combativo, defendendo com intransigência os valores liberais
da época. Embora nascido na camada superior, dedicou sua
vida à luta revolucionária e esteve ligado às camadas
populares. Por isso, Cipriano Barata levou uma vida de
perseguições e prisões: foi preso por mais de um ano após o
fracasso da Conjuração Baiana; a denúncia que fez contra D.
Pedro em seu jornal levou-o novamente à prisão em 1823, onde
permaneceu até 1830; em 1831 foi novamente detido, alguns
meses após a sua libertação, e mantido nas grades até 183;
saiu com quase 70 anos, tendo cumprido cerca de doze anos de
prisão.
Depois de participar das Cortes de Lisboa
estabeleceu-se no Recife, onde publicou o jornal Sentinela
da Liberdade. Seu trabalho jornalístico influiu na corrente
de pensamento liberal de Pernambuco, tendo em frei Caneca o
seu mais conhecido discípulo. A Confederação do Equador
ligou-se, pois, espiritualmente, a Cipriano Barata.
Frei Caneca
– O carmelita Joaquim do Amor Divino Caneca - frei Caneca -,
ao lançar o primeiro número do Tífis Pernambucano, deu
prosseguimento à atuação jornalística de Cipriano Barata. O
golpe de 12 de novembro de 1823, que dissolveu a
Constituinte, foi assim comentado pelo jornal: "Amanheceu
nesta Corte [referência ao Rio de Janeiro] o lutuoso dia 12
de novembro, dia nefasto para a liberdade do Brasil e sua
independência, dia em que o partido dos chumbeiros [“partido
português”] do Rio de Janeiro conseguiu dissolver a suprema
Assembléia Constituinte Legislativa do Império do Brasil
(...) verificam-se todas as previsões do espírito pressago
da Sentinela da Liberdade (...)”.
Com essas palavras, frei Caneca prenuncia
a sua participação como principal líder da rebelião de 1824
contra D. Pedro I.

Frei Caneca e a
Resistência Pernambucana FRANCISCO
M.P. TEIXEIRA
Pernambuco de 1817 a 1824 – O
capitão-general Luís do Rego Barreto, chefe da repressão
ao movimento de 1817, tornou-se, em seguida, governador de
Pernambuco. Em 1820, a revolução liberal do Porto veio,
entretanto, reacender a chama revolucionária: em 29 de
agosto de 1821, a força dominante local instalou uma junta
governativa em Goiana, paralelamente ao governo de Rego
Barreto. A vaga revolucionária cresceu, apesar da
resistência do governador, que se retirou afinal para a
Europa com as tropas portuguesas, após sofrer o cerco dos
opositores pernambucanos.
Com a expulsão de Rego Barreto, foi
eleito governador Gervásio Pires Ferreira, ex-revolucionário
de 1817, que permaneceria no poder em 1821 e 1822. Logo
depois da proclamação da independência em 7 de setembro de
1822, Gervásio Pires Ferreira foi substituído por um grupo
conservador que formou o "governo dos matutos" - assim
chamado em virtude da participação majoritária da
aristocracia local, liderada por Francisco Pais Barreto. O
novo governo pernambucano estava plenamente sintonizado com
o poder central representado por D. Pedro.
A dissolução da Assembléia Constituinte,
por ordem imperial, em 12 de novembro de 1823, que encheu de
descontentamento os liberais de Pernambuco, resultou
finalmente na queda do "governo dos matutos" em 13 de
dezembro de 1823. Através de uma nova eleição formou-se uma
junta governativa chefiada por Manuel de Carvalho Pais de
Andrade, antigo revolucionário de 1817.
