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QUE FAZER?
As Questões
Palpitantes do Nosso Movimento
V.I. LÊNIN
A
luta interior dá força e vitalidade ao partido; a melhor prova da
fraqueza de um partido é sua posição difusa e a extinção de
fronteiras nitidamente traçadas; o Partido reforça-se
depurando-se...
(trecho de uma carta de Lassalle a
Marx, de 24 de junho de 1852)
APRESENTAÇÃO
A
publicação de Que Fazer? no Brasil constitui um acontecimento de
grande significação política, malgrado as presentes condições nas
quais vivemos e a debilidade crônica do nosso movimento socialista.
Está fora de dúvida que essa não é a maior obra de Lênin. Contudo,
ela caracteriza o momento no qual o leninismo se revela em seus
componentes essenciais: em nove anos de experiência, de lutas
constantes, de perseguições e de enorme fermentação criadora, um
jovem publicista da ala esquerda da social-democracia russa punha-se
à frente da vanguarda teórica desse partido. Apenas nove anos? O que
se pode realizar quando a história se move para a frente e o
pensamento revolucionário é exposto a todas as tensões de forças
contrárias, da mais odiosa opressão de um regime autocrático cruel e
de sua terrível repressão policial às inquietações da
intelligentsia, dos estudantes, dos radicais de uma burguesia
impotente e, em particular, das pressões crescentes das massas
populares, do campo e da cidade! Em suma, quando o pensamento
revolucionário aceita suas tarefas, as enfrenta com tenacidade,
esclarecimento e coragem, procurando avançar sempre para a
frente, relacionando meios e fins que podem transformar a
“oportunidade histórica" em história real.
Haveria
muito que debater sobre este pequeno livro e seu significado no
movimento socialista revolucionário. Não obstante, seria fora de
propósito ornamentar Que Fazer? com qualquer pretenso comentário
erudito. Os seus leitores podem ressentir-se da precisão de Marx,
por exemplo, nos comentários rigorosos à Crítica do Programa de
Gotha. No entanto, Que Fazer? introduz no marxismo uma nova dimensão
política. Na verdade, ele é uma resultante de um acidentado,
heróico e construtivo labor coletivo: o que várias tendências do
populismo, do radicalismo e do socialismo criaram na Rússia dos
meados do século XIX à sua última década. Uma experiência filtrada
por Lênin e amadurecida por sua penetrante acuidade à contribuição
do movimento socialista europeu, especialmente na Alemanha, França e
Inglaterra. Não se pode ignorar figuras como Plekhânov, Axerold e
Zasulítich (além de outros companheiros do ISKRA e da ala esquerda
do RO.S.D.R.), cuja produção teórica e visão dos problemas práticos
do marxismo na Rússia alimentaram a aprendizagem e os primeiros
tirocínios de Lênin. Todavia, ele os suplanta com uma rapidez
incrível. Que Fazer? marca uma nova etapa, que deixa tudo para trás.
De sua edição em diante, a Rússia não seria o cenário da
transmutação pura e simples do marxismo em movimento revolucionário
triunfante. Nascia o marxismo-leninismo como teoria revolucionária e
como prática revolucionária organizada. A própria Europa ficava para
trás, apesar da importância da II Internacional e dos seus grandes
teóricos, e da densidade do movimento operário europeu.
Neste
breve comentário, gostaria de concentrar-me em três questões mais
importantes para os leitores brasileiros no momento atual. A
primeira, diz respeito ao próprio Lênin: porque ele já estava
politicamente qualificado para escrever uma obra tão simples mas de
conseqüências tão profundas e permanentes? A segunda, impõe-se como
decorrência: o que representa a concepção do marxismo que Que Fazer?
propõe? A terceira, vincula-se ao aqui e ao agora: o que um livro
como esse testemunha quanto à nossa própria imaturidade e impotência
políticas no Brasil e na América Latina?
Quanto ao
primeiro tema, se Lênin era um "cérebro político" privilegiado
(descrito por Trotsky como o único estrategista da revolução
bolchevique), ele também recebe uma herança política privilegiada e
viveu em um momento histórico privilegiado. Não penso em simplificar
as coisas, para chegar a uma redução determinista do papel do herói
na História. Isso seria indigno de qualquer comentário mais ou menos
lúcido do significado de Que Fazer?; e, em particular, entraria em
conflito com o modo pelo qual Lênin se via como um "publicista de
partido". Um livro escrito entre o outono de 1901 e fevereiro de
1902, publicado em março de 1902 - mas que se propunha os problemas
centrais da teoria e da prática revolucionárias na Rússia e na
Europa - transcende a uma datação localizada. Ele responde a muitas
questões contraditórias e a grandeza criadora de Lênin aparece na
propriedade das perguntas, que formula, e na qualidade das respostas
(ou das soluções), que apresenta (numa linguagem que é sempre
simples, direta, embora marcadamente irônica e mordaz: Lênin não se
propunha uma "leitura" de Marx - o que ele queria era descobrir os
meios mais eficazes de converter uma, revolução potencial, bastante
forte para deixar a vanguarda teórica deslocada pelas exigências e
alguns avanços das massas populares, no ponto de partida da
desagregação do regime tzarista e de uma revolução permanente na
qual o marxismo se impusesse como uma cunha irremovível, capaz de
suplantar o liberalismo e o radicalismo burgueses, o populismo, o
socialismo moderado ou reformista, o terrorismo etc., e de gerar uma
revolução proletária vitoriosa).Quantos revolucionários afirmaram
(ou afirmam) que precisam sonhar e exigem a liberdade de sonhar? 0
importante é que o sonho, não estava longe da realidade. Ao
contrário, respondia diretamente ao que era preciso fazer para
passar-se de um "sonho” à sua concretização. Ora, aí temos uma
complexa situação histórica. A simplificação e o reducionismo
determinista existiram se se ignorasse a convergência de várias
condições e de diversos fatores, imediatos ou remotos, e a função
catalisadora de uma personalidade invulgar.
Ao iniciar
a redação desse livro, Lênin já era uma figura de relevo no marxismo
russo. Ainda não rompera com os principais teóricos contemporâneos e
mal começara a experimentar suas limitações no campo da ação
revolucionária. De outro lado, através da II Internacional, de sua
participação interna e externa na reelaboração da teoria socialista
e na crítica do reformismo ou do oportunismo, infundira à sua
própria posição uma intransigência marcante, um radicalismo maduro e
um espírito prático à toda a prova. Não era um “publicista", apenas,
era um político experiente e um revolucionário que sonhava com a
revolução procurando como encravá-la no seio de um regime odiado e
destrutivo. Como ativista, já tinha demonstrado seu potencial como
agitador e sua firmeza diante da repressão (uma, repressão
desconhecida na Europa, mesmo nas piores circunstâncias). Como
teórico, já havia comprovado que ultrapassara o período da
aprendizagem: O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia (publicado
em 1899) dissocia a teoria da análise, mas atesta, por isso mesmo, o
quanto Lênin dominava as doutrinas econômicas de Marx e o quanto,
por sua vez, era capaz de interpretar segundo critérios marxistas
rigorosos uma realidade histórica diferente, de modo original,
independente e construtivo. Na verdade, ele irradiara o seu talento
crítico na direção dos múltiplos temas do debate político
socialista, imperante dentro da Rússia, e evidenciara um avanço
teórico relativo comparável ao nível que prevalecia no Exterior, no
movimento socialista mundial. No sentido em que os franceses usam a
expressão, ele era uma "personalidade política" reconhecida e
impunha-se como uma influência pessoal com a qual se devia contar -
e que deveria crescer. A criação da revista Iskra, destinada à
discussão política e científica, e do jornal operário Zaria, que se
voltava para toda a Rússia, sugere que essa personalidade marcante
encontrara um quadro histórico e outros companheiros - em suma, que
o movimento socialista na Rússia, apesar das aparências, estava
saltando acima do movimento socialista na Europa, especialmente na
esfera da ação política direta, de levar a revolução socialista do
plano das idéias e das aspirações para o plano prático.
As
reflexões contidas em Que Fazer? correspondiam às, "exigências da
situação histórica", não eram fruto de uma especulação “genial" e
tampouco uma ousadia "isolada". Lênin abordara antes os mesmos
temas, em especial ao elaborar uma versão do programa da
social-democracia russa, ao redigir o projeto de declaração da Iskra
e do Zaria, e de maneira mais concentrada no artigo "Por onde
começar?" (de maio de 1901). Naquele projeto já se colocara contra
"o praticismo estreito", a dispersão e o caráter artesanal do
movimento socialista, batendo-se por uma forma superior, mais
unificada e, melhor organizada de luta política. No artigo, por sua
vez, antecipa a substância do livro. Pretende um sistema e um plano
de atividade prática, o que o coloca contra o economismo (o
sindicalismo reformista: estreito), que desemboca na impotência
política, e contra o terror, que, não condena em princípio, mas
caracteriza como uma arma inoportuna, inoperante, que afasta os
combatentes mais ativos de sua verdadeira tarefa" e que "desorganiza
não as forças governamentais, mas as forças revolucionárias". Temos
aí toda uma equação política revolucionária, que não foi inventada
por Lênin. Ela nascia de uma situação histórica "madura", na qual
os. problemas de agitação, propaganda e organização impunham a
reestruturação do movimento socialista. O fato de Lênin se defrontar
sem nenhuma timidez com essa equação e soltar suas pontas,
decifrando o caminho a seguir, diz por si mesmo o quanto ele era a
personalidade para desempenhar tal papel. Um "produto da história"
que era, também, um fator humano de sua transformação.
Quanto ao
segundo tema, está na moda uma visão crítica negativista do
leninismo". O leitor verá que uma boa parte desse ataque grosseiro
(como certa parte das condenações refinadas), eclodiu
contemporaneamente: Que Fazer? aparece como uma necessidade de
desvencilhar o socialismo revolucionário desse terrível cipoal,
continuamente reconstituído por tantas forças contraditórias. Não
pretendo travar um combate de cavaleiro andante contra a falta
de imaginação. Contudo, convém que o leitor fique atento e compare:
como Lênin ridiculariza seus críticos (e os críticos do marxismo); e
como ele refuta ou afasta tantas suspeitas com referência à
"profissionalização" da atividade revolucionária e à organização do
movimento socialista revolucionário. De um lado, temos forças
contra-revolucionárias ou conservadoras não só organizadas econômica
e, socialmente - contando também com a centralização política,
proveniente da existência e do controle do Estado. De outro, a
"anti-ordem" desordenada, fiel a fórmulas ideais e abstratas que não
são, bastante fortes, por si mesmas, para levar de vencida o
tzarismo. Se avançarmos diretamente na linha profunda do pensamento
de Lênin: ele propõe nada mais nada menos que a alternativa do
anti-Estado, a organização de um Estado dentro de outro Estado, ou
seja, a organização da revolução. De um golpe, ele supera as várias
soluções do radicalismo burguês e do socialismo reformista e os
imponderáveis do terrorismo. Para muitos, aí não haveria novidade. A
novidade, estaria apenas na russificação do marxismo, na
"bolchevização", que eliminaria do marxismo a sua vinculação
espontânea com as massas e seu teor democrático. Ora, chegar a essas
conclusões por efeito da propaganda conservadora e
contra-revolucionária é explicável. Mantê-las, depois de ler Que
Fazer?, significa uma obliteração da razão socialista (se esta
existe, de fato). O que Lênin faz com o marxismo só pode ser
definido de uma maneira: ele converte o marxismo em processo
revolucionário real. Se o faz tendo em vista as condições políticas
do tzarismo e da sociedade russa, disso ele não se poderia livrar...
