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Propaganda e desinformação

 Dossiê contra FHC. Quem vazou?

 

            Desde que assumiu a presidência da república em 2003, o governo Lula da Silva é conhecido pela prática de crimes que geram escândalos sucessivos. Usualmente a responsabilidade é atribuída, em última instância, a um servidor menos graduado nos quadros do PT ou externo a eles (como no caso de Marcos Valério, operador do Mensalão). Desde sempre se busca atribuir à oposição todas as desgraças que o governo Lula da Silva atrai a si mesmo – os exemplos se multiplicam, mas o caso do caseiro da República de Ribeirão Preto ficou emblemático: tentou-se provar que ele, ao reconhecer o Sr. Antônio Palocci como freqüentador assíduo das reuniões serôdias do lugar, estaria a soldo de algum tucano e ficou sob severa vigilância, tendo seu sigilo bancário quebrado (“quebrem também o meu sigilo eleitoral, verão que votei em Lula!”, diria ao longo do linchamento a que o lulo-petismo o submeteu) em meio a propostas que incluíam a vigilância de parlamentares. Nenhum parlamentar levou o caso muito a sério pois conhecem seus direitos num país que, em tese, busca chegar à democracia. Preocupante é o governo Lula da Silva, sempre que acuado, buscar responsáveis pelos delitos que pratica (ele, governo) entre pessoas menos graduadas ou seus opositores, valendo-se de práticas fascistas de intimidação para isso.

            A planilha do programa Excel divulgada pela Folha de S. Paulo na última sexta-feira, 4 de abril, apresenta, em 27 páginas, alguns dados selecionados de despesas do governo passado: de FHC, de sua esposa Ruth, de 3 ministros tucanos e da cozinheira do Planalto à época. A Folha indica claramente que a planilha – também conhecida como “dossiê” – já saiu pronta do Palácio do Planalto, com aquele formato.

            Aquela publicação levou o Presidente Lula da Silva e sua Chefe da Casa Civil a interromper viagem em que se esmeravam em plantar na cabeça das pessoas a logomarca “PAC”, vinculando-a a Lula da Silva e a sua candidata à sucessão. No momento, “PAC – Programa de Aceleração do Crescimento” é somente uma pequena logomarca mesmo, caso haja realizações concretas no mundo real, pode ser benéfico ao governo; caso estas – realizações – deixem a desejar ou sejam eivadas de corrupção como tem acontecido desde janeiro de 2003 até o presente, pode ser uma marca indesejável quando a sucessão eleitoral de 2010 estiver, de fato, acontecendo.

            Viagem interrompida, a Ministra Chefe da Casa Civil e candidata de Lula da Silva à sua sucessão, “convoca uma coletiva de imprensa” que, em termos do Brasil de Lula da Silva, sabemos de antemão tratar-se de uma reunião brevíssima e amarrada, com muita intimidação e pouca verdade. Num primeiro momento alegou-se que aqueles dados estavam sendo compilados daquela maneira a pedido do Tribunal de Contas da União – que se apressou em desmentir o governo: não havia solicitado nada parecido. Tentou-se a versão de que se tratava de um “banco de dados”, não de um dossiê para chantagear a oposição tucana. Mais três ou quatro tentativas de explicação, caçoando da inteligência dos interlocutores, foram tentadas. Na “coletiva” de sexta-feira, mais uma: a Folha de S. Paulo é colocada sob suspeição de haver deturpado os dados da planilha inicial e a oposição tucana sob suspeição de haver conseguido plantar um espião na Casa Civil sendo ela, oposição, responsável aos olhos do governo Lula da Silva pela divulgação do “banco de dados”, “ferramenta de gestão” ou dossiê desabonador de FHC e da cúpula tucana.