A ascensão de um governo francamente
liberal e, portanto, hostil às pretensões absolutistas do
imperador não foi vista com bons olhos por D. Pedro. A sua
preocupação em outorgar uma Constituição a ser legitimada
pelas Câmaras Municipais criava a necessidade de se comporem
nas províncias governos favoráveis ao seu poder pessoal. A
notícia de que o imperador iria nomear alguém de sua
confiança para o governo de Pernambuco fez com que Olinda e
Recife se apressassem em confirmar, em 8 de janeiro de 1824,
Manuel de Carvalho na presidência da província.
Apesar de todas as precauções, em 23 de fevereiro de 1824,
D. Pedro nomeou, como novo presidente da província,
Francisco Pais Barreto, ex-chefe da junta dos matutos,
demitida em dezembro de 1823. De Recife ao Rio de Janeiro
correram inutilmente pedidos ao imperador para que
respeitasse a decisão popular. D. Pedro respondeu às
petições com o envio de forças repressivas navais para
garantir a posse de Pais Barreto. A disposição para a
resistência era, entretanto, enorme. Diziam em Pernambuco:
"Morramos todos, arrase-se Pernambuco, arda a guerra, mas
conservemos o nosso presidente a todo transe! Conservemos a
dignidade da soberania dos povos”.
A fim de contornar a situação, mas sem
demonstrar sinal de fraqueza e preservando a sua autoridade,
D. Pedro decidiu nomear um novo governador, Mayrink da Silva
Ferrão, que entretanto não aceitou colocar-se à frente do
governo de Pernambuco. As divergências entre o imperador e
os liberais pernambucanos culminaram, a 2 de julho de 1824,
com a proclamação da Confederação do Equador, por Manuel de
Carvalho.
A
Confederação do Equador (1824). Com a Confederação do
Equador, os rebeldes pretendiam contornar os erros cometidos
em 1817, evitando cair no isolamento. No manifesto de 2 de
julho de 1824, Manuel Carvalho dizia: "Segui, ó brasileiros,
o exemplo dos bravos habitantes da zona tórrida (...) imitai
os valentes de seis províncias que vão estabelecer seu
governo debaixo do melhor dos sistemas - o representativo”.
Preocupavam-se, pois, os rebeldes em obter a adesão das
demais províncias, difundindo o manifesto por todo o
nordeste. Atenderam ao apelo as províncias do Ceará, Rio
Grande do Norte e Paraíba, que, com Pernambuco, formaram
então a Confederação do Equador. Adotou-se provisoriamente a
Constituição colombiana, que vigorou até 17 de agosto, data
da reunião da Assembléia Constituinte. Tentou-se, assim,
formar um novo Estado, inteiramente desvinculado do Império,
cujas bases eram um governo representativo e republicano,
fundado numa organização federativa, garantindo a autonomia
das províncias confederadas.
Todavia, a repressão ao movimento estava
sendo preparada com intensidade no Rio de Janeiro.
Por essa razão, em Pernambuco, uma Junta
Provisória assumiu a direção da resistência, tendo Manuel de
Carvalho como presidente, José Natividade Saldanha como
secretário e José de Barros Falcão como chefe das Armas.
Para a defesa de Pernambuco chegaram forças do Ceará, do Rio
Grande do Norte e da Paraíba.
A
repressão – Enquanto os
rebeldes procuravam unificar as forças antiabsolutistas da
Bahia ao Ceará, o imperador tratava de impedir a união das
províncias, reprimindo-as separadamente. A carência de
recursos materiais e financeiros fez o governo central
apelar para empréstimos externos e contratar forças
mercenárias a fim de organizar a repressão. Para tanto,
contribuiu principalmente a Inglaterra, com elevados
empréstimos, além do concurso de forças navais sob comando
de Lord Cochrane.
Com a carta régia de 25 de julho de 1824,
D. Pedro suspendeu todas as garantias constitucionais às
províncias rebeladas e criou as temíveis comissões militares
sob a presidência do brigadeiro Francisco de Lima e Silva,
para o julgamento sumário dos rebeldes.