Portanto,
Lênin inaugura uma concepção do marxismo: a que rompe frontalmente
com o elemento burguês em todos os sentidos, ainda dentro e contra a
sociedade capitalista. Os grande teóricos do socialismo
revolucionário europeu esperavam a vitória da revolução para
extirpar a condição burguesa que impregnasse a todos os
revolucionários, dos militantes de base ao tope da vanguarda, o que
significa que a massa de seguidores poderia oscilar livremente, das
opções socialistas às opções democrático-burguesas. O combate dos
"métodos artesanais” significa acabar com isso na medida do
possível. O que fica de “entranhadamente burguês” em um militante
submetido a um treinamento profissional e para atuar
clandestinamente? Depois que um partido revolucionário aceita tal
evolução, ele tem condições para dar uma volta atrás, procedendo
como os socialistas alemães, franceses ou ingleses que traíram o
socialismo para não traírem seus governos nacionais? De outro lado,
um partido revolucionário que organiza a revolução deixa de
vincular-se à oscilação das, massas populares, de aproveitar
produtivamente sua espontaneidade? Ele perde, por isso, seu caráter
democrático? De onde vem a estrutura revolucionária e democrática de
um partido socialista e da revolução socialista: da ordem que ambos
combatem e devem destruir ou dos princípios fundamentais do
socialismo? Por aí se verifica que Lênin converteu o marxismo em uma
realidade política antes mesmo que o regime tzarista se desagregasse
e ocorresse a revolução proletária. Os que se apegaram demais às
condições "democráticas" da ordem existente e pretendiam avançar
suavemente, cultivando o oportunismo, o reformismo, o gradualismo, o
obreirismo, o populismo ou, no outro extremo, a violência episódica
sem uma estrutura e continuidade políticas não podiam entender a sua
linguagem. Pareciam-lhes que a passagem para o socialismo perdia,
desse modo, todo o encanto pequeno-burguês e toda a atração heróica.
Uma revolução que se organiza politicamente, que centraliza suas
forças, surge, como um anti-Estado, sob a aparência de uma
"militarização", de um despotismo dissimulado sob o centralismo
democrático.
Essa
"leitura" dê Lênin é a de todos os que se identificam com o
socialismo como uma fonte de compensação psicológica ou moral.
Depois que a burguesia se converteu em classe dominante reacionária
ou contra-revolucionária, na Europa e nos Estados Unidos, que
utilizou exemplarmente o que Engels descreveu como o "terrorismo
burguês", não existia outro caminho para chegar não “ao poder", mas
à construção de uma sociedade socialista. O que dizer da Rússia?
Lênin aponta com sagacidade as diferenças: o que um regime
ultra-opressivo deixa como espaço político "democrático" para as
reivindicações do Povo, das classes trabalhadoras, dos movimentos
radical-democráticos ou socialistas. Um espaço zero. O teórico
socialista se defronta com a necessidade de partir desse espaço
zero: criar a revolução a partir de dentro da contra-revolução. Ou
seja, o combate organizado à contra-revolução institucionalizada e
estabilizada politicamente deve ser, desde o inicio, um processo
revolucionário. Daí as frases famosas deste livro: “Sem teoria
revolucionária, não existe movimento revolucionário”; "toda a
vida política é uma cadeia sem fim composta de um número infinito de
elos”; “é preciso sonhar" etc. A contraparte dessas frases famosas:
sem organização não se mede a força de um movimento revolucionário e
sem movimento revolucionário não se testa a teoria revolucionária.
Lênin completa o marxismo. Introduz a dialética na esfera da ação
política direta e do movimento de massas pelo socialismo.
Quanto ao
terceiro ponto, Que Fazer? é um divisor de águas. Escrito e
publicado no alvor do século XX, ele sintetiza os avanços do
socialismo e do marxismo na Rússia no século anterior e assinala as
promessas revolucionárias realmente fundadas. O livro todo constitui
uma polêmica com o passado, com os contemporâneos, com os que se
voltavam para a construção de uma Rússia democrática ou socialista.
Onde se escreve um livro como esse, no momento em que um livro
como esse pode ser publicado, a partir do combate ou da aceitação
das idéias contidas em um livro como esse, pode-se constatar a
existência de um movimento revolucionário denso, inquieto, maduro e
indomável. A vitalidade do movimento socialista não nasce de si
mesmo, apenas,. nasce da sociedade em que se constitui e na qual se
expande. O requisito histórico e o patamar de um movimento dessa
envergadura é a existência de uma sociedade que caminha
inexoravelmente, pelas pressões de baixo para cima, pela
insatisfação das massas e pelo inconformismo das classes
trabalhadoras, na direção da desagregação da ordem existente e da
revolução social. Nesses quadros históricos há um socialismo
potencial (diria, mesmo, um socialismo revolucionário potencial). O
marxismo como teoria e como praxis pode ser facilmente irradiado nas
várias direções da sociedade: as tarefas dos militantes, dos
"teóricos" e "publicistas" nem por isso é mais fácil. Porque essa
potencialidade traz consigo uma repressão feroz, uma autodefesa cega
e impiedosa. Contudo, a violência institucional da contra-revolução
não consolida a si própria. Ela fortalece as forças antagônicas, os
inimigos da opressão e da contra- revolução, ou seja, em um primeiro
momento, a revolução democrática de base popular, em outro momento
seguinte, o controle do Estado pelas forças da revolução
democrática, e a transição para o socialismo. Em resumo, se não
existissem peixes nos rios e no mar seria impossível pescar. O
movimento socialista exige um mínimo de condições “objetivas" e
“subjetivas" (e o mesmo se pode dizer da revolução socialista).
Dadas
certas dessas condições, o que depende dos próprios socialistas para
que o seu movimento se consolide, se irradie e, através das massas
populares e das classes trabalhadoras, se converta em força política
revolucionária? Excluindo-se Cuba, a experiência chilena e algumas
manifestações verdadeiramente políticas da guerrilha, a América
Latina foi o paraíso da contra-revolução (da contra-revolução mais
elementar e odiosa, a que impede até a implantação de uma
democracia-burguesa autêntica). Hoje, mais do que nunca, ela
continua a ser o paraíso da contra-revolução, só que, agora,
conjugando o "terrorismo burguês interno" com o "terrorismo burguês
externo”, Os partidos que deveriam ser revolucionários (anarquistas,
socialistas ou comunistas), devotaram-se à causa da consolidação da
ordem, na esperança de que, dado o primeiro passo democrático,
ter-se-ia uma situação histórica distinta. Em suma, bateram-se pela
democracia-burguesa, como se fossem os campeões da liberdade.
Trata-se de uma avaliação dura? Quanto tempo as burguesias nacionais
ter-se-iam agüentado no poder se fossem atacadas de modo direto,
organizado e eficiente? Ou estamos sujeitos a uma "fatalidade
histórica", que prolonga o período colonial e a tirania colonizadora
depois da independência e da expansão do Estado nacional? O
diagnóstico correto, embora terrível para todos nós, é que nunca
fizemos o que deveríamos ter feito. Os “revolucionários" quiseram
manter seus privilégios, ou os seus meio-privilégios,
sintonizando-se com as elites no poder e com as classes dominantes.
Formaram a sua ala radical, sempre pronta a esclarecer os donos do
poder sobre o que certas reformas implicariam, para evitar uma
aceleração da desagregação da ordem e os seus efeitos
imprevisíveis...
Não estou inventando. Voltamos as
costas à organização da revolução e auxiliamos a contra-revolução,
uns mais outros menos, uns conscientemente, outros sem ter
consciência disso. E a "massa" da esquerda tem os olhos fitos no
desfrute das vantagens do status de classe média. O que ameaça esse
status entra em conflito com o socialismo democrático...
Todas
essas reflexões pungentes precisam ser feitas e refeitas. Que Fazer?
desvenda essa realidade incômoda. Não fomos fascinados pelo
“espontaneísmo" das massas: estas exerceram pouca atração sobre o
pensamento político propriamente revolucionário, sempre preso a
fórmulas importadas de fora, com freqüência fórmulas com alta
infeção burguesa (para usar outra expressão de Lênin). Fomos
paralisados pela idéia do gradualismo democrático-burguês e pelo
poder de coação da ordem. O que quer dizer que, na era da
polivalência no "campo socialista", ainda não sabemos quais são os
caminhos que nos levarão à desagregação do nosso capitalismo
selvagem e a soluções socialistas apropriadas à presente situação
histórica. Um atraso monumental. O que Lênin fez, por exemplo, em O
Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia só tentamos no plano da
erudição. Por conseguinte, fora de Cuba não se criou um pensamento
socialista revolucionário original. A principal tarefa, teórica foi
negligenciada até hoje, porque líderes, vanguardas e partidos da
esquerda ou vivem a sua integridade socialista com extremo purismo
ascético - e bem longe da atividade prática concreta - ou se
concentram no "economismo" e, pior que isso, em táticas
imediatistas, de composição dentro da ordem, como se o socialismo
pudesse ser o último estágio, a Quinta essência da "democracia"
burguesa. O reformismo pequeno-burguês como estilo de prática
política. Ora, tudo isso está ocorrendo numa época em que a
transição para o socialismo ficou mais difícil. Depois das grandes
revoluções - da Rússia, da China, do Vietnã da Iugoslávia e de Cuba
- o cerco capitalista ao socialismo se aperta a partir de dentro e a
partir de fora. A contra-revolução deixa de ser o produto de uma
autocracia secular: a autocracia é organizada deliberadamente, como
a barreira, o bastião de defesa e a base política de contra-ataque
militar e policial do chamado "capitalismo tardio". De outro lado,
essa contra-revolução corrompe tudo, pelos meios de educação,
comunicação de massa, consumo de massa, cooptação etc. Depois de
setenta e seis anos, Que Fazer? Continua válido. Todavia, a teoria
revolucionária e a organização do movimento revolucionário precisam
ser adaptadas a uma situação política muito diversa. Os que esperam
que o "campo socialista" resolverá todos os problemas e dificuldades
cometem um equívoco. A cooperação e o auxílio efetivo só poderão
amparar os movimentos revolucionários viáveis, que comprovarem sua
vitalidade e a sua eficácia. Em outras palavras, é urgente superar a
nossa circularidade e a nossa fraqueza inventiva. Os que são
socialistas precisam devotar-se à tarefa de construir a teoria
revolucionária exigida pela situação atual da América Latina.
Essas
ponderações podem parecer exageradas. A partir do Brasil? O país que
ficou no maior atraso dentro do movimento sindical, socialista e
revolucionário na América Latina? Na época em que Lênin escreveu e
publicou Que Fazer? quem pensaria que a Rússia, e não alguma
nação avançada da Europa, se colocaria na vanguarda da história? Não
penso que poderemos "queimar etapas". O avanço real só pode ser
conquistado graças e através das massas populares e das classes
trabalhadoras. A nossa tarefa urgente consiste em propagar o
socialismo revolucionário nesses setores da sociedade e, com o
amadurecimento da sua experiência política, tentar-se o
equacionamento de "por onde começar,?" Nem uma coisa nem outra será
possível se se mantiver a tática “economista", o falso obreirismo e
o populismo das classes dominantes, a submissão a burguesias
pró-imperialistas e entranhadamente antidemocráticas e
contra-revolucionárias. Parece claro que voltamos, no momento que
corre, a erros crônicos do passado, lançando as forças vivas de uma
revolução democrática na maior confusão, abandono e impotência.
Oitenta e nove anos de "regime republicano" já nos ensinaram o
bastante. Não serão as classes possuidoras, especialmente os seus
setores privilegiados nacionais e estrangeiros, que irão favorecer e
levar a cabo a revolução democrática. E esta não pode ser pensada,
por um socialista, como um desdobramento de etapas. Onde as massas
populares e as classes trabalhadoras se afirmam como as únicas
alavancas da revolução democrática, esta só poderá conter uma
transição burguesa extremamente curta. Cabe aos socialistas
dinamizar a "revolução dentro da revolução". Hoje, mais que no
passado, a civilização de consumo de massas constitui um ópio do
Povo. As massas populares e as classes trabalhadoras só podem ser
educadas para o socialismo através de um forte movimento socialista,
dentro do qual elas forneçam as bases, os quadros e as vanguardas, e
através do qual elas disputem o poder das classes dominantes,
deslocando-as do controle do Estado e do sistema de opressão
institucional "democrático”. O que assinala que, se os caminhos são
diversos, várias lições de Que Fazer? preservam toda a atualidade,
sob a condição de que a opção pelo socialismo seja tomada para
valer.
