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Proclamação da República - 15 de Novembro de 1889

 

 
 

 

          Não houve um só tiro que pudesse revelar que se tratava de um golpe e não de um desfile. Se ecoassem disparos (de fato, houve dois, mas ninguém os escutou), talvez aqueles 600 soldados percebessem que não estavam ali para participar de uma manobra, e sim para derrubar um regime. Na verdade, vários militares ali presentes sabiam que estavam participando de uma quartelada. Mesmo os que pensavam assim achavam que quem estava caindo era o primeiro-ministro, Ouro Preto Jamais o imperador D. Pedro II - muito menos a monarquia que ele representava.

Não é de estranhar a ignorância dos soldados do 1° e do 3° Regimento de Cavalaria e do 9° Batalhão. Afinal, até poucas horas antes, o próprio líder do golpe se mostrava indeciso. Mais: estava doente, de cama, e só chegou ao Campo de Santana quando os canhões já apontavam para o quartel. Talvez ele não tenha dado o "Viva o imperador" que alguns juraram tê-lo ouvido gritar. Mas com certeza impediu que pelo menos um cadete berrasse o "Viva a república", que supostamente estava entalado em muitas gargantas.

A cena foi bem estranha Montado em seu belo cavalo, o marechal Deodoro da Fonseca desfilou longa lista de queixas, pessoais e corporativas, contra o governo -o governo do ministro Ouro Preto, não o do imperador. O imperador – isso ele fez questão de deixar claro – era seu amigo: "Devo-lhe favores". O Exército, porém, fora maltratado. Por isso, derrubava-se o ministério. Difícil imaginar que Deodoro estivesse dando um golpe, ainda mais golpe republicano – ele era monarquista. Ao seu lado estava o tenente-coronel Benjamin Constant, militar que odiava andar fardado, não gostava de armas e tiros e, até cinco anos antes, também falava mal da república. Ambos, Deodoro e Constant contavam agora com o apoio de republicanos civis. Mas não havia sinal de "paisanos" por perto -esses apenas tinham incentivado a aventura golpista dos dois militares (por coincidência ou não, dois militares ressentidos).

O fato é que naquela mesma hora o ministro Ouro Preto foi preso e o gabinete derrubado. Mas ninguém teve coragem de falar em república. Apenas à noite, quando golpistas civis e militares se reuniram, foi que proclamaram - em silêncio e provisoriamente - uma república federativa "Provisoriamente" porque se aguardaria "o pronunciamento definitivo da nação, livremente expressado pelo sufrágio popular". E o povo a todas essas? Bem, o povo assistiu a tudo "bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava", disse Aristides Lobo. Embora Lobo fosse republicano convicto e membro do primeiro ministério, seu depoimento tem sido contestado por certos historiadores (que citam as revoltas populares ocorridas naquela época). De qualquer forma, o segundo reinado, que começara com um golpe branco, terminava agora com um golpe esmaecido. A monarquia, no Brasil, não caiu com um estrondo, mas com um suspiro. E o plebiscito para "referendar" a república foi convocado em 1993 - com 104 anos de atraso. O império já havia terminado.

 

 
 

 

          Toda a movimentação em direção à República ocorreu absolutamente sem participação popular, o que é praticamente uma constante na História do Brasil, lembrando que as exceções são úteis para confirmar as regras.

           Um Marechal Deodoro da Fonseca velho, doente, alquebrado e monarquista foi conduzido a participar de um golpe que ele compreendeu ser para derrubar o ministério de Ouro Preto e mesmo ao final da noite de 15 de novembro de 1889 ainda concluía os trabalhos com um "Viva o Imperador!" como era praxe. Seu sucessor, Floriano Peixoto, conhecido como "Marechal de Ferro" manteve a unidade nacional com pulso firme mas não pode ou não quis sequer iniciar o processo de independência de fato do Brasil ou mesmo implantou princípios republicanos que até o dia de hoje (primeira década do século XXI) inexistem no Brasil.

           Benjamin Constant foi o cérebro do golpe no Rio de Janeiro, seguindo o ideário positivista segundo o qual um povo atrasado e sem tradição cultural ou democrática precisa de uma ditadura provisória decidida pelos que sabem até que possa ele mesmo, "povo", tomar as rédeas da situação. Somente em 1993 (104 anos depois dos eventos de 1889, portanto) "o povo" foi conclamado às urnas para se manifestar sobre o sistema e a forma que o governo brasileiro deveria assumir (monarquia ou república; parlamentarismo ou presidencialismo). Em 1889 ocorreu meramente um golpe palaciano que não modificou rigorosamente nada na estrutura sócio-econômica do Brasil da época. Em 1888 ocorreu a Abolição da Escravidão e, no ano seguinte, a república foi implementada através de um golpe militar tortuoso contudo, para o que se propunham, bem sucedido.