Enfim, a 2 de agosto de 1824 partiram as
tropas de repressão por terra e mar, chefiadas,
respectivamente, pelo brigadeiro Lima e Silva e por Lord
Cochrane. Em 17 de setembro de 1824, as forças de Lima e
Silva dominaram Recife e Olinda, principais centros de
resistência, após o emprego da mais extremada violência. O
Ceará continuou a resistir, mas em 29 de novembro de 1824 as
tropas rebeldes capitularam.
As condenações – As
condenações foram, naturalmente, severíssimas. Frei Caneca,
em virtude de sua intensa participação, foi condenado à
forca, porém, diante da recusa dos carrascos em executar a
sentença, a repressão optou pelo fuzilamento. Vários
companheiros de Caneca sofreram a mesma condenação, enquanto
outros, como Pais de Andrade, José de Barros Falcão e José
Natividade Saldanha, conseguiram fugir.
Enfim, a Confederação do Equador
desapareceu, mas a insatisfação contra o absolutismo do
imperador continuava em crescimento.
A
oposição moderada – Na
Constituição de 1824 estava prevista a convocação da Câmara
dos Deputados, o que veio a se concretizar apenas em 1826.
Com isso, os temas discutidos anteriormente na Constituinte
de 1823, fechada por D. Pedro I, foram retomados e uma
oposição moderada ao imperador começou a ganhar forma. O
jornal A Aurora Fluminense de Evaristo da Veiga era o
principal porta-voz daquela oposição, sendo o seu líder mais
destacado o deputado mineiro Bernardo Pereira de
Vasconcelos.
O liberalismo moderado, ao qual ambos
pertenciam, caracterizou-se basicamente pela defesa de uma
monarquia constitucional e tinha como alvo de seu ataque a
autocracia imperial. A linha de ação de Evaristo e
Vasconcelos não ia além das críticas às instituições
arcaicas como a Mesa de Consciência e Ordens e a
distribuição de cargos públicos às pessoas de origem
aristocrática.
Valorizavam, entretanto, os temas
clássicos do liberalismo, como a conquista desses mesmos
cargos por mérito pessoal e a iniciativa privada, que não
deveria sofrer interferências do governo. Também associavam
liberdade e propriedade, às quais cabia ao Estado proteger.
Dificuldades e Contradições
do Primeiro Reinado
Dificuldades externas
– o reconhecimento da emancipação: Embora a
emancipação política, formalizada em 7 de setembro de 1822,
tenha dado ao Brasil a feição de um país soberano, sua
economia continuava a ser colonial, escravista e dependente
do mercado externo. Acontece que, para regularizar o
comércio com o exterior, o Brasil necessitava do
reconhecimento de sua emancipação, sobretudo pelos países
europeus. Para conseguir esse reconhecimento, o Brasil se
viu obrigado a assinar tratados desfavoráveis a seus
interesses em troca da normalização das relações comerciais
e diplomáticas.
O primeiro país a reconhecer a
emancipação do Brasil foram os Estados Unidos, em 26 de
junho de 1824. Duas razões explicam essa atitude: a Doutrina
Monroe (1823), que preconizava o anticolonialismo e adotava
o lema "a América para os americanos", e principalmente os
fortes interesses econômicos emergentes nos EUA, que
procuravam reservar para si o vasto continente americano.
Em relação aos países hispano-americanos,
recém-emancipados, o reconhecimento não se deu de imediato,
como seria de esperar. A razão era política. Os países
hispano-americanos adotaram a forma republicana de governo e
desconfiavam da solução monárquica brasileira. Além disso,
havia a questão platina: o Uruguai ainda era parte do
império brasileiro, com o nome de Província Cisplatina.
A Inglaterra, com os mais amplos
privilégios comerciais no Brasil, tinha enorme interesse em
reconhecer a sua independência.