São Paulo, 19-20 de março de 1978
Florestan Fernandes
PREFÁCIO
De acordo
com a intenção original do autor, este trabalho que apresentamos ao
leitor devia ser dedicado ao desenvolvimento detalhado das idéias
expostas no artigo "Por Onde Começar?" (Iskra, n.º 4, maio de
1901). Antes de tudo, devemos desculpar-nos perante o
leitor pelo atraso verificado no cumprimento da promessa feita nesse
artigo (e repetida em resposta a numerosas perguntas e cartas
particulares). Uma das razões desse atraso foi a tentativa de
unificação de todas as organizações sociais-democratas no
estrangeiro, empreendida em junho do ano passado (1901). Seria
natural que se aguardasse os resultados dessa tentativa, pois, se
tivesse êxito, talvez fosse preciso expor sob um ângulo um pouco
diferente os pontos de vista do Iskra em matéria de organização; em
todo o caso, o êxito de tal tentativa teria permitido pôr termo, de
modo bastante rápido, à existência de duas tendências na
social-democracia russa. Como o leitor não ignora, essa tentativa
fracassou e, como procuraremos demonstrar mais adiante, não poderia
ter outro fim após a mudança
inesperada do Rabótcheie Dielo, em
seu número 10, em direção ao “economismo”. Tornou-se absolutamente
necessário empreender uma luta decisiva contra esta tendência vaga e
pouco determinada, porém tanto mais persistente e suscetível de
renascer sob as mais variadas formas. Desse modo, o plano inicial
deste trabalho foi modificado e consideravelmente ampliado.
O tema
principal deveria abranger as três questões propostas no artigo "Por
Onde Começar?", ou seja: o caráter e o conteúdo essencial de nossa
agitação política; nossas tarefas de organização, o plano para a
construção de uma organização de combate para toda a Rússia dirigido
simultaneamente para diversos fins. Desde há muito tais problemas
vêm interessando ao autor, que já procurou abordá-los na Rabótchaia
Gazeta, em uma das tentativas malogradas de se renovar essa
publicação (ver cap. V). Contudo, minha intenção inicial de me
limitar, neste trabalho, somente à análise dessas três questões e de
expor meus pontos de vista, sempre que possível, de forma positiva
evitando recorrer à polêmica, tornou-se completamente impraticável
por duas razões. Por um lado, o "economismo" revelou-se muito mais
forte do que os supúnhamos (empregamos o termo "economismo” em
sentido amplo, como foi explicado no artigo do, Iskra, n.º. 12,
dezembro de 1901: “Uma Conversa com os Defensores do Economismo”,
artigo que traça por assim dizer, o esboço do trabalho que
apresentamos ao leitor). Hoje é inegável que as diferentes opiniões
a respeito desses três problemas explicam-se muito mais pela
oposição radical das duas tendências na social-democracia russa, do,
que pelas divergências quanto a detalhes. Por outro lado, a
perplexidade suscitada entre os “economistas" pela exposição
metódica de nossos pontos de vista no Iskra evidenciou que,
freqüentemente, falamos línguas literalmente diferentes: que, por
conseguinte, não podemos chegar a qualquer acordo se não começarmos
ab ovo; que é necessário tentar .Uma explicação metódica tão popular
quanto possível, ilustrada com exemplos concretos muito numerosos,
com todos os "economistas", sobre todos os pontos capitais de nossas
divergências. E resolvi tentar tal "explicação”, compreendendo
perfeitamente que ela aumentaria consideravelmente as dimensões
deste trabalho e retardaria seu aparecimento, mas não encontrei
outro meio de cumprir a promessa feita no artigo “Por Onde
Começar?". As desculpas por esse atraso, é necessário acrescentar
outras quanto à extrema insuficiência da forma literária deste
trabalho: tive de trabalhar com a maior das pressas e, ademais, foi
interrompido freqüentemente por toda a sorte de outros trabalhos.
A análise
das três questões indicadas anteriormente continua a ser o objeto
deste trabalho, mas tive de começar por duas outras questões de
ordem mais geral: por que uma palavra de ordem tão "inofensiva" e
“natural" como "liberdade de crítica” constitui para nós um
verdadeiro grito de guerra? Por que, não podemos chegar a um acordo
nem sequer sobre a questão fundamental do papel da
social-democracia, em relação ao movimento espontâneo das massas?
Além disso, a exposição dos meus pontos de vista sobre o caráter e o
conteúdo da agitação política visa a explicar a diferença entre a
política sindical e a política social-democrata, e a exposição dos
meus pontos de vista sobre as tarefas de organização visa a explicar
a diferença entre os métodos artesanais de trabalho, que satisfazem
os "economistas", e a organização dos revolucionários que
consideramos indispensável. Em seguida, insisto mais uma vez sobre o
"plano" de um jornal político para toda a Rússia, pois as objeções
que têm sido feitas a esse respeito são inconsistentes e não
respondem à natureza da questão proposta no artigo "Por Onde
Começar?": como poderemos empreender, simultaneamente e por todos os
lados, a formação da organização de que necessitamos? Enfim, na
última parte do trabalho espero demonstrar que fizemos tudo o que
dependia de nós para evitar a ruptura definitiva com os
"economistas", ruptura que, entretanto, tornou-se inevitável; que o
Robótcheie Dielo adquiriu uma importância especial, "histórica", se
quiserem, porque exprimiu da maneira mais completa e com maior
relevo, não o "economismo" conseqüente,. mas a dispersão e as
incertezas que constituíram o traço peculiar de todo um período da
história da social-democracia russa; que, por conseguinte, apesar de
parecer bastante desenvolvida à primeira vista, a polêmica com o
Rabótcheie Dielo tem sua razão de ser, pois não podemos seguir
adiante sem, liquidar definitivamente esse período.
fevereiro de 1902.
N. Lênin
I - DOGMÁTISMO E LIBERDADE DE
CRÍTICA
a) QUE SIGNIFICA A “LIBERDADE
DE CRÍTICA”?
"Liberdade
de crítica” é, sem dúvida alguma, a palavra de ordem, mais em voga
atualmente, aquela que aparece com mais freqüência nas discussões
entre socialistas e democratas de todos os países. A primeira vista,
nada parece mais estranho do que ver um dos contraditores exigir
solenemente a liberdade de crítica. Acaso nos partidos avançados
ergueram-se vozes contra a lei constitucional que. na maioria dos
países europeus, garante a liberdade da ciência e da investigação
científica? “Há algo escondido” dirá necessariamente todo homem
imparcial que ouviu essa palavra de ordem em moda, repetida em todos
os cantos, porém ainda não aprendeu o sentido do desacordo. ”Essa
palavra de ordem é, evidentemente. uma daquelas pequenas palavras
convencionais que, como os apelidos são consagrados pelo uso e
tornam-se quase nomes comuns”. De fato, não constitui mistério para
ninguém que, na social-democracia internacional de hoje, se tenham
formado duas tendências, cuja luta ora “se anima e se inflama, ora
se extingue sob as cinzas das grandiosas resoluções de tréguas”. Em
que consiste a “nova tendência que "critica” o "velho” marxismo
"dogmático", disse-o Bernstein, e demonstrou-o Millerand com
suficiente clareza.
A
social-democracia deve transformar-se de partido da revolução social
em partido democrático de reformas sociais. Essa reivindicação
política, foi cercada por Bernstein com toda uma bateria de "novos"
argumentos e considerações muito harmoniosamente orquestrados. Nega
ele a possibilidade de se conferir fundamento científico ao
socialismo e de se provar, do ponto de vista da concepção
materialista da história, sua necessidade e sua inevitabilidade,
nega a miséria crescente, a proletarização e o agravamento das
contradições capitalistas; declara inconsistente a própria concepção
do "objetivo final", e rejeita categoricamente a idéia da ditadura
do proletariado; nega a oposição de princípios entre o liberalismo e
o socialismo, nega a teoria da luta de classes, considerando-a
inaplicável a uma sociedade estritamente democrática, administrada
segundo a vontade da maioria etc.
Assim, a
exigência de uma mudança decisiva - da social-democracia
revolucionária para o reformismo social burguês - foi acompanhada de
reviravolta não menos decisiva em direção à crítica burguesa de
todas as idéias fundamentais do marxismo. E como essa crítica, de há
muito, era dirigida contra o marxismo do alto da tribuna política e
da cátedra universitária, em uma quantidade de publicações e em uma
série de tratados científicos: como, há dezenas de anos, era
inculcada sistematicamente à jovem geração das classes instruídas,
não é de se surpreender que a "nova” tendência "crítica” na
social-democracia tenha surgido repentinamente sob sua forma
definitiva, tal como Minerva da cabeça de Júpiter. Em seu conteúdo,
essa tendência não teve de se desenvolver e de se formar; foi
transplantada diretamente da literatura burguesa para a literatura
socialista.
Prossigamos. Se a crítica teórica de Bernstein e suas ambições
políticas permaneciam ainda obscuras para alguns, os franceses
tiveram o cuidado de fazer uma demonstração prática, do "novo
método". Ainda desta vez a França justificou sua velha reputação de
"país em cuja história a luta de classes, mais do que em qualquer
outro, foi resolutamente conduzida até o fim" (Engels, trecho do
prefácio ao Der 18 Brumaire de Marx). Ao invés de teorizar, os
socialistas franceses agiram deliberadamente; as condições políticas
da França, mais desenvolvidas no sentido democrático,
permitiram-lhes passar imediatamente ao "bernsteinismo prático” com
todas as suas conseqüências. Millerand deu um exemplo brilhante
desse bernsteinismo prático; também, com que empenho Bernstein e
Volimar apressaram-se em defender e louvar Millerand! De fato, se a
social-democracia não constitui, no fundo, senão um partido de
reformas e deve ter a coragem de reconhecê-lo abertamente, o
socialismo não somente tem o direito de entrar em um ministério
burguês, como também deve mesmo aspirar sempre a isso. Se a
democracia significa, no fundo, a supressão da dominação de classe,
por que um ministro socialista não seduziria o mundo burguês com
discursos sobre a colaboração das classes? Por que não conservaria
ele sua pasta, mesmo após os assassínios de operários por policiais
terem demonstrado pela centésima e pela milésima vez o verdadeiro
caráter da colaboração democrática das classes? Por que não
facilitaria pessoalmente o czar a quem os socialistas franceses não
chamavam senão de knouteur, pendeur et déportateur? E para
contrabalançar esse interminável aviltamento e autoflagelação do
socialismo perante o mundo inteiro, essa perversão da consciência
socialista das massas operárias - única base que nos pode
assegurar a vitória -, são nos oferecidos os projetos
grandiloqüentes de reformas insignificantes, insignificantes ao
ponto de se poder ter obtido mais dos governos burgueses!
Aqueles
que não fecham os olhos, deliberadamente, não podem deixar de ver
que a nova tendência “crítica” no socialismo nada mais é que uma
nova variedade do oportunismo. E se tais pessoas forem julgadas, não
a partir do brilhante uniforme que vestiram, nem tampouco do título
pomposo que se atribuíram, mas a partir de sua maneira de agir e das
idéias que realmente divulgam, tornar-se-á claro que “a liberdade de
crítica" é a liberdade da tendência oportunista na
social-democracia, a liberdade de transformar esta em um partido
democrático de reformas, a liberdade de implantar no socialismo as
idéias burguesas e os elementos burgueses.
A liberdade é uma grande palavra,
mas foi sob a bandeira da liberdade da indústria que foram
empreendidas as piores guerras de pilhagem, foi sob a bandeira da
liberdade do trabalho, que os trabalhadores foram espoliados. A
expressão “liberdade de crítica”, tal como se emprega hoje, encerra
a mesma falsidade. As pessoas verdadeiramente convencidas de terem
feito progredir a ciência não reclamariam, para as novas concepções,
a liberdade de existir ao lado das antigas, mas a substituição
destas por aquelas. Portanto, os gritos atuais de "Viva a liberdade
de crítica!” lembram muito a fábula do tonel vazio.
Pequeno
grupo compacto, seguimos por uma estrada escarpada e difícil,
segurando-nos fortemente pela mão. De todos os lados, estamos
cercados de inimigos, e é preciso marchar quase constantemente
debaixo de fogo. Estamos unidos por uma decisão livremente tomada,
precisamente a fim de combater o inimigo e não cair no pântano ao
lado, cujos habitantes desde o início nos culpam de termos formado
um grupo à parte, e preferido o caminho da luta ao caminho da
conciliação. Alguns dos nossos gritam: Vamos para o pântano! E
quando lhes mostramos a vergonha de tal ato, replicam: Como vocês
são atrasados! Não se envergonham de nos negar a liberdade de
convidá-los a seguir um caminho melhor! Sim, senhores, são livres
não somente para convidar, mas de ir para onde bem lhes aprouver,
até para o pântano; achamos, inclusive, que seu lugar verdadeiro é
precisamente no pântano, e, na medida de nossas forças, estamos
prontos a ajudá-los a transportar para lá os seus lares. Porém,
nesse caso, larguem-nos a mão, não nos agarrem e não manchem a
grande palavra liberdade, porque também nós somos “livres” para ir
aonde nos aprouver, livres para combater não só o pântano, como
também aqueles que para lá se dirigem!