           O Brasil, "país emergente" desde 1822, quando foi proclamada de direito mas não de fato a "independência", segue uma Nação obedientemente dependente de interesses externos (anteontem da Inglaterra, ontem do governo dos EUA e hoje da Bolsa de Valores de Wall Street) não se tornou republicano através do golpe de 15 de novembro de 1889 da mesma forma que não se tornou independente através da "proclamação" de 1822.

          Dentre os princípios republicanos já conhecidos desde a Grécia Clássica estão o da impessoalidade e meritocracia.

           Tomemos fatos recentes como exemplo. Um cidadão que não se formou em Direito (consta haver estudado, sem concluir o curso), não passou no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (parece que adquiriu o título de acordo com a tabela da corrupção nacional, nem mais, nem menos) e jamais foi aprovado em concurso para juiz em qualquer instância - sem mencionar o fato de haver roubado R$ 700 milhões do governo do Acre e se defendido com o brasileiríssimo "decurso de prazo" recebeu o cargo de Advogado Geral da União e, nele, destacou-se por não defender a União, mas uns poucos cidadãos (Lula da Silva e sua quadrilha) CONTRA a União e os interesses nacionais. Seguindo Lula da Silva e seus asseclas no Poder foi nomeado Juiz do Supremo Tribunal Federal e vem se destacando pela defesa dos criminosos que saqueiam os cofres públicos, contra o povo brasileiro, portanto. A coisa toda poreja compadrio e favorecimento pessoal (cadê a "impessoalidade" republicana?) além de comprovadamente o critério da meritocracia haver sido o primeiro a ser desprezado. Como ocorre em praticamente todas as nomeações políticas de praticamente todos os governos brasileiros de João VI a Lula da Silva (depois representado por Dilma Roussef na presidência) o gabinete de ministros é formado por gente amiga do governante e sem competência alguma para o exercício de suas funções.

        Outro exemplo? Em 2010 Aloísio Mercadante Oliva foi nomeado "ministro da Educação" e, além de não ter qualquer destaque na área - jamais publicou uma linha sobre filosofia da educação ou demonstrou qualquer particular valor no tema enorme que lhe fizesse merecer um ministério deste porte. Além disso, desvia rios de recursos públicos para o ensino privado; que as famosas "verbas para a educação" são alocadas principalmente para instituições privadas através de programas especialmente criados para isso. Sobra pouquíssimo para o Ensino Público (que deveria ser uma prioridade republicana absoluta) e mesmo este recurso o Economista Mercadante Oliva frequentemente "contingencia". A palavra "contingenciamento" é sinônimo de arrancar recursos públicos dos fins a que se deveriam destinar e alocá-los para a ciranda financeira. É de se admirar que o Brasil vá tão mal em Educação? Nomearam um ministro anti-republicano para um cargo dessa importância...

      Não republicano nem democráticos, seguimos sendo uma nação governada segundo princípios fisiológicos como descrevo alhures: http://www.culturabrasil.pro.br/ptfascista2012.htm

* À luz de revelações brilhantemente trazidas a lume por Laurentino Gomes em seu livro "1889: Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil" estou aprofundando este tema. Confira em breve neste espaço.

Lázaro Curvêlo Chaves - 15 de Novembro de 2012

Revisando em Novembro de 2014

 

Hino da Proclamação da República

Letra de: Medeiros de Albuquerque
Música de: Leopoldo Migues

 

Seja um pálio de luz desdobrado,
Sob a larga amplidão destes céus.
Este canto rebel, que o passado
Vem remir dos mais torpes labéus!
Seja um hino de glória que fale
De esperanças de um novo porvir!
Com visões de triunfos embale
Quem por ele lutando surgir!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós,
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz

Nós nem cremos que escravos outrora
Tenha havido em tão nobre País...
Hoje o rubro lampejo da aurora
Acha irmãos, não tiranos hostis.
Somos todos iguais! Ao futuro
Saberemos, unidos, levar
Nosso augusto estandarte que, puro,
Brilha, ovante, da Pátria no altar !

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós,
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz

Se é mister que de peitos valentes
Haja sangue em nosso pendão,
Sangue vivo do herói Tiradentes
Batizou neste audaz pavilhão!
Mensageiro de paz, paz queremos,
É de amor nossa força e poder,
Mas da guerra, nos transes supremos
Heis de ver-nos lutar e vencer!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós,
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz

Do Ipiranga é preciso que o brado
Seja um grito soberbo de fé!
O Brasil já surgiu libertado,
Sobre as púrpuras régias de pé.
Eia, pois, brasileiros avante!
Verdes louros colhamos louçãos!
Seja o nosso País triunfante,
Livre terra de livres irmãos!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade

Dá que ouçamos tua voz!


 

 

 
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