Mas, como aliada de Portugal, não julgava
conveniente reconhecer a nossa independência antes da
ex-metrópole. Por esse motivo, a sua ação diplomática deu-se
no sentido de convencer Portugal a aceitar a independência
brasileira, intermediando assim o reconhecimento, que enfim
se concretizou. O fato ocorreu em 29 de agosto de 1825. Mas
esse reconhecimento foi feito mediante a indenização de 2
milhões de libras, pagos pelo Brasil, e a concessão do
título de Imperador do Brasil, em caráter honorário, a D.
João VI.
O reconhecimento por parte de Portugal
abriu caminho para que outros países fizessem o mesmo, mas
ao custo da concessão de tarifas privilegiadas de 15% em
nossas alfândegas.
Do ponto de vista internacional, a
emancipação do Brasil nada mais significou do que a
substituição da exploração portuguesa pela inglesa,
secundada por outros países europeus e pelos Estados Unidos.
Ao consumar a sua autonomia política, o Brasil apenas se
reajustou à ordem econômica internacional, agora moldada
pelo capitalismo industrial.
A crise econômico-financeira
– Visto que a emancipação política não implicou a alteração
da estrutura da produção, que se manteve colonial e
escravista, a estabilidade do Primeiro Reinado dependia do
bom desempenho das exportações. Ora, a primeira metade do
século XIX foi crítica para a economia brasileira. O açúcar
brasileiro sofria a forte concorrência de Cuba e Jamaica e,
na própria Europa, do açúcar de beterraba. O algodão e o
arroz disputavam o mercado internacional com a produção
norte-americana. O tabaco utilizado na compra de escravos na
África se retraiu no Brasil devido à pressão inglesa contra
o tráfico. O couro brasileiro viu diminuir o seu mercado
devido à concorrência platina. Apenas o café constituía a
esperança, pois o seu mercado estava em crescimento e o
Brasil não tinha ainda concorrentes.
Paralelamente à crise econômica, e como
seu reflexo, havia a crise financeira. O Estado imperial
mostrou aí toda a sua debilidade. Ele dispunha de poucos
recursos devido à baixa tarifa alfandegária (15%), que, no
entanto, era a principal fonte da receita governamental. Com
isso, o Estado se via forçado a fazer empréstimos no
exterior, pagando juros elevados (15%). Sempre em dívida, o
déficit do Estado tornou-se crônico, agravado ainda com o
pagamento dos juros dos empréstimos contraídos.
A Guerra Cisplatina (1825-1828)
– A dificuldade financeira aumentou com a eclosão da Guerra
Cisplatina em 1825. Nesse ano, Lavalleja, líder uruguaio,
desembarcou na Cisplatina com a sua tropa e com o apoio da
população local declarou a anexação da Cisplatina à
República das Províncias Unidas do Rio da Prata, atual
Argentina. Em resposta, o Brasil declarou guerra à
Argentina. O conflito perdurou até 1828, quando então o
Brasil e a Argentina, de comum acordo, reconheceram a
independência da Cisplatina, que passou a se chamar
República Oriental do Uruguai.
Descontentamento
– O inútil derramamento de sangue e os excessivos
sacrifícios financeiros trouxeram saldos altamente negativos
à monarquia, pois serviram apenas para ativar as oposições.
Para contornar a crise financeira,
sanando o déficit, D. Pedro ordenou a emissão descontrolada
de papel-moeda, o que sacrificou as camadas populares, pois
a desvalorização da moeda foi acompanhada de alta geral dos
preços. A inflação corroeu o poder aquisitivo das massas
populares urbanas.
A crise atingiu o auge com a falência do
Banco do Brasil, em 1829, cujos fundos haviam sido saqueados
por D. João VI em seu retorno a Portugal.
A Abdicação de D. Pedro I
(1831)
Intervenção do imperador na crise de
sucessão em Portugal – D. João
VI morreu em 1826. Portanto, no ano seguinte ao início da
Guerra Cisplatina. Com isso, o temor da recolonização
voltou, apesar de D. Pedro ter renunciado ao trono português
em favor de sua filha Maria da Glória. Em 1828, no momento
em que a Guerra Cisplatina terminava, D. Miguel, irmão de D.