______________________
* A propósito. É um fato
quase único na história do socialismo moderno e extremamente
consolador no seu gênero; pela primeira vez uma disputa entre
tendências diferentes no seio do socialismo ultrapassa o quadro
nacional para se tornar internacional. Anteriormente, as discussões
entre lassalianos e eisenachianos, entre guesdistas e possibilistas,
entre fabianos e sociais-democratas, entre norodovoltsy e
sociais-democratas eram puramente nacionais, refletiam
particularidades puramente nacionais, desenrolavam-se, por assim
dizer, em planos diferentes. Atualmente (isto aparece, hoje,
claramente) os fabianos ingleses, os ministerialistas franceses, os
bernsteinianos alemães, os críticos russos formam todos uma única
família, elogiam-se mutuamente, aprendem uns com os outros, e
conduzem campanha comum contra o marxismo “dogmático”. Será que
nessa primeira amálgama verdadeiramente internacional com o
oportunismo socialista. a social-democracia revolucionária
internacional fortalecer-se-á suficientemente para acabar com a
reação política que há tanto tempo prejudica a Europa?
b) OS NOVOS DEFENSORES DA
"LIBERDADE DE CRÍTICA"
É esta
palavra de ordem (“liberdade de crítica”) que o Rabótcheie Dielo
(n.º 10), órgão da "União dos Sociais-Democratas Russos" no
estrangeiro, formulou solenemente nesses últimos tempos, não como
postulado teórico, mas como reivindicação política, corno resposta à
questão: “É possível a união das organizações sociais-democratas
funcionando no estrangeiro?" - "Para uma união sólida, a liberdade
de crítica é indispensável" (p. 36).
Daqui,
duas conclusões bastante precisas são extraídas: 1ª) o Rabótcheie
Dielo assume a defesa da tendência oportunista na social-democracia
internacional, em geral; 2ª) o Rabótcheie Dielo reclama a liberdade
de oportunismo na social-dernocracia russa. Examinemos estas
conclusões.
O que
desagrada "acima de tudo” ao Rabótcheie Dielo, é a "tendência que
têm o Iskra e a Zaria de prognosticar a ruptura entre a Montanha e a
Gironda da social-democracia internacional”.*1
“Falar de
uma Montanha e de uma Gironda nos escalões da social-democracia,
escreve o redator-chefe do Rabótcheie Dielo, B. Kritchévski,
parece-nos uma analogia histórica superficial, singular na pena de
um marxista: a Montanha e a Gironda não representavam temperamentos
ou correntes intelectuais diversas como poderá parecer aos
historiadores ideólogos, mas classes ou camadas diversas: de um
lado, a média burguesia, de outro, a pequeno-burguesia e o
proletariado. Ora, no movimento socialista contemporâneo, não existe
coalizão de interesses de classe; em todas (sublinhado por
Kritchévski) as suas variedades, aí compreendidos os bernsteinianos
mais declarados, o movimento coloca-se inteiramente no campo dos
interesses da classe do proletariado, da luta de classe do
proletariado para sua emancipação política e econômica”(p. 32-33).
Afirmação
ousada! Ignora B. Kritchévski o fato, há muito observado, de que foi
precisamente a grande participação da camada de "acadêmicos", no
movimento socialista dos últimos anos, que assegurou a rápida
difusão do bernsteinismo? E, ainda mais, em que fundamenta o autor
sua opinião para declarar que os "bernsteinianos mais declarados”
colocam-se, também eles, no campo da luta de classe para a
emancipação política e econômica do proletariado? Não seria possível
dizê-lo. Esta defesa resoluta dos bernsteinianos mais declarados não
encontra nenhum argumento, nenhuma razão para apoiá-la. Mas, o que
de mais "superficial” pode haver do que esta maneira de julgar toda
uma tendência, a partir das próprias convicções daqueles que a
representam? O que há de mais superficial do que a moral que
acompanha esses dois tipos ou caminhos diferentes, e mesmo
diametralmente opostos, do desenvolvimento do Partido (p. 34-35 do
Rabótcheie Dielo)? Observem que os sociais-democratas alemães
admitem a completa liberdade de crítica; os franceses, ao contrário,
não o fazem, e é o seu exemplo que demonstra todo o “mal da
intolerância".
Respondemos que é precisamente o exemplo de B. Kritchévski aquele
que mostra haver pessoas que, intitulando-se, por vezes
marxistas, consideram a história exatamente “à maneira de
Ilováiski". Para explicar a unidade do partido alemão e a dispersão
do partido socialista francês, não há nenhuma necessidade de se
buscar as particularidades da história de um ou outro país, de se
fazer comparações entre as condições do semi-absolutismo militar e
do parlamentarismo republicano, de se examinar as conseqüências da
Comuna e da lei de exceção contra os socialistas, de se comparar a
situação e o desenvolvimento econômicos, de se levar em conta o fato
de que o “crescimento ímpar da social-democracia alemã” foi
acompanhado de uma luta de vigor sem precedentes na história do
socialismo, não somente contra os erros teóricos (Mühlberger,
Dühring,*2 os socialistas da Cátedra), mas também contra os erros
táticos (Lassalle) etc. etc. Tudo isto é supérfluo! Os franceses
discutem entre si, porque são intolerantes; os alemães são unidos,
porque são bons rapazes.
E, note-se
bem, através dessa incomparável profundidade de pensamento,
"recusa-se" um fato que arruina completamente a defesa dos
bernsteinianos. Colocam-se estes últimos no campo da luta de classe
do proletariado? Tal questão não pode ser definitivamente resolvida,
e sem se voltar atrás, senão pela experiência histórica. Por
conseguinte, o mais importante aqui é o exemplo da França, o único
país onde os bernsteinianos tentaram voar com suas próprias asas,
com a calorosa aprovação de seus colegas alemães (e em parte, dos
oportunistas russos: cf. Rab, Dielo, n.º. 2-3, p., 83-84). Alegar a
“intransigência" dos franceses, além do valor "histórico” de tal
alegação (à maneira de Nozdrev, é simplesmente dissimular, sob
palavras acrimoniosas, fatos extremamente desagradáveis.
Aliás, não
temos nenhuma intenção de abandonar os a emães a B. Kritchévski e a
outros inúmeros defensores da "liberdade de crítica". Se os
"bernsteinianos mais declarados" ainda são tolerados no partido
alemão, é unicamente na medida em que se submetem à resolução de
Hanôver, que rejeita deliberadamente as "emendas” de Bernstein, e a
de Lübeck, a qual (apesar de toda a diplomacia) contém uma
advertência formal dirigida a Bernstein. Do ponto de vista dos
interesses do partido alemão, pode-se discutir a oportunidade desta
diplomacia e perguntar se, neste caso, um mau acordo vale mais do
que uma boa discussão; em uma palavra, pode-se discordar sobre este
ou aquele meio de rejeitar o bernsteinismo. mas não seria possível
ignorar o fato de o partido alemão tê-lo repudiado por duas vezes,
portanto, aceitar que o exemplo dos alemães confirma a tese de que
"os bernsteinianos mais declarados colocam-se no campo da luta de
classe do proletariado para sua emancipação econômica e política",
significa que não se compreende absolutamente nada do que se passa
sob os olhos de todos.*3
E ainda
mais. O Rabótcheie Dielo, como já mostramos, apresenta à
social-democracia russa a reivindicação da “liberdade de crítica" e
defende o bernsteinismo. Aparentemente, deve ter-se convencido de
que nossos "críticos" e nossos bernsteinianos eram injustamente
maltratados. Mas, quais? Por quem, onde e quando? Por que
injustamente? A esse respeito, o Rabótcheie Dielo cala-se; nem uma
só vez menciona um crítico ou um bernsteiniano russo! Só nos resta
escolher entre as duas hipóteses possíveis. Ou a parte injustamente
ofendida não é senão o próprio Rabótcheie Dielo (o que é confirmado
pelo fato de os dois artigos do n.º. 10 falarem unicamente das
ofensas infligidas pela Zaria e pelo Iskra ao Rabótcheie Dielo).
Mas, daí, como explicar o estranho fato de o Rabótcheie Dielo, que
sempre negou obstinadamente qualquer solidariedade com o
bernsteinismo, não ter podido se defender senão em favor dos
“bernsteinianos mais declarados” e da liberdade de crítica? Ou,
então, foram terceiros os injustamente ofendidos. Neste caso, quais
seriam, pois, os motivos para não serem mencionados?
Assim,
vemos que o Rabótcheie Dielo continua o jogo de esconde-esconde, ao
qual se dedica (como demonstraremos mais adiante) desde que existe.
Ademais, note-se esta primeira aplicação prática da famosa
“liberdade de crítica". De fato, esta liberdade logo reconduziu não
somente à ausência de toda crítica, mas também à ausência de todo
julgamento independente em geral. O mesmo Rabótcheie Dielo que
oculta, como uma doença secreta (segundo a feliz expressão de
Satrover), a existência de um bernsteinismo russo, propõe para curar
essa doença copiar pura e simplesmente a última receita alemã para o
tratamento da forma alemã de tal doença! Ao invés de liberdade de
crítica, imitação servil... pior ainda: simiesca! As manifestações
do atual oportunismo internacional, em toda a parte idêntico em seu
conteúdo social e político, variam segundo as particularidades
nacionais. Em um país, as oportunidades há muito agrupam-se sob uma
bandeira distinta; em outro, desdenhando a teoria, seguem
praticamente a política dos socialistas radicais; em um terceiro,
alguns membros do partido revolucionário, que se passaram para o
campo do oportunismo, desejam atingir os seus fins, não através de
luta aberta por princípios e táticas novas, mas através de corrupção
gradual, imperceptível e, se é que se pode dizer, não passível de
punição pelo seu partido; enfim, em outro lugar, esses desertores
empregam os mesmos procedimentos nas trevas da escravatura política,
onde a relação entre a atividade "legal" e a atividade "ilegal"
etc., é completamente original. Fazer da liberdade de crítica e da
liberdade do bernsteinismo a condição da união dos sociais
democratas russos, sem uma análise das manifestações concretas e dos
resultados particulares do bernsteinismo russo, é falar sem nada
dizer.
Portanto,
tentemos nós próprios dizer, ao menos em poucas palavras, o que não
quis dizer (ou talvez não tenha sabido compreender) o Rabótcheie
Dielo.
_______________
*1 A
comparação entre as duas tendências do proletariado revolucionário
(tendência revolucionária e tendência oportunista) e as duas
tendências da burguesia revolucionária do século XVIII (a tendência
jacobina - a "Montanha" - e a tendência girondina) foi feita
no editorial do número 2 do Iskra (fevereiro de 1901). Plekhânov é o
autor deste artigo. Falar do “jacobinismo” na social-dernocracia
russa é ainda hoje o tema favorito dos "cadets". Dos “bezzaglavtsy”,
e dos mencheviques. Mas, como Plekânov utilizou esta noção, pela
primeira vez, contra a ala direita da social-democracia, hoje em dia
prefere-se esquecer ou silenciar sobre o fato. (Nota do autor à
edição russa de 1907. N. R.).
*2 Quando
Engels atacou Dühring, para quem se inclinavam muitos representantes
da social-democracia alemã, as acusações de violência, de
intolerância, de falta de camaradagem na polêmica ergueram-se contra
ele, até mesmo em público, no congresso do partido. Most e seus
companheiros propuseram (no congresso de 1877) de não mais publicar
no Vorwärts os artigos de Engels por “não apresentarem interesse
para a grande maioria dos leitores”; Vahlteich declarou, de sua
parte, que a inclusão desses artigos prejudicara muito o Partido;
que Dühring também prestara serviços à social-democracia: "Devemos
utilizar todo o mundo no interesse do Partido. e se os professores
discutem, o Vowärts não é arena para tais disputas”. (Vorwärts n.º.