            É preciso ser lulo-petista para acompanhar as idas e vindas das versões cegamente, sem se preocupar com a realidade. E estar completamente alienado para imaginar algo assim: o ex-presidente da República, mais de 5 anos depois de afastado do poder, consegue plantar espiões; para levantar dados do governo em exercício? Não! Para forjar a elaboração de uma planilha dentro do Palácio do Planalto com dados altamente embaraçosos sobre ele mesmo, sua esposa e auxiliares diretos. Como se não bastasse, teria ainda incumbido parlamentares tucanos de “vazar” aqueles dados assim forjados para a imprensa.

            A explicação mais simples, coerente e óbvia, que o dossiê foi preparado pela Casa Civil sob aquiescência senão ordem de Dona Dilma, por ela mesma anunciado muito antes de ser publicado, é liminarmente descartada em prol destes malabarismos cerebrais e teorias conspiratórias exorbitantes.

            Para expulsar o racionalismo da questão, mobiliza-se a opinião lulo-petista de um lado, e a opinião pública de outro numa tentativa desesperada de mudança de foco: de “quem e por que fez o dossiê?” para “quem vazou?” Houve um tempo em que a palavra “vazamento”, nesta acepção, era empregada de maneira chula a pessoas que, eventualmente, tivessem alguma incontinência urinária ou fecal. Como os políticos não reclamaram, entende-se que se pode empregar também nesta acepção governamental: “divulgar dados sigilosos sobre o governo passado antes da hora apropriada para o presente governo”. Então tá. Mas onde encontrar a verdade?

            Enquanto esperamos que a verdade venha à tona e triunfe, o lulo-petismo central vai discretamente se afastando de Dona Dilma e acaricia a velha idéia da eternização de Lula da Silva no poder.

 

Lula: III Mandato?

 

            A Constituição vigente no país prevê um mandato de 4 anos para o presidente da república com direito a reeleição por mais 4 anos. País de tradição casuística, não seria surpreendente se a esmagadora maioria construída a peso de ouro (nosso ouro) no Congresso Nacional impusesse modificação constitucional, de iniciativa do Executivo ou de algum parlamentar venal, voltada a conceder a Lula da Silva um terceiro mandato, com ou sem eleições diretas (pois Lula da Silva confessa-se fatigado de eleições, embora publicamente defenda a idéia de sua eternização no poder).

            A seu favor e contra os brasileiros, tem a construção da mais gigantesca máquina de propaganda de nossa história. Funciona mais ou menos assim: os bancos nos espoliam e levam parte dos recursos roubados a nós às campanhas de parlamentares e chefes de executivo (federal, estadual e municipal). Este capital especulativo cimenta as bases de uma ampla aliança que reza estar o governo Lula da Silva sendo benéfico às classes menos favorecidas e contrariando o interesse “dos ricos”, entendendo-se por “ricos” os trabalhadores, nós, classe média. Os gigantes biliardários da especulação sequer aparecem no cômputo, ficando anônimos atrás dos cordões que puxa: o supra-sumo da perversidade e da perversão da política. Não se revela e não se estimula que se pesquise a verdade, mas a versão de quem manda tão-somente.

            Qualquer iniciativa de pesquisa que contrarie a ordem imposta pelos especuladores é ceifada na raiz. Economistas, juristas, cientistas políticos, professores, comunicadores e todos enfim, com alguma possibilidade de abertura de pesquisa em direção diferente da desejada pelos mandatários econômicos da nação são desestimulados, demitidos, não encontram espaço. Cria-se uma visão unidimensional, contrária mesmo aos princípios do Iluminismo e do Racionalismo, segundo a qual este é o único ordenamento social possível e Lula é o sumo-sacerdote encarregado de manter as coisas bem azeitadas para que os lucros dos bancos e da especulação financeira se mantenham elevados, intocados e intocáveis.