Pedro, assumiu o trono com um golpe. A possibilidade de D.
Pedro enviar tropas brasileiras para derrubar o usurpador
trouxe novas inquietações, pois essa intervenção poderia
restaurar a união das duas monarquias.
O 7 de Abril
– A crescente impopularidade de D. Pedro manifestou-se no
recrudescimento da oposição. Para dar apoio ao imperador e
sustentar a sua política, os membros do "partido português"
fundaram a sociedade denominada Colunas do Trono. A oposição
liberal respondeu com a criação da Jardineira ou Carpinteiro
de São José - uma organização maçônica. Com a polarização,
os ânimos se exaltaram de lado a lado.
Em 1830, no plano internacional, as
forças absolutistas estavam sendo derrotadas. A queda de
Carlos X, rei da França, com a revolução de 1830, provocou
uma reação eufórica entre os liberais brasileiros. A
imprensa difundiu amplamente a revolução, com claras
intenções críticas a D. Pedro I.
Os jornais desempenharam um papel
importante no acirramento das paixões políticas. O
assassinato de Líbero Badaró, que, em São Paulo, dirigia o
jornal de oposição ao imperador, O Observador
Constitucional, precipitou os acontecimentos. O crime foi
cometido por partidários do imperador, em novembro de 1830,
complicando a situação de D. Pedro I.
O principal foco de oposição ao imperador
estava em Minas. Não podendo contar sequer com as forças
militares, pois os soldados estavam passando para a
oposição, D. Pedro resolveu visitar a província e, como no
passado, pacificá-la. Porém, o imperador foi recebido com
frieza pelos mineiros, que preferiram homenagear a memória
de Líbero Badaró.
De volta ao Rio, os "colunas" (membros
das Colunas do Trono) resolveram organizar uma manifestação
de apoio a D. Pedro. Os "brasileiros" reagiram realizando
uma manifestação contrária. Assim, partidários e adversários
do imperador entraram em conflito no dia 13 de março de
1831, fato que ficou conhecido como Noite das Garrafadas.
Com o propósito de conter os ímpetos
radicais, D. Pedro se viu forçado a reorganizar o seu
ministério. No dia 19 de março de 1831, formou o Ministério
Brasileiro, com brasileiros natos, porém sem prestígio.
O "partido português", em 4 de abril,
lançou uma nova provocação, comemorando o aniversário de
Maria da Glória, filha de D. Pedro e herdeira legítima do
trono português. Novos conflitos eclodiram entre as facções
contrárias. Em 5 de abril D. Pedro dissolveu o ministério e
organizou outro, francamente absolutista, o célebre
Ministério dos Marqueses ou Ministério dos Medalhões.
Ocorreu então uma nova manifestação no
Rio, exigindo-se a reintegração do ministério deposto.
Apesar da insistência de setores civis e militares, D. Pedro
manteve-se irredutível. Essa atitude do imperador determinou
a passagem de Francisco de Lima e Silva, chefe militar, para
a oposição. O imperador ficou completamente isolado e sem
apoio. Não contava mais sequer com as tropas para reprimir
as manifestações. Já não restava alternativa senão abdicar.
E foi o que fez, em favor de seu filho D. Pedro de
Alcântara, então com apenas cinco anos de idade. No dia 7 de
abril, D. Pedro 1 deixou de ser imperador do Brasil e, em
seguida, abandonou o país, mas não sem antes se reconciliar
com os Andradas, nomeando José Bonifácio como tutor do
futuro D. Pedro II.

Fracasso do Imperador: Abdicação de
D. Pedro I LUIS HENRIQUE DIAS TAVARES
Bibliografia:
História do Brasil - Luiz
Koshiba - Editora Atual
História do Brasil - Bóris
Fausto - EDUSP |