65, 6 de junho de 1877). Como se vê, também esse é um exemplo de
defesa da “liberdade de crítica", exemplo sobre o qual fariam bem em
refletir os nossos críticos legais e oportunistas ilegais, que tanto
gostam de se referir aos alemães!
*3 É
preciso notar que, sobre a questão do bernsteinismo no Partido
alemão, o Rabótcheie Dielo sempre se contentou em relatar pura e
simplesmente os fatos, "abstendo-se" totalmente de uma apreciação
própria. Ver, por exemplo, o número 2-3, p. 66, sobre o congresso de
Stuttgart: todas as divergências se dirigem para a "tática" e se
constata apenas que a grande maioria permanece fiel à tática
revolucionária anterior. Ou o número 4-5, p. 25 e seguintes, simples
repetição dos discursos no congresso de Hanôver, reproduzindo a
resolução de Bebel a exposição e a crítica de Bernstein são
novamente remetidas a um “artigo especial”. 0 curioso é que na
página 33, no número 4-5, lê-se: “... Acepções, expostas por Bebel,
contam com o apoio da grande maioria do congresso”, e um pouco mais
adiante: “... David defendia as concepções de Bernstein... Em
primeiro lugar, procurava mostrar que... Bernstein e seus amigos
colocavam-se, apesar de tudo (sic) no campo da luta de classes”...
Isto foi escrito em dezembro de 1899, e, em setembro de 1901,o
Rabótcheie Dieto sem dúvida já perdeu a confiança na exatidão das
afirmações de Bebel e retoma o ponto de vista de David como o seu
próprio!
c) A CRÍTICA NA RÚSSIA
No que
concerne à nossa análise, a particularidade essencial da Rússia
consiste em que o próprio começo do movimento operário espontâneo,
de um lado, e a evolução da opinião pública avançada em direção ao
marxismo, de outro, foram marcados pela combinação de elementos
notadamente heterogêneos sob uma mesma bandeira para a luta contra o
inimigo comum (contra uma filosofia política e social obsoletas).
Referimo-nos à lua-de-mel do “marxismo legal", um .fenômeno de
extrema originalidade, em cuja possibilidade ninguém teria
acreditado na década de 1880, ou no início da década de 1890. Em um
país autocrático, onde a imprensa é completamente subjugada, em uma
época de terrível reação política que reprimia as menores
manifestações de descontentamento e de protesto político, a teoria
do marxismo revolucionário abre repentinamente o caminho em uma
literatura submissa à censura, e esta teoria foi exposta na
linguagem de Esopo, compreensível. porém, a todos “aqueles que se
interessavam”. O governo tinha se habituado a não considerar
como perigosa senão a teoria da “Norodnaia Volia” (revolucionária);
e não notava, como é comum, a sua evolução interna regozijando-se
com toda crítica dirigida contra ela. Antes de o governo se
aperceber, antes de o pesado exército de censores e policiais
descobrir o novo inimigo e atirar-se sobre ele, muito tempo se
passou (muito tempo para nós, russos). Ora, durante esse tempo, as
obras marxistas foram editadas sucessivamente, foram fundados
jornais e revistas marxistas; todo o mundo literalmente tornou-se
marxista; os marxistas eram elogiados, adulados, os editores estavam
entusiasmados com a venda extremamente rápida das obras marxistas. É
compreensível que entre os marxistas principiantes, mergulhados na
embriaguez do sucesso, tenha havido mais de um “escritor
envaidecido”-...
Hoje,
pode-se falar desse período tranqüilamente, como se fala do passado.
Ninguém ignora que a efêmera emergência do marxismo à superfície de
nossa literatura provém da aliança com elementos bastante moderados.
No fundo, esses últimos eram democratas burgueses, e esta conclusão
(evidenciada por sua evolução "crítica" ulterior) já se impunha a
alguns à época em que a "aliança" ainda estava intacta.*1
Mas, assim
sendo, a quem pertence a maior responsabilidade pelo "problema"
ulterior, senão aos sociais-democratas revolucionários que
concluíram esta aliança com os futuros "críticos"? Esta é a questão,
seguida de uma resposta afirmativa, que se ouve, por vezes, das
pessoas que vêem as coisas de maneira demasiado linear. Tais
pessoas, porém, não têm razão alguma. Só podem temer as alianças
temporárias, mesmo com elementos inseguros, os que não possuem
confiança em si próprios. Nenhum partido político poderia existir
sem essas alianças. Ora, a união com os marxistas legais foi, de
qualquer modo, a primeira aliança, política verdadeira realizada
pela social-democracia russa. Esta aliança permitiu alcançar uma
vitória surpreendentemente rápida sobre o populismo, e assegurou a
prodigiosa difusão das idéias marxistas (é verdade que
vulgarizadas). Além disso, esta aliança não foi concluída
completamente sem “condições" . Testemunha-o a compilação marxista,
Documentos Sobre o Desenvolvimento Econômico da Rússia, queimada em
1895 pela censura. Se se pode comparar o acordo literário com os
marxistas legais a uma aliança política, pode-se comparar tal obra a
um contrato político.
Evidentemente, a ruptura não se deve ao fato de os "aliados” se
terem declarado democratas burgueses. Ao contrário, os
representantes dessa última tendência constituem, para a
social-democracia, aliados naturais e desejáveis, sempre que se
trate de tarefas democráticas que a situação atual da Rússia coloca
em primeiro plano. Mas, a condição necessária para tal aliança, é
que os socialistas tenham a plena possibilidade de revelar à classe
operária a oposição hostil entre os seus interesses e os da
burguesia. Ora, o bernsteinismo e a tendência "crítica" a que
aderiram, em geral, os marxistas legais, em sua maioria, removiam
essa possibilidade e pervertiam a consciência socialista, aviltando
o marxismo, pregando a teoria da atenuação dos antagonismos sociais,
proclamando absurda a idéia da revolução social e da ditadura do
proletariado, reconduzindo o movimento operário e a luta de classes
a um sindicalismo estreito e à luta "realista” por reformas pequenas
e graduais. Isso eqüivalia perfeitamente à negação, para a
democracia burguesa, do direito do socialismo à independência e, por
conseguinte, de seu direito à existência; e, na prática, tendia a
transformar o movimento operário, então em seus primórdios, em
apêndice do movimento liberal.
É evidente
que, nessas condições, impunha-se a ruptura. Porém, pela
particularidade original da Rússia, essa ruptura de novo consistiu
em simplesmente eliminar os sociais-democratas da literatura "legal"
, a mais acessível ao público e a mais amplamente difundida. Os
“ex-marxistas", que se agruparam "sob o signo da crítica" e
obtiveram quase o monopólio da "execução" do marxismo, aí se
entrincheiraram. Os slogans, "contra a ortodoxia" e "viva a
liberdade de crítica" (retomados agora pelo Rabótcheie Dielo)
tornaram-se imediatamente palavras em moda. Nem mesmo os censores e
os policiais puderam resistir a essa moda, como o mostram as três
edições russas do livro famoso (famoso à maneira de Eróstrato)
Bernstein, ou a recomendação de Zoubatov das obras de Bernstein, de
M. Prokopovitch etc. (Iskra n.º. 10). Aos sociais-democratas
impunha-se, então, a tarefa já em si difícil, e ainda mais
incrivelmente dificultada pelos obstáculos puramente exteriores, de
combater a nova corrente. Ora, tal corrente não se limitava à
literatura. A evolução em direção à “crítica" encontrou-se com o
entusiasmo dos sociais-democratas práticos pelo “economismo".*2
O
nascimento e o desenvolvimento da ligação e da dependência
recíproca, entre a crítica legal e o "economismo" ilegal, constituem
questão interessante, que poderia servir de objeto de um artigo
especial. Aqui, basta-nós assinalar a existência incontestável dessa
ligação. O famoso Credo adquiriu tão merecida celebridade por ter
formulado abertamente essa ligação, e divulgado incidentalmente a
tendência política fundamental do "economismo": para os operários, a
luta econômica (ou, mais exatamente, a luta sindical, que abrange
também a política especificamente operária); para os intelectuais
marxistas, a fusão com os liberais para a “luta" política. A
atividade sindical “no povo" foi a realização da primeira metade da
tarefa; a crítica legal, da segunda. Essa declaração era uma arma
tão preciosa contra o “economismo" que se o Credo não tivesse
existido, teria sido necessário inventá-lo.
O Credo
não foi inventado, mas publicado sem o consentimento e talvez mesmo
contra a vontade de seus autores. Em todo o caso, o autor destas
linhas, que contribuiu para trazer à luz o novo "programa",*3 teve
ocasião de ouvir lamentações e censuras pelo fato de o resumo dos
pontos de vista dos oradores, por eles esboçado, ter sido divulgado
em cópias, rotulado com o nome de Credo, e mesmo publicado na
imprensa com o protesto! Se recordamos esse episódio, é porque ele
revela um traço muito curioso de nosso "economismo": o temor à
publicidade. Este é um traço do "economismo” em geral, e não somente
dos autores do Credo: Manifesta-se na Robótchaia Mysl o mais franco
e honesto adepto do "economismo", e no Rabótcheie Dielo (que se
ergueu contra a publicação de documentos “economistas” no Vademecum,
e. no Comitê de Kiev, há cerca de dois anos, não quis autorizar que
se publicasse sua "Profissão de Fé" em conjunto com a refutação*4
desta última; e manifesta-se, também. em muitos e muitos
representantes do “economismo”.
Esse temor
da crítica, que demonstram os adeptos da liberdade de crítica, não
poderia ser explicado unicamente pela astúcia (ainda que a astúcia,
por vezes, desempenhe o seu papel: não é vantajoso expor ao ataque
do adversário as tentativas ainda frágeis de uma nova tendência!).
Não, a maioria dos “economistas” com uma sinceridade absoluta vê (e
pela própria essência do "economismo” tem de fazê-lo) sem
benevolência todas as discussões teóricas, divergências de facção,
grandes problemas políticos, projetos de organização dos
revolucionários etc. "Seria melhor deixar tudo isto aos
estrangeiros.” disse-me um dia um dos “economistas” bastante
conseqüentes, exprimindo, assim, esta opinião extremamente difundida
(puramente sindical, mais uma vez), de que nossa incumbência é o
movimento operário, as organizações operárias internas de nosso
país, e que todo o resto é invenção dos doutrinários, uma
“sobrestimação da ideologia”, segundo a expressão dos autores da
carta publicada no número 12 do Iskra, em uníssono ao número 10 do
Rabótcheie Dielo.
Agora, a
questão que se coloca é: dadas essas particularidades da “crítica” e
do bernsteinismo russos, qual devia ser a tarefa daqueles que,
realmente e não apenas em palavras. desejam ser adversários do
oportunismo? Em primeiro lugar, era necessário retomar o trabalho
teórico que, apenas começado à época do marxismo legal, voltara
então a recair sobre os militantes ilegais, sem esse trabalho, o
crescimento normal do movimento seria impossível. Em seguida, era
necessário empreender uma luta ativa contra a “crítica” legal que
corrompia profundamente os espíritos. Enfim, era preciso combater
vigorosamente a dispersão e as flutuações do movimento prático,
denunciando e refutando toda tentativa de rebaixar, consciente ou
inconscientemente, nosso programa e nossa tática.
Sabe-se
que o Rabótcheie Dielo não cumpriu nenhuma dessas tarefas, e mais
adiante analisaremos detalhadamente essa verdade bem conhecida, sob
os mais diversos ângulos. No movimento, desejamos simplesmente
mostrar a contradição flagrante que existe entre a reivindicação da
“liberdade de crítica" e as particularidades de nossa crítica
nacional e o "economismo" russo. Olhem a resolução pela qual a
“União dos Sociais-Democratas Russos no Estrangeiro" confirmou o
ponto de vista do Rabótcheie Dielo:
“No
interesse do desenvolvimento ideológico ulterior da
social-democracia, reconhecemos que a liberdade de criticar a teoria
social-democrata é absolutamente necessária na literatura do
partido, na medida em que esta crítica não contradiga o caráter de
classe e o caráter revolucionário desta teoria." (Dois Congressos,
p. 10).