            A economia deve ter o crescimento controlado, sem que cresça muito pois isto traria complicadores aos cálculos dos donos do poder, garantindo a fabulosa lucratividade de toda a atividade especulativa com várias outras medidas restritivas, dentre as quais limitações brutais nos níveis salariais e na circulação da moeda, recebe as bênçãos do Capital para seguir “fazendo o que precisa ser feito”: controle total da força de trabalho e liberdade para o capital. Como Lula da Silva “fez bem o dever de casa” a ele atribuído pelos bancos internacionais, é o melhor candidato dos bancos a continuar e recebe suas bênçãos para o que quer que venha a fazer.

            É verdade que há um grande número de brasileiros assistidos, desde que FHC criou as bolsas assistencialistas até o momento em que elas foram unificadas no programa bolsa esmola do governo Lula da Silva. O desemprego é mascarado por estas medidas e pelos levantamentos estatísticos a ele vinculados. Toda e qualquer estatística pifiamente favorável é magnificada ao absurdo e trombeteada nos noticiários dóceis dos grandes meios de comunicação num clima que reproduz atualizando o “1984” de Orwell e deixaria o mais marrom dos nazistas com inveja.

            O pleno emprego e a justiça social, com distribuição de renda, ainda reside no discurso mecanicista, tão repetitivo quanto vazio, do PT e seus novos associados.

            Com um agravante significativo: o pensamento mecanicista que perpassa a sociedade incapacitada de vislumbrar o óbvio, que Lula da Silva mudou de lado e já não é líder sindical ou sequer aliado da classe trabalhadora (irrelevante o que ele diz a respeito, como irrelevante o que dizemos de nós mesmos quando o que fazemos contraria em tudo e por tudo o que dizemos).

            Some-se a isto o sistema de cretinismo e mediocrização que impede taxativamente todo e qualquer pensamento livre de se manifestar: bolsas de estudo são negadas a pesquisadores que discordem da visão unidimensional imposta; empregos são negados ou retirados de professores e jornalistas dissidentes. Na Alemanha nazista isto era feito às claras, através de censura direta e policial. No Brasil de Lula da Silva está tão disfarçado e a depressão individual se alarga tanto que os livros e programas diversos de auto-ajuda proliferam como uma praga. Se não há liberdade para sair desta jaula de ferro, busca-se formas de viver feliz dentro da jaula.

            Fundamentado em tudo isso, o presidente dos banqueiros, pai dos pobres e mãe dos ricos, conta de fato com poderosos aliados para se perenizar no poder.

 

 

Relativizando: estamos vivendo melhor?

             Não é bom circunscrevermos a comparação histórica apenas a “este governo” e “o anterior, que governou o Brasil por 500 anos”. Primeiro porque não é verdade. O processo histórico caracteristicamente brasileiro tem início, de fato, com a vinda da Família Real para o Brasil em 1808. Em segundo lugar que o nascimento do PSDB e do PFL, hoje Democratas, é historicamente datado, naturalmente. E surge depois da chamada Abertura Política, mais especificamente em finais do século XX, muito recente, portanto.

            Terceiro mas não finalmente, há que se considerar outros momentos históricos brasileiros. Tomemos o meado do século passado como exemplo. Será que temos melhores escolas públicas do que aquelas do tempo de Getúlio, Juscelino ou João Goulart? A saúde pública hoje está melhor do que a daqueles tempos? Os salários permitem mais compras? Há, proporcionalmente, mais empregos para brasileiros hoje do que havia em meados do século passado? A Segurança está aprimorada?

            Quem tem mais de 40 anos de idade viveu num Brasil em que as crianças brincavam nas ruas sem medo, em que os salários dos professores e dos juízes eram equivalentes, em que médicos eram almejados como grandes genros para as filhas, em que se lia e conhecia muito mais (matemática, português, história, geografia, ciências físicas e sociais, enfim), em que as desigualdades sociais eram muito menores, o número de mendigos, drogados e prostitutas era infinitamente inferior, proporcionalmente, em toda a sociedade. Havia problemas, mas em patamar tão distinto dos atuais que almejar chegar às condições que tínhamos em passado não tão distante tornou-se ponto programático (verbal, infelizmente não prático) de muitos partidos políticos.