E os
motivos que se apresentam são: a resolução "em sua primeira parte,
coincide com a resolução do congresso do Partido em Lübeck", a
propósito de Bernstein”... Na sua simplicidade, “os (membros) da
União" nem sequer notam o testimonium paupertatis (certificado de
indigência) que passam a si próprias!... "mas...., em sua segunda
parte, restringe a liberdade de crítica de forma mais estrita do que
no congresso de Lübeck".
Assim, a
resolução da "União” será dirigida contra os bernsteinianos russos?
Senão, seria completamente absurdo referir-se a Lübeck!. Mas,
é falso que "restringe de forma mais estrita a liberdade de
crítica". Pela sua resolução de Hanôver, os alemães rejeitaram,
ponto por ponto, exatamente as emendas de Bernstein, e na resolução
de Lübeck, endereçaram uma advertência pessoal a Bernstein
mencionando-o na resolução. Entretanto, nossos imitadores "livres"
não fazem a menor alusão a uma única das manifestações da “crítica"
e do "economismo" especificamente russos. Dada esta reticência, a
alusão pura e simples ao caráter de classe e do caráter
revolucionário da teoria deixa muito mais margem a falsas
interpretações, sobretudo se a "União" recusa-se a classificar no
oportunismo a "tendência dita economista" (Dois Congressos, p. 8 §
1). Mas, dizemos isso de passagem. O importante é que as posições
dos oportunistas, em relação aos sociais-democratas revolucionários,
são diametralmente opostas na Alemanha e na Rússia. Na Alemanha, os
sociais-
democratas revolucionários, como se
sabe, são favoráveis à manutenção do que existe: ao antigo programa
e à antiga tática conhecidos de todos e explicados em todos os seus
detalhes pela experiência de dezenas e dezenas de anos. Ora, os
“críticos" desejam fazer modificações e, como estão em ínfima
maioria e suas tendências revisionistas são demasiado tímidas,
compreende-se os motivos por que a maioria limita-se a rejeitar
friamente sua "inovação". Na Rússia, ao contrário, críticos e
“economistas” são favoráveis à manutenção do que existe: os
“críticos” desejam que se continue a considerá-los marxistas e que
se lhes assegure à "liberdade de crítica", da qual se beneficiam sob
todos os aspectos (pois, no fundo, nunca reconheceram qualquer
coesão dentro do Partido;*5 além disso, não tínhamos um órgão do
Partido universalmente reconhecido e capaz de "limitar" a liberdade
de crítica, nem sequer por um conselho); os "economistas" desejam
que os revolucionários reconheçam "os plenos direitos do movimento
no momento atual" (Rab. Dielo n.º. 10, p. 25), isto é, a
"legitimidade” da existência do que existe; que os “ideólogos não
procurem desviar o movimento do caminho "determinado pela interação
recíproca dos elementos materiais e do meio material" ("carta" do
número 12 do Iskra); que se reconheça como desejável a luta, "a
mesma luta que os operários podem conduzir nas circunstâncias
atuais", e como possível aquela "que eles conduzem. na realidade, no
momento presente" ("Suplemento especial da Rabótchaia Mysl”, p. 14).
Porém, para nós, sociais-democratas revolucionários, este culto do
espontâneo, isto é do que existe "no momento presente", não nos diz
nada. Exigimos que seja modificada a tática que tem prevalecido
nesses últimos anos; declaramos que "antes de nos unir, e para nos
unir, devemos começar por nos demarcar nítida e resolutamente"
(anúncio da publicação do Iskra). Em uma palavra, os alemães
conformam-se ao estado atual das coisas e rejeitam as modificações;
quanto a nós, rejeitando a submissão e a resignação ao estado atual
das coisas, exigimos a modificação.
É esta a
“pequena" diferença que nossos "livres" copiadores das resoluções
alemãs não notaram!
______________
*1 Alusão ao artigo de K. Touline
contra Struve, artigo redigido com base na conferência intitulada:
Influencia do Marxismo Sobre a Literatura Burguesa.
*2 0 termo “economismo” foi
utilizado entre aspas, da mesma forma que na tradução francesa,
tendo em vista a intenção do Autor de ressaltar seu sentido irônico.
(Nota da tradução brasileira).
*3
Trata-se do Protesto dos 17 contra o Credo. 0 autor dessas linhas
participou da redação desse protesto (fins de 1899). 0 protesto e o
Credo foram impressos no exterior, na primavera de 1900. Sabe-se,
agora, por um artigo da Senhora Kuskova (publicado no Byloie, creio
eu) que foi ela a autora do Credo. E entre os "economistas” dessa
época, no exterior, um papel marcante foi desempenhado por M.
Prokopovitch.
*4
Pelo que sabemos, a composição do Comitê de Kiev foi modificada
posteriormente.
*5 Esta
ausência de coesão verdadeira no partido e de tradição de partido
constitui, por si só, uma diferença fundamental entre a Rússia e a
Alemanha, que deveria ter posto qualquer socialista de espírito
sensato em guarda contra qualquer imitação cega. Aqui está uma
amostra daquilo a que chegou a “liberdade de crítica" na Rússia. O
critico russo, M. Bulgákov, faz esta observação ao crítico
austríaco, Hertz: “Apesar de toda a independência de suas
conclusões, Hertz, quanto a esse ponto (a cooperação), permanece
aparentemente bastante ligado à opinião de seu partido e, embora em
desacordo quanto aos detalhes, não se revolve a abandonar o
princípio geral” (0 Capitalismo e a Agricultura. t. 11, p. 287). Um
súdito de um Estado politicamente escravizado, no qual 999/1000 da
população estão corrompidos até a medula dos ossos pelo servilismo
político e não têm qualquer idéia sobre a honra e a coesão do
partido, repreende à altura um cidadão de um Estado constitucional,
por estar demasiado “ligado à opinião do partido”! Nada mais resta
às nossas organizações ilegais do que põe-se a redigir resoluções
sobre a liberdade de crítica....
D) ENGELS E A IMPORTÂNCIA DA LUTA
TEÓRICA
"O dogmatismo, o doutrinarismo", a
fossilização do Partido, castigo inevitável do estrangulamento
forçado do pensamento", tais são os inimigos contra os quais entram
na arena os campeões da "liberdade de crítica" do Rabótcheie Dielo.
Apreciamos que esta questão tenha sido colocada na ordem do dia;
apenas proporíamos completá-la com esta outra questão:
Mas, quem são os juizes?
Temos diante de nós dois prospectos
de edições literárias. O primeiro é o "programa do Rabótcheie Dielo,
órgão periódico da 'União dos Sociais-Democratas Russos’” (separata
do número 1 do Rab. Dielo). O segundo é o "anúncio da retomada das
edições do grupo 'Liberação do Trabalho’”. Todos os dois são datados
de 1899, época em que a "crise do marxismo" estava, há muito, na
ordem do dia. Portanto, em vão procuraríamos na primeira obra as
indicações sobre esta questão e uma exposição precisa da posição que
pensa tomar, a esse respeito, perante o novo órgão. Quanto ao
trabalho teórico e suas tarefas essenciais à hora presente, esse
programa e seus complementos adotados; pelo Terceiro Congresso da
"União"(em 1901) nada mencionam (Dois Congressos, p. 15-18). Durante
todo esse tempo, a redação do Rabótcheie Dielo deixou de lado as
questões de teoria, apesar de essas preocuparem os
sociais-democratas do mundo inteiro.
O outro prospecto, ao contrário,
assinala logo de início o descuramento do interesse pela teoria, no
decurso desses últimos anos; reclama, insistentemente, “uma atenção
vigilante para o aspecto teórico do movimento revolucionário do
proletariado”, e exorta a urna “crítica implacável das tendências
anti-revolucionárias, bernsteinianas, e outras", em nosso movimento.
Os números publicados da Zaria mostram como este programa foi
aplicado.
Vê-se assim, portanto, que as
grandes frases contra a fossilização do pensamento etc. dissimulam o
desinteresse e a impotência para fazer progredir o pensamento
teórico. O exemplo dos sociais democratas russos ilustra, de uma
forma particularmente notável, esse fenômeno comum à Europa (e de há
muito assinalado pelos marxistas alemães), de que a famosa liberdade
de crítica não significa a substituição de uma teoria por outra, mas
a liberdade com respeito a todo sistema coerente e refletido;
significa o ecletismo e a ausência de princípios. Quem conhece, por
pouco que seja, a situação de fato de nosso movimento não pode
deixar de ver que a grande difusão do marxismo foi acompanhada de
certo abaixamento do nível teórico. Muitas pessoas, cujo preparo era
ínfimo ou nulo, aderiram ao movimento pelos seus sucessos práticos e
importância efetiva. Pode-se julgar a falta de tato demostrada pelo
Rabótcheie Dielo, pela definição de Marx, que lançou de forma
triunfante: "Cada passo avante, cada progresso real valem mais que
uma dúzia de programas". Repetir tais palavras nessa época de
dissensão teórica eqüivale a dizer à vista de um cortejo fúnebre:
"Tomara que sempre tenham algo para levar!" Além disso, essas
palavras são extraídas da carta sobre o programa de Gotha, na qual
Marx condena categoricamente o ecletismo no enunciado dos
princípios. Se a união é verdadeiramente necessária, escrevia Marx
aos dirigentes do partido, façam acordos para realizar os objetivos
práticos do movimento, mas não cheguem, ao ponto de fazer comércio
dos princípios, nem façam "concessões" teóricas. Tal era o
pensamento de Marx, e eis que há entre nós pessoas que, em seu nome,
procuram diminuir a importância da teoria!
Sem teoria revolucionária, não há
movimento revolucionário. Não seria demasiado insistir sobre essa
idéia em uma época, onde o entusiasmo pelas formas mais limitadas da
ação prática aparece acompanhado pela propaganda em voga do
oportunismo. Para a social-democracia russa em particular, a teoria
assume importância ainda maior por três razões esquecidas com muita
freqüência, a saber: primeiro, nosso partido apenas começou a se
constituir. a elaborar sua fisionomia, e está longe de ter acabado
com as outras tendências do pensamento revolucionário que ameaçam
desviar o movimento do caminho certo. Ao contrário, assistimos
justamente nesses últimos tempos (como Axelrod já há muito havia
predito aos "economistas”) ao recrudescimento das tendências
revolucionárias não sociais-democratas. Nessas condições, um erro
"sem importância" à primeira vista pode acarretar as mais
deploráveis conseqüências, e é preciso ser míope para considerar
inoportunas ou supérfluas as controvérsias de facção e a estrita
delimitação dos matizes. Da consolidação deste ou daquele matiz pode
depender o futuro da social-democracia russa por muitos e longos
anos.
Segundo, o movimento
social-dernocrata é, pela sua própria essência, internacional. Isso
não significa somente que devemos combater o chauvinismo nacional.
Significa, também que um movimento iniciado em um país jovem só pode
ter êxito se assimilar a experiência dos outros países. Ora, para
tanto não é suficiente apenas conhecer essa experiência, ou
limitar-se a copiar as últimas resoluções. É preciso saber proceder
à análise crítica dessa experiência e controlá-la por si próprio.
Somente quando se constata o quanto se desenvolveu e se ramificou o
movimento operário contemporâneo, pode-se compreender a reserva de
forças teóricas e de experiência política (e revolucionária)
necessárias para se realizar essa tarefa.
Terceiro, a social-democracia russa
tem tarefas nacionais como nenhum outro partido socialista do mundo
jamais o teve. Mais adiante, falaremos das obrigações políticas e da
organização que nos impõe essa tarefa: liberar todo um povo do jugo
da autocracia. No momento, apenas indicaremos que só um partido
guiado por uma teoria de vanguarda é capaz de preencher o papel de
combatente de vanguarda E para se fazer uma idéia mais concreta do
que isso significa, lembre-se o leitor dos predecessores da
social-democracia russa, tais como Herzen, Bielínski, Tchernichévski
e a brilhante pleiade de revolucionários de 1870-1880; pense na
importância mundial de que a literatura, russa atualmente se
reveste; e. mas, basta!
Citaremos as observações, feitas
por Engels em 1874, sobre a importância da teoria no movimento
social-democrata. Engels; reconhecia na grande luta da
social-democracia não apenas duas formas (política e econômica) -
como se faz entre nós - mas três, colocando a luta teórica no mesmo
plano. Suas recomendações ao movimento operário alemão, já vigorosa
prática e politicamente, são tão instrutivas do ponto de vista dos
problemas e discussões atuais, que o leitor, esperamo-lo, não se
importará que transcrevamos o longo trecho do prefácio ao livro Der
deutsche Bauernkrieg, que há muito já se tornou uma raridade
bibliográfica:
"Os operários alemães apresentam
duas vantagens essenciais sobre os demais operários da Europa.
Primeiramente, pertencem, ao povo mais teórico da Europa; além
disso, conservaram o senso teórico já quase completamente
desaparecido nas classes por assim dizer “cultivadas" da Alemanha.
Sem a filosofia alemã que o precedeu, notadamente a de Hegel, o
socialismo. alemão - o único socialismo científico que já existiu -
não teria sido estabelecido. Sem o sentido teórico dos operários,
estes não teriam jamais assimilado esse socialismo científico, como
o fizeram. E o que prova esta imensa vantagem é, de um lado, a
indiferença com respeito a toda teoria, uma das causas principais do
pouco progresso do movimento operário inglês, apesar da excelente
organização dos diferentes ofícios, e, de outro lado, a perturbação
e a confusão provocadas pelo proudhonismo, em sua forma inicial,
entre os franceses e os belgas, e, na sua forma caricaturada, que
lhe deu Bakunin, entre os espanhóis e os italianos.
A segunda vantagem é que os alemães
integraram tardiamente o movimento operário, tendo sido quase os
últimos. Do mesmo modo que o socialismo alemão jamais se esquecerá
de que foi erigido sobre os ombros de Saint-Simon, de Fourier de
Owen, três homens que, apesar de toda a fantasia e a utopia de suas
doutrinas, encontram-se entre os maiores cérebros de todos os tempos
e se anteciparam genialmente a inumeráveis idéias, cuja exatidão
presentemente demonstramos de maneira científica, também o movimento
operário prático alemão jamais deve esquecer-se que desenvolveu
sobre os ombros dos movimentos inglês e francês, que pôde
simplesmente beneficiar-se de suas experiências adquiridas
penosamente e evitar, no presente, seus erros, então na maioria
inevitáveis. Sem o passado dos sindicatos ingleses e das lutas
políticas dos franceses, sem o impulso gigantesco dado especialmente
pela Comuna de Paris, onde estaríamos nós, hoje?
É preciso reconhecer que os
operários alemães souberam aproveitar as vantagens de sua situação,
com rara inteligência. Pela primeira vez, desde que existe um
movimento operário, a luta é conduzida em suas três direções -
teórica, política e econômico-prática (resistência contra os
capitalistas) - com tanto método e coesão. É neste ataque
concêntrico, por assim dizer, que reside a força invencível do
movimento alemão.
De um lado, em ramo de sua posição
vantajosa; de outro, em decorrência das particularidades insulares
do movimento inglês e da violenta repressão do movimento francês, os
operários alemães, no momento, colocam-se na vanguarda da luta
proletária. Não é possível prever durante quanto tempo os
acontecimentos, lhes permitirão ocupar esse posto de honra.. Mas,
enquanto o ocuparem, é de se esperar que cumprirão seu dever, como
convém. Para tanto, deverão redobrar os esforços, em todos os
domínios da luta e da agitação. Os dirigentes, em particular,
deverão instruir-se cada vez mais sobre todas as questões teóricas,
libertar-se cada vez mais da influência das frases tradicionais,
pertencentes às concepções obsoletas do mundo, e jamais se esquecer
que o socialismo, desde que se tornou uma ciência, exige ser
tratado, isto é, estudado, como uma ciência. A tarefa consistirá, a
seguir, em difundir com zelo cada vez maior entre as classes
operárias, as concepções sempre mais claras, assim adquiridas, e em
consolidar de forma cada vez mais poderosa a organização do partido
e dos sindicatos...
... Se os operários alemães
continuarem a agir assim, não digo que marcharão à frente do
movimento - não é de interesse do movimento que os operários de uma
única nação, em particular, marchem à frente -, mas ocuparão um
lugar de honra na linha de combate; e estarão armados e prontos se
provas difíceis e inesperadas, ou ainda grandes acontecimentos
exigirem deles maior coragem, decisão e ação”.
As palavras de Engels revelaram-se
proféticas. Alguns anos mais tarde, os operários alemães foram
inesperadamente submetidos à dura provação da lei de exceção contra
os socialistas. E os operários alemães encontram-se de fato
suficientemente preparados para sair vitoriosos.
O proletariado russo terá de sofrer
provas ainda infinitamente mais duras, terá de combater um monstro
perto do qual o da lei de exceção, em um país constitucional, parece
um pigmeu. A história nos atribui, agora, uma tarefa imediata, a
mais revolucionária de todas as tarefas imediatas do proletariado de
qualquer país. A realização dessa tarefa, a destruição do baluarte
mais poderoso, não somente da reação européia, mas também (podemos
agora dize-lo) da reação asiática, fará do proletariado russo a
vanguarda do proletariado revolucionário internacional. E temos o
direito de esperar que obteremos este título honorário merecido já
pelos nossos predecessores, os revolucionários de 1870-1880, se
soubermos animar com o mesmo espírito de decisão e a mesma energia
irredutível. nosso movimento, mil vezes mais amplo e mais profundo.
II - A ESPONTANEIDADE DAS MASSAS E
0
ESPÍRITO DA CONSCIÊNCIA DA
SOCIAI-DEMOCRACIA
Dissemos
que era necessário animar nosso movimento, infinitamente maior e
mais profundo que aquele de 1870-1880, com o mesmo espírito de
decisão e a mesma energia sem limites. De fato, até o presente
parece que ninguém ainda duvidara de que a força do movimento
contemporâneo estivesse no despertar das massas (e principalmente do
proletariado industrial), e sua fraqueza residisse na falta de
consciência e de espírito de iniciativa dos dirigentes
revolucionários.
Nesses
últimos tempos, contudo, foi feita uma descoberta espantosa, que
ameaça subverter todas as idéias adquiridas sobre este ponto. Esta
descoberta é obra do Rabótcheie Dielo que, em sua polêmica com o
Iskra e a Zaria, não se ateve a objeções particulares e tentou
reconduzir o "desacordo geral” à sua raiz mais profunda: a uma
"apreciação diferente da importância relativa do elemento espontâneo
e do elemento conscientemente metódico"'. A tese de acusação do
Rabótcheie Dielo expressa o seguinte: “subestimação da importância
do elemento objetivo ou espontâneo do desenvolvimento". *1 Ao que
respondemos: se a polêmica do Iskra e da Zaria não tivesse outro
resultado senão o de levar o Rabótcheie Dielo a descobrir esse
"desacordo geral", este resultado, por si só, dar-nos-ia grande
satisfação, a tal ponto esta tese é significativa, e esclarece
nitidamente o fundo das divergências teóricas e políticas que
separam, hoje, os sociais democratas russos.
Além
disso, a questão das relações entre a consciência e a espontaneidade
oferece um imenso interesse geral, e exige um estudo detalhado.
A) INÍCI0 DO IMPULSO ESPONTÂNEO
No
capítulo anterior assinalamos o entusiasmo generalizado da juventude
russa instruída pela teoria marxista, por volta de 1895. Foi também
nessa mesma época, que as greves operárias, após a famosa guerra
industrial de 1896 em Petersburgo, revestiram-se de um caráter
geral. Sua extensão por toda a Rússia atestava claramente a
profundidade do movimento popular que de novo surgia, e se falamos
do "elemento espontâneo”, é certamente nesse movimento de greves que
devemos considerá-lo, antes de tudo. Mas, há espontaneidade e
espontaneidade. Houve, na Rússia, greves nas décadas de 1870 e 1880
(e mesmo na primeira metade do século XIX), que foram acompanhadas
da destruição “espontânea” de máquinas etc. Comparadas a esses
"tumultos”, as greves após 1890 poderiam mesmo ser qualificadas de
"conscientes”, tal foi o progresso do movimento operário nesse
intervalo. Isto nos mostra que o “elemento espontâneo", no fundo,
não é senão a forma embrionária do consciente. Os tumultos
primitivos já traduziam certo despertar da consciência: os
operários, perdiam sua crença costumeira na perenidade do regime que
os oprimia; começavam... não direi a compreender, mas a sentir a
necessidade de uma resistência coletiva, e rompiam deliberadamente
com a submissão servil às autoridades. Era, portanto. mais uma
manifestação de desespero e de vingança que de luta. As greves após
1890 mostram-nos melhor os lampejos de consciência: formulam-se
reivindicações precisas, procura-se prever o momento favorável,
discutem-se certos casos e exemplos de outras localidades etc. Se os
tumultos constituíam simplesmente a revolta dos oprimidos, as greves
sistemáticas já eram o embrião mas, nada além do embrião - da luta
de classe. Tomadas em si mesmas, essas greves constituíam uma luta
sindical, mas não ainda social-democrata; marcavam o despertar do
antagonismo entre operários e patrões; porém, os operários não
tinham, e não podiam ter, consciência da oposição irredutível e de
seus interesses com toda a ordem política e social existente, isto
é, a consciência social-democrata. Nesse sentido, as greves após
1890, apesar do imenso progresso que representaram em relação aos
"tumultos”, continuavam a ser um movimento essencialmente
espontâneo.
Os
operários, já dissemos, não podiam ter ainda a consciência
social-democrata. Esta só podia chegar até eles a partir de fora. A
história de todos os países atesta que, pela próprias forças, a
classe operária não pode chegar senão à consciência sindical, isto
é, à convicção de que é preciso unir-se em sindicatos, conduzir a
luta contra os patrões, exigir do governo essas ou aquelas leis
necessárias aos operários etc.*2 Quanto à doutrina socialista,
nasceu das teorias filosóficas, históricas, econômicas elaboradas
pelos representantes instruídos das classes proprietárias, pelos
intelectuais. Os fundadores do socialismo científico contemporâneo,
Marx e Engels, pertenciam eles próprios, pela sua situação social,
aos intelectuais burgueses. Da mesma forma, na Rússia, a doutrina
teórica da social-democracia surgiu de maneira completamente
independente do crescimento espontâneo do movimento operário; foi o
resultado natural, inevitável do desenvolvimento do pensamento entre
os intelectuais revolucionários socialistas. A época de que falamos,
isto é, por volta de 1895, essa doutrina constituía não apenas o
programa perfeitamente estabelecido do grupo “Liberação do
Trabalho”, mas também conquistara para si a maioria da juventude
revolucionária da Rússia.