            A geração de empregos acontece, naturalmente, em qualquer sociedade. No Brasil atual não há políticas públicas voltadas a que isto aconteça de maneira mais consistente e ampla. Apenas a geração “natural” de empregos num país em recessão e crise há mais de meio século é celebrada e festejada com trombetas enquanto se oculta a verdade dos olhos da maioria.

            As conquistas sanitárias do passado são relegadas a plano nenhum num país que celebra novos índices de mortalidade infantil por doenças infecto-contagiosas. Neste ponto, o que exatamente melhorou?

            “Está melhor que o governo passado”, dirá o militante de um dos partidos da base de bajulação de Lula da Silva. Será mesmo? Se há uma melhora insignificante, pífia, num setor, há um correspondente de piora, também pífia e insignificante em outro. Mas em todos os setores: Saúde, Educação, Segurança, Geração de Empregos, o que for, as variações são milimétricas, imperceptíveis e conducentes a levar-nos a, no limite, considerar como insignificante a escolha restrita somente a dicotomia “tucanos” versus “petistas”, idênticos em tudo e por tudo nos resultados, diferentes apenas e milimetricamente em formas de encaminhamento para o mesmo tipo de resultado.

 

Pequenos exemplos da mediocridade petista vis-à-vis a mediocridade tucana

 

            Os casos de dengue no governo FHC foram menos numerosos que durante o governo Lula da Silva – o que não conforta em nada a mãe que perdeu sua criança ceifada pela doença – ao tempo, a propaganda petista chamava às falas o ministro da Saúde do antigo governo e, no atual, com casos mais numerosos em todo o país, monta a sua máquina de propaganda contra o prefeito de um município onde os casos se tornaram mais numerosos – a culpa se estende a todas as dimensões, evidentemente. Mas se o combate à epidemia na Era Lula foi ligeiramente mais ineficiente que aquele da Era Tucana, o atendimento daqueles às vítimas de sua própria incompetência foi ligeiramente menos ineficaz que o atual, incapaz sequer de conter as filas numerosas.

            Em todos os setores relevantes para a vida humana o que se percebe é o mesmo: os transportes coletivos estão ligeiramente melhores mas as rodovias em que transitam ligeiramente piores do que estavam antes mas o quadro ainda é de um país que saiu de uma guerra que não foi travada: devastação.

            O atendimento médico está ligeiramente pior e a segurança está ligeiramente menor que na era tucana.

            O risco-país está menor e os bancos estão lucrando mais, e isso se reflete na vida das pessoas como piora generalizada da auto-estima e diminuição no nível de consciência política. Propaganda voltada a “reforçar a auto-estima” do brasileiro é de um sadismo calculado: levam-se os seres humanos a uma condição existencial desgraçada e se ordena que sorriam e sejam felizes. Ao invés de se trabalhar contra as causas dos problemas se combatem os efeitos.

 

Qual é a saída?

 

            Antes de mais nada demitir sumariamente as coalizões que têm feito tanto mal ao Brasil: lulo-petistas e tucano-pefelistas. Abrir os olhos para as propostas alternativas particularmente para o encaminhamento da política econômica. Desconfiar de tudo o que venha com a chancela de bancos e especuladores diversos. Buscarmos mais informação, mais saber, mais participação efetiva nas decisões práticas que afetam nossas vidas.

 "O pior analfabeto
é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, não participa
dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,

do aluguel, do sapato, do remédio
depende das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro
que se orgulha e estufa o peito
dizendo que odeia a política.

Não sabe o imbecil
que da sua ignorância política
nascem a prostituta, o menor abandonado,
o assaltante e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista, pilantra, corrupto
e lacaio das empresas nacionais e
multinacionais." - Bertold Brecht

Lázaro Curvêlo Chaves – 07/04/2008

 

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