Assim,
pois, houve ao mesmo tempo um despertar espontâneo das massas
operárias, despertar para a vida consciente e para a luta
consciente, e uma juventude revolucionária que, armada da teoria
social-democrata, buscava aproximar-se dos operários. Quanto a isso,
é particularmente importante estabelecer este fato esquecido com
freqüência (e relativamente pouco conhecido), de que os primeiros
sociais-democratas desse período, que se dedicavam com ardor à
agitação econômica (contando, para isso, com as indicações
verdadeiramente úteis do folheto Sobre a Agitação, à época ainda
manuscrito) longe de considerar essa agitação como sua tarefa única,
atribuíam desde o começo à social-democracia russa as grandes
tarefas históricas, em geral, e a tarefa da derrubada da autocracia,
em particular. Assim, o grupo dos sociais-democratas de Petersburgo,
que fundou a “União de Luta para Liberação de Classe Operária
“redigiu, já em fins de 1895, o primeiro número de um jornal
intitulado Rabótcheie Dielo. Pronto para ser impresso, esse número
foi apreendido pelos policiais numa busca efetuada na noite de 8
para 9 de dezembro de 1895, em casa de um dos membros, do grupo,
Anat. Alex. Vaneiev,*3 de forma que o Rabótcheie Dielo do
primeiro período não pôde ver a luz do dia. O editorial desse jornal
(que, talvez, em trinta anos uma revista como a Russkaia Starina
exumará dos arquivos do departamento de polícia) expunha as tarefas
históricas da classe operária na Rússia, entre as quais colocava-se
em primeiro plano a conquista da liberdade política. Seguiam-se um
artigo, “Em que Pensam Nossos Ministros?" sobre o saque dos Comitês
de instrução elementar pela polícia, bem como uma série de artigos
de correspondentes, não só de Petersburgo, como de outras
localidades da Rússia (por exemplo, sobre um massacre de operários
na província de Iaroslavl. Assim, se não me engano, esse "primeiro
ensaio" dos sociais-democratas russos de 1890-1900 não era um jornal
estritamente local, e ainda menos de caráter “econômico”, visava a
unir a luta grevista ao movimento revolucionário dirigido contra a
autocracia e levar todos os oprimidos, vítimas da política do
obscurantismo reacionário, a apoiar a social-democracia. E para quem
quer que conheça um pouco o estado do movimento nessa época, está
fora de dúvida que um jornal como esse encontrou toda a simpatia dos
operários da capital e dos intelectuais revolucionários, e teve a
maior difusão. O fracasso do empreendimento provou simplesmente que
os sociais-democratas de então eram incapazes de corresponder às
exigências do momento, por falta de experiência revolucionária e de
preparação prática. O mesmo se deve dizer do Rabótchaia Listok de
São Petersburgo, e sobretudo da Rabótchaia Gazeta e do Manifesto do
Partido Operário Social-Democrata da Rússia, fundado na primavera de
1898. Subentenda-se que não nos passa pela cabeça a idéia de
censurar os militantes da época pela sua falta de preparação. Mas,
para aproveitar a experiência do movimento e daí extrair lições
práticas, é preciso considerar extensivamente as causas e a
importância desse ou daquele defeito. Por isso, é extremamente
importante estabelecer que uma parte (talvez mesmo a maioria) dos
sociais-democratas militantes de 1895-1898 considerava com justa
razão possível, aquela época, no começo mesmo do movimento
“espontâneo”, preconizar um programa e uma tática de combate mais
extensos.*4 Ora, a falta de preparação entre a maior parte dos
revolucionários, sendo um fenômeno perfeitamente natural, não podia
dar lugar a qualquer apreensão particular. A partir do momento em
que as tarefas eram bem definidas; a partir do momento em que se
possuía bastante energia para tentar de novo realizá-las, os
fracassos momentâneos constituíam apenas meio mal. A experiência
revolucionária e a habilidade de organização são coisas que se
adquirem. É preciso apenas desenvolver em nós mesmos as qualidades
necessárias! É preciso que tenhamos consciência de nossos defeitos,
o que, no trabalho revolucionário, já é mais de meio caminho para os
corrigir.
Mas, o que
era meio mal tornou-se um mal verdadeiro, quando esta consciência
começou a se obscurecer (porém, ela era bastante viva entre os
militantes dos. grupos acima mencionados), quando surgiram pessoas -
e mesmo órgãos sociais-democratas - prontas a erigir os defeitos em
virtudes, e tentando mesmo justificar teoricamente sua idolatria,
seu culto do espontâneo. É tempo de fazer o balanço dessa tendência,
caracterizada de maneira muito inexata pelo termo “economismo”,
demasiado estreito para exprimir o conteúdo.
_____________
*1
Rabótcheie Dielo n.º. 10, setembro de 1901, p, 17 e 18.
*2 O
sindicalismo não exclui absolutamente toda “política”, como por
vezes se pensa. Os sindicatos sempre conduziram certo tipo de
propaganda e certas lutas políticas (porém, não sociais-democratas).
No capítulo seguinte, exporemos a diferença entre a política
sindical e a política social-democrata.
*3
A. Vaneiev morreu em 1899, na Sibéria Oriental, de tuberculose
contraída durante sua prisão preventiva. Por isso, julgamos possível
publicar as informações no texto: respondemos por sua autenticidade,
pois provêm de pessoas que conheceram pessoal e intimamente A.
Vaneiev.
*4
“Criticando a atividade dos sociais-democratas dos últimos anos de
século XIX, o Iskra não leva em conta a ausência, à essa época, de
condições para um trabalho, que não a luta em favor de pequenas
reivindicações." Assim falam os “economistas” em sua Carta aos
Órgãos Sociais-Democratas Russos (Iskra, n.º. 12). Os fatos citados
no texto provam que essa afirmação sobre a “ausência de condições” é
diametralmente oposta à verdade. Não apenas por volta de 1900, mas
também em 1895, todas as condições foram reunidas para permitir
outro trabalho além da luta por pequenas reivindicações, salvo uma
preparação suficiente dos dirigentes. E eis que em lugar de
reconhecer abertamente esta falta de preparação entre nós,
ideólogos, dirigentes, os "economistas” querem rejeitar toda a culpa
quanto à “ausência de condições”, à influência do meio material
determinando o caminho, do qual nenhum ideólogo conseguirá desviar o
movimento. O que é isto senão submissão servil ao espontâneo, a
admiração dos “ideólogos” pelos seus próprios defeitos?
B) O CULTO DO ESPONTÃNEO. A
RABÓTCHAIA MYSL
Antes de
passar às manifestações literárias desse culto, assinalaremos o
seguinte fato característico (cuja fonte foi acima mencionada), que
lança certa luz sobre o nascimento e o crescimento entre os
camaradas militantes de Petersburgo, de um desacordo entre as duas
futuras tendências da social-democracia russa. No início de 1897, A.
Vaneiev e alguns de seus camaradas tiveram ocasião de participar,
antes de sua partida para o exílio, de uma reunião privada, onde se
encontraram os "velhos” e os "jovens “ membros da "União de Luta
para a Liberação da Classe Operária”. A conversa girou
principalmente sobre a organização e, em particular, sobre os
"estatutos das caixas operárias", publicados sob sua forma
definitiva no número 9-10 do Listok "Rabótnika" (p. 46). Entre os
"velhos” (os "dezembristas", como eram chamados em tom de gracejo
pelos sociais-democratas de Petersburgo) e alguns dos “jovens” (que
mais tarde colaboraram ativamente na Rabótchaia Mys1) manifestou-se
logo uma divergência muito nítida, e se estabeleceu ardente
polêmica. Os "jovens” defendiam os princípios essenciais dos
estatutos, tais como tinham sido publicados. Os "velhos” diziam que
não era isto o que se colocava em primeiro lugar; que era preciso,
inicialmente, consolidar a “União de Luta” para dela fazer uma
organização de revolucionários, à qual estariam subordinadas as
diversas caixas operárias, os círculos de propaganda entre a
juventude das escolas etc. Bem entendido, as duas partes estavam
longe de ver nessa divergência o germe de um desacordo; ao
contrário, consideravam-na isolada e acidental. Esse fato, porém,
mostra que o nascimento e a difusão do "economismo” na Rússia não se
fizeram igualmente sem luta contra os "velhos” sociais-democratas (o
que os “economistas” de hoje freqüentemente esquecem). E se essa
luta não deixou, na maior parte dos casos, traços "documentais”, é
unicamente porque a composição dos círculos em atividade mudava com
incrível rapidez, porque não se estabelecera qualquer tradição e
porque, em conseqüência, as divergências de pontos de vista não
foram registradas em qualquer documento.
O
aparecimento da Rabótchaia Mysl trouxe o "economismo" para a luz do
dia, porém tal não se deu imediatamente. É preciso ter, uma idéia
concreta das condições de trabalho e da breve existência de
numerosos círculos russos (ora, só quem passou por isso, pode ter
idéia exata das coisas), para compreender quanto teve de fortuito o
sucesso ou o fracasso da nova tendência nas diferentes cidades, e a
impossibilidade, a impossibilidade absoluta em que durante muito
tempo se encontraram os partidários e os adversários dessa "nova"
tendência, de determinar se era ela realmente uma tendência distinta
ou simplesmente a expressão da falta de preparação de alguns. Assim,
os primeiros números policopiados da Rabótchaia Mysl permaneceram
completamente desconhecidos da imensa maioria dos
sociais-democratas, e se agora temos a possibilidade de nos referir
ao editorial de seu primeiro número, é unicamente porque tal
editorial foi reproduzido no artigo de V.I. (Listok “Rabétnika”,
n.º. 9-10, p. 47 e seg.), que evidentemente não deixou de louvar com
empenho - com empenho inconsiderado - esse novo jornal tão
nitidamente diferente dos jornais e projetos de jornais acima
citados*1. Ora, esse editorial exprime com tanto relevo lodo o
espírito da Rabótchaia Mysl e do “economismo” em geral, que vale a
pena aí nos determos.
Após ter
indicado que o braço fardado de azul não deteria jamais o progresso
do movimento operário, o editorial prossegue: " ... 0 movimento
operário deve sua vitalidade ao fato de o próprio operário enfim se
encarregar de sua sorte, arrancando-a das mãos de seus dirigentes."
Esta tese fundamental é, em seguida, desenvolvida em seus detalhes.
Na realidade, os dirigentes (isto é, os sociais-democratas
organizadores da "União de Luta") foram arrancados pela policia, por
assim dizer, das mãos dos operários*2, e querem nos fazer acreditar
que os operários conduziam a luta contra os dirigentes e se
libertavam de seu jugo! Em lugar de estimular a marcha para a
frente, de consolidar a organização revolucionária e de ampliar a
atividade política, incitou-se a volta para trás, em direção à luta
exclusivamente sindical. Proclamou-se que “a base econômica do
movimento está obscurecida pela tendência a jamais esquecer o ideal
político”, que o lema do movimento operário é a 1uta pela situação
econômica" (!) ou, melhor ainda, "os operários pelos operários";
declarou-se que as caixas de greve "valem mais para o movimento do
que uma centena de outras organizações” (que se compare esta
afirmação, feita em outubro de 1897, com a disputa dos
“dezembristas” com os jovens, no inicio de 1897) etc. Frases como: é
preciso colocar em primeiro plano, não a “nata" dos operários, mas o
operário “médio”, o operário das fileiras; ou como: "O político
segue sempre docilmente o econômico*3" etc. etc., entraram na moda e
exerceram influência sobre a massa dos jovens seduzidos pelo
movimento e que, na maioria, não conheciam senão fragmentos do
marxismo, tal como era exposto legalmente.
Isto
constituiu o completo aniquilamento da consciência pela
espontaneidade - pela espontaneidade dos “sociais-democratas" que
repetiam as “idéias" do Senhor V.V., a espontaneidade dos operários
seduzidos pelo argumento de que mesmo um aumento de um copeque por
rublo valia mais que todo socialismo e toda política, de que deviam
“lutar sabendo que o faziam não por remotas gerações futuras mas por
eles próprios e por seus filhos" (editorial do n.º. 1 da Rabótchaia
Mysl). As frases desse gênero foram sempre a arma preferida dos
burgueses do Ocidente que, odiando o socialismo, trabalhavam (como
Hirsch, o “social-político” alemão) para transplantar para seus
países o sindicalismo inglês, e diziam aos operários que a luta
exclusivamente sindical*4 é uma luta por eles próprios e por
seus filhos, e não por remotas gerações futuras com vistas a um
incerto socialismo futuro. E agora os "V.V. da social-democracia
russa" se põem a repetir essas frases burguesas. Aqui, é importante
assinalar três pontos que nos serão de grande utilidade para a
continuação de nossa análise sobre as divergências atuais*5.
Em
primeiro lugar, o aniquilamento da consciência pela espontaneidade,
de que falamos, também se deu de maneira espontânea. Isto parece um
jogo de palavras, mas infelizmente é uma verdade amarga. O que
provocou esse aniquilamento não foi uma luta declarada entre duas
concepções absolutamente opostas, nem a vitória de uma sobre a
outra, mas o desaparecimento de um número cada vez maior de "velhos"
revolucionários “colhidos" pelos policiais, e a entrada em cena,
cada vez mais freqüente, dos "jovens" "V.V. da social-democracia
russa”. Quem quer que tenha, não direi participado do movimento
russo contemporâneo, mas simplesmente respirado o seu ar, sabe
perfeitamente que esta é precisamente a situação. E se, apesar
disso, insistimos particularmente para que o leitor considere com
cuidado esse fato conhecido de todos, se para maior evidência
referimo-nos, de algum modo, aos dados sobre o Rabótcheie Dielo do
primeiro período, e sobre a discussão entre "jovens" e "velhos" no
início de 1897, é porque as pessoas que se gabam de espírito
democrático” especulam sobre a ignorância desse fato pelo grande
público (ou entre os adolescentes). Mais adiante, ainda voltaremos a
esse ponto.
Em segundo
lugar, desde a primeira manifestação literária do “economismo”
podemos observar um fenômeno eminentemente original e extremamente
característico para a compreensão de todas as divergências en |